sábado, 19 de novembro de 2016

Utopia

Thus have I described to you, as particularly as I could, the constitution of that commonwealth, which I do not only think the beat in the world, but indeed the only commonwealth that truly deserves that name. In all other places it is visible, that while people talk of a commonwealth every man seeks his own wealth; but there, where no man has any property, all men zealously pursue the good of the public; and, indeed, it is no wonder to see men act so differently; for in other commonwealths every man knows that unless he provides for himself, how flourishing soever the commonwealth may be, he must die of hunger; so that he sees the necessity of preferring his own concerns to the public; but in Utopia, where every man has a right to everything, they all know that if care is taken to keep the public stores full, no private man can want anything; for among them there is no unequal distribution, so that no man is poor, none in necessity, and though no man has anything, yet they are all rich; for what can make a man so rich as to lead a serene and cheerful life, free from anxieties; neither apprehending want himself, nor vexed with the endless complaints of his wife? He is not afraid of the misery of his children, nor is he contriving how to raise a portion for his daughters, but is secure in this, that both he and his wife, his children and grandchildren, to as many generations as he can fancy, will all live both plentifully and happily; since among them there is no less care taken of those who were once engaged in labour, but grow afterwards unable to follow it, than there is elsewhere of those that continue still employed. I would gladly hear any man compare the justice that is among them with that of all other nations; among whom, may I perish, if I see anything that looks either like justice or equity: for what justice is there in this, that a nobleman, a goldsmith, a banker, or any other man, that either does nothing at all, or at best is employed in things that are of no use to the public, should live in great luxury and splendour, upon what is so ill acquired; and a mean man, a Carter, a smith, or a ploughman, that works harder even than the beasts themselves, and is employed in labours so necessary, that no commonwealth could hold out a year without them, can only earn so poor a livelihood, and must lead so miserable a life, that the condition of the beasts is much better than theirs? For as the beasts do not work so constantly, so they feed almost as well, and with more pleasure; and have no anxiety about what is to come, whilst these men are depressed by a barren and fruitless employment, and tormented with the apprehensions of want in their old age; since that which they get by their daily labour does but maintain them at present, and is consumed as fast as it comes in, there is no overplus left to lay up for old age.

Thomas More

Utopia é uma obra seminal, única, genial e revolucionária, publicada há 500 anos. É o texto mais importante e controverso do estadista, diplomata e jurista inglês Thomas More (1478-1535). Escrita em Latim, esta obra fundamental foi publicada por Erasmo de Roterdão (1466-1536) há 500 anos em Lovaina. O livro só foi traduzido para o Inglês em 1551, 16 anos após a execução do seu autor por se ter recusado a jurar lealdade a Henrique XVII como chefe da igreja anglicana. 

O texto consiste de dois livros associados a duas discussões que supostamente tiveram lugar em Antuérpia em 1515 quando More foi enviado por Henrique VIII para Flandres para "negociar e compor certas questões" com o rei Carlos de Castilha. Nestas vívidas trocas de impressões, um culto viajante português, Rafael Hitlodeu (o nome alude ao redentor arcanjo Rafael, o apelido ao sentido da palavra grega disparate), discute com os seus ilustres interlocutores os problemas políticos e sociais de então, mas que, na verdade, até hoje nos afligem. Claramente, Rafael Hitlodeu é o alter-ego de More. No primeiro livro da Utopia, Rafael discorre sobre os males das sociedades europeias do seu tempo. No segundo livro, Rafael descreve um estado-ilha, material e espiritualmente muito mais desenvolvido, Utopia (do grego, em nenhuma parte), que teria conhecido em profundidade numa das suas viagens, e onde os problemas sociais mais persistentes da nossa sociedade haviam sido pacificamente resolvidos por meio de uma organização social justa e racional. 

Naturalmente, a ideia de More de criar uma sociedade imaginária tem origem numa tradição que remonta aos textos clássicos, “A República” de Platão (427-347 a.C), e a “Política” de Aristóteles (384-322 a.C). “Utopia” deu origem a um género literário e inúmeras obras de cariz semelhante que lhe seguiram os passos, tais como, "A Cidade do Sol", escrita em 1602 por Tommaso Campanella (1568-1639), a “Nova Atlântida” de Sir Francis Bacon (1561-1626), publicada em 1627, por muitas outras no século das luzes e na literatura revolucionária dos séculos XIX e XX (Pierre Proudhom (1809-1865), Charles Fourier (1772-1837), Robert Owen (1771-1858) e Saint-Simon (1760-1825), a quem Karl Marx (1818-1883) designou de "socialistas utópicos", em oposição, ao “socialismo científico" por ele criado e pretensamente implantado na Rússia por Valdimir Lênin (1870-1924)). Na verdade, a extraordinária lucidez de Rafael Hitlodeu ao sugerir que a ordem social do seu tempo era simplesmente absurda, é fortemente inspirada no não menos importante livro de Erasmo de Roterdão, “Elogio da Loucura”, onde o sábio renascentista argumentava que ao constatar os males, dogmas e concepções irracionais do seu tempo, só a loucura tinha o bom senso e a imaginação que eram necessárias para melhorar o mundo. As obras de More e Erasmo são possivelmente os mais representativos exemplos do humanismo renascentista.   

Para exemplificar o sentido absolutamente visionário da obra de More, basta referir que na Utopia nos é apresentado um conjunto de ideias espantosas pela sua modernidade e justeza: há uma vigorosa defesa da ideia de que a propriedade privada como um fim em si é uma fonte desarmonia social;  da ideia de que todos os cidadãos têm o direito a condições dignas de trabalho e sobrevivência; de que os cidadãos irreversivelmente doentes devem ter o direito de dispor de suas vidas e decidir quando desejam morrer; de que a liberdade de culto é um direito; e de  que todos os cidadãos devem ter o direito a decidir sobre o seu futuro e destino. Liberdades que, decorridos 500 anos, muitos estados, instituições, governantes e indivíduos julgam ter o direito de usurpar dos seus concidadãos. 

Conta-nos ainda Rafael Hitlodeu que em Utopia e nos estados vizinhos (Tallstoria, Nolandia e Aircastle) não há advogados dada a simplicidade e a naturalidade das suas leis e por serem os seus cidadãos estimulados a comportarem-se de forma socialmente adequada. A propriedade é predominantemente comunitária e o trabalho é baseado na necessidade e na rotatividade e não se estende por mais que seis horas diárias. Na ilha descrita por More nada é de ninguém e tudo é de todos, o bem comum está acima do bem individual, o ouro e os metais preciosos são destituídos de valor, a guerra é considerada uma abominação e a caça uma brutalidade.  Claramente, More acreditava que a propriedade individual e o dinheiro eram incompatíveis com a felicidade. 

Contrariamente a Platão, More não acreditava que os filósofos devessem se envolver na governação, pois acreditava que a realidade política criaria inevitáveis conflitos com as suas convicções. More acreditava no reconhecimento da necessidade de uma ordem social justa e na disciplina e bom senso na sua manutenção, rejeitando assim e ideia de uma liberdade absoluta e irrestrita.  More preconizava a tolerância religiosa e defendia uma pacífica coexistência ecuménica. A sua ardente defesa da paz e o seu veemente discurso anti-belicista são de uma actualidade arrepiante. 

A assombrosa amplitude, abertura e visão de Thomas More e o seu papel ímpar na cultura europeia e universal fazem-me crer que a leitura da sua Utopia deveria ser obrigatória em todas as escolas.  O autor dessas linhas também acredita na necessidade absoluta de se alterar a triste ordem social vigente na maior parte do mundo contemporâneo e adequa-la à extraordinária visão de Thomas More e, num outro texto, designou a força criativa decorrente da oposição entre a realidade política vigente e os ideais igualitários de tensão utópica.  
      
Orfeu B.