quarta-feira, 25 de julho de 2012

DA CRISE INDIVÍDUAL À CRISE COLECTIVA


Quando chegar ao fim da minha vida deixarei milhares de livros que devia ter lido e não li, centenas de escritores que foram ficando infelizmente para trás.

Por isto assumo a leitura como actividade que, sendo naturalmente fundamental na minha vida, acaba por ser sempre arbitrária, já que nunca poderei levar a bom termo nenhum programa de leitura minimamente competente. Melhor, talvez seja outra a competência da escolha mais ou menos arbitrária das leituras.

É claro que este arbitrário não será tão arbitrário assim. De qualquer forma não advém de um programa com qualquer pretensão científica, se é que isso existe. O meu programa de leitura anda às curvas, para um lado e para outro, ao sabor de circunstâncias diversas, outras leituras, referências diversas, opiniões de amigos, etc.

Seja como for, por mais que faça, haverá sempre muitos escritores importantíssimos que nunca li e muitos outros que li e que talvez não sejam assim tão importantes.

Por outro lado, também sei que o que eu leio não é exactamente o que esses escritores escreveram. O que eu leio é o cruzamento dessa escrita e do meu olhar, das minhas emoções, da história da minha vida.

Vem isto a propósito de Saul Bellow, escritor americano Prémio Nobel de 1967, que há muito desejava conhecer e que, por esta ou por aquela razão, não tinha ainda lido.

Comecei por “Aproveita o dia”, uma novela de 125 páginas, publicada há alguns anos numa bela colecção da Texto editora que divulgou obras de vários escritores justamente galardoados com o Nobel como são os casos de Bellow, Eli Wiesel, Nadine Gordimer, etc.


A escrita de Bellow é poderosa, intensa, lenta, circular, traçando uma espécie de monólogo interior obsessivo de um falhado, incapaz de assumir a incapacidade para organizar a sua vida e que atira as culpas de tudo para cima do pai, da ex-mulher, dos ex-patrões, do vago psicólogo que o encanta e vigariza descaradamente.

William, o protagonista,  perto dos 50 anos, entrega-se cegamente nos braços do vigarista que ele reconhece como vigarista mas de quem recebe um simulacro de atenção, de compreensão, de amor que reclama dos seus familiares que exigem tudo dele e nada lhe dão em troca ou é  ele que é incapaz de recolher dos que o cercam e da vida o consolo que tanto deseja.

O texto traz-nos uma miríade de outros pequenos problemas no cenário  apenas entrevisto de uma sociedade em crise. E fala-nos da importância do dinheiro como símbolo de sucesso  na relação com o pai, médico judeu reformado, para quem a incapacidade de gerir a própria vida  familiar e  económico não é merecedora de ajuda mas de desprezo.

E tudo se passa, quase uma vida,  durante um dia, em Nova York, cidade de todos os sonhos e de  todos os falhanços. 

Este William talvez pudesse ser um desempregado no Portugal de hoje. Ou talvez não. Porque no texto de Bellow o problema é o falhanço individual e no nosso país talvez a cara do falhanço seja colectiva, pelo menos na incapacidade colectiva de reagir aos que tecem e dominam os cordelinhos da crise.


domingo, 22 de julho de 2012

Partilhamos hoje as palavras e a experiência de um leitor muito especial que prontamente aceitou ser convidado dos 7leitores. 
O nosso imenso obrigado a Eugénio Lisboa.



O livro – a leitura – a crítica

 Falar do livro e da leitura – nada me poderia ser mais afim – O gosto pelos livros. O gosto pela leitura. O gosto de falar disso. Desde quando os possuo? A verdade – a  verdade – é que me não lembro daquela fase da minha vida em que ainda não lia. Deve ter existido – mas não me lembro. Para mim, estar vivo e ler foram, desde os alvores da consciência, sinónimos. Dizia Holbrook Jackson que “o objectivo da leitura não é mais livros mas sim mais vida” – com o que estou inteiramente de acordo. Há quem goste de estabelecer a oposição, ia a dizer, a luta entre os livros e a vida. Assim, haveria coisas que são vitais e outras que são livrescas. A vida, por um lado, os livros, por outro. Como se os livros e as ideias e emoções que eles nos oferecem não fossem também parte integrante – e essencial! – da nossa vida: “Eu faço parte de tudo o que li” , observou, com justiça, John Kieram. E eu acrescentaria que tudo o que li faz parte de mim. Aperceber-me da existência de um livro, vê-lo, namorá-lo longamente até um dia ter a capacidade de comprá-lo,  ou convencer meu pai a comprar-mo – fez parte do pecúlio essencial de experiências intelectuais e emocionais que me formaram na adolescência e considero inesquecíveis: a memória de tudo isso permanece e dá luz.
Na adolescência, li muito, li vorazmente, desordenadamente, gostosamente, sem planos preestabelecidos, à balda. De certo modo, é ainda esta a minha metodologia – ler sem método, ao sabor do que me vem à mão e parece que me apetece. É curiosamente, um bom método. Noto, por exemplo, que ao redigir um trabalho qualquer sobre um autor qualquer, apetece-me, nesse momento, ler tudo menos esse autor e aquilo que sobre ele se escreveu. E ponho-me, regularmente, nos intervalos que roubo ao trabalho obrigatório, a ler as coisas mais diversas e mais distantes da área em processo de investigação. Eis que, não raramente, verifico que essas obras trazem, inesperada e deslumbradamente, água ao meu moinho. Encontro nelas o que não procurara – e gloriosamente me serve. Os religiosos dizem que Deus escreve direito por linhas tortas. Achar sem procurar, receber sem para isso trabalhar – eis o produto de um amor descabelado aos livros – mesmo sem o espartilho de um método que nos constrange... Por isso compreendi tão bem e aplaudi do fundo do meu coração as palavras de um grande poeta galês, de língua inglesa, Dylan Thomas, quando observou: “ minha educação foi a liberdade que tive de ler em liberdade, o tempo todo, com os olhos a saltarem-me das órbitas.”
Nisto de ler, os apetites são os mais diversos: desde um D’Anunzio que confirmava a um André Gide, espantado, ter lido tudo, até uma Nancy Mitford que, provocante, gostava de dizer: “Em toda a minha vida, só li um livro e esse livro foi White Fang [de Jack London]. É um livro tão tremendamente bom que nunca mais me dei ao trabalho de ler outro.”
Os locais de leitura variam igualmente: o sofá, a cama, de pé, a andar, na praia (com muita areia à mistura), no combóio e até noutros sítios não mencionáveis directamente mas talvez indicáveis dando um exemplo – para o caso, o grande escritor americano, Henry Miller, que não se importava de confessar: “Todas as minhas leituras foram, por assim dizer, feitas na retrete”.
O leitor voraz lê para explorar, com intensidade, outros mundos – embrenha-se, com volúpia, no casulo fechado dos mundos ficcionais, rejeitando, com firmeza, a luz crua do mundo real que abandonou. A descoberta e exploração de novos mundos é também uma descoberta de nós próprios. “Quando lemos um clássico”, dizia Clifton Fadiman. “não vemos mais, no livro, do que víamos antes. Mas vemos mais em nós do que em nós estava antes”.
Quando o vício de ler – o “vício impune”, de que falava Baudelaire  - toma conta de nós, nenhum sacrifício, nenhuma infracção se interpõe entre nós e a aquisição do livro cobiçado: “Quando eu tenho um bocadinho de dinheiro”, confessava Erasmo, “compro livros; e se sobra algum dinheiro, compro então comida e roupas”. Quando eu era estudante universitário, quantas vezes utilizei o dinheiro que meu Pai me enviara de Lourenço Marques, para um fato, na aquisição de um ou outro volume caríssimo da preciosa Bibliothèque de la Pléiade. O fato ficava sempre para o ano seguinte – o livro é que não podia esperar.
A minha adolescência foi rica em leituras apesar de, até certa altura, me não sobrar o dinheiro para livros. Meu Pai lá iludia, de vez em quando, a vigilância aturada da minha Mãe e ia-me trazendo, às escondidas dela, o último livro acabado de chegar no último paquete vindo de Lisboa (eu vivia então em Lourenço Marques, onde nascera). Mas as minhas principais fontes de leitura, a partir dos 15 anos, foram duas: primeiro, as bibliotecas que os colegas de meu Pai deixavam à sua guarda, quando vinham à Europa, de licença graciosa (a qual chegava a durar 11 meses); a segunda, uma pequena biblioteca de perto de cem espécies, que um colega de meu Pai, chamado Abel Menano, irmão do célebre Menano dos fados de Coimbra, me ofereceu: ali encontrei obras preciosas que ainda hoje conservo, de autores que nunca mais me deixaram: Dostoiewsky, Tolstoi, Turguenev, Joseph Conrad, Balzac, Anatole France, D.H. Lawrence, Vitor Hugo, eu sei lá!
Mas havia ainda outra fonte, à qual devo a revelação de um dos meus grandes amores de sempre. Essa fonte era constituída pelos volumes que, em viagem entre Lisboa e Lourenço Marques, se estragavam por apanharem água salgada no porão dos navios que os transportavam. Mandados para o refugo, alguns eram dali recuperados por meu Pai, que mos trazia em triunfo, quais Lusíadas estragadíssimos mas salvos por um bravo Camões na foz do Me Kong. Foi assim que me chegou às mãos o mais belo romance que até hoje se escreveu – Le Rouge et le Noir, de Stendhal, e, por ele, me foi apresentada a mulher por quem nunca mais deixei de ficar em êxtase – a Senhora de Rênal, de Stendhal, que me recuso a considerar criatura de ficção e a quem visito, em livro ou em sonhos, quase todas as semanas. Eis como a literatura se pode tornar vida, mais vida até do que a própria vida, mais intensa, mais reveladora, mais capaz de nos tornar melhores, mais dedicados e mais fieis. A minha ligação à Senhora de Rênal e ao seu criador, Stendhal, começada nos meus 14 ou 15 anos e ainda em vigor – é algo que não admite dúvidas e de que muito me orgulho.
Foi assim, com livros furtados ao controle materno, com livros fruídos em bibliotecas de empréstimo e com volumes estraçalhados pelo oceano e roubados ao refugo, que o meu vício de ler se foi desenvolvendo e me foi abrindo mundos a haver: a maravilhosa  Assia, de Turguenev, descobriu-me mistérios de alma feminina e fez-me sonhar com paixões bizantinas nos incomensuráveis espaços de uma Rússia remota e atormentada; O Lírio Vermelho de Anatole France, ao mesmo tempo que me explicava melhor o ciúme, que também me afligira, abria-me a visão esplendorosa de uma Florença que logo ali jurei visitar;  Les Thibault, de Roger Martin du Gard, abriu-me Paris e deu-me o gosto secreto por uma Gisèle que o pateta do Jacques deixou fanar-se de amor não retribuído, enquanto se perdia nos labirintos psicológicos de uma Jenny tão complicada quanto interessante; Panait Istrati dava-me a Roménia dos cardos do Baragan, tão diferente de tudo quanto conhecia.
Nos intervalos de me banhar nas águas do Índico, com o meu cão Nero, lia Plutarco e Voltaire, mergulhava na Dinamarca de um dos melhores romances que até hoje li – Niels Lyne, de Jens Peter Jacobsen -  ou na Suécia de Sally Salminen, ou no Père Goriot de Balzac. Pelos meus 16 anos,  A Velha Casa, de Régio, abriu-me as portas da adolescência atormentada de Lélito, que me levou, dois anos mais tarde , já em Lisboa, a gastar um dinheiro , que minha Mãe me dera para comprar bilhetes de combóio para as Caldas da Raínha, na aquisição do segundo volume da descomunal Casa. Julgo que minha Mãe  não se reconciliou nunca com esta minha inesperada mas irresistível infracção.
Lia os livros com paixão, mergulhava neles como quem quer sair do quotidiano, mesmo de um quotidiano apetecido. Li um dia, já a viver em Lisboa, numa biografia do escritor francês André Gide, que este, em viagem de carro, pela Europa, com amigos, se pusera a ler, com absorção intensa, a Guerra e Paz, de Tolstoi. O interesse que o livro lhe provocava era tão profundo que, ao pararem o automóvel diante de algum museu, ou catedral ou palácio, Gide tinha que se conter – com dificuldade – para não dizer aos companheiros que fossem eles fazer a visita enquanto ele permanecia na companhia da Natacha e do Pierre do romance de Tolstoi.
Ali, no Índico, com o Nero à minha beira e com a leitura do melhor que o espírito e o coração dos homens produziram, ia-me preparando para a grande aventura de me arrancar àquele grande continente africano para vir conhecer o Portugal de Lélito, o Paris de Martin du Gard, a Londres de Dickens e a Florença de Anatole France.
Lia com intensidade e atenção minuciosa e, quando viável, com o espírito crítico que me era possível agenciar. Lia muito e procurava ler bem – e relia interminavelmente os livros que já então me tinham marcado. Ler ao acaso, sim, mas não ler sem reflexão: “Ler sem reflectir é o mesmo que comer sem digerir”, dizia Edmund Burke. É possível ler-se muito sem que a leitura nos fecunde. Por isso o grande (e recluso) escritor americano J.D. Sallinger, dizia com não pouca verdade: “Sou bastante iletrado, mas li imenso”. Pode ter-se lido imenso e ser-se razoavelmente analfabeto Num ensaio célebre, António Sérgio estabelecia, com a firmeza e clareza que lhe caracterizavam a prosa pessoalíssima, a diferença entre leitura abundante e leitura crítica; e concluía que se pode ter lido muito e não se ser culto, do mesmo modo que se pode ter lido relativamente pouco e ser-se culto. A natureza da leitura – ser ou não ser uma leitura crítica – é que faz ou deixa de fazer o homem culto. A leitura crítica é uma ginástica. “A leitura é para o espírito o que o exercício é para o corpo”, observava Sir Richard Steele. É – ou devia ser. Porque a leitura também pode ser uma forma de preguiça: lê-se para não pensar. Enquanto leio, não penso... Mas leitura crítica não quer dizer resistência a todo o custo às ideias que o livro propõe. Leitura crítica quer dizer leitura vigilante, feita com a inteligência crítica estimulada, pronta a aderir ou a rejeitar, conforme os casos. De contrário, cair-se-á naquilo que dizia o actor Michael Caine; “Leio livros como um danado, mas tenho o cuidado de não me deixar influenciar por nada do que leio”. O receio das influências é sempre uma confissão de pobreza. As naturezas ricas e possantes absorvem tudo e tudo transformam em produto seu. O grande poeta alemão Goethe dizia, com orgulho, que tudo o influenciava, mesmo escritores de quinta categoria: em todos encontrava sempre alguma coisa de interessante que ele próprio não tinha descoberto.
Quando se exerce uma actividade crítica, quando se ensina literatura nas escolas e universidades, a nossa actividade enriquece-nos com tudo aquilo de que nos lembramos e acorre automaticamente ao toque mágico do texto novo que confrontamos. Disse algures que tenho praticado a crítica e o ensaio “como um exercício criativo da memória. Ou antes um exercício criativo, a partir da memória. Não concebo bem a crítica sem uma memória altamente estimulada e pronta ao assalto”. O crítico George Poulet afirmou: “Criticar é lembrarmo-nos”. “Diante de um texto, a memória excita-se e há um certo número de campainhas que começam a retinir: umas mais próximas e nítidas, outras mais longínquas e difusas. Há que investigar absolutamente tudo – pelo menos, em certos casos, não posso deixar de o fazer: torna-se uma espécie de frenesi. De aí que um crítico desta conformação tenha que ser, de certo modo, um eterno desarrumador de bibliotecas.” Dito isto, há porém que apreciar, com cuidado, o uso que se faz destes exercícios da memória: não se recorda pelo amor de recordar, recorda-se como mecanismo estimulador de aproximações criativas. Não se ensina aos jovens as grandes obras da literatura – ensina-se-lhes, isso sim, o amor à leitura. Neste campo, contudo, os homens extremam-se de modo singular. Montesquieu, por um lado, dizia nunca ter conhecido nenhuma depressão que uma hora de leitura não curasse; por outro lado, o grande poeta inglês deste século, Philip Larkins, macambúzio profissional e amante de jázz, observava (perdoem-lhe a rudeza) que os livros não passam de um monte de trampa (era, curiosamente, bibliotecário da Universidade de Hull). Há-os, como se vê, de todos os formatos e cores.
O espirituoso americano Logan Pearsall Smith gostava de afirmar, com o seu toque de provocação: “As pessoas dizem que a vida é que é, mas eu cá prefiro ler.” Pearsall Smith fazia, mais uma vez, a destrinça entre livros e vida. Destrinça que comecei por recusar, no início desta minha conversa  despretensiosa. O que se vive nos livros e dos livros é muitas vezes – em ideias, em emoções – tão ou mais intenso do que o que se vive na chamada e tão mal definida vida. Dizia alguém que a vida é uma doença incurável. A vida que se contém nos grandes livros é imune à doença. Por isso irá durar enquanto durar a aventura humana.
Eugénio Lisboa
                                                 
Leitor convidado: Eugénio Lisboa nasceu em Lourenço Marques, a 25 de Maio de 1930. Licenciou-se em Engenharia Electrotécnica, no Instituto Superior Técnico. Exerceu a sua actividade como engenheiro a par da docência de cursos de Literatura Portuguesa em Universidades (Lourenço Marques, Pretória e Estocolmo). Foi conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em Londres e presidiu à Comissão Nacional da UNESCO. É, também,  poeta, ensaísta, cronista e crítico literário com vasta colaboração em revistas e jornais moçambicanos e portugueses. 

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O Homem e o Animal



"Enganamo-nos completamente sobre a natureza das grandes experiências totalitárias do século XX se nelas vemos apenas uma persecução das últimas grandes tarefas dos Estados-nação oitocentistas: o nacionalismo e o imperialismo. O que está em causa é agora bem diferente e mais extremo, dado que se trata de assumir como tarefa a própria existência factícia dos povos, ou seja, em última análise, a sua vida nua. Deste ponto de vista, os totalitarismo do século XX constituem verdadeiramente a outra face da ideia  hegelo-kojeviana do fim da história: o homem alcançou finalmente o seu télos histórico e nada resta, a uma humanidade de novo tornada animal, que a despolitização das sociedades humanas através do alastramento incondicional da oikonomia, ou a sanção da própria vida biológica como tarefa política (ou melhor, impolítica) suprema.

É provável que o tempo em que vivemos não tenha escapado a essa aporia. Será que não vemos, à nossa volta e mesmo entre nós, homens e povos sem essência e já sem identidade - entregues , por assim dizer, à sua inessencialidade e intolerância - procurar por todo o lado e às cegas, a custo de grosseiras falsificações, uma herança e uma tarefa, uma herança como tarefa? Mesmo a pura e simples deposição de todas as tarefas históricas (reduzidas a simples funções de política interna e internacional), em nome do triunfo da economia, assume hoje frequentemente uma ênfase na qual a própria vida natural e o seu bem-estar parecem apresentar-se como a última tarefa histórica da humanidade - admitindo que faça sentido falar aqui de uma "tarefa".

As potências históricas tradicionais - poesia, religião filosofia - que … mantinham desperto o destino histórico-político dos povos, foram há muito tempo transformados em espectáculos culturais e experiências privadas e perderam toda a eficácia histórica. Perante este eclipse, a única tarefa que parece ainda conservar alguma seriedade é o tomar a cargo e a "gestão integral" da vida biológica, isto é, da própria animalidade do homem. Genoma, economia global, ideologia humanitária são as três faces deste processo em que a humanidade pós-histórica parece assumir a sua própria fisiologia como último e impolítico mandato.

Se a humanidade que tomou em mãos o mandato de gestão integral da própria animalidade é ainda humana, no sentido da máquina antropológica que, decidindo a cada vez acerca do homem e do animal, produzia a humanitas, não é fácil dizer; nem é claro se o bem-estar de uma vida que já não se sabe reconhecer como humana ou animal pode ser dado como satisfatório … A humanização integral do animal coincide com uma animalização integral do homem."     

Giorgio Agamben


A observação duma gravura na Bíblia hebraica do século XIII que se encontra na Biblioteca Ambrosiana em Milão, lança, Giorgio Agamben, um dos mais influentes e originais filósofos do nosso tempo, numa fascinante reflexão sobre a condição humana, a sua separação do mundo animal e sobre o limite crítico do que define o humano. 

A gravura representa três imagens: a visão de Ezequiel; os três animais das origens (o pássaro Ziz, o boi Behemot e o grande peixe Leviatã); o banquete dos justos ainda em vida quando da vinda do Messias. E nesse último fragmento, à sombra de árvores paradisíacas, os justos de cabeça coroada sentam-se a uma mesa ricamente posta. Nada mais canónico: os justos que ao longo de suas vidas observaram as prescrições da Torá se banquetearão com as carnes de Leviatã e de Bohemot. Há porém um detalhe desconcertante: sob as coroas, os justos têm cabeças inequivocamente animais, de águia, de boi, leão, asno e pantera. E dois instrumentistas, um dos quais claramente símio. 

A interpretação talmúdica sugere que no reino messiânico também o mundo animal será transfigurado. É uma interpretação possível, embora não seja de todo a única plausível. Ou era a intenção do artista sugerir que no último dia o próprio homem se reconciliaria com a sua natureza animal? 

A discussão de Agamben é abrangente e profunda e brinda-nos com uma série extremamente original de interpretações da gravura bíblica e de questões relacionadas. O leque de questões é variado: Bataille e um certo gosto pelo grostesco; o sentido da história de Hegel; a escatologia segundo os filósofos medievais; a definição da vida de Aristóteles, e a separação do homem do reino animal; a taxinomia de Lineu (cuja versão original enumerava as sereias junto das focas e que tinha grande dificuldade de situar o homem); a evolução biológica; a máquina antropológica; a origem da linguagem e a demarcação do estatuto especial do homem; Uexkuell e a percepção animal; Heidegger e as suas difusas definições; Benjamin e Ticiano; e uma reflexão final sobre o nosso tempo pós-político. 

Uma leitura refrescante e estimulante.         


Orfeu B.




domingo, 15 de julho de 2012

FALAR DE LIVROS




FALAR DE LIVROS

(Com muita admiração e amizade a Helena Vasconcelos e Eugénio Lisboa)


Receio muito o exercício da opinião, sobretudo quando se torna "profissional" e de olho gordo posto na gorjeta; quando procura criar poder e influência sob a capa da reflexão e da especialização; quando vive das modas, ou seja, do negócio de circunstância; quando usa as cinco estrelas, quatro garfos, três parafusos e meio, uma qualquer tabela classificativa; quando intencionalmente magoa, exclui, ignora.

Exemplos destes lemos larga e regularmente nas páginas de crítica literária, musical, cinematográfica, teatral, de artes plásticas, etc,dos nossos jornais.

"O intelectual, o mandarim universitário, o rato de biblioteca não frequenta a escola da bravura.”, afirma Georges Steiner.


Quando falo de livros falo de uma leitura conduzida de dentro da minha vida. Um encontro humilde e apaixonado, sem outras preocupações que não as de permitir que essa leitura me acrescente. E há um rio que corre do livro lido ao meu encontro , um rio por onde circulam pequenas luzes que me vão iluminar hoje e amanhã e depois.

Citado por Harold Bloom ("Ler" Junho 2012), afirmava Oscar Wilde que: "A crítica literária é a única forma civilizada de autobiografia".

("Quatro entrevistas com Georges Steiner", Ramin Jahanbegloo, Ediçõs Fenda, Lisboa, 2006)


O problema será talvez quando não se tem biografia e só se tem opinião. Mas o pior ainda é quando a ausência de biografia implica a incapacidade de amar e faz com que o opinante se esconda por baixo da capa enganosa de um saber que se a si próprio como único critério de análise.

Eu leio com paixão. E quando a paixão não se solta e os livro nada me acrescenta ao acto de tactear a vida com os dedos, então nem falo desses livros. Secam à nascença. Ficam muito bem guardados na gaveta do esquecimento.

Voltando a Bloom: "Quando somos mais velhos, queremos que a crítica - como o ensino, a leitura, a escrita - não seja apenas humanista, seja também humana. Tem de ser amor à literatura antes de mais nada.

E acrescente-se de novo Georges Steiner:

“Ler não é sofrer mas, falando com propriedade, estarmos prontos a receber em nossa casa um convidado, ao cair da noite.”

Vale a pena ler os grandes leitores. Aprendemos muito com eles. Harold Bloom, Georges Steiner, Eduardo Lourenço.

E eu sei pouco. Mas tenho para a troca.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Não alcançamos a liberdade, buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim mas uma consequência" Tolstoi


Eugénio Lisboa
Vário, Intrépido e Fecundo - uma Homenagem
Opera Omnia

“Apareceu este ano em Portalegre, como oficial miliciano, o aspirante Eugénio Lisboa, que é um dos rapazes mais inteligentes que em toda a minha vida tenho conhecido” Graças a ele tenho tido, no café Central, conversas como julgo nunca tivera em Portalegre”
A anotação de 1954 no “Diário” de José Régio é referida por João Francisco Marques num livro que reúne testemunhos sobre a pessoa e a obra de Eugénio Lisboa, publicado pela editora Opera Omnia com organização de Otília Martins e Onésimo Teotónio de Almeida. Diversos, escritos uns mais para o homenageado, outros mais para o leitor, em total liberdade de quem os escreveu, por conseguinte desiguais.

Trago aqui este livro como exemplo da necessária atenção, que muitas vezes não damos, à pessoa atrás da obra, a quem não é alinhado mas pensa e tem um discurso próprio. Falta-nos em muitos casos este registo, o de testemunhos de convivência. O valor de um pensador é para lá da obra o rastro de influência nos outros e nas suas obras. 

Das obras será o tempo o exator. Mas a pessoa precisa de ser ouvida no tempo certo de partilhar de viva voz a sua insubstituível experiência. Sobretudo, sendo uma pessoa como Eugénio Lisboa, com uma vida de actividades plurais, dividida por vários espaços geográficos e mentalidades, desde Moçambique onde nasceu e viveu 38 anos, a Inglaterra, Lisboa, África do Sul, Suécia e agora Portugal. Há uma ideia de Portugal só possível em quem vê o país na distância, como acontece, também, por exemplo com Rentes de Carvalho ou Eduardo Lourenço. 

O  livro termina com uma entrevista que é uma breve, assertiva mostra da pertinência do pensamento e opinião de Eugénio Lisboa: 
“(…)Somos um país pobre, mas somos sobretudo um país em que os poderes políticos não gostam de gastar dinheiro com a cultura nem com os seus agentes que são, por regra, incómodos.(…)” Eugénio Lisboa.
Sem dúvida, infelizmente, actual.

Estes setenta e três testemunhos, incluindo os organizadores da obra, de muitas figuras do nosso quadro literário e intelectual, são também uma espécie de retratos dos próprios, pois o reflexo de cada um nas palavras que dirigem ao homenageado revela-nos, também, a forma de cada um estar e ver o mundo.

“Desconfio das torres de marfim, e Eugénio Lisboa também. As suas conferências, os seus ensaios, as suas críticas têm sempre algo de muito especial e próprio. Cada citação, cada referência corresponde à ênfase necessária e adequada de um sentido crítico. E se gosto de ouvir a cadência das citações, a verdade é que as referências de Eugénio encantam-me especialmente, porque sei que trazem consigo o lastro seguro de todo o contexto em que nascem e vivem. (…) através de Eugénio Lisboa sabemos com o que contamos. Sabemos que é um leitor criterioso (ensinando-nos a ler), que nos dá a sua perspectiva exigindo que ao lermos sejamos fieis a um sentido crítico pessoal e próprio. Percebe-se pois porque digo que não há dois Eugénios, escritor e engenheiro, há uma personalidade coerente e rigorosa, em que o espirito geométrico e o espirito de fineza se completam, em que o engenho e a cultura formam um só carácter.” 

Uma citação do texto escrito pelo Dr. Guilherme d’Oliveira Martins que reflecte bem o sentimento de quem lê, com gosto, o ensaísta, o crítico,  Eugénio Lisboa.

Sílvia Alves





terça-feira, 3 de julho de 2012

Espinosa - Vida e Obra


Aquilo por que deveremos lutar é por nos libertarmos das paixões - ou, visto que tal é absolutamente impossível, pelo menos por aprendermos a moderá-las e dominá-las - tornando-nos seres activos e autónomos. Se conseguirmos alcançar esta meta, então seremos livres, no sentido em que seja o que for que nos aconteça resultará não das nossas relações com as coisas exteriores a nós, mas na nossa própria natureza … Por conseguinte, libertar-nos-emos realmente da incómoda instabilidade emocional desta vida. O caminho para atingir este objectivo é aumentar o nosso conhecimento, a nossa reserva de ideias adequadas, e eliminar na medida do possível as nossas ideias inadequadas que derivam não apenas da natureza do espírito, mas do facto  de serem uma expressão de como o nosso corpo é afectado pelos outros corpos. Por outras palavras, precisamos de nos libertar da confiança nos sentidos e na imaginação, pois a vida dos sentidos e das imagens é uma vida afectada e conduzida pelos objectos que nos rodeiam, e confiar apenas na medida do possível nas nossas faculdades racionais. 


Uma biografia soberba dum dos mais fecundos e originais fundadores da modernidade. Um retrato magnífico do homem e das condições sociais, políticas e históricas que, nos Países Baixos do Norte, deram origem ao pensamento dum dos mais expressivos defensores da primazia da razão sobre todas as formas de agir e de julgar. 

O autor, Steven Nadler, apresenta-nos com vivas cores a génese da comunidade de judeus portugueses na vibrante e aberta Amsterdão do início do século XVII, e descreve a evolução intelectual do jovem e brilhante Baruch Spinosa (1632 - 1676), filho de judeus portugueses, desde a sua iniciação na tradição escolástica hebraica até a sua excomunhão em 1656, pela apostasia de declarar que Moisés não era o autor do Pentateuco e que a Tora era um documento humano, cujo verdadeiro entendimento exigia uma leitura histórica e antropológica. 

O autor apresenta-nos também, com grande clareza e elegância, a evolução intelectual do jovem Baruch, agora Benedictus, nos estudos clássicos e na radical filosofia de Descartes (1596-1650). O aprofundamento dos seus estudos na senda da dúvida metódica de raiz cartesiana permitiu-lhe desenvolver e conceber o programa de apresentar a filosofia como um conjunto de proposições demonstráveis segundo o método geométrico inspirado no "Elementos" de Euclides (300 AC), ambição plenamente realizada nos vários livros da sua Ética, publicada postumamente.  

Modesto e reservado, o filósofo conduziu a sua vida de forma exemplar e frugal, desfrutando a felicidade que segundo as suas convicções era o bem maior que se poderia extrair duma vida determinada por actos ditados pela razão e pelo conhecimento. 

A sua obra compreende as contribuições fundamentais: Tractatus de Intellectus Emendatione (Tratado sobre a melhoria do entendimento, 1662), onde defende que a leitura secular das escrituras é a única compatível com a razão e a verdade histórica;  Principia philosophiae cartesianae (Princípios da Filosofia Cartesiana, 1663); Tractatus Theologico-Politicus (Tratado Teológico- Político, 1670), publicado anonimamente, onde estão expressas as ideias fundamentais acerca da separação da política e da teologia e as bases do que hoje entendemos por democracia; Tractatus Politicus (1675/76); e postumamente: Compendium grammatices linguae hebraeae (Compêndio de gramática hebraica, 1677); Ethica Ordine Geometrico Demonstrata (Ética, 1677). 


Orfeu B.






sexta-feira, 29 de junho de 2012

E NO ENTANTO ELA MOVE-SE




Grande, grande escritora. Descobri-a tarde e fiquei mais rico. Em literatura. Em emoção.

McCullers é uma mestre das sombras que sugere mais do que mostra.

Manipuladora de pequenos acontecimentos inquietantes, espalha na sua escrita a armadilha de pequenos desvios em relação ao foco da máquina de filmar através da palavra com que olha um universo humano encerrado em si próprio como, aliás, já acontecia na “Balada do Café Triste”.

Aqui, tudo se passa num quartel onde não se passa nada como é normal nos quartéis quando não guerra.

No entanto, as rotinas diárias escondem pequenos-grandes desvios, estranhos comportamentos entrevistos, mal revelados no início e que se vão tornando mais significativos em profundidade até se tornarem obcecantes.

McCullers semeia bombas de profundidade nos pequenos reparos com que constrói uma ópera baça mas estranha e sufocante.

É o caso do pequeno e breve à parte acerca do capitão de quem diz, como quem não quer a coisa, que se apaixonava sempre pelos amantes da mulher.

E os acontecimentos que em si não têm nada de extraordinário, são promessas vagas disfarçadas de grandes tempestades. Como é o caso do soldado que vai passear nu para a floresta e fica horas a espreitar a mulher do capitão pela janela. E que, depois, entrando na casa e ficando a observá-la em silêncio pela noite fora enquanto ela dorme meio despida.

Mais estranho ainda será o criado filipino da mulher do major, a sua paixão por música erudita e os seus sonhos de fuga com a patroa.

E é difícil resumir uma história que, sendo aparentemente parada, dela poderíamos dizer que, no entanto, ela move-se. Move-se e de que maneira!


domingo, 10 de junho de 2012

RACISMO E PRECONCEITO





Ao longo deste belo livro veio-me à memória com frequência uma frase que sempre achei algo misteriosa e só acessível à “filosofia” de certos frequentadores habituais de alguns bares quando pedem ao barman: “Um whisky com água lisa”.

A história de Pepetela, inspirada em acontecimentos reais, é-nos dada numa prosa lisa.

Apetece dizer que uma boa história é uma história é uma história. E é isso mesmo que Pepetela nos oferece: um bela história de amor desenvolvida num ritmo certo e sem sobressaltos,

Tudo se desenvolve por vezes com alegria, por vezes com desespero, por vezes com melancolia, sempre numa prosa delicada e sem rodriguinhos nem desvios.

Pensando bem, talvez não seja apenas uma história. Talvez sejam duas.

A principal é a história de amor entre um angolano e uma mongol iniciada em Moscovo nos anos 60 e terminada nos anos 90 ou 2000 em Cuba e finalmente em Angola.

A outra é a história da queda e transformação política sofrida nestes tempos nos países ditos socialistas, desde a URSS aos países africanos e Angola em primeiro lugar.

Pepetela não esconde nem o amor á sua terra de Angola, nem o racismo, o preconceito, o abuso, a injustiça, onde quer que eles surjam, na Rússia ou na Mongólia socialistas, na Argélia recém-independente ou na Angola que vemos no seu processo de conversão ao capitalismo e nos é mostrado tamém sem disfarces nem acertos de contas.

O personagem principal, branco, nacionalista, revolucionário, vai de Angola no início dos anos 60 para a Universidade de Coimbra e, depois de vários desvios, para Moscovo onde estuda Economia e adquire treino militar. Combatente na guerra colonial, herói reconhecido, promovido a general, reforma-se e convive com os novos tempos sem se deixar corromper .

O amor, nunca traído ou substituído, reaparece quando o fim da vida se anuncia.

Seria fácil pegar nesta história verdadeira e levá-la à ponta da lágrima. Mas Pepetela, de dentro da sua excelente oficina de escritor, leva a narrativa sem tremeliques, numa escrita limpa, forte, correcta e lisa como a tal água do whisky.




segunda-feira, 4 de junho de 2012

Oxigénio


A evolução da humanidade esteve desde sempre fundamentalmente ligada ao desenvolvimento científico e tecnológico. Foi através das descobertas da ciência que o modo de pensar baseado na superstição e no dogma foi substituído e finalmente abandonado. E apesar de existirem bolsas geográficas e segmentos na sociedade que ainda insistem em ver o mundo segundo padrões pré-científicos, a ciência é a forma hegemónica de interpretar e relacionar os factos do mundo concreto. 

Essa dimensão social da ciência levanta inúmeras questões acerca do valor económico das descobertas científicas e, em última instância, sobre a independência dos protagonistas. E naturalmente, não há porque assumir que esses condicionantes não influenciem a leitura histórica das descobertas quando colocadas em perspectiva. Mas para além dessas questões, há uma dimensão puramente epistemológica, que, pelo menos para os cientistas, é a mais fascinante de todas. Questões que poderiam ser sintetizadas em duas perguntas chave: Como se deve qualificar uma descoberta científica? Pelo seu pioneirismo, ou pelo espaço conceptual e metodológico que funda e abre? São em torno dessas duas questões que a  interessante peça “Oxigénio” concentra o seu foco cénico, mais especificamente, através duma engenhosa alternância narrativa que situa os personagens em 1777 e em 2001, o ano do Centenário da instituição do Prémio Nobel. 

Num interessante exercício de ficção, imaginam os seus autores, Carl Djerassi, figura central na síntese da pílula anti-concepcional, e Roald Hoffmann, Prémio Nobel de Química de 1981, que a Fundação Nobel decidiu instituir o Prémio “Retro-Nobel” de modo a galardoar as grandes descobertas que precederam a criação dos Prémios Nobel. Assim, a peça retrata como o Comité Químico da Real Academia Sueca das Ciências, encarregue da escolha pela Fundação Nobel, supõe inicialmente ter em mãos uma tarefa relativamente simples, dado que a ciência de então estaria mais livre de controvérsia, de disputas sobre a prioridade, e do sensacionalismo decorrente. Assim, decide o Comité Químico focar a sua atenção na descoberta do Oxigénio, que deu origem à revolução química. Nesse contexto, Antoine Laurent Lavoisier (1743-1794) é uma escolha aparentemente incontornável, tendo em vista o conjunto dos procedimentos metodológicos que criou e que lhe permitiu no período de 1770-1780 explicar a natureza da combustão, da ferrugem, e da respiração animal, e do papel do oxigénio nestes processos. Mas o que dizer dos que efectivamente descobriram independentemente o fundamental elemento químico pela primeira vez? Mais concretamente, o farmacêutico sueco Carl Wilhelm Scheele (1742-1786), o primeiro a descobrir o "ar-fogo" supostamente em 1774, e o sacerdote unitarista inglês Joseph Priestley (1733-1804), que descobre o oxigénio pouco depois, mas que não abdica de interpretar a sua descoberta em termos da equivocada teoria do flogisto, segundo a qual todos os materiais combustíveis contém uma substância inodora, incolor e sem peso que é libertada quando da combustão. 

Mas se em 2001 o Comité rapidamente percebe que qualquer escolha não estava livre de dificuldades, a situação não fica menos simples à luz dos acontecimentos de 1777, quando os três cavalheiros e as respectivas esposas são convidados do Rei Gustavo III da Suécia para expor as suas descobertas na sua corte em Estocolmo. 

Um texto de grande interesse e com soluções cénicas de grande originalidade. Também digna de menção é a tradução do professor Manuel João Monte, professor de química da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

Orfeu B.




terça-feira, 29 de maio de 2012

UM HUMOR PORTUGUÊS



O Mário Zambujal será talvez um dos últimos herdeiros de uma Lisboa da boémia nocturna de jornalistas, actores, escritores… 

Uma Lisboa que tem a sua mitologia, o seu role de pequenas e grandes histórias, anedotas, pequenas tragédias, grandes amores, o seu rosário de figurões inesquecíveis, gente do melhor e do pior que, a pouco e pouco,  se vai apagando a pouco e pouco da memória colectiva. Uma Lisboa que tem a sua língua e a sua forma de fazer humor.

Este humor vem de um trabalho por vezes brilhante sobre a palavra e a sua ambiguidade. É um humor que estende  e se espraia no prazer de enovelar e desenovelar a língua, o verbo, o adjectivo. Não é o humor curto e rápido  dos anglo-saxónicos.

Seria inútil  pôr Vasco Santana a fazer stand up comedy.  E quem diz Vasco Santana  diz Henrique Viana, António Silva, Raúl Solnado e tantos outros. 

O stand up comedy é para mastigar e deitar fora. O humor português tradicional é para passar de boca em boca. “Ó Evaristo tens cá disto?”, “Tira a mão da popelina!”, “É regar e pôr ao luar!” são frase que ficaram a passear pela boca de tantos de nós durante anos, usadas em contextos muito diversos, e que mereciam e continuam a merecer uma gargalhada ou pelo menos um sorriso aberto...

Muita da obra do Mário Zambujal não chegou a ser escrita. Foi lançada aos 4 ventos à mesa do almoço ou do jantar, pela tarde ou pela noite dentro, oferecida a quem o acompanhava na circunstância e nalgumas dessas circunstâncias tive o prazer enorme de ser um dos privilegiados companheiros.

A “Dama de espadas” é uma história de amor e dos equívocos do amor, embrulhada num belo humor lisboeta. Ou á portuguesa, conforme se quiser. 

Tudo nos é dado sem complicações, com a simplicidade (tão difícil por vezes de conseguir) de quem sabe bem contar a sua história e limpar a narração dos empecilhos que a desviam do fundamental.

Simples, rápido, direito ao fim. Cheio de humor e ironia. Como mandam as regras. Ou mandavam.



sábado, 26 de maio de 2012

A ARTE DO DIÁLOGO


Há quem considere a literatura policial uma literatura menor. No entanto, o romance policial só é menor quando é menor, mas é maior quando é maior. Coisa de La palisse. Mas não tão discipiente como isso.

Temos um mistério ou um crime, a descrição do ambiente humano, social, geográfico onde esse mistério ou o crime se deu. A busca das motivações, o mergulho na procura das personalidades, dos seus rituais e dos seus desvarios.

As editoras mais atentas às coisas boas dos livros fazem-nos o mimo de nos oferecer autores menos conhecidos ou até desconhecidos. É o caso dos 3 romances deste autor policial americano publicados discretamente pela Cotovia.

Depois de terem desaparecido das livrarias estão agora nas prateleiras dos policiais nas Bertrands.

Li os três e peço aos editores que continuem a publicar este autor de quem aliás já aqui falei. Eu comprometo-me a fazer propaganda para arranjar mais leitores.

Mathew Scudder, o detective, ex-polícia, sem escritório, alcoólico que não bebe e frequenta quase diariamente as salas dos alcoólicos anónimos, aceita, a pedido do pai, procurar uma jovem desaparecida sem deixar sinais. Nada garante que lhe tenha acontecido alguma coisa. Simplesmente desapareceu como só é possível na vastidão de um país como os EUA.

O que é fantástico é que em 80 ou 90% do livro não acontece quase nada. Scudder procura pela jovem com pouca convicção, torna-se namorado da sua ex-porteira/senhoria, procura saber a razão da morte de um companheiro miserável das sala de AA's, conversa horas a fim com um gangster assustador e perigosíssimo.

Block domina de forma brilhante a arte do diálogo. Recorta situações, sugere dramas, faz-nos adivinhar entre sussurros e frases meio ditas o que pode estar por trás da cortina da vida de gente que vive nas margens da grande Nova York.

O leitor segue esse percurso errante por bares e apartamentos, por ruas e noites, com um interesse crescente como se houvesse um extraordinário mistério a desenrolar-se à sua frente.

E, o que é mais curioso, é que, quando Scudder, quase inesperadamente, resolve o mistério do desaparecimento e assassinato da jovem procurada pelo pai, o leitor fica danado, porque esse final acaba por lhe roubar o fantástico fluir dessa longa vagabundagem que constitui a alma do livro.




domingo, 20 de maio de 2012

UM ÉTICA DA RELAÇÃO ENTRE A ESCRITA E O REAL



Já aqui disse e repito que os meus amigos são os melhores escritores do mundo. Tenho direito a dizê-lo. Sou excessivo. Sou preconceituoso. Sou apaixonado.  O que não me impede de falar aqui apenas dos livros de que gosto e que me parece terem muito para que os possa propor a outras pessoas.

Neste caso apenas posso dar azo ao júbilo por ter lido um excelente romance de um excelente amigo onde e torna comovente a humanidade que transpira em cada linha.

Acalmem-se, no entanto, os que tremem de medo à mínima suspeita de se estar na presença de mais um livro “infectado” pelo terrível Realismo Mágico.

“A confissão da leoa” é um romance duro, denso, inquietante, corajoso. Não facilita. Tendo como pano de fundo um acontecimento real testemunhado em parte pelo escritor. Trabalha sobre o fio complexo da mitologia e das crenças ancestrais para  revelar a violência em que assenta o domínio masculino sobre as mulheres numa aldeia do Norte de Moçambique.

A narrativa de “A confissão da leoa” resulta do cruzamento de duas vozes. A de Mariamar, vítima da violência masculina, e a do caçador de leões, ou de leoas, o homem que vai fazer a última caçada da sua vida e que procura desesperadamente o amor, o verdadeiro amor. E talvez haja uma terceira voz, disfarçada mas presente, a do próprio escritor, apenas referido em pequenas citações como se estivesse completamente fora da acção.

A história desenvolve-se como uma espécie de cebola que se vai descascando e mostrando que a realidade é feita de camadas que, retiradas, vão revelando sucessivos dados novos, novos pontos de vista, nova luz sobre acontecimentos muito escondidos numa sopa final onde convergem preconceitos, tradições, mitologias diversas, medos ancestrais.

O Mia conteve-se aqui em relação à sua encantadora invenção vocabular para se centrar na complexidade das personagens e no entrançado de real e irreal, sonho e pesadelo, verdade e ficção

A prosa envolve-nos, agarra-nos, seduz-nos, engana-nos, desvenda-nos estranhos caminhos, na busca de uma estética e de uma ética da relação da escrita com a real… Enfim, tudo  o que se pede a um grande romance.


quarta-feira, 9 de maio de 2012

INTRODUÇÃO À HISTÓRIA - UMA OBRA SEM PONTO FINAL DE MARC BLOCH







Este último ano teve, sem dúvida, uma leitura que me marcou. Não se trata de ficção, romance ou conto. O título do livro diz tudo: “Introdução à História”. Com um nome tão direto e quase cru, direcionado para um área tão específica do saber, o mais provável é não despertar um interesse generalizado, e até parecer estranho ser aqui referida. Este título, quase quadrado, esconde um conteúdo único muito eclético. O próprio livro e o autor têm uma história para além da história, da história que pretendem querer introduzir. Esta obra de Marc Bloch - importante historiador medieval do século XX – tem a sua própria história, escrita num dos períodos mais negros da história do século XX. Nesse labor, do conhecido historiador, é dado o passo para uma “nova história”, termo que a própria história registará como nova abordagem ao estudo e análise da própria história enquanto ciência.
Marc Bloch, neste, como em mais escritos da sua autoria, e em consonância com outros companheiros historiadores do seu tempo que seguiam a mesma tendência, quis mudar o modo como se contava, registava e fazia história – a historiografia não seria mais a mesma. Queria que a história deixasse de abordar e tratar apenas os grandes feitos, os grandes líderes, as grandes coisas. Queria que a história passasse a estudar toda a sociedade, também os pequenos feitos, os indivíduos comuns, a sociedade no seu todo, algo que nos fizesse aproximar mais do passado, com uma visão apropriada ao Homem real. Bloch queria que na história passasse a constar o todo, e não o particular que alguém decidiu destacar no passado, por razões várias. Bloch defendia que a história devia ser mais um exercício de reflexão e criação que propriamente de acumulação acrítica de conhecimento passado. Esta nova forma de ver o passado foi revolucionária para a História, e tem hoje claras influências na sociedade contemporânea. Emancipou o Homem na história, e permitiu que o estudo da história fosse dinâmico e passível de novas construções para o presente e futuro. Fez com que a história se relacionasse com as outras ciências de um modo pluridisciplinar e fosse uma das bases de planeamento para o futuro.
“Introdução a História” é uma obra inacabada, Marc Bloch nunca a terminou… Não lhe permitiram dar o ponto final no seu magistral trabalho. Muito mais haveria para escrever, tal como o próprio autor planeara. Marc Bloch foi fuzilado em 1944. Bloch era judeu, tinha sido soldado na primeira Guerra Mundial, e quando a França fora ocupada pelos Nazis abandonou o mundo académico e alistou-se na Resistência Francesa. Durante a Guerra foi capturado, torturado pela Gestapo, e executado por ordens de Klaus Barbie, o conhecido oficial das SS e da dirigente da Gestapo.
Da obra inacabada surgiu a oportunidade de fazer jus ao autor e continuar o seu trabalho. Muitos historiadores o fizeram, muitos continuaram a fazer história, abraçando-a como “nova”. Por ironia do acaso, e do papel que o próprio Marc Bloch deixou na história, hoje temos todos ao nosso dispor uma obra inacabada para continuar a escrever a nossa história.

Micael Sousa
Leitor Convidado: Micael Sousa é engenheiro Civil, Técnico Superior de HST, Mestre em Energia e Ambiente e também vagueante mas apaixonado de uma licenciatura em História.Leitor e cidadão convicto. Mantém entre outros o blogue "A Busca pela Sabedoria": http://abuscapelasabedoria.blogspot.pt/. É activista do Movimento Anti-Corrupção: http://movimentoanti-corrupcao.blogspot.pt/.


quarta-feira, 25 de abril de 2012

UMA ESPIRAL ACELERADA



1936. Vésperas do início da Guerra Civil de Espanha. Madrid está a arder. Quer dizer, fascistas, comunistas, socialistas, anarquistas, militares e civis. Os grupos civis enfrentam-se diariamente nas ruas. Os generais Mola, Queipo de Llano, Francisco Franco conspiram e preparam o golpe Estado. Os madrilenos (a que se dá o nome de gatos) riem, falam, juntam-se nas tabernas, cantam, brigam. A miséria vive a paredes meias com o luxo dos grandes de Espanha.

Um inglês fleumático como mandam as regras, especialista em pintura espanhola e principalmente em Velasquez, desloca-se a Madrid, onde é desafiado a analisar um suposto quadro do grande pintor escondido na cave o dpalacete de um aristocrata espanhol. O quadro deverá vir a ser vendido fora de Espanha e o dinheiro destinado a financiar a compra de armas para os fascistas.

Sem querer, o protagonistas acaba por ser usado, ameaçado, por todos os lados em contenda: a polícia ao serviço do governo, uma família aristocrática direitista, os fascistas de Primo de Rivera, os comoventes e pobres comunistas, os Serviços Secretos ingleses…

Mais ainda, além de frequentar uma pobre prostituta protegida por um simpático militante comunista que depois o tentará assassinar por ordens de Moscovo, e cai nos braços e na cama da noiva algo secreta de Primo de Rivera que apenas pretende resolver o problema da virgindade que o jovem e fogoso chefe fascista evita resolver para que a sua prometida não se torne num calcanhar da Aquiles da sua luta política.

O inglês, fascinado pelo quadro de Velasquez sonha com a oportunidade de ultrapassar concorrentes académicos de peso e dá-lo a conhecer ao mundo, alterando aquilo que se sabe sobre o pintor e lançando nova luz sobre um capítulo importante da História de Arte e do ambiente artístico e social da côrte de Filipe IV.

A magnífica escrita de Eduardo Mendoza desenvolve-se seguindo uma estrutura algo policial, num movimento de espiral acelerada que mais parece por vezes o desenho de um pesadelo e que toma foros de opereta sem deixar de ter os pés assentes num retrato poderoso de uma cidade de Madrid onde a guerra se pressente a cada passo.

domingo, 15 de abril de 2012

QUANDO SHERLOCK HOLMES EXISTIU NA REALIDADE





Arthur & George, de Julian Barnes, é um livro tecnicamente extraordinário. Mas, mais impressionante do que a forma como está escrito, é a riqueza e densidade de interpretações e visões que proporciona que o transformam num livro fascinante.

Partindo de uma premissa – baseada em factos reais – tão inesperada quanto brilhante (Arthur Conan Doyle, o escritor que criou Sherlock Holmes, investiga um caso real, tentando ilibar George Edalji de um crime que este não cometeu, aplicando numa investigação verdadeira e concreta os mesmos princípios detectivescos que atribuiu à sua personagem ficcional), Barnes conta-nos um pedaço de história verdadeira que é, simultaneamente, uma estória literária, dissipando de forma tão provocatória quanto deliciosa as fronteiras entre realidade e ficção, entre biografia e romance.


Começamos por acompanhar os percursos de vida de Arthur e de George, em separado; se um é uma individualidade marcante da sociedade inglesa de finais do século XIX e início do século XX, o outro é um simples anónimo embrenhado numa vida banal e algo peculiar que teve o azar de ser arrastado para uma situação complicada e injusta. Os caminhos de ambos acabarão por se cruzar lá para meio do livro, em momentos chave da vida de cada um, coincidindo num relacionamento breve mas determinante, para se voltarem inevitavelmente a separar. (O livro termina pouco depois da morte de Conan Doyle.)

Mais do que o relato de duas vidas de alguma forma extraordinárias e muito mais do que uma estória de detectives inteligente, este livro surge-nos como um retrato acutilante e abrangente da sociedade inglesa, nas suas vicissitudes e particularidades, nas suas riquezas e fraquezas. Na verdade, juntamente com os dois protagonistas, é-nos apresentada uma outra personagem, magistralmente criada, que acaba por se impor como a verdadeira protagonista: a “essência” do ser inglês, uma certa “britishness”.

Com uma leveza aparente e ilusória, oscilando entre o trágico e o cómico, Barnes conduz-nos afinal por entre inesperadas reflexões que acabam por constituir uma espécie de terceira camada do livro (se considerarmos que a primeira se ocupa de Arthur e George em particular, da forma como as suas personalidades evoluíram ao longo do tempo; e a segunda da sociedade inglesa em abstracto), conferindo-lhe uma densidade e abrangência imprevista; temas como o poder da imprensa, o arcaísmo arbitrário do sistema judicial, a dissimulação do racismo, a importância do empenho cívico individual activo, a incompetência e arrogância da polícia, a cegueira provocada pela religião, a pressão moral imposta pela sociedade através da ditadura da aparência, bem como questões mais íntimas como a solidão solitária e a solidão acompanhada ou o relacionamento individual com a morte, conferem a este livro – que não deixará de representar uma visão ficcionada de uma época história distante – uma actualidade não apenas desconcertante mas, principalmente, preocupante.


Paulo Kellerman

Leitor convidado: Paulo Kellerman é escritor. Tem vários livros publicados na Deriva. Ganhou o Prémio APE do Conto Camilo Castelo Branco. Escreve também para a (sua) Gaveta: http://agavetadopaulo.blogspot.pt/



segunda-feira, 9 de abril de 2012

"Deves ter sentido o teu espírito desamparado do teu corpo como uma casa arruinada. (...) solidão maior, porque um corpo é a nossa última companhia." Vergílio Ferreira. in "Em Nome da Terra"



“Como Carne Em Pedra Quente”
Ana Sofia Fonseca
Clube do Autor


O livro veio parar às minhas mãos por um acaso, aberto na página 22. Comecei a ler, a ler, e foi lido como se tricotasse para entreter o tempo e de repente me visse incapaz de parar o movimento das mãos hipnotizadas pelo ruído das agulhas. E regressei depois do final ao princípio. 

É o primeiro romance da jornalista Ana Sofia Fonseca e constrói-se à volta da narrativa de uma mulher sentenciada de morte. O médico dispara à queima-roupa e deixa-nos divididos entre o imenso peso da sentença de morte e a indignação pela insensibilidade que nos coloca na realidade familiar de muitos homens e mulheres "assassinados" com o corte brutal da esperança. Em passo rápido como se acompanhássemos uma maratona ficamos contaminados com o cansaço mas não desistimos. Algures queremos chegar à meta. Laura, é uma mulher sobrevivente de um cancro, amputada de um peito, a morrer de SIDA, que vai gravando para a sua filha uma herança de memórias e nesse registo leva-nos ao seu passado, às memórias dos seus antepassados. No limite das suas forças, uma mulher doente, bem e mal-amada, perseguindo vários fios da sua história.

Ana Sofia Fonseca tem talento para nos fazer reagir às palavras, pode-se gostar ou não, mas não ser indiferente. Não há palavras de consolo quando não há esperança.
E, seguimos o ajuste da memória, a preocupação pela filha, a incapacidade de comunicar com quem ainda ama, na dúvida de ser ainda amada.
  
O livro é atravessado por muitas leituras dobradas. Algures nas entrelinhas encontro Mia Couto, embora não nomeado, e o citado “Em nome da Terra” de Vergílio Ferreira a fazer sentido na solidão, no peso da morte, na crueza de toda a escravatura fisiológica e escatológica dum corpo.

O quotidiano segue sem voos, em passos certos e crus. E, de quando em quando, no regresso ao passado chegam alguns ecos de realismo mágico a prometer-nos uma história maior. Há livros, primeiros livros que cumprem tudo e nos deixam a interrogação se depois o segundo chegará ao mesmo patamar. Este, pelo contrário, abre diversas linhas narrativas que hão-de por certo cumprir-se em romances futuros.

Assim prometem os mortos guardados dentro dos vivos.
“ Como carne em pedra quente” é a chave de um passado.

Não há redenção. Fechado o livro, respiramos de alívio. Podemos sair para a rua em busca do sol, libertos das sombras. Ficamos com farripas de memórias, a professora Lurdinhas, um anel de ouro branco com duas pérolas como muitos relembram numa mão a acenar em muitas infâncias, uma avó analfabeta e sábia. “Os mortos não voltam” embora não partam enquanto vivem dentro dos vivos. Lisboa, África. Lutos vários. Guerras atravessadas, de Espanha a África. Olhos de lua e lágrima de rio. Teão, o vizinho do primeiro esquerdo. Um disco de um tango mil vezes repetido. ,Uma Maria Valente de bordel,  tecedora do paraíso de um viúvo avô, que sentencia:
“Senhora Puta rende mais que senhora de Fátima” (…) “Sem a devoção dos homens, ambas não são nada." 
Há uma memória geracional aqui aflorada, de fugida e com insistência. Puerilidades de infância, sonhos de mulher, desejos não atendidos. Fica a sensação de que mais haverá a dizer dessa memória de África. Um ajuste de contas ainda a cumprir-se.  Restos de memórias felizes. Promessas de futuro. Presente.
                                                                                                                 
 A morte só acontece quando não há peitos de vivos para guardar os mortos. A morte de Laura dolorosa de dupla maneira na carne e na ausência dos seus amores. Laura a morrer no esforço de um gesto belo e heróico e altruísta de devolver um sentido à espera de dois corações. A vida pode separar os que se amam mas a morte não. 

A beleza de algumas palavras e a crueza dura de outras cruzam-se como lantejoulas brilhantes entrelaçadas num tricô de linha áspera e baça. A história toca-nos ora como serapilheira sobre carne queimada ora como brisa e água fresca.
Não quero desvendar nada, leiam. 
Deixem-se levar. 

Por um tango de Gardel… “sus ojos se cerraram”

“burlándose el destino me robó su amor”

“Sem ti…”
“Eu também…”
“Como Carne em Pedra Quente”


sábado, 7 de abril de 2012

22 Winter Poetry

Toda escrita é um relógio da alma. Retardado, acelerado, invertido ou avariado. Toda escrita é um plano de voo sobre os factos, sobre as ilusões, sobre a conjecturas existenciais, sobre o tapete estendido do tempo. Toda escrita é um fragmento, uma relíquia do tempo passado, uma antevisão emocional do tempo futuro, do tempo mental cingido pela linha, pelo esboço da realidade que abdica da sua liberdade de ser tudo ao escolher o percurso pré-estabelecido pelo texto da vida que posteriormente fica plasmado num conjunto de linhas.

A poesia de inverno de Mathilde Sophia é constituída pelo mosaico de impressões que foram capturadas e congeladas pelo azoto líquido de 22 poemas. Poemas que cortam a pele como vento do inverno; poemas que aconchegam o corpo sob a manta de lembranças de leituras juvenis como no poema de número IV. Vinte dois poemas que celebram o rito de passagem dum período marcante na vida da autora; de quando a Mathilde cansou-se da jovialidade dos seus 21 anos e avançou para a casa seguinte.

Começo por referir o poema de número IV, porque este activou a maquinaria da minha já tão imperfeita memória e induziu nada menos que uma tripla associação: Fez-me recordar do Proust autor-leitor, que no "O prazer da leitura", deliciosamente descreveu como, na infância, o mergulho nos livros era tal que o mundo ficava reduzido ao vislumbre propiciado pelas páginas que se sucediam umas às outras; recordo-me também da autora desses 22 poemas de inverno a ler o "Du côté de chez Swann" à entrada do Edifício Ciência no Instituto Superior Técnico em 2009; recordo-me dum personagem a sair duma aula de laboratório cujo objectivo era medir as velocidades de corpos em colisão, e que ao longo de quatro horas efectuou medidas e as coligiu em colunas de cifras para então calcular uma média, uma média quadrática, e construir um histograma, esperando, em vão, que esse fosse semelhante a uma distribuição normal. Mas esperem, não fiquem impacientes, a história continua. Esgotadas as quatro horas, o personagem caminha cerca de 1 km e meio, espera pelo autocarro e quando este chega, senta-se, abre a mala de garoto de escola e faz os preparativos para a viagem de cerca de uma hora entre a paragem em frente à Faculdade de Arquitectura na Universidade de São Paulo e a Avenida Consolação. Sim, em 1977, este que agora vos dirige a palavra, tirou da mala, o primeiro volume da monumental obra "La Recherche du Temps Perdu" de Proust , o "No caminho de Swann" (o francês era-me então inacessível), e mergulhou no prazer de esquecer que há um mundo a ser rasgado pelo autocarro com o seu ruidoso motor que parecia estar prestes a explodir com o esforço de subir a Avenida Teodoro Sampaio.

Dois percursos de vida que têm em comum o prazer de ler Proust e o contacto com o que se pode chamar de "o mundo das equações". O personagem que leu Proust em 1977, seguiu o caminho das equações; a Mathilde, apesar de ter "sophia" suficiente para seguir o rasto das equações, possivelmente teve mais "sophia" ao seguir o canto da sereia das palavras. E dos frutos dessa escolha, eu sei que há uma interessante tese de mestrado sobre a influência de Keats em Pessoa e de pelo menos 22 poemas de inverno. E eu não tenho dúvidas que esse é só o início dum brilhante percurso no mundo das letras.

Como professor, eu tenho o hábito, alguns dirão que o péssimo hábito, de ser exaustivo. Como autor, eu procuro cultivar, ou ter a ilusão de cultivar, a elegância minimalista do essencial. Mas aqui-agora, entre amigos e ouvintes, incumbido da tarefa de exaltar a frescura do belo livro de poemas da Mathilde, sem que a minha retórica interfira com a naturalidade da linguagem da autora, não me ocorre mais do que uma navegação de cabotagem, de ir velejando ao longo da costa dos poemas dessa colectânea. Navegar, velejar, ler ao sabor do vento e do capricho de cada poema. Assim seja.

Sobre o poema número IV eu já falei. Ocorre-me dizer que o poema número VI é perigoso ao afirmar que: "Negro, de depressão em depressão,/Entre cumes e florestas sem côr/Onde Homens morrem sem supor/Que toda a viagem é em vão. ..." Não, Mathilde! Não há viagens em vão, como não há linhas em vão! São boas ou más, mas são viagens e linhas de ataque ao âmago da realidade. Mas sim, isso são coisas que nós só aprendemos quando temos 22 anos. Com o poema de número XII, eu ganhei alturas, veio-me à mente a indignação de Álvaro de Campos com a banalidade das coisas que nunca levantam voo, e também a lembrança duma birra dos personagens do "Les Enfants Terribles" de Jean Cocteau, e passo a citar: "Voo à velocidade duma noite escura/e nem uma árvore,/afoita e não suave,/me desvia do intento./Não. Faço o que quero! ..." O poema XVI versa sobre a voluptuosidade duma figura grave, sensual e perfeita, e dá-me uma satisfação muito especial, pois descubro, através da sua leitura, que afinal eu não sou assim tão anormal por achar que "La Mathématique" é uma senhora muito sexy. No poema XVII, percebemos que os pedaços de mar podem se perder resultando num asfixiante desconcerto. Diz-nos a autora: "Não sei onde está o pedaço de mar/que deixei espalhado ontem no quarto./Repugna-me não encontrar as minhas coisas/e a desesperança que me invade na cama descalça,/onde as almofadas se sentam quadradas/sob a minha face gélida, transpirando/asfixia." O poema XXI, "Ergue-te pena", descreve a dança da pena quase desaparecida, reformada compulsoriamente pela digitalização da escrita; poema que procura dar ritmo ao ballet das mãos, dos dedos, e ao esforço necessário para ter forças para escrever quando se é jovem e a vida é um chamamento constante e irresistível. Poema que termina com a pergunta inevitável: "Vais voltar a escrever?-/E fica ela vagamente/Erguida; vai cair,/Acudam, que forças/Lhe faltam p'ra se manter./Já nem dela precisam/Os mestres para rabiscar. -/Mas ergue-te pena! Uma vez/Mais, ergue-te, e vem dançar!"

Finalmente, o poema 22, canta, e como poderia ser doutra forma, Lisboa, e exige de Alfama um beijo mais autêntico: "Oh Alfama, beija-me, que não sou turista!” Não ouso enumerar as associações que me vêm à mente quando Alfama é mencionada. São imensas! E também eu me candidato para um beijo, apesar da minha actual condição de turista quando estou em Lisboa. Mas alternativamente a uma precária enumeração de mementos demasiado pessoais, ocorre-me meter-me pelos números e dizer que o número 22 faz-me recordar o bem conhecido "Catch 22" de Joseph Heller. O “catch” refere-se à cláusula 22 do código militar, segundo a qual para se obter uma licença médica para deixar de pilotar um avião de bombardeiro na Segunda Grande Guerra era necessário que o piloto apresentasse inequívocos sinais de loucura; contudo sabiam muito bem os pilotos que sem essa loucura era absolutamente impossível pilotar. Pergunto-me se não ocorre o mesmo com a obsessão do escritor. Escrever exige um certo descontrole dos sentidos e do intelecto, porém privado do exercício de escrever, todo autor possivelmente enlouqueceria. Loucura causada pela compulsão de escrever, loucura causada pela abstinência do exercício de escrever. É justa a comparação? Possivelmente, pois eu conheço pelo menos um caso. É pertinente no que se refere à Mathilde? Perguntem-lhe; eu suponho que não. Mas mesmo esquecendo essa pretensa analogia, não se deve omitir a uma jovem escritora que nisso de livros há uma dialéctica terrível, pois ao cume do projecto literário concluído, segue a implacável vertigem do vazio da página por se escrever. A implicação é óbvia: esperamos todos que o relógio interno do próximo livro já tenha sido activado. Mas isso agora é assunto da Mathilde. Eu só espero ter a alegria de não ter que esperar muitos invernos para ter o prazer de ler o próximo livro da jovem Mathilde Sophia.

Porto, 30 Março 2012 – Lisboa, 2 Abril 2012.

Orfeu B.