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terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Instruções para salvar o mundo

Para mim todos os livros (que valem a pena ler) são “instruções para salvar o mundo”, ou antes “instruções para me salvar a mim, no mundo”. Porque, como já alguém disse, fazem-nos resolver problemas da nossa relação com este universo que, por vezes, é demasiado cruel. Por isso, à partida, este titulo do livro da Rosa Montero parece redundante. Mas não é! Apenas é uma caixa de surpresas, um antídoto para toda a malvadez, uma espécie de “conto de Natal” como afirmou o El Mundo (escrito nas abas do livro).

Alem das passagens maravilhosas que a Rosa Montero nos habituou nos seus livros, também temos um livro mais coordenado com a nossa condição de “seres suburbanos” nesta “aldeia global”. Suburbanos porque, mesmo que queiramos estar “in”, estamos sempre na margem, fora deste centro da existência que, cada vez mais, é unicamente virtual. Ninguém vive nesta cidade, apenas desejam viver. 

A história de quatro personagens (ou talvez mais) em queda acentuada num precipício e que vão acabar por se cruzar por circunstancias variadas. As personagens (um taxista viúvo, um médico desleixado, uma prostituta, uma ex-professora universitária) são uma espécie de mortos vivos, que rejeitam viver neste mundo, fogem para uma “second life”, para uma recordação ou simplesmente procuram um local vazio de anestesia completa porque a vida dói. As suas acções, algumas não intencionais, permitem uma espécie de inter-ajuda. Todas elas tem um momento breve de bondade, uma capacidade de nobreza quase raro nesta malha urbana atestada de corpos que se movem de um lado para outro sem saírem do SEU lugar. 





sábado, 27 de setembro de 2008

O processo criativo

Peço desculpa pela minha pouca participação no blogue neste mês de Setembro, mas nós os insectos somos formigas nesta altura do ano, depois de termos sido cigarras noutras épocas. O inverno esta a chegar e temos que recolher alimento. Como ainda sou novo nestas andanças não me habituei a este choque térmico do final do verão. Melhores meses virão, meses de muitas leituras.






Acho de uma generosidade o criador que nos fala do seu processo criativo. Quando faz isso apresenta-se nu. Esta atitude é louvável e pedagógica. Estimula a criatividade e desmistifica o artista. Coloca-se ao nosso lado, numa situação de igualdade fraterna. Mas também empurra-nos para este abismo que é criar.

Rosa Montero e a "Louca da Casa", mostra-nos como esse bicho que é a imaginação se mexe na nossa cabeça, na cabeça de muitos autores. Além de mais é um livro que nos dá referências e convida o leitor a ler. Rosa Montero é divertida e conta-nos muitas histórias da sua vida, algumas contrariam-se, o que nos leva a querer que é "A Louca da Casa" em acção e que essa realidade só existiu na cabeça de Rosa Montero.



Gianni Rodari fez a sua "Gramática da Fantasia" onde nos convida a incentivar as crianças para a escrita, jogos e abordagens que podemos fazer para despertarmos "A Louca da Casa".





António Tàpies em "A Prática da Arte" pensa muito sobre o processo criativo, ele racionaliza todo um processo e método artístico muito próprio. Aqui a "Louca da Casa" anda muito atenta, sente esse despertar da terra, esse movimento das pessoas na cidade.






Bruno Munari em quase todos os seus livros mostra como pode ser estimulante uma observação da natureza das coisas, este designer funcionalista no livro "Das Coisas Nascem Coisas" convida à simplicidade dos objectos, introduz novas áreas de abordagem do design que ainda hoje é importante, embora o livro tenha sido escrito em 1981.



domingo, 14 de setembro de 2008

Rosa Montero



 "Ao amar somos eternos. Da mesma forma, quando estamos a escrever um romance, nos momentos de graça da criação do livro, sentimo-nos tão impregnados pela vida daquelas criaturas imaginárias que o tempo, a decadência ou a nossa mortalidade deixam de existir. Também somos eternos enquanto inventamos histórias. Escreve-se sempre contra a morte."

" O processo de socialização, aquilo a que chamamos educar, ou amadurecer, ou crescer, consiste precisamente em podar as florescências fantasiosas, em fechar as portas do delírio, em amputar a nossa capacidade de sonhar acordados; e ai daquele que não saiba selar essa fissura com o lado de lá, porque provavelmente será considerado um pobre louco.
Pois bem, o romancista tem o privilégio de continuar a ser uma criança, de poder ser um louco, de manter o contacto com o disforme." 

Rosa Montero "A louca da casa"


O artista plástico Mike Kelley tem uma frase que ilustra muito bem essa ideia, esse sentimento e essa experiência de quem usa, como ferramenta do seu labor, a imaginação: " Os Artistas são pessoas a quem a sociedade concede o privilégio de agir de uma maneira que não é a que se espera por parte dos adultos"

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Amantes e Inimigos


Tenho o terrível defeito de tentar ler todos os livros de um autor que gosto. Esta acontecer com a minha escritora de eleição, Rosa Montero.

Este é um livro de contos.

Numa pequena explicação que nos dá ao início do livro, a nós leitores, que merecemos todas as explicações dos autores: como leitora aprecia os contos mas como escritora prefere os romances, porque lhe dá mais possibilidades “mais propícios à aventura e por suporem uma longa e incerta viagem ao fabuloso mundo do imaginado”. No entanto ela vê os seus contos como “uma espécie de exploradores narrativos, uma sonda aérea lançada em direcção a um novo campo expressivo.”. Talvez muitos autores fazem os seus contos um estádio do seu processo criativo, lembro-me de Murakami que no livro “A Rapariga que Inventou o Sonho”, encontramos ai personagens e narrativas que aparecem noutros livros dele.

Estes contos de Rosa Montero entusiasmam, todos eles falam de relações amorosas onde por vezes a paixão é afastada na vida das pessoas, pelos receios, por dificuldades do quotidiano ou por outras razões. A relação amor ódio está muitas vezes presente, tal como no livro de Rubem Fonseca “Ela e outras mulheres” que parece a versão deste livro no masculino. Engraçado, como estes autores tão opostos nas suas ideias estão tão próximos nos seus livros, nas suas narrativas. Quase que podíamos dizer num campo puramente literário que Rosa Montero e Rubem Fonseca são “Amantes e Inimigos”, estes dois escritores de países que fazem fronteira connosco – e nós leitores portugueses aqui no meio deste romance.

Dos contos aqui apresentados, não vos sei dizer qual o preferido. Gostei especialmente do “A glória aos feios” que nos apresenta dois adolescentes que vivem um pouco excluídos pelas suas naturezas físicas e que um dia por acaso encontram-se “Foi no dia 11 de Maio e, embora talvez não o recordem, quando os olhos de Lolo e Lupe se cruzaram, o mundo tremeu, os mares agitaram-se e os céus encheram-se de meteoros ardentes. Também os feios e os tristes têm os seus momentos de glória.”

Vou continuar a ler tudo dos meus escritores preferidos, eu, um leitor obcecado.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Autores memoriosos e amnésicos

O Tiago evocou aqui a Rosa Montero e o José no seu comentário evocou um belíssimo livro dela: A louca da casa. Nesse livro a autora faz uma distinção assaz interessante que aqui repesco. Ela divide os autores em memoriosos e amnésicos. Os primeiros são os nostálgicos do seu passado, aqueles que pensam ter perdido o paraíso em algum momento da infância e escrevem, diz ela, “para o tentar recuperar, para retomar aquilo que se foi, para lutar contra a decadência e o fim inexorável das coisas”.
Continuando com este raciocínio, e simplesmente agarrando noutros nomes, a autora alega o contrário: que outros escritores encontraram na literatura a forma de escapar do inferno ao qual a sua infância esteve submetida; adoptaram-na como um meio de construir para si próprios um lugar seguro para se refugiarem da ameaça exterior. Estes, continuo a citar Rosa Montero, são os autores amnésicos, os que “não querem ou não podem recordar; certamente fogem da sua própria infância e a sua memória é como um quadro mal apagado”. Para ela, mesmo as suas formas de escrever são diferentes. Os primeiros, como Tolstoi, “partilham um estilo literário mais descritivo, reminiscente, cheio de móveis, objectos e cenários carregados de significado para o autor e desenhados até ao mais pequeno detalhe porque se referem a coisas reais petreamente instaladas na recordação”. Os segundos, exemplificados por Conrad, “apesar de reproduzirem quase ponto por ponto uma experiência real do escritor, não têm nada a ver com o rememorativo e autobiográfico. Quando Conrad fala da selva, não está a descrever a selva do Congo belga, mas sim a selva como categoria absoluta e nem sequer isso, porque essa floresta enigmática e horrivelmente fértil representa a escuridão do mundo, a irracionalidade, o mal fascinante, a loucura”.

quinta-feira, 31 de julho de 2008

Rosa Montero – Coração Tártaro


Mais uma história de mulheres de Rosa Montero. Em “História do Rei Transparente” há a história de uma mulher que perante uma guerra e a morte dos seus familiares, faz-se passar por homem para sobreviver. Transforma-se numa letrada guerreira. Na “Filha do Canibal” encontramos uma mulher que perante o misterioso desaparecimento do seu marido embarca numa aventura. Neste livro vamos encontrar uma mulher, também sozinha, que no decorrer de um telefonema ameaçador entra em pânico e inicia um percurso, um percurso pelas memórias da sua vida, da sua dependência da heroína (a branca, a rainha como ela a designa), do abuso do pai, da possessão de um irmão gémeo, da sua decadência, das suas fragilidades, das fragilidades das pessoas visitadas e principalmente um percurso pelos livros e histórias. Estas histórias vão influenciar a percepção que a personagem tem da realidade e até vão ser responsáveis pela sobrevivência desta mulher que vive constantemente perto de um precipício. Esta também é história de uma mulher que luta pela sua liberdade, será, esta também, uma particularidade dos livros de Rosa Montero.
Para mim foi bom ler este livro, quase terapêutico, visto que fui assaltado e ajudou-me a compreender o outro lado, onde também há vitimas. Perceber que somos todos escravos, toxicodependentes. A certa altura a personagem pensa “Cada qual constrói o seu próprio tormento.” – Penso nisto mas não utilizo para fins morais. Outros dos aspectos deste livro é o convite que nos faz a outras leituras: a de Jorge Luís Borges “História Universal da Infâmia” (que tenho em casa e vou já começar a ler) e “A Sangue-frio” de Truman Capote. É bom que um livro nos ligue a outros livros, como um link no hipertexto. É também disto que nós, os 7 Leitores, procuramos, as ligações. Acho eu, que tenho poucas certezas.