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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A PERSONAGEM E O ACTOR


Depois de há poucos meses me ter estreado na leitura de Ana Teresa Pereira com o notável romance "O Lago", tenho para mim a saborosa obrigação de entrar mais e mais na sua excelente escrita.

"As longas noites de chuva em Nova Orleões", tem óbvia relação com "O Lago". O mesmo ambiente, Londres, chuva, nevoeiro, os seus teatros, os actores, os pequenos almoços, os pubs, os perfumes, as flores, um universo de subtilezas distantes da evidência solar do Sul.

A acrescentar, a permanente referência à literatura, ao cinema e aos actores de filmes, todos anglo-saxónicos (quase todos do tempo do preto e branco e não por acaso, certamente), criando um permanente diálogo entre ficções e tempos, uma forma de ampliar a narrativa através de uma teia de referências a palavras, textos e rostos que, se por um lado, iluminam e explicam, por outro, estabelecem redes de ambiguidade e, por vezes, muito inquietantes identificações.

Se depois de ler estes dois livros, não soubesse quem era a autora, pensaria tratar-se de uma escritora inglesa, de tal maneira a paisagem, a cultura, a respiração inglesa impregnam a escrita de Ana Teresa Pereira.

A personagem central, Kate, é uma actriz que se vai dissolvendo na personagem que se prepara para levar à cena. E que se vai apaixonando ou deixando apaixonar pelo seu autor e actor, também. Mas é também, talvez, o retrato de cada um de nós à procura, desmunidamente, da nossa própria personagem na vida, do nosso perfume, da nossa roupa, da nossa assinatura, em busca de saber quem somos, e levados a viver perdidamente entre o real e a ficção, entre o natural e o cultural, entre o amor e a ideia de amor.

"O importante é amar alguma coisa e a partir daí pode-se começar de novo, começar de novo uma e outra vez."

A acompanhar esta novela, temos 3 contos de perfil próximo do gótico Ainda mais ingleses que a própria novela, se possível. Ou melhor, devedores de estratégias narrativas negras, ambíguas e fascinantes de autores como Ana Teresa Pereira que domina o mecanismo da estranheza e do arrepio.

Um dos contos fica para mim como dos melhores contos que já li, "A Sombra"

No final, saído desta notável literatura carregada de chuva, nevoeiro, e da extraordinária ambiguidade da negritude semi-gótica, corri em busca de um escritor mediterranico, alguém do lado da luz, da transparência, da fraternidade. Talvez Erri de Luca, Panos Karnesis ou Ignácio Martinez de Pisón... Talvez...

sábado, 12 de outubro de 2013

UM BRILHANTE JOGO DE ESPELHOS


Malgré moi nunca tinha lido Ana Teresa Pereira, apesar da sua já longa obra. Penalizar-me-ei sempre na minha vida pelos autores e romances que nunca chegarei a ler. Felizmente conheci agora a escrita desta notável autora. E vou depressa ler mais livros dela.

"O Lago" recebeu o prémio de romance da Associação Portuguesa de Escritores.

A sua escrita é sem sobressaltos, lisa e sem adjectivos como um copo de água. Ana Teresa Pereira tece uma teia que nos envolve tranquilamente, conta uma história aparentemente serena. Não a sublinha. O fundamental passa-se quase no não dito e a autora deixa que seja o leitor a perceber que debaixo da superfície aparentemente calma existem tensões que crescem, preocupações que parecem prestes a rebentar, silêncios prenhos, coisas suspeitadas, adivinhadas.

Tudo ronda em torno da identidade e das suas alterações em torno de um texto teatral e de uma actriz que, conduzida pelo encenador e autor, busca entrar na pele da personagem através de um complexo jogo de espelhos. A actriz entrega-se à direcção e ao amor dele sem saber se ele a ama a ela ou à personagem em que quer transformá-la para poder amá-la verdadeiramente.

"Durante anos pensei que representar, representar a sério, era transformar-me noutra pessoa. (...) Mas quando estou a representar sou eu mesmo.", diz o encenador.

Como muitos criadores o encenador é um devorador que usa os outros e os deita fora quando aquele caminho está cumprido.

Tema comum a muitas obras terríveis. Lembro-me do "Baal" de Bertolt Brecht representado magnificamente no teatro da Trindade pelo Mário Viegas. Ana Teresa Pereira trata este tema de uma forma súbtil, silenciosa, nebulosamente britânica. E fá-lo de forma a envolver-nos, a inquietar-nos como uma aranha doce que apanha os seus leitores com delicadíssima artesania