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quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Um Diário de Leituras


Acabei de ler um livro do autor que dá o mote a esta nossa aventura, Alberto Manguel. O livro chama-se Um Diário de Leituras e vem classificado como sendo um ensaio, tendo recebido aliás o Prémio Grinzane Cavour (Itália) na categoria de ensaio. Ao deparar-me com este rótulo preparei-me mentalmente para o modo “estudo” de leitura, munido de uma imaginária caneta de tinta fluorescente. Quem parta para esta obra com esse quadro mental vai ficar bem surpreendido e pela positiva. O livro é uma verdadeira lufada de ar fresco. E o título faz jus ao que se passa no interior do livro: é mesmo o diário de um leitor. Alberto Manguel resolveu, no espaço de um ano, reler um livro por mês de entre os seus livros preferidos. Estes livros são muito diversificados indo desde O Signo dos Quatro de Arthur Conan Doyle, às Afinidades Electivas de Goethe, passando, por exemplo, pela Invenção de Morel de Adolfo Bioy Casares. O autor vai relatando-nos as suas impressões à medida que vai relendo cada livro, faz citações de partes que acha mais significativas ou interessantes. Este exercício estimula a memória e vêm à baila outros autores, com pensamentos, citações, ou até simplesmente a descrição do conteúdo da secretária de um escritor. Facto assaz curioso, estas releituras permitem ao autor um olhar sobre a actualidade. Por exemplo, a Invenção de Morel serve de mote à interpretação da crise económica que aqui há uns anos assolou a Argentina. A propósito do Livro de Cabeceira de Sei Shonagon (dama de companhia de uma imperatriz do Japão), reflecte sobre a iminente invasão do Iraque. E sugere mesmo que se faça um livro de cabeceira para os dirigentes mundiais onde deve constar do Canto IV d’Os Lusíadas: “Ó glória de mandar! Ó vã cobiça!....”.
E trata-se de facto de um diário que acompanha o dia-a-dia do autor ao longo destes meses. A sua viagem a Buenos Aires, as suas viagens ao Canadá (onde residiu), mas sobretudo o seu porto de abrigo: um casa que imagino magnífica numa pacata aldeia francesa. Casa essa com jardim e pomar. Assistimos às peripécias de uma aldeia: é ilustrativo o episódio em torno da decisão sobre a partir de que hora deve o sino começar a tocar. Para os que moram mais longe, a hora preferida é as seis; para os que moram mais próximo o madrugar tão cedo é quase um crime. E assistimos com prazer à instalação da biblioteca do autor num celeiro reconstruído e sentimos com ele a fruição de desempacotar os caixotes de livros. Manguel chega a dormir a na biblioteca para se apoderar do lugar.
Em suma, um livro excelente.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

O leitor de Alberto Manguel


Transcrevo aqui a noção de leitor perante a escrita do Alberto Manguel no livro “Um diário de leituras” que ando a ler com muito prazer: “O leitor contradiz o método do escritor qualquer que ele seja. Enquanto leitor, eu sigo sem grandes cuidados um enredo cuidadosamente pensado, permitindo-me ser distraído por pormenores e por pensamentos aleatórios; por outro lado, leio uma obra fragmentária como se estivesse a ligar os pontos, em busca da ordem. Em ambos os casos, porém, ando à procura de (ou imagino) uma ligação entre o princípio e o fim, como se todas as leituras fossem, pela sua própria natureza, circulares”.

sábado, 2 de agosto de 2008

LEITURA E LITERATURA


Amélie Nothomb

ALBERTO MANGUEL NA ENCRUZILHADA DA LEITURA COM A LITERATURA


Alberto Manguel, o autor de "Uma História da Leitura", obra premiada em França, em 1998, deu uma entrevista ao "Figaro Litéraire", na qual fala da sua paixão, da sua obsessão pela leitura. Começa por dizer que não pode impedir-se de ler, pois é algo mais forte do que ele. E, em abono do bem fundado dessa obsessão, cita Cervantes, que, no primeiro capítulo de D. Quixote, fala da sua compulsão pela leitura, que o leva a ler os bocadinhos de papel que encontra na rua.À pergunta do entrevistador sobre os seus gostos literários, diz que tanto pode encontrar prazer num conto policial como numa obra de filosofia. Acrescenta, ainda, que não consegue estabelecer qualquer distinção entre leitura e literatura. Para ele, tudo o que lhe dá prazer ler é... literatura! E o que lhe dá mais prazer é uma boa história, uma história cujo enredo seja susceptível de despertar o seu interesse. Por isso, verbera os autores do "nouveau roman", que privilegiam a desmontagem do texto em detrimento da própria história. Ou, como ele diz, valorizam a "ferramenta" do romance e não o romance. Considera, no entanto, que esse período chegou ao seu termo, pois autores recentes (refere-se ao universo da literatura francesa) vêm-se centrando na escritura de textos que valorizam, de cada vez mais, as estruturas romanescas. E, entre eles, aponta e valoriza Amélie Nothomb.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

ALBERTO MANGUEL

Obras editadas em Portugal

1998 - Uma História da Leitura (Editorial Presença)

2003 - Stevenson sob as Palmeiras (Asa)

2006 - Com Borges (Âmbar)

2008 - Diário de um leitor (?) creio que saiu há muito pouco tempo

O LEITOR AUTOR

Leio sempre com interesse os artigos, as entrevistas de Alberto Manguel. Ora, foi o que fiz, aqui há uns tempos: Manguel publicou na "Babélia", o suplemento literário de "El País", um texto muito curioso que intitulou "Los herederos de Pierre Menard."[i] Menard, um autor inventado por Jorge Luis Borges, teria escrito um D. Quixote ainda mais cervantino do que o de Cervantes. A tese do conto (novela?) de Borges é simples: ninguém pode conhecer um texto original, pois, o que lemos é sempre uma "tradução", uma reinterpretação filtrada pela nossa "própria experiência, pela nossa voz, pelo nosso momento histórico, pelo nosso lugar no mundo". Daí decorre uma conclusão: o D. Quixote de Miguel Cervantes não existe. Se alguma vez existiu, desapareceu com o desaparecimento do "leitor" Cervantes. O D. Quixote que tem existência real é o dos milhões e milhões dos seus leitores, ao longo dos tempos. Cada leitor é um autor, que cria (e, por vezes, recria, em segunda, terceira leitura) a obra que leu. E, de facto, assim tem sido com todos os autores: o que têm a ver "Os Lusíadas" do século XVII com os do século XIX ou os dos nossos dias? E onde pára o Fernando Pessoa dos anos cinquenta, sessenta? Ninguém sabe do seu paradeiro, nem nós próprios, que tanta emoção experimentámos ao lê-lo, pela primeira vez, nessa época...
E Manguel termina o seu artigo, escrevendo: "A partir de Pierre Menard, ninguém pode voltar a ler um livro, qualquer livro, da mesma maneira que pensavam ler os nossos antepassados. Menard transformou-nos em criadores ou, melhor ainda, obrigou-nos a ser conscientes, como leitores, da nossa responsabilidade criadora."
A morte do autor? De certo modo, sim. Mas, sem o autor "original" como poderiam existir os autores "eventuais"? Enfim, que viva a autoria: a primeira, a segunda, todas as autorias possíveis e imaginárias!

[i] Crónica de 6/11/2004 que está disponível on-line em: http://www.elpais.com/articulo/semana/herederos/Pierre/Menard/elpepuculbab/20041106elpbabese_3/Tes/