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quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Cada Homem é uma Raça



A chuva é carcereira, fechando a gente. Prisioneiros da chuva estavam Constante Bene e seus todos filhos, encerrados na cabana. Nunca tamanha água fora vista: a paisagem pingava há dezassete dias. Mal ensinada a nadar, a água magoava a terra. Sobre as telhas de zinco, se acotovelavam grossas gotas de céu. Na encosta do monte, só as árvores teimavam, sem nunca se interromperem. 
Mas a bandeira se confirmava, em prodígio de estrela, mostrando que o destino de um sol é nunca ser olhado. 

Mia Couto.


Um das características mais fascinantes da escrita de Mia Couto é a de ser inclassificável. É Mia Couto um escritor africano de língua portuguesa? Certamente, mas não exactamente. Escreve no "dialecto moçambicano" da língua portuguesa inevitavelmente mesclado com regionalismos e adaptações locais, evidentemente, mas não exactamente. Penso que a afirmação mais justa seria a de que Mia Couto escreve em mia coutes, pois a diversidade do seu léxico só é compreensível à luz do universo criado pela extraordinária riqueza das suas narrativas. As suas "estórias" são muito mais que narrativas, pois são simultâneamente fundadoras de um vocabulário e dum mundo que são indissociáveis um do outro. E neste universo narrativo, Mia Couto é imperador, pois só ele tem o dom de dizer exactamente como se pode e se deve dizer. 
     
Nesta colectânea de 11 contos, datados de 1990, Mia Couto nunca nos deixa de encantar e de produzir realidades supra-reais, que são invariavelmente de grande densidade humana e duma vincada universalidade 

Na verdade, eu diria que a universalidade destes contos, está claramente declarada no título da obra. O paradoxo da unicidade no contexto duma definição, a de raça, que é instintivamente associada a uma colectividade é ao mesmo tempo singela quando dita pelo indivíduo que afirma, "A minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual", mas também extremamente actual e representativa da fragmentação das identidades no mundo pós-moderno. De facto, podíamos dizer que é uma conquista civilizacional permitir que cada indivíduo seja respeitado na sua individualidade, mas por outro lado, esta conquista deu origem à ruptura dos laços que davam a cada indivíduo o contexto social da sua existência. 

Mas para perceber a subtiliza destas questões e poder saborear o prazer duma leitura fresca e cheia de surpresas, nada como os contos de Mia Couto, que são, na verdade, o ponto de partida para um novo mundo. Desejo aos leitores uma boa viagem.  

Orfeu B.


domingo, 20 de maio de 2012

UM ÉTICA DA RELAÇÃO ENTRE A ESCRITA E O REAL



Já aqui disse e repito que os meus amigos são os melhores escritores do mundo. Tenho direito a dizê-lo. Sou excessivo. Sou preconceituoso. Sou apaixonado.  O que não me impede de falar aqui apenas dos livros de que gosto e que me parece terem muito para que os possa propor a outras pessoas.

Neste caso apenas posso dar azo ao júbilo por ter lido um excelente romance de um excelente amigo onde e torna comovente a humanidade que transpira em cada linha.

Acalmem-se, no entanto, os que tremem de medo à mínima suspeita de se estar na presença de mais um livro “infectado” pelo terrível Realismo Mágico.

“A confissão da leoa” é um romance duro, denso, inquietante, corajoso. Não facilita. Tendo como pano de fundo um acontecimento real testemunhado em parte pelo escritor. Trabalha sobre o fio complexo da mitologia e das crenças ancestrais para  revelar a violência em que assenta o domínio masculino sobre as mulheres numa aldeia do Norte de Moçambique.

A narrativa de “A confissão da leoa” resulta do cruzamento de duas vozes. A de Mariamar, vítima da violência masculina, e a do caçador de leões, ou de leoas, o homem que vai fazer a última caçada da sua vida e que procura desesperadamente o amor, o verdadeiro amor. E talvez haja uma terceira voz, disfarçada mas presente, a do próprio escritor, apenas referido em pequenas citações como se estivesse completamente fora da acção.

A história desenvolve-se como uma espécie de cebola que se vai descascando e mostrando que a realidade é feita de camadas que, retiradas, vão revelando sucessivos dados novos, novos pontos de vista, nova luz sobre acontecimentos muito escondidos numa sopa final onde convergem preconceitos, tradições, mitologias diversas, medos ancestrais.

O Mia conteve-se aqui em relação à sua encantadora invenção vocabular para se centrar na complexidade das personagens e no entrançado de real e irreal, sonho e pesadelo, verdade e ficção

A prosa envolve-nos, agarra-nos, seduz-nos, engana-nos, desvenda-nos estranhos caminhos, na busca de uma estética e de uma ética da relação da escrita com a real… Enfim, tudo  o que se pede a um grande romance.


domingo, 24 de abril de 2011

LITERATURA E FEITIÇARIA



Mia Couto é um contador de histórias e um feiticeiro na oficina das palavras. Sabe comboiá-las. Sabe fazer com que se torçam e contorçam como artistas do grande circo da literatura.

É claro que sabemos que literaturas há muitas. Modernas e pós-modernas e outras que nem uma coisa nem outra. E são sempre pontes de palavras que vão do escritor para o peito de outras pessoas, mesmo aquelas que nunca o leram. Ou que vão do escritor para sítio nenhum , ou melhor, para um estranho deserto onde alguns leitores encontram uma trave ou um degrau da grande casa da sua desolação.

A literatura do Mia é uma ponte que vai longe no coração das pessoas e na respiração da terra.

Os poemas deste livro são exactamente o que são e não o que outras pessoas que andam com definições de poesia no bolso quereriam que eles fossem.

A poesia do Mia não é muito diferente dos seus contos e dos seus romances. É a voz de um homem que trabalha do lado da amabilidade, da humanidade, do grande fogo preso de quem se apaga perante as mãos, os olhos, as alegrias e o sofrimento dos seres humanos em seu redor, para, num acto de magia, transformar a escuridão em luz, e a luz no bailado das borboletas que são as suas palavras.

Muitas destes poemas são histórias pequeninas, retratos inesperados de gente vista por dentro, pequenas frases, quase aforismos. E sobretudo são declarações de amor pelo amor, pelos homens seus vizinhos, pela mulher, pela vida.

sábado, 11 de outubro de 2008

VENENOS DE DEUS REMÉDIOS DO DIABO


“VENENOS DE DEUS, REMÉDIOS DO DIABO”


Um livro que nos enche a alma como quase toda a prosa e poesia do Mia. As personagens são muito bem desenhadas, cheias de contradições, de humanidade, de sonhos naufragados e memórias dolorosas.

Bartolomeu Sozinho que está a morrer e quer deixar de sonhar. A esposa Mundinha que vai chorar para o rio porque não se deve chorar em casa. O português doutor Sidonho à procura do amor. Suacelência, o Administrador balofo e cheio de si próprio, político igual aos políticos do mundo inteiro.

Tudo servido por uma invenção verbal notável e que é a marca do Mia que, por vezes parece quase exagera nos aforismos africanizantes. Mas isso faz parte do seu processo de escrita, da sua pontuação, e, embora esteja no limite, não chega para ensombrar o correr rápido, seguro e encantador da narrativa.

Nesse decorrer da história vamos acompanhando o jogo de aproximação/rejeição entre um português e o mundo moçambicano e constatação no final de não ter penetrado aquela realidade profunda para além de uma falsa superfície.

A história também nos fala da forma como a memória colonial perdura e de como, por exemplo, uma bandeira da Companhia Colonial de Navegação se torna na Bandeira do Sporting.

Aliás, toda a história é um carrossel de mentiras e aparências, sombras e sonhos que se enredam num caleidoscópio que se torna vertiginoso no final, revelando realidade sob realidade até que o leitor não saiba bem qual é a verdadeira verdade da história que leu.