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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

TEMPESTADES SUBTERRÂNEAS


Kjell Askieldsen, celebrado contista norueguês, escandalizou a sociedade lutrana do seu país pela tonalidade sexual das suas históriaa, acabando por se tornar hoje em dia num escritor referenciado, celebrado e premiado.

Ao longo da leitura destes contos breves mas intensos, lembrei-me amiúde de uma entrevista recente em que Gonçalo Ribeiro Teles afirmava que "A paisagem do Norte é simples, não há conflitos". Não existe no Norte a balbúrdia da natureza do Sul, do Mediterrâneo. No entanto, por dentro das tão desmunidas personagens de Askieldsen, há vulcões prontos a explodir.

O autor mostra-nos essa falta de diversidade biológica. As casas de vários dos seus contos são iguais com os seus jardins, os seus alpendres, as suas espreguiçadeiras, os quartos sempre no 1º andar. Iguais. Algumas das personagens poderiam sair de um conto e entrar noutro sem que nada se alterasse. Às vezes os próprios nomes são repetidos. São os mesmos os seus rituais em torno do álcool ou do tabaco. as frase que ficam a meio.

Estes contos falam-nos dessas palavras que ficam a ferver por dentro do silêncio, da incapacidade afectiva e comunicativa dentro da família, do álcool, do sexo e do desejo transbordante mas não expresso nem realizado.

Debaixo de uma escrita sem rugas, quase minimalista, sentimos a existência de tremendas tempestades subterrâneas que aparentemente não têm solução.

Askieldsen prende-nos na sua repetição. Inquieta-nos. Deixa-nos sem resposta perante as pistas inacabadas em que nos enreda, na largueza de uma paisagem de fiordes, florestas e casas onde quem chega é sempre mal recebido e em que as dores de cada um são asinaladas mas nunca explicitadas em palavras.


terça-feira, 18 de dezembro de 2012

AHAB, UMA EDITORA PORTUGUESA QUE SABE EDITAR CONTOS

Tanto quanto sei, a Ahab é uma jovem editora sediada no Porto. Jovem, mas já com um conjunto notável de obras, de entre as quais avultam as de autores que cultivam o contismo, como o peruano Julio Ramón Ribeyro (1929 -1994 ) e o norueguês Kjell Askildsen (1929). De Ramón Ribeyro li o 1º volume da obra intitulada " A Palavra do Mudo" (editado em 2012); de Askildsen, "Um Repentino Pensamento Libertador" (editado em 2010) e "Os cães de Tessalónica" (2012). Livros de contos, de autores pouco conhecidos ou desconhecidos entre nós. Em "Os Cães de Tessalónica", o autor vai buscar o título da obra ao primeiro conto, em que se refere a dificuldade que os cães, por vezes, têm em se separar após o acasalamento, com todo o sofrimento que tal acarreta. Assim, as personagens destes sete contos, ligadas para sempre pela dificuldade em se separarem (física ou psicologicamente), por mais dolorosa que seja a sua relação.
Nem sempre é fácil enquadrar as atitudes e os comportamentos das gentes que atravessam os textos de Askildsen em correntes ou autores da literatura ocidental, em que estamos inseridos. Talvez o existencialismo literário francês (com as suas expressões de tédio e de absurdo) se possa considerar como um ponto de referência, nomeadamente na solidão das personagens, mergulhadas num silêncio que dá sentido ao confronto permanente entre um tempo interior e um tempo exterior. Silêncio que as torna invisíveis até aos que lhe estão mais próximos. Veja-se um extrato do conto intitulado "Os Invisíveis": "Marion serviu-lhe mais vinho. Costuma doer-te a cabeça?, perguntou ela. Não, respondeu ele. Bem, sim. De vez em quando. Atirou o cigarro fora e acendeu outro. Olha, disse ele, a nuvem continua sem se mexer. A Camilla disse-me que te vais embora já amanhã, disse Marion. Sim, assentiu. Que pena, disse ela. Tenho de voltar ao trabalho, disse ele. Bebeu. É um bom vinho, disse ele. Passado algum tempo olhou para ela de relance; estava sentada a olhar para as mãos no regaço, movendo quase imperceptivelmente a cabeça. Por fim disse sem levantar a vista: Não queres falar, pois não? Mas se estou a falar…, disse ele. Sabes muito bem o que quero dizer, disse ela. Ele não respondeu. (…). (…) Pouco depois, disse: Não posso deixar de ser como sou. Se eu por exemplo mato alguém, não o posso evitar, mas não mato ninguém porque não sou assim. Tudo o que faço, faço-o porque sou como sou, e não tenho culpa de ser assim. Os outros podem dizer o que lhes apetece. Entendes? Pegou no copo e bebeu. Acendeu outro cigarro. Foi até ao maciço de flores e ficou a contemplar a terra seca. Então olhou para a nuvem no alto da montanha; pareceu-lhe mais pequena." Silêncio por vezes entrecortado por uma "confissão", que dá mais espessura a esse silêncio. Note-se a técnica de construção dos diálogos inseridos no texto, o que os transforma em monólogos. E, quando o autor utiliza o diálogo de uma forma tradicional, apenas o faz para acentuar o desfasamento entre as personagens, os lugares comuns em que assenta a sua relação, a incomunicabilidade que se foi criando, que nem os copos de vinho que vão bebendo conseguem disfarçar. O conto "Um lugar Maravilhoso" é um exemplo perfeito do que acabo de dizer: "Tinham descido até ao molhe de cimento, o sol estava prestes a pôr-se. - Oh, como adoro este lugar - disse ela. Ele não disse qualquer palavra. - Foi mesmo ali que caí à água. - Sim - disse ele - , já me contaste. - Devia ter uns quatro anos - disse ela. - Cinco - corrigiu ele. - Sim, talvez. Bati com a cabeça numa daquelas pedras que vês ali e fiz um corte profundo por cima da orelha, e se o meu pai não tivesse… O que foi isto? - Algum animal - disse ele. - Foi alguém a gritar - disse ela. - Não, pareceu-me ser um animal. - Vamos para dentro - disse ela. (...) (…) Ao entrar, ele disse: - Vou abrir uma garrafa de vinho. - Sim, abre. Ela sentou-se no sofá. Ele serviu-lhe vinho. - Obrigado, está bom assim, - disse ela. Ele deitou o dobro no seu copo e sentou-se junto à janela. - O meu pai costumava sentar-se aí - disse ela. - Sim, já me tinhas contado - disse ele. - E onde se sentava a tua mãe? - A minha mãe? Ela… Porque perguntas? - Apenas por curiosidade. Saúde! (…)" E o conto termina com o diálogo que a seguir se transcreve, exemplar na solidão em que as personagens vivem mergulhadas, mascarada de uma aparência de comunicação: "Ele estava sentado na ponta do molhe a contemplar o fiorde. Ela estava deitada atrás dele a apanhar sol. Disse: - Não é um lugar maravilhoso? - Claro que sim - respondeu ele." Claro que sim, o mundo é um lugar maravilhoso, mas apenas para aqueles que nele têm lugar. Dizer mais sobre este livro de Kjell Askildsen seria algo de supérfluo: a solidão, a incomunicabilidade, a alienação estão sempre presentes no quotidiano das personagens e constituem o suporte da narrativa dos sete contos que compõem a obra. Obra que caracteriza a "malaise" de uma sociedade que, apesar dos novos meios de comunicação e da facilidade das redes sociais, que se multiplicam, acaba por deixar cada um de nós entregue a uma inevitável solidão. Ainda que rodeados de gente, todos vivemos e morremos sós…