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domingo, 10 de março de 2013

ESTA ESCRITA É UM BELO LUGAR PARA MORAR





Erri de Luca e os seus belíssimos romances são uma descoberta feliz dos meus últimos anos de leitor.

A sua escrita é asseada e simples mas profunda, limpa mesmo quando fala das coisas sujas da vida, luminosa mesmo quando fala do lado mais negro da vida. Pelas suas palavras passam uma profunda dignidade e respeito pelo melhor do ser humano.

"Montedidio" é a história de rapazinho napolitano contada pelo próprio. Fala-nos do seu trabalho como aprendiz de marceneiro, da sua amizade pelo sapateiro judeu Raffaniello, corcunda que tem na cabeça uma bússula de cegonha e umas asas dentro da corcunda que um dia hão de abrir e levá-lo pelos ares até Jerusalém; e fala do seu primeiro amor e das primeiras experiências sexuais com Maria que não quer seirvir de moeda de troca ao senhorio a quem a mãe deve várias rendas de casa, do pai, estivador e do mar cujo cheiro traz preso ao casaco, da mãe que morre, da língua napolitana e da necessidade de aprender italiano para estudar,ter emprego, papeis legais.

Tudo isto nos é dado através de pequeninos capítulos como se de um diário fossem e de uma escrita delicadíssima e profundamente poética.

Montedidio fala de um tempo de pobreza, anos 50, na ressaca da II Guerra, de um tempo de gente que trabalha com as mãos e que faz do seu ofício uma verdade que vai até ao osso.

Aqui, "Todas as manhãs são uma ressurreição." e "É o sol dos meses frios que põe um cobertor sbre quem não tem um."

Aqui fala-se do sapateiro Rafaniello que "Canta para arejar os pensamentos, caso contrário, fechados na boca ganham bolor."

Aqui, nesta escrita é um lugar bom para morar e descansar sabendo que há uma esperança de luz para a nossa tão precária condição.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O SENTIDO DO MUNDO



"Uma das maiores satisfações da minha vida não me foi dada pelos livros que escrevi mas pelos livros que editei"

Isto afirmava Ricardo Menéndez Salmón, escritor e editor, num artigo publicado pela Babélia há cerca de um ano.

Dizia Borges que precisava de duas vidas: uma para ler e outra para escrever. E Menéndez acrescenta um terceiro caminho, o da edição, "...que integra o melhor de ambos os mundos e ensina, como uma imperecível lição de humildade, que bela, necessária e nobre continua a ser esta velha arte de dotar o mundo de sentido através da palavra."

Vem isto a propósito do meu amigo João Rodrigues, editor da Sextante. Ele edita livros de que gosta e fala deles com um entusiasmo que nos obriga a ir lê-los depressa.

Falei-lhe do escritor italiano Erri de Luca e do encanto que tive a ler "O peso da borboleta" de que já aqui falei. O João disse-me que o mais impressionante livro de de Luca era "Três cavalos" e tinha-o ele editado na Biblioteca Âmbar de Bolso de que foi editor e onde publicou alguns notáveis autores.

A colecção acabou. Os seus livrinhos encontram-se por vezes nalgumas feiras do livro a preço de saldo ou mais baixo ainda.

Preparei-me para me fazer ao caminho em busca de "Os três cavalos" quando, inesperadamente, o encontrei no fundo de uma das pilhas dos livros que tenho para ler nos próximos meses, ou anos, ou...

Atirei-me a ele. E foi emocionante. De Luca é um escritor raro. Um poeta. Porque o seu trabalho não é apenas contar uma história. O seu trabalho é reinventar o mundo, encontrar novos caminhos para o entender, para o nomear através do ofício das palavras.

A história é a de um ex-militante político que, por amor a uma mulher depois assassinada, torna-se combatente contra a ditadura dos generais na Argentina.

Depois de uma longa fuga de anos, regressa ao sul de Itália onde se torna jardineiro.

Tem em Salim, emigrante africano, um amigo sólido, um homem como ele, um irmão como se verá no final. Muito entre eles passa pelo não dito ou, melhor, pelas metáforas secas e duras. E tudo também assim: acção e linguagem agarradas ao chão, à busca de um outro sentido para o mundo.

O tempo narrativo é sempre o presente, mesmo o que já aconteceu há 20 anos. se passa à volta das árvores, das ervas, da terra, das azeitonas, do café, do vinho.

O narrador reencontra o amor numa prostituta. Um amor também contido, feito de toques, de cheiros, de geometrias cuidadosas. E messe amor se cruza a sua história de combatente. E tudo regressa ao presente ou talvez nunca daí tenha saído.




quinta-feira, 23 de junho de 2011

O PESO DA ESCRITA




"Os cascos do gamo são os quatro dedos do violinista. Avançam às cegas e não falham um milímetro. Saltam precipícios, malabaristas em subida, acrobatas em descida, são artistas circenses para a plateia das montanhas. Os cascos do gamo agarram-se ao ar. O calo almofadado serve de silenciador quando quer, caso contrário, a unha partida ao meio é castalholas de flamenco. Os cascos do gamo são quatro ases no bolso de um batoteiro. Para eles, a gravidade é uma variação sobre o tema, não uma lei."

Um grande livro é feito disto: linguagem, beleza, escrita levada ao patamar da arte.

Uma história feita de quase nada. O velho gamo, chefe da manada, adivinha a chegada do seu último Inverno. O velho caçador furtivo sobe à montanha para a sua última caçada. E há uma borboleta que pousa aqui e ali e cujo peso faz toda a diferença.

A história é curta. O resto é quase um poema, a arte da escrita que nos leva através dos penhascos da montanha, pela grandeza dos animais, pela arte difícil de ser homem e aprender o terrível momento da aproximação da morte. Quase um poema.

Erri de Luca, militante da esquerda jovem dos anos 60 e 70, homem que atravessou o mundo em mil ofícios, jornalista, poeta que aprendeu hebraico e traduz textos bíblicos.

Ao virar da página deixa-nos ainda uma pequena refdlexão ou testemunho de um tempo que não abandona a pele de quem o viveu.

"Durante algum tempo do século passadoa juventude adoptou uma lei diferente da estabelecida. Deixou de aprender dos adultos, aboliu a paciência. Queria ser o prelúdio de tempos opostos, declarava que todas as moedas eram falsas. Nunca mais se viu numa juventude tanta teimosia em virar o prato."