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sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Breves Notas sobre ciência


História das ciências (1)

  A História das Ciências encontra-se sempre ligeiramente atrasada em relação à História dos Desejos.
  Há metáforas famosas, peguemos nelas.
  É como se os cavalos fossem o Desejo e a carroça puxada por eles a ciência.
 Se os cavalos se separarem da carroça ganharão velocidade, mas perderão utilidade pública; a sociedade quer funções e não fugas.
 Mas o pior sucede mesmo à carroça. Se os cavalos se separarem ela, ela não mais se moverá.

A 2ª matemática

  Questão de Wittgenstein:
  “Se todos os homens acreditarem que 2 x 2=5, 2 x 2 será ainda igual a 4?”

  Existe uma 2ª matemática atrás da primeira. É feita daquilo que é Erro na primeira, e é ainda - como a primeira matemática - feita de ordem e regras. Os erros da 2ª Matemática são também proposições incontestáveis na 1ª Matemática.
 (Pensar nos opostos. No mal e no bem. Na exactidão e na falha. No alto e no baixo.)

Gonçalo M. Tavares


Gonçalo M. Tavares é um dos mais interessantes e originais jovens escritores portugueses: tem ideias, escreve com clareza e precisão, é prolífico e a sua obra é de qualidade homogénea e incontestável. Outra característica marcante dos textos de Gonçalo M. Tavares é a capacidade de obrigar o leitor a procurar continuamente o equilíbrio dos seus pontos de referência através do confronto com as ideias e conceitos expressos nos seus estimulantes textos. 

Em Breves Notas sobre ciência (2006), Gonçalo M. Tavares, o autor de Jerusalém (2004), Histórias falsas (2005), Canções Mexicanas (2011) e de muitos outros textos de interesse, procura aparentemente dissecar alguns dos pressupostos subjacentes ao trabalho científico. Digo-o aparentemente, porque apesar de as suas reflexões aparentarem ser, pela sua natureza e por conta da linguagem utilizada, de cunho epistemológico, elas o são só à primeira vista. De facto, nestas notas, impostas ao autor pelo seu interesse pela ciência, o ambiente discursivo científico-filosófico não passa de um engenhoso artifício para produzir um ensaio, escrito na forma de aforismos, sobre o método de abordar factos e o seu escopo, sobre a identidade do investigador e de seus estados de alma, sobre o objecto de estudo e a sua génese, sobre o amor, a verdade e o erro. 

Diz-nos Gonçalo M. Tavares:

«Céptico como os cépticos, crente como os crentes. A metade que avança é crente, a metade que confirma é céptica. Mas o cientista perfeito é também jardineiro: acredita que a beleza é conhecimento.»
   
Certamente, já o sabíamos desde Voltaire, e longe de dizer que o fazer científico não tem uma componente de crença e estética, mas há que se dizer que a beleza é um guia secundário para o investigador, embora seja, em oposição, a pulsão mais básica do artista. 

E também há no texto de Gonçalo M. Tavares um marcado interesse em focar o discurso nos equívocos inerentes aos procedimentos de busca das “verdades” e nos erros que o processo comporta. Mas, há muito a ciência não presume verdades acerca dos fenómenos e factos, mas se restringe a fazer hipóteses que servem, precária e temporariamente, como teorias. E nenhum cientista poderia afirmar que estas hipóteses são fruto exclusivo de factos puros e ideias com componentes estritamente científicas.   

Mas Gonçalo M. Tavares, não está interessado nas ciências, mas na literatura que se pode produzir tomando a ciência como pretexto. E sob este ponto de vista, estas Breves Notas sobre ciência propiciam, sem qualquer dúvida, uma leitura extremamente estimulante.  

Orfeu B.


sexta-feira, 15 de agosto de 2008

"«O Senhor Juarroz» e como organizar uma biblioteca"

Uma passagem de um dos senhores de Gonçalo M. Tavares, "O senhor Juarroz". Uma das que gosto.
Para as "organizadorAs de bibliotecas" que se perdem ou se encontram no meio de livros.


A biblioteca
«O senhor Juarroz gostava de organizar a sua biblioteca de maneira secreta. Ninguém gosta de revelar segredos íntimos.
O senhor Juarroz primeiro organizara a biblioteca por ordem alfabética do título de cada livro. Rapidamente, Porém, foi descoberto.
O senhor Juarroz organizou depois a sua biblioteca por ordem alfabética, mas tendo em conta a primeira palavra de cada livro.
Foi mais difícil, mas ao fim de algum tempo alguém disse: já sei!
A seguir o senhor Juarroz reordenou a biblioteca, mas agora por ordem alfabética da milésima palavra de
cada livro.
Há no mundo pessoas muito perseverantes, e uma delas, depois de muito investigar, disse: já sei!
No dia seguinte, assumindo este jogo como decisivo, o senhor Juarroz decidiu arrumar a biblioteca a partir de uma progressão matemática complexa que envolvia a ordem alfabética de uma determinada palavra e o teorema de Godel.
Assim, para estranheza de muitos, a biblioteca do senhor Juarroz começou a ser visitada, não por entusiastas da leitura, mas por matemáticos. Alguns passaram tardes a abrir os livros e a ler certas palavras, utilizando o computador para longos cálculos, tentando assim encontrar a todo o custo a equação matemática capaz de desvendar a organização da biblioteca do senhor Juarroz. Era, no fundo, um trabalho de descoberta da lógica de uma série, semelhante a 2 1 9 1 30 1 93
Pois bem, passaram dois, três, quatro meses, mas chegou o dia. Um reputado matemático, completamente vermelho e eufórico, segurando, na mão direita, um bloco gigante coberto de números, disse: Já sei! E apresentou depois a fórmula da série que baseava a organização da biblioteca.
O senhor Juarroz ficou desanimado e decidiu desistir do jogo. Basta!
No dia seguinte pediu à sua esposa para organizar a biblioteca como bem entendesse. Por ele estava farto.
Assim foi. Nunca mais ninguém descobriu a lógica da organização da biblioteca do senhor Juarroz.»

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Senhor Brecht - Gonçalo M. Tavares

" O mestre O mestre mais importante da cidade queria desenhar uma circunferência, mas errou e acabou por desenhar um quadrado. Pediu aos alunos para copiarem o seu desenho. Eles copiaram, mas por erro, desenharam uma circunferência." Gonçalo M. Tavares - Senhor Brecht

quarta-feira, 30 de julho de 2008

"Aprender a Rezar na Era da Técnica"

Acabei de ler "Aprender a Rezar na Era da Técnica" de Gonçalo M. Tavares.
Lenz Buchmann, personagem principal é médico de profissão e tem um carácter preciso, intolerante e violento. A certa altura da vida é confrontado com uma doença que lhe retira o domínio do seu próprio corpo, a dignidade.
Será esta a condição da vida - leia-se vida, não necessáriamente humana, humanidade - a força, a doença e a morte.

«O que nas pessoas estranhas, desviadas por passo próprio ou enxotadas pelos outros, o fascinava era a absoluta liberdade individual com que faziam as suas escolhas. Num louco ou num pedinte que vagueava pelas ruas a pedir pão e sopa e que, de noite, tal qual os outros humanos, só queria dormir, Buchmann via quem poderia escolher em liberdade pura, e sem consequências, a sua moral individual. Moral que nem sequer tem um par, um elemento que a acompanhe. Quem iria contestar a «vida imoral» de um pedinte ou de um louco? Aqueles homens tinham já em si, pela sua diferença, uma carga de imoralidade universal e profunda, que os tornava imunes às pequenas imoralidades praticadas. Um louco, tal como um pedinte, não era imoral. Eram indivíduos sem cópia, semelhantes a um rei; alguém que não tem par, que não tem aquele que está ao seu lado. E por isso não há para esses homens escorraçados, como não há para o homem mais poderoso, qualquer critério de comparação. Buchmann olhava com admiração para aqueles homens que traziam no bolso um sistema jurídico único, com o seu nome no fim. De certa maneira, era isso que Buchmann desejava; ser portador de um sistema legal cujas leis só fossem aplicadas a si; ser portador de uma moral que não é a do mundo civilizado nem a do mundo primitivo; que não é a moral da cidade ou sequer a moral da sua família mas a moral que tem o seu nome, apenas o seu, escrito por cima. »

O autor juntou-se a um grupo de leitores do Clube de Leitura da Biblioteca de Tavira e no decorrer da conversa (e as conversas são como as cerejas) alguém questiona o sentido de "Rezar" e "Era da Técnica" ... cabe ao leitor desvendar e como referiu "A lietratura é isto, é dar espaço para a leitura, para a interpretação, para as interpretações. Sem esta função não teremos literatura".

domingo, 27 de julho de 2008

"O Reino" de Gonçalo M. Tavares

Os quatro livros sucedem-se no mesmo tempo. As personagens encontram-se entre livros. No entanto vivem de forma diferente esse tempo. Para uns é um tempo de guerra, para outros é tempo de loucura ou de poder. “A Máquina de Joseph Walser” a personagem faz uma colecção muito peculiar, peças metálicas que não ultrapassam os dez centímetros. Walser está convencido que é indiferente aos acontecimentos exteriores, apenas é importante a sua colecção que se encontra dentro de pequenas caixas e de qual anota todas as características, procedências e medidas. No entanto W. descobre um dia, ao recolher uma peça de uma arma, que está a interferir no mundo, porque impede um soldado com a sua arma incompleta de matar um outro ser humano. Mais coisas sucedem-se. Gonçalo M Tavares é dono de uma narrativa única e peculiar, de um mundo minucioso.
No “Aprender a rezar na Era da Técnica” conta-nos a vida de um médico que resolve, com atropelos, iniciar uma carreira política, vai-se assim apoderando das coisas e das pessoas. Começa a dominar a técnica de poder, para esta personagem a guerra passa-lhe quase ao lado “O que espantava mais Buchmann era como o medo e a velocidade, a determinada altura, se misturavam, deixando de ser possível apontar alternadamente para um e para outro. Estava-se já perante uma nova substância - como o hidrogénio e o oxigénio na molécula de água - substância (medo/velocidade) mais explosiva que dinamite.
Ou, talvez com mais exactidão: o grande rastilho do mundo, pois essa mistura não era ainda a explosão mas o trajecto que terminaria na grande explosão. Seremos tanto mais fortes, dizia Buchmann a Kestner nas suas conversas sobre estratégia, quanto mais conseguirmos infiltrar na população esta mistura: movimento rápido e temor. Não deixar parar para que não deixem de ter medo. Não deixar de os amedrontar para que não parem.”
No “Um Homem: Klaus Klump” a personagem que mais sofre com a guerra nós paramos em muitos parágrafos para saborear: “Alof era robusto, era um homem musculado. Como tocava instrumentos com esses músculos e com essa força! Alof dizia: Quando toco música esforço-me para diminuir a força que tenho.”