sábado, 1 de novembro de 2008

VIDAS DE ESCRITORES



Livrinho da Quetzal que anda por aí nas feiras do livro barato, vendido quase ao desbarato.

Escrito com a invulgar elegância de Javier Marías.

A primeira parte é constituída por um conjunto de pequenas crónicas sobre um ou outro aspecto da vida de vários grandes escritores.

É curioso como se torna por vezes desagradável conhecer alguns aspectos menores ou mais comezinhos da vida dos escritores. Há qualquer coisa de ignóbil, de perversidade voyeuse em pôr a nu essas pequenas/grandes infâmias e menoridades.

Pior é, no entanto, tentar entender como gente tão reprovável e baixa e horrorosa, em vários sentidos das palavras, pode derramar imenso talento em obras que ficam como património da humanidade. Casos, entre outros, de Mishima, Thomas Mann, James Joyce.

Na segunda parte aparece um ensaio brilhante sobre retratos de escritores. Numa perspectiva interessantíssima, Marias lê e ensina-nos a ler uma fotografia. E analisa cada pormenor da fotografia tentando entender a imagem que cada fotografado pretendia dar de si para a posteridade através da sua atitude física, pose, roupa, etc.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

ARSÈNE LUPIN OU DAS BOAS E DAS MÁS RAZÕES EM LITERATURA

Maurice Leblanc



Arsène Lupin é um dos grandes heróis da literatura do século XX. Da literatura francesa, da literatura mundial. Mas, coisa curiosa, a celebridade do autor das obras que
têm o Arsène Lupin como figura central – Maurice Leblanc – não acompanha, nem de longe, a fama da personagem. Na realidade, Maurice Leblanc continua a ser um desconhecido para o grande público. Isso, e algo mais, acaba de me ser recordado num número já antigo da revista Lire, que acabo de reler. De entre os artigos inscritos nessa revista, avulta a entrevista feita a Jacques Derouard, biógrafo do autor e coeditor de Arsène Lupin. Nela, Derouard chama a atenção para um aspecto da personalidade de Leblanc, que tem algo de dramático: ele amava e odiava Arsène Lupin. Esta ambivalência de sentimentos acompanhou-o durante toda a vida e atingiu, nos últimos anos, uma acuidade doentia. Eu explico-me.
Leblanc é de origem normanda, como Flaubert e Maupassant, autores de quem recebeu uma forte influência. Foi sob a sua influência que escreveu os primeiros romances. Se as temáticas abordadas têm a ver com autores ingleses de finais do século XIX, a forma e a trama sentimental muito devem aos franceses da sua devoção. Mas, contrariamente ao que seria de esperar, as suas obras, embora reconhecidas pela crítica, não tiveram êxito perante o público. O que não aconteceu com as histórias do Arsène Lupin, o ladrão cavalheiro, “dandy” que pratica o roubo como quem realiza uma obra de arte. Histórias publicadas inicialmente na revista “Je sais tout” e, de seguida, saídas em livro. O êxito, em França e no mundo, é fulminante, o que o transforma num dos escritores mais populares de língua francesa. Essa popularidade agrada-lhe (até pelos proventos que arrecada) e incomoda-o: a sua aspiração de ser considerado um autor clássico, que busca assento na Academia Francesa, vai sendo algo de cada vez menos viável. Mata Arsène Lupin por diversas vezes, é certo, mas os seus editores exigem sempre que o ressuscite na história seguinte... E a neurastenia (essa terrível doença dos intelectuais do século XIX, da primeira metade do século XX) vai-o dominando: criou uma personagem que lhe configurou uma “identidade social”, com a qual não se identifica. Personagem de que não consegue libertar-se. Por via dela, será sempre um escritor “popular”, que nunca poderá sentar-se ao lado dos “grandes” escritores franceses que ocupam as cadeiras do Olimpo das Letras – as cadeiras numeradas da Academia dos Imortais Sentados. Hoje, ao lerem-se as suas diversas obras, não se pode deixar de dar razão à escolha que o público fez: as obras em que são narradas as aventuras de Arsène Lupin são, sem dúvida, as suas melhores obras. Mais, ainda: são do melhor que a literatura francesa produziu no século XX.
O que não impediu que a vida de Leblanc, nos últimos anos (morreu em plena Grande Guerra Mundial, em 1941), não virasse tragédia. Leblanc acabou por “ceder” à personagem que criou, que o foi “possuindo” gradualmente: num livro de honra de um restaurante, assinou Arsène Lupin...; na sua casa de Etretat, Arsène Lupin “entrava-lhe” pela porta dentro, a qualquer hora, o que o incomodava altamente, principalmente quando estava sentado à sua mesa de trabalho, a escrever – o que o levou a fazer uma participação ao chefe da policia local...
Para mim, o que é mais impressionante é este desencontro entre a imagem que o
autor tem de si e a que o público dele faz. O que, no caso presente, nos leva a concluir que Maurice Leblanc ficou célebre pelas razões que ele considerava não serem as melhores... Enfim, coisas da escrita e dos escritores...




Uma das versões de Arséne Lupin

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O céu é dos violentos



Quando li o livro de contos “Um bom homem é difícil de encontrar” da Flannery O’Connor, (numa edição da D. Quixote, já lá vão uns bons anos) foi como se tivesse sido arrancado com violência da cadeira e arremessado de encontro a uma parede. A crueza, o dramatismo e a ferocidade dos personagens e situações deixaram-me perplexo e fascinado. A editora Cavalo de Ferro tem vindo a editar os livros da Flannery O’Connor a um bom ritmo (alguns deles já anteriormente publicados por outras editoras).

O livro que agora li, foi “O céu é dos violentos”. O livro começa com a morte de Mason Tarwarter. Este irado e fanático personagem, numa linha ténue entre a loucura e a religiosidade, define um profeta como alguém que só pode esperar o pior da sua existência terrena. A vida de Mason Tarwarter, ele próprio profeta nesta vertente muito peculiar, está marcada por infelicidade, loucura e violência. A citação de S. Mateus, que dá título ao romance, é inteiramente apropriada, já que é intenção de Flannery O’Connor demonstrar que o espírito inspirador de S. João Baptista pode também inflamar um rude camponês sulista: “Desde os dias de João Baptista até agora, o reino dos céus tem sido objecto de violência e os violentos apoderaram-se dele à força”. Mason Tarwarter é o tio-avõ de Francis Tarwarter, um adolescente de catorze anos. Mason educou o sobrinho num universo de confrontações dramáticas, devendo o rapaz esperar a infelicidade a loucura e a violência. Quando o seu tio-avõ morre, Francis tenta renegar a herança pesada e não cumpre o pedido do tio-avõ: ser enterrado – Mason acaba por ser enterrado com a ajuda de um negro, mas Francis pega fogo à propriedade rural onde viviam. Francis vai então ter com o seu tio Rayber e o filho deste, Bishop, uma criança diminuída mental. Está implícito no livro que um Rayber supostamente são, simbolizando o senso comum de pés agarrados à terra, está destinado a viver numa enorme escuridão. Os aparentemente transtornados Tarwarter são, para Flannery O’Connor, mais aceitáveis que Rayber, e Francis rapidamente descobre que o peso da herança do seu tio-avõ se sobrepõe à sua nova vida secular. Estas convicções religiosas de Flannery O’Connor podem parecer desconcertantes e estranhas. Mas o mais importante é que ela sabe contar uma história. Não é necessário partilhar as suas convicções para nos encantarmos com este livro.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

O Médico Inverosímil


Com pequenas narrativas, Ramon Gómez de la Serna conta a história deste médico na primeira pessoa. Não se trata de um médico vulgar absorvido na esfera da ciência, mas sim de um médico que observa minuciosamente todos os aspectos da vida do doente, crente de uma segunda física que é responsável pela doença (às vezes a culpa é de um relógio de bolso pertencente a um falecido, outras vezes é da dama de companhia - mulher que consome a vida de outra), um médico que cura as doenças da alma, um médico poeta. Deu-me a sensação de uma certa critica social, uma ironia à volta de muitos personagens que aparecem por aqui. É um livro divertido.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

DAS BOAS E DAS MÁS RAZÕES DO SUCESSO DE UM LIVRO




Norman Rockwell


Em tempos, não era difícil conhecer as razões do êxito de uma obra literária. A obra impunha-se pelo seu valor, pela temática abordada, pelo nome do autor, pela crítica literária que lhe era feita. Talvez houvesse outras razões, mas estas eram, sem dúvida, as mais plausíveis.
Actualmente, a crítica literária desapareceu e a indústria do livro tomou conta deste sector do mercado, passando a tratar a obra literária como uma mera mercadoria. Enfim, uma mercadoria mais, igual a tantas outras.
Esta situação levou a uma "produção" planificada do livro, em que o "marketing" desempenha um papel central – nada é deixado ao acaso, nada… excepto o valor literário da obra! Parafraseando um dito célebre, que tem sido atribuído tanto a Clemenceau como a Churchill ("a guerra é uma coisa demasiado séria para ser deixada aos militares"), direi que, actualmente, a literatura é negócio demasiado arriscado para ser entregue aos autores literários...
Assim, a primeira grande opção é a da escolha do autor – figura pública, de preferência "pivot" da televisão ou membro do "jet-set". Ou, talvez, alguém que se tenha evidenciado por algum escândalo de fortes repercussões sociais. Também são bastante apreciados temas escabrosos ou referentes a futilidades em voga. E porque não se há-de pôr na capa que o livro foi escrito por uma jovem de dezasseis anos, que, de um só jacto, produziu tal obra-prima? A linguagem "pimba", as situações ridículas, as revelações místicas constituem sempre ingredientes de "alta voltagem" para os profissionais desta indústria. Por outro lado, cartazes e outros anúncios publicitários têm, de cada vez mais, um peso acrescido nas campanhas de promoção dos livros. A indicação do número de edições e das dezenas de milhar de obras já vendidas – quem os controla? – são garantia, mais que evidente, do valor da obra.
De um modo geral, este é o panorama do que se passa em Portugal. Noutros países, nomeadamente nos de língua anglo-saxónica, as coisas ainda são mais refinadas, o que não é para admirar, dadas as características dos seus sistemas de produção e consumo. Estas considerações decorrem da leitura de um artigo publicado no Le Monde, em que se fala de dois escândalos que abalaram o mundo das letras norte-americanas. Escândalos diferentes nas suas tramas, mas idênticos na sua natureza. O artigo, que tem por título "J. T. Leroy, falsa criança das ruas e escritor fictício", transcreve, por sua vez, um outro artigo do New York Times, no qual se revela que J. T. Leroy não é o autor da obra que lhe deu fama e que a descrição da sua "infância trágica" (cerne da obra em causa) é uma pura fantasia de autor.
Aparentemente, todos se sentem burlados, inclusivamente o seu agente literário, que não quer continuar a representar tal criatura. Outro autor de grande sucesso nos EUA é James Frey, também acusado de "prática fraudulenta", por ter ficcionado a sua própria vida, em obra apresentada como sendo estritamente autobiográfica. E estes escândalos parecem estar a pôr em causa as vendas das obras destes autores. Mas porquê? Então não se sabe, desde que há escrita ficcional, que o autor é um efabulador? Mesmo (ou principalmente) quando se reclama de herói da sua própria história? Trata-se, em última instância, de um artifício literário de provas dadas e de êxito assegurado, ao longo dos tempos. Aparentemente, não se compreende, pois, a razão de tanto escândalo. Aparentemente, pois, na verdade, a explicação é simples: o que a publicidade fez vender não foi a obra literária, mas o seu autor (ou pretenso autor). A desgraça (ou a graça) de um cavalheiro que teve a "coragem" de pôr a nu a "tragédia" da sua vida, da sua infância "desvalida". Tão simples quanto isso. Enfim, sinal dos tempos, em que o produto não é vendido pelo que vale, mas pela "roupagem" em que é envolvido. Em Portugal, ainda não chegámos a estes "extremos", mas já não andamos longe...
O que foi dito põe-me uma questão, enquanto educador que sou: como criar nos jovens o espírito crítico necessário à escolha de uma obra literária de valor? Como desenvolver neles o gosto pela literatura? Quais as estratégias a seguir, as ferramentas a utilizar? Na verdade, não basta denunciar, é preciso construir, participar na construção de um ser humano que pense por si, que saiba distinguir entre o verdadeiro e o falso, entre o que é bom e o que não o é. Que assuma valores e os pratique. Que não seja um ser passivo perante a onda avassaladora de informação, de desinformação, com que os "media" nos submergem, nos aliciam diariamente.
Enfim, este é assunto demasiadamente sério (e complexo) para ser tratado de modo sucinto. Por isso, urge voltar a ele, debatê-lo, aprofundá-lo.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

O Diabo e outros contos



Lev Tolstói é um dos GRANDES da literatura e um dos meus autores russos, os que me foram acompanhando ao longo da vida. É obviamente mais conhecida a sua vertente de obras de longo fôlego (Guerra e Paz; Anna Karénina), mas também publicou vários contos e novelas. A editora Relógio d’Água deu-nos já duas excelentíssimas novelas: “A morte de Ivan Illitch”e “A sonata de Kreutzer”. A mesma editora deu agora à estampa um volume de contos que intitulou “O diabo e outros contos”. Três dos contos (“O diabo”, “Depois do Baile” e “Três mortes”) já os tinha lido numa colectânea mais extensa publicada pela editora brasileira Cosac & Naify (tem um excelente catálogo). O conto “O patrão e o moço de estrebaria” já o tinha também lido recentemente numa pequena edição de bolso intitulada “Senhor e servo” (excelente). Restavam dois contos e não pude deixar de comprar o livro.
O conto “O padre Sérgui” coloca-nos perante uma crise espiritual. O príncipe Stepan Kassátski segue a carreira militar e é colocado no aristocrático regimento da guarda imperial. Jovem, brilhante e esforçado por fazer carreira, rapidamente progride. Para entrar nos círculos mais restritos da sociedade resolve casar com uma menina de círculo elevado. De algo tão cínico nasce, no entanto, uma paixão grande. Kassátski pertencia aquele tipo de homens que exigiam uma pureza ideal e celestial à esposa. Duas semanas antes do dia marcado para o casamento, a noiva conta-lhe que tinha sido amante do imperador. A desilusão quanto à noiva que imaginara um puríssimo anjo e a sensação de ter sido insultado eram tão fortes que o levaram ao desespero, desespero esse que o levou a Deus e a uma fé infantil. Kassátski toma o hábito e entra para um mosteiro. Ao fim de vários anos no mosteiro, sempre atormentado pelo desejo que se erguia impressionante, Kassátski tem um acto de grande orgulho perante um general que era do seu regimento. Pede então para ser transferido para outro sítio e acaba por se tornar eremita vivendo numa fenda de uma gruta. Um mulher tenta-o, mas ele consegue resistir cortando um dedo. Com o passar do tempo, começa a circular a ideia de que o padre Sérgui é curandeiro e milhares de pessoas o procuram. Cada vez ele acha mais que não está servir a Deus propriamente, mas às pessoas e com algum orgulho pessoal. E deixo o resto para vosso deleite pessoal.

O conto “Albert” é sobre um artista (músico) caído em desgraça, pobre, sem trabalho, miserável, alcoólico, mas que consegue encantar ao tocar violino. Ele ainda é recebido na Anna Ivánovna onde acontecem bailes todas as noites. Andrajoso, mas com um rosto digno, numa das noites de baile encanta toda a gente com uma melancólica música. Algo estranho acontecera a todos os presentes depois da encantatória música. Um jovem, Deléssov, decide tomar a seu cargo Albert e tentar que o seu talento lhe permita dedicar-se a sério à música, tocar para o público e abandonar o álcool. E instala Albert em sua casa. Mais uma vez deixo as peripécias da pretendida regeneração para uma leitura vossa.

Em conjunto, este é um excelente livro que entra no âmago das contradições do ser humano.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O ESCRITOR QUE VIU DEUS




O Escritor que viu Deus


De Dino Buzzati, o autor de “O Deserto dos Tártaros”, foi publicada mais uma colectânea de contos, “A Derrocada da Baliverna” (Cavalo de Ferro). Esta, como as anteriores, é constituída por um conjunto notável de histórias, algumas a situarem-se no que de melhor tem sido produzido na literatura europeia contemporânea. Entres elas, “O cão que viu Deus”. Parábola que coloca, de modo magistral, a problemática da consciência face ao pecado e ao sentimento de culpa decorrente do não cumprimento da lei moral.
Mas… se prevaricarmos, quem o poderá saber? Deus? Mas se Deus está tão distante dos homens, tão oculto... Cumprirmos os seus mandamentos não será expormo-nos ao ridículo dos nossos concidadãos, tão absorvidos pelas realidades do seu dia-a-dia?
Mas Deus não se servirá de outras formas para nos vigiar? Porque não o olhar de um cão, um cão que foi do eremita que viveu e morreu na montanha, a quem Deus teria aparecido? E se apareceu ao eremita não teria também aparecido ao seu cão? O seu olhar atento e bondoso não seria a forma de que Deus se serviu para vigiar aquela comunidade e, assim, acordar a sua consciência adormecida?
Se admitirmos que alguém viu Deus e dele tenha recebido uma missão, esse alguém foi, sem dúvida, Buzzati, a quem Deus teria confiado o poder de nos fazer amar a literatura e, através dela, o bem e o mal que vive no coração do homem.

sábado, 11 de outubro de 2008

VENENOS DE DEUS REMÉDIOS DO DIABO


“VENENOS DE DEUS, REMÉDIOS DO DIABO”


Um livro que nos enche a alma como quase toda a prosa e poesia do Mia. As personagens são muito bem desenhadas, cheias de contradições, de humanidade, de sonhos naufragados e memórias dolorosas.

Bartolomeu Sozinho que está a morrer e quer deixar de sonhar. A esposa Mundinha que vai chorar para o rio porque não se deve chorar em casa. O português doutor Sidonho à procura do amor. Suacelência, o Administrador balofo e cheio de si próprio, político igual aos políticos do mundo inteiro.

Tudo servido por uma invenção verbal notável e que é a marca do Mia que, por vezes parece quase exagera nos aforismos africanizantes. Mas isso faz parte do seu processo de escrita, da sua pontuação, e, embora esteja no limite, não chega para ensombrar o correr rápido, seguro e encantador da narrativa.

Nesse decorrer da história vamos acompanhando o jogo de aproximação/rejeição entre um português e o mundo moçambicano e constatação no final de não ter penetrado aquela realidade profunda para além de uma falsa superfície.

A história também nos fala da forma como a memória colonial perdura e de como, por exemplo, uma bandeira da Companhia Colonial de Navegação se torna na Bandeira do Sporting.

Aliás, toda a história é um carrossel de mentiras e aparências, sombras e sonhos que se enredam num caleidoscópio que se torna vertiginoso no final, revelando realidade sob realidade até que o leitor não saiba bem qual é a verdadeira verdade da história que leu.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A FOTOGRAFIA, ESSE GRANDE MISTÉRIO

Foto Robert Doisneau


"A fotografia é um grande mistério. Tu fazes uma foto e automaticamente essa foto pertence ao passado. E isso é algo de espantoso." Isto diz-nos Carlos Saura, o cineasta espanhol, em entrevista concedida a "El País". E acrescenta: "A fotografia mudou o ser humano, porque obrigou-o, de algum modo, a ver-se a si mesmo, a ver os lugares, as cidades, as pessoas. É uma informação que o homem nunca tinha tido até aparecer a fotografia."
Vindas de quem vêm, de um homem que fez da imagem a razão de ser da sua vida (e da sua arte), estas afirmações têm um valor acrescido, nomeadamente pela autenticidade de que se revestem. Na verdade, a fotografia constitui um novo instrumento para o ser humano construir (e reconstruir) as suas narrativas. Quando desfolhamos os nossos álbuns, estamos a reinventar o nosso passado, o que fizemos e o que sentimos, o que pensamos, o que podíamos ter sido e não fomos. Desejo e morte. Nós e os outros. O passado reinventado nos lugares, nos gestos, nas posturas. No sorriso, nas vestes, no olhar. O passado-presente em revivescência. Ternura e mal-estar, devaneio.
Mas as fotografias não concitam apenas as nossas narrativas pessoais, elas são, também, um poderoso afrodisíaco literário, que tem levado ao aparecimento de grandes narrativas na literatura do século XX. Para muitos escritores, transformaram-se, mesmo, em estimulante imprescindível ao seu processo de criação.
A fotografia é um mistério? Sim, sem dúvida, um mistério, um grande mistério, Carlos Saura!


Albano Estrela

sábado, 4 de outubro de 2008

“A NEBLINA DO PASSADO” de LEONARDO PADURA



De vez em quando faço uma estadia nos policiais como quem vai a águas. Li há dias um da francesa Fred Vargas. Não fiquei profundamente entusiasmado. Seguiu-se um Maigret (A Taberna de Dois Vinténs) para repôr os índices de confiança no género.

Aproveito para falar de um dos meus preferidos: o cubano Leonardo Padura.

Estão vários livros dele publicados em Portugal. Tenho-o seguido com prazer. A sua escrita anda dentro da matriz em que se enquadram o Pepe Carvalho de Montalban e o Montalbano de Camilleri, entre outros. Há dois que me tocaram particularmente, "Morte em Havana" e "Adeus, Hemingway". Hoje falo de "A neblina do Passado".

É uma espécie de bolero melancólico, apaixonado, decadente. A escrita de Padura é assim. Envolve-nos. Parece que nos ignora e de repente percebemos que estamos presos na malha do escritor, que nos identificamos com o seu personagem, Mário Conde e as suas intuições, a sua dignidade e os seus lamentos. E parece que somos amigos e dávamos tudo para estar ao lado daqueles amigos excessivos e trágicos de Mário Conde, ex-polícia, homem de princípios inabaláveis que põe a amizade e a ética acima de tudo o mais.

Nos seus livros, Padura critica claramente o regime cubano pela sua decadência, pela miséria e pela corrupção. Mas ercebemos que é um homem que não quer voltar atrás embora tenha muito pouca fé no futuro.

A narrativa é musical, saudosista, mergulha no passado para nos falar de uma Cuba onde a história deixou muita gente nas pregas dos seus desejos e onde as memórias ainda podem ser escaldantes e perigosas.

Padura continua a sua magnífica personagem, Mário Conde, que bebe demais, faz grandes jantaradas com os amigos quando tem dinheiro, que é de uma incorruptível fidelidade aos seus princípios e à sua amante, Tâmara, que adora livros, sonha ser escritor, encontra-se em sonhos com Sallinger, o seu escritor preferido, e que se apaixona por uma voz que vem do passado num único disco de vinil.

É como se o autor se dirigisse a nós, leitores, e nos arrastasse para a pista de dança quando a pesada noite tropical nos envolve e as palavras nos convidam para o veneno de um bolero. Que mais se pode querer?


sexta-feira, 3 de outubro de 2008


"Sou um poeta e me inclino a pensar por meio de imagens, de fábulas, de metáforas e não por meio de raciocínios" Jorge Luís Borges

Ilustração no feminino


Nos dias 2, 3 e 4 de Outubro está a decorrer um 1º Encontro Nacional de Ilustração no Feminino em São João da Madeira.  As comunicações deste primeiro dia foram excelentes. O debate decorreu com a informalidade necessária para que as pessoas exponham ideias e dúvidas. 
Muito se falou da relação dos leitores com os autores.
Abertura fez-se com Silvia Ricole que argumentou a importância da ilustração no livro para crianças. Pois serve de moderação com o livro, amplia a narrativa que é importante na relação da criança com o livro. 
Uma primeira comunicação de Danuta Wojciechowska que acrescentou a questão do encontro entre adultos e crianças na leitura onde a ilustração ajuda essa relação. Apresentou um pouco o trabalho do ilustrador que se apaixona e mergulha nas histórias.

Margarida Fonseca Santos (autora) e Carla Nazareth (ilustradora) apresentaram as suas ideias através de um diálogo feito antecipadamente por e-mails. Falaram na importância de ler para além das palavras e que um autor será mais rico quanto maior for os olhares pelas suas obras e a ilustração é uma interpretação. "Se no final do livro sentirem necessidade de completar o que fizemos (autor e ilustrador), então atingimos o nosso objectivo" 
blogue da Carla Nazareth  http://esbocilhos.blogspot.com/

Tivemos ainda Mafalda Milhões e Matilde. Mãe e filha numa conversa muito criativa e elucidativa sobre o que é ler. "As pessoas desde que têm orelhas já lêem" e lembrou que "A primeira casa de um leitor é na barriga da mãe". 


Joana Quental, minha ex-professora da Universidade de Aveiro, falou-nos sobre o seu processo de criação, num texto magnifico que vou ter acesso e posso-vos partilhar. Joana Quental já ilustrou capas de livros de Rubem Fonseca e do nosso querido amigo Fanha, do Campo das Letras.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008


As Edições Nelson de Matos já nos tinham oferecido um inédito de José Cardoso Pires: Lavagante. Presenteia-nos agora com “Histórias de Amor”, o segundo livro de Cardoso Pires publicado em 1952. Este livro foi rapidamente censurado, proibido, e retirado do mercado. É assim como se de um original se tratasse. Uma primeira palavra de apreço para a cuidada edição. Encontramos a capa original, as passagens censuradas sublinhadas a cinzento, a carta de Cardoso Pires ao Director dos Serviços de Censura, após a retirada do mercado, e algumas críticas da época, entre as quais a de Mário Dionísio.

Quanto aos contos aqui incluídos, é indispensável salientar o quase contínuo ambiente de beleza que neles se desenvolvem. Nota-se no entanto, a influência de escritores americanos como Erskine Caldwell ou Ernest Hemingway. O exemplo mais flagrante é o conto “Pequenos Vampiros” em que apesar da acção se situar em Chelas temos a sensação de estar a lidar com gangsters americanos e com uma atmosfera americana. Para além de quatro contos, encontramos uma novela que é uma verdadeira pérola: “Dom Quixote, as velhas viúvas e a rapariga dos fósforos”. Aqui encontramos ambientes e realidades bem Portuguesas num desenvolvimento narrativo belíssimo. As velhas viúvas com salários de miséria, os quartos esconsos onde as vidas se escoam, uma rapariga que hesita entre o pudor e uma forma singela de prostituição e um narrador que se vai desapaixonando. Todas as incidências da novela, desde a chegada de uma ambulância e o alvoroço e que causa aos vizinhos e os ditos destes, os homens que de carro procuram raparigas, o velório de viúvas, têm um ambiente profundamente português. O livro vale, e muito, por esta belíssima novela.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Pyongyang


A Coreia do Norte é um dos países mais secretos e misteriosos de todo o mundo. A fome da sua população levou o regime a entreabrir as portas a algumas agências de ajuda humanitária. Igualmente houve uma pequena abertura, com a admissão de empresas francesas de animação que retocavam os episódios, originalmente feitos em França, a preços muito baixos. É na qualidade de coordenador de uma destas equipas de desenhadores norte-coreanos que o autor, Guy Delisle, entra em PyongYang. Vai residir para um dos poucos hotéis destinados a estrangeiros, torres enormes praticamente desabitadas e de uma desolação atroz. Armado com uma cópia do 1984 do George Orwell (quão apropriado) Guy Deslisle vai ser uma testemunha desta cidade e das suas atracões (todos dedicadas aos líderes Kim Il Sung e ao seu filho Kim Jong Il)), no único país do mundo com um regime comunista monárquico.

Guy Delilse está sempre acompanhado de um guia e de um intérprete, percorrendo o caminho do hotel para o local de trabalho de carro (há noite não há luz). O primeiro sinal de desobediência acontece quando decide fazer os percursos a pé – embora sempre acompanhado das suas sombras. No meio de toda a propaganda ao regime e, sobretudo, ao grande líder iluminado com uma biografia largamente criada pela propaganda do regime, Guy pode observar um pouco mais do que devia das vidas dos norte-coreanos. O seu sentido de humor no meio deste regime isolado e austero tornam esta novela gráfica um testemunho impressionante deste país enigmático. Lê-se de um folgo.

Pode-se encontrar na Amazon.

domingo, 28 de setembro de 2008

Habitar Portugal


No Centro Cultural de Ílhavo esta presente uma exposição de arquitectura "Habitar Portugal 2003  2005". Entre os vários trabalhos de arquitectura e textos dos comissários encontrei um que me encantou muito, de Nelson Mota, pois reproduz na essência o que são as ilhas: “As ilhas são por definição lugares que remetem para um universo de superação. A Madeira e os Açores confirmam-no. São territórios que ousaram desafiar o peso do manto oceânico para irromper no meio de uma vastidão líquida. No entanto, estas ilhas não são gémeas. A Madeira é rebelde, muito expressiva, capaz de surpreender. Os Açores são uma síntese de mundos diferentes mas que comungam da exibição de uma beleza mais serena.”

sábado, 27 de setembro de 2008

Ciro


Ciro é um gato que vive em Veneza e procura o amor mas não quer ser prisioneiro de ninguém. Ele observa as gatas que são um pouco vaidosas e que só se entregam a quem as lisonjeia, isso não é amor para um gato. Os vários donos que o prendem e chantageiam com comida, este amor também não serve. Depois de muitas andanças encontra um menino que tem com ele uma relação desinteressada, brincam quando ambos querem brincar, fazem ternura quando ambos têm desejo para a ternura, este é o amor que um gato quer e este livro é uma lição para todos nós.

RUY BELO - POESIA TODA



Faltava falar aqui de poesia. E nada como começar por Ruy Belo.

A sua poesia corre como um rio de bondade e de tranquila inquietação. Os seus versos trazem-nos um consolo manso e um grande desejo de partilha.

"Eu estava só naquela tarde e tu vieste
de dentro povoar-me de cidade o coração…"


Abrir um livro de Ruy Belo e caminhar de verso em verso como quem se perde em ruas onde o sol rompe de dentro da bruma, faz-nos conhecer um tempo luminoso e cheio de paz.

" O Portugal futuro é o país
aonde o puro pássaro é possível…"

É dos grandes poetas do séc. XX em Portugal. É um amigo que nunca conheci porque os grandes poetas são sempre nossos amigos mesmo que seja só no futuro.

O processo criativo

Peço desculpa pela minha pouca participação no blogue neste mês de Setembro, mas nós os insectos somos formigas nesta altura do ano, depois de termos sido cigarras noutras épocas. O inverno esta a chegar e temos que recolher alimento. Como ainda sou novo nestas andanças não me habituei a este choque térmico do final do verão. Melhores meses virão, meses de muitas leituras.






Acho de uma generosidade o criador que nos fala do seu processo criativo. Quando faz isso apresenta-se nu. Esta atitude é louvável e pedagógica. Estimula a criatividade e desmistifica o artista. Coloca-se ao nosso lado, numa situação de igualdade fraterna. Mas também empurra-nos para este abismo que é criar.

Rosa Montero e a "Louca da Casa", mostra-nos como esse bicho que é a imaginação se mexe na nossa cabeça, na cabeça de muitos autores. Além de mais é um livro que nos dá referências e convida o leitor a ler. Rosa Montero é divertida e conta-nos muitas histórias da sua vida, algumas contrariam-se, o que nos leva a querer que é "A Louca da Casa" em acção e que essa realidade só existiu na cabeça de Rosa Montero.



Gianni Rodari fez a sua "Gramática da Fantasia" onde nos convida a incentivar as crianças para a escrita, jogos e abordagens que podemos fazer para despertarmos "A Louca da Casa".





António Tàpies em "A Prática da Arte" pensa muito sobre o processo criativo, ele racionaliza todo um processo e método artístico muito próprio. Aqui a "Louca da Casa" anda muito atenta, sente esse despertar da terra, esse movimento das pessoas na cidade.






Bruno Munari em quase todos os seus livros mostra como pode ser estimulante uma observação da natureza das coisas, este designer funcionalista no livro "Das Coisas Nascem Coisas" convida à simplicidade dos objectos, introduz novas áreas de abordagem do design que ainda hoje é importante, embora o livro tenha sido escrito em 1981.



quarta-feira, 24 de setembro de 2008

A loja dos suicídios (uma pérola de humor negro)


A Loja dos Suicídios de Jean Teulé retrata a história da família Tuvache cujo negócio é precisamente o de fornecer a qualquer indivíduo deprimido com tendências suicidas as várias opções existentes no mercado para o alcance do suicídio desejado: a tradicional corda de enforcamento, um arrojado hara-kiri, cianeto ou o cocktail do dia…
Mais do que um negócio de família, esta é uma filosofia de vida: a morte, o negrume da vida, são levados muito a sério por esta família. Mas tudo parece ameaçado quando o filho mais novo, Alan, de caracóis louros e intrinsecamente feliz, sorri para os clientes: “tudo nele engendra uma esperança…”
Este é um livro com um cariz cinematográfico. Desde as primeiras páginas, o leitor sente-se espectador de um filme de Jeunet e Caro, traçado com o mesmo humor e a mesma fotografia tétrica de outros filmes destes realizadores. Acima de tudo é um livro que mostra que de facto rir é o melhor remédio! Por cada pensamento negativo, por cada angústia, existe uma contraprova positiva completa de humor.

Este texto foi escrito pela minha colega e amiga Tânia Fernandes, também ela uma leitora obssessiva-compulsiva e a meu pedido. A ideia seria eu completar o texto, mas não alterei nada, porque reflecte também a minha impressão sobre esta pequena obra de leitura "quase obrigatória" para qualquer deprimido (ou qualquer leitor).

Desafio gastronómico II

Olá a todas(os),

Agora que já recebi 4 entusiásticas recepções à ideia de um jantar de muita conversa e de muitos livros, faltam só duas confirmações. Caros amigos que ainda não reponderam, por favor dêem-nos o prazer da vossa companhia.

Quanto a datas, para mim pode ser em qualquer dia - posso sempre alterar compromissos para poder ir jantar convosco e ter o privilégio de vos conhecer.

Abraços,

Paulo

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Livros para crianças


Admiro muito quem consegue escrever para infância. Quem entra num outro universo diferente e atravessa fronteiras para comunicar com os mais novos é motivo de admiração. A capacidade de fantasiar, o fazer de conta e o iniciar "Era uma vez ..." são só para os que permaneceram autênticos: os que ainda têm desejos genuínos, os que gostam de estar com os outros, os que recriam um mundo novo para não se conformarem com o que existe, os que tem uma enorme esperança e a certeza que tudo vai correr bem, e que tudo começa sempre de novo, como nas histórias, etc.
Uma das últimas histórias que li (lemos) foi "O dia em que a mata ardeu" de José Fanha. Além de termos conhecido uns horríveis pássaros bisnaus ficamos maravilhados com o livro. Lemos mais do que uma vez. Acho que o Fanha é o meu escritor preferido no género, por mim ele puxa-me para este lado. 
Em minha casa tenho uma verdadeira especialista de livros e como por vezes leio com ela antes de adormecer lembro-me daqueles que foram os preferidos e que os li mais de 50 vezes. 


"O Dinossauro Belisário" e "Uma Noiva Bela, Belíssima..." levaram-nos ao delírio. Durante muito tempo estes dois livros eram alternados nas leituras. 

O Dinossauro Belisário era um ditador que proibiu todas as brincadeiras e jogos mas:
"Fartos desta situação
meninos, mais de um montão
meninas, um pelotão,
mais ou menos um milhão,
marcharam em procissão:
grande manifestação!

Todos juntos, a uma só voz,
berraram: Abaixo o rei!
Abaixo o bicho feroz!
Abaixo o mundo sem lei!
Abaixo esta besta enorme!
Abaixo o seu uniforme!"
"Dinossauro Belisário"  de Pepe Cáccamo

"Uma Noiva Bela, Belíssima..." é uma delicada história de amor entre uma costureira de vestidos de noiva e um mecânico. Entre o desejo de ter um vestido dos mais belos do mundo e o seu verdadeiro amor, ganha o verdadeiro amor e que bom ver como acaba e tudo se resolve entre sustos e corridas. Com um final feliz e "...naturalmente, a noiva foi muito elogiada, no seu vestido simples e despojado. Muito, muuuuito elegante." Beatrice Masini.


Teresa, a minha companheira,  tem um encanto especial por livros para crianças, especialmente pelas ilustrações, por isso, juntamente com a minha filha cultivam muito esse gosto. Um dos ilustradores que elas me apresentaram foi Gémeo Luís que é de uma simplicidade fantástica e bela, algo de original na ilustração que se caracteriza por uma imitação de recortes em duas cores. 
Rébecca Dautremer tem ilustrações de uma beleza excepcional, de uma delicadeza, uma poética que muito me custa caracterizar com palavras. Do livro "Princesas esquecidas ou desconhecidas" ficam aqui uma foto que me parece ser a melhor maneira de mostrar um pouco as belas ilustrações desta senhora. Parece-me que este género literário vive também dos excelentes ilustradores que fazem do livro "a porta".

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

ALICE MUNRO, UMA CONTISTA CANADIANA, QUE URGE CONHECER




A editora Relógio d’Água publicou recentemente um livro da escritora canadiana Alice Munro, “O Amor de uma Boa Mulher”. Na mesma colecção, a mesma editora já havia publicado outra obra da autora, intitulada “Fugas”. As duas obras são colectâneas de contos, que têm a realidade canadiana como pano de fundo. Nelas, é evidente a influência de autores da literatura contista dos E.U.A., como é o caso de Raymond Carver. Influência que não lhe retira originalidade, antes lhe confere uma consistência narrativa que valoriza a sua escrita. Escrita no feminino, com um entendimento multifacetado da complexidade das situações e uma sensibilidade em filigrana na descrição das emoções, dos sentimentos das personagens femininas – o homem surge quase sempre como a referência necessária à delineação da personagem feminina. Assim é no conto “Antes da Mudança”, inserto em “O Amor de uma Boa Mulher”, conto com uma estrutura exemplar, em que a acção está contida num tempo presente (uma jovem vai passar uns dias em casa de seu pai, médico numa terra de província) e, através de uma carta que vai escrevendo ao seu antigo (?) companheiro, surgem, não só uma série de remetências para o passado como também um conjunto de sinais que parecem dar sentido ao futuro. O que acontece naqueles dias de permanência da jovem na casa paterna vai-nos sendo dado pelo modo como ela vivencia os actos das pessoas da casa, actos gradualmente iluminados por remetências ao passado. E, simultaneamente, também vão surgindo sinais que pontuam a evolução psicológica sofrida pela jovem, sinais que prenunciam a mudança (razão de ser do título, “Antes da Mudança”).


Outros textos desta obra poderão ter uma acção mais intensa, personagens mais ricas e variadas, mas poucos serão os que conseguem concretizar, num tempo e num espaço tão precisos, uma estrutura contista tão perfeita.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

AS LIÇÕES DOS MESTRES



Comecei a ler e logo fiquei apaixonado. Primeiro pelo delicioso prefácio do José Gomes Ferreira. Depois, pela viagem pelos primeiros anos do século na volta da monarquia para a república, com maçons, republicanos, carbonários, polícias e padres, prisões e fugas. Um fartote. Finalmente, pelo prazer da prosa adornada, excessiva, colorida mas extraordinariamente saborosa de mestre Aquilino. Prosa de mastigar lentamente como o vinho forte. Prosa para leituras de outro tempo, um tempo em que alguns tinham tempo para ler.

Quando entrei para Belas-Artes nos finais dos anos 60, aprendi que havia os professores e havia os mestres. Os mestres eram homem de letras ou artes reconhecidos pela substância do seu ofício e pela dimensão ética e humana da sua figura.

Mestre Aquilino, mestre Almada Negreiros, mestre Abel Manta, mestre Sá Nogueira, mestre Lagoa Henriques, mestre Frederico George… Conheci pessoalmente ou fui aluno de alguns. Outros via-os passar e seguia-lhes os passos com o respeito e admiração.

Eram mestres. E essa ideia de mestria no oficio conferia-lhes uma condição excepcional no acto do ensino, fazendo com que também como professores fossem considerados mestres, homens que sabiam fazer, que conheciam por dentro as traves com que se cosia a arquitectura da sabedoria e que faziam convergir a sabedoria do fazer e a do reflectir sobre esse fazer.

Esta ideia de mestre estava intimamente ligada à ideia de inquietação, de dúvida e questionação permanentes, de excelência, conceito tão contrário ao de banalização dos saberes de pacotilha que reina no nosso ensino com as devidas e honrosas excepções.

A ideia de mestria implicava também uma ideia de hierarquia natural que não precisava de avaliações toscas e mal cozinhadas para, naturalmente, se impor.

O último mestre que conheci foi o nosso querido companheiro de blog Albano Estrela. Ouvi-lo, privar com ele ou lê-lo é um privilégio e uma lição. Como Coimbra, ou ainda melhor… Por isso, ao navegar deliciado na prosa de mestre Aquilino, vou lembrando a ironia, a ternura, capacidade de reflexão e de inquietação, a arte de Mestre Albano Estrela.

E falta ainda falar da obra como contista do Albano que tem momentos absolutamente deliciosos.

A quem não conhece aconselho o primeiro que li dele e que tem um dos mais notáveis contos que li em Português. O livro chama-se “Crónicas de um portuense arrependido” e o conto, “Por três vezes perdi a minha mãe, á terceira foi de vez”.


quinta-feira, 18 de setembro de 2008

A Biblioteca de Babel

Quando o editor Franco Maria Ricci passou alguns dias em Buenos Aires, na companhia de Jorge Luis Borges, sentiu-se motivado a propor-lhe a aventura de dirigir uma colecção de obras fantásticas que veio a denominar-se “A Biblioteca de Babel”. Jorge Luis Borges foi o responsável pela selecção dos contos e abre cada volume com uma introdução à obra e vida do autor seleccionado, bem como com uma apresentação dos contos. A Editorial Presença tem vindo a publicar os volumes desta colecção para meu (e de muitos) deleite. Uma palavra de apreço também para as capas de origem lindíssimas. Já foram publicados 9 volumes dos trinta originais que contemplam autores desconhecidos, esquecidos ou célebres. Para mim, até agora o melhor volume é a recolha de contos de Giovanni Papini, “O Espelho que Foge”. O último volume saído é de Kipling, denominando-se “A Casa dos Desejos”. De entre os contos seleccionados destaco “O Jardineiro”a história do percurso de um jovem órfão criado por uma tia até à sua morte nas trincheiras. A tia vai finalmente visitar a campa num cemitério com 20000 valas. Uma das peculiaridades deste conto é o facto de aí ocorrer um milagre. A tia ignora-o, mas o leitor sabe-o. O segundo conto que destaco é ”A Casa dos Desejos” em que uma senhora narra a outra uma história mágica e dolorosa em que existe uma misteriosa casa dos desejos em que se pode pedir que a casa leve embora uma coisa que atormenta outra pessoa. Os restantes contos, ancorados em batalhas e guerras, não me encantaram tanto.
Apesar de a selecção nem sempre ser homogénea em termos de qualidade (mas quem sou eu para pôr em causa o Borges), esta é sem dúvida uma colecção preciosa.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

A pior banda do mundo

A banda desenhada, que não manga ou comics, tem mercado em poucos países: França, Bélgica, Itália, Espanha, Argentina e Portugal. A produção portuguesa é dinâmica, salientando-se neste universo a obra de José Carlos Fernandes. Uma das séries mais bem concebidas deste autor denomina-se “A pior banda do mundo”. Os elementos da banda são Igancio Kagel (fiscal municipal de isqueiros), Sebastian Zorn (serrilhador de selos), Idálio Alzheimer (verificador meteorológico) e Anatole Kopek (criptógrafo de segunda classe). Estes personagens denotam desde logo a finíssima ironia do autor implacável na crítica social. A série já tem seis volumes e queria falar-vos do último volume (Os arquivos do prodigioso e do paranormal). Como em toda a série os desenhos são a sépia, ambientados numa sociedade parada visualmente nos anos cinquenta e os personagens ostentam nomes com ressonâncias germânicas ou eslavas. Cada volume contem pequenas histórias de duas páginas Esta série de rara perspicácia conjuga referências literárias e filosóficas que se combinam harmoniosamente com a narrativa gráfica. O universo é muito Borgeano.
Para terem ideia do ambiente destas pequenas histórias vou dar-vos alguns inícios. Em “O homem mais timorato do mundo”, Amílcar Knoss descortina desígnios funestos nos mais anódinos incidentes quotidianos; em “As ocorrências deliquescentes”, a maioria das ocorrências que Jerónimo Knipl, sargento da décima segunda esquarda, é chamado a resolver são tão inconsistentes como as queixas de Amílcar Knoss: “- um homem de fato creme lambe o asfalto nos cruzamentos das ruas Glissanto e Pizzicato”; em “A perturbante ubiquidade de Ivan Hecksfallz”, o Dr. Walter Ego tem em mãos o inexplicável caso de Ivan Hecksfallz, um decorador de piscinas de 32 anos: “- Ora, consta que nos últimos tempos o Sr. Tem sido avistado no Novo México; - absurdo, há seis meses que não saio da cidade e tenho provas sólidas que o atestam”. Em “A tentação revisionista”: Enquanto durou o regime do general Globokar (vitimado por uma queda de uma cadeira em Agosto de 1968) o Gabinete de Reequadramento Histórico trabalhou sem cessar; “- Temos um mês para suprimir Ilídio Kirov, o ex-ministro da prolixidade de milhões de manuais escolares”. Em “O Imperador da América”, no dia 26 de Julho, Célio Procope, um designer de paliteiros reformado, declarou unilateralmente a independência do seu apartamento no 6º andar do nº 333 da Avenida Bakunine. Em “A brigada de homicídios”, o inspector Zino Kautrock tem a seu cargo a investigação dos homicídios entre siameses que ocorrem na cidade. E estes são pequenos exemplos das histórias que encontramos no sexto volume da série, mas muitas mais estão nos cinco volumes anteriores.
Mesmo os que têm relutância em ler banda desenhada, se puderem perder um tempinho com estas leituras não se vão sentir defraudados.

"DORA BRUDER" de Patrick Modiano




Um momento muito sério de luta pela preservação da memória num romance que não é bem romance e não corresponde a nenhum dos grandes modelos da narrativa tradicional.

Tudo começa com um apelo lido num velho jornal de 1941 em que uma mãe vem pedir dados sobre a filha, Dora Bruder, desaparecida há 15 dias de casa, em Paris.

O livro organiza-se de forma quase burocrática numa busca obsessiva de registos de polícia, de hotéis, de escolas, do Registo Civil, na tentativa de desenhar o percurso de Dora Bruder, adolescente judia, desde que fugiu do Colégio do Sagrado Coração de Maria até desaparecer no comboio para Aushwitz.

O percurso começa por parecer flat, aborrecido e pouco motivador. No entanto, vai-se tornando irrespirável pela forma como, a pouco e pouco, o autor desenha o ambiente policial, escuro, miserável, da vida e, sobretudo, da vida dos judeus, durante a ocupação de Paris.

Depois, Modiano começa a cruzar os percursos e os locais de Dora Bruder com os da sua vida e da vida de seu pai, judeu de origem italiana.

Modiano passa ao lado da descrição das emoções mas deixa-nos conviver com a sombra das emoções que foram incompreensão, pavor e medo.

O autor interroga mais do que afirma. Mas a sua interrogação em torno da questão judia, a transcrição de relatórios de polícia, cartas dos presos, uma teia de pequenas referências apanha-nos pela garganta e mostra-nos como pode ser fundamental o ofício de preservar da memória de gente miseravelmente apagada da vida.

Saiu há menos de uma ano em França um seu romance “Dans le café da la jeunesse perdue” sobre a vida de jovens em torno de um café dos anos 60. Pelas recensões que li deve ser imperdível.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

JOHN GRISHAM: "Sei que o que faço não é literatura"


“Sei que o que faço não é literatura”

Dizem as estatísticas que John Grishman é o autor que mais livros vende no mundo: mais de 250 milhões, se contarmos com as traduções, que têm lugar em dezenas de países – Portugal incluído. Portanto, alguém praticamente imbatível, a suplantar Stephen King ou Paulo Coelho. Tanto êxito levou-me a comprar um dos seus romances, em que o suspense decorre de uma acção intensa, feita de intrigas, de traições de que o herói é vítima, enredado que está nas teias da lei, da política e da corrupção. Não tenho a certeza do modo como a história termina, pois não tive coragem de chegar ao fim, mas estou em crer que tudo terminou em bem…
Ora, na revista dominical de “El Pais” de fins de Agosto, vem publicada uma entrevista com John Grishman, que tem por título “Sei que o que faço não é literatura”, e na qual o autor se declara, aberta e legitimamente, como um fazedor de histórias, que têm como única finalidade o entretenimento do público – nunca, um autor literário. Para isso, obriga-se a publicar, no princípio de cada ano, um novo livro, afim de manter viva a chama da publicidade que foi montada à sua volta. Livros que têm sempre os mesmos ingredientes, para não desiludir os seus leitores, que esperam um produto de características conhecidas de antemão.
Diz-nos também que não pode dar-se ao luxo de parar, pois, se o fizesse, tudo o que havia feito ficaria irremediavelmente perdido, ultrapassado. E acrescenta: “No mundo do entretenimento e no da cultura popular, tudo obedece a ciclos, quer se trate de cinema, de música ou de desporto. São ciclos bastante amplos, que não se sabe quanto podem durar. E isso é particularmente verdade no caso da ficção.” O que o leva a ter um horário fixo de escrita diária, a fim de poder produzir, em bom ritmo, os seus “thrillers legais”: “Na nossa sociedade, na nossa cultura, há um apetite insaciável por histórias com um fundo legal. O mundo da lei é algo que fascina toda a gente.” Para ele, o livro ideal é aquele que leva o leitor a devorar as suas páginas sem conseguir parar. A descrição de ambientes, o aprofundamento de estados de alma, de sentimentos, constituem meros distractores de leitura, que os seus leitores não suportariam. Ao princípio, John Grishman sofreu os ataques dos críticos literários. Agora, não. Deixaram-no em paz, pois concluíram que o que ele faz não é literatura. Conclusão que ele subscreve totalmente…
Tanta lucidez agradou-me e levou-me a ter consideração por este homem, que não tem veleidades em fazer-se passar por aquilo que não é – e que não lhe interessa minimamente. Que lição para alguns dos nosso produtores de ficção, que se julgam literatos eméritos, apenas porque os seus livros tiveram vendas superiores ao habitual!

domingo, 14 de setembro de 2008

Rosa Montero



 "Ao amar somos eternos. Da mesma forma, quando estamos a escrever um romance, nos momentos de graça da criação do livro, sentimo-nos tão impregnados pela vida daquelas criaturas imaginárias que o tempo, a decadência ou a nossa mortalidade deixam de existir. Também somos eternos enquanto inventamos histórias. Escreve-se sempre contra a morte."

" O processo de socialização, aquilo a que chamamos educar, ou amadurecer, ou crescer, consiste precisamente em podar as florescências fantasiosas, em fechar as portas do delírio, em amputar a nossa capacidade de sonhar acordados; e ai daquele que não saiba selar essa fissura com o lado de lá, porque provavelmente será considerado um pobre louco.
Pois bem, o romancista tem o privilégio de continuar a ser uma criança, de poder ser um louco, de manter o contacto com o disforme." 

Rosa Montero "A louca da casa"


O artista plástico Mike Kelley tem uma frase que ilustra muito bem essa ideia, esse sentimento e essa experiência de quem usa, como ferramenta do seu labor, a imaginação: " Os Artistas são pessoas a quem a sociedade concede o privilégio de agir de uma maneira que não é a que se espera por parte dos adultos"

sábado, 13 de setembro de 2008

UM JARDIM ABANDONADO



“O meu trabalho consiste em cuidar de um jardim abandonado. Esse jardim sou eu próprio”

Yasushi Inoué, escritor japonês (1907-1991)

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

PETER FOGTDAL




Tornei-me amigo do Peter Fogtal há dois ou três anos numa visita de escritores e poetas dinamarqueses à SPA. A partir daí já nos encontrámos umas quantas vezes. Ele vive em Portland nos EUA e pára em Portugal quase sempre que vai à Dinamarca ou que a equipa de futebol da Dinamarca cá vem jogar, o que foi o caso desta quarta-feira.




Estive há anos no lançamento do seu romance "O Paraíso de Hitler" em Lisboa, li o livro de sopetão e gostei muito.

Trata-se da história de um jovem austríaco estudante de flosofia que adere à ideologia nazi e acaba quase sem querer por entrar para as SS. Ferido na frente russa vai convalescer no "Paraíso de Hitler", também conhecido pela "Frente cha ntilly", ou seja, a Dinamarca.

Assistimos longo caminho de desilusão dessa personagem em relação ao nazismo e ao desvendamoento dos seus terrores. Simultaneamente, durante a convalescença na Dinamarca, vamos assistir ao nascimento de uma amizade improvável e perigosa por um judeu, Frequentam os dois uma mesma livraria na Dinamarca e constroem essa ralação inesperada em torno do interesse pela leitura.

E mais não conto. Ou apenas conto que o que me parace particularmente interessante que é toda a história ser contada a partir do ponto de vista de um nazi à semelhança do que fez depois Littel com "As benevolentes". Só que este nazi é, à sua maneira, um idealista, se assim podemos dizer, e, a pouco e pouco, e a certa altura de forma brutal,vai perceber as terríveis perversidades daquele ideologia e do respectivo regime.

É daqueles livros em que se entra e é difícil sair até ao fim. Toca-nos e ajuda-nos a perceber um pouco melhor o que foram os sobresaltos do séc. XX na Europa (lá longe, sabem onde é?)



Segundo livro do Peter a ser publicado em Portugal, "A Anã do czar".

Séc. XVIII, O Czar das Rússias visita Copenhaga e o rei da Dinamarca, sabendo da sua "colecção" de anões, oferece-lhe como prenda sofisticada: uma anã. A anã, Sorine, é uma mulher irascível, amarga e sem pruridos na linguagem que usa para descrever a vida na corte, o génio perturbado Czar ou o tratamento a que eram submetidos naquele período os homens e as mulheres com deformidades físicas.que vamos conhecendo o mundo das cortes dos dois países.

Este romance foi um grande sucesso na Dinamarca mas não tanto em Portugal. Vale a pena ler. É uma escrita que não dá descanso.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Desafio gastronómico

Encontrei o José Fanha uns dias atrás. Não o conhecia, mas fiquei encantado com a sua alegria por me conhecer. E a alegria foi também minha. Como estamos cingidos a um espaço cibernético (mas que é uma aventura linda), gostaria de lançar o desafio de combinarmos um jantar onde todos nos encontrássemos. Para mim, seria um encontro deveras fantástico. O que me dizem os meus companheiros e companheiras desta aventura a 7 mãos? Espero que aceitem o desafio

Madame Butterfly

Foi editado recentemente o livro “Madame Butterfly” , de John Luther Long , texto que está na origem da famosa ópera de Puccini. Madame Butterfly é uma história trágica e comovente. O soldado B. F. Pinkerton , estacionado em Nagasaki, encontra com a ajuda de um casamenteiro uma esposa japonesa, Cho-Cho-San (a quem ele chama Madame Butterfly) e também uma casa para a ter. Pinkerton é uma personagem frívola que casa por puro tédio e quase brincadeira. Mas este casamento passa a ser o centro da vida de Cho-Cho-San. Por capricho, Pinkerton obriga Cho-Cho-San a renegar os seus antepassados, a tradição e a sua própria família. Isolada de todos os seus entes queridos, Cho-Cho-San vê partir Pinkerton que a deixa com um filho, uma criada e algum, pouco, dinheiro. Começa um longo período de espera, em que Madame Butterfly acredita cegamente, contra todas as evidências, que ele voltará, como lhe prometera. Começa assim um período de fantasia e ilusão enquanto espera o regresso de Pinkerton. Quando, finalmente, Pinkerton regressa, Madame Butterfly apenas consegue vislumbrá-lo na proa de um navio acompanhado de uma mulher loura. Pinkerton não visita Cho-Cho-San, mas envia a loura americana para levar o bebé. Esta dura realidade destrói todos os sonhos de Cho-Cho-San. No final, e apesar de ter renegado a tradição, realiza um último acto pleno de ritualizações com funda ancoragem na tradição japonesa: pegando no único objecto que os seus familiares lhe tinham permitido guardar – a espada do seu pai - Cho-Cho-San comete hara-kiri. Na espada está inscrita a frase “Morrer com Honra, quando não se pode já viver com Honra”. Esta história mostra-nos, assim, um amor à beira do desespero, da fantasia e da loucura. Uma história aparentemente simples, mas que não se esquece facilmente.

O Enterro do Conde de Orgaz - Sete histórias em desassossego

Estes pequenos e misteriosos contos de Albano Estrela, que encontrei na biblioteca de Aveiro, muito me divertiram, inquietaram (como era intenção do autor) e surpreenderam. De todas estas histórias que tanto gostei, a "D. Álvaro" foi a que mais me encantou pela ternura das personagens, pela a narrativa e tragédia deste casal (D. Álvaro e Lili) e pela situação e espaço envolvente. O autor conta a história de D. Álvaro e sua amante Lili fadista de uma tasca do Bairro Alto. D. Álvaro foi um abastado fidalgo com terras no Minho e com um palacete em Lisboa e que depois da morte da mulher apaixona-se pela criada de 16 anos - a Lili. Uma fortuna que se perde nas mãos de duas filhas oportunistas. E um amor consumado entre fados, ciúmes e desassossegos na tasca, onde por vezes D. Álvaro defende a sua dama com pistola ao punho. A velhice com as suas doenças e o ciúme leva D. Álvaro quase à loucura e a uma separação imposta à sua dama. Albano Estrela é um excelente contador de histórias, como demonstra nestes seus contos. Por mim vou continuar à procura de outros livros raros deste autor pois parece que não são fáceis de encontrar.

domingo, 7 de setembro de 2008

Pequenos mistérios

Bruce Holland Rogers é um verdadeiro mestre do conto curto (short short stories). A sua ficção percorre todo o mapa literário: alguma é ficção científica, alguma é fantasia e alguma é pura e simplesmente muito boa literatura. Li recentemente o livro “Pequenos mistérios” (Livros de Areia) já editado em 2007. Com este livro, Bruce Holland Rogers ganhou o World Fantasy Award. O livro está dividido em cinco partes. As partes II (Metamorfoses), III (Insurreições) e IV (Contos) são constituídas por contos no domínio da fantasia, povoados por monstros de trapos, deuses, homens que se transformam em golfinhos, estranhas invasões do quotidiano, pessoas que acordam como abstracções, génios que vivem entre o dia e a noite, bebés mortos que crescem de corpo delgado como uma tira de pano, etc., mas também por exercícios de vocabulário, parábolas. Mas onde (na minha modesta opinião) o nível de muita excelência é atingido é na parte V (SImetrinas) – conjunto de muito pequenos textos mais realistas e, sobretudo, na parte I (Histórias) com um conjunto de textos que evocam o estilo e os temas de Raymond Carver, um dos meus contistas preferidos. Encontramos contos que contêm um genuíno cansaço da vida, desilusões, viagens sem destino, cartas de amor improváveis, e contos (tal como muitas vezes acontece em Raymond Carver) em que a força vem do que deixa de parte. As ideias e as pessoas destes pequenos contos perduram na nossa memória, mas eles merecem uma revisitação pois são enganadoramente simples, descobrindo-se novas camadas a cada leitura. Um dos muito bons livros que li nos últimos tempos.

Como curiosidade, e para quem ficar interessado neste escritor, ele criou um serviço de assinaturas através do qual, por uma módica quantia, se recebem 36 histórias, ao ritmo de três por mês.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

DE FLANNERY O'CONNORS À LITERATURA LIGHT




Andei algum tempo com “Um homem bom é difícil de encontrar” de Flannery O’Connors debaixo de olho. Namorámo-nos quase um ano. Tinho já lido muitos contos daquelas várias e muito interessantes contistas americanas, Dorothy Parker, Edith Warton, Katherine Mansfield. No entanto, para dizer a verdade, apesar de as apreciar imenso, nunca me senti exactamente da mesma família. Li-as, gostei e ponto final.

Não esperava ser arrebatado e, por isso, precisava de esperar pela maré certa para atacar os contos desta autora que muito me tinham elogiado.

Calhou este Agosto. E foi uma verdadeira tempestade que me abanou. Torceu. Incomodou. Deixou de rastos. A autora escreve, meu Deus, que até dói. Fala-nos de uma América rural, sulista, racista, mesquinha, obscura. E em cima desse cenário faz-nos mergulhar na cabeça de pessoas obsessivas, desconfiadas, medrosas, limitadas. Gente terrível, gente carregada daquilo de que se faz a humanidade em todas as suas vertentes. Gente sem horizontes. Encerrada numa imensa paisagem, num imenso país que parece uma grande colmeia com muitos pequenos favos completamente isolados entre si.

A narração faz-nos mergulhar num estado de espanto, por vezes com alguma ternura, muita melancolia, e momentos de pura surpresa e pavor.

A história da rapariga da perna de pau e do vendedor de Bíblias é arrasadora. Outra, de um avô que leva o neto à cidade para que ele conheça a maldade e nunca mais lá queira voltar é dos momentos em que melhor vi misturar-se a literatura e a dimensão ética das personagens.

A seguir a Flannery O’Connors, ainda sem os pés no chão, deu o acaso para me virar para o belga Eric-Emannuel Schmitt, “Odette Toulemonde – Lições de felicidade”. Também mo tinham elogiado. O título fazia-me sonhar com uma escrita ligeira e histórias felizes. A capa é divertida. Havia ali talvez uma promessa de ambiente Monsieur Hulot, quem sabe…

O problema é que não foi nada disso que encontrei. Ou melhor, foi exactamente isso que encontrei, isso e nada mais. E o que me veio à boca foi: isto é light! Disse-o várias vezes enquanto levava o livro até ao fim. Light, light, light!

Mas, afinal, o que é uma escrita light? E é esse é um desafio que proponho como reflexão aos caros amigos e comparsas desta aventura e também aos que nos visitam. O que é ser light?

Light será ser previsível e linear como sinto que é este livro correcto, bem escrito e provavelmente bem intencionado de E-E. S.? Light será contar histórias “reais”, histórias que podiam ser assim mesmo, histórias que já ouvimos contar tantas vezes no autocarro ou no café, histórias que servem para construir os enredos das vulgares novelas televisivas?

Lembro-me da frase do Semprún que diz que a realidade só interessa à polícia. A literatura está para lá disso. Ou melhor, a grande literatura situa-se noutro patamar se bem que faça da realidade o seu barro primeiro.

A verdade é que ainda estou debaixo daquela tempestade que a escritora americana provocou em mim, não uma tempestade real, mas uma tempestade parecida com as que Turner pintava em que ele construía uma distância em relação ao retrato do real para nos situar no grande espectáculo da arte.

Será que tive o azar de ler estes dois livros nesta ordem. E se tivesse sido ao contrário, se tivesse começado pelo Schmitt? Teria sentido o mesmo?

A sensação que tenho é de que o que há em O’Connors que não há em Schmitt é um trabalho profundamente elaborado sobre a linguagem e sobre a forma de narrar. Será esta a diferença entre grande literatura e literatura light? A diferença está lá, nos livros, ou nos meus olhos de leitor? Pode ser definida? Quantificada? Poderemos dizer: este aqui é mais light, estoutro é menos light?

A ler Flannery O’Connors lembrei-me por vezes de outro grande contista que me foi apontado pelo Albano Estrela: o Givanni Papini. Havemos de falar dele. Esse também pertence às grandes estrelas obscuras e descobri que há uns 40/50 anos foi muito publicado em Portugal. Vale mesmo muito a pena.



quarta-feira, 3 de setembro de 2008

FERNANDO PINTO DO AMARAL, UM NOVO CONTISTA PORTUGUÊS


Não é vulgar aparecer nas livrarias um bom livro de contos de autor português. Portanto, quando tal sucede, cumpre assinalá-lo. Estou a referir a obra de Fernando Pinto do Amaral, “Área de Serviço e Outras Histórias de Amor” (Dom Quixote). Pinto do Amaral, professor universitário, poeta e ensaísta, estreia-se, agora, com este livro, numa das áreas mais exigentes e carentes de valores, como é o caso da “pequena ficção” – contos, histórias.
Avisadamente, o autor chama, a estes escritos, histórias e não contos. De facto, nem todos têm a estrutura que convém ao conto. Mas aqueles que se podem considerar dentro desse género literário têm uma qualidade que deverá ser destacada. E por várias razões. Em primeiro lugar, porque estão muito bem escritos, numa prosa límpida que, embora clássica, tem o ritmo, a fluência de uma prosa actual. Em segundo lugar, pelo erotismo de que as personagens e as suas relações estão imbuídas – como convém a uma história de amor dos tempos modernos. A sensibilidade e a ironia, presentes em muitas das situações descritas, constituem, também, características marcantes da obra.
Convirá ainda referir que é uma obra de temáticas vincadamente portuguesas – memória do século XX, actualidade do século XXI. Muita da emoção do que fomos – e ainda somos – encontra-se bem patente na dúzia e meia de textos que integram a obra. A caracterização do estar e do ser português torna-se evidente no sentimento de perda, de fim de algo, expresso por várias personagens, e de que o escritor em termo de prazo de validade, do conto “Um Grande Escritor”, é exemplo perfeito.
Uma referência ainda a um texto espantoso, “A Última Noite”. A última noite de alguém que, tendo morrido, volta à casa que foi sua, para se rever no filho que, em visita à casa paterna, peregrina por espaços e objectos que foram do seu pai. Texto de uma beleza poética poucas vezes alcançada na ficção portuguesa, que nos coloca no centro da única questão que importa ao Homem: o que é a Vida, o que é a Morte, onde acaba uma, onde começa a outra?
Esta, a minha leitura de “Estação de Serviço e Outras Histórias de Amor”. Outros leitores poderão (e deverão) ter outras leituras. É essa a diferença (de leituras e de interpretações) que faz a riqueza de uma obra. Que este meu textinho suscite essas leituras é o meu desejo, a razão última destas linhas.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Curta Viagem Sentimental


A propósito do Murakami, falou-se neste nosso espaço de “autores de supermercado”. Apesar da conotação pejorativa do termo, encontram-se excelentes livros nos supermercados. É o caso de uns saldos que uma cadeia de hipermercados esteve a fazer recentemente com livros editados há dez/quinze anos atrás. A minha biblioteca engrossou com vários livros comprados a preços do tipo 1 euro, 1,99 euros, 3 euros. Foi o caso (1,99 euros) de um curto romance publicado postumamente, pertencente aos últimos anos de actividade de Italo Svevo, um dos meus autores italianos modernos preferidos: “Curta Viagem Sentimental”. Nesta curta narrativa, o protagonista é um homem velho, o senhor Aghios, preso a um casamento feito já só de rotinas, que anseia pelo momento libertador da “cadeia” em que está preso proporcionado por uma viagem sozinho de comboio. Essa liberdade é inócua e feita essencialmente de sensações e pensamentos. Durante a viagem há encontros com duas personagens. Em primeiro lugar, um inspector de seguros anafado e muito senhor de si e das suas opiniões. O senhor Aghios sente-se muito próximo do filho mais novo, desajeitado e sonhador, deste inspector. Em segundo lugar, um jovem louro com aspecto doentio que faz a viagem prostrado. O senhor Aghios vem a descobrir que o jovem está envolvido num dilema amoroso entre um casamento com uma mulher rica e o amor (mais carnal) com uma criada da casa da sua futura noiva. Este jovem vem a revelar-se uma personagem mesquinha e surpreendente no mau sentido. Esta novela caracteriza-se ainda, tal como noutras novelas de Italo Svevo, por um final vasto e inconclsuvo. O livro inclui ainda dois excelentes contos: “A mãe” e “Vinho generoso”.
E tudo isto por 1,99 euros!!!!

sábado, 30 de agosto de 2008