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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013
ALEXANDRA LUCAS COELHO OU O JORNALISMO COMO GRANDE ESCOLA LITERÁRIA
Sim, o jornalismo pode ser uma das grandes escolas literárias, nomeadamente quando assume a forma de crónica. Ora, é exactamente sob esta forma que a jornalista Alexandra Lucas Coelho apresenta o seu livro “Vai Brasil”, publicado pela editora Tinta da China. O que não é inédito na autora, pois, em 2010, havia publicado, pela mesma editora, uma obra intitulada “Viva México” (que me fez lembrar o filme inacabado do grande cineasta russo Eisenstein “Que viva México!”).
Mas voltemos ao “Vai Brasil”, um conjunto de crónicas que a autora foi publicando, o que, em linguagem literária, corresponde a um conjunto de flashes sobre um Brasil multiforme e multicolor, um país que inventa e reinventa uma língua – o português – tornando-a sempre diferente, mas nunca deixando de ser a língua portuguesa.
“Vai Brasil” é, pois, um conjunto de fragmentos que se completam ou se entrelaçam, permitindo que o texto adquira uma notável unidade estilística e conceptual. Alexandra Lucas Coelho é uma mulher inteligente, sensível, culta, com um grande poder de observação e um apurado sentido crítico, o que leva um escritor, Miguel Esteves Cardoso, a dizer, no jornal “Público”:
A Alexandra apanha o Brasil como nunca li um português apanhar. Consegue apaixonar-se pelo Brasil e amá-lo ao mesmo tempo, conhecendo tanto as magias como os podres. Escreve numa língua que namora as muitas maneiras de falar e de escrever dos brasileiros.
Permito-me, ainda, realçar a sua capacidade de impregnação da cultura de um país ou de uma região desse país, sem abdicar do seu espírito crítico, o que, aliás, é extremamente visível neste seu “Vai Brasil”. Embora assumindo a centralidade do Rio de Janeiro, onde vive, não abdica de “mergulhar” em São Paulo, em Curitiba, entre outras cidades e regiões, com um relevo muito especial para a Amazónia, a “nossa” Amazónia e de “A Selva” do nosso Ferreira de Castro, que ela cita por mais do que uma vez. A Amazónia de hoje, a situação do índio e o seu papel na actual discussão sobre a identidade do homem brasileiro.
De realçar, também, o entrelaçamento do presente com o passado, o legado de Portugal, em múltiplos aspectos, de que a arquitectura é um dos mais visíveis. Mas sem esquecer o que opõe os dois países, nomeadamente a alegria de viver do brasileiro e o nosso pessimismo ancestral. O que me fez lembrar um pequeno filme, realizado há anos, aquando, creio, das comemorações do achamento do Brasil pela esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral. O filme tinha por tema Belmonte, terra do nascimento de Álvares Cabral, e pretendia comparar o viver no Belmonte português com o da cidade brasileira do mesmo nome. Entrevistadas duas senhoras de alguma idade, viventes no nosso Belmonte, elas queixaram-se amargamente das agruras da vida. Feitas as mesmas perguntas a um cidadão brasileiro da cidade homónima, ele, homem de certa idade, vestindo pobremente, fala da beleza da vida, da felicidade em estar vivo.
E, mesmo para terminar, não posso deixar de realçar a beleza poética da frase, a linguagem encantada e encantatória da escrita da Alexandra Lucas Coelho, que faz dela um dos melhores escritores portugueses da actualidade.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
VIVA MÉXICO

Alexandra Lucas Coelho tem-se vindo a mostrar uma repórter notável. As suas reportagens sobre o Afeganistão e depois sobre o México são do melhor que o nosso jornalismo nos tem dado.
Li ocasionalmente algumas dessas reportagens quando publicadas no Público. Agora que estão publicadas em livro pude lê-las todas e ter delas uma visão de conjunto. E deliciei-me, emocionei-me, fiquei ansioso por conhecer este país fabuloso.
A autora leva-nos pela mão através da desmesura mexicana,das suas gentes, dos seus dramas e das suas paixões, da sua história trágica, convulsa, feroz, intensa. Aborda os mitos que são Frida Khalo e Diego Rivera, visita as suas casas, toca nos vestidos de Frida, observa as fotografias. Tudo caldeado pela recordação aqui e ali do que sobre o México e os seu mitos escreveram Octávio Paz, Le Clézio, Carlos Fuentes e vários outros.
Alexandra Lucas Coelho vai aos museus, às escavações arqueológicas, mete-se por becos, entra em livrarias, fala com um historiador ou com um velho sapateiro zapatista, com um editor, um padre, uma freira, e mais e mais.
Viaja de camioneta, de avião,de taxi e de metro, regista as grandes e as pequenas coisas, anota isto e aquilo à medida do seu deambular, usa as palavras como uma máquina fotográfica que apanha museus, escavações arqueológicas, paisagens, a dimensão delirante da Universidade da Cidade do México, as grandes praças e monumentos com as suas igrejas e vendedores e polícias, e tudo sem maneirismos para turista ver.
E apanha ainda o pequeno momento fugaz das personagens que estão a assistir a um jogo de futebol, as baratas que estão no lavatório do hotel, as mulheres que acabam de fazer a maquilhagem na viagem de metro, a ementa do restaurante, o domingo de fé e loucura na adoração à Virgem de Guadalupe, a tragédia do narcotráfico em Juarez
Esta escrita não julga, não moraliza, procura apenas desvendar, mostrar numa espécie de visão caleidoscópica onde as imagens, as reflexões, as notas se entrecruzam e nos fazem sentir a respiração desmedida e por vezes trágica deste país único.
A autora procura deixar de fora a sua emoção que aparece não pela sua mas pela acumulação de pontos de vista por vezes inesperados, por vezes violentamente contraditórios.
Sabemos que a forma de mostrar ou de não mostrar é sempre uma escolha. Essa escolha é a da pessoa que escreve. E a escolha de Alexandra é tornar a reportagem numa prima da ficção, isto é, faz da realidade uma espécie de romance que torna a leitura num prazer raro.
Resumindo e concluindo: quero ir ao México depressa, e ler e ouvir e beber o México, e a culpa é da Alexandra Lucas Coelho.
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