Eugénio Lisboa
domingo, 22 de julho de 2012
Eugénio Lisboa
sexta-feira, 20 de julho de 2012
O Homem e o Animal
domingo, 15 de julho de 2012
FALAR DE LIVROS
FALAR DE LIVROS
(Com muita admiração e amizade a Helena Vasconcelos e Eugénio Lisboa)
Receio muito o exercício da opinião, sobretudo quando se torna "profissional" e de olho gordo posto na gorjeta; quando procura criar poder e influência sob a capa da reflexão e da especialização; quando vive das modas, ou seja, do negócio de circunstância; quando usa as cinco estrelas, quatro garfos, três parafusos e meio, uma qualquer tabela classificativa; quando intencionalmente magoa, exclui, ignora.
Exemplos destes lemos larga e regularmente nas páginas de crítica literária, musical, cinematográfica, teatral, de artes plásticas, etc,dos nossos jornais.
"O intelectual, o mandarim universitário, o rato de biblioteca não frequenta a escola da bravura.”, afirma Georges Steiner.
Quando falo de livros falo de uma leitura conduzida de dentro da minha vida. Um encontro humilde e apaixonado, sem outras preocupações que não as de permitir que essa leitura me acrescente. E há um rio que corre do livro lido ao meu encontro , um rio por onde circulam pequenas luzes que me vão iluminar hoje e amanhã e depois.
Citado por Harold Bloom ("Ler" Junho 2012), afirmava Oscar Wilde que: "A crítica literária é a única forma civilizada de autobiografia".
("Quatro entrevistas com Georges Steiner", Ramin Jahanbegloo, Ediçõs Fenda, Lisboa, 2006)
O problema será talvez quando não se tem biografia e só se tem opinião. Mas o pior ainda é quando a ausência de biografia implica a incapacidade de amar e faz com que o opinante se esconda por baixo da capa enganosa de um saber que se a si próprio como único critério de análise.
Eu leio com paixão. E quando a paixão não se solta e os livro nada me acrescenta ao acto de tactear a vida com os dedos, então nem falo desses livros. Secam à nascença. Ficam muito bem guardados na gaveta do esquecimento.
Voltando a Bloom: "Quando somos mais velhos, queremos que a crítica - como o ensino, a leitura, a escrita - não seja apenas humanista, seja também humana. Tem de ser amor à literatura antes de mais nada.
E acrescente-se de novo Georges Steiner:
“Ler não é sofrer mas, falando com propriedade, estarmos prontos a receber em nossa casa um convidado, ao cair da noite.”
Vale a pena ler os grandes leitores. Aprendemos muito com eles. Harold Bloom, Georges Steiner, Eduardo Lourenço.
E eu sei pouco. Mas tenho para a troca.
sexta-feira, 6 de julho de 2012
Não alcançamos a liberdade, buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim mas uma consequência" Tolstoi
terça-feira, 3 de julho de 2012
Espinosa - Vida e Obra
sexta-feira, 29 de junho de 2012
E NO ENTANTO ELA MOVE-SE
Grande, grande escritora. Descobri-a tarde e fiquei mais rico. Em literatura. Em emoção.
McCullers é uma mestre das sombras que sugere mais do que mostra.
Manipuladora de pequenos acontecimentos inquietantes, espalha na sua escrita a armadilha de pequenos desvios em relação ao foco da máquina de filmar através da palavra com que olha um universo humano encerrado em si próprio como, aliás, já acontecia na “Balada do Café Triste”.
Aqui, tudo se passa num quartel onde não se passa nada como é normal nos quartéis quando não guerra.
No entanto, as rotinas diárias escondem pequenos-grandes desvios, estranhos comportamentos entrevistos, mal revelados no início e que se vão tornando mais significativos em profundidade até se tornarem obcecantes.
McCullers semeia bombas de profundidade nos pequenos reparos com que constrói uma ópera baça mas estranha e sufocante.
É o caso do pequeno e breve à parte acerca do capitão de quem diz, como quem não quer a coisa, que se apaixonava sempre pelos amantes da mulher.
E os acontecimentos que em si não têm nada de extraordinário, são promessas vagas disfarçadas de grandes tempestades. Como é o caso do soldado que vai passear nu para a floresta e fica horas a espreitar a mulher do capitão pela janela. E que, depois, entrando na casa e ficando a observá-la em silêncio pela noite fora enquanto ela dorme meio despida.
Mais estranho ainda será o criado filipino da mulher do major, a sua paixão por música erudita e os seus sonhos de fuga com a patroa.
E é difícil resumir uma história que, sendo aparentemente parada, dela poderíamos dizer que, no entanto, ela move-se. Move-se e de que maneira!
domingo, 10 de junho de 2012
RACISMO E PRECONCEITO

Ao longo deste belo livro veio-me à memória com frequência uma frase que sempre achei algo misteriosa e só acessível à “filosofia” de certos frequentadores habituais de alguns bares quando pedem ao barman: “Um whisky com água lisa”.
A história de Pepetela, inspirada em acontecimentos reais, é-nos dada numa prosa lisa.
Apetece dizer que uma boa história é uma história é uma história. E é isso mesmo que Pepetela nos oferece: um bela história de amor desenvolvida num ritmo certo e sem sobressaltos,
Tudo se desenvolve por vezes com alegria, por vezes com desespero, por vezes com melancolia, sempre numa prosa delicada e sem rodriguinhos nem desvios.
Pensando bem, talvez não seja apenas uma história. Talvez sejam duas.
A principal é a história de amor entre um angolano e uma mongol iniciada em Moscovo nos anos 60 e terminada nos anos 90 ou 2000 em Cuba e finalmente em Angola.
A outra é a história da queda e transformação política sofrida nestes tempos nos países ditos socialistas, desde a URSS aos países africanos e Angola em primeiro lugar.
Pepetela não esconde nem o amor á sua terra de Angola, nem o racismo, o preconceito, o abuso, a injustiça, onde quer que eles surjam, na Rússia ou na Mongólia socialistas, na Argélia recém-independente ou na Angola que vemos no seu processo de conversão ao capitalismo e nos é mostrado tamém sem disfarces nem acertos de contas.
O personagem principal, branco, nacionalista, revolucionário, vai de Angola no início dos anos 60 para a Universidade de Coimbra e, depois de vários desvios, para Moscovo onde estuda Economia e adquire treino militar. Combatente na guerra colonial, herói reconhecido, promovido a general, reforma-se e convive com os novos tempos sem se deixar corromper .
O amor, nunca traído ou substituído, reaparece quando o fim da vida se anuncia.
Seria fácil pegar nesta história verdadeira e levá-la à ponta da lágrima. Mas Pepetela, de dentro da sua excelente oficina de escritor, leva a narrativa sem tremeliques, numa escrita limpa, forte, correcta e lisa como a tal água do whisky.

segunda-feira, 4 de junho de 2012
Oxigénio
terça-feira, 29 de maio de 2012
UM HUMOR PORTUGUÊS
O Mário Zambujal será talvez um dos últimos herdeiros de uma Lisboa da boémia nocturna de jornalistas, actores, escritores…
Uma Lisboa que tem a sua mitologia, o seu role de pequenas e grandes histórias, anedotas, pequenas tragédias, grandes amores, o seu rosário de figurões inesquecíveis, gente do melhor e do pior que, a pouco e pouco, se vai apagando a pouco e pouco da memória colectiva. Uma Lisboa que tem a sua língua e a sua forma de fazer humor.
Este humor vem de um trabalho por vezes brilhante sobre a palavra e a sua ambiguidade. É um humor que estende e se espraia no prazer de enovelar e desenovelar a língua, o verbo, o adjectivo. Não é o humor curto e rápido dos anglo-saxónicos.
Seria inútil pôr Vasco Santana a fazer stand up comedy. E quem diz Vasco Santana diz Henrique Viana, António Silva, Raúl Solnado e tantos outros.
O stand up comedy é para mastigar e deitar fora. O humor português tradicional é para passar de boca em boca. “Ó Evaristo tens cá disto?”, “Tira a mão da popelina!”, “É regar e pôr ao luar!” são frase que ficaram a passear pela boca de tantos de nós durante anos, usadas em contextos muito diversos, e que mereciam e continuam a merecer uma gargalhada ou pelo menos um sorriso aberto...
Muita da obra do Mário Zambujal não chegou a ser escrita. Foi lançada aos 4 ventos à mesa do almoço ou do jantar, pela tarde ou pela noite dentro, oferecida a quem o acompanhava na circunstância e nalgumas dessas circunstâncias tive o prazer enorme de ser um dos privilegiados companheiros.
A “Dama de espadas” é uma história de amor e dos equívocos do amor, embrulhada num belo humor lisboeta. Ou á portuguesa, conforme se quiser.
Tudo nos é dado sem complicações, com a simplicidade (tão difícil por vezes de conseguir) de quem sabe bem contar a sua história e limpar a narração dos empecilhos que a desviam do fundamental.
Simples, rápido, direito ao fim. Cheio de humor e ironia. Como mandam as regras. Ou mandavam.
sábado, 26 de maio de 2012
A ARTE DO DIÁLOGO
Há quem considere a literatura policial uma literatura menor. No entanto, o romance policial só é menor quando é menor, mas é maior quando é maior. Coisa de La palisse. Mas não tão discipiente como isso.
Temos um mistério ou um crime, a descrição do ambiente humano, social, geográfico onde esse mistério ou o crime se deu. A busca das motivações, o mergulho na procura das personalidades, dos seus rituais e dos seus desvarios.
As editoras mais atentas às coisas boas dos livros fazem-nos o mimo de nos oferecer autores menos conhecidos ou até desconhecidos. É o caso dos 3 romances deste autor policial americano publicados discretamente pela Cotovia.
Depois de terem desaparecido das livrarias estão agora nas prateleiras dos policiais nas Bertrands.
Li os três e peço aos editores que continuem a publicar este autor de quem aliás já aqui falei. Eu comprometo-me a fazer propaganda para arranjar mais leitores.
Mathew Scudder, o detective, ex-polícia, sem escritório, alcoólico que não bebe e frequenta quase diariamente as salas dos alcoólicos anónimos, aceita, a pedido do pai, procurar uma jovem desaparecida sem deixar sinais. Nada garante que lhe tenha acontecido alguma coisa. Simplesmente desapareceu como só é possível na vastidão de um país como os EUA.
O que é fantástico é que em 80 ou 90% do livro não acontece quase nada. Scudder procura pela jovem com pouca convicção, torna-se namorado da sua ex-porteira/senhoria, procura saber a razão da morte de um companheiro miserável das sala de AA's, conversa horas a fim com um gangster assustador e perigosíssimo.
Block domina de forma brilhante a arte do diálogo. Recorta situações, sugere dramas, faz-nos adivinhar entre sussurros e frases meio ditas o que pode estar por trás da cortina da vida de gente que vive nas margens da grande Nova York.
O leitor segue esse percurso errante por bares e apartamentos, por ruas e noites, com um interesse crescente como se houvesse um extraordinário mistério a desenrolar-se à sua frente.
E, o que é mais curioso, é que, quando Scudder, quase inesperadamente, resolve o mistério do desaparecimento e assassinato da jovem procurada pelo pai, o leitor fica danado, porque esse final acaba por lhe roubar o fantástico fluir dessa longa vagabundagem que constitui a alma do livro.
domingo, 20 de maio de 2012
UM ÉTICA DA RELAÇÃO ENTRE A ESCRITA E O REAL
Já aqui disse e repito que os meus amigos são os melhores escritores do mundo. Tenho direito a dizê-lo. Sou excessivo. Sou preconceituoso. Sou apaixonado. O que não me impede de falar aqui apenas dos livros de que gosto e que me parece terem muito para que os possa propor a outras pessoas.
Neste caso apenas posso dar azo ao júbilo por ter lido um excelente romance de um excelente amigo onde e torna comovente a humanidade que transpira em cada linha.
Acalmem-se, no entanto, os que tremem de medo à mínima suspeita de se estar na presença de mais um livro “infectado” pelo terrível Realismo Mágico.
“A confissão da leoa” é um romance duro, denso, inquietante, corajoso. Não facilita. Tendo como pano de fundo um acontecimento real testemunhado em parte pelo escritor. Trabalha sobre o fio complexo da mitologia e das crenças ancestrais para revelar a violência em que assenta o domínio masculino sobre as mulheres numa aldeia do Norte de Moçambique.
A narrativa de “A confissão da leoa” resulta do cruzamento de duas vozes. A de Mariamar, vítima da violência masculina, e a do caçador de leões, ou de leoas, o homem que vai fazer a última caçada da sua vida e que procura desesperadamente o amor, o verdadeiro amor. E talvez haja uma terceira voz, disfarçada mas presente, a do próprio escritor, apenas referido em pequenas citações como se estivesse completamente fora da acção.
A história desenvolve-se como uma espécie de cebola que se vai descascando e mostrando que a realidade é feita de camadas que, retiradas, vão revelando sucessivos dados novos, novos pontos de vista, nova luz sobre acontecimentos muito escondidos numa sopa final onde convergem preconceitos, tradições, mitologias diversas, medos ancestrais.
O Mia conteve-se aqui em relação à sua encantadora invenção vocabular para se centrar na complexidade das personagens e no entrançado de real e irreal, sonho e pesadelo, verdade e ficção
A prosa envolve-nos, agarra-nos, seduz-nos, engana-nos, desvenda-nos estranhos caminhos, na busca de uma estética e de uma ética da relação da escrita com a real… Enfim, tudo o que se pede a um grande romance.
quarta-feira, 9 de maio de 2012
INTRODUÇÃO À HISTÓRIA - UMA OBRA SEM PONTO FINAL DE MARC BLOCH
Este último ano teve, sem dúvida, uma leitura que me marcou. Não se trata de ficção, romance ou conto. O título do livro diz tudo: “Introdução à História”. Com um nome tão direto e quase cru, direcionado para um área tão específica do saber, o mais provável é não despertar um interesse generalizado, e até parecer estranho ser aqui referida. Este título, quase quadrado, esconde um conteúdo único muito eclético. O próprio livro e o autor têm uma história para além da história, da história que pretendem querer introduzir. Esta obra de Marc Bloch - importante historiador medieval do século XX – tem a sua própria história, escrita num dos períodos mais negros da história do século XX. Nesse labor, do conhecido historiador, é dado o passo para uma “nova história”, termo que a própria história registará como nova abordagem ao estudo e análise da própria história enquanto ciência.
Marc Bloch, neste, como em mais escritos da sua autoria, e em consonância com outros companheiros historiadores do seu tempo que seguiam a mesma tendência, quis mudar o modo como se contava, registava e fazia história – a historiografia não seria mais a mesma. Queria que a história deixasse de abordar e tratar apenas os grandes feitos, os grandes líderes, as grandes coisas. Queria que a história passasse a estudar toda a sociedade, também os pequenos feitos, os indivíduos comuns, a sociedade no seu todo, algo que nos fizesse aproximar mais do passado, com uma visão apropriada ao Homem real. Bloch queria que na história passasse a constar o todo, e não o particular que alguém decidiu destacar no passado, por razões várias. Bloch defendia que a história devia ser mais um exercício de reflexão e criação que propriamente de acumulação acrítica de conhecimento passado. Esta nova forma de ver o passado foi revolucionária para a História, e tem hoje claras influências na sociedade contemporânea. Emancipou o Homem na história, e permitiu que o estudo da história fosse dinâmico e passível de novas construções para o presente e futuro. Fez com que a história se relacionasse com as outras ciências de um modo pluridisciplinar e fosse uma das bases de planeamento para o futuro.
“Introdução a História” é uma obra inacabada, Marc Bloch nunca a terminou… Não lhe permitiram dar o ponto final no seu magistral trabalho. Muito mais haveria para escrever, tal como o próprio autor planeara. Marc Bloch foi fuzilado em 1944. Bloch era judeu, tinha sido soldado na primeira Guerra Mundial, e quando a França fora ocupada pelos Nazis abandonou o mundo académico e alistou-se na Resistência Francesa. Durante a Guerra foi capturado, torturado pela Gestapo, e executado por ordens de Klaus Barbie, o conhecido oficial das SS e da dirigente da Gestapo.
Da obra inacabada surgiu a oportunidade de fazer jus ao autor e continuar o seu trabalho. Muitos historiadores o fizeram, muitos continuaram a fazer história, abraçando-a como “nova”. Por ironia do acaso, e do papel que o próprio Marc Bloch deixou na história, hoje temos todos ao nosso dispor uma obra inacabada para continuar a escrever a nossa história.
Micael Sousa
Leitor Convidado: Micael Sousa é engenheiro Civil, Técnico Superior de HST, Mestre em Energia e Ambiente e também vagueante mas apaixonado de uma licenciatura em História.Leitor e cidadão convicto. Mantém entre outros o blogue "A Busca pela Sabedoria": http://abuscapelasabedoria.blogspot.pt/. É activista do Movimento Anti-Corrupção: http://movimentoanti-corrupcao.blogspot.pt/.
quarta-feira, 25 de abril de 2012
UMA ESPIRAL ACELERADA
1936. Vésperas do início da Guerra Civil de Espanha. Madrid está a arder. Quer dizer, fascistas, comunistas, socialistas, anarquistas, militares e civis. Os grupos civis enfrentam-se diariamente nas ruas. Os generais Mola, Queipo de Llano, Francisco Franco conspiram e preparam o golpe Estado. Os madrilenos (a que se dá o nome de gatos) riem, falam, juntam-se nas tabernas, cantam, brigam. A miséria vive a paredes meias com o luxo dos grandes de Espanha.
Um inglês fleumático como mandam as regras, especialista em pintura espanhola e principalmente em Velasquez, desloca-se a Madrid, onde é desafiado a analisar um suposto quadro do grande pintor escondido na cave o dpalacete de um aristocrata espanhol. O quadro deverá vir a ser vendido fora de Espanha e o dinheiro destinado a financiar a compra de armas para os fascistas.
Sem querer, o protagonistas acaba por ser usado, ameaçado, por todos os lados em contenda: a polícia ao serviço do governo, uma família aristocrática direitista, os fascistas de Primo de Rivera, os comoventes e pobres comunistas, os Serviços Secretos ingleses…
Mais ainda, além de frequentar uma pobre prostituta protegida por um simpático militante comunista que depois o tentará assassinar por ordens de Moscovo, e cai nos braços e na cama da noiva algo secreta de Primo de Rivera que apenas pretende resolver o problema da virgindade que o jovem e fogoso chefe fascista evita resolver para que a sua prometida não se torne num calcanhar da Aquiles da sua luta política.
O inglês, fascinado pelo quadro de Velasquez sonha com a oportunidade de ultrapassar concorrentes académicos de peso e dá-lo a conhecer ao mundo, alterando aquilo que se sabe sobre o pintor e lançando nova luz sobre um capítulo importante da História de Arte e do ambiente artístico e social da côrte de Filipe IV.
A magnífica escrita de Eduardo Mendoza desenvolve-se seguindo uma estrutura algo policial, num movimento de espiral acelerada que mais parece por vezes o desenho de um pesadelo e que toma foros de opereta sem deixar de ter os pés assentes num retrato poderoso de uma cidade de Madrid onde a guerra se pressente a cada passo.
domingo, 15 de abril de 2012
QUANDO SHERLOCK HOLMES EXISTIU NA REALIDADE
Arthur & George, de Julian Barnes, é um livro tecnicamente extraordinário. Mas, mais impressionante do que a forma como está escrito, é a riqueza e densidade de interpretações e visões que proporciona que o transformam num livro fascinante.
Partindo de uma premissa – baseada em factos reais – tão inesperada quanto brilhante (Arthur Conan Doyle, o escritor que criou Sherlock Holmes, investiga um caso real, tentando ilibar George Edalji de um crime que este não cometeu, aplicando numa investigação verdadeira e concreta os mesmos princípios detectivescos que atribuiu à sua personagem ficcional), Barnes conta-nos um pedaço de história verdadeira que é, simultaneamente, uma estória literária, dissipando de forma tão provocatória quanto deliciosa as fronteiras entre realidade e ficção, entre biografia e romance.
Começamos por acompanhar os percursos de vida de Arthur e de George, em separado; se um é uma individualidade marcante da sociedade inglesa de finais do século XIX e início do século XX, o outro é um simples anónimo embrenhado numa vida banal e algo peculiar que teve o azar de ser arrastado para uma situação complicada e injusta. Os caminhos de ambos acabarão por se cruzar lá para meio do livro, em momentos chave da vida de cada um, coincidindo num relacionamento breve mas determinante, para se voltarem inevitavelmente a separar. (O livro termina pouco depois da morte de Conan Doyle.)
Mais do que o relato de duas vidas de alguma forma extraordinárias e muito mais do que uma estória de detectives inteligente, este livro surge-nos como um retrato acutilante e abrangente da sociedade inglesa, nas suas vicissitudes e particularidades, nas suas riquezas e fraquezas. Na verdade, juntamente com os dois protagonistas, é-nos apresentada uma outra personagem, magistralmente criada, que acaba por se impor como a verdadeira protagonista: a “essência” do ser inglês, uma certa “britishness”.
Com uma leveza aparente e ilusória, oscilando entre o trágico e o cómico, Barnes conduz-nos afinal por entre inesperadas reflexões que acabam por constituir uma espécie de terceira camada do livro (se considerarmos que a primeira se ocupa de Arthur e George em particular, da forma como as suas personalidades evoluíram ao longo do tempo; e a segunda da sociedade inglesa em abstracto), conferindo-lhe uma densidade e abrangência imprevista; temas como o poder da imprensa, o arcaísmo arbitrário do sistema judicial, a dissimulação do racismo, a importância do empenho cívico individual activo, a incompetência e arrogância da polícia, a cegueira provocada pela religião, a pressão moral imposta pela sociedade através da ditadura da aparência, bem como questões mais íntimas como a solidão solitária e a solidão acompanhada ou o relacionamento individual com a morte, conferem a este livro – que não deixará de representar uma visão ficcionada de uma época história distante – uma actualidade não apenas desconcertante mas, principalmente, preocupante.
Paulo Kellerman
Leitor convidado: Paulo Kellerman é escritor. Tem vários livros publicados na Deriva. Ganhou o Prémio APE do Conto Camilo Castelo Branco. Escreve também para a (sua) Gaveta: http://agavetadopaulo.blogspot.pt/
segunda-feira, 9 de abril de 2012
"Deves ter sentido o teu espírito desamparado do teu corpo como uma casa arruinada. (...) solidão maior, porque um corpo é a nossa última companhia." Vergílio Ferreira. in "Em Nome da Terra"
“Senhora Puta rende mais que senhora de Fátima” (…) “Sem a devoção dos homens, ambas não são nada."
A morte só acontece quando não há peitos de vivos para guardar os mortos. A morte de Laura dolorosa de dupla maneira na carne e na ausência dos seus amores. Laura a morrer no esforço de um gesto belo e heróico e altruísta de devolver um sentido à espera de dois corações. A vida pode separar os que se amam mas a morte não.
Deixem-se levar.
sábado, 7 de abril de 2012
22 Winter Poetry
Toda escrita é um relógio da alma. Retardado, acelerado, invertido ou avariado. Toda escrita é um plano de voo sobre os factos, sobre as ilusões, sobre a conjecturas existenciais, sobre o tapete estendido do tempo. Toda escrita é um fragmento, uma relíquia do tempo passado, uma antevisão emocional do tempo futuro, do tempo mental cingido pela linha, pelo esboço da realidade que abdica da sua liberdade de ser tudo ao escolher o percurso pré-estabelecido pelo texto da vida que posteriormente fica plasmado num conjunto de linhas.
A poesia de inverno de Mathilde Sophia é constituída pelo mosaico de impressões que foram capturadas e congeladas pelo azoto líquido de 22 poemas. Poemas que cortam a pele como vento do inverno; poemas que aconchegam o corpo sob a manta de lembranças de leituras juvenis como no poema de número IV. Vinte dois poemas que celebram o rito de passagem dum período marcante na vida da autora; de quando a Mathilde cansou-se da jovialidade dos seus 21 anos e avançou para a casa seguinte.
Começo por referir o poema de número IV, porque este activou a maquinaria da minha já tão imperfeita memória e induziu nada menos que uma tripla associação: Fez-me recordar do Proust autor-leitor, que no "O prazer da leitura", deliciosamente descreveu como, na infância, o mergulho nos livros era tal que o mundo ficava reduzido ao vislumbre propiciado pelas páginas que se sucediam umas às outras; recordo-me também da autora desses 22 poemas de inverno a ler o "Du côté de chez Swann" à entrada do Edifício Ciência no Instituto Superior Técnico em 2009; recordo-me dum personagem a sair duma aula de laboratório cujo objectivo era medir as velocidades de corpos em colisão, e que ao longo de quatro horas efectuou medidas e as coligiu em colunas de cifras para então calcular uma média, uma média quadrática, e construir um histograma, esperando, em vão, que esse fosse semelhante a uma distribuição normal. Mas esperem, não fiquem impacientes, a história continua. Esgotadas as quatro horas, o personagem caminha cerca de 1 km e meio, espera pelo autocarro e quando este chega, senta-se, abre a mala de garoto de escola e faz os preparativos para a viagem de cerca de uma hora entre a paragem em frente à Faculdade de Arquitectura na Universidade de São Paulo e a Avenida Consolação. Sim, em 1977, este que agora vos dirige a palavra, tirou da mala, o primeiro volume da monumental obra "La Recherche du Temps Perdu" de Proust , o "No caminho de Swann" (o francês era-me então inacessível), e mergulhou no prazer de esquecer que há um mundo a ser rasgado pelo autocarro com o seu ruidoso motor que parecia estar prestes a explodir com o esforço de subir a Avenida Teodoro Sampaio.
Dois percursos de vida que têm em comum o prazer de ler Proust e o contacto com o que se pode chamar de "o mundo das equações". O personagem que leu Proust em 1977, seguiu o caminho das equações; a Mathilde, apesar de ter "sophia" suficiente para seguir o rasto das equações, possivelmente teve mais "sophia" ao seguir o canto da sereia das palavras. E dos frutos dessa escolha, eu sei que há uma interessante tese de mestrado sobre a influência de Keats em Pessoa e de pelo menos 22 poemas de inverno. E eu não tenho dúvidas que esse é só o início dum brilhante percurso no mundo das letras.
Como professor, eu tenho o hábito, alguns dirão que o péssimo hábito, de ser exaustivo. Como autor, eu procuro cultivar, ou ter a ilusão de cultivar, a elegância minimalista do essencial. Mas aqui-agora, entre amigos e ouvintes, incumbido da tarefa de exaltar a frescura do belo livro de poemas da Mathilde, sem que a minha retórica interfira com a naturalidade da linguagem da autora, não me ocorre mais do que uma navegação de cabotagem, de ir velejando ao longo da costa dos poemas dessa colectânea. Navegar, velejar, ler ao sabor do vento e do capricho de cada poema. Assim seja.
Sobre o poema número IV eu já falei. Ocorre-me dizer que o poema número VI é perigoso ao afirmar que: "Negro, de depressão em depressão,/Entre cumes e florestas sem côr/Onde Homens morrem sem supor/Que toda a viagem é em vão. ..." Não, Mathilde! Não há viagens em vão, como não há linhas em vão! São boas ou más, mas são viagens e linhas de ataque ao âmago da realidade. Mas sim, isso são coisas que nós só aprendemos quando temos 22 anos. Com o poema de número XII, eu ganhei alturas, veio-me à mente a indignação de Álvaro de Campos com a banalidade das coisas que nunca levantam voo, e também a lembrança duma birra dos personagens do "Les Enfants Terribles" de Jean Cocteau, e passo a citar: "Voo à velocidade duma noite escura/e nem uma árvore,/afoita e não suave,/me desvia do intento./Não. Faço o que quero! ..." O poema XVI versa sobre a voluptuosidade duma figura grave, sensual e perfeita, e dá-me uma satisfação muito especial, pois descubro, através da sua leitura, que afinal eu não sou assim tão anormal por achar que "La Mathématique" é uma senhora muito sexy. No poema XVII, percebemos que os pedaços de mar podem se perder resultando num asfixiante desconcerto. Diz-nos a autora: "Não sei onde está o pedaço de mar/que deixei espalhado ontem no quarto./Repugna-me não encontrar as minhas coisas/e a desesperança que me invade na cama descalça,/onde as almofadas se sentam quadradas/sob a minha face gélida, transpirando/asfixia." O poema XXI, "Ergue-te pena", descreve a dança da pena quase desaparecida, reformada compulsoriamente pela digitalização da escrita; poema que procura dar ritmo ao ballet das mãos, dos dedos, e ao esforço necessário para ter forças para escrever quando se é jovem e a vida é um chamamento constante e irresistível. Poema que termina com a pergunta inevitável: "Vais voltar a escrever?-/E fica ela vagamente/Erguida; vai cair,/Acudam, que forças/Lhe faltam p'ra se manter./Já nem dela precisam/Os mestres para rabiscar. -/Mas ergue-te pena! Uma vez/Mais, ergue-te, e vem dançar!"
Finalmente, o poema 22, canta, e como poderia ser doutra forma, Lisboa, e exige de Alfama um beijo mais autêntico: "Oh Alfama, beija-me, que não sou turista!” Não ouso enumerar as associações que me vêm à mente quando Alfama é mencionada. São imensas! E também eu me candidato para um beijo, apesar da minha actual condição de turista quando estou em Lisboa. Mas alternativamente a uma precária enumeração de mementos demasiado pessoais, ocorre-me meter-me pelos números e dizer que o número 22 faz-me recordar o bem conhecido "Catch 22" de Joseph Heller. O “catch” refere-se à cláusula 22 do código militar, segundo a qual para se obter uma licença médica para deixar de pilotar um avião de bombardeiro na Segunda Grande Guerra era necessário que o piloto apresentasse inequívocos sinais de loucura; contudo sabiam muito bem os pilotos que sem essa loucura era absolutamente impossível pilotar. Pergunto-me se não ocorre o mesmo com a obsessão do escritor. Escrever exige um certo descontrole dos sentidos e do intelecto, porém privado do exercício de escrever, todo autor possivelmente enlouqueceria. Loucura causada pela compulsão de escrever, loucura causada pela abstinência do exercício de escrever. É justa a comparação? Possivelmente, pois eu conheço pelo menos um caso. É pertinente no que se refere à Mathilde? Perguntem-lhe; eu suponho que não. Mas mesmo esquecendo essa pretensa analogia, não se deve omitir a uma jovem escritora que nisso de livros há uma dialéctica terrível, pois ao cume do projecto literário concluído, segue a implacável vertigem do vazio da página por se escrever. A implicação é óbvia: esperamos todos que o relógio interno do próximo livro já tenha sido activado. Mas isso agora é assunto da Mathilde. Eu só espero ter a alegria de não ter que esperar muitos invernos para ter o prazer de ler o próximo livro da jovem Mathilde Sophia.
Porto, 30 Março 2012 – Lisboa, 2 Abril 2012.
Orfeu B.
quarta-feira, 4 de abril de 2012
QUE BELO OBJECTO PARA LER E VER E OLHAR

Inesperadamente ou talvez não encontram-se nas Bibliotecas Municipais alguns livros a que nunca deitámos olhos em qualquer livraria.
Este é um caso assinalável. Um belíssimo objecto para ler e ver e olhar, a começar na capa, no formato e na qualidade do papel, a continuar nos textos deliciosos de Carlos Tê e a acabar nas ilustrações prodigiosas de Manuela Bacelar.

O livro traz-nos poemas sobre o Porto, a partir do Porto, sobre os portuenses, pesrsonagens, mitos e outros quejandos.
Desfilam por nós as vizinhas,os polidores de esquinas, a passagem do ano nos Fenianos, os bilharistas, Campanhã, Cedofeita, os subsídios para uma teoria do portuense proverbial, S. Ildefonso, a Viela do Anjo, Massarelos, a mercearia do Sarmento, os cafés e tantos mais recantos e personagens a solicitar o verbo do poeta.

"Primeiro emigra-se de ventre para o berço,
do berço para o chão, do chão para o pátio,
do pátio para a rua, da rua para todas as ruas.
Começa o êxodo do Eu para outros Eus, a infindável procissão de nós mesmos
em que cada eu carrega um núcleo do Eu primordial,
um caroço irredutível e resistente à corrosão.
..."
("Emigrantes")






















