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sábado, 19 de dezembro de 2015

O MERGULHO NA ESTRANHEZA




Peter Carey, premiado escritor australiano, escreveu um delicioso livrinho publicado há tempo pela Tinta da China e intitulado "O Japão é um lugar estranho".

O livro de Peter Carey era um repositório de situações estranhas. O livro de Ricardo Adolfoque pode perfeitamente ser alinhado ao lado de Carey, na mesma prateleira, embora o primeiro seja uma espécie de reportagem e o segundo uma obra de ficção.

Mas ambos abordam a vida dos japoneses nessa imensa metrópole que é Tóquio, num Japão que foi arrasadpo pela Guerra e onde, dizem,-me, houve um corte radical com o passado, para se construir um presente onde a importação de tradições e hábitos ocidentais se faz de forma completamente arbitrária e estranha para um leitor desavisado como é o meu caso.

Ricardo Adolfo é um escritor nascido em Angola, e que viveu vários anos num dos subúrbios do Concelho de Sintra. Conhece e usa brilhantemente a forma de falar e de pensar dos jovens desses bairros. Escreveu 3 ou 4 romances muito ineteressantes dos quais saliento "Mizé, antes galdéria que normal e remediada".

Ricardo Adolfo foi viver para o Japão e dá-nos agora uma imporessionante descrição do quotidiano, da forma de viver e pensar dos japoneses de um subúrbio de Tóquio.

A ironia começa porque o narrador do livro descreve um subúrbio de Tóquio a partir de uma linguagem típica do habitante de um subúrbio de Sintra.

No início explica-nos muito vagamente que seria um pequeno marginal com problemas repetidos com a polícia portuguesa e que ao mudar de país procura também mudar de vida e integrar-se na vida normal dos japoneses, o que inclui comprrender de que é que consta essa vida, até casar-se com uma japonesa que parece ter preocupações muito longínquas de uma portuguesa do mesmo escalão.

De surpresa em surpresa vamos caminhando apaixonadamente pela prosa do autor, tentando arrumar um puzzle de peças difíceis de entender aos olhos de um ocidental impreparado e explicadas pelo olhar amalandrado do Cacém ou do Algueirão que é o do narrador.

Não se pode falar exactamente de romance mas de uma sequência algo frenética de histórias e acontecimentos hilariantes que foram publicados como crónicas na revista Sábado.

Talvez nem tudo seja verdade. A leitura deixa-nos frequentemente na possível fronteira entre ficção e realidade. O resultado é sempre ou quase sempre muito divertido.

Desde a naturalidade com que as pessoas dormem no emprego, passando pelo Natal do qual, segundo o narrador, os japoneses apenas retiveram a ideia de amor e, assim, torna-se quase obrigatório passar o dia 25 de Dezembro com uma parceira num Motel de encontros ocasionais, até ao protesto da jovem esposa por o marido não ter uma amante, facto que a desvaloriza aos olhos da comunidade.

Li o livro num ápice como me tem acontecido com as obras do autor. É uma escrita talvez única n nossa literatura actual. Uma escrita que vale muito a pena ler.


domingo, 25 de agosto de 2013

MIZÉ OU MUITO MAIS QUE UMA MAGNÍFICA NOVELA SUBURBANA



O título não será particularmente apelativo para quem, nos livros que escolhe, procura seriedade, seja lá o que isso for. E o início, embora num diálogo muito bem "esgalhado", pode fazer suspeitar estarmos na presença de uma novela ligeira das que põe o acento sobretudo na galhofa. Mas depressa percebemos que essa galhofa é muito mais séria do que parece.

De facto, no início há um certo tom que lembra os malandros de Mário Zambujal, o Coca-cola Killer de António Vitorino d'Almida ou, eventualmente, o Molero de Dinis Machado. mas também acabamos por perceber que Ricardo Adolfo constrói um mundo próprio, distinto de todos os outros que citei.

Trata-se de um belo romance que abre caminhos muito pouco trilhados na nossa literatura, que nos conta uma história suburbana, passada no interior do Concelho de Sintra, para cima da IC 19 e da linha do comboio.

Mizé é uma típica cabeleireira do Cacém, de Mira Sintra, Mem Martins, ou de ou de um desses bairros onde se misturam pobreza, droga, marginalidade, sonhos sem consistência nem futuro, rituais sem alma. Palha, o marido, é um vendedor de batatas fritas para restaurantes, cafés, supermercados.

Os diálogos são notáveis, logo a começar pelo diálogo da primeira página sobre o casamento e tendo momentos fantásticos como, por exemplo, a discussão do silicone para as mamas da Mizé.

O autor conhece bem as pessoas de que fala. E torna a pobreza das ideias e do vocabulário, numa estética bem conseguida que, se de início, é de uma evidente comicidade, vai a pouco e pouco tomando uma tonalidade constrangedora, amarga, dolorosa, á medida também que as personagens vão ganhando consistência e a sua pobreza de objectivos, de vida, de linguagem, saltam à vista e deixam o leitor a torcer para que não lhes aconteça mais nenhuma tragédia.

Este é o mundo em que os sonhos são desmesurados, ou melhor, desmesuradamente tolos e restritos, e as maneiras para lá chegar são as mais miseráveis e pequeninas, concursos de televisão, totoloto, filmes pornográficos, um mundo onde a probabilidade de falhanço está ali mesmo ao sair a porta de casa. A busca do suceeso neste universo Trash, como Sofia Coppola lhe chama, é a do nada, a de conseguir qualquer coisa à custa de qualquer coisa. E o amargo é ficarmos a pensar que esta Mizé e o marido até se calhar nem são más pessoas. Apenas não sabem encontrar um sentido para as suas vidas. Apenas são trash. Apenas trash. Mas é por eles que passamos nas ruas todos os dias.