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terça-feira, 14 de abril de 2015

As bibliotecas do futuro

Octave Uzanne (1851-1931) é para a maioria dos leitores um autor desconhecido, apesar de ter sido um dos mais importantes e interessantes homens de letras e publicistas franceses dos finais do século XIX e da primeira metade do século XX. Para os bibliófilos, contudo, é uma figura incontornável, pelas dezenas de textos que publicou sobre o livro e sobretudo sobre a figura excêntrica, maníaca e enigmática do bibliómano, sendo ele próprio um dos maiores representantes da espécie.





aqui foi comentado pelo leitor Orfeu B. um dos seus textos mais importantes sobre a temática: O Fim dos Livros, um texto breve, publicado originalmente em inglês ("The end of books"), no número 2 da Scribner's Magazine e no volume Contes pour les bibliophiles, ambos de 1894.






imagens retiradas de
http://www.octaveuzanne.com/

Neste, o autor prevê que o futuro do livro será aquilo a que hoje chamamos audiolivro:


    "Não acredito (...) que a invenção de Gutenberg possa não cair, mais ou menos proximamente, em desuso (...).
     (...) os nossos descendentes já não confiarão as suas obras a este processo bastante velhinho e na realidade fácil de substituir pela fotografia, que está ainda nos seus inícios.
     O fonógrafo destruirá provavelmente a tipografia. Os nossos olhos são feitos para ver e reflectir as belezas da natureza e não para serem usados na leitura de textos (...)
     Os nossos ouvidos, pelo contrário, são chamados a dar a sua contribuição com menos frequência.
      (...) Nessa altura, que está bastante próxima, já não se chamará escritores aos homens de letras, mas antes narradores; o gosto pelo estilo e pelas frases pomposamente adornadas perder-se-á (...)”

(tradução de Jacinta Gomes, na excelente edição da Palimpsesto)







A leitura do pequeno conto pode ser complementada por um outro texto do mesmo autor, publicado em 1901 na Revue Franco-Allemande, intitulado “Les bibliothèques de l'avenir" (tanto quanto sei, ainda sem tradução portuguesa). É um texto ainda mais curto, sem o recorte literário do anterior, um pouco mais profundo e filosófico, mas igualmente pleno de humor e de ironia.

Uzanne começa por fazer uma crítica aos bibliófilos do seu tempo, por não se preocuparem nem se inquietarem com o futuro das suas bibliotecas. Vivem alegre e festivamente com os seus livros, como nos braços de uma amante, sem pensarem no acolhimento que estes possam vir a ter no futuro.

Mas o tema central são as bibliotecas do futuro, que Uzanne prevê que venham a ser constituídas por uma escolha muito criteriosa de livros, excluindo romances e textos de teatro:

“Os romances, esses enganadores da imaginação, esses inúteis gastadores de tempo serão proscritos para sempre, assim como os textos de teatro, que poderemos continuar a ver representados, mas que jamais voltarão a ser lidos.”

As bibliotecas dos bibliófilos do futuro serão um imenso “directory” de livros, constituído por dicionários, enciclopédias condensadas, compêndios, glossários de palavras e de coisas, obras de referência e índices de todos os géneros. Os livros serão bem encadernados e marcados com símbolos que permitam a sua rápida identificação.

Os homens de letras pertencerão a uma espécie de clubes ou círculos, onde os livros que constam dessas obras de referência podem ser lidos nos seus salões ou ser requisitados para leitura domiciliária através do telefone.

Os livros da época de Uzanne não serão mais do que pesos-mortos para as gerações pragmáticas do futuro, que se livrarão deles para prosseguirem a sua rápida marcha em frente.

A leitura de “Les bibliothèques de l’avenir” não só complementa (por vezes até contradiz) O Fim dos Livros, mas também nos diverte quando verificamos se as previsões se aproximam ou afastam da realidade do nosso tempo. Ambos os textos primam pela ironia, pois, como em todas as utopias, a previsão do futuro diz-nos provavelmente mais sobre as aspirações, receios e mundividência de quem escreve do que sobre o mundo que profetiza.

Para ler o texto de Uzanne em formato pdf:

https://www.hightail.com/download/UVJnYUo4ckk5eFVsYzhUQw

Para consultar o site de Bertrand Hugonnard-Roche, o maior especialista actual em Octave Uzanne:

sábado, 25 de dezembro de 2010

O Fim dos Livros




Foi em Londres, há cerca de dois anos, que a questão do fim dos livros e da sua completa transformação foi agitada num pequeno grupo de bibliófilos e de eruditos, do decurso de um serão memorável cuja recordação ficará gravada na memória de cada um dos assistentes.

Octave Uzanne


Exactamente, uma tertúlia de eruditos após uma famosa palestra de Sir William Thomson, ou Lord Kelvin como é mais conhecido, no final do século XIX na Royal Society, discute enquanto ceava o futuro da humanidade, dos costumes e das artes. O ponto de partida era a previsão matemática (completamente equivocada pelo desconhecimento da radiatividade, hoje o sabemos) do cientista britânico, e segundo a qual, o globo terrestre, e com este a raça humana, encontraria ao seu ocaso ao fim de 10 milhões de anos,

E sob os efeitos da champanhe um dos membros da tertúlia toma a palavra para discorrer sobre a predominância moral e intelectual dos novos continentes sobre os antigos, lá pelo final do próximo século. Anunciava também que a América tomaria a dianteira do movimento de marcha do progresso ...

"Um afável vegetariano e sábio naturalista, deleitou-se a imaginar" como a nossa alimentação seria doseada sob a forma de pós, xaropes, pílulas e biscoitos e que "não mais haverá padeiros, talhantes e comerciantes de vinho, nem restaurantes e merceeiros, apenas alguns droguistas, e toda a gente livre, feliz, capaz de prover às suas necessidades com alguns céntimos ..."

Um conhecido pintor e crítico de arte, místico, esotérico e simbolista discorre sobre as artes plásticas. "Aquilo a que chamamos arte moderna é verdadeiramente arte? E o número de artistas sem vocação que a exercem mediocremente, aparentando talento, não demonstra suficientemente que se trata, antes, dum ofício ao qual tanto falta a alma criativa quanto a visão?" E prevê que a proliferação dessa arte medíocre invadiria os museus e que estes seriam incendiados para evitar contagiar a criatividade de génios nascentes. A ilustração, a fotografia e o teatro ocupar-se-iam de retratar os acontecimentos da vida e surgiria então uma arte renovada, que subtil exprimiria o esencial, e que estaria reservada uma aristocracia bem pensante. A fotografia e a ilustração bastariam à satisfação popular.

Finalmente surge a questão dos livros. Como serão os livros no futuro? E toma a palavra o nosso autor, para após algumas reflexões de natureza histórica e técnica sentenciar sem muitas dúvidas que: "... o elevador pôs fim às escaladas dentro de casa; o fonógrafo destruirá provavelmente a tipografia. Os nossos olhos são feitos para ver e reflectir as belezas da natureza e não para serem usados na leitura de textos ..." Os ouvidos são chamados a dar a sua contribuição ...

Um opúsculo divertido que se lê de um fôlego e que nos dá uma interessante visão de como o futuro era visto pelos nossos antepassados. O autor, Octave Uzanne (1851-1931), um bem conhecido bibliófilo no seu tempo, foi também autor de romances e estudos bibliográficos, para além de obras sobre a moda feminina. O seu amor aos livros conduziram-no com naturalidade a especular sobre o seu futuro. E se a sua previsão de que os livros seriam substituídos pelos áudio-livros não se concretizou, não deixa de ser verdade que a cultura dos livros está sob constante ataque dos modernos meios de comunicação social, e que as suas indagações permanecem válidas. Serão os livros substituídos por versões electrónicas? Sobreviverão os livros e as bibliotecas ou serão os seus conteúdos digitalizados e mantidos por não se sabe quanto tempo em bibliotecas virtuais? Sem os livros a humanidade nunca teria chegado ao actual estágio de desenvolvimento, o futuro do livro deve preocupar a todos.


Orfeu B.