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sábado, 25 de fevereiro de 2012

COM PALAVRAS FAZER ACONTECER


Mário de Carvalho diverte-se e nós também. Os seus contos são frequentemente brilhantes e servidos por uma escrita de altíssima qualidade.

As suas narrativas partem daquela ideia enunciada por Jorge Luís Borges segundo o qual com palavras podemos fazer acontecer um tigre. Ou qualquer outra coisa, digo eu. A palavra acrescenta e expande a realidade. E é nessa capacidade de expandir a realidade que o Mário é um mestre.

Haverá 3 ou 4 linhas nesses contos. O livro é aliás organizado em 4 capítulos sem título.

No primeiro temos os contos totalmente inventados que exploram o universo de certas histórias ou reportagens de cenários de guerra num país árabe e, o outro, em África. Este último “Na terra dos Makaueles” é uma verdadeira obra prima de invenção pstiche e ironia com um final delicioso.

No segundo grupo temos contos mais próximos do realismo. Histórias dos tempos da resistência ao fascismo. Desenhadas com uma excelente capacidade de captar o tom da época quer na acção quer nos diálogos.

O terceiro grupo situa-se no campo do absurdo, outra zona onde o Mário se sente como peixe na água, aliás como aquele estranho peixe de “O Celacanto” que se transformou em primo de instalações artísticas patarecas e foge da galeria passeando ou voando (?) à solta pelas ruas de Lisboa.

O quarto grupo, onde está mais ausente a ironia que é a roupa que melhor veste a escrita de Mário de Carvalho, para nos dar três narrativas obsessivas, inquietantes, um tanto psicologistas.

Li-o num dia e meio. Quase sem parar. O conjunto resulta num tempo de leitura divertida e consistente como é raro encontrar na literatura actual.

domingo, 30 de maio de 2010

Mário de Carvalho - A Arte de Morrer Longe



Tenho uma grande admiração pele escrita de Mário de Carvalho, principalmente porque está latente sempre um humor, uma ironia e paródia muito peculiar e extraordinária.

Neste livro Mário de Carvalho faz novamente um retrato de uma Lisboa (um Portugal) contemporâneo mas com semblantes de um mundo fechado, enfiado em si mesmo. As personagens estão extremamente bem caracterizadas, um casal em fase de separação mas impedidos de concretização por um argumento pouco importante (a tartaruga de estimação); a mãe burguesa, obtusa cheia de estereótipos; o amante da mãe, um policia oportunista; o ambiente de trabalho de Bárbara e de Arnaldo (o casal) lugares aborrecidos em que impera o oportunismo e a manipulação onde a única escapadela são as redes sociais da internet.

Devo dizer que comecei realmente desperto para a leitura, a sentir a leitura como objecto artístico, como interesse quando me apresentaram a escritor de Mário de Carvalho, foi um professor da minha escola secundária que perante o livro que eu estava a ler disse-me, “é pá! Esse livro é muito chato!” e emprestou-me “Casos do Beco das Sardinheiras”. Foi óptimo, porque eu tinha a convicção de que havia livros enfadonhos, não tinha ainda a convicção que a leitura podia ser um divertimento como foi para mim ler qualquer livro de Mário de Carvalho.

Há pouco tempo encontrei num Workshop um ilustrador Canadiano que se apaixonou por Portugal e mudou-se para cá (ainda bem porque o ilustrador é muito bom), entre as coisas que achei fantástico é que nos disse que o primeiro livro que leu em português foi exactamente “Casos do Beco das Sardinheiras”, que apresentava tudo o que lhe fez gostar de Lisboa e que depois até o ilustrou.

Os Livros de Mário de Carvalho podem ser sempre uma forma de um adolescente iniciar o prazer da leitura, podem até ser a forma de um estrangeiro se apaixonar por Portugal. Além de tudo afirmo aqui que Mário de Carvalho é um grande escritor, digo eu, que percebo pouco de Literatura e posso estar profundamente enganado. Como leigo digo-vos que este livro encantou-me e tem todos os ingredientes para nos divertir durante uma horas. O fim não conto, ficariam a saber quem morreu longe, se querem saber ponham-se a ler.