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terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

UM ROMANCE PARA MASTIGAR


Escrita portentosa do Nobel J. M. Coetzes. Escrita funda. Organizada. Aparentemente do lado racional do olhar sobre o mundo. Mais virada às racionalidades que às emoções.

Elizabeth Costello é uma escritora australiana que percorre o mundo a fazer palestras. Nos primeiros 7 capítulos assistimos às suas palestras, às suas ideias por vezes contraditórias sobre o bem e o mal, os direitos dos animais, o holocausto, etc.

A princípio o livro parece ser apenas uma exposição brilhante de ideias. Mas, a figura da escritora vai crescendo quase sem o leitor se dar conta disso e explode numa forma muito particular de associar o racional e o emocional, para terminar de forma absolutamente inesperada ou pelo menos surpreendente com a espessura que só um grande escritor é capaz de conferir à sua escrita.
Neste romance construído cuidadosamente e cheio de pequenas e grandes surpresas, Coetzee obriga-nos a pensar, a argumentar, a usar o contraditório, a emocionarmo-nos com o brilhante exercício de uma racionalidade levada quase até ao extremo.

Diria que “Elizabeth Costello” é um romance para mastigar, para ler devagar, parar a meio, voltar atrás. Para reler. Não serve para distrair. Não é um entretenimento. É literatura. Grande. Daquela que nos faz pensar e repensar no tempo que nos é dado viver através do uso notável da arte das palavras e da reflexão sobre o uso dessa arte.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Verão



Once upon a time he used to think that the men who dreamed up the South African version of public order, who brought into being the vast system of labour reserves and internal passports and satellite townships, had based their vision on a tragic misreading of history. They had misread history because, born on farms or in small towns in the hinterland, and isolated within a language spoken nowhere else in the world, they had no appreciation of the scale of the forces that had since 1945 been sweeping away the old colonial world.

Summertime


Verão completa a excitante trilogia biográfica ficcionada de J. M. Coetzee, Prémio Nobel de Literatura de 2003, autor de obras notáveis como Desgraça, As vidas dos animais, Elizabeth Costello, Diário de um Mau Ano, entre outras.

Verão dá seguimento aos relatos Infância e Juventude, ambos escritos no estilo directo e preciso do autor. Em o Verão no entanto, encontramos uma distorção muito original da realidade. A biografia, que se concentra nos anos essenciais da formação do escritor, período identificado como entre 1972 e 1977, é-nos contada através de entrevistas a amigos e conhecidos do escritor, organizadas por um jovem escritor inglês que nunca conheceu o já falecido autor J.M. Coetzee!

O distanciamento ganho com o subterfúgio de tratar-se a si mesmo como outra pessoa e de ser a biografia póstuma, permite ao escritor sul-africano, descrever-se de forma implacável, auto-irónica, e muitas vezes divertida. Destas entrevistas surge um homem desajeitado, extremamente ligado aos livros, e duma timidez que não lhe permite se relacionar facilmente com as pessoas. Um homem que é visto pela própria família como um estrangeirado, com uma obstinada insistência em realizar tarefas manuais, um excêntrico por ter cabelos longos e barba, e por supostamente escrever poesia. Alguém que procurou abandonar a sua tribo - o autor completou o seu doutoramento em linguística das línguas germânicas na Universidade do Texas, em Austin - mas que não foi capaz de sobreviver no estrangeiro.

Um livro de grande riqueza humana, mesclado com experiências literárias de grande interesse. À narrativa biográfica de o Verão, juntam-se textos escritos pelo autor no período em questão, e nestes é evidente a difícil e extremamente crítica relação que o autor mantém com o seu país natal - de que o enxerto acima é um exemplo. De facto, em 2002 J.M. Coetzee emigrou para a Austrália, onde é Professor de Literatura na Universidade de Adelaide.


Orfeu B.