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segunda-feira, 17 de abril de 2017

O Bispo Alucinado



“ ... Convirá, no entanto, lembrar que este bispo foi uma das figuras mais controversas da Igreja Portuguesa, nos séculos XVIII e XIX. Para alguns, um santo (chegou a ser enviado a Roma um processo, visando a sua beatificação); para outros, um visionário, raiando a loucura e a depravação (veja-se o processo que o Santo Ofício lhe moveu).

Pelo elementos de que pude dispor e a opinião de historiadores e pessoas que conheceram bem os meios brigantinos da época, como é o caso do Abade de Baçal, não pude deixar de concluir pela perspectiva que lhe é a mais favorável -- a santidade. Se outras razões não houvesse, uma, pelo menos haverá: “in dúbio pro reo” …

Albano Estrela

Há textos que transbordam uma humanidade que transcende em muito as convicções que formamos das personagens que são retratadas. Muitas vezes sugerem uma taxonomia de caracteres que correspondem ao nosso imaginário e são, assim, algo previsíveis. Os textos de Albano Estrela, profícuo professor catedrático reformado, virtuoso das ciências da educação e, prolífico autor que eu tanto aprecio, não estão nessa categoria, pois acabam sempre por nos conduzir a caminhos  inesperados. A humanidade dos textos de Albano Estrela é encantadora, assim como o tom diáfano que ele utiliza para nos introduzir as suas personagens. Poder-se-á argumentar que os livros de Albano Estrela deveriam ser lidos na sua integridade, mas eu suponho que o meu querido amigo, por se rever, acima de tudo, como um contista, prefira que as sua estórias sejam lidas como se fossem ilhas que só o acaso temporal de sua concepção ligou ao arquipélago de um livro ou de uma colectânea. 

De facto, quando tenho a oportunidade de conversar com Albano Estrela, o que nos últimos tempos são momentos raros e, por isso, ainda mais preciosos, nunca me refiro a livros, pois prefiro focar-me nas suas estórias e, sobretudo, nas suas personagens. Na minha modestíssima opinião, as duas estórias de “O bispo alucinado” são exemplos disso mesmo, para além de serem características da habilidade descritiva e da imaginação de Albano Estrela. 

No primeiro conto, a vivida descrição vida cultural do Porto no anos 1950, as suas limitações, os seus locais, as suas “aves raras”  arrasta-nos para a análise cúmplice de um personagem singular que nos é apresentado com a riqueza e o realismo que só um mestre da escrita pode criar. Um personagem que se perde periodicamente na obsessão de leituras que ele julga serem redentoras e que nos parece ser, à primeira vista, apenas um caso da exacerbação de uma personalidade incompleta e imatura. Mas a descrição de Albano Estrela vai muito para além desta primeira impressão, pois há nela uma empatia natural para com as fraquezas de carácter, para com as ilusões, e para com o êxtase místico que arrasta a sua personagem para o abismo das suas obsessões e que o conduz à sua solidão final destituída de remissão. É esta capacidade extraordinária do autor Albano Estrela que tanto impressiona. Uma capacidade infinita de entender e admitir as alucinações, as dúvidas, as falhas e os desvios, como manifestações naturais e inerentes da própria humanidade.  

Na segunda estória, a que empresta o título ao livro, a agonia da última noite de um bispo que procura deixar sob a forma escrita o testemunho da virtuosidade do seu amor a deus, e assim “perder-se no amor divino, arder no seu fogo …”. Uma agonia que nos sugere ser a consequência lógica do turbilhão de emoções que engolfa o crente cioso de compreender o descaminho e as contradições de um deus tão pouco zeloso da sua obra. Mas a descrição de Albano Estrela é muito mais rica e sugere, como na vida real, que por trás de cada gesto ou acto, há um sem número de interpretações possíveis, cuja síntese nenhum leitor, ouvinte ou observador, pode defender sem trair a sua honestidade intelectual. E não é esta, segundo os crentes, a infinitude de caminhos do divino? Ou o equivalente agnóstico ou ateu, do princípio do benefício da dúvida que todos, sem exceção, devem merecer? Em suma, esta é a virtude maior da inteligência superior de Albano Estrela, a sua capacidade de exemplificar nas suas estórias os múltiplos caminhos da vida real, sem menosprezar qualquer das vias, ainda que esta não seja a que mais se aproxime da sua visão do mundo e das suas convicções. 

Assim, "O Bispo Alucinado" é mais uma surpreendente contribuição de Albano Estrela, um texto rico e humano que propicia uma prazeirosa leitura.     

Há uma nota final que este comentador, não pode deixar de escrever. Nomeadamente, que me é insuportável a ideia que este seja o último livro de Albano Estrela. É-me absolutamente impensável supor que Albano Estrela pense que nos pode privar da sua inteligência e da sua sensibilidade. Fica aqui o apelo: Albano Estrela, a sua obra está muito longe de estar concluída!


Orfeu B.


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O BISPO ALUCINADO




Albano Estrela fala do seu último livro (O bispo alucinado, Lisboa, edições Colibri, 2013) como sendo um livro «estranho». Mas reconhece-se imediatamente nele o seu estilo fluente, claro, escorreito e rápido, sem grandes pormenores, ou só os necessários para caracterizar personagens e situações, sem aparentes preocupações de estilo, enfim, com aquela maturidade de quem já não está para entrar na primeira (ou última) moda que lhe apareça nem muito preocupado com o que do livro possam dizer em termos de caracterização ou de catalogação literária.
A obra é constituída por duas novelas: “Um portuense em Paris entre a espiritualidade e a licenciosidade”, ou “A paixão segundo Santo Hirondino” (podemos escolher o que mais nos agradar) e uma segunda intitulada “ O bispo alucinado”, que dá título ao livro.
Da obra consta ainda uma Nota de apresentação, onde Albano Estrela explica a origem e a razão de ser das duas novelas, e um prefácio «Da paixão que nos ilumina na vida e na morte”, de Ana Viana, aliás excelente e que caracteriza, muito bem, toda a problemática das novelas em que se sente que o Autor está, sem estar; não se identificando com as personagens compreende-os e sente em si os problemas que os angustiam e a procura ansiosa a que votaram as suas vidas apaixonadas.
Pela apresentação que do livro faz o Autor ficamos a saber que a primeira novela é baseada numa personagem real da sua juventude portuense, e cujo itinerário foi acompanhando com alguma irregularidade pela vida fora, e a segunda foi-lhe sugerida por notícias, a princípio avulsas, e informações posteriores, umas com rigor histórico, outras mais ou menos lendárias, sobre D. António Luís Veiga Cabral e Câmara, bispo de Bragança e Miranda entre 1793 e 1819.
A primeira novela baseia-se pois em memórias pessoais do Autor e procura reconstituir o itinerário literário, cultural e espiritual de um amigo de juventude, com quem conviveu em algumas tertúlias portuenses, personalidade controversa e problemática, de invulgares capacidades intelectuais, que oscilando entre o erotismo mais desbragado e a espiritualidade mais exigente, não cessava de multiplicar interesses e acumular experiências que lhe haviam de permitir escrever, um dia, uma obra-prima que sintetizasse todas estas vivências. Passando por situações laterais e personagens curiosas, a viver dramas anódinos, que dir-se-ia diluídos no quotidiano prosaico da cidade, capazes todavia de situações extremas e de desenlaces fatais. Ou seja, são personagens perdidos no dia a dia, para o que parece concorrer a aparente simplicidade com que são relatados os factos e as situações, mas com a densidade dramática que só os desenlaces finais tiram da invisibilidade e as tornam muito mais complexas do que se pensaria.
E é aqui que radica grande parte do dramático que, na aparente ausência de dramatismo, a prosa de Albano Estrela consegue. O que parece contraditório, mas não é. Face a uma literatura que tem tendência para usar demasiadas palavras para produzir o drama, diluindo-o, é necessário reduzir o drama ao mínimo de palavras para este voltar a sê-lo, ou a poder ser. E isso consegue Albano estrela com uma prosa clara e elegante, e com uma grande capacidade de empatia pelas personagens e de entrada nos ambientes em que estas se movem.
Isto é particularmente notório na segunda novela, “O bispo alucinado”, em que, em poucas páginas, se reconstitui, com aparente facilidade, o quarto de moribundo de um bispo que sente, nos últimos dias de vida, necessidade de relatar as suas experiências espirituais porque ouviu vozes do alto que lhe ordenam que o faça. Toda a tensão psico-afetiva e toda a espiritualidade já meio demencial e alucinada perpassam, com suavidade, por aquele quarto, onde sentimos a morte pairando negra e, ao mesmo tempo, a força da espiritualidade mais violenta e ardente. Dai Ana Viana dizer, no prefácio, que se trata de duas novelas «magistralmente escritas».
Por outro lado, há, na primeira novela, o velho problema das vivências necessárias à criação. Ou inibidoras? Ou desnecessárias?
É, como se sabe, um problema eterno e sem solução fácil. Passa pelos autores que, em fichas, cadernos de apontamentos, blocos de notas, “moleskines” de vários tamanhos e categorias de elástico, gravadores, registos vários, acumulam ideias, esquemas, esboços, resumos, expressões idiomáticas, regionalismos, neologismos, etc., procurando guardar experiências e mais experiências que lhes permitam plasmar, um dia, em obra, todas essas diversas vivências e informações.
E ao lado os autores que, pelo menos aparentemente, não ligam nada a isso. E se metem num quarto, se sentam à mesa, de preferência voltados contra a parede, como Dulce Maria Cardoso, ou forrando janelas e paredes com pesados e duplos cortinados, como Marcel Prust, e sem terem vivido grande coisa, pelo menos na aparência («Navegar é preciso; viver não é preciso») como disse Pessoa retomando a fala de «marinheiros antigos e a turma toda dos seus heterónimos, ou de Kafka, começam a tirar da cabeça, a puxar, na solidão silenciosa, os fios das mais variadas e inesperadas experiência imaginadas ou rememoradas ou fantasiadas, criando obra. E às vezes que obra! Que, se calhar, nem tinham pensado escrever, nem para a qual se tinham andado a preparar, desleixando experiências, esquecendo, deixando pelo caminho muita coisas.
É um dos grandes dramas por que passam todos os escritores e que Albano Estela retrata muito bem, em relativamente poucas páginas, seguindo, quase sempre de longe, e com grandes prazos de intervalo, o itinerários do seu antigo amigo “Hirondino”, personagem rica, complexa, contraditória, sempre carente, à procura de experiências novas que lhe permitissem também a compreensão da natureza humana, além da obra perfeita, a síntese salvadora que uma vida intensa, múltipla e rica merecia. Mas que se confronta com a morte e com o falhanço (a inutilidade?) das suas experiências, todavia vividas e ricas e maravilhosas, mas que se multiplicaram sem, pelo menos na aparência, uma ”solução” salvadora. O que nos leva a perguntar, com a simplicidade e o drama que a pergunta contém: o que salva uma vida? O que a redime? E o que há na nossa vida de irrepetível ou de cíclico? E de passageiro ou de eterno? A última frase da novela é, sobre isto, ambígua e esclarecedora: «Não sei se me reconheceu, mas estou em crer que sim, pois, quando me despedi, abriu os olhos e o seu olhar foi atravessado por aquele lampejo que iluminava as nossas noites na cave do Café Rialto, sessenta anos atrás».

João Boavida

quinta-feira, 8 de março de 2012

UMA PEÇA EM MUITOS ATOS



A reforma, ou aposentação é, como se sabe, uma situação particular, embora cada vez mais geral, que acarreta consigo inúmeras situações, umas dramáticas outras caricatas, umas hilariantes, outras comoventes. Outras, muitas, dir-se-ia que inexistentes, porque muito do que a caracteriza e em muitas das situações mais correntes o significativo delas é o simples passar do tempo, o estar ou ir estando, o deixar correr, porque outra coisa não se pode fazer. A princípio ainda queremos, (os que querem), depois já não podemos, mesmo querendo, (e mesmo que ainda podendo), depois já nem queremos nem podemos. Ou seja, o melhor dela, ou quase tudo dela, em muitos casos, é o ir indo, porque outra coisa não se pode fazer, ou não se quer fazer, ou não se sabe como que fazer. E isto tem muitos sentidos, não só o de que o tempo passa e não se pode parar, mas também o de que, com ele, apesar de se estar esgotando, se caminha para uma síntese, um cúmulo de situações e de experiências que só o tempo dá, à medida que tira, como se o próprio tempo se retirasse em cada um de nós. E isto é dramático, porque há uma situação de limite que se acrescenta e se esvai, que se torna mais densa e ao mesmo tempo se dilui, e que, por isso, é triste, mas também pode ser reconfortante e, em muitos casos, transfiguradora e até catártica. O que, felizmente, já muitos reformados perceberam, mas o número dos que ainda não o compreenderam, ou não têm condições de o compreender, é demasiado. Infelizmente.
Desejada por muitos, temida por muitos outros, invejada por quase todos os que ainda lá não estão, e que talvez já não a queiram quando chegar a sua vez, a aposentação multiplica situações, casos, histórias, perspectivas, vivências, sabedorias, manias, demências, injustiças, frustrações, azedumes, solidões e recompensas, que a literatura não tem explorado tanto quanto o potencial dela podia levar a efeito. Talvez porque os produtivos ainda lá não estão, e os que lá estão já não são produtivos, ou assim o entendem os outros, ou até, muitas vezes, eles próprios. Situação e estado da mais profunda contradição: temos mais tempo quando já não temos muito tempo, temos mais sabedoria quando já ninguém nos ouve, podemos ser mais úteis quando passa subliminarmente, em todos os discursos, a inutilidade, ou quase, dos que nela estão.
Um livro recente de Albano Estrela (Histórias de reformados com solidão à vista. Lisboa, Indícios de oiro, 2011) parte da perspectiva do reformado que se observa e que observa os outros reformados, que pensa a sua situação e a projeta e recupera, nos outros. Mas fá-lo de uma maneira não erudita, nem pesada, mas através de histórias e casos que de algum modo traduzem as inúmeras situações que a reforma produz. A reforma é aquilo que cada reformado for capaz de ser, ou de fazer com ela, ou de viver e ser a partir dela e através dela. A reforma ganha assim o estatuto de ambiguidade e multiplicidade que a linguagem e a mentalidade geral ainda não percebeu bem. Todos falam hoje do envelhecimento ativo, muitos são os que precisam cada vez mais dos pais e dos avós (ou seja dos reformados) por razões económicas, logísticas, educativas, e muitas outras. Mas isso não significa que percebem, ou sejam capazes de compreender tudo o que a situação de reformado implica, em termos psico-afetivos, e sociais, tudo o que possibilita, ou devia possibilitar, tudo o que contém ou devia conter.
Estas Histórias de reformados com solidão à vista fazem literatura sem o querer fazer, ou dando a ideia de que o não querem fazer, o que, como se sabe, é às vezes a melhor maneira de fazer boa literatura. Numa linguagem simples, fluente, elegante, histórias curtas, situações umas vezes aparentemente banais, outras inéditas, quase sempre inesperadas, vão produzindo um quadro complexo, multifacetado, rico, de uma situação e de um estado social e afetivo que pode ser tudo menos linear ou simples, muito menos, fácil. A complexidade está lá, mas subentendida, escondida por debaixo do correr dos dias, das atitudes e dos casos. Livro “leve” que nos deixa a pensar, livro revelador de um universo que passa por nós, que anda à nossa volta e que muitos casos ultimamente ocorridos nos demonstram poder ser muito mais dramático do que habitualmente se pensa.

João Boavida

(Leitor convidado - Professor Catedrático da Universidade de Coimbra)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

LEITURA - A "ESTRELA"




Ter um livro para ler e não o fazer, é uma obra de Albano Estrela, constituído por uma série de textos escritos para o blog “7 leitores” e foi há algum tempo publicado pela “Indícios de Oiro” (Lisboa, 2010).
O título é, como sabem, tirado duns versos de Fernando Pessoa e é, em si mesmo, uma ironia e uma provocação. Porque se há livro que nos abra à leitura e ao seu valor inestimável, que nos estimule à leitura, é este. Portanto, «ter um livro para ler e não o fazer» só pode ser interpretado como uma forma de valorização daquilo que se nega, explicitamente, para implicitamente o afirmar, valorizando. É pois, (deve ser) um estratagema para prolongar o prazer que se vai ter, em suma, um método irónico de valorização das leituras. Assim como quem passa o dia a sonhar com o prazer de, à noite, mergulhar no romance maravilhoso que anda a ler, mas, temendo terminá-lo já hoje, guarda o resto para amanhã. Hoje não, mas amanhã sim, e com ânsia redobrada. É pois uma forma de falar, uma brincadeira à Albano Estrela que nos quer dizer justamente o contrário daquilo que nos parece querer dizer. Enfim, uma forma de retardar e reforçar o prazer.
Porque Albano Estrela revela-se (o que aliás já sabíamos) ser um leitor insaciável e de grande qualidade. Ou seja, passou a vida a ler livros e foi acumulando disso uma capital e uma qualificação que o transformam num crítico informado, vivo, actual e frequentemente inesperado; embora não seja crítico literário, como diz. Mas o que é facto é que apanha os textos não só pelo lado em que a maior parte das pessoas o faz mas ainda por outros pontos de vista, abrindo perspectivas inesperadas, interpretações que não estariam na ordem do dia mas que ele introduz fazendo pontos de ordem à mesa e obrigando-nos ao debate, isto é, ao pensamento. E pelo meio, de passagem, dando informações, fazendo críticas, fornecendo dados culturais, falando de vivências, memórias, sempre com a ironia à espreita, e numa prosa leve, corrida, coloquial, elegante e cheia de humanidade e de compreensão para os autores.
O livro tem uma apresentação do próprio Albano Estrela e um prefácio de José Fanha, um dos responsáveis do referido blog “7 Leitores”, de que Albano Estrela é dos colaboradores mais assíduos. São pequenos textos, como disse, sobre «leitura e leitores», «escrita e escritores», «contos e contistas», «minificções e pequenas histórias», «romances e romancistas», «memórias e memorialismo», «entrevistas e entrevistadores», «ensaios e ensaístas», «poesia e poetas», «crítica e críticos literários», «traduções e tradutores», «edição e editores», «livreiros e livrarias» «literaturas paralelas» «fotografia, cinema». Ou seja, pequenas crónicas sobre todo o mundo da cultura, a partir dos livros, lidos e relidos, e com a riqueza, uma já longa experiência de leitor e um gosto fino e de grande qualidade que tornam o livro, de facto, uma preciosidade. Já não há muitos leitores assim, e gente disposta a falar, sem presunção mas com inteligência, sensibilidade e gosto do que vai lendo, ainda há menos.
E a propósito, não podemos deixar de considerar o que de muito bom os blogs têm trazido à cultura, como aliás os leitores do De Rerum Natura sabem. Se não fosse o blog “7 Leitores” provavelmente nunca Albano Estrela escreveria todos estes textos. É, pois, de algum modo, uma homenagem aos blogs e aos que neles trabalham com inteligência, cultura e civismo.


João Boavida

Licenciado em Filosofia, doutorado em Ciências da Educação, professor catedrático da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação de Coimbra, aposentado há dois anos.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

ALBANO ESTRELA - 7LEITORES EM LIVRO



O blog 7leitores dá mais um passo. Ou melhor, dá o seu primeiro livro. É do Albano Estrela que foi o primeiro companheiro deste blog e talvez o mais entusiasta. Reuniu parte dos seus comentários aqui publicados e juntou-os num livro onde encontramos com mais facilidade a linha que os une e que é a do olhar sábio de um professor com que todos temos muito a aprender.

Pediu-me (por gentileza mais do que por mérito que eu possa ter) para lhe fazer o Prefácio. Aqui está ele:


"A ARTE DE SER LEITOR

Na elaboração dos seus direitos do leitor, Daniel Pennac incluiu o direito de não falar do que se leu. Esses direitos, que tanto sucesso conheceram, constituirão sobretudo uma crítica à forma conservadora e instrumentalizante de abordar a leitura em âmbito escolar.
Em última instância, creio que o pensamento de Pennac insere-se na corrente dos que entendem que colocar a tónica na interpretação pode matar o prazer da leitura entre os jovens.
Quem gosta de ler constrói a sua própria oficina de interpretação. Pelo contrário, são muitos os casos em que a promoção da leitura vira as costas ao afectivo e ao lúdico e reduz-se a um exercício quase abstracto de interpretação. Esse excesso e esse carácter abstracto da interpretação coloca-nos no compartimento da mais estreita mecânica escolar e pode conduzir à ausência de prazer na leitura.
Voltemos, assim , a Pennac que nos “concedeu” o direito a não falar do que lemos. Temos esse direito, sabemos que o temos e, no entanto, os verdadeiros leitores, os leitores obsessivos, gostam de falar dos livros que acabaram de ler. Mais do que isso: precisam de contaminar as pessoas à sua volta com o vírus dessa paixão feita vício que é a leitura.
Confesso que sou um desses viciados. Preciso de falar dos livros que leio durante a leitura, depois da leitura e, por vezes, muito depois dela.
Conheço outros assim. Amigas e amigos com quem a conversa, quando nos cruzamos, começa invariavelmente por: O que é que andas a ler? Já leste este ou aquele autor? E aquela personagem, não é fantástica? E aquela descrição de uma cidade? E aquela viagem? E, e, e…
O primeiro de todos é o meu muito querido amigo e mestre Albano Estrela. Um dia desafiei-o a ele e a outros para fazermos um blog que veio a intitular-se 7leitores. Trata-se de um espaço onde damos conta dos livros que lemos e partilhamos reflexões, ideias, apontamentos que nos foram acontecendo ao logo da respectiva leitura.
O blog já leva quase 2 anos e os 7 leitores já são mais. Gostava de encontrar uma designação que nos coubesse bem. Estamos longe de ser grandes leitores como Alberto Manguel, Georges Steiner, Umberto Ecco ou Jean-Claude Carriére.
Seremos talvez uns pequeninos grandes leitores. Isto é, pessoas que fazem da leitura uma actividade fundamental do seu quotidiano e da construção da sua sempre imperfeita humanidade.
O leitor que somos não é um crítico, nem um catalogador, nem um patologista clínico da leitura. Não tem contas a ajustar com os autores. Não pertence ao negócio mais ou menos bilioso da construção e destruição de prestígios literários.
Regra geral, o leitor que somos não tem tempo para falar dos livros que lhe desagradam. Está demasiado absorvido por aqueles outros que lhe abrem caminhos, que o fazem voar, que lhes mostram novas formas de olhar o mundo por fora e por dentro de si, que lhe acendem uma luz no coração.
Um leitor precisa sempre de quem o leve pela mão. Já leste o David Toscana? E o Bartleby de
Melville? É preciso revisitar o Chesterton. Vale a pena dar uma vista de olhos pelos policiais
suecos? E a última tradução do Tolstoi! E os portugueses, tantos, do Eça ao Raul Brandão, do
Saramago ao Miguel Real, da efervescência do Lobo Antunes à prosa fantástica do Mário de
Carvalho!
Este levar pela mão é sempre mútuo e resulta de um processo em que as referências se atropelam quase ofegantemente e saltam umas por cima das outras porque vício é vício e nem o dobro dos anos de vida nos permitiria ler tudo o que já acumulámos nas prateleiras abarrotadas das leituras urgentes.
Ao longo dos anos que dura a amizade que lhe agradeço, Albano Estrela tem-me levado pela mão nos caminhos da leitura e dos livros. Fez-me ter atenção a Buzatti e a Papini, à micro-literatura ibérico-americana, os contos de John Cheever e a tantos outros autores e livros. Agradeço-lhe do fundo do coração.
Acima de tudo há que dizer que Albano Estrela é um mestre na ARTE DE SER LEITOR que, como todos os verdadeiros mestres, nunca se põe em bicos de pés. Exerce a sua mestria com uma generosidade e uma discrição invulgares.
Neste livro, Albano Estrela reúne e partilha as suas reflexões de leitor, por vezes inesperadas, sempre sagazes, luminosas e apaixonadas.
Quanto a nós, os que temos a sorte de conviver e aprender o Albano Estrela temos de lhe agradecer comovidamente estes textos e, já agora, de perguntar-lhe: Ó Albano, o que é que está a ler agora?”


sexta-feira, 19 de setembro de 2008

AS LIÇÕES DOS MESTRES



Comecei a ler e logo fiquei apaixonado. Primeiro pelo delicioso prefácio do José Gomes Ferreira. Depois, pela viagem pelos primeiros anos do século na volta da monarquia para a república, com maçons, republicanos, carbonários, polícias e padres, prisões e fugas. Um fartote. Finalmente, pelo prazer da prosa adornada, excessiva, colorida mas extraordinariamente saborosa de mestre Aquilino. Prosa de mastigar lentamente como o vinho forte. Prosa para leituras de outro tempo, um tempo em que alguns tinham tempo para ler.

Quando entrei para Belas-Artes nos finais dos anos 60, aprendi que havia os professores e havia os mestres. Os mestres eram homem de letras ou artes reconhecidos pela substância do seu ofício e pela dimensão ética e humana da sua figura.

Mestre Aquilino, mestre Almada Negreiros, mestre Abel Manta, mestre Sá Nogueira, mestre Lagoa Henriques, mestre Frederico George… Conheci pessoalmente ou fui aluno de alguns. Outros via-os passar e seguia-lhes os passos com o respeito e admiração.

Eram mestres. E essa ideia de mestria no oficio conferia-lhes uma condição excepcional no acto do ensino, fazendo com que também como professores fossem considerados mestres, homens que sabiam fazer, que conheciam por dentro as traves com que se cosia a arquitectura da sabedoria e que faziam convergir a sabedoria do fazer e a do reflectir sobre esse fazer.

Esta ideia de mestre estava intimamente ligada à ideia de inquietação, de dúvida e questionação permanentes, de excelência, conceito tão contrário ao de banalização dos saberes de pacotilha que reina no nosso ensino com as devidas e honrosas excepções.

A ideia de mestria implicava também uma ideia de hierarquia natural que não precisava de avaliações toscas e mal cozinhadas para, naturalmente, se impor.

O último mestre que conheci foi o nosso querido companheiro de blog Albano Estrela. Ouvi-lo, privar com ele ou lê-lo é um privilégio e uma lição. Como Coimbra, ou ainda melhor… Por isso, ao navegar deliciado na prosa de mestre Aquilino, vou lembrando a ironia, a ternura, capacidade de reflexão e de inquietação, a arte de Mestre Albano Estrela.

E falta ainda falar da obra como contista do Albano que tem momentos absolutamente deliciosos.

A quem não conhece aconselho o primeiro que li dele e que tem um dos mais notáveis contos que li em Português. O livro chama-se “Crónicas de um portuense arrependido” e o conto, “Por três vezes perdi a minha mãe, á terceira foi de vez”.


quarta-feira, 10 de setembro de 2008

O Enterro do Conde de Orgaz - Sete histórias em desassossego

Estes pequenos e misteriosos contos de Albano Estrela, que encontrei na biblioteca de Aveiro, muito me divertiram, inquietaram (como era intenção do autor) e surpreenderam. De todas estas histórias que tanto gostei, a "D. Álvaro" foi a que mais me encantou pela ternura das personagens, pela a narrativa e tragédia deste casal (D. Álvaro e Lili) e pela situação e espaço envolvente. O autor conta a história de D. Álvaro e sua amante Lili fadista de uma tasca do Bairro Alto. D. Álvaro foi um abastado fidalgo com terras no Minho e com um palacete em Lisboa e que depois da morte da mulher apaixona-se pela criada de 16 anos - a Lili. Uma fortuna que se perde nas mãos de duas filhas oportunistas. E um amor consumado entre fados, ciúmes e desassossegos na tasca, onde por vezes D. Álvaro defende a sua dama com pistola ao punho. A velhice com as suas doenças e o ciúme leva D. Álvaro quase à loucura e a uma separação imposta à sua dama. Albano Estrela é um excelente contador de histórias, como demonstra nestes seus contos. Por mim vou continuar à procura de outros livros raros deste autor pois parece que não são fáceis de encontrar.