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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A CRISE NA LITERATURA ou A LITERATURA DA CRISE



Camilleri foi autor de guiões para televisão e de uma série de romances de cariz policial que tem como personagem principal o inspetor Mantalbano (cujo nome é óbvia homenagem ao escritor catalão Manuel Vasquez Montálban, por sua vez autor das aventuras do detetive particular Pepe Carvalho).

A escrita de Camilleri é ligeira, rápida , recebendo obviamente a influência da escrita para televisão e cinema. Uma ou duas pinceladas breves dão-nos a personagem. Não se perde na volta da palavra. Investe na situação, Avança na narrativa. Não dá muito descanso a quem lê.

Este romance é muito apropriado a estes tempos de crise. Passa-se em Itália, entre gestores, directores e administradores de um grande grupo económico.

Estas personagens vivem mergulhadas numa girândola de golpes e contra-golpes, corrupção, mentiras, ausência absoluta de valores éticos, jogo de influências, violência, traições, baixa política, promiscuidade a todos os níveis, sexo obsessivo.,

Explicado com clareza temos aqui um retrato cru e frenético do neo-liberalismo (especificamente do italiano no caso) e do desastre a que tem conduzido as economias ocidentais.

Por aqui se movem as personagens belas e elegantes mas grotescas e repelentes que conduzem a acção e onde até, por vezes, se tornam em vítimas das suas próprias maquinações.

Camilleri leva-nos rápida e facilmente nas asas da sua escrita e nós agradecemos a boleia.

terça-feira, 14 de julho de 2009

O fato cinzento



Há livros que nos acompanham muito para além da sua leitura. Ambientes que nos revisitam, personagens que revivem, frases que se reescrevem. Um livro que me tem visitado é "O fato cinzento" de Andrea Camilleri. E é o fantasma do personagem principal que me visita. Ele é um alto funcionário da banca que conhecemos no primeiro dia da sua reforma. É casado com Adele, muito mais jovem e muito bela. Acompanhamos um percurso de traição anunciada que é acompanhado por mudanças físicas no apartamento conjugal, com as aparências mantidas intactas. Envolve-nos uma intensa solidão, um vazio muito grande que se acentua com a reforma. Essa solidão é acompanhada de um grande cansaço físico que se vem a revelar fruto de uma doença incurável. Assistimos ao lento arrastar para a morte.
Muito mais tonalidades passam pelo livro. Por exemplo, o jogo de Adele com uma renovada aproximação física e respectivas mudanças no apartamento, mantendo talvez só as aparências (pelo menos para ela própria), o simbolismo do casto fato cinzento que só é usado em ocasiões de morte, etc, etc. Na capa do livro vem um excerto do Corriere della Sera: "Camilleri segue o batimento da alma feminina como ninguém". Mas é a alma vazia do marido preenchida pelo pouco que Adele lhe reserva que me revisita.