Mostrar mensagens com a etiqueta Filomena Marona Beja. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Filomena Marona Beja. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 21 de julho de 2011

UM CONTRATO DE LEITURA


Cada escritor estabelece virtualmente um contrato de leitura com cada leitor. Esse contrato contempla a forma como o leitor tem de se relacionar com o texto.

Há textos que não exigem muito. Basta seguir em frente com ligeireza para chegar ao fim e saber como é que a história acaba. Neste tipo de narrativa grande parte da escrita serve apenas, de alguma forma, para passar tempo.

Para a minha amiga Filomena toda a escrita é importante porque toda ela, cada parágrafo, cada frase nos desafia e nos faz caminhar frequentemente em vários sentidos diferentes. É importante lê-la toda e com toda a atenção porque além de saber como é que a história acaba, é ainda determinante conhecer cada pormenor, cada gesto das personagens, cada cheiro, cada frase e cada viravolta da narrativa.



Filomena Marona Beja confere à sua escrita um ritmo intenso e compassado e um arco narrativo que avança, recua e se desloca, dando-nos uma visão caleidoscópica dessa mesma narrativa vista de vários pontos de vista diferentes.

É neste mecanismo que assenta esse contrato de leitura que exige uma grande atenção e disponibilidade por parte do leitor que se torna numa espécie de organizador do painel de mosaico em que se move o entretecer da história narrada.

Os seus contos são deliciosos. Alguns, breves voos de asa. Outros quase noveletas. Em todos e em diferentes épocas é quase sempre o mundo feminino que, com mais ou menos discrição nos é revelado, numa multiplicidade de pormenores que nos envolve e se interrompe aqui ou ali para nos deixar um lugar de participação na própria invenção do tempo narrado.

As fotografias que acompanham o conto são do André Beja, filho da Filomena e excelente fotógrafo. Ficam muito prejudicadas pelo processo de impresão e pela qualidade do papel. O João Rodrigues, editor da Sextante que publicou o livro, foi o primeiro a lamentar o facto e a prometer que numa 2ª edição as fotografia serão tratadas com outro respeito.

terça-feira, 22 de junho de 2010

O TEMPO A ESCORRER ENTRE OS DEDOS



A ecrita da minha amiga Filomena Marona Beja é construída como um painel de azulejos que vai crescendo numa multiplicidade de apontamentos, pinceladas, breves retratos, avanços e recuos, frases e momentos suspensos no ar, acontecimentos entrevistos numa espiral que nos guia através de vários pontos de vista para o centro da narrativa.

Na sua escrita a Filomena põe o tempo a escorrer por entre os dedos. É assim em "As cidadãs", "A duração dos crepúsculos" ou nesse excelente "A cova do lagarto" que venceu o prémio de romance da APE em 2007 (os romances dela que li).

A autora trabalha extensamente a matéria do tempo em que situa as suas ficções. Trabalha-o por dentro, de uma forma tão cuidadosa que nos faz sentir por dentro a respiração desse tempo que porventura apenas conhecemos de uma certa forma de frieza característica dos manuais de História.

Este "Bute daí, Zé" li-o com paixão. Porque o tempo deste livro é o tempo da minha vida. E das minhas paixões. Frequentei grupos de jovens nalgumas coisas semelhantes ao grupo em que se envolvem os principais personagens deste romance. Passei por algumas inquietações aqui retratadas.

Momentos da leitura houve em que me identifiquei muito com a narrativa. Também eu sonhei assim, reagi assim, fiz aqueles disparates. Páginas à frente já achava que aquela narrativa estava errada, não era assim o que a minha memória me conta desse tempo.

É o problema do romance histórico sobre uma História que ainda se pode escrever com o próprio sangue e memória do leitor.

Intensamente voei neste romance e, ao chegar ao fim, pareceu-me que o grande personagem do romance é o próprio tempo. Esse tempo fantástico que agradeço ter vivido como jovem anti-fascista a rebentar de raiva nos últimos anos do Estado Novo e a voar em sonhos loucos e utopias desmedidas nos anos de fogo da revolução de 25 de Abril de 1974.

Um tempo que desaguou numa ressaca que nos deixou um sarro muito azedo na boca. E é já nesse outro tempo fosco da ressaca e melancolia que se deu o trágico acontecimento sobre o qual a Filomena construiu o seu romance: o assassinato de um militante de extrema-esquerda por um skin no final dos anos 80.

Não sei se a Filomena, neste seu romance, teve a explícita intenção de deixar as personagens resguardadas na sombra da voragem das suas própias acções.

Sei que a princípio, na primeira metade do romance, os personagens confundiram-se-me como se pertencessem a um mesmo corpo. Como se os seus papeis pudessem ser desempenhados alternadamente por um e outro. Como se todos fossem apenas facetas de um mesmo tempo.

É a fase do imediatamente antes e do imediatamente depois da revolução. Talvez esse tempo fosse demasiado vivo e as pessoas que o habitavam se dissolvessem nele e, só mais tarde, no tempo cinzento do desencanto começassem a reconhecer a sua própria individualidade.

Talvez tudo isto venha dos cenários onde dança a minha memória, que se confronta e se interroga com as memórias que fazem a matéria deste romance.

Mas os livros servem justamente para cada um construir e reconstruir o romance da sua própria vida, não é?

domingo, 24 de agosto de 2008

TRÊS ROMANCES HISTÓRICOS

De férias com livros, andei à bolina do blog. Mas atento. Um olho no blog, outro nas leituras. De regresso, começo aqui alguns apontamentos breves. E começo por 3 romances portugueses que se lêem muito, muito bem, o que só por si, é óptimo.



Escrita elegante, sequência dramática muito bem tecida. Simplicidade e eficácia como é normal na escrita de VGM. Um quadro colorido da vida em Lisboa durante a ocupação francesa traçado com imensa finura e saber.

É apaixonante. Mas prometia mais. Embala para uma narrativa a sugerir outro fôlego. E fecha com um truque final como se o autor fosse um deus azedo e mal disposto que resolve pôr um ponto final na história, já farto de brincar com uma figura a que tinha dado dimensão, carne e uma promessa de outros voos.

Em resumo, um daqueles casos relativamente raros de uma narrativa que tinha mangas para muito mais.




O Mário sempre foi um escritor/jornalista que tem de contar uma história e vai direito ao fundamental A sua ternura malandra é sempre deliciosa e incapaz de tratar mal mesmo as piores personagens.

É assim que nos dá o espírito, o cheiro, o tom da época, os anos 50 de um sedutor carregado de uma ingenuidade algo devedora daquela que vem dos filmes portugueses dos anos 30/40 e que faria parte do nosso ambiente lisboeta mais pequenino e provinciano do que cosmopolita e dado aos grandes arroubos de alma. Era um tempo em que ainda se escreviam cartas de amor…



Um ritmo narrativo muito bem conseguido e muito na moda na construção de um puzzle de tempos que se misturam saltando uns por cima dos outros que aqui fazem todo o sentido porque torna ofegante e emaranhada a sequência dos tempos como é pretendido para dar sentido à figura visionária, contraditória, modernista e obsessiva de Duarte Pacheco. Prova de como se pode fazer um belíssimo romance histórico sem pastelices nem moralidades de cordel.