Mostrar mensagens com a etiqueta Haruki Murakami. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Haruki Murakami. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Do que estou a falar quando falo sobre correr



Pain is inevitable. Suffering is optional

What I talk about when I talk about running
Haruki Murakami

Esqueçam o escritor reflexivo e contemplativo à espera de que as musas lhe incendeiem a imaginação. Não de todo! O escritor dos momentos mágicos, dos personagens que comunicam com os animais e os minerais, o criador de situações insólitas e inesperadas é um corredor de fundo que transformou o hábito de correr num complemento indissociável da sua vida de romancista, tradutor, comentador, e mais recentemente de activista de causas humanitárias.

Um beatnik dos músculos então? Também não de todo, pois Murakami não pretende criar nenhuma filosofia, fundar um ashram ou uma seita de seguidores. Do que estou a falar quando falo sobre correr é um livro confuciano: versa sobre treinos, preparação para maratonas (pelo menos uma por ano), respiração, dor física, tempos, reminiscências de provas de longa distância e de triatlo, e sobre a história do envolvimento com a corrida e a sua ligação umbilical com a vida de escritor. A filosofia, se é que se pode disso falar, é extraída ao longo do percurso, no processo de se atingir objectivos bem definidos.

Mas naturalmente, a conexão é nos dois sentidos. O capítulo entitulado Praticamente tudo que sei sobre escrever ficção eu aprendi correndo todos os dias é ilustrativo duma relação que não é acidental e que o autor pretende que perdure até o fim, exactamente como a sua capacidade de escrever e criar. Afirma Murakami, que ao terminar o seu primeiro livro, aos 33 anos, descobriu que a vida dum escritor era fisicamente extenuante, pouco saudável e associal. Sentiu então a necessidade urgente de se exercitar. A inaptidão para os desportos em grupo e a simplicidade da corrida de fundo facilitaram-lhe a escolha do desporto a praticar. A legendária disciplina nipónica fez o resto.

Reitera Murakami, eu seria um outro escritor se não fosse o facto de ser um corredor de fundo, de modo que a fórmula correr e escrever, escrever e correr transformou-se numa segunda pele, num modo de estar e de ver as coisas. Mas é fundamental sublinhar que o autor não pretende vender a receita a ninguém. Destaca que a entrega sem reservas e o desejo de atingir o máximo dentro dos seus próprios limites tornaram-se ao longo dos anos os seus objectivos no que se refere à escrita e às provas de fundo. Conta-nos também que o sucesso inesperado do seus primeiros livros revelaram-lhe um caminho profissional que não antecipava de todo ser o seu. Os ingredientes? Talento, objectivo e resistência. Para escrever ou para correr? Para ambas, responde-nos Murakami, pois são para si actividades intimamente interligadas.

Assim, através da leitura deste despretensioso livro somos levados a uma identificação simples, mas também elegante: a de que escrever um romance é algo como correr uma maratona. Exige treino, dedicação, resistência, e uma vez iniciado o processo não há espaço para andar, pois foi-se treinado para correr. A felicidade do autor com a naturalidade desta identificação é mais que evidente, e ao ponto dele não se coibir de apontá-la como uma essência existencial, como vê-se quando imagina o seu epitáfio:

Haruki Murakami
1949 - 20**

Escritor (e corredor)

Pelo Menos Ele Nunca Andou



Orfeu B.

sábado, 9 de maio de 2009

A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol


O que fica a sul da Fronteira? Em criança, Hajime não sabia, apenas a ouvir esta música de Nat King Cole, em casa da sua amiga Shimamoto, tinha uma sensação de grande prazer que lhe ficou marcado na memória para o resto da vida. Mais tarde Haijime, narrador da sua história, experimenta essa sensação de deserto na sua vida, pela ausência de Shimamoto, percebe o que fica a sul da fronteira, um deserto, um vazio. Uma espécie de "histeria siberiana" que acontece com os camponeses na Sibéria que de repente deixam tudo e caminham rumo a uma terra que fica a Oeste do Sol até morrerem de fome ou de sede.  Ele também vai secar por completo atrás de uma aparição. Uns bons anos depois das tardes a ouvir Nat King Cole, Hajime está casado com a filha dum empreiteiro que o ajudou a abrir os seus dois bares de Jazz, é agora um empresário individualista, que esqueceu quase por completo os anos de estudante idealista. No entanto algo o vai sugar por completo a sua vida, a sua alma, a aparição de Shimamoto trás a vivência desse grande amor, dessa paixão perdida. Hajime vive uma temporada de paixão e que termina com o desaparecimento dela, o leitor fica sem saber se Shimamoto existiu apenas na cabeça de Hajime. Este acontecimento vai provocar em hajime essa morte, ele fica sem vontade, sem desejo de nada, um homem sem expressão, sem vida. 
Novamente em Murakami, encontramos o homem sozinho na imensa cidade, numa história de amor improvável ou impossível. Quase autobiográfico, este romance está cheio de beleza e sensualidade. Mas o que me faz gostar mais da escrita de Murakami é este caminhar para um precipício onde a realidade se mistura com o sonho. 
"Sentado à mesa da cozinha, segui com os olhos a nuvem que flutuava sobre o cemitério. A nuvem não se tinha mexido um milímetro. Estava parada, come se estivesse pregada no céu. "São horas de acordar as minhas filhas", pensei. Já nasceu o dia, elas têm que se levantar. Elas precisam deste novo dia de uma maneira bem mais intensa do que eu. Devo aproximar-me do quarto delas, puxar as cobertas para trás, pousar a minha mão sobre os seus corpinhos quentes e suaves, e anunciar-lhes que começou um novo dia. Tenho de o fazer, quanto antes. Foi isso que pensei, mas por qualquer razão, não consegui levantar-me da cadeira onde estava sentado, à mesa da cozinha. Finquei os cotovelos na mesa e escondi o rosto nas mãos. 
No interior daquela escuridão, pensei na chuva que caía sobre o mar. chovia em segredo no vasto oceano, sem que ninguém soubesse disso. A chuva fustigava em silêncio a superfície das águas e nem sequer os peixes se tinham dado conta.
Até que alguém se aproximou de mim e pousou suavemente a mão sobre o meu ombro, os meus pensamentos pertenceram ao mar."

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Depois do escuro


Volto a falar de Murakami, apesar da minha resistência a não me impressionar pelos best seller (um preconceito meu). Mas o Murakami fascina-me, sou fã e sempre que vem um livro novo eu não resisto a comprar e a interromper qualquer leitura. Desta vez foi “After Dark – Os Passageiros da Noite”
No livro “Underground” - Este não é um romance mas um conjunto de entrevistas às vitimas e familiares das vítimas do atentado de Tóquio do Gás Sarin, no final são entrevistados também antigos membros da seita “Verdade suprema”. A cada personagem é contextualizada a sua história e a suas acções no dia do atentado. Compreendemos, com este livro, que o que aconteceu em Tóquio em 95 foi também fruto da forma como a sociedade Japonesa se organiza em função do trabalho e da grande competição existente. Muitos dos membros da seita eram pessoas muito inteligentes e que tinham saído das suas funções para se juntar a “Verdade Suprema” no desejo de procurarem um reverso.
Após a leitura de “Underground” podemos compreender melhor a poética de Murakami.
Neste último livro voltamos a encontrar personagens solitárias que tentam fugir ao seu passado, ou ao seu quotidiano. No encontro ocasional entre estas personagens, no diálogo entre elas, começamos a conhecer a sua história: Uma estudante de Chinês, uma gerente de um hotel de amor, um trompetista estudante de direito, uma prostituta chinesa, um técnico informático, etc... O livro é narrado como se fosse um filme, ou até um vídeo-jogo. Esta clonagem que Murakami faz na sua escrita, na sua narrativa em que por vezes o livro é também o filme, uma animação, um jogo de computador ou uma música faz-me seu fã. Depois ainda recorre ao absurdo, ao impossível, ao fantástico. Tudo isso de uma forma ligeira, acessível e fácil de entender. Este autor integrasse na cultura pop contemporânea, são também muitas as referencias que faz à música pop e jazz, à pintura (neste caso à arte de Edward Hopper) e à literatura (por vezes até a literatura popular japonesa).
Cada livro de Murakami é um quadro de Edward Hopper.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

"A Rapariga que Inventou um Sonho" de Haruki Murakami


Começo por avisar que sou um viciado crónico por Murakami. Quando aparece um livro deste autor nas livrarias, como qualquer outro viciado, arranjo maneira de adquirir a “minha droga”.
Li tudo o que está traduzido em português, e muita gente me diz que devia ler os clássicos e não perder tempo nestes livrecos de supermercado, que basta ler um para sabermos os outros. Mas eu não me consigo livrar deste “mal”. Talvez o livro de Bayard que o Fanha nos trouxe seja um antídoto para isto.
Este livro de pequenos contos deixa um amargo na boca, parece muito pouco, não recomendo começar por aqui. Recomendo “Kafka à Beira-mar” esse é o livro que nos convida a ler outros livros, que nos faz referências a outras leituras e músicas, que nos dá momentos de prazer impressionantes com parágrafos que ficam na nossa memória. Lembro-me de uma personagem especial que fala com os gatos, mas os outros não o entendem e ele passa por um tolo, é Nakata.
Nestes curtos contos, apenas se confirma tudo o que gosto de Murakami: a solidão das suas personagens - elas vivem sozinhas com os seus gatos e muitas vezes desempregadas num país onde as pessoas passam a vida a trabalhar; a estranheza das histórias, onde os acontecimentos vão-se sucedendo improvisadamente; das ligações que estabelece com os outros, com a cultura, com a literatura e com a música; como constrói as suas narrativas de forma improvisada, como uma música jazz; gosto especialmente da forma que ele negligencia o papel da escola, e em três dos seus livros os adolescentes abandonam a escola - o narrador incita essa atitude.
Além do mais, gosto das ideias que sublinha, identifico-me com elas. Claro que não é filosofia profunda, são romances ligeiros, mas eu sou apenas um professoreco do 2º ciclo.