domingo, 12 de maio de 2013

LONDRES OU UMA VASTA CONSPIRAÇÃO PARA DESORIENTAR OS ESTRANGEIROS





Carlos Vaz Marques é o director desta magnífica colecção de livros sobre viagens, não das de turismo mas das outras, das que se fazem por dentro do coração, da inquietação, da curiosidade.

Enric González é jornalista e foi correspondente do El País durante vários anos em Londres. E sobre a cidade diz-nos ele:

"Há cidades belas e cruéis como Paris. Ou elegantes e cépticas, como Roma. Ou densas e obsessivas como Nova Iorque. Londres não pode ser reduzida a antropomorfismos."

Neste livro delicioso, que se lê de uma assentada, o autor passeia pelo espaço fíisico de Londres, ruas e praças, pubs e estações de Metro, museus e catacumbas. E viaja também pela História desta cidade mítica e tão cheia de História como de histórias e de literatura.

Com um notável sentido de humor, Enric González brinca com o que vê e ouve e, se o seu olhar vem de fora, a sua palavra mergulha apaixonadamente nos dédalos arquitectónicos e humanos da cidade para lhe cantar uma bela balada de amor.

Procure-se a a lógica de Londres e certamente não a encontraremos. González cita George Mikes quando afirma que:

"É preciso ter consciência de que uma cidade inglesa é uma vasta conspiração para desorientar os estrangeiros."

E conclui que:

"São precisos muitos passeios para percebermos a harmonia secreta dentro do caos."

O livro resume esses passeios que nos vão revelando o crescimento da cidade no tempo e as diferenças que vão caracterizando bairros e populações. E também nos leva pela organização espafúrdia da Casa Real, pelas origens dos Clubes de Futebol Londrinos, pelas histórias de Jack o Estripador, pela destruição do sistema de saúde inglês pela política ultra-liberal de Margaret Thatcher, pela estrutura e organização política do parlamento inglês, pelas ruas da City onde se resolvem os negócios do mundo, pelos pubs e pala diversidade de cervejas e whiskies, pelos hábitos e natureza da Igreja Anglicana, pelas memórias do período de ouro imperial que foi o do reinado da Rainha Vitória.

E de tudo podemos extrair uma atitude de ironia, de curiosidade, de estranheza, de respeito pela diferença. É assim que se conhece o mundo. Pelos nossos pés e também pela arte da narrativa de autores como Enric González.

(E a propósito, Carlos Vaz Marques diz-nos na introdução que há mais dois livros do mesmo autor com os títulos de "Histórias de Roma" e "Histórias de Nova Iorque", tendio este último recebido grandes e raros elogios de Joé Saramago. Fico ansioso pela tradução para português. Senão lá terei de os mandar vir de Espanha. Carlos, faça o favor de se antecipar e publique-os na sua colecção)



quarta-feira, 8 de maio de 2013

À BEIRA DA LIBERDADE





grande História é feita de muitas pequenas histórias.

Falamos do 25 de Abril, da maravilhosa chegada da liberdade, da festa de podermos falar abertamente uns com os outros, de nos abraçarmos e de sonharmos por vezes de formas abstrusas e delirantes, mas também esses delírios faziam parte da descoberta de um país que estava há 48 anos debaixo do ferro da ditadura. Da memória desses dias faz parte também o momento em que se abrem as portas das prisões onde imperava a tortura e o medo.

A História tudo isso vai registando com imagens, textos, análises.

Mas, a Joana Pereira Bastos não é historiadora, é jornalista. Está interessada nas pequenas histórias de que é feita a grande História. Histórias pessoais de alguns homens e mulheres que foram presos poucos meses ou poucas semanas antes do 25 de Abril e encerrados em Caxias numa altura em que a repressão se intensificava porque também a resistência crescia a olhos vistos.

A autora priveligia a emoção no seu processo narrativo. O lá por dentro dos que sofreram a tortura e depois se calaram porque muitos deles ainda hoje têm pesadelos, insónias, alterações psíquicas permanentes que os fazem tentar calar e esquecer a extrema dureza de uma polícia, a PIDE, que foi muitíssimo eficaz na destruição das pessoas que agrediu, torturou e humilhou.

É o documento humano que nos arrasta num apaixonante entretecer de dados factuais e relatos pessoais. A descrição das torturas, estátua, sono, agressões brutais. Documento precioso. Eu que o diga. Podia lá ter estado nesses dias. Companheiros meus por lá passaram. Vários dos presos de que o livro fala são amigos queridos. Nuno Teotónio Pereira, Conceição Moita, Luís Moita, José Manuel Tengarrinha... Tremi ao conhecer a história deles, o terror por que viveram, as dores que tiveram, as angústias por que passaram.

Poderia aqui trazer um sem número de pormenores mas recordo dois momentos que me emocionaram de forma diferente.

Durante o dia 25 de Abril, eles souberam que tinha havido uma revolução. Mas continuavam fechados e vários deles pensaram que podia tratar-se de um golpe de extrema-direita, uma "pinochetada". Durante a noite de 25 para 26 vários se prepararam mentalmente para enfrentar o fuzilamento. E só no fim do dia 26, já madrugada de 27, é que os portões se abriram para um tempo novo e tão esperado.

Outro momento, uma narrativa notável de um ex-preso que anos depois entra num restaurante e dá com o PIDE que o torturara a almoçar com a família. Vai ao carro buscar uma pistola para o matar. Quando regressa ao restaurante o PIDE já se tinha ido embora.

A democracia e a liberdade acabaram com as grades mas não com as dores e essas é bom que fiquem guardadas na nemória.

Obrigado Joana.

domingo, 5 de maio de 2013

A FORMA COMO SE ESCREVE



Há cerca de 30 anos, mais coisa menos coisa, o encenador José Caldas encenou esta "Vida íntima de Laura" no TAS de Setúbal. Não pude ver. Lamento. Mas fiquei com esta Laura na caixinha da minha curiosidade, um texto de Clarice Lispector.

Vi um outro espectáculo encenado por José Caldas, um dos espectáculos que mais me emocionou na vida: "Acende a noite" a partir de textos de Ray Bradbury.

Há poucos dias soube que é ele que vai encenar um texto meu ("El hombre") para o Teatro Jangada de Lousada. Que bom!

Penso nestas ligações misteriosas que a vida tece quando pego, quase religiosamente, na edição portuguesa de "A vida íntima de Laura" e a leio avidamente.

Por vezes, tão ou mais importante do que aquilo que se escreve é a forma como se escreve. "A vida íntima de Laura" é um exemplo excepcional da importância que tem a forma de contar de uma das mais notáveis escritoras da língua portuguesa do séc XX

Laura é uma galinha vulgar, simpática, com um pescoço muito feio, burra, que não pensa mas pensa que pensa, casada com o galo Luís que gosta muito dela.

Nesta história vulgar Clarice dialogando directamente com o leitor, inventando o leitor, faz dele um cúmplice na forma divertida e um tanto blasé como conta a vida de Laura sem nenhuma cedência ao mau gosto, ao bonitinho, ao didactismo. Nomeadamente levantando a possibilidade de Laura, a simpática Laura, acabar na panela no meio de molho pardo.

As ilustrações são deliciosas, amáveis. Se se pode dizer isso de um traço, de uma paleta de cores, de uma forma de ocupar a página.

E há que elogiar a editora, Relógio d'Água, pela edição de quatro dos livros de Clarice Lispector para crianças que são exemplares e que deveriam ser lidos atentamente por muitos dos nossos escritores para a infância



quarta-feira, 1 de maio de 2013

No Jardim das Paixões Extintas



Um quarto de século passado sobre os dias plenos da liberdade e do caos - a semana mais romântica do meu namoro com a história, entre o 25 de Abril e o 1º de Maio de 1974 -, a memória trai-me, envolta na neblina melancólica das utopias mortas, tristes flores murchando no jardim das paixões extintas, folhas caídas sobre o caminho por onde vou, no surpreendente encantamento do último amor e da sua dorida subversão. Então, eu imaginava a semelhança com a outra cidade feliz, a do meu pai - Madrid na Primavera de 1936 -, outra pura ilusão que ele não me tinha contado, porque ainda não chegara ao fim do seu regresso à beira do Tejo, do começo da despedida e da imperfeita reconstrução da memória estilhaçada. 


Os tempos são outros … A realidade empurra-nos subitamente para o vazio a abarrotar de coisas, para o excesso, para o totalitarismo do dinheiro, do sexo, para o mimetismo, a indiferença, os riscos da salvação possível no instante em que se tornou a vida, essa certeza plena de presente, única e absoluta face do tempo.

Álvaro Guerra 


Um impressionante relato sobre a vida de personagens que protagonizaram o combate mortal entre o fascismo e o comunismo no século XX pela pena do jornalista, diploma e escritor Álvaro Guerra (1936-2002). Uma densa trama histórica e emocional descrita por um jornalista, alter ego do relato, que deslinda, através das memórias filtradas do pai, militante comunista e combatente pela causa republicana em Espanha, a forte ligação entre a paixão amorosa por uma combatente espanhola e a devoção pelo internacionalismo comunista. 

Uma intensa radiografia emocional da guerra civil espanhola, da crueldade franquista e do maquiavelismo estalinista; uma rica descrição da paixão carnal e da sua colagem à precariedade de vidas suspensas por uma guerra sangrenta num mundo encalhado no beco mais escuro da História. Uma descrição quase analítica da transformação das paixões até atingirem o hodierno hedonismo desprovido de dimensão histórica. Um retrato pungente das forças criativas libertas pelo 25 de Abril e da sua dissipação no individualismo e no consumismo. 

No Jardim das Paixões Extintas é indubitavelmente uma obra maior da literatura portuguesa contemporânea, um livro imprescindível para se compreender a dimensão trágica do mais conturbado século da História da  Humanidade.    

Orfeu B.


sábado, 27 de abril de 2013

MEMÓRIA DOCE E VIBRANTE





È uma obra muito interessante este livro de Memórias da Eugénio Lisboa, (Acta Est Fabula, Memórias I - Lourenço Marques, 1930 – 1947. Guimarães, Opera Omnia, 2012), dedicado tão sentidamente à cidade de Lourenço Marques que chega a agradecer-lhe o «ter existido para eu ter podido nascer nela», como diz no fim dos iniciais “Agradecimentos”. Chegado a uma certa idade, como diz Eugénio Lisboa, sentiu uma vontade irresistível de escrever as suas memórias mais recuadas, para seu gosto pessoal, pelo puro prazer de o fazer e sem outros intuitos que este seu deleite, considerando, por isso, que poucos ou nenhuns se interessarão por este trabalho. Penso que se engana. Primeiro, porque é difícil ceder às memórias quando elas, com o tempo, se vão decantando, ganhando tanta nitidez que têm que se expressar de alguma maneira, de tal modo sentimos que, nelas, está mais do que a nossa vida, somos nós mesmo que pelas memórias se redime de qualquer coisa que toda a vida nos apelou, mas que acaba quase sempre por nos escapar. E, portanto, o sentimento que o levou a revivê-las será compreendido por todos os que passaram uma certa etapa da vida, e isso é já uma boa razão. E em segundo lugar, porque elas acabam frequentemente por ser muito mais do que simples revivências pessoais, como é manifestamente o caso. Todos terão as suas, importantes e de muito interesse para a vida de cada um, mas algumas adquirem valor maior, ou pela riqueza própria ou pelo modo como são contadas. De facto, há muitos livros de memórias, mas mais do que o valor delas para o próprio, interessa a qualidade que alcancem. Felizes os que são capazes de as traduzir em formas de beleza ou de interesse suficiente para proveito próprio e alheio.

É certo que não se sente uma grande preocupação formal em Eugénio Lisboa, mas, mesmo que aqui e ali sejam algo coloquiais, (em expressões a propósito, diga-se) sempre prevalece a qualidade e a riqueza a que nos habituou, o seu estilo rico, dinâmico, enredado e cativante. E que acaba por casar muito bem com o que nos quer contar, ganhando assim uma segunda razão a publicação delas. É que as suas memórias são vivas, sentidas, luminosas, quentes, por um lado, e, por outro, cheias de referências que, só por si, são motivo de meditação nos tempos que correm, além de poderem servir de proveito e exemplo para muitos distraídos.



Há um primeiro aspeto que vale a pena referir. Eu não vivi na Lourenço Marques daqueles tempo, (nem depois; nunca lá estive) mas consegui sentir e “ver”muito daquilo que nos relata: o clima, as cores, os cheiros, os mercados indígenas, o Índico e suas praias, os baldios do futebol, os dias imensos das férias, em suma, essa sedução de África, que sentiram todos os que por lá passaram, ou lá nasceram, e que lhes ficou para sempre na alma. Assistimos, por outro lado, ao seu despertar para a vida, ao nascimento da sua consciência crítica, às primeiras evidências da estratificação social, que ele (e família) sentiram, pertencentes a um estatuto algo ambíguo entre os africanos do musseque e os brancos da Polana, entre o povo e os snobs, sentindo-se por isso um pouco estrangeiro entre os meninos do liceu, algo tolerado pela sua modéstia económica. Mas honrado e demasiado inteligente para ouvir o ímpeto da sua vontade e perceber a sua superioridade em relação a quase todos os colegas. Capaz, portanto, de desenvolver a força do seu sonho de futuro, intelectual, cultural e científico, numa Europa longínqua e então mítica, empolgado pela ideia de uma missão muito pessoal, embora indefinível, coisa corrente entre os adolescentes mais dotados. Assim, a sua condição de branco com poucas posses, vivendo longe da zona fina da cidade, acabou por lhe proporcionar a sorte de uma multiculturalidade, intercultural e transcultural, digamos assim, com todos os ingredientes de uma formação vivida, e estruturante, porque sem ressentimentos nem invejas, que a própria inteligência e sucesso escolar impedem, proporcionando, ao mesmo tempo, a capacidade de tirar dos dois lados o melhor que cada um tinha e assim superar a ambos.

Mais interessante ainda é acompanharmos o itinerário humano e cultural de Eugénio Lisboa, até pelo grande ensinamento para hoje. Sobretudo seguir a galeria das suas personagens e a ordem de aparecimento dos autores da sua formação, e que, para sempre, lhe serviram de referência. Os personagens, para além de alguns familiares, que ele fotografa bastante bem em ângulos afetivos e críticos, os exóticos ou típicos, aqueles que habitam a nossa juventude e que, ao fim de muitos anos, nos parecem quase irreais, como se nunca tivessem existido. Mas também, e sobretudo, a galeria dos seus professores. O rigor com que os descreve, mas de um modo muito humano e compreensivo chega a ser comovedor. E mostra-nos, - como se o não soubéssemos ainda – como os grandes professores marcam a nossa vida de uma maneira indelével e são os esteios de muito do que de bom e de valioso podemos vir a ser mais tarde. Há ali páginas muito belas, de ternura e agradecimento para alguns dos seus melhores professores da instrução primário e do liceu. E também outras muito críticas para com os maus, os balofos e os pérfidos, que também os havia, como se sabe.

Finalmente, é muito interessante seguir a descrição que nos faz do seu itinerário literário, o gosto pelos livros e o pouco dinheiro para os comprar, o “namoro” das montras das livrarias, a “Minerva Central”, a “Progresso” (ah, como eu o compreendo!) o aparecimento dos autores e as marcas que iam deixando numa personalidade em formação: Herculano, Garrett, Júlio Dinis, e depois e sobretudo Stendhal, e a perturbação dos americanos, Mark Twain, Hemingway, Faulkner, Sorayan e de novo os europeus, Óscar Wilde, Gide, Proust, Roger Martin du Gard, George Eliot, Dickens, Charlotte Brontë, e José Régio, claro! E doutros mais ligeiros, (por que não?) algum Emílio Salgari, Júlio Verne, Condessa de Segür, etc. E sempre novos autores, novas experiências e a consciência crescente desse campo riquíssimo, contraditório e inesgotável que é a grande literatura. Eugénio Lisboa levou-me a sentir de novo, embora por outras paragens e a uma geração de distância, a sedução dos autores, o cheiro dos livros, certas palavras mágicas como “Portugália Editora”, “Editorial Gleba”, “Livros do Brasil”,“Editorial Inquérito”, “Romances Universais” e a perturbação de certas obras, a experiência funda e fecunda que causam numa personalidade em formação.
Por tudo isto é muito interessante ver como ele reconhece a importância determinante que os grandes autores tiveram na sua formação. Pudera! Todo o livro é a veemente afirmação disso. Cito, a propósito (p. 142): «O 6º ano do liceu começou, como de costume, em Setembro (de 1945). Encontrava-me mais forte, mais desenvolto. Ter passado incólume pelas tragédias de O’Neill tinha-me fortalecido. “Atravessar” aquilo, sem ficar chamuscado, pelo contrário, sentir que algo dentro de mim se “lavara” e me purificara e fortalecia - dava-me uma sensação de confiança e de força». “Diz-me o que lês (ou leste) dir-te-ei quem és”, é uma das maiores verdades que se pode dizer sobre educação e formação em geral. Estranho é que haja gente, com responsabilidades educativas, que não o saiba. A profundidade humana, a riqueza e a complexidade das pessoas e das situações, os dramas, a experiência condensada que proporcionam, a libertação pela imaginação, a fruição da beleza e a plenitude que as grandes obras proporcionam, como é que se pode formar um ser humano sem tudo isto? E como é que esta riqueza inesgotável e esta experiência se podem substituir por resumos, súmulas, sinopses e outros miseráveis sucedâneos que por aí andam? E que até podem dar para tirar boas notas, mas que deixam pelo caminho seres planos, sem profundidade nem densidade, eternamente “inocentes”, mas convencidos, imaturos mas desde logo cediços, e acima de tudo indiferentes à beleza e sem perceberem o tudo que perdem. Nada substitui a leitura dos grandes mestres, como é possível que tanta gente “responsável” o não saiba e o não pratique? Como é possível que no nosso ensino se estejam a substituir os grandes autores pelos simulacros?

João Boavida

sábado, 13 de abril de 2013

POESIA - UM RESUMO



Já não é o primeiro ano em que a FNAC edita uma colecânea de poesia publicada no ano anterior e escolhida quatro poetas de diferentes gerações e diferentes gostos, imagino: Armando Silva Carvalho, José Alberto Oliveira, Luís Miguel Queirós, Manuel De Freitas

É o resumo do ano e se não estou em erro este tipo de antologia era feita também no início dos anos 70. Só não recordo quem a editava nem quem eram os antologiadore (talvez o Egito Gonçalves entre outros).

Uma antologia é um material precioso pelo que escolhe tanto quanto pelo que exclui. Neste "RESUMO" estão presentes cânones próximos, caminhos não excessivamente divergentes, vozes de alguma forma consonantes no trabalho poético que se afasta da metáfora, talvez até nalguns casos da própria dimensão estética, para privilegiar poemas que mergulham sobretudo na circunstância, no momento, no pequeno acontecimento que ganha inesperada proeminência pela própria escrita poética.

Devo dizer que adoro antologias. São um material de trabalho excelente. Ficam sempre como pontos de referência pelo que escolhem e pelo que excluem.

Neste "RESUMO" podemos ter uma ideia de quem são alguns dos poetas mais jovens em acção e como se cruzam ou não com outras gerações e outros caminhos.

A poesia portuguesa precisa destas publicações. E doutras a partir de outros cânones. Por que a poesia é feita de caminhos diversos que se tornam significativos na confrontação de vozes e silêncios, de éticas e estéticas, da relação mais próxima ou mais longínqua com aquilo a que se possa chamar público.

Hoje muita da mais jovem poesia vagueia pela net e por pequeníssimas edições. Para que não aconteça aquilo de que Alexandre O'Neill falava num poema que era:

"Quem nos lê a nós? São vocês.
Quem vos lê a vocês? Somos nós.
por isso fica tudo entre nós entre nós."

domingo, 24 de março de 2013

(...)/Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando./Prefiro ponderar a própria possibilidade/do ser ter sua razão.//Wislawa Szymborsk



“Outras Cores” de Orhan Pamuk
Ensaios sobre a Vida, a Arte, os Livros e as Cidades.
Editorial Presença



Há livros que lemos num sopro, cumprem o seu papel no tempo mais superficial ou profundo da sua agradável  leitura e vão para a estante. Alguns regressam, outros só nos passam pelas mãos em limpezas de pó. Há os que, para lá da sua importância literária, marcam um lugar e um tempo. Alguns são lidos em tempos longos. Pegamos neles e largamo-los ao sabor da nossa disposição, de tarefas, de outros livros que  se atravessam, de outras urgências maiores que nossa vontade. 
Há livros para voltar, para carregar em todas as mudanças, para falar deles aos filhos mesmo que, aparentemente, não nos ouçam, porque na vida não levamos mais nada do aquilo que temos, inexplicavelmente, dentro de nós, quando partimos de um lugar.

“Outras Cores” é um livro de ensaios que anda comigo há muito tempo, a data de compra remonta a 2009, foi sendo lido. Não está ainda esgotado. Vai continuar comigo. Muitas vezes aberto ao acaso, relido como um destino.

As sérias e sentidas reflexões revelam-nos um autor que se constrói com a escrita. Como, ainda há pouco tempo, dizia, numa conversa, a propósito do seu último livro "Dentro de Ti Ver O Mar", a escritora Inês Pedrosa, na livraria Arquivo.

Ainda não esgotei este livro por dentro e por isso não sei se é tempo de falar dele. Mas nem sei quando seria. Trago-o aqui na sua incompleta releitura e entendimento. Vale a pena ler.

“Neste mesmo lugar, há muito tempo”
Quanto tempo demoramos a escrever uma linha. Por vezes mais do que o tempo de escrever páginas inteiras. E, por vezes, uma linha muda tudo e nada fica igual depois de escrita. 
Será possível equilibrar o vivido e o escrito como uma construção em que não nos envolvemos?
Terá Miguel Ângelo ficado imaculado de tinta na tarefa de pintar a capela? E seria ela o que é se o tivesse feito em breve tempo? A arte de cada um é singular, bem como o seu tempo de chegar. O seu mérito e valor é sujeito à poeira do tempo. Mas é sempre um longo caminho acidentado de subidas irregulares e descidas traiçoeiras, o da escrita como a da vida.

"Um Apontamento Sobre  Justiça Poética”
Sobre como um escritor carrega o ser pequeno que foi dentro de si.

“Olhar pela janela”
Revendo um episódio de infância que coloca pessoas de diferentes gerações e diferentes geografias próximas no tempo e no espaço.

Pamuk levou-me de novo a Tristan Shandy. Às histórias das Mil e uma Noites, adiadas, reinventadas. Relembrou-me “Os Buddenbook” de Thomas Mann. O necessário repensar dos laços familiares.

“Política e refeições familiares nos feriados religiosos”
 O quotidiano das refeições que, mais que um milagre de fazer acontecer alimentos sobre a mesa, são momentos de rituais onde se passam testemunhos. Deviam ser.

 "Em Kars e Frankfurt"
A tentar perceber como eram são as expectativas da Turquia face à Europa.
Agora que se tornou mais fácil para todos a necessidade de rever a Europa. Não como um bloco uno, de onde um entra e outro sai mas como um conjunto dinâmico onde todos contam. 
É preciso entender esta Europa que se desfaz ou se refaz consoante o maior ou menor pessimismo que carregamos. Somos nós que levamos água aos moinhos. Somos nós que combatemos os gigantes que vemos em moinhos.

A entrevista que Pamuk deu à Paris Review, feita entre Março de 2004 e Abril de 2005, pelo meio das suas posições politicas na questão Curda/Arménia.

"Nove apontamentos sobrecapas de livros". Que nos coloca perante o que importa ainda e sempre que falamos do livro papel/digital.

Pamuk nasceu em 1952. Em Istambul. “Cresci numa casa em que todos liam romances”, diz ele. Uma sorte, digo eu.

E agora se me perguntassem: então se fosses para uma ilha deserta que livro levarias? 
Nenhum.Na verdade não me apetece ir para nenhuma ilha deserta. 
Apetece-me um sitio cheio de gente,  uma biblioteca perto, livrarias, frutarias, um antigo mercado, um jardim e risos de crianças. Outras Cores...
Sílvia Alves

domingo, 10 de março de 2013

ESTA ESCRITA É UM BELO LUGAR PARA MORAR





Erri de Luca e os seus belíssimos romances são uma descoberta feliz dos meus últimos anos de leitor.

A sua escrita é asseada e simples mas profunda, limpa mesmo quando fala das coisas sujas da vida, luminosa mesmo quando fala do lado mais negro da vida. Pelas suas palavras passam uma profunda dignidade e respeito pelo melhor do ser humano.

"Montedidio" é a história de rapazinho napolitano contada pelo próprio. Fala-nos do seu trabalho como aprendiz de marceneiro, da sua amizade pelo sapateiro judeu Raffaniello, corcunda que tem na cabeça uma bússula de cegonha e umas asas dentro da corcunda que um dia hão de abrir e levá-lo pelos ares até Jerusalém; e fala do seu primeiro amor e das primeiras experiências sexuais com Maria que não quer seirvir de moeda de troca ao senhorio a quem a mãe deve várias rendas de casa, do pai, estivador e do mar cujo cheiro traz preso ao casaco, da mãe que morre, da língua napolitana e da necessidade de aprender italiano para estudar,ter emprego, papeis legais.

Tudo isto nos é dado através de pequeninos capítulos como se de um diário fossem e de uma escrita delicadíssima e profundamente poética.

Montedidio fala de um tempo de pobreza, anos 50, na ressaca da II Guerra, de um tempo de gente que trabalha com as mãos e que faz do seu ofício uma verdade que vai até ao osso.

Aqui, "Todas as manhãs são uma ressurreição." e "É o sol dos meses frios que põe um cobertor sbre quem não tem um."

Aqui fala-se do sapateiro Rafaniello que "Canta para arejar os pensamentos, caso contrário, fechados na boca ganham bolor."

Aqui, nesta escrita é um lugar bom para morar e descansar sabendo que há uma esperança de luz para a nossa tão precária condição.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Um Médico Rural


Nu, exposto ao frio desta era infelicíssima, com um carro terreno e cavalos sobrenaturais, lá vou eu, um velho.

Franz Kafka

A propósito da recente representação do teatro Aramá do conto "Um médico rural" de Franz Kafka no Porto sob a direcção de Tó Maia, concepção e execução plástica de Hernâni Miranda e Pedro Esperança, música de Elísio Donas e a competente actuação dos actores, escrevo algumas linhas na esperança que este belo trabalho colectivo seja reposto e tenha uma maior audiência. Naturalmente, este desejo tem na sua raiz a crença pessoal na absoluta necessidade da leitura por todos da obra de Kafka, e na convicção do fundamental papel que grupos como o Aramá tem para o nosso desenvolvimento cultural, social e económico. 

Franz Kafka (1883-1924) consta de todas as listas que se possam fazer dos mais marcantes escritores do século XX. Kafka alterou irreversivelmente a paisagem literária do século XX, tanto ao nível linguístico, estilístico e existencial, mas acima de tudo, apresentou a condição humana depois do século XX com uma abrangência e profundidade sem precedentes. Creio que não seria exagerado dizer que sem a obra de Kafka, nós seríamos ignorantes sobre a nossa verdadeira natureza.

"Ein Landarzt", texto datado de 1919, empresta também o título a uma colectânea de mais de uma dúzia de contos, na verdade, uma das poucas publicadas em vida. 

À pureza da narrativa e a simplicidade da história, Kafka contrapõe um cenário mental de extraordinária riqueza, no seio do qual todas as estruturas sociais, crenças e convicções colidem continuamente, onde todas as certezas transformam-se em questionamentos existenciais e onde as debilidades ganham a sua verdadeira dimensão humana. Não há regiões da alma que sejam inacessíveis ao bisturi da escrita de Kafka. Razão e emoção têm ambas uma dimensão redentora, mas são ao mesmo tempo, elementos de perdição e maldição.         

Em teoria, pouco poder-se-ia esperar dum conto sobre um médico rural que é chamado numa noite fria para assistir a um paciente criticamente doente a dez milhas de distância. Na noite anterior o seu cavalo havia morrido, e assim sem meios para a deslocação, pede para a sua criada, Rosa, procurar um cavalo emprestado entre os aldeões. Contudo, a imaginação de Kafka conduz-nos para os aspectos mais inesperados dos acontecimentos mais mundanos. 

Não me parece apropriado roubar ao leitor o prazer do mergulho das águas frescas do texto de Kafka. Bastará talvez referir, a guisa de peroração, que tal como no "Processo", obra mais madura iniciada em 1914 e terminada em 1925, a narrativa de "Um médico rural", conclui-se de forma definitiva para o protagonista, mas é deixada completamente em aberto no que diz respeito às suas implicações para a condição humana. Tal como no "Processo", onde os juízes podem condenar, mas não podem absolver, Kafka, demonstra-nos que um médico, expressão máxima do progresso humano, pode curar, mas não pode salvar no sentido místico que rege o modo de pensar dos camponeses a quem presta assistência.    

Naturalmente, é-nos impossível sintetizar e capturar com justiça a complexidade e profundidade da obra de Kafka, pelo que recomendamos, entre outros, o livro de Walter Benjamin que já foi aqui apresentado. Finalmente, gostava de enfatizar uma vez mais que a prevalência e a universalidade dos textos de Kafka ficaram brilhantemente demonstradas com a representação do grupo Aramá; contudo, para os que por ventura não estejam completamente convencidos, incluímos nesta recensão o curta metragem de animação de 2007 do realizador japonês Koji Yamamura baseado no "Um médico rural"

Orfeu B.


                                                       

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Cantatrix Sopranica L.

Experimental demonstration of the tomatotopic organization in the Soprano (Cantatirx sopranica L.)

George Perec
Laboratoire de physiologie
Facultè de médicine Saint-Antoine
Paris, France

Sommaire

Démonstration expérimentale d'une organization tomatotopic chez la Cantatrice.

L'auteur étude les fois que le lancement de la tomate il provoquit la réaction yellante chez la Chantatrice e demonstre que divers plusieures aires de la cervelle elles était implicatées dans le response, en particular, le trajet légumier, le nuclei thalemeux et la fiçure musicien de l'hémisphère nord. 


Cantatrix sopranica L. é uma colectânea póstuma de textos do brilhante e original autor francês George Perec (1936-1982). Perec é conhecido pelo ecletismo dos seus interesses e por obras como por exemplo, "La Vie mode d'emploi" de 1979, um vasto e complexo romance escrito de modo a simular o movimento das peças num jogo de xadrez ascendente ao longo duma escada, e pela novela de 300 páginas "La disparition" (1969), escrita sem nunca usar a letra "e", desaparição que é uma metáfora do destino dos judeus na Segunda Grande Guerra. 

   
Concretamente, Cantatrix sopranica L. consiste dum conjunto de cinco textos cómicos, escritos em linguagem pseudo-científica. O primeiro destes, escrito em inglês, descreve as reacções cerebrais causadas numa soprano quando submetida ao lançamento de tomates. Há uma discussão introductória de contextualização, uma descrição do grupo de estudo, 107 saudáveis sopranos do Conservatório Nacional de Música,  com peso compreendido entre 94 e 124 quilos, que são convenientemente monitoradas; uma discussão metodológica sobre o equipamento de aquisição e gravação dos dados; uma descrição das regiões cerebrais afectadas em função da carga tomática lançada; uma discussão de cenários interpretativos possíveis; finalmente, o texto é concluído com uma bibliografia que inclue autores como: Alka-Seltzer; Chou, O. & Lai, A.; Einstein, Z.,  Zweistein, D., Dreistein, V., Vierstein, F. & St. Pierre; Giscard d'Estaing; Marks, C.N.R.S. & Spencer, D.G.R.S.T., Wait, H. & See, C., entre outros!
    
Os textos seguintes versam sobre entomologia, uma homenagem a um humorista, uma obra fictícia sobre a catedral de Chartres, e finalmente um texto, escrito conjuntamente com Harry Mathews, sobre o escritor Raymond Roussel e a geografia melancólica inspirada por Veneza.

Cantatrix sopranica L. propicia uma leitura agradável e refrescante, e despretensiosamente, nos remete a uma reflexão sobre a especificidade do jargão científico, e de como a sua pretensa objectividade não é de todo um garante da seriedade dos assuntos em análise. 

Finalmente, parece-nos relevante mencionar que o texto de Perec precede de alguns anos a instituição dos Prémios Ig Nobel, paródia do Prémio Nobel, atribuídos todos os anos em Outubro a dez trabalhos científicos particularmente bizarros, cómicos ou triviais. Os primeiros Ig Nobel foram criados em 1991 pelo norte-americano Marc Abrahams, editor e co-fundador dos "Annals of Improbable Research", revista de humor "científico".  


Orfeu B.



sábado, 26 de janeiro de 2013

VIAGEM A TRALALÁ OU A PARTE NENHUMA


Wladimir Kaminer, nascido em 67 é um filho da decadência e queda do chamado bloco socialista, cujo desmembramento analisa com algum brilhantismo e momentos de uma invejável ironia e algum cinismo.

Vivendo a adolescência no seio de uma cultura pop russa, cedo foi viver para a Alemanha onde se tornou em escritor, homem de rádio, animador cultural e humorista de grande sucesso.

A Cavalo de Ferro publicou 2 dos seus mais famosos livros, Militärmusik e Russendisko.

A colecção em que a Tinta da China tem publicado notávens livros de viagens publicou agora um livro ao contrário, quer dizer, um livro de não viagens ou de viagens que não se chegam a fazer; "Viagem a Tralalá" de Wladimir Kaminer.

Trata-se de um livro com momentos verdadeiramente desopilantes a par da sarcástica mas por vezes dolorosa narração de uma juventude russa que perde qualquer
capacidade de estabelecer um caminho de vida e se deixa viver ao sabor do dia-a-dia, navegando no álcool, nos pequenos golpes e empregos como sobrevivência, na busca do seu lugar numa europa que não conhece e a que tem dificuldade em adaptar-se.

Das viagens que o narrador não chega a fazer destaca-se a delirante narrativa de uma cidade falsa construida no sul da Rússia que faz de Paris no Verão e Londres no Inverno e para onde são enviados os operários premiados pelos seus êxitos na produção, convencidos que estão mesmo a visitar Paris e Londres.

O humor é uma das artes mais difíceis e embriagadoras entre todas as vertentes da literatura e do espectáculo.

O humor rebenta como uma bolha de novidades desopilantes mas rapidamente se torna pesado, cansativo, repetitivo.

Porque o humor nasce de uma forma particular de olhar o mundo e a vida ao contrário que surpreende o espexctactador ou o leitor e provoca o riso. Quando o o público começa a conhecer aquele mecanismo particular de fazer humor, passa a habitar a fácil previsão e a possível decepção.

"Viagema a tralalá" tem a dimensão exacta para o bebermos como um licor saboroso sem chegar a sentir-lhe o inevitável sarro se se prolongasse mais do que a conta.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

OS ROSTOS ANTERIORES


A escrita de Transtromer é discreta, súbtil,intensa e deslizante.

Neste livrinho recorda alguns momentos da sua infância. Não tem grandes objectivos. Apenas deixar que as lembranças olhem para ele já velho e o confrontem com calma e amenidade mesmo quando falam de momentos menos alegres.

“Trago em mim os meus rostos anteriores como a árvore tem os anéis da sua idade. O que eu sou é a soma de todos esses rostos. O espelho só vê o meu rosto mais recente, mas eu conheço todos os anteriores.

O trabalho de escritor de Transtromer poderia ou deveria ser o de cada um de nós. O que ele faz é escrever para que alguns lampejos do seu passado lhe iluminem o presente e para que outros, tornados palavras , permitam sarar alguma ferida que possa ainda estar aberta.

Este livrinho não tem uma história mas várias pequenas histórias. Como todos nós as temos.Ensina-nos a olhar para trás através do exercício da escrita ou, como ele diz,faz com que a escrita leve o passado a olhar para si.

Uma da histórias é sobre aquilo que hoje se chama bullying e que dantes apenas se chamava abuso.

Na escola primária um colega maior que ele todos os dias o atirava ao chão. E ele protestava e o colega ontiuava a atirá-lo ao chão. Até que o pequeno Tomas resolveu deixar-se cair mal via o colega. E ele desistiou de o atirar ao chão. Já não tinha graça.

Fiquei parado a sorrir perante esta historinha e estas aprendizagens que também fazem parte do processo de crescimento. É claro que a nossa democracia exige a protecção dos mais fracos. Mas o confronto com os obstáculos e a sua suplantação, pelo uso de estratégias próprias ou pelo apelo às regras do comum convívio é fundamental.

Seria bom, de qualquer maneira, se cada um fizesse como Tomas Transtromer um caderninho de lembranças para arrumar dores, confrontar tempos, dar sentido às rugas.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Incidente em Vichy



BAYARD - O senhor julga que podemos ser eternamente nós próprios numa sociedade como esta? Quantos milhões de pessoas andam esfomeadas e umas tantas vivem como reis? Quando todas as raças são escravos para o abastecimento do mercado? Como é que poderemos ser nós próprios num mundo como este? Eu trabalho dez horas por dia para ganhar meia dúzia de francos por dia; vejo por aí alguns que nunca  dobraram as costas, e esses aí são donos do planeta … Como é que o meu espírito há-de estar onde estiver o meu corpo? Só seu eu for um macaco.

VON BERG - Então, onde é que se encontra o seu espírito?

BAYARD - No futuro. No dia em que a classe operária dominar o mundo. Nisso é que eu tenho esperança … Não será agora com a personalidade de outrem.

VON BERG (muito admirado e com a melhor das intenções) - Mas não lhe parece …? Desculpe. A maior parte dos nazistas, não pertencem eles à classe operária?

BAYARD Sim, naturalmente. Com bastante propaganda, é possível confundir toda a gente.

VON BERG - Bem vejo. (Breve pausa) Mas, nesse caso, como é que se pode ter uma tal confiança neles?

BAYARD _ Em que é que p senhor tem confiança? Na aristocracia?

VON BERG - Muito pouca. Mas em alguns aristocratas, sim. E também em determinadas pessoas, gente do povo, simplesmente.

Incidente em Vichy



"Incidente em Vichy" (1965) é considerada por muitos críticos uma obra menor de Arthur Miller (1915-2005), autor genial das peças "Morte de um Caixeiro Viajante" (1949) e "As bruxas de Salem" (1953). Porém, parece-nos difícil concordar com esta avaliação tendo em vista o escopo e a amplitude de questões abordadas neste rico texto. Uma peça onde Miller abandona o ambiente ideológico e político da sociedade americana que ele conhece tão profundamente para reflectir sobre a opressão, agora sob a forma da brutalidade demencial do nazismo.

A circunstância de um grupo de homens ter sido trazida à força para  apresentar provas de suas identidades, da veracidade de seus papeis de identificação, da dimensão de seus narizes e de serem ou não circuncidados, cria uma situação excepcional onde são confrontadas as convicções, as idiossincrasias, os temores e as esperanças de homens de distinta extracção e condição: um pequeno comerciante, um jovem, dois trabalhadores, um dos quais comunista, um cigano, um médico, um aristocrata austríaco, um actor e um velho judeu que não pronuncia qualquer palavra, pois a sua condição de culpado já está estabelecida a priori e a sua sorte já está selada. 

Outro aspecto que me parece extremamente interessante nesta obra é o paralelismo e, em certa medida, o diálogo com o existencialismo, e muito particularmente, com a obra teatral de Jean Paul Sartre (1905-1980). Identifico na peça de Miller respostas corajosas e originais a algumas das questões suscitas por Sartre, em inúmeras de suas obras, "As mãos sujas" (1948), "A engrenagem" (1948), "Os sequestrados de Altona" (1959), entre outras. Questões puramente existenciais, questões de posicionamento do indivíduo no turbilhão dum momento histórico particularmente destrutivo e de grande clivagem ideológica, e sobretudo, questões de consistência entre o discurso e a praxe.  

Mas se para Sartre a exposição teatral tem ainda uma fundamental componente clássica, no sentido arquétipo e analítico, Miller procura uma solução que empreste ao enredo um paradigma moral e um desenlace quinta-essenciamente teatral. O improvável auto-sacrifício de um dos personagens em prol duma causa que não é a sua, representa o reconhecimento de que toda uma classe social, a aristocracia, tinha atingido o limite de sua validade histórica, porém, a afirmação moral engrandece o valor da resistência individual.      

Orfeu B.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

à MARGEM



Gosto dos romances de Mankell. Já aqui falei deles várias vezes. Gosto bastante de policiais. Mas há policiais e policiais. E Mankell, que me parece ter sido uma óbvia fonte de inspiração para Stieg Larsson, escreve romances em que, para além do enredo policiário, fala-nos da vida real e das grandes inquietações humanas, sociais e políticas do mundo de hoje.

O seu detective, o inspector Kurt Wallander é um ser humano carregado de angústias, dúvidas, questões que o atormentam. O título do livro não podia ser melhor. "Um Homem inquieto" é o personagem principal, oficial de alta patente da Marinha sueca que desaparece inesperadamente e arrasta Wallandar numa investigação que o leva a pisar a fronteira do mundo da grande política e da espionagem.

Mas "Um Homem inquieto" é também , sobretudo Kurt Wallander, o inspector que se interroga sobre crimes, sobre a sociedade onde eles acontecem, sobre si próprio, polícia e homem que se vê envelhecer e procura o seu lugar no mundo.

Mankell é sueco e um dos autores que mais vende livros na Europa. Vive uma parte do ano em Maputo onde é director de uma companhia de teatro. Os temas dos seus romances anteriores vinham sempre rodeados por questionamentos políticos. Mas aqui, Mankell leva as coisas mais longe. E leva mais fundo as dúvidas interiores com que envolve o seu inspector Kurt Wallandar que poderá eventualmente ser uma espécie de seu alter ego.

"Continuo a ser a mesma pessoa à deriva na periferia dos grandes acontecimentos políticos e militares. Sou o mesmo homem inquieto e inseguro e encontro-me à margem, como antes." diz Wallander já no final do livro.

O inspector que tem envelhecido de romance para romance, tem agora 60 anos, sofre de diabetes e tem falhas de memória cada vez mais preocupantes.

O inspector Wallander questiona-se sobre a sua vida, a sua relação com a ex-mulher alcoólica, a filha e a neta, e Baiba, o grande amor da sua vida, que se vem despedir antes de morrer de uma doença sem cura.

Pela primeira vez leio um romance policial em que o autor "apagas " com alzheimer o seu detective que foi também a linha condutora ao longo de vários romances.

Matar o personagem de livros que se continuam através dessa mesma personagem e dos seus rituais próprios parece ser a tentação de alguns escritores de livros em série.

Lembro-me de "Capítulo final", excelente filme de Rob Reiner, em que um autor mata a sua personagem principal de mais de 30 romances. As consequências são terríveis quando o autor se encontra indefeso perante uma fã que não admite essa morte da "sua" personagem.

Imagino que quando se escreve uma série baseado numa mesma personagem, às duas por três, temos de o afastar de nós para que a colagem dos dois não se eternize.

Mas esta forma de "apagar" a personagem que tem a idade que eu tenho, que sofre de diabetes como eu sofro, deixa-me inquieto... Mas não é para isso mesmo que serve a boa literatura?

domingo, 30 de dezembro de 2012

Histórias de Goldkorn

 

Entre uma vida pródiga em benesses e outra feita de amargo azedume existem precisamente momentos assim, que um homem ou despreza ou agarra destemidamente. Pus-me imediatamente em pé, de um salto, e virei-me para o director de orquestra de peito rosado, cujos caracóis molhados aderiam à fronte nobre.

- Maestro - disse, batendo os calcanhares moles do meus sapatos de ponta revirados, tipo bobo. - Aqui tem L. Goldkorn. Licenciado em flauta pela "Akademie fuer Musik, Philosophie, und darstellend Kunst"; instrumentista auxiliar, por designação do imperador, da k. k. Hof-Operntheater Orchester, 1916-1918; e 1919-1938, da Orchester der Wiener Staatsoper. Desde mil nove e quarenta e três cidadão americano. Assinante domiciliário do New York Herald Tribune.   

A. Toscanini erguei os olhos do local onde Wormes estava agitar-se nas bolhas do Geyser. 

-Si. È vero? Un musicista? Flauto? Bravo! Signor Goldkorns, un disco grammofonico!

Eis como, senhoras e senhores, L. Goldkorn se tornou, pelo espaço de um só tarde, membro da National Broadcasting Company Orchestra. Uma só tarde? Apenas no sentido mais grosseiro, mais literal. A nossa gravação, "Aberturas de Ópera Bufa Bem-Amada", na qual, conforme sabeis, executo uma cadenza a solo de O Segredo de Susana, há-de durar por todas as tardes do porvir.

Histórias de Goldkorn.

Um livro de grande imaginação e dum humor muito especial sobre as desventuras do personagem tragicómico, L. Goldkorn, um modesto judeu originário de Viena, transplantado na grande nação da América do Norte por força da destruição material e cultural da Europa pelo nazismo. 

Uma narrativa sobre a voracidade do progresso duma América febril que aliena e transforma o humilde flautista, orgulhoso membro do quinteto de música Steinway do Restaurante Steinway, especializado em grelhados romenos e carne kosher, numa relíquia viva. Um testemunho comovente, embora também cómico dado o suceder de situações insólitas, dos infortúnios dum personagem profundamente humano. Particularmente inesquecível é a descrição da representação de Otelo pelos empregados do Restaurante Steinway visando publicitar e ressuscitar o moribundo estabelecimento, e os comentários do personagem sobre música e sobre a história do quinteto que ao longo da sua longa vida só por uma ocasião admitiu que um músico estranho se juntasse ao grupo, nomeadamente Albert Einstein aquando o grande cientista fez um repasto no restaurante e tocou uma peça com o quinteto. 

Um livro que espelha a imaginação transbordante e a mestria técnica dum grande autor e que analisa com grande verve os estereótipos culturais dos judeus europeus, dos norte-americanos e das múltiplas comunidades culturais de Nova Iorque. A escrita floreada e criativa do autor faz-nos pensar que Leslie Epstein é um brilhante discípulo de língua inglesa de Isaac Bashevis Singer.  

Orfeu B.



ALBERT LONDRES EM VIAGEM ENTRE OS LOUCOS

“Com os Loucos” (edição de Sistema Solar) é uma obra de Albert Londres (1884-1932), um dos grandes jornalistas franceses, das primeiras décadas do século XX, que contribuiu, e em muito, para transformar a crónica jornalística em género literário. Os temas por si abordados tiveram sempre um forte impacto social, não só pela sua actualidade, como pela forma realística como eram tratados. Entre esses temas, destaca-se a série de reportagens que fez a partir das suas visitas a hospitais para loucos, existentes em França, nos anos vinte do século passado. Mundo oculto, protegido pelo segredo médico e por uma legislação restritiva. Mundo desconhecido do grande público, que não sabia, nem queria saber do que se passava para além dos muros de cerca de oitenta hospitais existentes em França, naquela época. Mas Albert Londres, antes de Michel Foucault e da sua “Histoire de la folie”, teve consciência do que acontecia nessas “novas leprosarias” do século XX, nos manicómios em que a sociedade encerrava os que eram diferentes da maioria dos cidadãos, cidadãos que punham em causa o normal funcionamento das instituições sociais. Protegidos pelo sigilo médico e pelo poder administrativo, esses asilos eram locais onde imperava a violência e a crueldade. Depois de muitas dificuldades de ordem burocrática, Albert Londres conseguiu ter acesso a essas casas, onde o progresso social, o respeito pelos direitos individuais ainda não tinham penetrado. Por vezes, com a colaboração de instituições religiosas: “Filhas do diabo, filhas do diabo”, gritava a freira, de cabeça perdida, às loucas enfurecidas que a escandalizavam pelo gesto, pela palavra. Casas em que nem sempre era possível distinguir entre quem era o curador e quem era o que ali se encontrava para ser curado. Falta de preparação do pessoal médico e de enfermagem? Sem dúvida, mas, acima de tudo, desconhecimento do que era a “doença maldita”. Situação que se manteve até ao aparecimento da química médica, que fez do psiquiatra um administrador de fármacos. Situação que eu conheci de perto, através do convívio com tias velhas e outros familiares, que, por vezes, punham fim ao seu sofrimento pelo suicídio. Estamos, pois, perante uma obra literária de estilo incisivo, imbuído de uma certa leveza, como era próprio do jornalismo francês da época. E, simultaneamente, uma obra de denúncia de uma das maiores tragédias de um tempo, que parece longínquo, mas que é quase nosso contemporâneo.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

«Não abras a porta, / se for o sublime diz que não estou, / já temos palavras de mais, sentimentos demais.» Manuel António Pina.

Reunir Poesia 

No universo da literatura a poesia, dizem, é sempre outra coisa. De facto é. Pessoal, boa, má, funciona, não funciona. É para uso pessoal de quem escreve e de quem lê. Há quem nunca a descubra, quem não se sinta por ela tocado. Não sentimos todos a falta das mesmas coisas. Mas algures dentro de um livro de poesia há janelas, emoções, construções mentais. Mais que o dito é a arquitectura das palavras que conta. A Poesia é mais música que qualquer outra arte. Por isso mesmo que não abra mão do silêncio pede voz. E é como o amor, exige sempre dois envolvidos no mesmo ritmo e no mesmo tempo; por vezes toca mais a alma, outras o corpo e acontece em casos raros extraordinários arrebatar ambos, na singular conjugação das estrelas que é a arte dos poetas.
Ousar falar de poesia é um risco. Poucos entendem o parar a vida para nos encantarmos por um poema que nos rasga uma janela na escuridão de um quarto escuro.
A poesia existe para que alguém respire acima da linha de água. Mesmo que para isso tenha sido preciso ao poeta mergulhar nas mais obscuras profundezas dos pântanos ou ter a ventura de voar sobre as mais altas nuvens.
Poesia reunida, poesia toda. Poesia apenas. Uma vida escrita, vista e revista nos poemas que são de novo embrulhados para oferta aos saudosistas ou aos que a descobrem agora, pela vez primeira vez. Um livro de poesia reunida é um balanço de vida, uma espécie de biografia holística. Neste ano que agora termina editaram-se algumas.




Todas as Palavras
poesia reunida
Manuel António Pina
Assírio e Alvim, 2012

Todas as palavras de Manuel António Pina já foram ditas e escritas. Já não resta sequer um sábio fechado na sua biblioteca, apenas a biblioteca, os livros, as páginas, os poemas.

A biblioteca
"O que não pode ser dito/guarda um silêncio/feito de primeiras palavras/ diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,//quando já a incerteza/ e o medo se consomem/em metros alexandrinos./Na biblioteca, em cada livro,// em cada página sobre si/recolhida, às horas mortas em que/a casa se recolheu também/virada para o lado de dentro,//as palavras dormem talvez,/sílaba a sílaba,/o sono cego que dormiram as coisas/antes da chegada dos deuses.//Aí, onde não alcançam nem o poeta/nem a leitura,/o poema está só./E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.//” 
Manuel António Pina





Poesia Reunida
Maria do rosário Pedreira
Quetzal, 2012

Gostei muito de ouvir a Maria do Rosário Pedreira aquando da apresentação deste livro na Livraria Arquivo, em Leiria. Recomendo a todos. Esta Poesia Reunida aguarda leitura detalhada e vai durar Verões e Invernos. Os seus poemas são sempre de amor, o sentimento que melhor justifica a vida mesmo quando antecipa a morte, como sombra que permite atender a luz da vida, são como se tecidos sobre o corpo, uma segunda pele, vivem como árvores resistindo e mudando lenta e amorosamente no passar das estações.


“Vamos ser velhos ao sol nos degraus/da casa; abrir a porta empenada de/tantos invernos e ver o frio soçobrar//no carvão das ruas; espreitar a horta/que o vizinho anda a tricotar e o vento/lhe desmancha de pirraça; deixar a//chaleira negra em redor do fogão para/um chá que nunca sabemos quando/será — porque a vida dos velhos é curta,/mas imensa; dizer as mesmas coisas/muitas vezes por sermos velhos e por/
serem verdade. Eu não quero ser velha//sozinha, mesmo ao sol, nem quero que/sejas velho com mais ninguém. Vamos/ser velhos juntos nos degraus da casa —// se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não/atravesses a rua por uma sombra amiga,/ trago-te o chá e um chapéu quando voltar.//” 
Maria do Rosário Pedreira





Poesia
José Fanha
Lápis de Memórias, 2012


O livro de Poesia de José Fanha é uma edição da editora Lápis de Memórias, de Coimbra. É de um campanheiro destas viagens leitoras mas não vou falar sobre ele,  ainda aguardo com expectativa a sua integral leitura. Apresentado há dias numa livraria de Coimbra que tem o mesmo nome da editora, Lápis de Memórias, traz muitos dos poemas que todos conhecem mas faziam parte de edições há muito tempo esgotadas e também muitos inéditos. Gosto muito do que conheço. A sua poesia é uma voz de razão, emoção e corpo inteiro. Cinco centenas de páginas que percorrem quarenta anos de escrita poética e de vida que a partir de agora vão andar por aí.

A Metáfora
"Encontro o Mestre e digo-lhe que há poetas/que recusam a metáfora/ e o Mestre sorri./A metáfora é apenas a metáfora/diz ele/e não vale a pena ser a favor nem contra a metáfora/nem a favor nem contra seja o que for.//As coisas são e não são/à margem/dos poetas com assento/em casas de comércio/diz o Mestre/enquanto almoça.//A realidade vale exactamente o que vale o nosso olhar./A realidade é um peixe/o peixe nosso de cada poema./E o poeta é uma criança que segue pelos caminhos/ com bolas etéreas/a subir no ar.//O poeta é um menino com olhos/de menino e uma dor/ muito funda no seu peito de menino./O poeta atravessa os pátios da infância/ e vai feliz//dizendo  que as breves metáforas que lança ao ar/são apenas planetas de sabão a explodir/sucessivamente//sobre a cabeça do mundo.// 
José Fanha


Arte Nenhuma

Carlos Poças Falcão
Opera Omnia, 2012

E por fim este “Arte Nenhuma”, também recente, que encontrei na Centésima Página, em Braga, uma livraria onde os livros de poesia têm um espaço maior que o residual habitual em outros espaços e um tempo de existir para lá do vertiginoso chega-logo-desaparece das livrarias. 
É uma edição da OperaOmnia, uma editora de Guimarães, onde vive o seu autor, Carlos Poças Falcão, que conheci num tempo já longínquo, numa época em que Guimarães estava longe de ser capital mas era cidade de cultura. Ao folhear o livro relembrei o Convívio, acho que ainda resiste no Toural, os primeiros passos do festival de Jazz… E o que nenhum de nós sabia, há vinte e cinco anos que é o tempo deste livro, o que a vida traria a uns e outros. Muito menos que a morte, coisa estranha e distante, atropelaria amigos comuns. 
Refiro o conhecimento factual do autor pois me faria, em qualquer circunstância reparar num livro seu. Mas não me obrigaria a falar dele, faço-o porque me surpreendeu, sem espanto, a solidez do seu percurso.
Começou a escrever em 1987 com “Número Perfeito”, foi professor depois de largar uma breve e excruciante experiência na advogacia, abraçou um projecto editorial, a Pedra Formosa, e a poesia foi acontecendo. Vinte e cinco anos depois encontro-a mais sofrida mas menos angulosa. O tempo adoçou-o embora continue a preferir o crescimento dos cristais como metáfora do enovelamento dos afectos. Desde a saída do último livro que li dele, “Invisivel simples”, em 1988, que não nos cruzamos. Este livro foi um reencontro. Tal como o esperado as palavras são buriladas mas não é apenas um exercício de palavras há pensamento, reflexão. Não é um livro fácil, nem áspero, é sério e profundo. Creio que nenhum exigente leitor de poesia sairá defraudado.

Arte Nenhuma
"Por arte nenhuma, murmuração, momentos/de não saber cair, o poeta é quase nada./Atravessa a rua, sobe a escada, ao abrir a porta/está mudado: é um batimento estranho,/o coração antigo, toda a aprendizagem/semelhante a uma ruína. Espera ficar árido/até apanhar luz, assim como um deserto,/um poço para a voz, a espelhar ao fundo./Depois abre a janela, está vazio, pronto/a mudar de vez: porque esse é o poema,/a respiração a negro na frequência exacta/de uma espécie de onda, alísea, não criada.//”
                                                                                                                               

Os poetas são resistentes marginais mesmo quando estão por dentro. São pessoas desconfortadas. Podem louvar ou odiar a humanidade, ser laureados ou proscritos. Amam uma pessoa ou muitas, cada uma na sua singularidade de ser e género. Mas num lugar qualquer um poeta luta sozinho com o branco onde inscreve as palavras por razões e necessidades que nem quem os ama pode atender.
No “Pequeno livro azul”, dedicado a sua mulher, a Mizé, que morreu no ano passado, dá a sua voz à dela, afunda-se na dor de quem sofre, omitindo a sua própria ao ver morrer a mulher amada. Vemos o pequeno e limitado mundo do quarto do hospital pelos olhos dela, de forma crua e delicada faz-nos sentir impossibilidade, dor,  lucidez,  abandono e fúria a agarrar a vida. O sofrimento na sua esperança e desesperança. Não é um capítulo para mentes sensíveis. A dor cada uma a toma como é capaz de melhor a suportar: a breves tragos ou toda de uma vez.

“Olhar o tecto/respirar baixinho/Estar nas mãos de Deus//”
(…)
“o corpo, pobre corpo/esta choupana/e uma luz lá dentro/que o ama/que o ama//”

Arte Nenhuma é uma antologia encorpada na sua essência, nos sentimentos que guarda nos duelos mentais que constroem os poemas. Sendo que os livros são também o que deles dizemos, falta-me a mim arte para falar dele, dela, a poesia, que é melhor lida que em tentativa explicada ou justificada. Mas eu posso dizer o que me aprouver neste canto, humilde espaço de leitores (in)comuns.
O diálogo com deus é um diálogo aberto no qual podemos retomar as perguntas e quem sabe deus nos responda perguntas para buscarmos outras e quem sabe um dia chegar a algumas poucas respostas.

(…)
“Sei que não devo perguntar. Mas gostaria de entender porque tem de ser assim. Nada/ devo perguntar, pois a resposta é sempre uma outra torrente de sinais- e o coração/ confunde-se e a inteligência fica dividida.//”
(…)
 “Deus dava uma pancada na coxa com a Sua larga mão./ E eu ficava sem saber o que fazer. Para que são estes sinais/Intensos? Apetecia-me chorar, pois não estava á altura das/ revelações. E desejava estancar o tempo, que é por onde/Deus lança os seus sinais//”

Há, desde o início com “O Número Perfeito” uma força no mistério telúrico das palavras que se prolonga e acentua nas criações mais recentes.

“As pedras têm uma forma própria de ir cavando a terra,/à força de humidade, aconchegando as larvas e pesando,/pesando sempre. Um dia alguém levanta uma e há um rede-/moinho nesse nicho que lentamente se afundava.//”
(…)
“Assim também as casas. Se alguém levanta uma, pode/encontrar ossadas, ou a antiga mancha das adegas e os ratos/ficarão assustados pela súbita ausência de peso.//”

E há a arte de fazer haikus, com o rigor de um perfumista que se nota a cada gota, no Coração Alcantilado.

“Não te envaideças tanto, ó flor!/Olha à tua volta:/Primavera!//”
(…)
“Exige todo o sol/e o mês de Maio longo/uma cereja!//”

Na poesia do Poças Falcão o lugar dos afectos tem forma despojada mas profunda. Há uma tentativa de busca de perenidade nos fenómenos cíclicos da natureza, na lentidão geológica das pedras. Uma contenção de palavras que nos leva a perguntar mais uma vez e outra dentro de cada um. No princípio parecia regida por leis mais abstractas e geométricas agora persegue outras mais flexíveis que regem o ser. Há agora um lado mais concreto a par da abstracção. Há uma lamentação nas coisas imperfeitas, como se amassem, como se recordassem. Tudo pede um deus e o encontro com ele é um exercício solitário de confronto com um criador sábio que se diverte como um pai a deixar que o filho descubra o caminho, sabendo-o sempre em aberto na descoberta. Há na imperfeição maceração de  terra e criaturas, alimento para a vida, medições de temperaturas…Auscultação dos arenitos, restos de chuva, erosões gravadas. A busca na natureza, nos elementos, nos tempos geológicos da segurança que nos foge na nossa humanidade.

(…)Somos líquidos/amamos a fragmentação, a incansável/desordem da matéria. Com a pequena voz /enfrentamos o tempo, com a brancura/de uma subtil lenta paixão. Ao unirmos/separamos. Intuímos uma funda duração/um denso envolvimento, uma gravitação.//”

Vinte e cinco anos. “Arte Nenhuma”, o próprio título metáfora da própria poesia. Arte Nenhuma a ela se compara.

“Agora outra vez a caminhar/Atraso de propósito o bater de vários ritmos/Não estou contra/não vou contra/apenas subo um pouco/ e desacelero/Assim vou desdobrando/um fio de oração sobre a cidade/Depois dos triunfos/e das pequenas mortes/é só pela humildade (a terra da alegria)/que posso regressar//” 

No ano que se segue todos vão fazer listas rigorosas de coisas úteis versus outras ainda mais rigorosas de coisas dispensáveis. Acrescentem a essa primeira lista, por favor, um ou outro livro de poesia. Antes isso que medicamentos, mesmo que esses contribuam mais para a economia, para a reabilitação do mercado. Antes a poesia. Os medicamentos têm contra-indicações e a economia, caros leitores, foi um brinquedo na mão de iletrados que não se deram conta a tempo que eram humanos os números das suas equações. Antes a poesia que é ela própria a expressão máxima de nossa humanidade. Uma luz segura na noite que atravessamos, iluminando cada um segundo o seu caminho. Um mundo de perguntas, de buscas e de lutas. Não há sombras a não ser nos nossos olhos. Dizer tanto do poder de um livro pode parecer excessivo. Mas por vezes um singular poema tem esse poder. A poesia que se publica bastante, vende pouco e muito se perde por aí nunca será um fenómeno de massas. Nunca pesará no PIB. É inútil e absolutamente necessária para tecer os dias.