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segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A MISERICÓRDIA DOS MERCADOS




Nunca entendi bem o conceito de geração referente apenas à idade. Talvez o entenda melhor no que diz respeito a uma arqueologia de vivências, atitudes, gostos, olhares, desejos

Nesse sentido, eu e o Luís Filipe Castro Mendes somos seguramente da mesma geração. Temos a mesma idade. Conhecemo-nos há muito. Os nossos filhos brincaram juntos. Vivemos seguramente momentos comuns nesse tempo de intensidades e angústias que foram os anos anteriores à queda da ditadura Ambos crescemos nos anos 60 com tudo que isso possa querer dizer.

É claro que temos relações com a escrita poética nascidas de fontes diferentes, influências diversas, relações de diferentes proximidades com as instituições literárias

A verdade é que sempre acompanhei a sua escrita com momentos de júbilo e felicidade. "Este é dos meus!", pensava eu. E é.
Leio e releio a sua poesia e fico mais feliz, por vezes mais triste e melancólico, mais mergulhado na matéria da poesia e, atrevo-me a dizer, mais cheio de mim próprio, ou melhor, dos meus velhos sonhos, raivas, irritações, delírios, paixões que, desde a juventude, não deixaram de me acompanhar.

Li este seu livro, reli-o e li também algumas críticas. Devo dizer que tenho muito pouco respeito pela actividade opininativa que se espalha por alguns jornais e que vem quase sempre revestida de seriedade literária ou cinéfila, ou teatral. Tenho razões para esta má vontade. E guardo recortes para não me esquecer das pequenas e grandes canalhices a que assisti ou até que sofri da parte dessa

Achei irónica a forma como se tentou puxar para o lado a poesia de Castro Mendes tentando "purificá-la" e retirando-a da vil prosa do mundo em que estamos mergulhados para a tornar em pura poesia, límpida, escrita sem mácula, com palavras sem ruas ou cidades, sem pobres e ricos, sem sofrimento ou desilusão em relação ao tempo que vivemos.

A música da poesia de Castro Mendes é neste livro um doloroso e melancólico diálogo com o avanço da idade e a constatação de que o mundo dos mercados é um mundo que escapa ao que foram os nossos sonhos, um mundo que conduz filhos à sobrevivência perante a miséria da economia.

O Luís Filipe não é um poeta político no sentido estrito do termo mas a sua melancolia resulta também do conhecimento directo de um mundo mergulhado em guerra e miséria e na lógica que para muita a gente não oferece discussão e parece até tornar-se na voz natural de um Deus qualquer.

A poesia serve também para isto. Abrir portas de questionamento sobre o mundo que vivemos e abrir pequenas janelas de dúvida amável, de fraterna partilha da arte das palavras.

"REGAS DE PROTOCOLO"

Os que não têm lugar à mesa
devem rodar delicadamente para trás
e afastar-se sem barulho e sem notícia.
Os lugares foram reduzidos por forma a
um número crescente de convidados deixar
de ter lugar no banquete, sem qualquer aviso prévio
ou desculpa improvisada. Prontamente.

Conhecer as regras é necessário.
Ignorá-las
é soberano.






domingo, 31 de julho de 2011

LENDAS DA ÍNDIA



A afabilidade do Luís Filipe Castro Mendes só tem tido para mim paralelo no discreto classicismo da sua poesia.

Desde há anos que acompanho a sua poesia e o rigor elegante da sua obra e reconhecendo nela a primazia dada ao canto do amor.

Estas "Lendas da Índia", resultantes por certo da sua vida de diplomata errante, vêm trazer algumas surpresas. Primeiro, o verso livre que substitui a forma clássica dominante na poesia anterior, só deixando no final do livro dois comoventes sonetos à morte do pai. Segundo, a dominância de uma outra música, menos "sinfónica", porventura, mas mais inquieta, melancólica e tangente ao tema do amor como presença permanente mas enublada pelo tecido translúcido da reflexão sobre a pertença e não pertença, a pátria como raiz em memórias e sinais inequívocos da História dos portugueses na Índia.

A erudição do autor tem o condão de não obscurecer a poesia mas de lhe conferir uma espessura tecida em retratos, reflexões e sussurros nascidos de prosódia envolvente, lenta e bela.

Luís Filipe Castro Mendes nunca foi um poeta especialmente referenciado. E é lamentável. Porque vale muito a pena ser lido. E, hoje por hoje, será uma das poucas vozes que prolonga a dimensão da grande poesia do século XX.