terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Cantatrix Sopranica L.

Experimental demonstration of the tomatotopic organization in the Soprano (Cantatirx sopranica L.)

George Perec
Laboratoire de physiologie
Facultè de médicine Saint-Antoine
Paris, France

Sommaire

Démonstration expérimentale d'une organization tomatotopic chez la Cantatrice.

L'auteur étude les fois que le lancement de la tomate il provoquit la réaction yellante chez la Chantatrice e demonstre que divers plusieures aires de la cervelle elles était implicatées dans le response, en particular, le trajet légumier, le nuclei thalemeux et la fiçure musicien de l'hémisphère nord. 


Cantatrix sopranica L. é uma colectânea póstuma de textos do brilhante e original autor francês George Perec (1936-1982). Perec é conhecido pelo ecletismo dos seus interesses e por obras como por exemplo, "La Vie mode d'emploi" de 1979, um vasto e complexo romance escrito de modo a simular o movimento das peças num jogo de xadrez ascendente ao longo duma escada, e pela novela de 300 páginas "La disparition" (1969), escrita sem nunca usar a letra "e", desaparição que é uma metáfora do destino dos judeus na Segunda Grande Guerra. 

   
Concretamente, Cantatrix sopranica L. consiste dum conjunto de cinco textos cómicos, escritos em linguagem pseudo-científica. O primeiro destes, escrito em inglês, descreve as reacções cerebrais causadas numa soprano quando submetida ao lançamento de tomates. Há uma discussão introductória de contextualização, uma descrição do grupo de estudo, 107 saudáveis sopranos do Conservatório Nacional de Música,  com peso compreendido entre 94 e 124 quilos, que são convenientemente monitoradas; uma discussão metodológica sobre o equipamento de aquisição e gravação dos dados; uma descrição das regiões cerebrais afectadas em função da carga tomática lançada; uma discussão de cenários interpretativos possíveis; finalmente, o texto é concluído com uma bibliografia que inclue autores como: Alka-Seltzer; Chou, O. & Lai, A.; Einstein, Z.,  Zweistein, D., Dreistein, V., Vierstein, F. & St. Pierre; Giscard d'Estaing; Marks, C.N.R.S. & Spencer, D.G.R.S.T., Wait, H. & See, C., entre outros!
    
Os textos seguintes versam sobre entomologia, uma homenagem a um humorista, uma obra fictícia sobre a catedral de Chartres, e finalmente um texto, escrito conjuntamente com Harry Mathews, sobre o escritor Raymond Roussel e a geografia melancólica inspirada por Veneza.

Cantatrix sopranica L. propicia uma leitura agradável e refrescante, e despretensiosamente, nos remete a uma reflexão sobre a especificidade do jargão científico, e de como a sua pretensa objectividade não é de todo um garante da seriedade dos assuntos em análise. 

Finalmente, parece-nos relevante mencionar que o texto de Perec precede de alguns anos a instituição dos Prémios Ig Nobel, paródia do Prémio Nobel, atribuídos todos os anos em Outubro a dez trabalhos científicos particularmente bizarros, cómicos ou triviais. Os primeiros Ig Nobel foram criados em 1991 pelo norte-americano Marc Abrahams, editor e co-fundador dos "Annals of Improbable Research", revista de humor "científico".  


Orfeu B.



sábado, 26 de janeiro de 2013

VIAGEM A TRALALÁ OU A PARTE NENHUMA


Wladimir Kaminer, nascido em 67 é um filho da decadência e queda do chamado bloco socialista, cujo desmembramento analisa com algum brilhantismo e momentos de uma invejável ironia e algum cinismo.

Vivendo a adolescência no seio de uma cultura pop russa, cedo foi viver para a Alemanha onde se tornou em escritor, homem de rádio, animador cultural e humorista de grande sucesso.

A Cavalo de Ferro publicou 2 dos seus mais famosos livros, Militärmusik e Russendisko.

A colecção em que a Tinta da China tem publicado notávens livros de viagens publicou agora um livro ao contrário, quer dizer, um livro de não viagens ou de viagens que não se chegam a fazer; "Viagem a Tralalá" de Wladimir Kaminer.

Trata-se de um livro com momentos verdadeiramente desopilantes a par da sarcástica mas por vezes dolorosa narração de uma juventude russa que perde qualquer
capacidade de estabelecer um caminho de vida e se deixa viver ao sabor do dia-a-dia, navegando no álcool, nos pequenos golpes e empregos como sobrevivência, na busca do seu lugar numa europa que não conhece e a que tem dificuldade em adaptar-se.

Das viagens que o narrador não chega a fazer destaca-se a delirante narrativa de uma cidade falsa construida no sul da Rússia que faz de Paris no Verão e Londres no Inverno e para onde são enviados os operários premiados pelos seus êxitos na produção, convencidos que estão mesmo a visitar Paris e Londres.

O humor é uma das artes mais difíceis e embriagadoras entre todas as vertentes da literatura e do espectáculo.

O humor rebenta como uma bolha de novidades desopilantes mas rapidamente se torna pesado, cansativo, repetitivo.

Porque o humor nasce de uma forma particular de olhar o mundo e a vida ao contrário que surpreende o espexctactador ou o leitor e provoca o riso. Quando o o público começa a conhecer aquele mecanismo particular de fazer humor, passa a habitar a fácil previsão e a possível decepção.

"Viagema a tralalá" tem a dimensão exacta para o bebermos como um licor saboroso sem chegar a sentir-lhe o inevitável sarro se se prolongasse mais do que a conta.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

OS ROSTOS ANTERIORES


A escrita de Transtromer é discreta, súbtil,intensa e deslizante.

Neste livrinho recorda alguns momentos da sua infância. Não tem grandes objectivos. Apenas deixar que as lembranças olhem para ele já velho e o confrontem com calma e amenidade mesmo quando falam de momentos menos alegres.

“Trago em mim os meus rostos anteriores como a árvore tem os anéis da sua idade. O que eu sou é a soma de todos esses rostos. O espelho só vê o meu rosto mais recente, mas eu conheço todos os anteriores.

O trabalho de escritor de Transtromer poderia ou deveria ser o de cada um de nós. O que ele faz é escrever para que alguns lampejos do seu passado lhe iluminem o presente e para que outros, tornados palavras , permitam sarar alguma ferida que possa ainda estar aberta.

Este livrinho não tem uma história mas várias pequenas histórias. Como todos nós as temos.Ensina-nos a olhar para trás através do exercício da escrita ou, como ele diz,faz com que a escrita leve o passado a olhar para si.

Uma da histórias é sobre aquilo que hoje se chama bullying e que dantes apenas se chamava abuso.

Na escola primária um colega maior que ele todos os dias o atirava ao chão. E ele protestava e o colega ontiuava a atirá-lo ao chão. Até que o pequeno Tomas resolveu deixar-se cair mal via o colega. E ele desistiou de o atirar ao chão. Já não tinha graça.

Fiquei parado a sorrir perante esta historinha e estas aprendizagens que também fazem parte do processo de crescimento. É claro que a nossa democracia exige a protecção dos mais fracos. Mas o confronto com os obstáculos e a sua suplantação, pelo uso de estratégias próprias ou pelo apelo às regras do comum convívio é fundamental.

Seria bom, de qualquer maneira, se cada um fizesse como Tomas Transtromer um caderninho de lembranças para arrumar dores, confrontar tempos, dar sentido às rugas.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Incidente em Vichy



BAYARD - O senhor julga que podemos ser eternamente nós próprios numa sociedade como esta? Quantos milhões de pessoas andam esfomeadas e umas tantas vivem como reis? Quando todas as raças são escravos para o abastecimento do mercado? Como é que poderemos ser nós próprios num mundo como este? Eu trabalho dez horas por dia para ganhar meia dúzia de francos por dia; vejo por aí alguns que nunca  dobraram as costas, e esses aí são donos do planeta … Como é que o meu espírito há-de estar onde estiver o meu corpo? Só seu eu for um macaco.

VON BERG - Então, onde é que se encontra o seu espírito?

BAYARD - No futuro. No dia em que a classe operária dominar o mundo. Nisso é que eu tenho esperança … Não será agora com a personalidade de outrem.

VON BERG (muito admirado e com a melhor das intenções) - Mas não lhe parece …? Desculpe. A maior parte dos nazistas, não pertencem eles à classe operária?

BAYARD Sim, naturalmente. Com bastante propaganda, é possível confundir toda a gente.

VON BERG - Bem vejo. (Breve pausa) Mas, nesse caso, como é que se pode ter uma tal confiança neles?

BAYARD _ Em que é que p senhor tem confiança? Na aristocracia?

VON BERG - Muito pouca. Mas em alguns aristocratas, sim. E também em determinadas pessoas, gente do povo, simplesmente.

Incidente em Vichy



"Incidente em Vichy" (1965) é considerada por muitos críticos uma obra menor de Arthur Miller (1915-2005), autor genial das peças "Morte de um Caixeiro Viajante" (1949) e "As bruxas de Salem" (1953). Porém, parece-nos difícil concordar com esta avaliação tendo em vista o escopo e a amplitude de questões abordadas neste rico texto. Uma peça onde Miller abandona o ambiente ideológico e político da sociedade americana que ele conhece tão profundamente para reflectir sobre a opressão, agora sob a forma da brutalidade demencial do nazismo.

A circunstância de um grupo de homens ter sido trazida à força para  apresentar provas de suas identidades, da veracidade de seus papeis de identificação, da dimensão de seus narizes e de serem ou não circuncidados, cria uma situação excepcional onde são confrontadas as convicções, as idiossincrasias, os temores e as esperanças de homens de distinta extracção e condição: um pequeno comerciante, um jovem, dois trabalhadores, um dos quais comunista, um cigano, um médico, um aristocrata austríaco, um actor e um velho judeu que não pronuncia qualquer palavra, pois a sua condição de culpado já está estabelecida a priori e a sua sorte já está selada. 

Outro aspecto que me parece extremamente interessante nesta obra é o paralelismo e, em certa medida, o diálogo com o existencialismo, e muito particularmente, com a obra teatral de Jean Paul Sartre (1905-1980). Identifico na peça de Miller respostas corajosas e originais a algumas das questões suscitas por Sartre, em inúmeras de suas obras, "As mãos sujas" (1948), "A engrenagem" (1948), "Os sequestrados de Altona" (1959), entre outras. Questões puramente existenciais, questões de posicionamento do indivíduo no turbilhão dum momento histórico particularmente destrutivo e de grande clivagem ideológica, e sobretudo, questões de consistência entre o discurso e a praxe.  

Mas se para Sartre a exposição teatral tem ainda uma fundamental componente clássica, no sentido arquétipo e analítico, Miller procura uma solução que empreste ao enredo um paradigma moral e um desenlace quinta-essenciamente teatral. O improvável auto-sacrifício de um dos personagens em prol duma causa que não é a sua, representa o reconhecimento de que toda uma classe social, a aristocracia, tinha atingido o limite de sua validade histórica, porém, a afirmação moral engrandece o valor da resistência individual.      

Orfeu B.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

à MARGEM



Gosto dos romances de Mankell. Já aqui falei deles várias vezes. Gosto bastante de policiais. Mas há policiais e policiais. E Mankell, que me parece ter sido uma óbvia fonte de inspiração para Stieg Larsson, escreve romances em que, para além do enredo policiário, fala-nos da vida real e das grandes inquietações humanas, sociais e políticas do mundo de hoje.

O seu detective, o inspector Kurt Wallander é um ser humano carregado de angústias, dúvidas, questões que o atormentam. O título do livro não podia ser melhor. "Um Homem inquieto" é o personagem principal, oficial de alta patente da Marinha sueca que desaparece inesperadamente e arrasta Wallandar numa investigação que o leva a pisar a fronteira do mundo da grande política e da espionagem.

Mas "Um Homem inquieto" é também , sobretudo Kurt Wallander, o inspector que se interroga sobre crimes, sobre a sociedade onde eles acontecem, sobre si próprio, polícia e homem que se vê envelhecer e procura o seu lugar no mundo.

Mankell é sueco e um dos autores que mais vende livros na Europa. Vive uma parte do ano em Maputo onde é director de uma companhia de teatro. Os temas dos seus romances anteriores vinham sempre rodeados por questionamentos políticos. Mas aqui, Mankell leva as coisas mais longe. E leva mais fundo as dúvidas interiores com que envolve o seu inspector Kurt Wallandar que poderá eventualmente ser uma espécie de seu alter ego.

"Continuo a ser a mesma pessoa à deriva na periferia dos grandes acontecimentos políticos e militares. Sou o mesmo homem inquieto e inseguro e encontro-me à margem, como antes." diz Wallander já no final do livro.

O inspector que tem envelhecido de romance para romance, tem agora 60 anos, sofre de diabetes e tem falhas de memória cada vez mais preocupantes.

O inspector Wallander questiona-se sobre a sua vida, a sua relação com a ex-mulher alcoólica, a filha e a neta, e Baiba, o grande amor da sua vida, que se vem despedir antes de morrer de uma doença sem cura.

Pela primeira vez leio um romance policial em que o autor "apagas " com alzheimer o seu detective que foi também a linha condutora ao longo de vários romances.

Matar o personagem de livros que se continuam através dessa mesma personagem e dos seus rituais próprios parece ser a tentação de alguns escritores de livros em série.

Lembro-me de "Capítulo final", excelente filme de Rob Reiner, em que um autor mata a sua personagem principal de mais de 30 romances. As consequências são terríveis quando o autor se encontra indefeso perante uma fã que não admite essa morte da "sua" personagem.

Imagino que quando se escreve uma série baseado numa mesma personagem, às duas por três, temos de o afastar de nós para que a colagem dos dois não se eternize.

Mas esta forma de "apagar" a personagem que tem a idade que eu tenho, que sofre de diabetes como eu sofro, deixa-me inquieto... Mas não é para isso mesmo que serve a boa literatura?

domingo, 30 de dezembro de 2012

Histórias de Goldkorn

 

Entre uma vida pródiga em benesses e outra feita de amargo azedume existem precisamente momentos assim, que um homem ou despreza ou agarra destemidamente. Pus-me imediatamente em pé, de um salto, e virei-me para o director de orquestra de peito rosado, cujos caracóis molhados aderiam à fronte nobre.

- Maestro - disse, batendo os calcanhares moles do meus sapatos de ponta revirados, tipo bobo. - Aqui tem L. Goldkorn. Licenciado em flauta pela "Akademie fuer Musik, Philosophie, und darstellend Kunst"; instrumentista auxiliar, por designação do imperador, da k. k. Hof-Operntheater Orchester, 1916-1918; e 1919-1938, da Orchester der Wiener Staatsoper. Desde mil nove e quarenta e três cidadão americano. Assinante domiciliário do New York Herald Tribune.   

A. Toscanini erguei os olhos do local onde Wormes estava agitar-se nas bolhas do Geyser. 

-Si. È vero? Un musicista? Flauto? Bravo! Signor Goldkorns, un disco grammofonico!

Eis como, senhoras e senhores, L. Goldkorn se tornou, pelo espaço de um só tarde, membro da National Broadcasting Company Orchestra. Uma só tarde? Apenas no sentido mais grosseiro, mais literal. A nossa gravação, "Aberturas de Ópera Bufa Bem-Amada", na qual, conforme sabeis, executo uma cadenza a solo de O Segredo de Susana, há-de durar por todas as tardes do porvir.

Histórias de Goldkorn.

Um livro de grande imaginação e dum humor muito especial sobre as desventuras do personagem tragicómico, L. Goldkorn, um modesto judeu originário de Viena, transplantado na grande nação da América do Norte por força da destruição material e cultural da Europa pelo nazismo. 

Uma narrativa sobre a voracidade do progresso duma América febril que aliena e transforma o humilde flautista, orgulhoso membro do quinteto de música Steinway do Restaurante Steinway, especializado em grelhados romenos e carne kosher, numa relíquia viva. Um testemunho comovente, embora também cómico dado o suceder de situações insólitas, dos infortúnios dum personagem profundamente humano. Particularmente inesquecível é a descrição da representação de Otelo pelos empregados do Restaurante Steinway visando publicitar e ressuscitar o moribundo estabelecimento, e os comentários do personagem sobre música e sobre a história do quinteto que ao longo da sua longa vida só por uma ocasião admitiu que um músico estranho se juntasse ao grupo, nomeadamente Albert Einstein aquando o grande cientista fez um repasto no restaurante e tocou uma peça com o quinteto. 

Um livro que espelha a imaginação transbordante e a mestria técnica dum grande autor e que analisa com grande verve os estereótipos culturais dos judeus europeus, dos norte-americanos e das múltiplas comunidades culturais de Nova Iorque. A escrita floreada e criativa do autor faz-nos pensar que Leslie Epstein é um brilhante discípulo de língua inglesa de Isaac Bashevis Singer.  

Orfeu B.



ALBERT LONDRES EM VIAGEM ENTRE OS LOUCOS

“Com os Loucos” (edição de Sistema Solar) é uma obra de Albert Londres (1884-1932), um dos grandes jornalistas franceses, das primeiras décadas do século XX, que contribuiu, e em muito, para transformar a crónica jornalística em género literário. Os temas por si abordados tiveram sempre um forte impacto social, não só pela sua actualidade, como pela forma realística como eram tratados. Entre esses temas, destaca-se a série de reportagens que fez a partir das suas visitas a hospitais para loucos, existentes em França, nos anos vinte do século passado. Mundo oculto, protegido pelo segredo médico e por uma legislação restritiva. Mundo desconhecido do grande público, que não sabia, nem queria saber do que se passava para além dos muros de cerca de oitenta hospitais existentes em França, naquela época. Mas Albert Londres, antes de Michel Foucault e da sua “Histoire de la folie”, teve consciência do que acontecia nessas “novas leprosarias” do século XX, nos manicómios em que a sociedade encerrava os que eram diferentes da maioria dos cidadãos, cidadãos que punham em causa o normal funcionamento das instituições sociais. Protegidos pelo sigilo médico e pelo poder administrativo, esses asilos eram locais onde imperava a violência e a crueldade. Depois de muitas dificuldades de ordem burocrática, Albert Londres conseguiu ter acesso a essas casas, onde o progresso social, o respeito pelos direitos individuais ainda não tinham penetrado. Por vezes, com a colaboração de instituições religiosas: “Filhas do diabo, filhas do diabo”, gritava a freira, de cabeça perdida, às loucas enfurecidas que a escandalizavam pelo gesto, pela palavra. Casas em que nem sempre era possível distinguir entre quem era o curador e quem era o que ali se encontrava para ser curado. Falta de preparação do pessoal médico e de enfermagem? Sem dúvida, mas, acima de tudo, desconhecimento do que era a “doença maldita”. Situação que se manteve até ao aparecimento da química médica, que fez do psiquiatra um administrador de fármacos. Situação que eu conheci de perto, através do convívio com tias velhas e outros familiares, que, por vezes, punham fim ao seu sofrimento pelo suicídio. Estamos, pois, perante uma obra literária de estilo incisivo, imbuído de uma certa leveza, como era próprio do jornalismo francês da época. E, simultaneamente, uma obra de denúncia de uma das maiores tragédias de um tempo, que parece longínquo, mas que é quase nosso contemporâneo.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

«Não abras a porta, / se for o sublime diz que não estou, / já temos palavras de mais, sentimentos demais.» Manuel António Pina.

Reunir Poesia 

No universo da literatura a poesia, dizem, é sempre outra coisa. De facto é. Pessoal, boa, má, funciona, não funciona. É para uso pessoal de quem escreve e de quem lê. Há quem nunca a descubra, quem não se sinta por ela tocado. Não sentimos todos a falta das mesmas coisas. Mas algures dentro de um livro de poesia há janelas, emoções, construções mentais. Mais que o dito é a arquitectura das palavras que conta. A Poesia é mais música que qualquer outra arte. Por isso mesmo que não abra mão do silêncio pede voz. E é como o amor, exige sempre dois envolvidos no mesmo ritmo e no mesmo tempo; por vezes toca mais a alma, outras o corpo e acontece em casos raros extraordinários arrebatar ambos, na singular conjugação das estrelas que é a arte dos poetas.
Ousar falar de poesia é um risco. Poucos entendem o parar a vida para nos encantarmos por um poema que nos rasga uma janela na escuridão de um quarto escuro.
A poesia existe para que alguém respire acima da linha de água. Mesmo que para isso tenha sido preciso ao poeta mergulhar nas mais obscuras profundezas dos pântanos ou ter a ventura de voar sobre as mais altas nuvens.
Poesia reunida, poesia toda. Poesia apenas. Uma vida escrita, vista e revista nos poemas que são de novo embrulhados para oferta aos saudosistas ou aos que a descobrem agora, pela vez primeira vez. Um livro de poesia reunida é um balanço de vida, uma espécie de biografia holística. Neste ano que agora termina editaram-se algumas.




Todas as Palavras
poesia reunida
Manuel António Pina
Assírio e Alvim, 2012

Todas as palavras de Manuel António Pina já foram ditas e escritas. Já não resta sequer um sábio fechado na sua biblioteca, apenas a biblioteca, os livros, as páginas, os poemas.

A biblioteca
"O que não pode ser dito/guarda um silêncio/feito de primeiras palavras/ diante do poema, que chega sempre demasiadamente tarde,//quando já a incerteza/ e o medo se consomem/em metros alexandrinos./Na biblioteca, em cada livro,// em cada página sobre si/recolhida, às horas mortas em que/a casa se recolheu também/virada para o lado de dentro,//as palavras dormem talvez,/sílaba a sílaba,/o sono cego que dormiram as coisas/antes da chegada dos deuses.//Aí, onde não alcançam nem o poeta/nem a leitura,/o poema está só./E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.//” 
Manuel António Pina





Poesia Reunida
Maria do rosário Pedreira
Quetzal, 2012

Gostei muito de ouvir a Maria do Rosário Pedreira aquando da apresentação deste livro na Livraria Arquivo, em Leiria. Recomendo a todos. Esta Poesia Reunida aguarda leitura detalhada e vai durar Verões e Invernos. Os seus poemas são sempre de amor, o sentimento que melhor justifica a vida mesmo quando antecipa a morte, como sombra que permite atender a luz da vida, são como se tecidos sobre o corpo, uma segunda pele, vivem como árvores resistindo e mudando lenta e amorosamente no passar das estações.


“Vamos ser velhos ao sol nos degraus/da casa; abrir a porta empenada de/tantos invernos e ver o frio soçobrar//no carvão das ruas; espreitar a horta/que o vizinho anda a tricotar e o vento/lhe desmancha de pirraça; deixar a//chaleira negra em redor do fogão para/um chá que nunca sabemos quando/será — porque a vida dos velhos é curta,/mas imensa; dizer as mesmas coisas/muitas vezes por sermos velhos e por/
serem verdade. Eu não quero ser velha//sozinha, mesmo ao sol, nem quero que/sejas velho com mais ninguém. Vamos/ser velhos juntos nos degraus da casa —// se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não/atravesses a rua por uma sombra amiga,/ trago-te o chá e um chapéu quando voltar.//” 
Maria do Rosário Pedreira





Poesia
José Fanha
Lápis de Memórias, 2012


O livro de Poesia de José Fanha é uma edição da editora Lápis de Memórias, de Coimbra. É de um campanheiro destas viagens leitoras mas não vou falar sobre ele,  ainda aguardo com expectativa a sua integral leitura. Apresentado há dias numa livraria de Coimbra que tem o mesmo nome da editora, Lápis de Memórias, traz muitos dos poemas que todos conhecem mas faziam parte de edições há muito tempo esgotadas e também muitos inéditos. Gosto muito do que conheço. A sua poesia é uma voz de razão, emoção e corpo inteiro. Cinco centenas de páginas que percorrem quarenta anos de escrita poética e de vida que a partir de agora vão andar por aí.

A Metáfora
"Encontro o Mestre e digo-lhe que há poetas/que recusam a metáfora/ e o Mestre sorri./A metáfora é apenas a metáfora/diz ele/e não vale a pena ser a favor nem contra a metáfora/nem a favor nem contra seja o que for.//As coisas são e não são/à margem/dos poetas com assento/em casas de comércio/diz o Mestre/enquanto almoça.//A realidade vale exactamente o que vale o nosso olhar./A realidade é um peixe/o peixe nosso de cada poema./E o poeta é uma criança que segue pelos caminhos/ com bolas etéreas/a subir no ar.//O poeta é um menino com olhos/de menino e uma dor/ muito funda no seu peito de menino./O poeta atravessa os pátios da infância/ e vai feliz//dizendo  que as breves metáforas que lança ao ar/são apenas planetas de sabão a explodir/sucessivamente//sobre a cabeça do mundo.// 
José Fanha


Arte Nenhuma

Carlos Poças Falcão
Opera Omnia, 2012

E por fim este “Arte Nenhuma”, também recente, que encontrei na Centésima Página, em Braga, uma livraria onde os livros de poesia têm um espaço maior que o residual habitual em outros espaços e um tempo de existir para lá do vertiginoso chega-logo-desaparece das livrarias. 
É uma edição da OperaOmnia, uma editora de Guimarães, onde vive o seu autor, Carlos Poças Falcão, que conheci num tempo já longínquo, numa época em que Guimarães estava longe de ser capital mas era cidade de cultura. Ao folhear o livro relembrei o Convívio, acho que ainda resiste no Toural, os primeiros passos do festival de Jazz… E o que nenhum de nós sabia, há vinte e cinco anos que é o tempo deste livro, o que a vida traria a uns e outros. Muito menos que a morte, coisa estranha e distante, atropelaria amigos comuns. 
Refiro o conhecimento factual do autor pois me faria, em qualquer circunstância reparar num livro seu. Mas não me obrigaria a falar dele, faço-o porque me surpreendeu, sem espanto, a solidez do seu percurso.
Começou a escrever em 1987 com “Número Perfeito”, foi professor depois de largar uma breve e excruciante experiência na advogacia, abraçou um projecto editorial, a Pedra Formosa, e a poesia foi acontecendo. Vinte e cinco anos depois encontro-a mais sofrida mas menos angulosa. O tempo adoçou-o embora continue a preferir o crescimento dos cristais como metáfora do enovelamento dos afectos. Desde a saída do último livro que li dele, “Invisivel simples”, em 1988, que não nos cruzamos. Este livro foi um reencontro. Tal como o esperado as palavras são buriladas mas não é apenas um exercício de palavras há pensamento, reflexão. Não é um livro fácil, nem áspero, é sério e profundo. Creio que nenhum exigente leitor de poesia sairá defraudado.

Arte Nenhuma
"Por arte nenhuma, murmuração, momentos/de não saber cair, o poeta é quase nada./Atravessa a rua, sobe a escada, ao abrir a porta/está mudado: é um batimento estranho,/o coração antigo, toda a aprendizagem/semelhante a uma ruína. Espera ficar árido/até apanhar luz, assim como um deserto,/um poço para a voz, a espelhar ao fundo./Depois abre a janela, está vazio, pronto/a mudar de vez: porque esse é o poema,/a respiração a negro na frequência exacta/de uma espécie de onda, alísea, não criada.//”
                                                                                                                               

Os poetas são resistentes marginais mesmo quando estão por dentro. São pessoas desconfortadas. Podem louvar ou odiar a humanidade, ser laureados ou proscritos. Amam uma pessoa ou muitas, cada uma na sua singularidade de ser e género. Mas num lugar qualquer um poeta luta sozinho com o branco onde inscreve as palavras por razões e necessidades que nem quem os ama pode atender.
No “Pequeno livro azul”, dedicado a sua mulher, a Mizé, que morreu no ano passado, dá a sua voz à dela, afunda-se na dor de quem sofre, omitindo a sua própria ao ver morrer a mulher amada. Vemos o pequeno e limitado mundo do quarto do hospital pelos olhos dela, de forma crua e delicada faz-nos sentir impossibilidade, dor,  lucidez,  abandono e fúria a agarrar a vida. O sofrimento na sua esperança e desesperança. Não é um capítulo para mentes sensíveis. A dor cada uma a toma como é capaz de melhor a suportar: a breves tragos ou toda de uma vez.

“Olhar o tecto/respirar baixinho/Estar nas mãos de Deus//”
(…)
“o corpo, pobre corpo/esta choupana/e uma luz lá dentro/que o ama/que o ama//”

Arte Nenhuma é uma antologia encorpada na sua essência, nos sentimentos que guarda nos duelos mentais que constroem os poemas. Sendo que os livros são também o que deles dizemos, falta-me a mim arte para falar dele, dela, a poesia, que é melhor lida que em tentativa explicada ou justificada. Mas eu posso dizer o que me aprouver neste canto, humilde espaço de leitores (in)comuns.
O diálogo com deus é um diálogo aberto no qual podemos retomar as perguntas e quem sabe deus nos responda perguntas para buscarmos outras e quem sabe um dia chegar a algumas poucas respostas.

(…)
“Sei que não devo perguntar. Mas gostaria de entender porque tem de ser assim. Nada/ devo perguntar, pois a resposta é sempre uma outra torrente de sinais- e o coração/ confunde-se e a inteligência fica dividida.//”
(…)
 “Deus dava uma pancada na coxa com a Sua larga mão./ E eu ficava sem saber o que fazer. Para que são estes sinais/Intensos? Apetecia-me chorar, pois não estava á altura das/ revelações. E desejava estancar o tempo, que é por onde/Deus lança os seus sinais//”

Há, desde o início com “O Número Perfeito” uma força no mistério telúrico das palavras que se prolonga e acentua nas criações mais recentes.

“As pedras têm uma forma própria de ir cavando a terra,/à força de humidade, aconchegando as larvas e pesando,/pesando sempre. Um dia alguém levanta uma e há um rede-/moinho nesse nicho que lentamente se afundava.//”
(…)
“Assim também as casas. Se alguém levanta uma, pode/encontrar ossadas, ou a antiga mancha das adegas e os ratos/ficarão assustados pela súbita ausência de peso.//”

E há a arte de fazer haikus, com o rigor de um perfumista que se nota a cada gota, no Coração Alcantilado.

“Não te envaideças tanto, ó flor!/Olha à tua volta:/Primavera!//”
(…)
“Exige todo o sol/e o mês de Maio longo/uma cereja!//”

Na poesia do Poças Falcão o lugar dos afectos tem forma despojada mas profunda. Há uma tentativa de busca de perenidade nos fenómenos cíclicos da natureza, na lentidão geológica das pedras. Uma contenção de palavras que nos leva a perguntar mais uma vez e outra dentro de cada um. No princípio parecia regida por leis mais abstractas e geométricas agora persegue outras mais flexíveis que regem o ser. Há agora um lado mais concreto a par da abstracção. Há uma lamentação nas coisas imperfeitas, como se amassem, como se recordassem. Tudo pede um deus e o encontro com ele é um exercício solitário de confronto com um criador sábio que se diverte como um pai a deixar que o filho descubra o caminho, sabendo-o sempre em aberto na descoberta. Há na imperfeição maceração de  terra e criaturas, alimento para a vida, medições de temperaturas…Auscultação dos arenitos, restos de chuva, erosões gravadas. A busca na natureza, nos elementos, nos tempos geológicos da segurança que nos foge na nossa humanidade.

(…)Somos líquidos/amamos a fragmentação, a incansável/desordem da matéria. Com a pequena voz /enfrentamos o tempo, com a brancura/de uma subtil lenta paixão. Ao unirmos/separamos. Intuímos uma funda duração/um denso envolvimento, uma gravitação.//”

Vinte e cinco anos. “Arte Nenhuma”, o próprio título metáfora da própria poesia. Arte Nenhuma a ela se compara.

“Agora outra vez a caminhar/Atraso de propósito o bater de vários ritmos/Não estou contra/não vou contra/apenas subo um pouco/ e desacelero/Assim vou desdobrando/um fio de oração sobre a cidade/Depois dos triunfos/e das pequenas mortes/é só pela humildade (a terra da alegria)/que posso regressar//” 

No ano que se segue todos vão fazer listas rigorosas de coisas úteis versus outras ainda mais rigorosas de coisas dispensáveis. Acrescentem a essa primeira lista, por favor, um ou outro livro de poesia. Antes isso que medicamentos, mesmo que esses contribuam mais para a economia, para a reabilitação do mercado. Antes a poesia. Os medicamentos têm contra-indicações e a economia, caros leitores, foi um brinquedo na mão de iletrados que não se deram conta a tempo que eram humanos os números das suas equações. Antes a poesia que é ela própria a expressão máxima de nossa humanidade. Uma luz segura na noite que atravessamos, iluminando cada um segundo o seu caminho. Um mundo de perguntas, de buscas e de lutas. Não há sombras a não ser nos nossos olhos. Dizer tanto do poder de um livro pode parecer excessivo. Mas por vezes um singular poema tem esse poder. A poesia que se publica bastante, vende pouco e muito se perde por aí nunca será um fenómeno de massas. Nunca pesará no PIB. É inútil e absolutamente necessária para tecer os dias.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Mortalidade


The new land is quite welcoming in its way. Everybody smiles encouragingly and there appears to be absolutely no racism. A generally egalitarian spirit prevails, and those who run the place have obviously got where they are on merit and hard work.

Um breve e perturbador ensaio sobre a experiência de "viver morrendo" com um prazo de validade indeterminado, mas claramente à vista. Uma descrição impressionantemente lúcida do brilhante jornalista britânico, Christopher Hitchens, considerado por muitos como um dos mais dotados oradores dos nossos tempos, sobre o inevitável declínio do corpo e da mente devido à acção destrutiva do cancro.  

Um breve volume que nos brinda com uma análise subtil e corajosa dos aspectos definidores duma personalidade, precisamente quando esta está em vias de sucumbir sob o avanço da doença. Particularmente tocante é o capítulo sobre o desaparecimento da voz, sintetizado por uma citação do poeta W. H. Auden, "All I have is a voice".  

Linhas intensas e profundamente tocantes sobre a transformação da linguagem quando da instalação da doença: "idioma local da cidade do tumor (local Tumorville tongue)"; o tumor no esófago, caracterizado como "um cego, um  estranho desprovido de emoções (blind, emotionless alien)", etc.

Linhas coerentes e extraordinariamente dignas de um dos mais eloquentes arautos da racionalidade no combate contra a superstição e o pensamento primitivo que durante o curso da história da humanidade tem engendrado infelicidade, obscurantismo e destruição. Christopher Hitchens faleceu em Dezembro de 2011.


Orfeu B.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

AHAB, UMA EDITORA PORTUGUESA QUE SABE EDITAR CONTOS

Tanto quanto sei, a Ahab é uma jovem editora sediada no Porto. Jovem, mas já com um conjunto notável de obras, de entre as quais avultam as de autores que cultivam o contismo, como o peruano Julio Ramón Ribeyro (1929 -1994 ) e o norueguês Kjell Askildsen (1929). De Ramón Ribeyro li o 1º volume da obra intitulada " A Palavra do Mudo" (editado em 2012); de Askildsen, "Um Repentino Pensamento Libertador" (editado em 2010) e "Os cães de Tessalónica" (2012). Livros de contos, de autores pouco conhecidos ou desconhecidos entre nós. Em "Os Cães de Tessalónica", o autor vai buscar o título da obra ao primeiro conto, em que se refere a dificuldade que os cães, por vezes, têm em se separar após o acasalamento, com todo o sofrimento que tal acarreta. Assim, as personagens destes sete contos, ligadas para sempre pela dificuldade em se separarem (física ou psicologicamente), por mais dolorosa que seja a sua relação.
Nem sempre é fácil enquadrar as atitudes e os comportamentos das gentes que atravessam os textos de Askildsen em correntes ou autores da literatura ocidental, em que estamos inseridos. Talvez o existencialismo literário francês (com as suas expressões de tédio e de absurdo) se possa considerar como um ponto de referência, nomeadamente na solidão das personagens, mergulhadas num silêncio que dá sentido ao confronto permanente entre um tempo interior e um tempo exterior. Silêncio que as torna invisíveis até aos que lhe estão mais próximos. Veja-se um extrato do conto intitulado "Os Invisíveis": "Marion serviu-lhe mais vinho. Costuma doer-te a cabeça?, perguntou ela. Não, respondeu ele. Bem, sim. De vez em quando. Atirou o cigarro fora e acendeu outro. Olha, disse ele, a nuvem continua sem se mexer. A Camilla disse-me que te vais embora já amanhã, disse Marion. Sim, assentiu. Que pena, disse ela. Tenho de voltar ao trabalho, disse ele. Bebeu. É um bom vinho, disse ele. Passado algum tempo olhou para ela de relance; estava sentada a olhar para as mãos no regaço, movendo quase imperceptivelmente a cabeça. Por fim disse sem levantar a vista: Não queres falar, pois não? Mas se estou a falar…, disse ele. Sabes muito bem o que quero dizer, disse ela. Ele não respondeu. (…). (…) Pouco depois, disse: Não posso deixar de ser como sou. Se eu por exemplo mato alguém, não o posso evitar, mas não mato ninguém porque não sou assim. Tudo o que faço, faço-o porque sou como sou, e não tenho culpa de ser assim. Os outros podem dizer o que lhes apetece. Entendes? Pegou no copo e bebeu. Acendeu outro cigarro. Foi até ao maciço de flores e ficou a contemplar a terra seca. Então olhou para a nuvem no alto da montanha; pareceu-lhe mais pequena." Silêncio por vezes entrecortado por uma "confissão", que dá mais espessura a esse silêncio. Note-se a técnica de construção dos diálogos inseridos no texto, o que os transforma em monólogos. E, quando o autor utiliza o diálogo de uma forma tradicional, apenas o faz para acentuar o desfasamento entre as personagens, os lugares comuns em que assenta a sua relação, a incomunicabilidade que se foi criando, que nem os copos de vinho que vão bebendo conseguem disfarçar. O conto "Um lugar Maravilhoso" é um exemplo perfeito do que acabo de dizer: "Tinham descido até ao molhe de cimento, o sol estava prestes a pôr-se. - Oh, como adoro este lugar - disse ela. Ele não disse qualquer palavra. - Foi mesmo ali que caí à água. - Sim - disse ele - , já me contaste. - Devia ter uns quatro anos - disse ela. - Cinco - corrigiu ele. - Sim, talvez. Bati com a cabeça numa daquelas pedras que vês ali e fiz um corte profundo por cima da orelha, e se o meu pai não tivesse… O que foi isto? - Algum animal - disse ele. - Foi alguém a gritar - disse ela. - Não, pareceu-me ser um animal. - Vamos para dentro - disse ela. (...) (…) Ao entrar, ele disse: - Vou abrir uma garrafa de vinho. - Sim, abre. Ela sentou-se no sofá. Ele serviu-lhe vinho. - Obrigado, está bom assim, - disse ela. Ele deitou o dobro no seu copo e sentou-se junto à janela. - O meu pai costumava sentar-se aí - disse ela. - Sim, já me tinhas contado - disse ele. - E onde se sentava a tua mãe? - A minha mãe? Ela… Porque perguntas? - Apenas por curiosidade. Saúde! (…)" E o conto termina com o diálogo que a seguir se transcreve, exemplar na solidão em que as personagens vivem mergulhadas, mascarada de uma aparência de comunicação: "Ele estava sentado na ponta do molhe a contemplar o fiorde. Ela estava deitada atrás dele a apanhar sol. Disse: - Não é um lugar maravilhoso? - Claro que sim - respondeu ele." Claro que sim, o mundo é um lugar maravilhoso, mas apenas para aqueles que nele têm lugar. Dizer mais sobre este livro de Kjell Askildsen seria algo de supérfluo: a solidão, a incomunicabilidade, a alienação estão sempre presentes no quotidiano das personagens e constituem o suporte da narrativa dos sete contos que compõem a obra. Obra que caracteriza a "malaise" de uma sociedade que, apesar dos novos meios de comunicação e da facilidade das redes sociais, que se multiplicam, acaba por deixar cada um de nós entregue a uma inevitável solidão. Ainda que rodeados de gente, todos vivemos e morremos sós…

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

A VOZ DA ÁFRICA ACTUAL


Diz-se entre os editores que os livros de contos não se vendem em Portugal. Muito poucos haverá de autores portugueses. No entanto, nos últimos meses deu à estampa um número muito significativo de livros de contos de outras literaturas. De memória cito Don DeLillo, Juan Ramon Rybeiro, Carlos Fuentes, Carson McCullers, Linda Davies.

A arte do conto é uma arte delicada e muito própria. Exige uma carpintaria cuidada, sem espaço para que a escrita se possa espraiar excessivamente, o domínio rigoroso do uso da surpresa, do desenlace eficaz e do punch final.

Jovem de 35 anos, várias vezes premiada, Chimamanda é uma bela escritora com um excelente ritmo de escrita e um universo narrativo muito próprio, que nos situa entre a Nigéria das tradições, a dos abusos, da corrupção, da violência, a de uma classe média de intelectuais e professores universitários (a que parece pertencer a autora) e a relação com a América, sonho primeiro de todos os que querem emigrar, estudar, mudar de vida.

A primeira qualidade de Chimamanda é a de agarrar o leitor com unhas e dentes. Começado a ler um conto o leitor tem dificuldade em afastar-se da sua leitura. A autora amarra-nos a partir de uma frase inicial... "A primeira vez que nos assaltaram a casa...", "Hoje vi Ikenna Okoro, um homem que julgava morto há muito.".

Depois, a autora estabelece um ambiente aparentemente normal onde vamos conhecendo uma intensa verdade interior de cada personagem (sobretudo as femininas) e um ponto de vista, um olhar sobre aquele mundo particular que muitas vezes nos surpreende até um final forte e frequentemente ambíguo de forma a deixar ao leitor a hipótese de ficcionar o depois da última frase.

Muito curiosa é a forma como mostra o contraste entre a cultura nigeriana e a americana, sem falsos preconceitos nem para um lado nem para outro, embora fique uma imagem ingénua da América, capaz de muita eficiência e pouca espessura.

Gostei muito e gostava que os meus amigos gostassem. Porque a leitura tem esta vantagem. Não carece de ciúmes. Permite e até exige partilhar os mais belos amores que cada um de nós venera.


domingo, 18 de novembro de 2012

“…a minha dor é esta primavera que nasce e me mostra que o inverno se instalou definitivamente dentro de mim” José Luís Peixoto




Foi pela voz de um grande contador de histórias ( Filipe Lopes ) que conheci a poesia de José Luís Peixoto e posso dizer que o “embate” foi forte. O Filipe leu o poema “na hora de pôr a mesa, éramos cinco” e eu fiquei atordoada, apertando as mãos à força das lágrimas que teimavam em espreitar (e acho que não fui muito bem sucedida no disfarce...). Daí à leitura integral do livro foi “o passo de um anão”...

Posso dizer que a leitura não é simples e está longe de ligeira (o que, na minha opinião, só abona a favor do livro). Pelo contrário, é trabalhosa e requer uma grande envolvência, quase íntima, com cada palavra.

Este livro não se deixa florir com o simples gesto de folhear as páginas, é preciso tempo para ler até se ouvir o ritmo certo de cada estrofe, que não se impõe, deixa-se descobrir a quem o quer encontrar. Mas não é essa, afinal, a magia da verdadeira Poesia?!

É como se José Luís Peixoto quisesse ter a certeza que quem lê os seus poemas se dá ao trabalho de realmente os ‘ouvir’. O hábito de ler silenciosamente é razoavelmente recente na nossa sociedade e no caso deste livro, e porque não dizer em todos (ou pelo menos quase todos), essa modernidade faz perder parte do encanto do texto escrito. Dá muito mais trabalho e é muito mais difícil ouvir as palavras ditas de lábios cerrados...

Tive de lutar com a minha dificuldade em escolher uma pequena amostra “Como isolar um sabor de um bolo de várias camadas feito?” A escolha inicial era o poema que já referi, mas essa por tão óbvia peca pela facilidade. Assim deixo aqui este raminho de cheiros para aguçar o apetite.

“ainda que tu estejas aí e tu estejas aí e
eu esteja aqui estaremos sempre no
mesmo sítio se fecharmos os olhos
serás sempre tu e tu que me ensinarás
a nadar seremos sempre nós sob
o sol morno de julho e o véu ténue
do nosso silêncio será sempre o
teu e o teu e o meu sorriso a cair (...)”

                      José Luis Peixoto



Leitora convidada: Liliana Lima 
Fundadora dos Contos da Lua Nova. Contadora de Histórias e Formadora 

domingo, 4 de novembro de 2012

O livro das escolhas cósmicas.


O Universo é o livro de todas as escolhas cósmicas, o registo de todos os acontecimentos que cinzelam o corpo do cosmos. Cosmos em contínuo estado de transformação, global e local, que é o nosso porto de abrigo e o oceano das indagações cósmicas da civilização humana.   

Uma narrativa sobre a história do Universo é necessariamente uma história das ideias, descobertas e técnicas que conduziram ao estágio actual do conhecimento científico sobre o Universo. Assim, o Livro das Escolhas Cósmicas é também um relato do esforço da humanidade para entender o cosmos, dos mitos da criação à revolução científica, desta às descobertas da radiação cósmica de fundo e da aceleração da expansão do Universo. Descobertas estas que conduziram ao desenvolvimento das ideias mais recentes sobre a origem e evolução do Universo tais como os mundos-membrana, a inflação, a matéria escura, a energia escura e que convivem com objectos e ocorrências igualamente extraordinárias como os buracos negros, os núcleos activos de galáxias, as explosões de raios gama, etc.


terça-feira, 30 de outubro de 2012

O CRISTAL DAS PALAVRAS




A cidade de Trieste fica num cruzamento de países e culturas. Ali se encontram influências da cultura italiana, da cultura austríaca, da eslovena e talvez ainda alguns farrapos de cultura francesa, alemã e sérvia.

Ali nasceram, e da alma da cidade fazem âncora, alguns escritores notáveis como Italo Svevo, Claudio Magris ou Giani Stuparich. E já agora, o realizador Federidco Fellini também é triestino

A Editora Ahab tem vindo a fazer um trabalho que devemos sublinhar ao dar a conhecer grandes escritores menos conhecidos. É o caso de Stuparich com este seu conto intitulado "A Ilha".

Diz Elvio Guagnini no posfácio que uma das definições de conto é a de que o conto - ao contrário do romance - deveria representar o ponto culminante, a cena decisiva de um enredo mais longo, enquanto o romance apresentaria as suas etapas de forma articulada.

Não será exactamente o caso de "A Ilha". Aqui, um pai à beira da morte convida o filho que vive na montanha a acompanhá-lo a visitar a Ilha onde ambos nasceram no Adriático e pouco conseguimos adivinhar da vida dos dois para trás para além de um ou outro salpico que nos saltam de Teresa, por exemplo, a dona da casa de hóspedes que adivinhamos antiga amante do pai. Muito pouco.

Porque é que o filho vive na montanha, não sabemos. Nem porque será que se sente tão desprotegido naquele verão mediterrânico cheio de luz e azul, de vegetação rasteira, e do canto permanente das cigarras? Só por saber o pai à beira da morte e querer protegê-lo e adiar esse momento terrível? Só por querer falar como ele, dizer-lhe a verdade do seu estado, como se o pai não soubesse?

O pai era marinheiro. Correu mundo e pouca atenção deu à família. Adora o mar. Adora a sua ilha. Quer despedir-se dela. Quer pescar e receber o sol na pele. E quer passar ao filho uma última imagem de si. E talvez também passar-lhe o vírus do amor por aquela ilha.

O filho vai vendo o pai a perder forças. E não quase história a contar senão este caminho lento e penoso que nos vai sendo dado pela escrita brilhante do autor.

Esta ilha tem qualquer coisa do nosso Algarve no Verão, quando o turismo não tinha ainda estragado quase tudo.

E o trabalho de Stuparich é escrever com volúpia e espanto esse espaço intenso, esse calor abrasador, esse céu e esse mar excessivos, enquanto as suas personagens seguem passo a passo o caminho da morte que já irá acontecer depois do fim do conto, depois do barco que se afasta da ilha para levar pai e filho de volta ao continente.


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A BRILHANTE FICÇÃO DENTRO DA FICÇÃO


Ian McEwan é suficiente conhecido e aplaudido para que seja necessário enaltecer ainda mais a sua obra. Pertence, aliás, a uma geração de belos escritores ingleses como Martin Amis, Julian Barnes, David Lodge, Jonathan Coe, entre outros.

Não somos ingénuos quando vamos ler um livro. Sabemos o tema do livro, conhecemos alguma coisa sobre o autor, foi-nos aconselhado por um amigo, lemos uma referência num jornal. Podemos falar imenso sobre livros que nunca lemos como dizia Pierre Bayard.

Contudo, os bons livros têm o condão de nos surpreender quando os vamos ler apesar de quase já sabermos tudo sobre eles.

Foi o que me aconteceu com “Mel”. Tinha lido várias recensões altamente elogiosas, tinha e tenho o trabalho do autor em grande consideração.

A expectativa era alta, portanto.

Devo dizer, no entanto que ao fim de umas 50, 100 páginas talvez, me sentia um pouco decepcionado em relação às tais tão altas expectativas.

A prosa era sólida, o ritmo consistente e sólido mas… A história não me levava aos píncaros do prazer da leitura. Parecia-me uma coisa a andar demasiado em círculo fechado. E vinha-me uma ideia permanente à cabeça: isto é demasiado inglês.

Serena, uma licenciada em Matemática jovem e bela, filha de um bispo anglicano, leitura furiosa de romances, torna-se amante durante um Verão de um professor universitário muito mais velho que a inicia no pensamento conservador e a encaminha para os serviços secretos, o famoso MI5, antes de desaparecer de forma algo brutal da sua vida.

Tudo se passa no ano de 1972, já na ressaca dos desmandos dos anos 60, durante uma grave crise do petróleo.

Serena debate-se tal como as colegas para se afirmar sendo mulher no mundo masculino dos serviços secretos.

Sabe da morte do seu ex-amante e é encarregue de uma missão invulgar, acompanhar e apoiar um jovem romancista de cariz conservador e anti-soviético ou anti-socialista, no âmbito da tentativa de criar um ambiente cultural
não influenciado pela esquerda europeia.

Serena apaixona-se pelo escritor e debate-se com o problema de lhe confessar ou não a sua verdadeira profissão.

Quando as coisas estão em banho-maria e o romance parece caminhar para um final mais ou menos interessante mas que na aparência se anuncia algo banal, o autor faz uma tremenda e brilhante guinada, consegue fazer subir a narrativa a um ponto inesperado e notável, confere à sua narrativa uma dimensão absolutamente inesperada, em que a ficção se desdobra em ficção da ficção e nos faz perceber que nós, leitores, fomos manipulados e que nada é o que parecia ser.

Leiam, por favor, caros amigos e digam-me depois o que acharam. Estou convencido que este romance é um doce e extraordinário repasto para qualquer viciado em leitura