sábado, 17 de março de 2012

“O que me prende é o que te prende/largo horizonte de outros passados/raízes fundas presas ao chão/e um mar tão largo//” Glória de Sant’Anna



“Nunca Mais é Sábado”
Antologia de Poesia Moçambicana
Organização de Nelson Saúte
D. Quixote



Os livros atravessam-se no caminho, nada a fazer. A paragem era para um café a caminho da Biblioteca mas a livraria era mesmo ao lado. Muitas tentações e 3.90 euros por um livro com dezenas de poetas dentro irrecusável. Desconhecia muitos deles mas os que reencontro ancoraram muito bem a escolha. 
Uma Antologia é assim mesmo, um percurso escolhido entre muitas possibilidades. Portas que se abrem para muitas casas. Peço o café, leio… E continuo a ler ainda. 
Atravessam os poemas as lutas e as desditas de uma nação. Somos parte de um todo que não entendemos porque não nos lemos, não nos ouvimos, nesta distância feita de chão e de ressentimentos. De mal-entendidos porque julgamos que vemos bem o visto de longe, Moçambique como outros lugares.
A poesia deixa-nos a pensar e a sentir, suspende ou atira razões à quezília. A História está a ser escrita com lágrimas e risos. E não sabemos nada da vida de um povo se não entendermos o sofrimento, a natureza dos espinhos e o amor. Sempre o amor e o corpo que o celebra.  

Partilho o Eduardo White, um dos meus preferidos. 

“Felizes os homens
que cantam o amor

A eles a vontade do inexplicável
E a forma dúbia dos oceanos.”

( in Amar sobre o Índico)


Teu corpo é o país dos sabores
da súplica e do gozo,
é essa taça onde bebo
toda a loucura em que me converto,

teu corpo, meu deus, teu corpo
é a vida,
os estames altos,
os gestos lentos,
as carnes e as águas,

teu corpo é essa casa feliz
onde se celebra
a loucura e frio dentro das falésias,
teu corpo é um amor de suplícios,
amor que não sobra,
não resta
e que nem mesmo de fadiga cessa.”

( in País de Mim)

Partilha feita vou continuar a ler, para isso servem os comboios.


segunda-feira, 12 de março de 2012

PORQUÊ LER OS CLÁSSICOS?


Lê-se tanta coisa menos boa. Mas actual. Podemos dizer mesmo que há muita literatura menor (queira isso dizer o que quiser) a que os propagandistas dos livros conferem a urgência da moda e da actualidade.

Do muito que aparece nas bancas das livrarias, o que será considerado um clássico daqui a 100 anos?

De vez em quando regresso aos clássicos, àqueles a que podemos chamar clássicos, com a sorte de dispor hoje de algumas traduções magníficas como é o caso, para o russo, de Nina Guerra e Filipe Guerra, ou António Pescada. Gogol, Turgueniev, Tolstoi, Dostoiewsky, Tchekhov… Constituem uma força única na história da literatura mundial

Mas o que é um clássico?

“Por mais vasta que possam ser as leituras de “formação” de um indivíduo fica sempre um número enorme de obras fundamentais que não se leu”, diz Italo Calvino. Calvino no seu “Porquê ler os clássicos?”.. E acrescenta algumas definições muitíssimo saborosas sobre o que é um clássico:

“De um clássico, toda a releitura é na realidade uma primeira leitura”

“Um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer”

Tchekhov é sem dúvida um clássico. Um extraordinário escritor que me deixa sempre mais reconfortado, porque reconforta ler aquilo que se reconhece como clássico, e porque me leva a reflectir sobre a alma humana, os seus ditames e as suas contradições, que é, no fundo, a espinha dorsal de toda a literatura.

É dessa visita à alma humana que se trata neste “Duelo”. Modernidade e pasmaceira, ciência e fé, amor e desamor, verdade e mentira.. Três ou quatro personagens encontram-se numa pequena cidade do Cáucaso e chocam em torno destes temas que serão sempre os que atormentam os homens estejam eles onde estiverem.

A contradição entre personalidades e conceções diferentes desemboca num duelo que ninguém deseja e que acaba por não ter consequências a não ser a do reencontro de um homem com a sua dignidade e com o desejo de mudar uma vida sem sentido num tempo novo de dignidade própria.

Tchekhov desenha com raríssima mestria personagens aparentemente simples que se tornam complexas pelas circunstâncias. Não precisa de sublinhar. Basta-lhe narrar os factos, as circunstâncias, os acontecimentos, para que as suas personagens saltem do papel com suas paixões, grandezas e misérias para ganharem carne e osso aos olhos do leitor.

quinta-feira, 8 de março de 2012

UMA PEÇA EM MUITOS ATOS



A reforma, ou aposentação é, como se sabe, uma situação particular, embora cada vez mais geral, que acarreta consigo inúmeras situações, umas dramáticas outras caricatas, umas hilariantes, outras comoventes. Outras, muitas, dir-se-ia que inexistentes, porque muito do que a caracteriza e em muitas das situações mais correntes o significativo delas é o simples passar do tempo, o estar ou ir estando, o deixar correr, porque outra coisa não se pode fazer. A princípio ainda queremos, (os que querem), depois já não podemos, mesmo querendo, (e mesmo que ainda podendo), depois já nem queremos nem podemos. Ou seja, o melhor dela, ou quase tudo dela, em muitos casos, é o ir indo, porque outra coisa não se pode fazer, ou não se quer fazer, ou não se sabe como que fazer. E isto tem muitos sentidos, não só o de que o tempo passa e não se pode parar, mas também o de que, com ele, apesar de se estar esgotando, se caminha para uma síntese, um cúmulo de situações e de experiências que só o tempo dá, à medida que tira, como se o próprio tempo se retirasse em cada um de nós. E isto é dramático, porque há uma situação de limite que se acrescenta e se esvai, que se torna mais densa e ao mesmo tempo se dilui, e que, por isso, é triste, mas também pode ser reconfortante e, em muitos casos, transfiguradora e até catártica. O que, felizmente, já muitos reformados perceberam, mas o número dos que ainda não o compreenderam, ou não têm condições de o compreender, é demasiado. Infelizmente.
Desejada por muitos, temida por muitos outros, invejada por quase todos os que ainda lá não estão, e que talvez já não a queiram quando chegar a sua vez, a aposentação multiplica situações, casos, histórias, perspectivas, vivências, sabedorias, manias, demências, injustiças, frustrações, azedumes, solidões e recompensas, que a literatura não tem explorado tanto quanto o potencial dela podia levar a efeito. Talvez porque os produtivos ainda lá não estão, e os que lá estão já não são produtivos, ou assim o entendem os outros, ou até, muitas vezes, eles próprios. Situação e estado da mais profunda contradição: temos mais tempo quando já não temos muito tempo, temos mais sabedoria quando já ninguém nos ouve, podemos ser mais úteis quando passa subliminarmente, em todos os discursos, a inutilidade, ou quase, dos que nela estão.
Um livro recente de Albano Estrela (Histórias de reformados com solidão à vista. Lisboa, Indícios de oiro, 2011) parte da perspectiva do reformado que se observa e que observa os outros reformados, que pensa a sua situação e a projeta e recupera, nos outros. Mas fá-lo de uma maneira não erudita, nem pesada, mas através de histórias e casos que de algum modo traduzem as inúmeras situações que a reforma produz. A reforma é aquilo que cada reformado for capaz de ser, ou de fazer com ela, ou de viver e ser a partir dela e através dela. A reforma ganha assim o estatuto de ambiguidade e multiplicidade que a linguagem e a mentalidade geral ainda não percebeu bem. Todos falam hoje do envelhecimento ativo, muitos são os que precisam cada vez mais dos pais e dos avós (ou seja dos reformados) por razões económicas, logísticas, educativas, e muitas outras. Mas isso não significa que percebem, ou sejam capazes de compreender tudo o que a situação de reformado implica, em termos psico-afetivos, e sociais, tudo o que possibilita, ou devia possibilitar, tudo o que contém ou devia conter.
Estas Histórias de reformados com solidão à vista fazem literatura sem o querer fazer, ou dando a ideia de que o não querem fazer, o que, como se sabe, é às vezes a melhor maneira de fazer boa literatura. Numa linguagem simples, fluente, elegante, histórias curtas, situações umas vezes aparentemente banais, outras inéditas, quase sempre inesperadas, vão produzindo um quadro complexo, multifacetado, rico, de uma situação e de um estado social e afetivo que pode ser tudo menos linear ou simples, muito menos, fácil. A complexidade está lá, mas subentendida, escondida por debaixo do correr dos dias, das atitudes e dos casos. Livro “leve” que nos deixa a pensar, livro revelador de um universo que passa por nós, que anda à nossa volta e que muitos casos ultimamente ocorridos nos demonstram poder ser muito mais dramático do que habitualmente se pensa.

João Boavida

(Leitor convidado - Professor Catedrático da Universidade de Coimbra)

domingo, 4 de março de 2012

O clube do urânio de Hitler



O século XX foi um dos mais brutais da história. Duas grandes guerras, extermínios em massa, massacres e humilhações perpetradas por sistemas totalitários e ditaduras de toda espécie. Mas nada se compara à força destrutiva do nazi-fascismo que, só na Segunda Grande Guerra, ceifou cerca de 50 milhões de vidas. O mundo resultante dos escombros dessa destruição sem precedentes pode não ter sido o mais auspicioso, mas não há qualquer dúvida de que a vitória amargamente pírrica dos aliados foi o melhor resultado possível. Porém, a história poderia ter sido diferente se Hitler tivesse armamentos nucleares. A análise do desenvolvimento do programa nuclear de Hitler é o objecto deste livro, que disseca, com rigor científico e histórico, os dossiers da Operação Epsilon, que foram tornados públicos em 1992.

Esta operação secreta dá seguimento a uma operação anterior, a Operação ALSOS, que visava obter, na esteira do avanço anglo-americano através Europa liberta do nazismo, informação sobre o desenvolvimento nuclear na Alemanha durante a guerra. A Operação aliada Epsilon, que se iniciou com a derrota da Alemanha na primavera de 1945 e se estendeu até o início de 1946, consistiu na captura, transporte, alojamento e observação de dez dos mais eminentes cientistas nucleares alemães. Dentre esses encontravam-se dois Prémios Nobel, Max von Laue (que não esteve envolvido nas actividades de desenvolvimento nuclear e que foi um resistente ao regime) e Werner Heisenberg, para além de Otto Hahn, que descobriu experimentalmente a fissão nuclear em 1938, e que acabou por ser galardoado com o Prémio Nobel de 1945, precisamente enquanto estava sob detenção.

Estes dez cientistas (excepção feita a von Laue), faziam parte do "Uranverein" (Clube do Urânio) que, durante a guerra, foi incumbido pelo Exército Alemão de desenvolver, sob a liderança de Heisenberg, uma bomba atómica e para tal um reactor nuclear. Depois de capturados, os cientistas foram instalados numa casa de campo, Farm Hall, em Godmanchester, perto de Cambridge, e, sem o seu conhecimento, foram mantidos sob escuta.

A transcrição das conversas desse grupo é extraordinariamente reveladora e desmente categoricamente a ideia propagada depois da guerra, muito particularmente por Heisenberg e Carl von Weizsaecker, um hábil e politicamente bem colocado membro do grupo (era filho dum proeminente diplomata do Reich, Ernest von Weizsaecker), segundo a qual os cientistas alemães tinham desde o início adoptado a postura ética de não desenvolver armas nucleares para Hitler, ao passo que os cientistas anglo-americanos, apesar de livres, não tinham tido qualquer problema de consciência por desenvolver e utilizar as armas nucleares que haviam concebido.

Mas esta versão é cabalmente desmentida pela verdade dos factos, como nos revela a conversa livre entre os membros do grupo. E a verdade pode ser muito simplesmente resumida: as armas nucleares não foram desenvolvidas na Alemanha porquê os cientistas alemães não haviam compreendido aspectos fundamentais no desenvolvimento num reactor nuclear (a palavra alemã utilizada é "Machine") e da complexa problemática física e técnica envolvendo a construção e a detonação duma bomba nuclear. Contudo, a intenção era claríssima no que diz respeito a Heisenberg e von Weizsaecker, como o revelam inúmeros documentos, memorandos, pelo menos uma patente (de von Weizsaecker) e a documentação de discussões e apresentações com e para importantes membros da elite Nazi. Naturalmente, mesmo que o problema de construção da bomba atómica tivesse sido completamente compreendida pelos cientistas alemães, é pouco provável que estes pudessem mobilizar os recursos materiais, e sobretudo humanos, para a monumental tarefa de libertar a energia nuclear para fins militares. Mas a questão é que a intenção primordial do programa nuclear alemão era o desenvolvimento de armas nucleares.

É particularmente interessante a transformação psicológica que teve lugar na mente desses cientistas enquanto estiveram em cativeiro. Inicialmente, supuseram que haviam sido capturados pelo estágio superior dos seus conhecimentos em física nuclear. De facto, ao serem interrogados pelo físico holandês-americano Samuel Goudsmit (que foi incumbido para a tarefa no contexto da Operação ALSOS pelo general norte-americano Leslie Groves, líder administrativo e militar do projecto de construção da bomba atómica aliada, o Projecto Manhattan), nada lhes foi dito sobre o desenvolvimento alcançado pelos aliados. Quando souberam em 6 de Agosto de 1945, através da imprensa, da destruição de Hiroshima por uma bomba cujo material físsil era urânio enriquecido, a primeira reacção foi a de negação. Heisenberg chegou mesmo a afirmar que não se tratava duma arma atómica, mas dum explosivo convencional mais desenvolvido. Subsequentemente, acalentaram a ideia de que uma arma mais desenvolvida que usasse um elemento artificial, o plutónio, a ser produzido num reactor era inacessível aos aliados, e que eles teriam esse trunfo para negociar com os aliados a sua libertação. Contudo, esta ilusão foi rapidamente desfeita pelos factos, dado que em 9 de Agosto, a imprensa de todo o mundo notificava que Nagasaki havia sido destruída por uma bomba de fissão que usava o elemento artificial produzido num reactor nuclear, o plutónio. Perplexos e desmoralizados desenvolvem, pouco a pouco, a tese absurda e mentirosa de que nunca tinham tido a intenção de desenvolver armas nucleares e que estavam, na verdade, empenhados na construção dum reactor nuclear para fins pacíficos. Finalmente, em 14 de Agosto de 1945, Heisenberg dá um seminário técnico para o grupo, onde expõe a sua compreensão de como funcionava uma bomba atómica. A exposição revela impiedosamente todas as deficiências inerentes ao programa alemão, para além do desconhecimento de vários aspectos técnicos, e a incompreensão de muitos dos problemas mais fundamentais associados aos processos físicos relativos à fissão e à detonação do material físsil. Tudo isso sem falar nos milhares de problemas de física, de tecnologia e de produção que os cientistas alemães teriam que solucionar, mas sobre os quais ainda não tinham a mais pálida ideia devido ao primitivo estágio do seu programa nuclear.

O livro de Jeremy Bernstein permite-nos perceber o grau de desenvolvimento atingido pelos cientistas alemães, avaliar com clareza a verdadeira dimensão da degradação moral dos homens que trabalharam para Hitler, e elucidar com exactidão inúmeros aspectos técnicos (Bernstein tem formação em física nuclear) e históricos. Numa síntese final, Bernstein, faz uma rigorosa análise dos vários equívocos que circularam sobre o objectivo dos cientistas do Uranverein e o desenvolvimento da física nuclear na Alemanha durante a Segunda Grande Guerra por conta do desconhecimento das transcrições das conversas de Farm Hall. O livro de Bernstein é uma leitura obrigatória para todos que estiverem interessados na verdade histórica sobre os cientistas nucleares de Hitler.


Orfeu B.


sábado, 25 de fevereiro de 2012

COM PALAVRAS FAZER ACONTECER


Mário de Carvalho diverte-se e nós também. Os seus contos são frequentemente brilhantes e servidos por uma escrita de altíssima qualidade.

As suas narrativas partem daquela ideia enunciada por Jorge Luís Borges segundo o qual com palavras podemos fazer acontecer um tigre. Ou qualquer outra coisa, digo eu. A palavra acrescenta e expande a realidade. E é nessa capacidade de expandir a realidade que o Mário é um mestre.

Haverá 3 ou 4 linhas nesses contos. O livro é aliás organizado em 4 capítulos sem título.

No primeiro temos os contos totalmente inventados que exploram o universo de certas histórias ou reportagens de cenários de guerra num país árabe e, o outro, em África. Este último “Na terra dos Makaueles” é uma verdadeira obra prima de invenção pstiche e ironia com um final delicioso.

No segundo grupo temos contos mais próximos do realismo. Histórias dos tempos da resistência ao fascismo. Desenhadas com uma excelente capacidade de captar o tom da época quer na acção quer nos diálogos.

O terceiro grupo situa-se no campo do absurdo, outra zona onde o Mário se sente como peixe na água, aliás como aquele estranho peixe de “O Celacanto” que se transformou em primo de instalações artísticas patarecas e foge da galeria passeando ou voando (?) à solta pelas ruas de Lisboa.

O quarto grupo, onde está mais ausente a ironia que é a roupa que melhor veste a escrita de Mário de Carvalho, para nos dar três narrativas obsessivas, inquietantes, um tanto psicologistas.

Li-o num dia e meio. Quase sem parar. O conjunto resulta num tempo de leitura divertida e consistente como é raro encontrar na literatura actual.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

UM ROMANCE PARA MASTIGAR


Escrita portentosa do Nobel J. M. Coetzes. Escrita funda. Organizada. Aparentemente do lado racional do olhar sobre o mundo. Mais virada às racionalidades que às emoções.

Elizabeth Costello é uma escritora australiana que percorre o mundo a fazer palestras. Nos primeiros 7 capítulos assistimos às suas palestras, às suas ideias por vezes contraditórias sobre o bem e o mal, os direitos dos animais, o holocausto, etc.

A princípio o livro parece ser apenas uma exposição brilhante de ideias. Mas, a figura da escritora vai crescendo quase sem o leitor se dar conta disso e explode numa forma muito particular de associar o racional e o emocional, para terminar de forma absolutamente inesperada ou pelo menos surpreendente com a espessura que só um grande escritor é capaz de conferir à sua escrita.
Neste romance construído cuidadosamente e cheio de pequenas e grandes surpresas, Coetzee obriga-nos a pensar, a argumentar, a usar o contraditório, a emocionarmo-nos com o brilhante exercício de uma racionalidade levada quase até ao extremo.

Diria que “Elizabeth Costello” é um romance para mastigar, para ler devagar, parar a meio, voltar atrás. Para reler. Não serve para distrair. Não é um entretenimento. É literatura. Grande. Daquela que nos faz pensar e repensar no tempo que nos é dado viver através do uso notável da arte das palavras e da reflexão sobre o uso dessa arte.

"(...)//Em qualquer aventura,/ O que importa é partir, não é chegar." António Gedeão

Um barco no Céu
Texto: Quentin Blake
Ilustração: Quentin Blake
Editora Kalandraka

Este livro resulta de uma troca de ideias, sobre o mundo actual e as suas injustiças,  ao longo de um ano, entre o autor Quentin Blake e 1800 meninos e meninas da Grã-Bretanha, China, Irlanda, Luxemburgo, Noruega e França.

Duas crianças. Um passeio na praia e um encontro. Os destroços de um barco. Mas o barco reconstrói-se  e a viagem começa em voo pelo céus. A tripulação vai aumentando: uma cegonha ferida, uma criança extenuada por trabalho, um miúdo quase sufocado pelo fumo de uma cidade, um bebé e uma mãe resgatados de uma guerra...

A magia do barco voador explica-a a fantasia e determinação de cada um de nós.
A ilustração, também de Quentin Blake que muitos reconhecerão dos livros de Roald Dahl (Matilda, As Bruxas, A Fábrica de Chocolate e tantos outros), respira com leveza e deixa a sensação de também nós partirmos pela vastidão do céu. 
Uma espiral de ajuda no meio da universal crueldade do mundo que permanece num voltar atrás na página.
Não resolvemos tudo mas é necessário não desistir de tentar resolver o possível.  
Um livro para (dar a) ler, sem moralismos mas com esperança.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

O TEMPO E O DESERTO



Ponto Ômega é o termo criado por Pierre Teilhard de Chardin para descrever o último e máximo nível da consciência humana. Chardin advoga que a evolução humana tem um ponto final, quando todas as consciências se fundirão numa só e a humanidade é um único ser que habita o planeta inclusive fora de nossos corpos e mentes.

Ponto Ómega é o título deste livro de DeLillo, autor que nunca tinha lido. Estava na imensa lista das minhas mais graves falhas de leitura. E gostei muito e fiquei com vontade de conhecer mais.

Ruchard Elster é um intelectual que colaborou com o Pentágono na conceptualização das manobras da guerra do Iraque. Elster afirma que a verdadeira vida tem lugar apenas quando estamos sozinhos a meditar, a sentir, perdidos das nossas memórias.

Elster vai viver para o deserto, onde julga poder anular o tempo e afastar-se de tudo o que perturba o encontro único consigo próprio.

Um jovem realizador de cinema pretende fazer um filme num único plano-sequência, com uma única personagem.

Escolhe Elster e vai ter com ele ao deserto onde tenta convencê-lo a participar nesse seu projecto.

O quotidiano dos dois torna-se num longo diálogo sobre a vida, o tempo, a guerra, até ao aparecimento da filha de Elster que, subitamente, introduz uma inflexão dramática que nos mostra a impossibilidade da dissolução no nada do deserto ou no absoluto da alma.

Escrito brilhantemente, o romance tem dois capítulos (o peimeiro e o últrimo) particularmente notáveis e inquietantes. Trata-se da descrição das sessões no MOMA à projecção do filme VERTIGO de Hitchcok passado a uma velocidade extremamente lenta.

Todo o romance trata disso mesmo: da possibilidade ou impossibilidade de caminhar para esse ponto ómega de que falava Chardin.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O MODERNO E O ANTIGO


O filho do romancista australiano Peter Carey está apaixonado pela manga e pelo anime (banda desenhada e desenhos animados japoneses). O pai resolve levá-lo para ambos conhecerem o Japão.

Mas o Japão tradicional não, exige o filho. O pai aceita um mergulho no Japão moderno e aproveita para fazer entrevistas a criadores de manga mas também consegue arrastar o filho ao teatro kabuki.

Entre o moderno e o antigo Peter Carey tenta entender o Japão. Nesse balanço fala-nos sobre a mitologia dos samurais e relembra-nos a tremenda destruição sofrida pelo país durante a 2ª guerra mundial.

O filho encontra-se com um estranho amigo japonês conhecido no facebook e tenta elucidar o pai sobre alguns aspectos invulgares do Japão moderna.

Entre pai e filho, entre moderno e antigo, o livro avança como uma espécie de simpático relatório de perplexidades, uma tentativa muito séria de tentar compreender e dar a compreender o Japão.

E é para isto que serve um livro de viagens: dar-nos a conhecer um olhar que tenta mergulhar na realidade mais ou menos profunda, mais ou menos superficial de um dado país, conjugando esse olhar com dados históricos, apontamentos de conversas, descrições culinárias...

Enfim, um livro de viagens, um bom livro de viagens é o que há de mais próximo da viagem propriamente dita. E mesmo depois da viagem, o olhar de outro acrescentar-nos-á sempre qualquer coisa outra aquilo que vivemos directamente.

É este o encanto dos livros de viagem e, particularmente, desta colecção da Tinta da China.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

“precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia” valter hugo mãe

 De valter hugo mãe 



A Máquina de Fazer Espanhóis
Editor: Alfaguara Portugal




À primeira o título não me inspirou confiança; parecia tratar-se de uma qualquer piada ibérica.
Ultrapassada tal reserva o livro “a máquina de fazer espanhóis” veio para a minha leitura e passou a ser um dos livros preferidos. Os títulos de cada capítulo são imagens de uma realidade genialmente descrita em letras minúsculas. “o fascismo dos bons homens” “o amor é uma estupidez intermitente mas universal” “o esteves a transbordar de metafisica” “cidadãos não praticantes” “deus é uma cobiça que temos dentro de nós” e “precisava deste resto de solidão para aprender sobre este resto de companhia” são alguns que destaco. Depreende-se deles uma história de solidão, de velhice, de amizade, de reencontros.
Como que de raspão, mostra-se a teia política do Estado Novo, que leva um bom homem a denunciar um opositor ao regime salazarista, em nome da não sacrificável beatitude familiar.

O diálogo inicial entre o administrativo silva da europa e o silva, protagonista do livro, um quase monólogo daquele face ao resistente mutismo deste, inteira-nos com mestria no cidadão orgulhoso da liberdade conquistada, aceitando-a como dado adquirido num espaço orgulhosamente europeu, com o risco de “uma não importância que se pensa porque parece que já nem é preciso pensar”.
E a parca intervenção ensimesmada da silva protagonista varia, entre a preocupação sobre a vida da mulher hospitalizada e as interrogações comuns do seu universo como cidadão.
Magistralmente pela escrita sentimos o questionar da dignidade humana na sociedade actual, dos hábitos que gerem a vida, da necessária adaptação ao novo quando aqueles se rompem, mesmo que se tenha 84 anos.

Os 2 “silvas” são a escolha sábia de um nome e um sentir português, como se um e outro fossem “a frente “ e o “verso”. No decorrer da história, a bem dizer da escrita vários intervenientes se cruzam num misto de raiva, frustração, empatia, amizade e amor. E traz-nos ainda na vivência, um protagonista da Tabacaria de Álvaro de Campos,  figura que atravessa o livro como um ídolo com o qual os /nos presenteiam em pessoa, mandatário do génio escritor no seu heterónimo. Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!” (Tabacaria)

A ironia mesclada de alguma inocência na imagética religiosa dá-nos pinceladas únicas de um ateísmo que se revela companheiro na figura solitária de uma nossa senhora de fátima rodeada de pombas em forma de estátua.

O lar que se afigura humano na pessoa dos companheiros e do ajudante de lar, personagem simpática e acolhedora que acompanha e suaviza a vida de cada um, não atenua o cinzentismo mórbido de uma ala com vista para o cemitério onde ficam os dependentes à beira da última viagem. Onde fica pois o espanhol um dos mais recentes utentes e onde se constrói toda uma sombria fantasia tornada real e onde se desenrola todo um sonhar que dá o título ao livro.

Aí nesse lugar despede-se de nós, como se da própria vida fosse, o Silva do livro por quem nos apaixonamos irremediavelmente e a quem queremos salvar da morte no encerrar das páginas. Um silva que traz nele cada um de nós no nosso presente e no nosso futuro. Inolvidável leitura.

Leitora convidada: Cristina Lopes. Advogada. “Leitora compulsiva, amante de artes e ambiente aqui ando em busca de correcta aplicação de leis na ajuda das vidas. Algum nomadismo desde que confortável.”




quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

A URGÊNCIA DA POESIA

"VIM PORQUE ME PAGAVAM"

GOLGONA ANGHEL

Há muito que não encontrava poesia escrita e editada em Portugal com esta urgência, força, este sangue por dentro, esta raiva, esta vontade de gritar, esta intenção de inscrever a sua urdidura de palavras e sentidos e cacos de vida num discurso urgente que se parte estilhaça a página e espalha em seu redor recriminações, vidros, quebras, palpitações, e um óbvio desejo de caminhar num percurso de referências literárias e filosóficas de largo espectro.

Golgona não bebe no que tem sido a moda dominante da poesia melancólica encerrada nas malhas ténues de um quotidiano sem alma. Tem a ver com caminhos largos e marginais, buscas estridentes, música que se impõe através de colagens de sentidos com ressonâncias surrealistas e próximas de alguns dos poetas da beat generation.

Golgona é romena e vive há alguns anos em Portugal. Licenciada em literatura portuguesa e estudiosa da obra de Al Berto.

300 exemplares é a tiragem desta edição da Mariposa Azul, uma das pequenas editoras que estão a insistir na publicação de poesia em pequeníssimas tiragens.

De qualquer forma, a poesia continua e muito a refugiar-se no mundo da blogosfera com alguns autores de basta qualidade e muitos equívocos porventura bem intencionados.

Compra-se pouca poesia mas escreve-se muita. Talvez demais. Ou não. A poesia continua a ser a forma de muitos de nós falarmos em português. Poucos tão bem como esta poeta.

domingo, 22 de janeiro de 2012

A Gruta dos Sonhos Perdidos


A génese da cultura humana é dos mais fascinantes enigmas. Os traços marcantes que nos distinguem enquanto espécie única no nosso planeta (e até prova em contrário, em todo o cosmos, ainda que o presente autor acredite que o Universo está repleto de vida - ver O Livro das Escolhas Cósmicas e Cosmological Thinking: cultural heritage and challenge) passam necessariamente pela nossa capacidade de desenvolver tecnologia e dar origem a factos culturais e históricos, multiplicando nesse processo a habilidade individual de interagir com o mundo e assegurar a sobrevivência de pequenos grupos de indivíduos que isolados e sem conhecimento não teriam qualquer hipótese de enfrentar os desafios do mundo circundante. O desenvolvimento da inteligência, da linguagem, e da tecnologia são os traços mais salientes dessa inexorável evolução que permite a alguns entre nós de salvar vidas, conceber projectos de engenharia, idealizar sinfonias, escrever poemas épicos, demonstrar teoremas matemáticos e elaborar modelos cosmológicos. Mas por mais camadas que o desenvolvimento material das sociedades acrescentem, parece que o conjunto das habilidades que são características da nossa espécie surpreendentemente já existiam e num elevado grau de sofisticação, há pelo menos várias dezenas de milhares de anos como algumas descobertas arqueológicas parecem tão claramente indicar. Mas há naturalmente um enorme fosso a separar as motivações que dão hoje origem à criação cultural e artística e as que existiram no passado. As pinturas da gruta de Chauvet recentemente descobertas suscitam questões de princípio e reacendem a discussão que teve lugar anteriormente acerca das pinturas de Lascaux, das representações dos "sonhos" dos aborígenes australianos entre outras, sobre a origem, a finalidade e o contexto antropológico dessas magníficas representações artísticas.

Situada numa escarpa abrupta nas margens do rio Ardeche, um tributário do Rhône, no sul de França, a gruta de Chauvet foi descoberta em 18 de Dezembro de 1994 pelos espeleologitas Jean-Marie Chauvet, Eliette Brunel Deschamps e Christian Hillaire. Ao anoitecer desse dia os exploradores ainda tiveram a percepção da importância da descoberta e puderam, ainda que brevemente, vislumbrar esse museu paleolítico que esteve fechado, devido a sucessivos deslizamentos de terra, durante algumas dezenas de milhares de anos.

Os estudos multidisciplinares dos vários aspectos dessa gruta continuam e foram catalogadas mais de 300 pinturas com cerca de 32 mil anos, as mais antigas jamais encontradas, e quase todas num impressionante estado de conservação.

O fascínio que essas questões me suscitam são irresistíveis, pelo que eu me desculpo aos leitores habituais dos 7 leitores, pois estas compelem-me a escrever hoje não sobre um livro, mas sobre um filme. O filme do encenador Werner Herzog, que se encontra actualmente em exibição, e cujo título essa entrada toma de empréstimo, apresenta-nos por meio de imagens tridimensionais a desconcertante beleza das pinturas da gruta de Chauvet representando animais (cavalos, bisões, leões, rinocerontes, ursos, um mocho, uma águia, etc) e de pelo menos uma figura humana, uma "Vénus" que está sendo abraçada por um bisão antropoformizado. Estas imagens surpreendem os especialistas pela sua tématica dominada por animais ferozes, em oposição à temática mais comum das representações paleolitícas que são dominadas pelos animais de caça, e naturalmente, pela sua refinada técnica de sombreado e perspectiva.

Se por um lado, parece haver unanimidade entre os especialistas relativamente ao contexto arqueológico da gruta de Cheuvet e da sua ligação à cultura Aurignaciana, cultura arqueológica do Paleolítico Superior, localizada na Europa e no Sudoeste da Ásia entre 34000 e 23000 anos, eu suponho que a questões concernentes às motivações e o significado específico dessas representações está e continuará no campo da especulação e da conjectura. Pessoalmente, o que mais me impressiona nessas representações é a compulsão criativa e analítica que lhes está subjacente, e o facto desta parecer não diferir essencialmente da que nos compele hoje a procurar formas extraordinárias e transcendentes de expressão. Parece também que essas manifestações vão muito para além dos aspectos ligados à sobrevivência da espécie a curto prazo, e que são como que exercícios de competências que serão fundamentais numa escala temporal muito mais alargada.

Naturalmente, a última palavra sobre o significado dessas impressionantes manifestações artísticas será dada pelos especialistas, mas essas sugerem-me acima de tudo que a sede de conhecimento é uma característica inata da nossa espécie e que a inocência do estado original de ignorância não é mais que o estágio inicial e que a sua manutenção é fundamentalmente contra-natura. Neste sentido, a punição que supostamente todos merecemos por conta do "pecado original" como descrito na Torá, na lenda da descida de Orfeu ao inferno para contrariar a morte e trazer de volta Eurídice, na parábola do fogo roubado aos deuses por Prometeu, e noutros mitos, visam reprimir o impulso criativo, um dos mais fundamentais da natureza humana e, em última instância, da própria evolução biológica. Parece-me assim, justo concluir que esses esforços mitológicos que visavam manter a humanidade num estado de inocente ignorância primordial estavam fadados ao fracasso por serem completamente contra a corrente da história, pois para a nossa espécie, o acto de criar é tão básico como o de respirar.

Orfeu B.


sábado, 14 de janeiro de 2012

A ARTE DA SEDUÇÃO



Há muito que tinha esta autora como obrigatória na prateleira de leituras das urgências mais urgentes. E só posso lamentar que me tenha demorado tanto.

Nascida no Sul, sob influência de William Faulkner, a autora é, junto com Flannery O'Connors uma das vozes femininas mais poderosas da literatura americana.

A sua escrita é arrasadora, atravessada por uma espécie de bruma poética que nos envolve e nos faz cada mergulhar mais fundo na leitura. Em meia penada desenha um ambiente, cria personagens fantásticas, dá caminho a uma história tão inquietante quanto aparentemente vulgar.

A acção desta curta novela situa-se numa aldeia pobre do Sul dos EUA. Uma mulher forte que foi casada por uns dias e agora,solitária, independente, rude e sozinha, trata da sua vida,fabrica um whiskey muito especial, gere um armazém de produtos agrícolas.

Aparece um anão que diz ser seu familiar. pelo qual começa nutrir uma atracção e um afecto especial e que fica a viver no andar por cima do armazém, num quarto junto do quarto dela.

O anão exerce numa estranha arte da sedução, encanta toda a gente com a sua bonomia, a sua conversa envolvente e divertida, e o seu encanto.

Convence-a a transformar o armazém num café e a vida da aldeia passa a rodar em torno do café.

Um belo dia reaparece o marido saído da prisão e é em torno deste estranho triângulo talvez amoroso que se vai gerar o drama que nos agarra pelos cabelos de nos faz mergulhar cada vez mais fundo na leitura.


domingo, 8 de janeiro de 2012

A PALAVRA E A IMAGEM



G. Greene fez este texto para um filme de Orson Welles. No entanto, em vez de um guião quis fazer um romance, ou uma novela, conforme se quiser, para não ficar preso à fórmula mais concisa da escrita guionista.

A verdade é que o texto não será propriamente um romance. O objectivo de se tornar filme faz com que incida muito na acção e na nomeação dos lugares mais do que nop jogo de palavras, emoções ou descrição dos lugares.

O resultado é a rapidez e eficácia como corre a narrativa

Graham Greene trabalhou em várias obras o mundo da espionagem tal como Le Carré. Nesse capítulo da literatura serão dois mestres.

Tudo se passa em Viena nos meses do pós-guerra quando a cidade estava repartida ainda entre Russos, Americanos, Franceses e Ingleses.

Um homem, perdido em Viena onde chega a chamado do seu grande amigo é informado que ele acaba de morrer, atropelado. Depois conclui que ele foi assassinado. Dizem-lhe que o amigo se dedicava ao tráfico de penicilina alterada que vai causando a morte sobretudo de crianças. E depois…

Tudo se passa numa espécie de pesadelo numa Viena meia destruída, onde as polícias das 4 potências se entendem mal e onde o mercado negro fervilhe e os negócios mais ou menos obscuros se multiplicam.

Depois do livro apetece ver o filme. E acredito que esta seja a ordem correcta. É raro o filme que consiga conter a alma de um livro. A relação entre imagem e palavra nem sempre é pacífica. É mais fácil um filme feito a partir de um romance medíocre do que de um grande romance. Há muito de um romance que difícil e raramente cabe na sua adaptação cinematográfica.

No entanto, esta novela foi escrita para cinema. Por isso, vou à procura do filme já que, ainda por cima, o realizador é o grande Orson Welles

domingo, 1 de janeiro de 2012

"Eu fiz-me ouvir junto de quem não perguntou por mim. Deixei-me achar por quem não me buscou.” Isaías






Diário

 (1941-1943)

Etty Hillesum

Colecção Teofanias
(dirigida por José Tolentino Mendonça)

Assírio e Alvim


Etty Hillesum, jovem judia de 27 anos, escreveu,  entre 9 de Março de 1941 e 13 de Outubro de 1942, um diário em oito cadernos. Desses escritos saiu este “Diário” breve, profundo e intenso de uma vida também breve e intensa, em tempos fatalmente trágicos que desafiaram toda a resistência humana ao sofrimento e à humilhação.  
Etty, que morreu antes de completar trinta anos, foi um espirito crente em Deus que não renegou a sensualidade do corpo nem a beleza de um mundo marcado pelo sofrimento. Toda a sua escrita é dotada de uma forte espiritualidade ancorada ao amor e à consciência do corpo, invulgares no feminino da época em que viveu.
Quando, em 1942, Etty foi enviada para o campo de concentração Westerbork (morreu, em 1943, em Auschwitz) levou consigo a Bíblia, “Cartas a um Jovem Poeta” e o “O Livro de Horas” de Rilke por quem tinha uma profunda admiração. Leitora compulsiva teve na literatura mais que a sua outra pátria o lugar da própria vida.




“(…)Trago sempre o Rilke à baila. É tão estranho, ele era um homem frágil e escreveu muita da sua obra dentro dos muros dos castelos hospitaleiros e talvez tivesse ficado completamente destroçado em circunstâncias com aquelas em que vivemos actualmente. Mas não demonstrará boa economia que, em épocas tranquilas e em circunstâncias favoráveis, artistas sensíveis possam procurar livremente as formas mais belas e adequadas para as suas convicções mais profundas, que dão às pessoas em épocas mais agitadas e extenuantes um apoio e um abrigo para confusões e perguntas que ainda não tomaram uma forma e uma solução próprias, porque as energias diárias são reclamadas pelas aflições diárias? Em tempos difíceis as pessoas têm o costume de, com um gesto desprezível, deitar fora as conquistas espirituais de artistas das chamadas épocas fáceis (ser artista é em si mesmo já é bastante difícil, não é?), com o acrescento: Para que é isso nos serve?” 
Talvez seja compreensível, mas é tacanho. E infinitamente empobrecedor.(…)”


Os livros encerram em si a vida que presenciaram e são eles que nos amparam quando tudo o resta nos falta. Cada livro será sempre um singular e certo abrigo. 


Bom ano para todos os leitores.

Que sejam tal como Etty se afirmava: depositários de preciosos fragmentos de vida, responsáveis pelo sentimento grande e belo que a vida inspira e pelo dever de o tentar transportar intacto através desta época para atingir melhores dias.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Homo Faber


The technologist's mania for putting the Creation to use, because he can't tolerate it as a partner, can't do anything with it; technology as the knack of eliminating the world as resistance, for example, of diluting it by speed, so that we don't have to experience it ... My mistake lay in the fact that we technologists try to live without death. Her own words: "You don't treat life as a form, but as a mere addition sum, hence you have no relationship to time, because you have no relationship to death". Life is form in time.

Max Frisch




Homo Faber (Homo Faber. Ein bericht) é uma novela do escritor suiço Max Frisch (1911 - 1991) publicada em alemão em 1957. Escrita na primeira pessoa, no estilo dum relatório, como o título alemão sugere, relata-nos o drama dum bem sucedido engenheiro, Walter Faber, que trabalha para a UNESCO em projectos na Europa e nas Américas, e que, por força duma improvável cadeia de acontecimentos, vê-se no centro duma tragédia que rompe definitivamente a sua visão lógica e estruturada do mundo e da natureza.

Uma novela inquietante que não poupa o leitor das perguntas essenciais. Como pode um homem, moralmente inatacável, cujo relacionamento com o mundo faz-se através da técnica e da racionalidade, enfrentar o falhanço de ter sido incapaz de proteger quem ama dum acidente, e depois descobrir que o ente querido era na verdade a sua filha? Uma tragédia desencadeada por uma víbora, o ser instigador do pecado original (o pecado do conhecimento-técnica), e que acontece na Grécia, berço das tragédias clássicas onde invariavelmente os personagens caem nas armadilhas improváveis do destino, inteligíveis apenas para os deuses, ou para o narrador dotado da clarividência da perspectiva cronológica.

Uma novela densa, por vezes onírica na sua fragmentação narrativa, dialéctica na contraposição das visões de mundo antagónicas dos personagens, arquetípica pelas conexões estruturais acima mencionadas, mas sobretudo, existencialista no seu ponto focal.

Um livro comovente e extraordinariamente bem conseguido, à altura da bem conhecida e brilhante obra dramaturgica do autor, que inclui títulos como "Andorra" e "O Muro da China".


Orfeu B.


sábado, 24 de dezembro de 2011

MAPAS E AUSÊNCIAS



Um romance portentoso que roda à volta do conceito do tempo e da ausência.

A Argentina é um país de ausências, um país onde as marcas do tempo se confundem. Ou talvez não tanto as marcas do tempo como as marcas das identidades de um país que nem sempre coincide consigo mesmo.

País onde uma ditadura apagava acontecimentos pessoas, ruas, cidades e afirmava que o que não se vê não existe.

Um romance que, de forma sinuosa, nos leva a percorrer o tempo para a frente e para trás, em torno do exílio de um escritor e da personagem real/irreal que ele persegue e que por sua vez persegue cegamente o marido assassinado. Deste exílio diz o autor que:

“Do exílio ninguém regressa. O que abandonamos, abandona-nos”

Esta é sobretudo a história de Emília, uma mulher que perdeu tudo. A confiança no pai que sabe cúmplice da ditadura ou mais ainda do que isso. A memória da mãe que enlouquece. O marido assassinado pela polícia.

Emília não aceita que o marido tenha morrido e fica 30 anos à sua procura do Brasil à Venezuela até aos EUA. Uma cartógrafa que procura o mapa em que ela e Simón se possam reencontrar.

“O que fizeste com a tua vida, Emília?”, pergunta o autor. “Nada,” responde Emília, “…e isso é que é pior. Não fiz nada. A minha vida é que fez comigo.”

O rio redondo de buscas e equívocos, que é este romance, desenha um purgatório, uma espera sem ponto de chegada nem desespero, uma metáfora poderosa para a vida de todos nós.

No entanto, e sem tocar as patetices da literatura cor-de-rosa, o autor não deixa de visitar uma profunda fé no que de melhor a Humanidade tem, ou seja, na capacidade de amar.

Ao longo desta leitura cruzada com outras leituras e uma exposição de pintura, fui reflectindo sobre o mal e a sua expressão na palavra de alguns escritores e na representação de alguns pintores, sobre a perversidade como estética, sobre o convívio com os terríveis fantasmas da guerra ou, pior, da maldade absoluta.

E fico-me nesta afirmação de Tomás Eloy Martínez que me parece apontar para um percurso poético da escrita tão distante desse prazer mórbido que tem invadido muita arte e literatura contemporâneas, nomeadamente entre nós.

“Os romances escrevem-se para emendar no mundo a ausência perpétua daquilo que nunca existiu.”

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

“necesarios son en la madurez los carteros capaces de recibir cartas que sólo un loco puede ser capaz de escribir”


                                            
"Kafka y la Muñeca Viajera"
                                                   
Jordi Sierra i Fabra
                                                     
Editora Siruela

Conta-se que um dia Franz Kafka se cruzou com uma menina que chorava uma boneca perdida, no parque Steglitz, em Berlim onde morava em 1923.
Conta-se que Kafka tentou consolá-la dizendo-lhe que era um carteiro de bonecas e que, por acaso, tinha recebido uma carta da boneca da menina, que a prometeu levar no dia seguinte e que durante três semanas escreveu cartas que leu à menina contando as aventuras da viagem da sua boneca
A história foi contada por Dora Dymant, que nessa época vivia com Kafka, à crítica Marthe Robert e ao escritor Max Brod.
Kafka morreu no ano seguinte e as cartas da boneca ou a sua destinatária jamais foram encontradas. 
80 anos mais tarde Jordi Sierra i Fabra conta essa história no livro "Kafka y la Muñeca Viajera" (um livro,  com ilustrações de Pep Montserrat,  vencedor do Prémio Nacional de Literatura Infantil y Juvenil do Ministério da Cultura Espanhol, em 2007). 
Fabra reinventa a menina, Elsi, a boneca perdida, Brígida, e um Kafka feito carteiro atento e terno diferente do que conhecemos de outros processos e metamorfoses. Nós, leitores, sabemos que a boneca está perdida mas sentimo-nos cúmplices querendo que Elsi acredite nas aventuras impossíveis de uma boneca. Pelo meio Fabra faz-nos cruzar com o relacionamento de Kafka e Dora, com a cidade Berlim entre guerras e com algumas das suas angústias na escrita, num registo de ternura e redenção. Uma história encantadora para leitores sem idade.


domingo, 4 de dezembro de 2011

JOHN CHEEVER, CONTISTA EM CONSTRUÇÃO - UM APONTAMRNTO



A Sextante Editora acaba de publicar (Outubro de 2011) um livro muito interessante de John Cheever, intitulado “Fall River e Outros Contos Dispersos”. Sobre os contos de John Cheever já me referi, a propósito do seu livro “Contos Completos I”, também editado pela Sextante. Em princípio, nunca me refiro duas vezes a um mesmo autor, mas este “Fall River e outros Contos Dispersos” tem uma característica muito especial, pois agrupa contos de 1993 (“Fall River” e “Fim de Estação”) a 1949 ( “ A Oportunidade”), o que permite assistimos à evolução da sua escrita desde a juventude. Também será de destacar a “Introdução” de George H. Hunt, esclarecedora da evolução de Cheever ao longo daquele período: influências recebidas, elaboração progressiva de um estilo próprio. Embora muitas das histórias do período de formação assentem na sua vida pessoal, numa entrevista de 1976, citada na referida “Introdução”, ele esclarecia: “O que eu costumo dizer é que a ficção não é cripto- autobiografia. O seu esplendor está em não ser autobiográfica. É um riquíssimo complexo de autobiografia, de biografia, de informação – informação factual, informação espiritual, apropriação”.
Cheever possuia a capacidade de alterar qualquer incidente que lhe ocorresse “numa história magicamente alterada”. A sua criatividade e o seu potencial narrativo foi algo que o acompanhou desde os seus 19 anos até à sua morte, aos setenta anos. Segundo Hunt, a escrita de Hemingway, “ a sua simplicidade emotiva”, a sua contenção, teria sido a grande fonte de inspiração de Cheever, nos primeiros tempos, como se pode verificar em “Fall River”:
“Havia dois anos que as pessoas o sabiam, mas no inverno tornou-se óbvio. As fábricas tinham parado e as rodas enormes mantinham-se imóveis junto aos tetos. Os teares amontoavam-se no chão como a maquinaria sem préstimo num velho teatro de ópera. Pelos pavimentos, nas traves e nos flancos brilhantes de aço, o véu da teia estava coberto como neve antiga”.
Assim se inicia o conto, com uma descrição naturalista da situação em que a acção se irá desenhar. Descrição neutral, que nada nos sugere acerca das personagens que irão dinamizar aquela estrutura.
No entanto, a construção característica de Hemingway não lhe permitia expandir as suas faculdades de escritor: “Acho que com as imagens temos uma escolha a fazer: ou ampliá-las ou reduzi-las. Neste momento (1976) acho a redução deplorável. Quando eu era mais novo, achava isso brilhante”. E será através dos últimos textos da obra que estamos a analisar que encontramos uma outra escrita de Cheever, agora liberta das influências reducionistas que lhe conferiam um estatuto de autor de referência da escola “minimalista” norte-americana dos anos 20, 30. Estamos, pois, perante uma nova escrita, em que as personagens têm uma clara expressão de sentimentos e pensamentos, fornecendo ao leitor, desde o início dos contos, um conjunto de pistas para a compreensão da evolução da acção:
“ Quando naquela manhã Roger Gaige apareceu na pista e disse a toda a gente, treinadores,moços das cavaliças e aficionados das corridas, que ia mudar de vida, muitos deles riram-se abertamente e McGrath, o seu melhor amigo, não conseguiu disfarçar um sorriso. Havia quinze anos que viam a sua cara prazenteira e invulgarmente crédula em todos os cercados das pistas de corridas do país e a impossibilidade de separem Rorger dos cercados era apenas a fraqueza natural da imaginação humana”
O modo como inicia este conto, intitulado “Saratoga,” constitui um exemplo do que acabo de dizer. A suspeição da firmeza da decisão da personagem insinua-se imediatamente no leitor e funciona como o fermento da acção que se irá desenvolver nos parágrafos que se seguem, algo que contamina o leitor e lhe tira a possibilidade de um olhar distanciado sobre os acontecimentos.
Mas ainda não é o Cheever da maturidade, pelo que teremos de esperar pelos anos 50, 60, para que encontremos uma escrita verdadeiramente pessoal, liberta de influências de escolas e autores, como se podetá verificar nos seus “Contos Completos”, I e II.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

ENQUANTO O DIABO ESFREGA UM OLHO


“QUANDO O DIABO REZA”

MÁRIO DE CARVALHO

Os meus amigos são os melhores escritores do mundo. E o Mário de Carvalho é um dos primeiros entre eles.

Mário de Carvalho é um leitor atento dos clássicos portugueses do séc. XVII, a começar pelo Padre António Vieira. E com eles ou por eles terá caminhado para uma arte rara de bem tratar a nossa língua, de procurar vocabulário luminoso e expressivo, de construi a frase como poucos o fazem na nossa literatura.

Julgo saber que outra das paixões do Mário é a banda desenhada. Dela transpõe para alguns dos seus contos e novelas o traço rápido e um humor tão subtil como galhofeiro.

A juntar a isto tome-se o conhecimento que tem do popular lisboeta chegamos a esta novela que será prima dos famosos e notáveis “Casos do Beco das Sardinheiras”.

A história, que poderia ser também parente da “Crónica dos bons malandros” do Mário Zambujal, mete bandidecos de 3ª categoria, um carro a cair aos bocados uma rapariga facilzita, um dono de drogarias a caminhar para a senilidade com duas filhas que lhe anseiam pela herança para cumprirem os seus sonhos viajantes de pequenas burguesas lisboetas.

Tudo cheira a esta pobre terceira classe em que parece que não deixámos de viver, país pequeno e ronceiro, onde muitos gostam de se tomar a serio, até os governos, e acabam por mostrar à saciedade o seu lado mais frágil e manhoso.

Lê-se enquanto o diabo esfrega um olho, ou enquanto o diabo reza, o que deve ser mais ou menos a mesma coisa.