Mostrar mensagens com a etiqueta Patrick Modiano. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Patrick Modiano. Mostrar todas as mensagens

domingo, 4 de janeiro de 2015

As Avenidas Periféricas




O mais gordo dos três é o meu pai, …

Uma velha fotografia, descoberta por acaso no fundo de uma gaveta e à qual, com cuidado, tiramos o pó. A noite cai. Os fantasmas se encontram como de costume no bar do Clos- Foucré …

O mais gordo, sentado numa poltrona em frente deles desapareceu um belo dia. Um barão de qualquer coisa …

Conheceu dezenas assim, que se encontravam ao bar, sonhadores, e que depois desapareciam. Impossível lembrar-se de todas as caras. No fundo … está bem, se quero a fotografia ele dá-ma. Mas eu sou novo, diz ele, e faria melhor em pensar no futuro.

Patrick Modiano

Um Proust dos nossos tempos. Um escritor preocupado com o trabalho da memória e da inserção do indivíduo no tempo e na História. Fascinado e obcecado com o desonroso período da ocupação nazi, Modiano cria os seus personagens através do ténue rasto que deixam no passado.  

Concretamente, em as As Avenidas Periféricas (1972), Modiano desliza através do tempo e nos transporta a uma pequena aldeia junto à floresta de Fontainebleau, onde reúnem-se nos fins de semana alguns personagens pouco recomendados. Entre estes, o pai do narrador, um judeu que sobreviveu à ocupação vivendo na semi-clandestinidade e através de negócios pouco claros. Paralelamente à ternura que imprime ao exercício de perdoar as acções do etéreo e acossado pai, o escritor empreende uma vigorosa tentativa de definir os seus personagens e de fazer sentido às suas existências no contexto de circunstâncias históricas extraordinárias.

Patrick Modiano é o décimo quinto escritor francês a ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura.  

Orfeu B.





terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

OS PASSOS NA CIDADE


Uma pérola, este livrinho de Modiano. A reconstrução da memória é o seu grande tema. A memória de pequenas coisas, de personagens pouco importantes, de ruas que desapareceram, da alma de uma cidade que se transforma com o tempo e de repente já não é a mesma, já não é casa que guarde momentos talvez vividos com intensidade mas fugazes como tudo na vida.

A história de Modiano constitui-se como se partisse de uma máquina de filmar que roda em torno da jovem fascinante e enigmática Louki, passando como se não tivesse destino que cruzar a cidade de Paris dos anos 60.

Esta máquina de filmar é, no entanto, manipulada por diversos observadores que vão construindo o mosaico de uma vida obscura e, no entanto, tão cheia de mistério.

Paris, as suas ruas e praças são o palco obsessivo e talvez apaixonado da narrativa onde vamos assistir ao reconstruir de pedaços da vida de Louki, seguindo os seus passos desde que aparece pela primeira vez num Café do Quartier Latin, passando pelo casamento com um homem que nada sabe dela, pelo seu interesse por uma abordagem esotérica do mundo, pelos dias partilhados com o amante, até um final discreto como tudo na sua vida.



A escrita de Modiano, de uma grande elegância, parece não tocar na matéria que aborda. Deixa-nos sugestões sempre envolvidas num nevoeiro que nos chama e nos puxa como se quiséssemos afastar as cortinas translúcidas com que nos leva a desvendar aos poucos a verdade obscura daquela personagem que, viremos a saber ou intuir, através do sexo e da droga busca serena e talvez desesperadamente um sentido para a vida.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

"DORA BRUDER" de Patrick Modiano




Um momento muito sério de luta pela preservação da memória num romance que não é bem romance e não corresponde a nenhum dos grandes modelos da narrativa tradicional.

Tudo começa com um apelo lido num velho jornal de 1941 em que uma mãe vem pedir dados sobre a filha, Dora Bruder, desaparecida há 15 dias de casa, em Paris.

O livro organiza-se de forma quase burocrática numa busca obsessiva de registos de polícia, de hotéis, de escolas, do Registo Civil, na tentativa de desenhar o percurso de Dora Bruder, adolescente judia, desde que fugiu do Colégio do Sagrado Coração de Maria até desaparecer no comboio para Aushwitz.

O percurso começa por parecer flat, aborrecido e pouco motivador. No entanto, vai-se tornando irrespirável pela forma como, a pouco e pouco, o autor desenha o ambiente policial, escuro, miserável, da vida e, sobretudo, da vida dos judeus, durante a ocupação de Paris.

Depois, Modiano começa a cruzar os percursos e os locais de Dora Bruder com os da sua vida e da vida de seu pai, judeu de origem italiana.

Modiano passa ao lado da descrição das emoções mas deixa-nos conviver com a sombra das emoções que foram incompreensão, pavor e medo.

O autor interroga mais do que afirma. Mas a sua interrogação em torno da questão judia, a transcrição de relatórios de polícia, cartas dos presos, uma teia de pequenas referências apanha-nos pela garganta e mostra-nos como pode ser fundamental o ofício de preservar da memória de gente miseravelmente apagada da vida.

Saiu há menos de uma ano em França um seu romance “Dans le café da la jeunesse perdue” sobre a vida de jovens em torno de um café dos anos 60. Pelas recensões que li deve ser imperdível.