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terça-feira, 26 de julho de 2011

UM COPO DE RUM E UM BOLERO


Existe uma espécie de Clube de fãs da literatura de Leonardo Padura. Quando abrirem as inscrições serei um dos primeiros sócios.

Li todos os romances do autor em que a personagem principal é o inspector Mário Conde, polícia amante de Hemingway e escritor frustrado. Servindo-se da estrutura dos melhores policiais, Padura tem-nos dado um retrato corajoso da Cuba que ama e onde vive. E digo corajoso porque, à margem da propaganda oficial, não esconde os seus podres, as suas contradições, os seus desacertos. Mas traz-nos um amor pela sua terra servido por uma narrativa cheia de música, melancolia e um tremendo respeito por valores de verdade, solidariedade e amizade como é raro ver nos escritores do chamado pós-modernismo.

Na sua escrita, a cidade de Havana está sempre presente com o seu cheiro, o seu som, o seu mar, os seus habitantes generosos e pobres. Dela o autor faz o cenário de quase todos os seus livros. E em todos há uma melancolia dos tempos idos, dos tempos da juventude, dos tempos em que os valores eram claros e inscritos a preto e branco nas ruas percorridas por uma boémia tropical.

Neste romance, Padura vai mais longe. Conta-nos duas histórias que se cruzam e implicam com cerca de século e meio de distância e que ambas nos falam do amor à pátria (parece que esta palavra não está na moda…) e à essência do que é o amor à Ilha de Cuba.
Ao longo do romance e através das suas memórias intituladas “Romance da minha vida” tomamos conhecimento da história de José Maria Heredia, revolucionário independentista e anti-esclavagista, aplaudido poeta inicial da literatura Cubana na primeira metade do séc. XIX, exilado na maior parte da sua vida.

Por outro lado temos Fernando Terry, expulso no início dos anos 80 do séc. XX professor da Universidade por suspeitas de dissidência.

Fernando foge para Madrid e regressa a Cuba 20 anos depois para procurar os escritos perdidos de Heredia, para ver o mar e a Ilha, para se encontrar com os velhos amigos, para se confrontar com os seus fantasmas, para tentar saber quem o denunciou injustamente e o condenou ao exílio e para renascer para o amor que julgava abandonado e esquecido numa gaveta do passado.

São ambas histórias de exílio e nostalgia que se cruzam e se iluminam num exercício brilhante de cruzamento de tempos e de palavras que convergem para um mesmo amor à terra e à identidade cubanas.

Pelo meio vamos conhecendo parte da história da maçonaria cubana que teve um papel fundamental na luta pela liberdade e pela independência e que, talvez por isso, tenha sido a única a ser autorizada nos países socialistas.

Tudo isto constitui um tecido narrativo delicioso onde Padura diferencia o tido de escrita, dando um desenho completamente diferente ao que é supostamente escrito por Heredia (a que confere um perfil exaltado e romântico) da narração dos passo de Fernando que trazem a música de um bolero nostálgico como compete a qualquer bolero. Senão veja-se:

“- Foste tu (que me traíste)?
Miguel Angel demorou a resposta com os olhos avermelhados cravados nos de Fernando.
- Não – disse. – Não fui eu. Porque se tivesse sido eu, ter-me-ia matado – afirmou levando outro cigarro aos lábios e acendendo-o. - Mas posso ajudar-te a saber quem foi.”

A seguir a isto, que nos resta? Um copo de rum e um bolero.

sábado, 4 de outubro de 2008

“A NEBLINA DO PASSADO” de LEONARDO PADURA



De vez em quando faço uma estadia nos policiais como quem vai a águas. Li há dias um da francesa Fred Vargas. Não fiquei profundamente entusiasmado. Seguiu-se um Maigret (A Taberna de Dois Vinténs) para repôr os índices de confiança no género.

Aproveito para falar de um dos meus preferidos: o cubano Leonardo Padura.

Estão vários livros dele publicados em Portugal. Tenho-o seguido com prazer. A sua escrita anda dentro da matriz em que se enquadram o Pepe Carvalho de Montalban e o Montalbano de Camilleri, entre outros. Há dois que me tocaram particularmente, "Morte em Havana" e "Adeus, Hemingway". Hoje falo de "A neblina do Passado".

É uma espécie de bolero melancólico, apaixonado, decadente. A escrita de Padura é assim. Envolve-nos. Parece que nos ignora e de repente percebemos que estamos presos na malha do escritor, que nos identificamos com o seu personagem, Mário Conde e as suas intuições, a sua dignidade e os seus lamentos. E parece que somos amigos e dávamos tudo para estar ao lado daqueles amigos excessivos e trágicos de Mário Conde, ex-polícia, homem de princípios inabaláveis que põe a amizade e a ética acima de tudo o mais.

Nos seus livros, Padura critica claramente o regime cubano pela sua decadência, pela miséria e pela corrupção. Mas ercebemos que é um homem que não quer voltar atrás embora tenha muito pouca fé no futuro.

A narrativa é musical, saudosista, mergulha no passado para nos falar de uma Cuba onde a história deixou muita gente nas pregas dos seus desejos e onde as memórias ainda podem ser escaldantes e perigosas.

Padura continua a sua magnífica personagem, Mário Conde, que bebe demais, faz grandes jantaradas com os amigos quando tem dinheiro, que é de uma incorruptível fidelidade aos seus princípios e à sua amante, Tâmara, que adora livros, sonha ser escritor, encontra-se em sonhos com Sallinger, o seu escritor preferido, e que se apaixona por uma voz que vem do passado num único disco de vinil.

É como se o autor se dirigisse a nós, leitores, e nos arrastasse para a pista de dança quando a pesada noite tropical nos envolve e as palavras nos convidam para o veneno de um bolero. Que mais se pode querer?