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domingo, 10 de julho de 2016

VAMOS COMPRAR UM POETA



Uma pequena delícia. Uma brincadeira muito séria.

Retrato de uma sociedade reduzida aos números e aos processos mentais de um economia incapaz de integrar o valor do sonho, da metáfora, da poesia.

Uma família compra um poeta como quem compra um cão e põe-no a viver debaixo da escada.

Este texto pertence à família de outros como , por exemplo, “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, ou, de certa forma, “As aventuras de João sem medo” de José Gomes Ferreira.

São textos que se constroem contra ditaduras políticas ou económicas, que excluem a cultura do seu dia a dia e que, resolvendo aparentemente todos os problemas dos homens, se tornam secas e poucas e, por isso mesmo, incapazes de estrangular o que há de profundamente humano dentro de nós e que, mais tarde ou mais cedo, acaba por vir à tona na literatura, na arte, na poesia, coisas “inúteis” que resistem e se tornam em atitudes que o(s) poder(es) consideram perigosamente subversivas.

A literatura em Afonso Cruz é uma festa. E, sendo capaz de tratar assuntos de grande espessura e profundidade, fá-lo sempre de forma clara, instilando no leitor capacidade desconstruir as certezas manhosas do mundo em que vivemos, mas fazendo disso uma promessa de felicidade.

Este “Vamos comprar um poeta” torna a leitura num divertimento muito muito sério. Devia ser texto obrigatório no ensino.

domingo, 29 de julho de 2012

A TERRA, O CORPO, A FORÇA DA EMOÇÃO, A FELICIDADE DA ERUDIÇÃO, O PRAZER DE CONTAR UMA HISTÓRIA


Não é frequente os escritores serem tão generosos como valter hugo mãe nas palavras reproduzidas na cinta que envolve este último livro de Afonso Cruz:
 
“Não vou descansar até que todos os leitores descubram o Afonso Cruz. Já prometi usar de violência física para obrigar um a um a ler a maravilha que ele escreve, e não estou a brincar.
Faz-me a alma luxuosa. Passo a ter joias na imaginação.

Estou absolutamente de acordo com o valter. A escrita de Afonso Cruz é como um grande ovo a transbordar de literatura, ou melhor, a transbordar de vida.

Afonso Cruz atinge neste romance um ponto muito alto do seu processo de trabalho. Um sentido duro e trágico da terra e do corpo;  uma erudição partilhada de forma divertida e, por vezes, delirante; uma maneira caleidoscópica de entrelaçar muitas formas de escrita e de referência a outras escritas.

Ao arrepio de uma linha que tende a identificar qualidade literária com geometrismo racionalista, com negritude traçada a regra e esquadro, com uma relação porventura perversa entre leitura e sofrimento, Afonso Cruz faz do processo de criação literária um rio onde desaguam as suas várias formas de se apropriar da respiração da vida e fá-lo de forma em que tragédia e comédia se dão o braço, mas em que, acima de tudo, ressalta o prazer. O prazer de escrever, o prazer de contar, o prazer de pensar, o prazer de inventar, o prazer de viver mesmo nas margens mais ásperas da vida.

Há um jogo fantástico em que o Afonso envolve a sua escrita desde o primeiro livro. Trata-se de um jogo de brincar à erudição, baralhando e voltando a dar, misturando, provocando, divertindo.

Mas neste romance, o Afonso cria um tempo alentejano, uma respiração pesada, uma linha narrativa de Terra, prima dos melhores contos de Manuel da Fonseca. E em redor desse tem entretece e a sua magnífica capacidade de tergiversar, misturar ideias, citações, reflexões avulsas mas subterraneamente interligadas numa trama densa com que nos arranca um sorriso ou uma gargalhada, para logo a seguir nos dar um pontapé no estômago que nos faz perceber que este jogo é muito mais sério do que possa parecer.
 
E é bom sublinhar que a ideia de Jesus Cristo a beber cerveja não é uma graça rasteira mas advém de uma reflexão muito séria do professor Borja, personagem notável, que descobre o fogo do sexo aos 77 anos e que acha que aquilo que cria vida é a morte e que sendo a cerveja resultado do apodrecimento do cereal, é a verdadeira fonte da vida.

No seu jogo de citações, desta vez, o Afonso vai ainda mais longe Inventa um romanceco de cow-boys (que vem em anexo ao livro principal) que é lido por Rosa, a personagem principal, que vai repetir o destino do cow-boy, herói improvável com o nome ainda mais improvável de Harold Estefânia, matador romântico. E desse livrinho, em que o narrador é o próprio deserto, ou seja, talvez aquilo que há de mais próximo do próprio Deus se é que ele existe, saltam muitas citações que vão pontuar a narração central.

Enfim, já era um admirador da escrita do Afonso. Agora sou mais. E acho que este romance junto com “O teu rosto será o último” de João Ricardo Pedro, com o qual, aliás, tem vários pontos de contacto, são os dois romances portugueses que, talvez no último ano, mais me emocionaram.

Isto anda no bom caminho, parece-me. Ao contrário da desgovernação.

Está provado que os homens bons deste país andam muito mais pelas artes do que pela economia e pela política.


sábado, 1 de outubro de 2011

DO PRAZER DA ESCRITA AO PRAZER DA LEITURA



Devo confessar que sou, leitor atento e agradecido do Afonso Cruz.

Ilustrador, músico, agricultor e escritor, senhor de uma cultura sólida em vários domínios, da literatura e da filosofia a muitos outros domínios, o Afonso é daquelas pessoas para quem uma vida só é curta para o muito que tem para dizer e fazer.

Conhecemo-nos de raspão, cruzámo-nos 2 ou 3 vezes, temos um livro em comum. Não me canso de recomendar os seus livros aos meus amigos desde o primeiro que foi "Os livros que devoraram o meu +pai".

A primeira coisa que salta da leitura dos seus livros é o prazer de escrever em Afonso Cruz, aliado ao gosto de fintar o leitor, abrindo sucessivos alçapões em que mistura citações reais com outras inventadas, personagens da História com outros de ficção e ainda alguns retirados de ficções alheias como é o caso de Helen e Schwartz saídos de "Uma noite em Lisboa" de Erich Maria Remarque, que se cruzam com o pintor Joseph Sors, a personagem central desta novela que se inspira, por sua vez, numa personagem real de que o autor diz pouco saber e que terá sido um judeu refugiado em casa de seus avós durante a 2ª Guerra Mundial.

Sors é uma personagem sui generis, um pintor que pinta olhos. Olhos fechados e olhos abertos. E que reflecte sobre o desenho, a arte e a vida de forma muito particular como na altura em que fala de:

"... um plátano que se despia no Inverno como se o frio lhe fizesse calor."

A aparente "naifeté" desta escrita resulta de uma sólida cultura literária, filosófica e artística e de um raríssimo sentido de ironia como na voz de uma personagem que afirma que:

"... que a metafísica sem duas pessoas a gritar não passa de ciência exata como a matemática".

Do prazer da escrita ao prazer da leitura vai um passo. Digo eu. E se esta afirmação pode nem sempre ser verdade, neste caso é-o plenamente.