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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Letra Aberta

                                           
       
que nunca por nunca estas linhas tivessem um ar acabado,
quisera apenas que uma urgência das coisas
as reclamasse, uma veemência,
uma potência as coisas,
e aí acabasse a sua breve música
mas já que a mim devastava
que a ti te devastasse
leitor sempre inimigo
como o cria assim a sua própria sombra

Herberto Helder

Decorrido um ano do desaparecimento do poeta em Março de 2015, foi publicada em Março de 2016 a primeira recolha póstuma de poemas inéditos de Herberto Helder. Selecionados pela viúva, Olga Lima, de entre um espólio que certamente nos reserva assombros e sobressaltos, esta edição única alerta os admiradores do poeta de que está em preparação uma edição crítica da obra inédita do autor de A Morte sem Mestre, Os passos em volta, A faca não corta o fogo, e de outras obras marcantes. 

Certo é que com os poemas de Herberto Helder todos os leitores são, até os mais assíduos, sempre arrebatados pela surpresa e não menos pelo deleite. Para Herberto Helder os poemas eram contínuos como o espaço-tempo e nos eram apresentados a fumegar. Herberto Helder era, para além de um encantador de palavras, o fogo que as envolvia antes delas sairem da forja da sua oficina.    

Só nos ocorre pensar em termos de culminâncias. O dom da palavra como píncaro da evolução, Herberto Helder como cume da língua Portuguesa, cada poema como vértice em altitude de uma cordilheira de poemas abertos, evocativos de imagens inesgotáveis.    

Não é verdade que depois da morte do poeta há o vazio de um pesado silêncio. A poesia nunca cessa de sibilar sentidos. Fiquem atentos os ouvidos. Todos os poemas são inéditos.    

Orfeu B.

a morte é mesmo estranha:
morre-se todos os dias
e enquanto se morre pede-se uma esmola para matar a fome de outra vida,
e dão-nos pelo amor de Deus uma pequena moeda de nenhum país,
e não há ranhura onde a moeda entre, nem a ranhura de uma velha caixa de música, e no entanto estremeço
e falta-me o ar, sim sim
arrebatavam-me as músicas de J.S. Bach
no silêncio das naves através da catedral inteira,
vozes e vozes dos rapazes castrados
e de repente um baixo monstruoso,
e isto se Deus existisse mesmo, punhal fundo no músculo coração,
e depois quente chôro pela cara abaixo
- oh porque me abandonaste?
mas na verdade ninguém me abandonara

Herberto Helder


sábado, 6 de junho de 2015

Poemas Canhotos


em boa verdade houve tempo em que tive uma
                                 ou duas artes poéticas,
agora não tenho nada:
sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica
                                   e traço meia dúzia de linhas:
às vezes apenas duas ou três linhas;
outras, vinte ou trinta:
houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei
                      a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu
                                                        estremecer,
mas o mundo, não: nunca senti que o mundo estremecesse
                                        sob as minhas palavras escritas,
o que já senti, e é de facto um pouco estranho, foi isto:
enquanto escrevia, o mundo parecia deslocar-se,
e quando eu chegava ao fim das linhas escritas,
sabia que estava tudo feito,
sentia que deveria morrer
mas, como se vê, nunca o mais simples atingiu em mim a
                                                 sua própria profundidade


Herberto Helder 


O mais simples é possivelmente o mais inacessível. Tornar com que umas poucas linhas façam mais sentido que todas as linhas que as antecederam. Entender que a profundidade é capturar a rasura dos dias e emprestar-lhes um significado até o derradeiro momento. Encerrar a obra no ponto verdadeiramente final.

Agora o poeta não voltará a escrever, a obra está concluída e reverbera na mente dos sonâmbulos sobreviventes. Ler um poema de Herberto Helder era como mergulhar num sonho, mas agora nós acordamos e não haverá novos poemas, destros ou canhotos. Deixou-nos o poeta, ficou-nos a sua ciência e a sua poesia.

Foi assim e será o Herberto Helder dos 13 poemas canhotos finais, o último destes com rimas em ão. Impossível! Não há impossíveis na poesia, o que há são imaginações demasiado curtas, ou imaginações fora do alcance da imaginação. A fabulação de Herberto Helder era ser a cada poema, um outro Herberto Helder, sempre sendo Herberto Helder.    

Um poema não salva o mundo, mas o protege da cacofonia dos maus poemas e dos sofismas de outros discursos. Todo poeta deveria pensar, poisar a pena e fazer um minuto de silêncio. Talvez, escrever  o  poema longuíssimo de um minuto de silêncio de muitas vidas.  

Orfeu B.


escrever poemas não é boa maneira de atordoar os 
tempos do verbo, 
não é o mesmo que meter a cabeça num buraco abissínio,
nem perder algures uma perna/ e lembrar-me depois de perder ainda a outra:
 ninguém ganha assim uma barra de ouro,
ninguém glorifica o corpo queimando-o com barras de ouro,
ninguém transforma assim uma chaga a beleza humana,
tórax e membros e a cabeça por entre a espuma:
e como só de pensá-lo o corpo avança! escrever, 
deixar de escrever,
escrever ou não escrever não é acabar assim tão depressa
 quanto se pensava
um poema ou dois ou cem não é nunca até ao fim,
escrever poemas não é apenas vou ali e já volto à morte do costume:
 colinas tão próximas como se guardassem os nossos próprios olhos,
e logo depois leva-as o vento para adjectivos longínquos,
tudo tão prodigioso que se não entende nada:
uma rosa é uma rosa é uma rosa - disse ela em inglês
 (há quantos anos li isso!)
(há quantos anos fiquei bêbedo desse talhão de roseiras!)
a rose is a rose is a rose et coetera
- mudou-me a vida?
oh faminta ciência da paciência!
coisas bem menores mudaram para sempre a minha vida, 
e então porque não a mudaria uma rosa compactamente múltipla?
morrer por uma rosa é que fia mais fino: 
que fabuloso fio em que roca e em que fuso,
que segredo do mundo

Herberto Helder



sábado, 20 de dezembro de 2014

A Mortalidade do Poema Contínuo

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder


O aparecimento de uma colectânea integral da obra de um grande poeta é sempre motivo de júbilo e celebração. A recente publicação dos Poemas Completos de Herberto Helder não seria excepção, mas ao facto em si há que se adicionar a opção feita, há muito pelo poeta, de viver no anonimato e a implicação implícita de que a sua obra estava encerrada.

Mas o ofício de escrever tem uma lógica própria e um “vício” de muitas décadas não pode, para nossa felicidade, ser completamente silenciado; como um vulcão, o hábito de querer se fazer ouvir, vive longos períodos de dormência até voltar à sua actividade eruptiva quando a pressão magmática aumenta.

Eu julgo que a imagem é particularmente apropriada no que diz respeito a Herberto Helder, um autor inquieto, cuja riqueza e instabilidade biográfica se coaduna com a sua escrita explosiva e visceral.    

O que se conhece do autor de A Colher na Boca (1961), Os Passos em Volta (1963), Húmus (1966), Cinco Canções Lacunares (1968), Photomaton & Vox (1979), A Faca Não Corta o Fogo (2008), Servidões (2013), A Morte sem Mestre (2014) entre outros títulos igualmente essenciais? Que nasceu em 1930 no Funchal no seio de uma família de origem judaica e que passou, inevitavelmente, pelo curso de Direito em Coimbra e que pouco depois se refugiou, também inevitavelmente, na Filologia Românica do curso de Letras da mesma universidade? Que em 1955 frequentou em Lisboa o grupo do Café Gelo, do qual faziam parte Mário Cesariny, Luiz Pacheco, António José Forte, João Vieira e Hélder Macedo e que então trabalhava como propagandista de produtos farmacêuticos? Que … Sim, poderíamos continuar, mas este esboço biográfico, ou talvez qualquer outro mais comprometido e completo, pouco acrescentaria enquanto explicação para a prodigiosa capacidade encantatória da escrita do autor.    

Porque nos ensinou o poeta, aquando da colectânea Ou o Poema Contínuo, que precisamente, a poesia é um fluxo e que enquanto tal não pode ser fixada ou dissecada. Ensinou-nos que o seu entendimento através dos sentidos-sentimentos-razão só pode ser alcançado in vivo, enquanto ela respirar. E talvez mais, que o momento da poesia é o da respiração agonizante do peixe fora d’água, é o instante aquando o sangue perde o seu calor e está ainda vivo, pouco antes de se tornar apenas um fluido inerte.

Sim, a morte interrompe o poeta, com ou sem meios para comprar uma bilha de gás, mas antes do silêncio, há uma centelha magnífica de vida e criatividade através da qual tudo nos é revelado, materializando um generoso vislumbre da solução que explica a galáxia e a pétala.

E depois de desvendada a fórmula, poderemos todos, e poderão os habitantes no futuro, lê-la infinitas vezes para fixar as estrelas ou para torna-las cadentes:

e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma


queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima


Orfeu B.