Mostrar mensagens com a etiqueta Italo svevo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Italo svevo. Mostrar todas as mensagens

sábado, 1 de maio de 2010

Um Embuste Perfeito




Mário Samigli era um literato com quase sessenta anos. O romance que publicara havia quarenta anos poder-se-ia considerar morto se neste mundo soubessem igualmente morrer as coisas que nunca chegaram a estar vivas. Desalentado e um pouco enfraquecido, Mário, por seu lado, continuou durante muitos anos a viver uma vida pachorrenta que um empregozito de poucas chatices e pequeníssimo rendimento lhe proporcionava. Uma vida assim é higiénica e torna-se ainda mais saudável se, como acontecia com Mário, é temperada por um belo sonho. Na sua idade, continuava a considerar-se destinado à glória, não por aquilo que fizera, nem por aquilo que esperava poder fazer, mas assim mesmo, porque uma grande inércia, essa que lhe impedia qualquer rebelião contra a sua sorte, o preservava do cansativo trabalho de destruir a convicção formada na sua alma há muitos anos. E isto acabava por demonstrar que até a potência do destino tem um limite. A vida tinha-lhe partido alguns ossos, mas deixara-lhe intactos os órgãos mais importantes, dos quais certamente depende a glória. Mário atravessava a sua triste vida sempre acompanhado por um sentimento de satisfação.

Italo Svevo



Italo Svevo, que literalmente significa italiano da Swabia, é o pseudónimo do homem de negócios Aron Ettore Schmitz (1861 - 1928) que viveu em Trieste e é o autor de "A Consciência de Zeno", uma obra maior da ficção do século XX. O seu estilo marcadamente confessional foi fortemente influenciado pela psicanálise de Freud. A sua singular obra, praticamente toda publicada em edições de autor, teria muito provavelmente caído no esquecimento se não fosse o esforço de James Joyce em divulgá-la. Joyce conheceu Schmitz em 1907 em Triste enquanto estudante de inglês. Lê então "Senilità" de Svevo, obra que fora publicada em 1898 e que havia sido completamente ignorada. Joyce apoia decisivamente a publicação de "A Consciência de Zeno" em França, onde o livro é acolhido com entusiasmo. Schmitz é também o modelo do judeu convertido Leopold Bloom, protagonista de o "Ulysses", a obra maior de Joyce.


Escrita em 1926, a novela "Um Embuste Perfeito" conta-nos a melancólica história dum literato que aos sessenta anos vive à espera da aclamação do seu romance de juventude, que não havia despertado qualquer reacção de público e crítica quando da sua publicação. A convicção na glória tolda completamente a razão do protagonista e leva-o a adoptar uma atitude arrogante relativamente à literatura do seu tempo. Um pretenso amigo, caixeiro-viajante de profissão, decide aproveitar a ingenuidade do protagonista e submetê-lo a um embuste. Convence-o que uma importante casa editorial de Viena estava interessada na tradução da sua obra. Vivendo entre a ilusão e a realidade, o protagonista acaba por descobrir que tudo não passava dum vil embuste, mas não antes dum irónico desenlace que lhe permite receber metade da quantia acordada no pretenso negócio com o editor austríaco devido a uma brusca variação de câmbio entre a lira e a coroa austríaca.

Uma novela de grande interesse que retrata, apesar das inevitáveis distinções de grau, o estado de espírito de todos os literatos. Há também uma moderada exaltação da literatura enquanto meio de expansão espiritual, independentemente da modéstia das condições materiais e objectivas de vida dos autores. O protagonista vive precariamente e a sua vida não se dilata para além da dependência emocional dum irmão mais velho e doente, e da compreensão benevolente do seu patrão. Esta benevolência suscita-me uma inevitável associação com o patrão Vasques do guarda-livros Bernardo Soares.


Orfeu B.


segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Curta Viagem Sentimental


A propósito do Murakami, falou-se neste nosso espaço de “autores de supermercado”. Apesar da conotação pejorativa do termo, encontram-se excelentes livros nos supermercados. É o caso de uns saldos que uma cadeia de hipermercados esteve a fazer recentemente com livros editados há dez/quinze anos atrás. A minha biblioteca engrossou com vários livros comprados a preços do tipo 1 euro, 1,99 euros, 3 euros. Foi o caso (1,99 euros) de um curto romance publicado postumamente, pertencente aos últimos anos de actividade de Italo Svevo, um dos meus autores italianos modernos preferidos: “Curta Viagem Sentimental”. Nesta curta narrativa, o protagonista é um homem velho, o senhor Aghios, preso a um casamento feito já só de rotinas, que anseia pelo momento libertador da “cadeia” em que está preso proporcionado por uma viagem sozinho de comboio. Essa liberdade é inócua e feita essencialmente de sensações e pensamentos. Durante a viagem há encontros com duas personagens. Em primeiro lugar, um inspector de seguros anafado e muito senhor de si e das suas opiniões. O senhor Aghios sente-se muito próximo do filho mais novo, desajeitado e sonhador, deste inspector. Em segundo lugar, um jovem louro com aspecto doentio que faz a viagem prostrado. O senhor Aghios vem a descobrir que o jovem está envolvido num dilema amoroso entre um casamento com uma mulher rica e o amor (mais carnal) com uma criada da casa da sua futura noiva. Este jovem vem a revelar-se uma personagem mesquinha e surpreendente no mau sentido. Esta novela caracteriza-se ainda, tal como noutras novelas de Italo Svevo, por um final vasto e inconclsuvo. O livro inclui ainda dois excelentes contos: “A mãe” e “Vinho generoso”.
E tudo isto por 1,99 euros!!!!