domingo, 7 de outubro de 2012
FALAR POR QUEM NÃO TEM VOZ
Que belas surpresas a literatura tem volta e meia para nos dar!.
Não conhecia a obra deste autor peruano. Mal teria ouvido falar dele.
Graças às Edições Ahab surgiu a tradução de dois livros dele. Comecei pelo que em segundo lugar viu a luz do dia: “A palavra do Mudo”. Contos. Deliciosos.
São pequenas narrativas construídas como mandam as regras, digo eu, como se houvesse regras na arte de contar histórias.
Escrita segura e sólida que se espraia em torno de pequenos acontecimentos, sem pressas nem sustos. Tudo o que acontece parece calmo e normal, sem nada de extraordinário. Podíamos deixar a história a meio porque aparentemente não acontece quase nada de significativo. No entanto, a arte do escritor leva-nos presos pelas palavras até ao final
E aí reside um aparte importante da arte do conto: conseguir um final que feche a história, que a torne num tempo e num espaço que se resolve numa viagem circular. E Júlio Ramon Rybeiro é um mestre.
“A Palavra do mudo”, título escolhido para esta colectânea vem do desejo do autor de dar voz aos que a não têm. Com poucas excepções, as suas personagens são tristes falhados, pessoas que levam as suas pequenas vidas e os seus pequenos sonhos envolvidos numa nuvem de melancolia. E o extraordinário trabalho do autor é, justamente, tornar essas personagens em gente. Gente falhada. Gente marginal mas de uma marginalidade apagada. Gente que aceita pouco. Gente que sonha pouco. E que mesmo assim, quando sonha, vê os seus sonhos esboroar-se como é o caso do homem que sonha o amor com a dona de um café vazio às duas da manhã e depois de tentar pagar esse amor arrumando as muitas mesas de ferro da esplanada, acaba por ver fechada a porta que o deixa de novo na rua.
O júbilo de quem lê estas histórias não está nas personagens que por vezes nos arrepiam e fazem quase tremer. O prazer desta leitura está na mestria da escrita, no ritmo, na arte de contar histórias de mudos em que Júlio Ramon Rybeiro era seguramente um mestre.
terça-feira, 2 de outubro de 2012
DESDE QUE O SAMBA É SAMBA
"Há várias coisas que parecem ser o que segura tudo mesmo de facto. Uma delas é juntar para cantar e dançar, justo que na arte não existe nada que possa menosprezar um tico de grão que seja do humano"
("Desde que o samba é samba")
Uma das piores formas de abordar um livro é definir um padrão de escrita desejado antes de começar a sua leitura. Partir do preconceito. Do pré-conceito. Não estar nu e preparado para ser tomado pela surpresa.
Devo confessar que Jorge Amado me deixou uma marca fortíssima. Em jovem li tudo ou quase tudo que o que grande escritor baiano escreveu.
Depois cruzei-me com a escrita de muitos outros escritores brasileiros. Clarice Lispector, Tabajara Ruas, Érico Veríssimo, Fernando Veríssimo, Nelida Piñon, Ruben Fonseca, Patrícia de Melo, João Ubaldo Ribeiro e muitos mais. E dos mais recentes tenho na pilha das urgências 2 ou 3 livros de Adriana Lisboa.
Mas preciso sempre vencer a (reconheço que errada) expectativa de encontrar características semelhantes a Jorge Amado em cada livro brasileiro. Ternura, ironia, malandrice, ingenuidade… Talvez um certo tropicalismo que sempre me arrastou ao prazer de uma língua que partilho e me é devolvida com açúcar na ponta.
Mas há outros Brasis e outras escritas brasileiras. E levo sempre algumas páginas até deixar de lado essas falsas expectativas.
Só que desta vez as expectativas eram fortes porque o tema era primo de muitos dos temas de Jorge Amado.
Os malandros do Rio de Janeiro, 1928, prostituição, Candomblé, Umbanda e samba. A história de um triângulo amoroso entre um malandro negro, Brancura, a prostitura Valdirene e o português Sodré.
Tudo isto num cenário que sublinha o resultado do fim da escravatura, e o desenvolvimento de uma cultura negra com forte influência baiana.
Mais ainda, o autor faz entrar personagens reais pela ficção. Grandes autores de samba como Ismael Silva. Poetas como Manuel Bandeira. Cantores, escritores, etc, etc. O próprio Brancura é uma personagem simultaneamente real e ficcionada.
O objectivo assumido pelo escritor Paulo Lins é o de contar, nesse cenário, o nascimento da primeira Escola de Samba do Rio.
Paulo Lins viveu a infância no bairro onde tudo se passa, o Estácio. E é autor do romance “Cidade de Deus” que me dizem ser notável e que não li, embora tenha visto o filme. Mas tenho pena porque sei bem que um bom livro é sempre, com raríssimas excepções, muito melhor que a sua passagem ao ecrã.
Este livro é duro. Não fica fica pelo bonitinho. Pelo postal ilustrado. Mostra um mundo violento. Com linguagem violenta. Com gente que anda perdida à procura de si própria.
São os pais ou avós das favelas que cresceram e tomaram conta da Cidade Maravilhosa e cuja terrível teia, agora, os governos, e muitas outras instituições, tentam encontrar caminhos para desfazer.
Com tudo isso e muito mais, Paulo Lins envolveu-me, arrastou-me, trouxe-me preso vários dias a fio pela força do seu verbo. Aprendi muito sobre o Brasil E sobretudo sobre a influência da cultura africana trazida pelos escravos. E como essa cultura se desenvolveu, transformou e tornou num pano de fundo de tremenda importância, quer na música, quer na religiosidade, quer na interligação da literatura com a cultura popular.
O objectivo do autor é ambicioso. E complexo. E sabe-se que, certamente por isso mesmo, levou cerca de 10 anos a escrevê-lo.
Senti durante a leitura que a realidade e a ficção tropeçam por vezes uma na outra. O livro arranca em cima da ficção e acaba nos braços da realidade, deixando a ficção atenuar-se, morrer na areia, por assim dizer.
Há momentos deliciosos como o diálogo dos malandros com os polícias que querem proibir o samba na Festa de nossa senhora da Penha.
E há, no final, uma ideia que me encanta. A de Valdirene que, no final foge à zona do baixo meretrício e tem dois filhos gémeos, um branco e um preto, filhos do preto Brancura e do branco Sodré. Metáfora deliciosa da própria história do Brasil.
E pronto. Eu, se calhar, gostava que este livro fossem dois. Um de ficção. Outro de História do samba e do Candomblé e etc.
Mas também penso que a História tem muito mais graça quando é olhada por dentro do seu acontecer, com olhos de gente, quer seja gente real, quer seja gente inventada. Mas sempre gente pois é de gente que se faz a boa literatura.
sábado, 29 de setembro de 2012
DE NOVO GUILHERME CENTAZZI
Guilherme Centazzi – o renascido
Já aqui falei, em texto anterior, de O Estudante de Coimbra, ou relâmpagos da história portuguesa de 1826 a 1838, de Guilherme Centazzi, (Lisboa, Planeta, 2012), e da agradável surpresa literária que ele é. Mas há ainda outro aspeto surpreendente, que é o que se refere ao seu esquecimento desde 1861 até hoje, tendo em conta que revela evidentes qualidades literárias. O facto de ter sido descoberto por acaso por Pedro Almeida Vieira é revelador de como o esquecimento estratégico pode ser mortífero. É certo que ninguém garante que seja o resultado de uma estratégia, como se faz hoje e certamente sempre se fez, mas parece, ou é, pelo menos, uma hipótese a ponderar.
Na verdade há aqui uma questão, com duas vertentes, que merece reflexão, e que irá por certo ser tema de análise e de debate: a sua modernidade, por um lado, e, por outro, o esquecimento a que esteve votado até agora. Como entender estes dois factos em simultâneo? Penso que se devem colocar as duas perguntas em simultâneo, porque se ele não tivesse qualidade nem modernidade, era natural que tivesse sido esquecido. Mas, sendo evidentes estes dois aspetos, o esquecimento surge como muito mais difícil de explicar e transforma-se num problema mais vasto porque implica toda uma cultura, a nossa, e algumas das suas características.
Pedro Almeida Viera considera O estudante de Coimbra o primeiro romance moderno português, visto ser anterior (1840) aos marcos habitualmente considerados do nosso romantismo literário: O Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano, de 1844, e O Arco de Santana e Viagens na minha terra, de Almeida Garrett, de 1845 e 1846, respetivamente.
Por outro lado, o realismo das descrições, a naturalidade dos diálogos caracterizados, como diz Fátima Marinho no posfácio «pelo estilo popular e coloquial, sobretudo (…) com interlocutores do povo», a vivacidade das descrições, as peripécias de muitas situações, a distância que cria em relação ao estereotipado das narrativas setecentistas, faz dele um livro moderno, já dentro dos nossos horizontes e padrões estéticos. De algum modo até antecipando a modernidade, como se, embora integrando-se no romantismo e já com certas características do realismo posterior, passasse por cima de ambos vindo aterrar na literatura atual, por uma forte inclinação para a irreverência, o gosto pelo cómico das situações e as deambulações opinativas, numa torrente verbal mal dominada e sintaticamente irreverente, embora correta, como se o autor corresse atrás da própria pena e com dificuldade de a parar. Isto é, fazendo um arco, ou seja, indo do pícaro e aventuroso de romances como O D. Quixote, de Cervantes, O Gil Blas, de Santillana, A vida e as opiniões de Tristram Shandy de Laurence Sterne, e até o Manuscrito encontrado em Saragoça, de Jan Potocki (com as devidas distâncias literárias, temáticas e até volumétricas), passando pelo romântico das relações amorosas, da visão do feminino, dos ambientes tenebrosos e do maniqueísmo das personagens, até uma certa liberdade formal e uma desenvoltura descritiva próximas do que atualmente se escreve.
Não se percebe, pois, por que razão nunca é referenciado pelas elites do seu tempo, tendo estado morto durante cento e setenta anos. Para explicar este mistério Pedro A. Vieira formula algumas hipóteses:
O não lhe terem reconhecido a nacionalidade portuguesa, quando é sabido ter nascido no Algarve, ele o diz e tem orgulho nisso;
ter-se, talvez, catalogado o livro como uma obra de memórias de um estudante de Coimbra, envolvendo-o naquela imensa bibliografia coimbrã onde há de tudo, e não dando pelas suas qualidades literárias;
ter sido reduzida a tiragem do livro, e de nula distribuição, como ainda ocorre;
e, sobretudo, ser demasiado crítico para com muita gente que era figura grada por altura da publicação.
Para lá desta última razão, a mais plausível, talvez haja outras. Se o compararmos com Herculano e Garrett, é óbvia a aparente falta de “acabamento” literário, o que talvez o desqualificasse aos olhos dos contemporâneos, tal como uma certa desformalização, que a irreverência crítica e a vivacidade do autor impõem à narrativa, o qualificam à nossa apreciação contemporânea. Mas, vendo assim a questão, somos tentados a colocá-lo mais na linha de Camilo do que na que vai de Garrett a Eça de Queiroz. Mas Camilo é uma árvore frondosa, impossível de ignorar, o que não acontecia com o arbusto Centazzi, irreverente, brincalhão, ocupado com muitas tarefas, desde médicas a musicais e a políticas, não dando grande importância à sua obra literária, e, ainda por cima, ou sobretudo, vivendo lá para o Reino dos Algarves, antes de Fontes Pereira de Melo e de todas as modernidades comunicantes.
Por outro lado, e quem sabe até se principalmente, a vivacidade da escrita, o pícaro de certos episódios, a incapacidade de resistir às situações cómicas e de as descrever com impetuosidade e graça, terão favorecido a marginalidade da sua obra literária em relação à de outros concorrentes mais famosos. Enfim, tudo isso talvez possa explicar o “esquecimento” a que o pensamento dominante e o gosto do tempo o votaram. Somos demasiado “sérios” para apreciar escritores deste tipo, apesar do dramático daquelas situações e do humanismo que perpassa pela obra.
Trata-se de uma hipótese, mas sabendo como funcionam muitas elites, como a “seriedade” sempre dominou a nossa cultura judaico-cristã, como abominamos mais o humor que Maomé o toucinho e como fugimos mais às críticas que o Diabo à cruz, talvez a hipótese não seja insensata.
(Este não é o Guilherme. Mas tem graça)
João Boavida
Já aqui falei, em texto anterior, de O Estudante de Coimbra, ou relâmpagos da história portuguesa de 1826 a 1838, de Guilherme Centazzi, (Lisboa, Planeta, 2012), e da agradável surpresa literária que ele é. Mas há ainda outro aspeto surpreendente, que é o que se refere ao seu esquecimento desde 1861 até hoje, tendo em conta que revela evidentes qualidades literárias. O facto de ter sido descoberto por acaso por Pedro Almeida Vieira é revelador de como o esquecimento estratégico pode ser mortífero. É certo que ninguém garante que seja o resultado de uma estratégia, como se faz hoje e certamente sempre se fez, mas parece, ou é, pelo menos, uma hipótese a ponderar.
Na verdade há aqui uma questão, com duas vertentes, que merece reflexão, e que irá por certo ser tema de análise e de debate: a sua modernidade, por um lado, e, por outro, o esquecimento a que esteve votado até agora. Como entender estes dois factos em simultâneo? Penso que se devem colocar as duas perguntas em simultâneo, porque se ele não tivesse qualidade nem modernidade, era natural que tivesse sido esquecido. Mas, sendo evidentes estes dois aspetos, o esquecimento surge como muito mais difícil de explicar e transforma-se num problema mais vasto porque implica toda uma cultura, a nossa, e algumas das suas características.
Pedro Almeida Viera considera O estudante de Coimbra o primeiro romance moderno português, visto ser anterior (1840) aos marcos habitualmente considerados do nosso romantismo literário: O Eurico, o presbítero, de Alexandre Herculano, de 1844, e O Arco de Santana e Viagens na minha terra, de Almeida Garrett, de 1845 e 1846, respetivamente.
Por outro lado, o realismo das descrições, a naturalidade dos diálogos caracterizados, como diz Fátima Marinho no posfácio «pelo estilo popular e coloquial, sobretudo (…) com interlocutores do povo», a vivacidade das descrições, as peripécias de muitas situações, a distância que cria em relação ao estereotipado das narrativas setecentistas, faz dele um livro moderno, já dentro dos nossos horizontes e padrões estéticos. De algum modo até antecipando a modernidade, como se, embora integrando-se no romantismo e já com certas características do realismo posterior, passasse por cima de ambos vindo aterrar na literatura atual, por uma forte inclinação para a irreverência, o gosto pelo cómico das situações e as deambulações opinativas, numa torrente verbal mal dominada e sintaticamente irreverente, embora correta, como se o autor corresse atrás da própria pena e com dificuldade de a parar. Isto é, fazendo um arco, ou seja, indo do pícaro e aventuroso de romances como O D. Quixote, de Cervantes, O Gil Blas, de Santillana, A vida e as opiniões de Tristram Shandy de Laurence Sterne, e até o Manuscrito encontrado em Saragoça, de Jan Potocki (com as devidas distâncias literárias, temáticas e até volumétricas), passando pelo romântico das relações amorosas, da visão do feminino, dos ambientes tenebrosos e do maniqueísmo das personagens, até uma certa liberdade formal e uma desenvoltura descritiva próximas do que atualmente se escreve.
Não se percebe, pois, por que razão nunca é referenciado pelas elites do seu tempo, tendo estado morto durante cento e setenta anos. Para explicar este mistério Pedro A. Vieira formula algumas hipóteses:
O não lhe terem reconhecido a nacionalidade portuguesa, quando é sabido ter nascido no Algarve, ele o diz e tem orgulho nisso;
ter-se, talvez, catalogado o livro como uma obra de memórias de um estudante de Coimbra, envolvendo-o naquela imensa bibliografia coimbrã onde há de tudo, e não dando pelas suas qualidades literárias;
ter sido reduzida a tiragem do livro, e de nula distribuição, como ainda ocorre;
e, sobretudo, ser demasiado crítico para com muita gente que era figura grada por altura da publicação.
Para lá desta última razão, a mais plausível, talvez haja outras. Se o compararmos com Herculano e Garrett, é óbvia a aparente falta de “acabamento” literário, o que talvez o desqualificasse aos olhos dos contemporâneos, tal como uma certa desformalização, que a irreverência crítica e a vivacidade do autor impõem à narrativa, o qualificam à nossa apreciação contemporânea. Mas, vendo assim a questão, somos tentados a colocá-lo mais na linha de Camilo do que na que vai de Garrett a Eça de Queiroz. Mas Camilo é uma árvore frondosa, impossível de ignorar, o que não acontecia com o arbusto Centazzi, irreverente, brincalhão, ocupado com muitas tarefas, desde médicas a musicais e a políticas, não dando grande importância à sua obra literária, e, ainda por cima, ou sobretudo, vivendo lá para o Reino dos Algarves, antes de Fontes Pereira de Melo e de todas as modernidades comunicantes.
Por outro lado, e quem sabe até se principalmente, a vivacidade da escrita, o pícaro de certos episódios, a incapacidade de resistir às situações cómicas e de as descrever com impetuosidade e graça, terão favorecido a marginalidade da sua obra literária em relação à de outros concorrentes mais famosos. Enfim, tudo isso talvez possa explicar o “esquecimento” a que o pensamento dominante e o gosto do tempo o votaram. Somos demasiado “sérios” para apreciar escritores deste tipo, apesar do dramático daquelas situações e do humanismo que perpassa pela obra.
Trata-se de uma hipótese, mas sabendo como funcionam muitas elites, como a “seriedade” sempre dominou a nossa cultura judaico-cristã, como abominamos mais o humor que Maomé o toucinho e como fugimos mais às críticas que o Diabo à cruz, talvez a hipótese não seja insensata.
(Este não é o Guilherme. Mas tem graça)
João Boavida
sábado, 8 de setembro de 2012
“Aparentemente/existe um número infinito de seres vivos/que seguem a lei da probabilidade//O astrónomo pode calcular/onde se encontrará o planeta Júpiter em três mil anos./Mas nenhum biólogo pode prever/onde a borboleta pousará.” Affonso Romano de Sant’Anna
Escolhas
Affonso Romano de Sant’Anna nasceu em Belo Horizonte, em 1937. Foi professor de Literatura em universidades de vários países e um activo participante dos movimentos de vanguarda no Brasil na década de sessenta e setenta. A sua tese de doutoramento versou a poesia de Drummond de Andrade: “Drummond, um gauche no tempo”. Drummond que o próprio Affonso substituiu como cronista no “Jornal do Brasil”, em 1984. De 1990 a 1996 esteve à frente da Biblioteca Nacional. Foi o criador do sistema Proler (Plano de leitura no Brasil) e do programa “Uma biblioteca em cada município”.
Affonso Romano foi e é um personagem interventivo na história do livro e da leitura que muitos tiveram oportunidade de ouvir em Beja, no decorrer das Palavras Andarilhas onde foi um dos convidados. (http://www.palavrasandarilhas.org/)
Ouvi-lo
tornou, mais uma vez, claro que andamos há mitos anos a ignorar a
importância dos livros e da leitura. Apesar de concordarmos, avançamos, paramos e recuamos
como se pudesse ser uma questão intermitente e secundária. Mas é um problema caro, duplamente
caro, na sua importância e na factura que pagamos ao negligenciá-lo.
Mas retomo a sua poesia que por isso o trouxe aqui.
Confesso que a não conhecia, não está publicada em Portugal. Apesar da língua comum assim acontece com muitos. Uma realidade que tarda em mudar por falta de estratégias e generosidade para percorrer mutuamente esse caminho.
No Jardim Público de Beja, o lugar excelente onde
decorreram os três dias das Palavras Andarilhas, do desconhecimento passei à descoberta. Havia alguns livros seus vindos do Brasil e neles parei sentada numa
providencial cadeira, caso não havia a relva que cresce devagar, a tempo
certo e sempre nos devolve a calma que a ausência de verde e de tempo nos tira… Parei,
dizia, a ler umas quantas páginas. Não é que hoje em dia a Amazon
não nos permita recebê-los, tê-los até a um preço mais simpático que o
encontrado nestas feiras ocasionais mas nada se compara ao namoro, da leitura página a página com o toque dos dedos. Assim, entre quatro exemplares de poesia, escolhi esta “Poesia Reunida” de 1965 a 1999.
Foi uma escolha algo representativa no meio de
uma vasta obra virada para vários mundos de fora e de dentro do Homem, do homem
e da mulher, sempre escrita de um ponto de vista masculino mas numa visão deslumbrada pela pluralidade
do feminino. Uma poesia debruçada sobre os problemas sociais
e políticos de um país concreto mas que pode ser lida para lá dessa geografia e do tempo
em que foi vivenciada e escrita. Alguns, soube depois, são muito conhecidos, foram música e bandeira como aconteceu com “A
Implosão da Mentira” Ou “Que país é este?”
“Mentiram-me. Mentiram-me ontem/E hoje mentem
novamente. Mentem/De corpo e alma, completamente./E mentem de maneira tão
pungente/Que acho que mentem sinceramente. //(…)”
O país pode ser o Brasil, pode ser muitos outros…“Que país é este?”. Responda quem souber…
Diversa é a sua poesia. Como um canivete suíço nem
tudo se usa da mesma maneira, e, decididamente, não ao mesmo tempo. Há poemas
longos entrelaçados a realidades multifacetadas, de situação social e política, de história, da
ciência ou do sentido profundo na existência do Homem. Outros poemas curtos e
incisivos.
Poemas onde as palavras balançam entre dois extremos, celebrando o amor.
O espírito e o corpo nem sempre vistos com equidistância mas sempre com encontro
e interdependência. E sempre uma visão de homem sobre a mulher que o inspira.
Muitas vezes presente o Tempo, o que ele faz, o que estraga e o que acrescenta, o lado dinâmico das vivências na proximidade.
É impossível ler “Mitos e Ritos” sem pensar em
Marina Colasanti com quem Affonso Romano partilha, há mais de quatro décadas, uma
vida de cumplicidades várias. Ou ficar indiferente ao paradoxo de serem as palavras tão vitais no relacionamento amoroso mesmo quando se dispensam em "Silêncio Amoroso"
“Minha mulher/tem outra mulher com várias
mulheres sob a pele./Tecelãs, pastoras, princesas/afloram de seus lábios e
cabelos./Dispo-a com amor ela suspira./E é aí que fadas e dragões se batem/e em
nossos corpos/a fantasia da carne/- delira.”
"Deixa que eu te ame em silêncio./Não pergunte,
não se explique, deixe
Que nossas línguas se toquem, e as bocas/e a
pele/falem seus líquidos desejos.//Deixa que eu ame sem palavras/a não ser
aquelas que na lembrança ficarão/pulsando para sempre como se amor e vida/fossem
um discurso de impronunciáveis emoções."
A leitura de um livro que nos revela um poeta exige pausas para nos distanciarmos da pessoa e para ler o poema
despindo-o e vestindo-o no momento da leitura com novas emoções. Tem de ser lido em doses homeopáticas e em ritmos solares e lunares. É feita de palavras que tomamos
para serem nossas, para ler passados e escrever futuros. Não escrevo sobre a poesia. Escrevo sobre um
livro de poesia a que irei voltando para descobrir os seus sentidos, até encontrar o que resta desligado do que o poeta escreveu e sentiu. O próprio poeta o diz
melhor que eu em "O Leitor E A Poesia".
“Poesia/Não é o que o autor nomeia/é o que o leitor
incendeia.//Não é o que o autor pavoneia/é o que o leitor colhe à colmeia// Não
é o ouro na veia/é o que vem na bateia.//Poesia/ não é o que o autor dá na ceia,/mas
o que o leitor banqueteia.”
Assim é, também, a poesia de Affonso Romano de Sant’Anna, uma viagem que vale a pena fazer, que cada um fará à sua medida.
O
Amor, A Casa E Os Objectos
O amor mantém ligados os objectos./Cada um na
sua luz,/no seu restrito ou volumoso/-modo de ser.//O amor, e só o amor,
arquitecta/paredes duplas, vigas, mestras, telhas vãs,/condutos e portas ,
justapondo/à luz interna o céu exterior.//Quando há amor, os objectos/tornam-se
suaves./Não há asperezas/em suas formas e frases.//Como um gato, o corpo/passeia
entre arestas e não se fere./Nada lhe é hostil./Nada é obstáculo/Nada está
perdido/no trânsito da casa.//É como se o corpo, além de frutas e flores,/mesmo
parado, criasse asas.//Daí uma certa displicência dos objectos na mesa,/ na
estante,/ no chão./Como corpos derramados nos tapetes/ ou cama,/que esta é
forma de estar/quando se ama./O que não for isto, não é amor./É ordem exterior
às coisas./Pois quando amamos,/os objectos nos olham/sem inveja. Antes,
secretas glórias afloram de suas formas/como o corpo aflora aos lábios,/e a
poltrona, o pelo de sua fauna, aflora.//As casa têm raízes/quando há amor./Até
ratos, baratas e cavalos,/além de plantas e pássaros/antenam vibrações nos subterrâneos/da
casa de quem ama.//O corpo trescala aroma após o banho,/ almíscar flui dos
sexos, alfazema/banha os gestos. Enrolados em suas toalhas/os corpos como as
ondas/se desmacham em orgasmos no lençol da tarde.//Os objectos estendem os
homens, quando há amor./Vão ás festas e guerras, e se acaso/suicidam caindo das
prateleiras/São capazes de ostentar sua vida/mesmo numa natureza morta.//O amor
não submete, o amor permeia/cada coisa em seu lugar e, como o Sol,/passeia
iluminando as espirais de ouro e prata/ que decoram nossos corpos.// Não há
limite entre a casa e o mundo, quando há amor./Os amantes invadem tudo a toda a
hora/ e a paisagem do mundo à paisagem da casa/ se incorpora.// Affonso Romano de Sant’Anna.
terça-feira, 28 de agosto de 2012
AS PALAVRAS E A CIDADE
“NOVA IORQUE”
BRENDAN BEHAN
Brendan Behan, irlandês, filho de uma família republicana, militante do IRA desde os 14 anos, preso por vários anos na Irlanda e em Inglaterra, veio a tornar-se num escritor largamente aplaudido e elogiado nomeadamente como autor de teatro.
Carlos Vaz Marques que dirige esta magnífica colecção da editora “Tinta da China”, resolveu introduzir este livro depois de ler uma referência entusiástica de Enrique Vilas-Mata que aliás se predispôs a fazer o respectivo prólogo.
O texto é inesperado. Behan, alcoolizado em alto grau e perto da mortecom 41 anos, escreve-o, ou melhor dita-o em várias sessões no famoso Hotel Chelsea, dando-lhe a forma de um divagação tão caótica quanto envolvente pelos bares e recantos irlandeses de Nova Iorque
Behan foi, ao que parece um herói irlandês. Membro do IRA aos 14 ano, preso aos 16, torna-se escritor e dramaturgo de sucesso depois de sair de prisão.
O texto resulta da sua deambulação por um sem número de irish saloons e de histórias da Irlanda e da sua gente que, fugindo à fome e à repressão britânica, tanto foi contribuir para o crescimento da cidade.
Assim nos leva o livro simultâneamente por uma cidade e por uma cultura, uma maneira de estar no mundo, uma forma de habitar a raiz comum.
É magnífica a arte de fazer viver uma cidade pelas palavras, dar-lhe um brilho duradouro, o que, cada um dos dois últimos autores que li ultimamente, fazem cada qual à sua maneira.
No entanto, aqui, Nova Iorque acaba por ser apenas o cenário da saga irlandesa na voz de um homem que habita um destino explosivo e curto.
domingo, 26 de agosto de 2012
Che cos'è la poesia?
"A partir de agora, chamarás poema a uma certa paixão da marca singular, a assinatura que repete a sua dispersão, de cada vez além do do logos, ahumana, escassamente doméstica, nem reapropriável na família do sujeito: um animal convertido, enrolado em bola, voltado para o outro e para si, uma coisa em suma, e modesta, discreta, próxima da terra, a humildade que sobrenomeias, assim te transportando para o nome além do nome, um ouriço catacrético, todas as flechas eriçadas, quando este cego sem idade ouve mas não vê chegar a morte."
Jacques Derrida
Uma breve, porém sugestiva, reflexão sobre a poesia pela pena do influente pensador Jacques Derrida (1930-2004), o filósofo da "desconstrução" e criador de neologismos como "differance" (diferencia) que denota a impossibilidade da análise sem temporalização que não seja sincrónica e diacrónica.
De facto, em umas escassas páginas, o pensador que introduziu na filosofia a discussão de Goedel sobre a impossibilidade de se demonstrar a veracidade ou falsidade de todos os teoremas no contexto dum sistema matemático fechado, sintetiza a leitura da poesia "em duas palavras":
"1. A economia da memória: um poema deve ser breve, elíptico por vocação, qualquer que seja a sua extensão objectiva ou aparente …
2. O coração. Não o coração no meio das frases que circulam sem correr riscos pelos cruzamentos e se deixam traduzir em todas as línguas. Não apenas o coração dos arquivos cardiográficos, objecto de saberes e de técnicas, de filosofias, e de discursos bio-ético-jurídicos. Talvez sequer o coração das Escrituras ou de Pascal, provavelmente, nem mesmo, o que é menos certo, aquele que Heidegger lhes confere. Não, uma história de "coração" poeticamente envolta no idioma "aprender de cor", o da minha língua ("apprendre par coeur") ou uma outra, a inglesa (to learn by heart) … - um trajecto único de múltiplas vias."
Certamente, uma lição a reter.
Orfeu B.
sábado, 25 de agosto de 2012
AMAR UMA CIDADE
“PARIS”
JULIEN GREEN
Filho de protestantes americanos nasce em Paris onde vive até à morte com excepção do período de cada uma das duas Guerra Mundiais e o do tempo de estudo universitário nos EUA.
Converte-se ao catolicismo em jovem. Assume-se como homossexual, duas características que se diz marcarem a sua obra.
É o primeiro estrangeiro a entrar para a Academia francesa. Morre com 98 anos.
O seu livro sobre Paris é uma delicada declaração de amor, um rosário de pequenas e muito frequentemente convidas observações de Paris. Pequenos textos, por vezes quase poemas.
Julien Green quase fica á porta de um outro texto que é o da história das personagens dos seus livros caminhando com o próprio autor na cidade que lhe serve de cenário para as suas vida..
Julien Green afirma:
“A não ser que se tenha perdido realmente tempo numa cidade, ninguém poderá considerar que a conhece bem.”
Estou de acordo e acabei o livro cheio de saudades de uma cidade a que também pertenço um pouco.
sexta-feira, 17 de agosto de 2012
GANHEI UM POETA
Nunca ganhei a lotaria, o euromilhões, o totobola, nem sequer uma simples rifa de verbena. Mas poetas, já ganhei bastantes.
Às vezes graças ao prémio Nobel como é o caso de Tomas Transtromer que me chegou graças ao excelente e continuado trabalho da editora Relógio d'Água e à tradução que me soa muito bem de Alexandre Pastor.
Já me tinha acontecido o mesmo com a excelente poeta polaca Wislawa Szymborska, Nobel de 96.
É uma alegria muito grande quando descubro a obra de um poeta que não conhecia e que me leva a novos patamares da relação com a palavra e as suas fantásticas viagens.
As diferenças linguísticas, a falta de imprensa consistente, a redução da cultura às modas anglosaxónicas, deixam-nos sozinhos da grande poesia, da grande música do mundo, de muito do melhor que alguns irmãos nossos fazem lá nesses seus cantinhos tão fora das grandes auto-estradas culturais
As línguas serão sempre uma ponte e uma barreira. Leio bem em francês e em espanhol. Dá para navegar no italiano. Entendo-me com o inglês corrente mas muito mal com o inglês literário. Gosto das edições bilingues para ler com um olho em cada língua.
Um dia vou aprender inglês a sério para ler no original Shakespeare, Walt Whitman, Ted Hghes, Walace Stevens, Alen Guinsberg, etc, etc.
Também gostava de aprender alemão. E russo, vá lá... Mas há tanto poeta que adoro nas traduções e que escrevem em línguas que nunca aprenderei.
O grego Yanis Ritsos, o russo Tarkovski, pai do realizador de cinema, o checo Vladimir Holan , o indiano Rabindranaz Tagore, o Tonino Guerra que escrevia em romagnolo, o polaco Czesław Milosz...
Sabemos que poesia não se traduz mas... Ajuda, Se a tradução não for uma porta aberta de par em par, que seja pelo menos entreaberta.
Da poesia de Transtromer permitam-me ressalvar a sua relação com as pequenas coisas
que a natureza e o melhor da vida nos oferecem e que nos tornam mais doce a nossa humanidade.
SHUBERTIANA III
"O quinteto de cordas toca. Vou para casa a pé, atravesso florestas
´ tépidas, o chão que piso é fofo.
meto-me na cama como alguém ainda não nascido, adormeço,
livre de peso rolo rumo ao futuro, sinto de súbito que as plantas
também pensam."
A poesia pode desanrranjar-nos o olhar. Pode dar-nos notícia de becos e sarjetas. Pode fazer-nos levantar o coração à altura das bandeiras. Pode fazer-nos cantar o amor ou chorar o nosso destino azedo. E pode, também como é o caso, trazer-nos um pouco de paz.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
O ESTUDANTE DE COIMBRA
A ressurreição de Guilherme Centazzi, segundo Pedro Almeida Vieira
1. O Estudante de Coimbra, ou relâmpagos da história portuguesa de 1826 a 1838, de Guilherme Centazzi, (Lisboa, Planeta, 2012), é uma agradável surpresa, A vários níveis. Na badana esquerda do livro faz-se uma apresentação interessante do autor: «Filho de pai veneziano, naturalizado português e de ascendência genovesa, Guilherme Centazzi nasceu em Faro em 1808. Devido às suas opções políticas liberais, enquanto estudante de Matemática na Universidade de Coimbra, refugiou-se em Paris, onde se doutorou em Medicina. Regressado a Portugal em 1834, dedicou-se à sua prática, tendo escrito e publicado vasta obra neste domínio. Condecorado com a Ordem de Cristo pela sua ação na epidemia da febre-amarela, na década de 1850, foi ainda o inventor dos famosos rebuçados peitorais Dr. Centazzi. Médico conceituado, divulgador científico, músico talentoso, pai de família, maçon, cidadão empenhado, Guilherme Centazzi encontrou ainda tempo e gosto para produzir uma considerável obra literária, de que o exemplo mais importante e acabado será, sem dúvida, este Estudante de Coimbra».
A fixação do texto e as notas são de Pedro Almeida Vieira, que andando a organizar uma base de dados de literatura histórica, o descobriu, desenterrou do completo esquecimento e arranjou maneira de que o publicassem. O livro tem ainda um longo posfácio de Maria da Fátima Marinho, da Universidade do Porto, que analisa e enquadra literariamente as obras do autor, centrando-se principalmente neste romance e reconhecendo-lhe qualidade e modernidade.
O estudante de Coimbra teve duas edições, uma primeira, em três tomos, editada em 1840/41 e outra em 1861. Esta última sofreu algumas alterações no enredo, o texto foi amaciado relativamente a situações e a personagens, para além de lhe ter suprimido o último tomo. Pedro Almeida Vieira optou pela primeira edição, a de 1840, por razões que me parecem boas, embora discutíveis, atualizou a ortografia, alterou algumas vezes a pontuação e uma ou outra forma verbal, para tornar o texto mais compreensivo. E ainda enriqueceu o livro com mais de trezentas notas, quase todas interessantes ou mesmo necessárias, e um aditamento com os capítulos finais da edição de 1861, o que nos permite fazer a comparação das duas edições e especular sobre as razões do autor para as alterações.
No final resulta um romance escorreito e desembaraçado, com uma elegância muito própria e com a vantagem preciosa de nos dar um quadro bastante realista, apesar de toda a fantasia que a ficção impõe, do Portugal das lutas liberais. No seu conjunto este trabalho merece divulgação porque prestou um bom serviço à cultura portuguesa revelando uma obra que tem condições para vir a ganhar relevo na literatura portuguesa e que estava, de forma inexplicável, completamente esquecida.
Por outro lado, Guilherme Centazzi é um espírito vivo, crítico, por vezes cáustico, mas também divertido. E isso é visível não só no modo como o romance é escrito e em inúmeras situações dele, mas também pelo retrato que de si mesmo faz na orelha direita do livro: «Nasci no Algarve, donde se vê que devo ser grulha, e falador: isto ponho eu já aqui para que os leitores saibam com quem se metem, e depois se não queixem das digressões e moralidades a que sou sujeito, e de que por mais que faça nunca posso mondar de todo o que escrevo: sou pois algarvio, isto é, filho lá das terras que estão mais ao sul de Portugal, formando certa província com a alcunha de reino, que pela natureza do seu clima poderia produzir muitos géneros de ambas as Índias, se bem governados tivéssemos tido a ventura de ver prosperar a nossa indústria, e se o ouro do Brasil nos não tivesse metido nos ossos a mania de ser ricos sem trabalhar, assemelhando-nos aos campos sem cultura aonde só medram plantas estéreis».
2. O livro começa por ser muito interessante em termos históricos. Não um histórico de tratado ou manual mas feito de acontecimentos vividos, ou ouvidos, enfim, conhecidos, o que o afasta de um romance histórico propriamente dito. Sem gastar muito tempo com os acontecimentos históricos, (embora à medida que o enrede se desenrola esta vertente se vá acentuando) utiliza-os com a medida necessária para situar as peripécias do seu romance, trazendo até nós factos que estão de todo esquecidos hoje mas foram, muitos deles, determinantes na altura, conseguindo, ao mesmo tempo, dar-nos a ambiência geral e o sentir dos tempos. Todas estas ocorrências foram dramáticas para os que as viveram, e como é disso que se faz a matéria dos romances e das crónicas, e como é isso que permite compreender verdadeiramente um conflito e, sobretudo, uma época tão atribulada como aquela, o romance acaba por ser um quadro complexo, dinâmico, colorido, mas muito doloroso do Portugal oitocentista.
Trata-se de qualquer modo de um romance e, como tal, mesmo reproduzindo, ou referenciando, situações reais, não perde a dimensão ficcional delas, que é o que as determina e por onde se revela a qualidade. Ou seja, sem pretender fazer história, acabou por retratar uma época como poucos terão conseguido, e não tendo, ou parecendo não ter grandes pretensões literárias, acaba por produzir boa literatura pelo estilo solto e irreverente como os factos são relatados e o enredo segue o seu caminho.
Acontecimentos e situações onde, note-se, o autor entra com frequência a fazer comentários e considerações morais, à moda dos românticos, mas donde é posto fora por sua própria decisão, quando reconhece que está a exagerar, retomando a narrativa. Com episódios e situações tão depressa dramáticos, como cómicos e com caracterizações umas vezes sintéticas e caricaturais, outras descritivas e mais compreensivas, e tão facilmente apontadas aos outros como a si próprio. As sequências de episódios são pois, em geral, rápidas, embora entrelaçadas e com uma linguagem algo cinematográfica, o que lhes dá um tom literário particular e vivo, despretensioso mas não descuidado.
Apesar das tiradas moralista (quase sempre a propósito, com substância e muita atualidade) o livro é fluente, através de uma maleabilidade sintática e lexical elegante e envolvente. Quase sempre segura, sem presunção, e leve, sem ser frívola, é dum realismo que, em certas situações e passagens, vai ao olho do furacão com grande precisão descritiva e sínteses acutilantes e oportunas.
Finalmente, Guilherme Centazzi não resiste a um humor vivo e a tiradas inesperadas e por vezes hilariantes, sem lhe faltarem observações acertadas (acertadíssimas) não só sobre nós, portugueses, mas também sobre os espanhóis, os ingleses, os franceses e outros figurões da cena internacional da época, o que o torna o livro muito ilustrativo e instrutivo. Guilherme Centazzi faz ainda análises: sobre Portugal e os portugueses e, sobretudo, sobre os governantes do seu tempo, as decisões e os decisores políticos, os gastos públicos, os oportunistas e os vigaristas de todas as espécies e épocas – que o poder não os consegue meter na ordem, ou que ascendem ao lugares de poder para melhor nos torpedearem impunemente – enfim, os corruptos e os oportunistas em geral, com o que faz um bom retrato do seu tempo. E, pelos vistos, também do nosso...
Texto de João Boavida
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Salvo-Conduto
...
A arte é realista como actividade e simbolista como o facto. É realista neste sentido, que não é ela que inventa por si mesma a metáfora, mas tendo-a assinalado na natureza, a reproduz fielmente. O sentido figurado também não significa nada, tomado isoladamente, mas refere-se ao espírito geral da arte em toda a sua integridade. Da mesma maneira, tomadas isoladamente, partes da realidade não significam absolutamente nada.
A arte é simbólica pelo desenho de toda a sua aspiração. O seu único símbolo esta na vivacidade e no carácter facultativo de suas imagens, que lhe são próprias em toda a sua integridade. O facto de as imagens serem intermutáveis é o sinal de um estado de coisas particular em que as partes da realidade permanecem indiferentes umas às outras. A intermutabilidade das imagens, isto é, a arte, é o símbolo da força.
...
Mas apenas a linguagem móvel das imagens é capaz de exprimir a força, o facto da força, da força que dura apenas o tempo em que se reproduz o fenómeno. Para ela não há outro meio de expressão. A palavra directa do sentimento é alegórica, e não há nada que possa substituí-la.
Boris Pasternak
O nome de Boris Pasternak (1890-1960) está inevitavelmente associado à sua obra mais conhecida, Doutor Jivago, também um clássico cinematográfico. Por esta obra foi-lhe atribuído o Prémio Nobel de Literatura de 1958, entretanto recusado a contragosto devido à pressão do regime soviético. Sabe-se hoje que essa atribuição foi controversa e que aconteceu sob grande pressão, muito particularmente, de instituições e agências governamentais norte-americanas, sempre prontas a instrumentalizar as vozes dissonantes ao regime soviético.
Nesse contexto, é natural que se levantem dúvidas relativamente à obra desse complexo autor. Salvo-Conduto é um livro particularmente relevante para esse fim, pois revela a pureza de propósitos dum jovem artista e o seu estilo sóbrio, embora marcante e característico. Salvo-Conduto é um relato lúcido, ainda que emotivo, dum percurso intelectual, desde a infância, multi-linguística no seio duma família judia convertida de artistas (o pai era um conhecido pintor e professor de pintura e escultura, a mãe pianista), até a maturidade enquanto autor nas primeiras décadas que sucederam a revolução bolchevique.
A família Pasternak era muito bem relacionada com o meio artístico moscovita no início do século XX, e entre os visitantes regulares encontravam-se, Sergei Rachmaninoff, Alexander Scriabin e Rainer Maria Rilke. A primeira aspiração de Boris foi a de ser compositor, porém depois de apresentar algumas peças de sua composição a Scriabin, este aconselhou-o a continuar seus estudos de música, mas não sem procurar obter uma formação universitária complementar. O jovem Boris decidiu-se então pela filosofia e esta inclinação levou-o e estudar de 1910 a 1914 com Hermann Cohen e Nicolai Hartmann, conhecidos neo-kantianos da escola de Marburgo. De volta à Rússia, decide-se definitivamente pela carreira literária, mais ligada à poesia, e por meio desta associa-se aos autores e artistas mais influentes do período pós-revolucionário: Anna Akhmatova, Osip Mandelstam, Sergei Eisenstein, Vladimir Maiakovsky, entre outros.
A seu julgamento negativo da Revolução de Outubro, apesar da admiração que nutria por Lenin, revelou-se muito mais tarde através do seu mais conhecido romance, Doutor Jivago, escrito em 1956, contrabandeado para o estrangeiro e publicado primeiramente em Milão em 1957. Mas entretanto há um sem número de situações críticas que são descritas no livro, como, por exemplo, a prisão de Osip Mandelstam numa noite de Maio de 1934, pela autoria do Epigrama de Stalin: " … Seus dedos gordos são escorregadios como lesmas,/E suas palavras são absolutos, como medidas de merceeiro./Suas antenas de barata estão rindo,/E sua bota nova brilha./E ao redor dele a turba de chefes de pescoço curto,/Ele brinca com os serviços de meio-homem./Quem gorjeia, mia ou geme,/Ele sozinho empurra e pica./Ele esmaga-os como ferraduras, com decreto após decreto/Na virilha, na testa, no rosto, ou no olho./Quando há uma execução, há tratamento especial,/E o peito ossétio se infla." Mandelstam acabou por falecer em 1938 num campo de prisioneiros na Sibéria, e Pasternak foi instado, pelo próprio Stalin, sobre o julgamento que fazia do seu colega através dum inesperado e surpreendente telefonema.
Particularmente pungente é a descrição do definhamento intelectual e da desilusão irreversível com o partido e o sistema, que levou ao suicídio, em 1930, o autor que Pasternak considerava ser o mais original do seu tempo, Vladimir Maikovsky.
Salvo-Conduto é um livro duma grande honestidade intelectual e digno dum dos mais representativos escritores russos da primeira metade do século XX.
Orfeu B.
domingo, 29 de julho de 2012
A TERRA, O CORPO, A FORÇA DA EMOÇÃO, A FELICIDADE DA ERUDIÇÃO, O PRAZER DE CONTAR UMA HISTÓRIA
Não é frequente os escritores serem tão generosos como valter hugo mãe nas palavras reproduzidas na cinta que envolve este último livro de Afonso Cruz:
“Não vou descansar até que todos os leitores descubram o Afonso Cruz. Já prometi usar de violência física para obrigar um a um a ler a maravilha que ele escreve, e não estou a brincar.
Faz-me a alma luxuosa. Passo a ter joias na imaginação.
Estou absolutamente de acordo com o valter. A escrita de Afonso Cruz é como um grande ovo a transbordar de literatura, ou melhor, a transbordar de vida.
Afonso Cruz atinge neste romance um ponto muito alto do seu processo de trabalho. Um sentido duro e trágico da terra e do corpo; uma erudição partilhada de forma divertida e, por vezes, delirante; uma maneira caleidoscópica de entrelaçar muitas formas de escrita e de referência a outras escritas.
Ao arrepio de uma linha que tende a identificar qualidade literária com geometrismo racionalista, com negritude traçada a regra e esquadro, com uma relação porventura perversa entre leitura e sofrimento, Afonso Cruz faz do processo de criação literária um rio onde desaguam as suas várias formas de se apropriar da respiração da vida e fá-lo de forma em que tragédia e comédia se dão o braço, mas em que, acima de tudo, ressalta o prazer. O prazer de escrever, o prazer de contar, o prazer de pensar, o prazer de inventar, o prazer de viver mesmo nas margens mais ásperas da vida.
Há um jogo fantástico em que o Afonso envolve a sua escrita desde o primeiro livro. Trata-se de um jogo de brincar à erudição, baralhando e voltando a dar, misturando, provocando, divertindo.
Mas neste romance, o Afonso cria um tempo alentejano, uma respiração pesada, uma linha narrativa de Terra, prima dos melhores contos de Manuel da Fonseca. E em redor desse tem entretece e a sua magnífica capacidade de tergiversar, misturar ideias, citações, reflexões avulsas mas subterraneamente interligadas numa trama densa com que nos arranca um sorriso ou uma gargalhada, para logo a seguir nos dar um pontapé no estômago que nos faz perceber que este jogo é muito mais sério do que possa parecer.
E é bom sublinhar que a ideia de Jesus Cristo a beber cerveja não é uma graça rasteira mas advém de uma reflexão muito séria do professor Borja, personagem notável, que descobre o fogo do sexo aos 77 anos e que acha que aquilo que cria vida é a morte e que sendo a cerveja resultado do apodrecimento do cereal, é a verdadeira fonte da vida.
No seu jogo de citações, desta vez, o Afonso vai ainda mais longe Inventa um romanceco de cow-boys (que vem em anexo ao livro principal) que é lido por Rosa, a personagem principal, que vai repetir o destino do cow-boy, herói improvável com o nome ainda mais improvável de Harold Estefânia, matador romântico. E desse livrinho, em que o narrador é o próprio deserto, ou seja, talvez aquilo que há de mais próximo do próprio Deus se é que ele existe, saltam muitas citações que vão pontuar a narração central.
Enfim, já era um admirador da escrita do Afonso. Agora sou mais. E acho que este romance junto com “O teu rosto será o último” de João Ricardo Pedro, com o qual, aliás, tem vários pontos de contacto, são os dois romances portugueses que, talvez no último ano, mais me emocionaram.
Isto anda no bom caminho, parece-me. Ao contrário da desgovernação.
Está provado que os homens bons deste país andam muito mais pelas artes do que pela economia e pela política.
quarta-feira, 25 de julho de 2012
DA CRISE INDIVÍDUAL À CRISE COLECTIVA
Quando chegar ao fim da minha vida deixarei milhares de livros que devia ter lido e não li, centenas de escritores que foram ficando infelizmente para trás.
Por isto assumo a leitura como actividade que, sendo naturalmente fundamental na minha vida, acaba por ser sempre arbitrária, já que nunca poderei levar a bom termo nenhum programa de leitura minimamente competente. Melhor, talvez seja outra a competência da escolha mais ou menos arbitrária das leituras.
É claro que este arbitrário não será tão arbitrário assim. De qualquer forma não advém de um programa com qualquer pretensão científica, se é que isso existe. O meu programa de leitura anda às curvas, para um lado e para outro, ao sabor de circunstâncias diversas, outras leituras, referências diversas, opiniões de amigos, etc.
Seja como for, por mais que faça, haverá sempre muitos escritores importantíssimos que nunca li e muitos outros que li e que talvez não sejam assim tão importantes.
Por outro lado, também sei que o que eu leio não é exactamente o que esses escritores escreveram. O que eu leio é o cruzamento dessa escrita e do meu olhar, das minhas emoções, da história da minha vida.
Vem isto a propósito de Saul Bellow, escritor americano Prémio Nobel de 1967, que há muito desejava conhecer e que, por esta ou por aquela razão, não tinha ainda lido.
Comecei por “Aproveita o dia”, uma novela de 125 páginas, publicada há alguns anos numa bela colecção da Texto editora que divulgou obras de vários escritores justamente galardoados com o Nobel como são os casos de Bellow, Eli Wiesel, Nadine Gordimer, etc.
A escrita de Bellow é poderosa, intensa, lenta, circular, traçando uma espécie de monólogo interior obsessivo de um falhado, incapaz de assumir a incapacidade para organizar a sua vida e que atira as culpas de tudo para cima do pai, da ex-mulher, dos ex-patrões, do vago psicólogo que o encanta e vigariza descaradamente.
William, o protagonista, perto dos 50 anos, entrega-se cegamente nos braços do vigarista que ele reconhece como vigarista mas de quem recebe um simulacro de atenção, de compreensão, de amor que reclama dos seus familiares que exigem tudo dele e nada lhe dão em troca ou é ele que é incapaz de recolher dos que o cercam e da vida o consolo que tanto deseja.
O texto traz-nos uma miríade de outros pequenos problemas no cenário apenas entrevisto de uma sociedade em crise. E fala-nos da importância do dinheiro como símbolo de sucesso na relação com o pai, médico judeu reformado, para quem a incapacidade de gerir a própria vida familiar e económico não é merecedora de ajuda mas de desprezo.
E tudo se passa, quase uma vida, durante um dia, em Nova York, cidade de todos os sonhos e de todos os falhanços.
Este William talvez pudesse ser um desempregado no Portugal de hoje. Ou talvez não. Porque no texto de Bellow o problema é o falhanço individual e no nosso país talvez a cara do falhanço seja colectiva, pelo menos na incapacidade colectiva de reagir aos que tecem e dominam os cordelinhos da crise.
domingo, 22 de julho de 2012
Partilhamos hoje
as palavras e a experiência de um leitor muito especial que prontamente aceitou
ser convidado dos 7leitores.
O nosso imenso obrigado a Eugénio Lisboa.
O livro – a leitura – a crítica
Na
adolescência, li muito, li vorazmente, desordenadamente, gostosamente, sem
planos preestabelecidos, à balda. De certo modo, é ainda esta a minha
metodologia – ler sem método, ao sabor do que me vem à mão e parece que me
apetece. É curiosamente, um bom método. Noto, por exemplo, que ao redigir um
trabalho qualquer sobre um autor qualquer, apetece-me, nesse momento, ler tudo
menos esse autor e aquilo que sobre ele se escreveu. E ponho-me, regularmente,
nos intervalos que roubo ao trabalho obrigatório, a ler as coisas mais diversas
e mais distantes da área em processo de investigação. Eis que, não raramente,
verifico que essas obras trazem, inesperada e deslumbradamente, água ao meu
moinho. Encontro nelas o que não procurara – e gloriosamente me serve. Os
religiosos dizem que Deus escreve direito por linhas tortas. Achar sem
procurar, receber sem para isso trabalhar – eis o produto de um amor
descabelado aos livros – mesmo sem o espartilho de um método que nos
constrange... Por isso compreendi tão bem e aplaudi do fundo do meu coração as
palavras de um grande poeta galês, de língua inglesa, Dylan Thomas, quando
observou: “ minha educação foi a liberdade que tive de ler em liberdade, o
tempo todo, com os olhos a saltarem-me das órbitas.”
Nisto
de ler, os apetites são os mais diversos: desde um D’Anunzio que confirmava a
um André Gide, espantado, ter lido tudo, até uma Nancy Mitford que,
provocante, gostava de dizer: “Em toda a minha vida, só li um livro e esse
livro foi White Fang [de Jack London]. É um livro tão tremendamente bom
que nunca mais me dei ao trabalho de ler outro.”
Os
locais de leitura variam igualmente: o sofá, a cama, de pé, a andar, na praia
(com muita areia à mistura), no combóio e até noutros sítios não mencionáveis
directamente mas talvez indicáveis dando um exemplo – para o caso, o grande
escritor americano, Henry Miller, que não se importava de confessar: “Todas as
minhas leituras foram, por assim dizer, feitas na retrete”.
O
leitor voraz lê para explorar, com intensidade, outros mundos – embrenha-se,
com volúpia, no casulo fechado dos mundos ficcionais, rejeitando, com firmeza,
a luz crua do mundo real que abandonou. A descoberta e exploração de novos
mundos é também uma descoberta de nós próprios. “Quando lemos um clássico”,
dizia Clifton Fadiman. “não vemos mais, no livro, do que víamos antes. Mas
vemos mais em nós do que em nós estava antes”.
Quando
o vício de ler – o “vício impune”, de que falava Baudelaire - toma conta de nós, nenhum sacrifício,
nenhuma infracção se interpõe entre nós e a aquisição do livro cobiçado:
“Quando eu tenho um bocadinho de dinheiro”, confessava Erasmo, “compro livros;
e se sobra algum dinheiro, compro então comida e roupas”. Quando eu era estudante
universitário, quantas vezes utilizei o dinheiro que meu Pai me enviara de
Lourenço Marques, para um fato, na aquisição de um ou outro volume caríssimo da
preciosa Bibliothèque de la Pléiade. O fato ficava sempre para o ano seguinte –
o livro é que não podia esperar.
A
minha adolescência foi rica em leituras apesar de, até certa altura, me não
sobrar o dinheiro para livros. Meu Pai lá iludia, de vez em quando, a
vigilância aturada da minha Mãe e ia-me trazendo, às escondidas dela, o último
livro acabado de chegar no último paquete vindo de Lisboa (eu vivia então em
Lourenço Marques, onde nascera). Mas as minhas principais fontes de leitura, a
partir dos 15 anos, foram duas: primeiro, as bibliotecas que os colegas de meu
Pai deixavam à sua guarda, quando vinham à Europa, de licença graciosa (a qual
chegava a durar 11 meses); a segunda, uma pequena biblioteca de perto de cem
espécies, que um colega de meu Pai, chamado Abel Menano, irmão do célebre
Menano dos fados de Coimbra, me ofereceu: ali encontrei obras preciosas que
ainda hoje conservo, de autores que nunca mais me deixaram: Dostoiewsky,
Tolstoi, Turguenev, Joseph Conrad, Balzac, Anatole France, D.H. Lawrence, Vitor
Hugo, eu sei lá!
Mas
havia ainda outra fonte, à qual devo a revelação de um dos meus grandes amores
de sempre. Essa fonte era constituída pelos volumes que, em viagem entre Lisboa
e Lourenço Marques, se estragavam por apanharem água salgada no porão dos
navios que os transportavam. Mandados para o refugo, alguns eram dali
recuperados por meu Pai, que mos trazia em triunfo, quais Lusíadas
estragadíssimos mas salvos por um bravo Camões na foz do Me Kong. Foi assim que
me chegou às mãos o mais belo romance que até hoje se escreveu – Le Rouge et
le Noir, de Stendhal, e, por ele, me foi apresentada a mulher por quem
nunca mais deixei de ficar em êxtase – a Senhora de Rênal, de Stendhal, que me
recuso a considerar criatura de ficção e a quem visito, em livro ou em sonhos,
quase todas as semanas. Eis como a literatura se pode tornar vida, mais vida até
do que a própria vida, mais intensa, mais reveladora, mais capaz de nos tornar
melhores, mais dedicados e mais fieis. A minha ligação à Senhora de Rênal e ao
seu criador, Stendhal, começada nos meus 14 ou 15 anos e ainda em vigor – é
algo que não admite dúvidas e de que muito me orgulho.
Foi
assim, com livros furtados ao controle materno, com livros fruídos em
bibliotecas de empréstimo e com volumes estraçalhados pelo oceano e roubados ao
refugo, que o meu vício de ler se foi desenvolvendo e me foi abrindo mundos a
haver: a maravilhosa Assia, de Turguenev,
descobriu-me mistérios de alma feminina e fez-me sonhar com paixões bizantinas
nos incomensuráveis espaços de uma Rússia remota e atormentada; O Lírio
Vermelho de Anatole France, ao mesmo tempo que me explicava melhor o ciúme,
que também me afligira, abria-me a visão esplendorosa de uma Florença que logo
ali jurei visitar; Les Thibault, de
Roger Martin du Gard, abriu-me Paris e deu-me o gosto secreto por uma Gisèle
que o pateta do Jacques deixou fanar-se de amor não retribuído, enquanto se
perdia nos labirintos psicológicos de uma Jenny tão complicada quanto
interessante; Panait Istrati dava-me a Roménia dos cardos do Baragan, tão
diferente de tudo quanto conhecia.
Nos
intervalos de me banhar nas águas do Índico, com o meu cão Nero, lia Plutarco e
Voltaire, mergulhava na Dinamarca de um dos melhores romances que até hoje li – Niels Lyne, de Jens Peter Jacobsen -
ou na Suécia de Sally Salminen, ou no Père Goriot de Balzac.
Pelos meus 16 anos, A Velha Casa,
de Régio, abriu-me as portas da adolescência atormentada de Lélito, que me
levou, dois anos mais tarde , já em Lisboa, a gastar um dinheiro , que minha
Mãe me dera para comprar bilhetes de combóio para as Caldas da Raínha, na
aquisição do segundo volume da descomunal Casa. Julgo que minha Mãe não se reconciliou nunca com esta minha
inesperada mas irresistível infracção.
Lia
os livros com paixão, mergulhava neles como quem quer sair do quotidiano, mesmo
de um quotidiano apetecido. Li um dia, já a viver em Lisboa, numa biografia do
escritor francês André Gide, que este, em viagem de carro, pela Europa, com
amigos, se pusera a ler, com absorção intensa, a Guerra e Paz, de
Tolstoi. O interesse que o livro lhe provocava era tão profundo que, ao pararem
o automóvel diante de algum museu, ou catedral ou palácio, Gide tinha que se
conter – com dificuldade – para não dizer aos companheiros que fossem eles
fazer a visita enquanto ele permanecia na companhia da Natacha e do Pierre do
romance de Tolstoi.
Ali,
no Índico, com o Nero à minha beira e com a leitura do melhor que o espírito e
o coração dos homens produziram, ia-me preparando para a grande aventura de me
arrancar àquele grande continente africano para vir conhecer o Portugal de
Lélito, o Paris de Martin du Gard, a Londres de Dickens e a Florença de Anatole
France.
Lia
com intensidade e atenção minuciosa e, quando viável, com o espírito crítico
que me era possível agenciar. Lia muito e procurava ler bem – e relia
interminavelmente os livros que já então me tinham marcado. Ler ao acaso, sim,
mas não ler sem reflexão: “Ler sem reflectir é o mesmo que comer sem digerir”,
dizia Edmund Burke. É possível ler-se muito sem que a leitura nos fecunde. Por
isso o grande (e recluso) escritor americano J.D. Sallinger, dizia com não
pouca verdade: “Sou bastante iletrado, mas li imenso”. Pode ter-se lido imenso
e ser-se razoavelmente analfabeto Num ensaio célebre, António Sérgio
estabelecia, com a firmeza e clareza que lhe caracterizavam a prosa
pessoalíssima, a diferença entre leitura abundante e leitura crítica; e
concluía que se pode ter lido muito e não se ser culto, do mesmo modo que se
pode ter lido relativamente pouco e ser-se culto. A natureza da leitura – ser
ou não ser uma leitura crítica – é que faz ou deixa de fazer o homem culto. A
leitura crítica é uma ginástica. “A leitura é para o espírito o que o
exercício é para o corpo”, observava Sir Richard Steele. É – ou devia ser.
Porque a leitura também pode ser uma forma de preguiça: lê-se para não pensar.
Enquanto leio, não penso... Mas leitura crítica não quer dizer resistência a
todo o custo às ideias que o livro propõe. Leitura crítica quer dizer leitura
vigilante, feita com a inteligência crítica estimulada, pronta a aderir ou a
rejeitar, conforme os casos. De contrário, cair-se-á naquilo que dizia o actor
Michael Caine; “Leio livros como um danado, mas tenho o cuidado de não me
deixar influenciar por nada do que leio”. O receio das influências é sempre uma
confissão de pobreza. As naturezas ricas e possantes absorvem tudo e tudo
transformam em produto seu. O grande poeta alemão Goethe dizia, com orgulho,
que tudo o influenciava, mesmo escritores de quinta categoria: em todos
encontrava sempre alguma coisa de interessante que ele próprio não tinha
descoberto.
Quando
se exerce uma actividade crítica, quando se ensina literatura nas escolas e
universidades, a nossa actividade enriquece-nos com tudo aquilo de que nos
lembramos e acorre automaticamente ao toque mágico do texto novo que
confrontamos. Disse algures que tenho praticado a crítica e o ensaio “como um exercício
criativo da memória. Ou antes um exercício criativo, a partir da memória.
Não concebo bem a crítica sem uma memória altamente estimulada e pronta ao
assalto”. O crítico George Poulet afirmou: “Criticar é lembrarmo-nos”. “Diante
de um texto, a memória excita-se e há um certo número de campainhas que começam
a retinir: umas mais próximas e nítidas, outras mais longínquas e difusas. Há
que investigar absolutamente tudo – pelo menos, em certos casos, não posso deixar
de o fazer: torna-se uma espécie de frenesi. De aí que um crítico desta
conformação tenha que ser, de certo modo, um eterno desarrumador de
bibliotecas.” Dito isto, há porém que apreciar, com cuidado, o uso que se faz
destes exercícios da memória: não se recorda pelo amor de recordar, recorda-se
como mecanismo estimulador de aproximações criativas. Não se ensina aos jovens
as grandes obras da literatura – ensina-se-lhes, isso sim, o amor à leitura.
Neste campo, contudo, os homens extremam-se de modo singular. Montesquieu, por
um lado, dizia nunca ter conhecido nenhuma depressão que uma hora de leitura
não curasse; por outro lado, o grande poeta inglês deste século, Philip
Larkins, macambúzio profissional e amante de jázz, observava (perdoem-lhe a rudeza)
que os livros não passam de um monte de trampa (era, curiosamente,
bibliotecário da Universidade de Hull). Há-os, como se vê, de todos os formatos
e cores.
O
espirituoso americano Logan Pearsall Smith gostava de afirmar, com o seu toque
de provocação: “As pessoas dizem que a vida é que é, mas eu cá prefiro ler.”
Pearsall Smith fazia, mais uma vez, a destrinça entre livros e vida. Destrinça
que comecei por recusar, no início desta minha conversa despretensiosa. O que se vive nos
livros e dos livros é muitas vezes – em ideias, em emoções – tão ou mais
intenso do que o que se vive na chamada e tão mal definida vida. Dizia
alguém que a vida é uma doença incurável. A vida que se contém nos grandes
livros é imune à doença. Por isso irá durar enquanto durar a aventura humana.
Eugénio Lisboa
Eugénio Lisboa
Leitor convidado: Eugénio Lisboa nasceu em Lourenço Marques, a 25 de
Maio de 1930. Licenciou-se em Engenharia Electrotécnica, no Instituto Superior
Técnico. Exerceu a sua actividade como engenheiro a par da docência de cursos
de Literatura Portuguesa em Universidades (Lourenço Marques, Pretória e
Estocolmo). Foi conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em Londres e
presidiu à Comissão Nacional da UNESCO. É, também, poeta, ensaísta, cronista e
crítico literário com vasta colaboração em revistas e jornais moçambicanos e
portugueses.
sexta-feira, 20 de julho de 2012
O Homem e o Animal
"Enganamo-nos completamente sobre a natureza das grandes experiências totalitárias do século XX se nelas vemos apenas uma persecução das últimas grandes tarefas dos Estados-nação oitocentistas: o nacionalismo e o imperialismo. O que está em causa é agora bem diferente e mais extremo, dado que se trata de assumir como tarefa a própria existência factícia dos povos, ou seja, em última análise, a sua vida nua. Deste ponto de vista, os totalitarismo do século XX constituem verdadeiramente a outra face da ideia hegelo-kojeviana do fim da história: o homem alcançou finalmente o seu télos histórico e nada resta, a uma humanidade de novo tornada animal, que a despolitização das sociedades humanas através do alastramento incondicional da oikonomia, ou a sanção da própria vida biológica como tarefa política (ou melhor, impolítica) suprema.
É provável que o tempo em que vivemos não tenha escapado a essa aporia. Será que não vemos, à nossa volta e mesmo entre nós, homens e povos sem essência e já sem identidade - entregues , por assim dizer, à sua inessencialidade e intolerância - procurar por todo o lado e às cegas, a custo de grosseiras falsificações, uma herança e uma tarefa, uma herança como tarefa? Mesmo a pura e simples deposição de todas as tarefas históricas (reduzidas a simples funções de política interna e internacional), em nome do triunfo da economia, assume hoje frequentemente uma ênfase na qual a própria vida natural e o seu bem-estar parecem apresentar-se como a última tarefa histórica da humanidade - admitindo que faça sentido falar aqui de uma "tarefa".
As potências históricas tradicionais - poesia, religião filosofia - que … mantinham desperto o destino histórico-político dos povos, foram há muito tempo transformados em espectáculos culturais e experiências privadas e perderam toda a eficácia histórica. Perante este eclipse, a única tarefa que parece ainda conservar alguma seriedade é o tomar a cargo e a "gestão integral" da vida biológica, isto é, da própria animalidade do homem. Genoma, economia global, ideologia humanitária são as três faces deste processo em que a humanidade pós-histórica parece assumir a sua própria fisiologia como último e impolítico mandato.
Se a humanidade que tomou em mãos o mandato de gestão integral da própria animalidade é ainda humana, no sentido da máquina antropológica que, decidindo a cada vez acerca do homem e do animal, produzia a humanitas, não é fácil dizer; nem é claro se o bem-estar de uma vida que já não se sabe reconhecer como humana ou animal pode ser dado como satisfatório … A humanização integral do animal coincide com uma animalização integral do homem."
Giorgio Agamben
A observação duma gravura na Bíblia hebraica do século XIII que se encontra na Biblioteca Ambrosiana em Milão, lança, Giorgio Agamben, um dos mais influentes e originais filósofos do nosso tempo, numa fascinante reflexão sobre a condição humana, a sua separação do mundo animal e sobre o limite crítico do que define o humano.
A gravura representa três imagens: a visão de Ezequiel; os três animais das origens (o pássaro Ziz, o boi Behemot e o grande peixe Leviatã); o banquete dos justos ainda em vida quando da vinda do Messias. E nesse último fragmento, à sombra de árvores paradisíacas, os justos de cabeça coroada sentam-se a uma mesa ricamente posta. Nada mais canónico: os justos que ao longo de suas vidas observaram as prescrições da Torá se banquetearão com as carnes de Leviatã e de Bohemot. Há porém um detalhe desconcertante: sob as coroas, os justos têm cabeças inequivocamente animais, de águia, de boi, leão, asno e pantera. E dois instrumentistas, um dos quais claramente símio.
A interpretação talmúdica sugere que no reino messiânico também o mundo animal será transfigurado. É uma interpretação possível, embora não seja de todo a única plausível. Ou era a intenção do artista sugerir que no último dia o próprio homem se reconciliaria com a sua natureza animal?
A discussão de Agamben é abrangente e profunda e brinda-nos com uma série extremamente original de interpretações da gravura bíblica e de questões relacionadas. O leque de questões é variado: Bataille e um certo gosto pelo grostesco; o sentido da história de Hegel; a escatologia segundo os filósofos medievais; a definição da vida de Aristóteles, e a separação do homem do reino animal; a taxinomia de Lineu (cuja versão original enumerava as sereias junto das focas e que tinha grande dificuldade de situar o homem); a evolução biológica; a máquina antropológica; a origem da linguagem e a demarcação do estatuto especial do homem; Uexkuell e a percepção animal; Heidegger e as suas difusas definições; Benjamin e Ticiano; e uma reflexão final sobre o nosso tempo pós-político.
Uma leitura refrescante e estimulante.
Orfeu B.
domingo, 15 de julho de 2012
FALAR DE LIVROS
FALAR DE LIVROS
(Com muita admiração e amizade a Helena Vasconcelos e Eugénio Lisboa)
Receio muito o exercício da opinião, sobretudo quando se torna "profissional" e de olho gordo posto na gorjeta; quando procura criar poder e influência sob a capa da reflexão e da especialização; quando vive das modas, ou seja, do negócio de circunstância; quando usa as cinco estrelas, quatro garfos, três parafusos e meio, uma qualquer tabela classificativa; quando intencionalmente magoa, exclui, ignora.
Exemplos destes lemos larga e regularmente nas páginas de crítica literária, musical, cinematográfica, teatral, de artes plásticas, etc,dos nossos jornais.
"O intelectual, o mandarim universitário, o rato de biblioteca não frequenta a escola da bravura.”, afirma Georges Steiner.
Quando falo de livros falo de uma leitura conduzida de dentro da minha vida. Um encontro humilde e apaixonado, sem outras preocupações que não as de permitir que essa leitura me acrescente. E há um rio que corre do livro lido ao meu encontro , um rio por onde circulam pequenas luzes que me vão iluminar hoje e amanhã e depois.
Citado por Harold Bloom ("Ler" Junho 2012), afirmava Oscar Wilde que: "A crítica literária é a única forma civilizada de autobiografia".
("Quatro entrevistas com Georges Steiner", Ramin Jahanbegloo, Ediçõs Fenda, Lisboa, 2006)
O problema será talvez quando não se tem biografia e só se tem opinião. Mas o pior ainda é quando a ausência de biografia implica a incapacidade de amar e faz com que o opinante se esconda por baixo da capa enganosa de um saber que se a si próprio como único critério de análise.
Eu leio com paixão. E quando a paixão não se solta e os livro nada me acrescenta ao acto de tactear a vida com os dedos, então nem falo desses livros. Secam à nascença. Ficam muito bem guardados na gaveta do esquecimento.
Voltando a Bloom: "Quando somos mais velhos, queremos que a crítica - como o ensino, a leitura, a escrita - não seja apenas humanista, seja também humana. Tem de ser amor à literatura antes de mais nada.
E acrescente-se de novo Georges Steiner:
“Ler não é sofrer mas, falando com propriedade, estarmos prontos a receber em nossa casa um convidado, ao cair da noite.”
Vale a pena ler os grandes leitores. Aprendemos muito com eles. Harold Bloom, Georges Steiner, Eduardo Lourenço.
E eu sei pouco. Mas tenho para a troca.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Não alcançamos a liberdade, buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim mas uma consequência" Tolstoi
Eugénio
Lisboa
Vário,
Intrépido e Fecundo - uma Homenagem
Opera
Omnia
“Apareceu este ano em Portalegre, como oficial miliciano, o aspirante
Eugénio Lisboa, que é um dos rapazes mais inteligentes que em toda a minha vida
tenho conhecido” Graças a ele tenho tido, no café Central, conversas como julgo
nunca tivera em Portalegre”
A anotação de 1954 no “Diário” de José Régio
é referida por João Francisco Marques num livro que reúne testemunhos sobre a pessoa e a obra de Eugénio Lisboa, publicado pela editora
Opera Omnia com organização de Otília Martins e Onésimo Teotónio de Almeida.
Diversos, escritos uns mais para o homenageado, outros mais para o
leitor, em total liberdade de quem os escreveu, por
conseguinte desiguais.
Trago aqui este livro como exemplo da necessária atenção, que muitas vezes
não damos, à pessoa atrás da obra, a quem não é alinhado mas pensa e tem um
discurso próprio. Falta-nos em muitos casos este registo, o de testemunhos de
convivência. O valor de um pensador é para lá da obra o rastro de influência
nos outros e nas suas obras.
Das obras será o tempo o exator. Mas a pessoa precisa de ser ouvida no
tempo certo de partilhar de viva voz a sua insubstituível experiência.
Sobretudo, sendo uma pessoa como Eugénio Lisboa, com uma vida de actividades
plurais, dividida por vários espaços geográficos e mentalidades, desde
Moçambique onde nasceu e viveu 38 anos, a Inglaterra, Lisboa, África do Sul,
Suécia e agora Portugal. Há uma ideia de Portugal só possível em quem vê o país
na distância, como acontece, também, por exemplo com Rentes de Carvalho ou
Eduardo Lourenço.
O livro termina com uma entrevista que é uma breve,
assertiva mostra da pertinência do pensamento e opinião de Eugénio Lisboa:
“(…)Somos um país pobre, mas somos sobretudo um país em que os poderes políticos
não gostam de gastar dinheiro com a cultura nem com os seus agentes que são,
por regra, incómodos.(…)” Eugénio Lisboa.
Sem dúvida, infelizmente, actual.
Estes setenta e três testemunhos, incluindo os organizadores da obra, de muitas figuras do nosso quadro literário e intelectual, são também
uma espécie de retratos dos próprios, pois o reflexo de cada um nas palavras
que dirigem ao homenageado revela-nos, também, a forma de cada um estar e ver o
mundo.
“Desconfio das torres de marfim, e Eugénio Lisboa também. As suas
conferências, os seus ensaios, as suas críticas têm sempre algo de muito
especial e próprio. Cada citação, cada referência corresponde à ênfase
necessária e adequada de um sentido crítico. E se gosto de ouvir a cadência das
citações, a verdade é que as referências de Eugénio encantam-me especialmente,
porque sei que trazem consigo o lastro seguro de todo o contexto em que nascem
e vivem. (…) através de Eugénio Lisboa sabemos com o que contamos. Sabemos que é um
leitor criterioso (ensinando-nos a ler), que nos dá a sua perspectiva exigindo
que ao lermos sejamos fieis a um sentido crítico pessoal e próprio. Percebe-se
pois porque digo que não há dois Eugénios, escritor e engenheiro, há uma
personalidade coerente e rigorosa, em que o espirito geométrico e o espirito de
fineza se completam, em que o engenho e a cultura formam um só carácter.”
Uma citação do texto escrito pelo Dr. Guilherme d’Oliveira Martins que reflecte bem o sentimento de quem lê, com
gosto, o ensaísta, o crítico,
Eugénio Lisboa.
Sílvia Alves
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