terça-feira, 8 de outubro de 2013

PULP


Charles Bukovski é um autor famoso pela sua marginalidade, pelo alcoolismo, pela poesia, pela rudeza das suas narrativas, pela linguagem grossa e fácil, sem nenhuma compaixã, nem respeito por elegâncias e estilos de escrita.

"Dei um gole de saqué, frio. As minhas orelhas arrebitaram-se e senti-me ligeiramente melhor. Sentia o cérebro a começar a carburar. Anda não estava morto, apenas num estado de rápido declínio."

Este é o seu último livro escrito à beira da morte. Um livro que se chama PULP e que podia chamar-se fatela, foleiro, rasca.

Uma espécie de roman noir, usando todos os truques do género, a linguagem mais básica e grossa do género, e uma narrativa completamente delirante, sem qualquer espécie de desejo realista. PULP é um livro a traço grosso, completamente pulp. Mas só aparentemente.

PULP é um romance escrito á maneira pulp, mas a sua trama ultrapassa em muito o básico delírio deste tipo de romances. Logo o começo da acção é demasiado delirante para ser apenas pulp.

Um detective que bebe hectolitros de alcoóis diversos ao longo das páginas tem como primeiro cliente uma "gloriosa tontura carnal", a Senhora Morte. Pretende que o detective apanhe o escritor francês Céline que já devia ter morrido mas ainda circula pelas livrarias de Los Angeles.

Aparece outro cliente, empregado de uma agência funerária, que pretende livrar-se de uma fantástica mulher que é afinal uma extra-terrestre.

Fianalmente, um homem que quer que o detective encontre o Pardal Vermelho coisa que ninguém sabe o que seja e que tavez até possa ser a própria morte

Os vários casos misturam-se uns com os outros num banho de álcool, reflexões de filosofia barata e numa constante reflexão sobre a morte.

E é este característica que vai tornando conferindo à narrativa um carácter tão inquietante quanto pungente, tanto mais quando sabemos que o escritor escreveu esta história como um hino pulp às suas renitências, dúvidas e fraquezas, quando se encontrava ele próprio à beira da própria morte.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A PEDRA DAS PALAVRAS



Gosto da escrita de Rentes de Carvalho. Gosto muito. Tem alma. Tem força. Não facilita. É feita para mastigar. Exige um leitor atento. Mas também é verdade que ele o conquista pela intensidade da trama e pela consistência da forma como desenha as personagens. Na sua escrita há qualquer coisa de pedra, daquelas pedras imensas da sua terra de Trás-os-Montes, pedra bruta ali, no corpo das frases que nos coloca à frente dos olhos e nos obriga a sentir por dentro a dureza da própria palavra ou do olhar que a atira para o mundo.

Se a sua ironia, aqui ou ali, pode fazer crer que vamos por uma escrita mais doce e divertida, logo o autor nos ensosta à parede, nos deixa sem respiração e nos rouba ao sossego do nosso canto para nos avisar que o mundo não é doce e nada nos protege dessas tempestades que surgem silenciosamente e sem delas de início darmos conta.

Neste seu romance passa uma inglesa que gosta do Algarve e anda pelo mundo metida em negócios escuros com diamantes e muitas mentiras e se move num caldo quase marginal ao grosso da história, que, a propósito desse negócio dos diamantes, funciona como música de fundo nos falar de uma visão profundamente desencantada sobre o governo do mundo onde bandidos e governos se sentam à mesa dos mesmos repastos. E essa visão desencata do cosmolitismo permitido pelo dinheiro contrasta magnifica e agrestemente com a paisagem banhada pela luz dura e excissa da serra do Algarve.

Mas o que mais me tocou foi o Portugal de que o autor dá conta na sua trama e sublinha na sua situação de marginalidade face aos centros do mundo. Um Portugal poliédrico, com três facetas distintas

Com os velhos senhores da terra, convivemos com uma cultura antiga partilhada com criados, quase servos ainda, e uma melancolia de quem adivinha o fim de um tempo e de uma cultura.

Com Samuel, ex-combatente da Guiné, tocamos ao de leve um Portugal brutal, de vida e morte, de faca e sangue, o Portugal que tem pesadelos de noite e se gasta sem encontrar perdão.

Por fim temos um outro Portugal, videirinho, troca-tintas, aldrabófilo, iliterado, feito de negócios sujos e miseráveis, o Portual da política e dos partidos, dos empregos, do cinismo, da canalhice.

Neste vai-vém de personagens e histórias, o autor leva-nos sem nos dar descanso. E é bom, quase no final, subirmos ao alto deste monte, desta narrativa, e encostarmos a cabeça à pedra das palavras.

sábado, 21 de setembro de 2013

A PALAVRA E A LUZ


José Tolentino de Mendonça é o poeta que mais me emociona na sua geração e a sua obra tornou-se seguramente imprescindível, se quisermos conhecer o que de melhor se fez na poesia portuguesa das últimas décadas.

Madeirense, filho de pescador, JTM faz do diálogo com a natureza um caminho que parte do olhar para que desaguar na palavra. Não se trata da palavra liquída, óbvia, imediata, elegíaca, mas aquela que recolhe memórias de pessoas e sítios, de textos e reflexões, pedaços de filmes ou canções, veredas para um outro conhecimento que levam o poeta à boca do mundo.

Quando a sua poesia atravessa as cidades, ainda aí vai procurar a transcendência, nos recantos mais obscuros, nos anjos negros dos becos,nas margens mais perdidas, nas canções de quem traz pássaros feridos a voar na voz.

Sacerdote católico, estudioso e exegeta da Bíblia, JTM afirma que "A fé é uma ardente e incessante interrogação". Dessa interrogação e do encanto perante o mundo faz Tolentino de Mendonça o seu percurso de poeta, num ofício aparentemente sereno mas afinal inquieto, tecendo a sua poesia de momentos comoventes que nos aproximam da Luz. Ou de Deus.

sábado, 14 de setembro de 2013

ENTRE O QUE A HISTÓRIA NOS CONTA E O QUE NÃO CONTA


A História sempre foi para mim uma paixão. A paixão de contar e ouvir contar histórias.

Ficcionar a história tem sido o trabalho de muitos escritores com resultados variáveis mas muitas vezes com o encanto que leva o leitor a imaginar-se noutro tempo histórico, vivendo os amores e as tragédias de grandes personagnens de tempos idos.

O autor de romances históricos procura trabalhar sobre o trabalho do historiador, ocupando os interstícios que esse historiador deixa em aberto por já não ter matéria para melhor investigar.

É aí que o escritor se instala, mantendo umpé na história e colocando o outro na ficção.

Alberto Santos pegou em dois temas particularmente interessantes à volta do culto centrado na catedrasl de Santiago de Compostela. Em primeiro lugar, o facto de se ter concluído em finais do séc XIX que as ossadas que estão em Compostela não pertencem ao Apóstolo Santiago Maior como era crença até então.

Compostela, ou a região do Finis Terra, seria um local de peregrinação muito antes do cristianismo que, como foi prática corrente, se apropriou de uma tradição pagã para tornar cristã a devoção e a visita ao lugar.

À ideia de que não as ossadas de Santiago Maior que estão em Compostela, Alberto Santos juntou-lhe outra ideia. A possibilidade de os restos mortais existentes na Catedral de Santiago de Compostela pertencerem ao Bispo Prisciliano do séc. IV depois de Crist, primeiro herege justiçado pela Igraja Católica.

As suas idéias obtiveram grande sucesso, em especial entre as mulheres e as classes populares, pela sua recusa à união da Igreja com o Estado imperial e pela denúncia da corrupção e enriquecimento das hierarquias.

A história de Prisciliano, bispo heterodoxo eleito pelo povo de Braga no séc. IV, tem atraído diversos artistas e escritores. São os casos do romance sobre a vida de Priciliano escrito por Ramón Chao (pai de Manu Chao), do romance de João Aguiar "O trono do Altíssimo" e do filme de Luís Buñuel "A via Láctea".

Alberto Santos documentou-se com grande rigor. Fas-nos conhecer os espaços e os hábitos da época com vivacidade e pormenor.

A essa descrição cuidadosa da época juntou aventuras, conflitos religiosos e amores, tudo servido por um romantismo que terá a grande vantagem de chamar um público vasto à leitura de um tema que permite o mergulho noutros voos e inquirições para além dos estritos pormenores da ficção.

sábado, 7 de setembro de 2013

A NARRATIVA E OS PERSONAGENS



Como se diz por aí, este livro torna-se num vício. Não conseguimos parar de ler. Agarra-nos pelos colarinhos, envolve-nos, não nos deixa sair dali

Trata-se de um livro policial. Um livro de mistério.

Harry Quebert, escritor de 34 anos sem inspiração, vai viver para uma pequena cidade de Nem Hampshire e apaixona-se por uma rapariga de 15 anos. Esse amor faz com que finalmente escreva um livro que se virá a tornar num enorme best seller ao mesmo tempo que a rapariga desaparece para sempre no dia em que ambos tinham combinado fugir dali para sempre e viver o seu improvável amor.

Markus Goldman, um antigo aluno de Quebert que agora tem 77 anos, também ele numa crise de inspiração, vem ter com o mestre e pedir-lhe conselhos Justamente nessa altura descobre-se o corpo da rapariga, Nola, enterrado no jardim de Québert.. É óbvio que foi assassinada e Québert é preso e acusado do crime.

Markus acredita na inocência de Québert e resolve investigar as causas da morte de Nola que se vão revelando cada vez mais complexas e envolvendo muitos dos habitantes da cidade..

Dessa investigação vai nascer um livro, um best-seller elogiado por toda a imprensa e toda crítica.

A investigação leva Markus de surpresa em surpresa, através de um labirinto de revelações que vai fazendo estalar a superfície de uma cidade aparentemente calma, tranquila e banal.

E depois de, pressionado pelo editor e pela força da máquina de fazer êxitos, terminar e publicar o livro e inocentar o seu professor, Markus descobre que ainda não tinha descoberto a “verdadeira verdade”.

O autor estabelece uma teia notável, uma estrutura narrativa quase perfeita, pontuada pelas lições do seu professor sobre o que é ser escritor. E é essa teia que arrasta o leitor de revelação em revelação com uma

Há qualquer coisa neste romance que nos faz lembrar o “Millenium” de Stieg Larsen com a diferença de que aqui tudo se passa dentro de um a pequena comunidade da Costa Leste americana, com os seus pequenos problemas e traumas, os seus segredos escondidos, as suas invejas e solidões

Larsen deu à sua narrativa uma dimensão política e portanto mais vasta do que a deste universo criado por Joel Dicker.

No entanto, quanto a mim, Dicker aposta na narrativa mas descuida a escrita, Quer dizer, falha, ou deixa de lado o desenho das personagens Parecem-me pouco interessantes, pouco complexas, feitas de papel. E torna a história de amor de Québert pela jovem Nola de 15 anos, que está nos bastidores de tudo, numa historieta que não tem a grandeza nem o delírio que se espera de um amor desesperado de um homem de 34 anos por uma rapariguinha de 15.

Mas há que dizer que se trata de um bom entretenimento para quem espera isso mesmo da leitura de um livro.


segunda-feira, 2 de setembro de 2013

EM NOME DO PAI




Esta "pequena antologia do Pai na poesia portuguesa" tem uma escolha de poesia respeitabilíssima e mostra-nos aquilo que eu já sabia: com raríssimas excepções não há referências ao pai na poesia portuguesa, senão na das últimas décadas.

Vasco Graça Moura faz uma belíssima introdução sobre o tema, usando a sua erudita e elegante forma de pensar e ajudar-nos a pensar sobre a literatura e a poesia.

Curiosamente, e VGM chama a atenção para isso, a quase totalidade dos pais presentes nestes poemas é rural e a sua recordação na palavra dos filhos-poetas é também a recordação de uma certa ruralidade, de uma ligação aos ofícios e à terra, de uma memória dos ciclos da natureza.

Não existem aqui pais da cidade. Ou haverá um ou dois. Quererá isto dizer que os pais da cidade perdem a sua “poeticidade” e que é a ruralidade que lhes confere a grandeza do poema? Não sei.

Sei é que este conjunto de poemas nos permite uma visão breve mas muito interessante sobre alguns nomes cruciais da poesia portuguesa das últimas 2 ou 3 décadas.

Fazer uma antologia é um acto de amor que temos sempre de agradecer ao antologiador porque ele nos dá a conhecer a poesia e nos faz partilhar a paixão por ela a partir de um tema e nos permite o acesso a poetas e a poemas por vezes de grande qualidade mas de circulação muito restrita.

A antologia traz-nos também com frequência uma forma de olhar específica. Porque quem escolhe também exclui.

É pena ter ficado de fora o poeta que talvez mais poemas tenha feito á memória do pai na poesia portuguesa: José Jorge Letria. Vários desses poemas mereciam estar aqui e engrandeceriam esta antologia.

Seja como for, fazem falta antologias. Muitas antologias, controversas, discutíveis, parciais, sobre muitos temas, porque a antologia é um excelente instrumento de abordagem e compreensão transgeracional e diacrónica da identidade que a poesia vai de nós construindo.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

"Esta comprobado que ele tipo de pronunciacón de una palabra cambia biológicamente lo designado" Juan Carlos Mestre

La Bicicleta del Panadero”
Juan Carlos Mestre
Calambur, 2012



Há dois tipos de leitores de Juan Carlos Mestre. Os que tiveram a ventura de o conhecer e ouvir e os outros que o leêm apenas no timbre silencioso do papel.

Acho poesia coisa de brisa, de voz. Também acontece por vezes preferir não conhecer a voz sabendo que nem todos os poetas são bons arautos dos seus poemas.
Mas não é o caso de de Juan Carlos Mestre. É um gosto ouvi-lo. Uma emoção. Tem uma voz cadente como se os poemas lhe nascessem naquele momento num improviso detalhado, num acrescento para lá das palavras.
No dia em que chegou este seu livro “A Bicicleta del Panadero” foi com a lembrança da sua voz que li um e outro e outro poema...

Uma voz que glorifica mas também troça e ri . Uma voz terna mas que pode ferir. Uma voz de futuro mas que nos pode afogar em desesperança. Um livro de poesia cheio de filosofia, povoado de livros, leituras, de tralha guardada do passado e do que fica dentro do seu atento olhar ao mundo. 
Mestre vai escrevendo e lançando para o futuro esses objectos de boas e más memórias, úteis ou inúteis, macios ou contundentes mesmo pontuados por imensa ternura.
Quem lê tem de se defender. Quem o ouve pode baixar a guarda porque a sua voz e a música com que acompanha muitas das suas intervenções envolvem em macieza a lucidez dolorosa com que constrói os seus poemas .

Argonautas” é um dos meus preferido e deixo aqui uma parte, a abrir o apetite a quem se queira aventurar pelo mundo deste poeta, deste livro em particular que conheço e recomendo: “La Bicicleta del Panadero”

Argonautas”

Te amaré toda la vida dice ele pez pájaro a quien no es su igual
lo igual es essa niña que contesta no, lo igual es la mano que 
      cierra la porta
He abierto uma cartilla de ahorros para comprarte algún dia
      la tentadora manzana que sale en las primeras paginas
      de la Biblia
(...)
A mi edad un astrolábio, un sextante , uma aguja giroscópica
      no tienem secretos,
Estamos adstritos as departamento de la juventude e de aquí
      no hay quien nos eche
Yo te amaré toda la vida aunque tengas los pies en la cabeza,
      la cabeza como un crucigrama e los calcetines helados
      como pescadillas
(…)
Todas las noches las lechugas cometen algún crimen pero hasta
      el chocolate es amargo, vida mia, y tú ya sabes que yo te
      amaré contra todo prognóstico.
No te preocupes por nada, detrás de la ruleta de mi corazón
      hace buen tiempo e el 2 de Mayo há licenciado al pelotón
      de fusilamiento.
He acertado todos los números de la rifa y me ha tocado un
      collar de perla de río
Duerme tranquila
(...)
Te amo, no puedo demonostrártelo, y eso era lo que queria 
      decirte.”

                                         Juan Carlos Mestre


Podem conhecer um pouco mais deste polifacetado artista indo por aqui: http://www.youtube.com/watch?v=8QKlB8DU32w

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Cada Homem é uma Raça



A chuva é carcereira, fechando a gente. Prisioneiros da chuva estavam Constante Bene e seus todos filhos, encerrados na cabana. Nunca tamanha água fora vista: a paisagem pingava há dezassete dias. Mal ensinada a nadar, a água magoava a terra. Sobre as telhas de zinco, se acotovelavam grossas gotas de céu. Na encosta do monte, só as árvores teimavam, sem nunca se interromperem. 
Mas a bandeira se confirmava, em prodígio de estrela, mostrando que o destino de um sol é nunca ser olhado. 

Mia Couto.


Um das características mais fascinantes da escrita de Mia Couto é a de ser inclassificável. É Mia Couto um escritor africano de língua portuguesa? Certamente, mas não exactamente. Escreve no "dialecto moçambicano" da língua portuguesa inevitavelmente mesclado com regionalismos e adaptações locais, evidentemente, mas não exactamente. Penso que a afirmação mais justa seria a de que Mia Couto escreve em mia coutes, pois a diversidade do seu léxico só é compreensível à luz do universo criado pela extraordinária riqueza das suas narrativas. As suas "estórias" são muito mais que narrativas, pois são simultâneamente fundadoras de um vocabulário e dum mundo que são indissociáveis um do outro. E neste universo narrativo, Mia Couto é imperador, pois só ele tem o dom de dizer exactamente como se pode e se deve dizer. 
     
Nesta colectânea de 11 contos, datados de 1990, Mia Couto nunca nos deixa de encantar e de produzir realidades supra-reais, que são invariavelmente de grande densidade humana e duma vincada universalidade 

Na verdade, eu diria que a universalidade destes contos, está claramente declarada no título da obra. O paradoxo da unicidade no contexto duma definição, a de raça, que é instintivamente associada a uma colectividade é ao mesmo tempo singela quando dita pelo indivíduo que afirma, "A minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual", mas também extremamente actual e representativa da fragmentação das identidades no mundo pós-moderno. De facto, podíamos dizer que é uma conquista civilizacional permitir que cada indivíduo seja respeitado na sua individualidade, mas por outro lado, esta conquista deu origem à ruptura dos laços que davam a cada indivíduo o contexto social da sua existência. 

Mas para perceber a subtiliza destas questões e poder saborear o prazer duma leitura fresca e cheia de surpresas, nada como os contos de Mia Couto, que são, na verdade, o ponto de partida para um novo mundo. Desejo aos leitores uma boa viagem.  

Orfeu B.


domingo, 25 de agosto de 2013

MIZÉ OU MUITO MAIS QUE UMA MAGNÍFICA NOVELA SUBURBANA



O título não será particularmente apelativo para quem, nos livros que escolhe, procura seriedade, seja lá o que isso for. E o início, embora num diálogo muito bem "esgalhado", pode fazer suspeitar estarmos na presença de uma novela ligeira das que põe o acento sobretudo na galhofa. Mas depressa percebemos que essa galhofa é muito mais séria do que parece.

De facto, no início há um certo tom que lembra os malandros de Mário Zambujal, o Coca-cola Killer de António Vitorino d'Almida ou, eventualmente, o Molero de Dinis Machado. mas também acabamos por perceber que Ricardo Adolfo constrói um mundo próprio, distinto de todos os outros que citei.

Trata-se de um belo romance que abre caminhos muito pouco trilhados na nossa literatura, que nos conta uma história suburbana, passada no interior do Concelho de Sintra, para cima da IC 19 e da linha do comboio.

Mizé é uma típica cabeleireira do Cacém, de Mira Sintra, Mem Martins, ou de ou de um desses bairros onde se misturam pobreza, droga, marginalidade, sonhos sem consistência nem futuro, rituais sem alma. Palha, o marido, é um vendedor de batatas fritas para restaurantes, cafés, supermercados.

Os diálogos são notáveis, logo a começar pelo diálogo da primeira página sobre o casamento e tendo momentos fantásticos como, por exemplo, a discussão do silicone para as mamas da Mizé.

O autor conhece bem as pessoas de que fala. E torna a pobreza das ideias e do vocabulário, numa estética bem conseguida que, se de início, é de uma evidente comicidade, vai a pouco e pouco tomando uma tonalidade constrangedora, amarga, dolorosa, á medida também que as personagens vão ganhando consistência e a sua pobreza de objectivos, de vida, de linguagem, saltam à vista e deixam o leitor a torcer para que não lhes aconteça mais nenhuma tragédia.

Este é o mundo em que os sonhos são desmesurados, ou melhor, desmesuradamente tolos e restritos, e as maneiras para lá chegar são as mais miseráveis e pequeninas, concursos de televisão, totoloto, filmes pornográficos, um mundo onde a probabilidade de falhanço está ali mesmo ao sair a porta de casa. A busca do suceeso neste universo Trash, como Sofia Coppola lhe chama, é a do nada, a de conseguir qualquer coisa à custa de qualquer coisa. E o amargo é ficarmos a pensar que esta Mizé e o marido até se calhar nem são más pessoas. Apenas não sabem encontrar um sentido para as suas vidas. Apenas são trash. Apenas trash. Mas é por eles que passamos nas ruas todos os dias.


quinta-feira, 22 de agosto de 2013

TEMPESTADES SUBTERRÂNEAS


Kjell Askieldsen, celebrado contista norueguês, escandalizou a sociedade lutrana do seu país pela tonalidade sexual das suas históriaa, acabando por se tornar hoje em dia num escritor referenciado, celebrado e premiado.

Ao longo da leitura destes contos breves mas intensos, lembrei-me amiúde de uma entrevista recente em que Gonçalo Ribeiro Teles afirmava que "A paisagem do Norte é simples, não há conflitos". Não existe no Norte a balbúrdia da natureza do Sul, do Mediterrâneo. No entanto, por dentro das tão desmunidas personagens de Askieldsen, há vulcões prontos a explodir.

O autor mostra-nos essa falta de diversidade biológica. As casas de vários dos seus contos são iguais com os seus jardins, os seus alpendres, as suas espreguiçadeiras, os quartos sempre no 1º andar. Iguais. Algumas das personagens poderiam sair de um conto e entrar noutro sem que nada se alterasse. Às vezes os próprios nomes são repetidos. São os mesmos os seus rituais em torno do álcool ou do tabaco. as frase que ficam a meio.

Estes contos falam-nos dessas palavras que ficam a ferver por dentro do silêncio, da incapacidade afectiva e comunicativa dentro da família, do álcool, do sexo e do desejo transbordante mas não expresso nem realizado.

Debaixo de uma escrita sem rugas, quase minimalista, sentimos a existência de tremendas tempestades subterrâneas que aparentemente não têm solução.

Askieldsen prende-nos na sua repetição. Inquieta-nos. Deixa-nos sem resposta perante as pistas inacabadas em que nos enreda, na largueza de uma paisagem de fiordes, florestas e casas onde quem chega é sempre mal recebido e em que as dores de cada um são asinaladas mas nunca explicitadas em palavras.


Margem da Ausência



O dia amanheceu triste, com aves naufragando na brancura do espaço e sinais de ausência à minha volta (lá fora também), os caixilhos da janela corroídos pelo salitre; em baixo na praia, a solidão soprando, ainda leve, sobre a água encrespada.

E a tua vinda sempre diferida. O grito de luz do teu olhar já não me aquece, falta-me a cumplicidade da tua mão tão pequena e tão lisa na minha mão ossuda e com veias salientes. O desejo enche-me as noites, quando não escuto as palavras do vento, e tu não voltas. 

Urbano Tavares Rodrigues

Poucos na ficção contemporânea portuguesa escreveram com a clareza e a lucidez de Urbano Tavares Rodrigues. A sua escrita comprometida com os problemas do nosso mundo, mas dotada de grande lirismo, conferem-lhe um lugar único no panorama das nossas letras. 

Margem da Ausência é, para além dum notável exemplo de prosa poética, um livro de grande beleza estética por conta da composição gráfica de João Machado e das magníficas fotografias de Carlos Melo Santos e Fernando Curado Matos. É óbvio que a prosa de Urbano Tavares Rodrigues poderia prescindir destes acrescentos, pois desenvolve-se com a fluidez que lhe é característica, espelhando com uma fidelidade assombrosa a universalidade dos sentimentos e a natureza última das nossas angústias. Na Margem da Ausência, a dolorosa espera, a deriva da dúvida, o fluir das horas são vivenciados através dos elementos e da evolução dos sentimentos; os estados mutantes de alma, são descritos pelo barómetro duma escrita célere e elegante.  

Naturalmente, não é necessário de todo cingirmo-nos a este texto em particular de Urbano Tavares Rodrigues, para capturar a profundidade e, ao mesmo tempo, a simplicidade da sua abordagem, a humanidade da sua visão do mundo. Saberão os críticos enumerar e discutir as suas obras mais relevantes; posso apenas afirmar que tive a oportunidade de ler vários dos seus livros, sobretudo os mais recentes, e nestes reconheço um estilo, um comprometimento com a realidade da existência que julgo serem marcantes e inesquecíveis. 

Finalmente, eu não posso deixar de referir que o breve conhecimento pessoal que tive do escritor permitiu-me vislumbrar um homem de rara sensibilidade, que vivia em perfeita sintonia com as suas convicções, e que era dotado de uma extraordinária generosidade.  

Até sempre, Urbano Tavares Rodrigues.

Orfeu B.



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

COMO QUEM DESCASCA UMA CEBOLA


Há uma série de belos escritores espanhóis que frequento sempre que posso. Javier Marías, Juan José Milás, Rosa Montero, António Muñoz Molina, entre outros, como é o caso de Ignácio Martinez de Pisón.

Com vários livros publicados em português, Ignácio Martinez de Pisón trabalha normalmente um período histórico que vai dos anos 50 aos anos 80, ou seja, um período de que muitos dos seus leitores guardam pelo menos recordações de comportamentos, formas de vestir, objectos. O autor situa-nos, assim, num tempo que nem é longe na História nem próximo dos nossos dias. Um pouco à maneira do programa de telesão "Conta-me como foi". E ao lê-lo damos connosco a pensar: "Olha que giro", "Os meus pais eram assim mesmo", "Eu lembro-me dos cafés como estes!", "A malta nesta altura funcionava mesmo à maluca!"

Esta escrita tem uma espécie de doçura sem contemplações. E essa doçura vem do facto de que Pisón, mesmo aos personagens mais negros e feios, conseguE inseri-los num percurso humano que os explica sem os justificar.


Pisón não vai a direito. Conduz a sua narrativa em círculos. Revela as suas personagens de uma forma poliédrica. E quando julgamos que já conhecemos uma personagem, eis que o autor acrescenta mais qualquer coisa que nos faz olhá-la de forma ligeiramente diferente. E todo o romance segue esse percurso de aproximação como quem descasca uma cebola.

"o DIA DE AMANHÃ" conta-nos a história de um bufo ao serviço da Brigada Social (a polícia política do tempo do franquismo) desde os seus sonhos e quimeras de juventude até à morte por assassinato, 3 ou 4 anos a seguir à morte de Franco, frente por um comando italiano de extrema-direita.

A narrativa segue em círculos através dos testemunhos dos muitos que o conheceram como homem de negócios, aldrabão, sonhador, amigo, sedutor, amante, bufo, agitador de extrema direita

Justo Gil Telles, o Ratazana, como é conhecido na polícia, é um homem capaz do melhor e do pior, primeiro para curar a mãe entrevada, e no fim para preservar o intocado grande amor da sua vida, por um lado e por outro capaz de denunciar e matar como forma, lá no fundo, das desgraças que a vida o fez passar.

Neste múltiplos testemunhos, além da história de Justo, Pisón vai-nos dando numa espécie de painel de azulejos a história dos 15/20 anos anteriores ao fim do franquismo, com pormenores inesperados, uma capacidade invulgar de reconstruir a memória de um tempo que está à porta da História mas talvez ainda não o seja totalmente


sexta-feira, 16 de agosto de 2013

QUE VIVA MÉXICO




A América Latina tem 7 grandes literaturas, muito fortes e muito diferenciadas. A Chilena, a Argntina e Uruguaia, a Brasileira, a Peruana, a Colombiana, a Cubana e a Mexicana. E estarei a deixar de fora outras que quase desconheço como a guatemala, as Honduras, etc.

Nada mais errado, portanto, do que falar de uma única literatura sul-americana.

A violência da História e da actualidade do México tem levado a que os seus escritores nos tragam um olhar duro, uma escrita intensa e violenta, que nos faz tremer perante a ficção que se reporta a um mundo pintado em tintas fortes como a pintura de Diego Rivera ou Frida Kahlo.

Há grandes nomes de romancistas e poetas mexicanos não tão conhecidos em Portugal como mereceriam. Podemos brevemente referir Juan Rulfo e o seu extraordinário "Pedro Páramo" (publicado pela Cavalo de Ferro) ou o exclente poeta José Emílio Pacheco que creio não ter traduções em Portugal.

O meu amigo Marcelo Teixeira (agora na Parsifal) quando trabalhava na Oficina do Livro deu-nos a conhecer clássicos e jovens escritores mexicanos (e não só mexicanos) na magnífica colecção "Ovelha Negra" que, infelizmente, já deixou de se publicar.

Entre os grandes da literatura mexicana está Carlos Fuentes, falecido em 2012, premiadíssimo, várias vezes apontado ao Prémio Nobel, e com bastantes títulos publicados em Portugal mas não muito referido pela nossa imprensa cultural.

Carlos Fuentes sempre falou de dentro da terra mexicana, do sentir dos homens e mulheres do México e, por isso mesmo, sempre se mostrou capaz de estabelecer as pontes entre o seu país e o mundo, tornando-se assim na figura paradigmática do escritor universal.

Estes "Contos Naturais" constituem uma pequena antologia da sua vasta obra como contista (para além da obra como romancista). São contos escritos em épocas diferentes e que nos dão uma visão rápida mas intensa sobre a arte de Fuentes no que diz respeito ao conto.

O primeiro conto, "Velha moralidade", é uma pérola que nos dá a arte de Carlos Fuentes em toda a sua plenitude.

A figura central,o avô do narrador, velho libertário e, sobretudo, anti-clericalista furioso, entretén-se a insultar os padres que têm todos os dias de passar junto às suas terras.

Amante da terra, das mulheres, do vinho, sem nenhum pejo nem véus vai passando esses valores de forma absoluta e algo selvagem ao neto.

Torna-se assim no alvo da malediciência e das críticas do povoado e, em primeiro lugar, das tias que lhe vão arrancar o neto para lhe dar uma "educação como deve ser".

O neto vai descobrir insuspeitas facetas no mundo que lhe é proporcionado pelas tias. E no choque entre os dois mundos
acaba por hesitar saem saber como fazer uma escolha.

É de forma brilhante que Fuentes dá a volta às aparências e nos revela obscuras perversidades que nos levam a olhar as coisas de maneira muito diferente das aparências.

Os 6 contos pertencem não só a épocas diferentes mas também a diferentes ambientes desde o mundo rural e dos pequenos pueblos até às cidades da fronteira com os EUA, a fronteira de vidro, onde se instalam fábricas de acessórios diversos, autênticos locais de escravatura, onde os patrões podem dispensar as leis do trabalho do país vizinho e pagar ninharias aos pobres trabalhadores que vivem na quase miséria, e onde a violência é o pão nosso de cada dia

O sexo, a igreja, as memórias da revolução são outros temas que sobressaem destas belas narrativas e que nos trazem uma visão multifacetada sobre este país tão diverso, lugar de um imaginário explosivo, escaldante, louco e tão cheio de humanidade.

Ler Carlos Fuentes é perceber como o nosso mundo é feito de muitas faces e compreender mais claramente que se alguém sofre do outro lado do mundo eu não lhe posso estar indiferente porque, afinal de contas, todos somos vizinhos deste pobre planeta.


quarta-feira, 14 de agosto de 2013

A REALIDADE E O IMAGINÁRIO



Talvez seja no policial e no thriller que se torna necessário melhor dominar a arte de contar uma história, o ritmo, o encadeamento, o arco narrativo (senão veja-se o que Jorge Luís Borges disse àcerca deste tema).

Neste tipo de literatura, o escrito procura transmitir a realidade como ela é ou como ela poderia ser e procura fazê-lo de forma a agarrar no leitor e não o deixar levantar os olhos até à última página.

Neste tipo de romance é por vezes deixada para trás a arte das palavras que nos leva ao fundo do conhecimento das coisas, dos sentimentos, da busca de uma sentido para a nossa tão precária condição humana

A verdade, entretanto, é que há quem busque justamente aquela literatura que lhe ofereça sobretudo o real, a informação, o momento único, a reportagem em livro, os actos do actor que passou à História como grande Imperador ou General.

Há também os que buscam os livros que se propõem revelar segredos, mistérios e conjuras que se escondem por trás das aparências da realidade, quer eles sejam mais palpáveis ou mais fantasiosos.

Há ainda muitos que buscam distracção e a informação e que se recusam aos livros que os façam mergulhar na grande aventura da imaginação que a palavra pode oferecer.

Sabemos que há muitas formas de ler e muitos tipos de leitor. Porventura os livros são criados tanto pelos leitores como pelos escritores. Porque cabe ao litor levar o entendimento do trabalho do escritor até ao mais fundo possível. O problema é apenas quando o escritor tem pouco fundo no seu trabalho.

Há vários tipos de escritores, também. Uns que procuram servir melhor, outros que servem pior os leitores que os buscam. Os qse dirigem a leitores mais exigentes e os que se dirigem a leitores menos exigentes. Há escritores que mergulham nos complexos corredores da alma humana. Há os que falam de viagens, os que tecem a sua escrita em torno do debate de ideias, os que querem apenas contar histórias e que o fazem com arte e talento,os que trabalham a realidade e os que navegam nos delírios da fantasia

Um thriller como "A FILHA DO PAPA" tem um motivo forte que atrai os seus leitores. Trata-se de uma espécie de promessa implícita de que ali serão revelados segredos muito especiais e escondidos. Assim, quem parte para a leitura leva o desejo de afastar a cortina e espreitar aquilo que ainda não tinha sido revelado e a que só alguns poucos especialistas ou iniciados têm acesso.

Este não revelado pode ter noutros casos um carácter fantasioso e servido por uma escrita pouco inventiva que roda em torno de lugares comuns através de personagens sem carne nem alma.

Aqui, temos a certeza de que que Luís Miguel Rocha, ex-jornalista, se tornou efectivamente num especialista sobre assuntos do Vaticano. Daí que as revelações contidas em "A filha do Papa" não sejam fantasiosas. Rodam em torno da figura controversa do Papa Pio XII, da sua relação com o nazismo e a questão judia e com o funcionamento do banco do Vaticano. Abrem um pouco a cortina sobre a figura de Madre Pasqualina, companheira de PIO XII durante quase toda a sua vida, a cradora da ideia do banco do Vaticano e única mulher na História que esteve presente num Conclave para a escolha de um novo Papa.

Entre vários momentos da vida de Pio XII e a actualidade, Luís Miguel Rocha mergulha no mundo tremendo das intrigas, lutas e crimes que, ao que parece, têm sido o pão nosso de cada dia no Vaticano, levando os seus heróis de outros romances, o padre Rafael e a jornalista Sarah, a envolverem-se numa teia de crimes e mistérios no centro do mundo negro e prevertido do Vaticano. E a propósito disso mesmo, Frei Bento Domingues, na sua coluna dominical no Público, referia-se ao Papa Bento XVI como "O grande teólogo que parecia saber muito dos mistérios de Deus e confessou que os mistérios do Vaticano o ultrapassavam".

Assim, misturando investigação, realidade e ficção, Luís Miguel Rocha constrói as suas histórias. E constrói-as bem, de acordo com os bons modelos do género. Pegamos no livro e não o queremos largar. Avidamente vamos de capítulo em capítulo, através de uma teia de crimes, mistérios, segredos e personagens que procuram descobrir aquilo a que se possa chamar a verdade e sobreviver a uma terrível máquina económica e administrativa que domina o Vaticano

"A Filha do Papa" desenvolve um imaginário de crimes e aventuras solidamente ancorado numa realidade muito bem documentada.

domingo, 11 de agosto de 2013

"Todos estamos sozinhos, debaixo dos céus, com aquilo que amamos." Truman Capote



A Casa Assombrada.
Virgínia Wolf


Volto aos contos. Por um acaso. Peguei no livro segui a indicação da contracapa e acabei embrenhada na leitura em passo certo.
Há autores, livros e escrita, que nos levam para as salas onde nos sentamos respirando como se habitássemos por momentos aquele tempo, aquele mundo. Livros que são chave de entrada a um lugar onde podemos ser outros e por isso felizes nessa evasão.
Virgínia Wolf executa nestes contos uma orquestra de sons que termina no tempo certo. É eficaz. Não nos deixa lamentar o fim do conto. Coloca dentro de nós a emoção abrupta e duradoura, revivendo aquele momento avassalador, como se nosso fora.
Destaco dois contos.
“O legado”, um conto extraordinário sobre as relações amorosas, as que se constroem as que se dasatentam, as que se encontram, se aceitam ou recusam. A traição na descoberta de uma fatal fidelidade. A suprema entrega ao amor na sua mais fatal recusa.

“Lapin e Lapinova” onde vemos o percurso de um jovem casal que descobre uma curiosa fantasia que lhe abre um mundo próprio e protegido de tudo os que os rodeia. E vivendo essa fantasia, uma forma algo pueril mas partilhada encontram uma forma de serem cumplices e felizes. 
Quanto dura a felicidade? Um conto breve, um romance longo, uma vida?

Virginia wolf, sempre.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A História de um Sonho



Não me atormentavam sentimentos de piedade ou de preocupação a teu respeito. Sentia-me feliz por estar sozinha. Corri alegremente pelo prado, cantando uma melodia que ouvíramos no baile de máscaras. A minha voz era absolutamente maravilhosa e queria que as pessoas me ouvissem ao longe, em baixo, na cidade. Embora não conseguisse avistá-la, eu conhecia-a. Ficava distante, num plano muito abaixo daquele em que me encontrava, e era cercada por uma alta muralha. Um local admirável, difícil de descrever por palavras. Não era propriamente oriental, ou medieval. Era, sucessivamente, uma coisa e outra. Em todo o caso, tratava-se de uma cidade há muito irremediavelmente desaparecida. Inexplicavelmente, encontrava-me de novo no prado, deitada ao sol, muito mais bela do que na vida real. Depois, um homem saiu da floresta … 

Arthur Schnitzler.

"A História de um Sonho", romance do médico e psicólogo Vienense, Arthur Schnitzler (1862 - 1931), contemporâneo de Freud, é a obra que inspirou o último filme do cineasta norte-americano Stanley Kubrik (1928 - 1999), "Eyes Wide Shut" (De Olhos Bem Abertos). A transcrição muito próxima do texto, faz com que seja difícil lermos o livro sem cola-lo ao filme, apesar deste ter lugar Nova Iorque em finais do século XX, e o livro, em Viena no início do mesmo século. No romance, o autor conduz o leitor através da fronteira indefinida da matéria onírica com a realidade.

A narrativa começa com uma conversa do protagonista principal, o jovem médico Fridolin e a sua mulher Albertine, na qual descrevem as aparentemente inofensivas aventuras imaginárias de natureza erótica após um baile de Carnaval. Contudo, a conversa desencadeia um turbilhão de temas de inspiração freudiana envolvendo a morte, a sexualidade e o comportamento neurótico. Na verdade, a descrição e a leitura dos personagens é inevitavelmente freudiana. 

Um momento chave da narrativa é a descrição de um sonho de Albertine no qual ela é possuída por outro homem e o marido é crucificado, acontecimento que lhe provoca uma grande satisfação. Sonho que surge como uma vingança inconsciente às aventuras de Fridolin que na mesma noite tentou infiltrar-se numa sociedade secreta que praticava de forma ritual a libertinagem sexual.

"A História de um Sonho" é um texto fantástico de grande originalidade, cuja actualidade é bem demonstrada pelo relativo interesse que o filme de Kubrik suscitou. É também uma demonstração de que o elemento essencial da literatura é a imaginação, e que para esta, não há limites ou estilos narrativos. 

Orfeu B.
     


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

AINDA AQUILINO - SEMPRE AQUILINO



Pintura de Abel Manta



O PRAZER DA LEITURA E OS MESTRES LIBERTADORES



«Sentado na borda do tanque, que uma figueira toldava de deleitável sombra, instruía-me o senhor padre Ambrósio da latinidade. Homem de muitas letras, já ruço, mas ainda de bom garbo nos seus setenta anos, sãos de alma e de corpo, antes de abrir Horácio, aprazia-lhe lembrar, num doce tom de iluminado:
-Nesta sítio, Libório, descansou o grande padre S. Francisco de jornada para Compostela. Reza a história que o servo de Deus vinha trilhado do caminho…» Assim começa a Via Sinuosa de Aquilino Ribeiro, um dos meus mais antigos mestres na arte da degustação literária.

Imaginem uma sala de uma casa na Beira, nos começos de 60 do século passado. Uma sala grande, teto em madeira com pranchas alternadas, duas janelas de guilhotina, semiabertas, e portadas interiores altas, meio cerradas contra a luz que vem da rua. Anda lá por fora um Agosto de brasa que até dói. Pelas ruas, àquela hora, poucos se atrevem. Num cadeirão de braços, com a luz coada, por detrás da cabeça para que não falte nas páginas, vou-me embrenhando pelo romance de Aquilino Ribeiro. Ou nas aventuras e desventuras de Libório Barradas, filho dos caseiros do Convento de Caria, mais tarde de S. Francisco, a iniciar-se no latim do padre Ambrósio, sem “amado mestre”, e nos amores, castos de Celidónia, uma das filha dos Violas, e nos pecaminosos, com Dona Estefânia, esposa do Malafaia, diplomata, do solar de Santa Maria das Águias. É aquela edição que foi imagem de marca da sua obra: capa creme, sem ilustração, badanas com informação discreta, formato de 15x20, frontispício austero. Tipo equilibrado, talvez “Times”, bem impresso, página folgada para a mancha de texto, margens largas, enfim uma edição que, sem ser de luxo, e afora o papel, que envelheceu mal, era muito digna e bem feita, boa de ler e de manusear, honrando os tipógrafos e a editora Bertrand.

São as férias grandes, os dias são enormes, tenho o tempo todo por minha conta e eu posso alongar-me por aquelas páginas, saborear as palavras, mesmo quando as não compreendo e tenho que reler, viajar por lugares, pessoas, acontecimentos e paisagens daquele Portugal profundo, nesse tempo ainda vivo. É o que se chama o prazer puro da leitura, o literário na sua especificidade verbal, que ninguém como Aquilino consegue dar, com ritmo próprio, sabor único, cor pessoal, enfim, a qualidade soberana dos seus textos, intraduzíveis noutras linguagens estéticas. E, portanto, a sensação estimulante de entrar num português da melhor água, e num processo em cadeia de que intuo a grandeza, e de que beneficio, apesar de ser o elo mais fraco: eu, pela mão de Aquilino, este, à sombra do seu bom padre-mestre, por sua vez na esteira de Horácio, Catulo, Cícero e de muito da cultura antiga que o enriqueceu e de que os seus livros tanto beneficiaram.

Dessas lições da juventude Aquilino guardou toda a vida uma devoção e um amor pelo seu «amado mestre», ou pelo «senhor padre-mestre», como sempre o designava, que chega a comover-nos. Não só na Via sinuosa, mas também em Uma luz ao longe e em Lápides partidas são muitas as ocasiões em que ele se refere, com respeito e profunda amizade, quase veneração, a quem lhe deu as bases da formação e do gosto.

E que depois continuou no Colégio Roseira, em Lamego, onde, segundo um belo texto evocativo do livro Arcas encoiradas, «aprendeu a ser gente». Aquilino Ribeiro, que em Lisboa se embrenhou nas ações republicanas contra a Monarquia e os Braganças, em atos mais ou menos revolucionários, é preso por posse de dinamite, consegue evadir-se, emigra, enfim, entra numa linha de aventuras mais ou menos rocambolescas e algo românticas.

Mas, passados anos, a evocação que fez dos seus primeiros professores, o seu “amado mestre”, ainda em casas dos pais, na Casa dos Terceiros do convento de S. Francisco, e depois os professores do Colégio de Lamego, chegam a comovedor, pelo que neles reconhece de qualidade humana, cultural e até científica (na matemática, por exemplo). Do professor de Matemática diz ele: «dos meus professores é o de matemática, Alfredo Vieira Cardoso, pequenino de corpo, mas de inteligência tão lúcida como discursiva, que conservo a mais grata lembrança. O jogo dos números com ele tornava-se uma prática agradável de compreensão, pelo que, não me acobardo de dizer, foi a claridade do seu pensamento, conjugado como rigor da linguagem algébrica, que me ensinou a pensar».



Pintura de Artur Bual

O que nos leva a reconhecer, mais uma vez, como se fosse preciso, o valor dessas tríades educativas hoje desvalorizadas, mas indispensáveis: um bom mestre, a qualidade do aluno e um ambiente que favorece a aprendizagem e a assimilação de valores sólidos. Que depois podem ser revistos e reformulados e até alterados em aspetos menores ou periféricos, mas que se mantêm para toda a vida no que diz respeito ao essencial. Ali, naquele colégio, e sobretudo pela ação de alguns professores, diz ele, «aprendi ainda a ser livre e a amar a liberdade, uma vez que nas próprias disciplinas em que bebia a ciência dos valores e das proporções, conforme a definição de Descartes, se me iam desenvolvendo as faculdades do raciocínio e da positividade, imunizadoras do indivíduo em matéria de preconceito».

São páginas de evocação respeitosa e até doce de vários professores desse colégio – quase todos padres. E é curioso como um homem que depois foi um declarado inimigo do regime salazarista, crítico da cleresia, muitas vezes de modo ácido, estrangeirado arejado e vivido, mantenha, muitos anos depois, o reconhecimento da qualidade humana e em muitos casos científica e cultural daqueles esquecidos clérigos do remoto colégio de Lamego, nos princípios do século XX.
«Esta colégio impunha-se como estabelecimento admirável e quero confessar que as minhas rémiges, pequenas como são, cresceram ali à medida do seu porte e do seu tamanho natural. Ninguém mas aparou nem se armou de tesouras para o fazer. Também não me contrafizeram a alma à mentira e à hipocrisia. Honra lhes seja. Saíamos direitos com aprumo ibérico…».

E quanto ao ambiente social, é também interessante ler o que diz de um colégio de padres no Lamego «afonsino» de 1900, dirigido pelo discreto e «modestíssimo» padre Alfredo: «No colégio não se cultivavam fanatismos, nem forneciam títulos a precedências, fidalguias ou altitudes sociais. Era um internato são e democrático. Mas também não se anarquizava ninguém. Deixavam a personalidade vingar no seu vero ser. Ao sabor da tradição, sem a planta dar conta».

Ao ler isto apanho-me a pensar, com alguma perturbação, no quanto todos nós, afinal, ficamos a dever a esses obscuros mestres do interior profundo de um Portugal perdido no tempo e na geografia, uma vez que foram eles que lançaram os caboucos dessa extraordinária herança que deixou à cultura e à literatura portuguesa a obra de Aquilino. Homem sólido, no verdadeiro sentido da palavra, mas com sensibilidade bastante para apreender a variedade do mundo e dos homens e capacidade suficiente para transformá-la em formas de grande beleza, por si só a sua obra fala dos seus educadores, ou, pelo menos, de alguns. Trabalho que não funcionou só com ele mas também com muitos dos seus colegas, como ele próprio reconhece no mesmo texto.

Uma boa educação não dispensa os grandes modelos e os elevados exemplos. Como diz Georges Gusdorf, nesse excelente livro que é o Professores, para quê? «o verdadeiro mestre reconhece-se a si mesmo como servidor e discípulo da verdade; convida os seus alunos a procurá-la pelo seu lado e segundo os seus próprios meios». Se alguma dúvida houvesse Aquilino Ribeiro, cuja obra há de sobreviver a marés e marinheiros, é disso um caso exemplo.

JOÃO BOAVIDA

sábado, 3 de agosto de 2013

A MATÉRIA DA VIDA


O leitor normal da obra de Manuel Alegre balança com muitas vezes entre prosa e poesia, com frequente queda para a poesia.

É óbvio também que Manuel Alegre não se coibe em deixar o poeta entrar pela prosa dentro para construir relatos que, tantas vezes, se descolam de um excessivo compromisso com o real para frequentar territórios outros, caminhos em que se misturam tempos, passados e futuros, concretos e fantásticos, reais e ficcionais.

Para a minha geração, a poesia de Manuel Alegre foi um caminho imprescindível, foi a Sierra Maestra da palavra, a festa do sentido, a partilha da música, o encontro da casa foi e será sempre a "Praça da Canção".

A poesia mais recente e a prosa de Manuel Alegre, sem deixarem o fogo da canção, vêm-nos falar da vida e dos tropeços próprios, dos caminhos e descaminhos da vida do poeta. Veja-se esse notável poema que é "Senhora das Tempestades" que é, quanto a mim, um dos grandes momentos da poesia portuguesa dos últimos decénios.

Muita da prosa de Manuel Alegre parte da sua vida e das questões que essa vida levanta, sonhos, utopias, amores, caminhos cruzados e descruzados, vida.

Sentimos essa vida a pulsar por dentro das palavras da narração. E gostamos que assim seja. Porque só pode falar da vida quem a viveu, como é o caso do poeta.

Neste "Tudo é e não é", que li de sopetão, o autor transforma-se num taumaturgo que pega em farrapos de memórias e tenta construir uma narrativa sabendo que as palavras constroem uma outra faceta, uma outra realidade, e que essa realidade foge aos dedos do escritor, para nos falar do que foi e logo para logo o transformar no que não foi.

O leitor vai atrás da Montanha Russa das palavras do narrador que procura narrar o inenarrável e vai enrolando sonhos e obsessões, baralhando tempos narrativos onde se cruzam os que nunca se cruzaram senão nas palavras que, entre o que é e não é, trabalham o sumo da memória.

Talvz esta seja a prosa mais ambiciosa de Manuel Alegre. E talvez também a mais complexa e difícil. Mas o escritor ganha a aposta e consegue dar-nos uma bela razão para acreditar que ler pode tornar-nos em pessoas mais inteiras, mais capazes de se questionarem a si próprias, mais dentro do tempo que lhes é dado viver.


segunda-feira, 29 de julho de 2013

UM ROMANCE ABSOLUTAMENTE "CAGALHOFEIRO"



O meu muito querido amigo Raúl Calado inventou há uns 50 ou 60 anos a palavra "Cagalhofeiro". Digo bem, inventou, porque depois de procurar em vários dicionários, incluindo o magnífico Houaiss, não a encontrei. E o Raúl usava e usa "cagalhafeiro" para caracterizar alguma coisa particularmente engraçada, divertida e até, mais do que isso, qualquer coisa que se torna algo subversiva pelo próprio uso do humor.

Ao ler este romance, a palavra que me veio desde o início para o caracterizar foi: "Cagalhofeiro". "A demanda de D. Fuas de Bragatela" é um romance absolutamente cagalhofeiro!

Há anos que o queria ler. Mas esgotou-se e só foi reeditado recentemente.

Paulo Moreiras é um dos escritores descobertos e trazidos à luz do dia pelo excepcional trabalho editorial de Maria do Rosário Pereira (excepcional editora além de notável poeta)

Foi na colecção que dirigia na velha Temas e Debates que Maria do Rosário deu a conhecer ao público português escritores como José Luís Peixoto, João Tordo e este mesmo Paulo Moreiras.

Esquecemo-nos muitas vezes do trabalhos dos editores. Trabalho invisível, paciente, teimoso. Trabalho de paixão. maria do Rosário trabalha agora na Leya com a intenção justamente de descobrir e apoiar novos escritores de grande qualidade.

Já tinha lido um outro romance de Paulo Moreiras, "O oiro dos corcundas". Agarrei-me finalmente à demanda de D. Fuas Bragatela e com que prazer.

Trata-se de um romance pícaro, excessivo, transbordante, que relata as aventuras e desventuras deste D. Fuas, nascido da miséria de um Portugal em pleno medievo final, séc XIV, no reinado de D Afonso IV.

Fuas, promovido a D. Fuas pelas suas artes de espertalhote e videirinho. Saltapocinhas, filho de alfaiate, neto de Xamoa, uma bêbada amante de um frade gordo, vítima dos acasos e desventuras da vida, saltimbanco, aprendiz de barbeiro, soldado e cozinheiro, trotamundos em busca de uma côdea ou de uma quimera, moço de mil trabalhos, quase escravo, ladrão de estrada, fujão, capaz do pior e do melhor,tornado médico autodidacta pelo roubo do estojo de um cirurgião, capaz de separar dois gémeos ligados pelas costas ou deixar um nobre sem teres nem naveres esperando de rabo para o ar a cura por um tremendo clistér.

As suas avnturas são deliciosas e seguem-se num sobe e desce de sucessos tão contraditórios quanto divertidos e excessivos como uma narrativa deste tidpo exige.

O romance é uma sequência notável de pequenas e grandes aventuras, Paulo Moreiras é um homm que sabe preparar a sua banca de trabalho. É notável a investigação que subjaz ao romance. Investigação de história, de época, de mentalidades e, talvez acima de tudo, de vocabulário usado com a conta e medida para nos dar a cor da época sem cortar o normal correr da leitura.

Resumindo: um romance absolutamente cagalhofeiro.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

AQUILINO RIBEIRO - 5O ANOS DEPOIS




Os autores – os melhores, diga-se – fazem eco dentro de nós, deixam rasto. Alguns ressoam na nossa memória e acompanham-nos pela vida fora. No meu caso, Aquilino é um deles. Dizer que comecei a interessar-me por ele em virtude da aura política que lhe veio do processo movido pelo Estado Novo, quando da publicação de Quando os lobos uivam, talvez seja exagero. É sabido como uma perseguição da PIDE salazarista dava ânimo a qualquer livro, mas Aquilino não precisava disso. A minha sedução pela sua obra é anterior. Quando comecei a ganhar gosto pelos livros, Aquilino era então um dos maiores nomes da nossa literatura, se não mesmo o maior, e daí a obrigação de o ler, o dever de o apreciar e o alegre esforço para alcançar esse nível e, consequentemente, essa satisfação, esse puro prazer. Aquilino exigia (e exige) esforço; mas qual o grande autor (o grande amor) que o não exige?
Há quem o acuse de falta de profundidade psicológica, de uma trama pouco densa e estimulante, de falta de dramaticidade nos seus romances, e até de um formalismo já algo tardio, e, portanto, serôdio. Talvez seja verdade. Não esquecer, porém, outros da mesma época, de grande qualidade, como Tomaz de Figueiredo, João de Araújo Correia, por exemplo, onde o que se manifesta é esse gosto da forma a traduzir uma realidade social e cultural muito forte e nítida, que se lhes impunha e que eles procuravam traduzir e recriar. É pois o tipo de argumento que, face à obra em causa, sempre me pareceu algo deslocado, difícil de integrar na realidade sistémica que, sobretudo no caso de Aquilino, o seu estilo impunha.
Porque ele não era fácil, hoje talvez ainda menos, mas o sabor da sua prosa valia (e vale) bem o trabalho de o ler, compensando-nos largamente de tudo. Não era de pressas. A sua ação pausada, as suas lentas e gongóricas descrições, os seus largos excursos eruditos ou evocativos, as suas sintaxes envolventes e de frases longas e, sobretudo, o seu léxico rico, vastíssimo, inesperado, inventivo, amiúde extravasando o melhor dicionário, entre o popular, o regionalista e o vernáculo, nunca esquecendo os clássicos, (traduzindo, vertendo) nem a latinidade, a sacralidade, a santanidade, e até a liturgia, com sua parafernália de ternos e expressões, numa mistura muito própria que a sua filigrana estilística única e inimitável exigia. Não era fácil, não. Mas deleitava.
Em Aquilino, como disse, o enredo, interessando talvez menos, não é, todavia o livro sem história à moda de alguns atuais, sobretudo da área do já antigo “novo romance”, ou do desconstrutivismo posterior. Não, o enredo existe e prende, mas é sempre submetido ao seu modo de contar, e este à exigência de uma sintaxe elaborada, frequentemente retorcida, ao seu vocabulário que não perde a oportunidade de pôr ao sol termos esquecidos, de endireitar outros, empenados pelo mau uso, de criar muitos, ali mesmo, para a necessidade do momento, e sempre sob a aba inspiradora de sabor oitocentista e setecentista, que as frases e as palavras evocam, e de uma ancestralidade que ressoa nas nossas reminiscências dir-se-ia que platónicas, se não fosse quase escandaloso dizê-lo hoje.
É pois uma escrita sempre subordinada ao classicismo da construção, à riqueza e originalidade do vocabulário, ao gosto de uma descrição que não permite uma prosa dinâmica, e menos ainda desestruturada e desconstruída que a literatura contemporânea nos veio propor. Aquilino Ribeiro é talvez o nosso último grande clássico. Mas, passados cinquenta anos sobre a sua morte, e depois de tanta experiência, de tantos experimentalismos, artísticos e outros, ainda bem que o foi, e valha-nos isso!


É pois um autor para ler devagar, que não se casa bem com a diluição atual duma certa identidade que foi tão nossa, nem com a desestruturação cultural a que se assiste, nem com muitas das regras gramaticais que a moderna literatura começou a praticar, ou a despraticar, nem com a aridez vocabular corrente, nem com a pesporrência da literatura televisiva dominante, nem com a incultura transformada em cultura, nem com o palavrório ininterrupto, embora construído com meia dúzia de palavras. Menos ainda com a moderna vertigem substitutiva dos estímulos, que tira o sabor à vida, e ainda menos com uma era de eletrónicas em que tudo desaparece no momento em que aparece, etc. etc. Nesta sentido Aquilino é hoje uma força conta a corrente, e, portanto, uma rocha a que nos podemos agarrar. Em suma, um autor com um valor educativo hoje altamente acrescentado.
É, por outro lado, a imagem dum Portugal que existiu, e de que pouco ou nada já resta: rural, pobre, política e economicamente injusto, mas ativo, habitado e animado, demograficamente vivo, humano e humilde, mas teso, finório e boçal, afável e velhaco, troca-tintas e honrado. Disso, desta mistura donde todos descendemos, Aquilino nos dá testemunhos através de tipos humanos inigualáveis, em inúmeras histórias e situações pitorescas, cruéis, hilariantes, traiçoeiras, amenas…
Mas o melhor de Aquilino está no gosto de descrever as paisagens beirãs, as aldeias, as festas, os trabalhos, as pessoas, os bichos; o amor na procura das raízes vocabulares e sintáticas, no trabalho da língua, de sentirmos o formão e a goiva da sua marcenaria fina afeiçoando uma madeira dura e macia, que deixa, depois de bem trabalhada, obra feita. Para durar. E perfeita. Aquilino Ribeiro é sobretudo um prosador, a gente sente-o a saborear o que escreve e a amar o que descreve e conta. E ao lê-lo, assim como mergulhamos numa portugalidade antiga que nos moldou os ossos e os sentimentos, para o melhor e o pior, e de que andamos esquecidos, ou a tentar fugir, cheios de prosápia, também usufruirmos de uma espécie de reorganização interior, uma reformulação de alma que todo o sentimento estético nos provoca e engrandece.
A grande literatura é essa forma incessante de nos reorganizarmos, de acrescentarmos ao que éramos uma outra nova e mais rica forma de ser, de sentir por nós dentro esse oxigénio que a funda enxada, cavando, fortalece, revigora e amacia. Ler Aquilino é mergulhar nesse Portugal desaparecido, rural, duro, resistente, devoto e anticlerical, macio e cruel, atrasado e finório, que era o mundo que foi o dos nossos pais, avós e tetravós. Para os mais novos é um modo de ter notícia desse tempo perdido, de conhecer os sentimentos, as vozes, os olhares, os valores estéticos e morais de que era feito, e, ao mesmo tempo, ter a experiência de um País profundo, ancestral, resultante da acumulação de muitos sedimentos de gentes, hábitos, culturas, lugares, ocorrências, e que é, desta terra pobre e castigada, muito da sua melhor herança. Se todos os portugueses, hoje, pudessem ler, gostar e interpretar Aquilino Ribeiro, pelo que significaria de amor à Pátria, de conhecimento dela e de sentido crítico para os seus defeitos e qualidades, que grande, que incomparável mudança nas mentalidades não sofreríamos todos.


João Boavida

quarta-feira, 10 de julho de 2013

E SE DELIRÁSSEMOS UM BOCADINHO GRANDE?



Há anos, uma amiga emprestou-me um livro de Eduardo Mendoza, escritor catalão multiuacetado. Fiquei fã. Já aqui falei de um exccelente romance seu, "Rixa de Gatos", coisa séria e intensa passada no início da Guerra Civil Espanhola em Madrid.

Entrei nesta história absolutamente delirante, passada em Barcelona e com um vago recorde policial em que tudo é levado a um alto nível de disparate e comicidade invulgar.

Bem sei que sou facilzinho no que diz respeito a emoções, sejam de lágrimas ou de gargalhadas. Mas há muito tempo que não dava comigo a rir desalmadamente durante uma leitura

Basicamente Eduardo Mendoza retoma a figura de um ex-presidiário e ex-internado num manicómio, agora cabeleireiro de senhoras sem clientes que vai tentar salvar um amigo, Rómulo, El Guapo, criminoso particularmente desastrado, que entrou num plano diabólico de um terrorista internacional para raptar Ândela Merkel em Barcelona.

O nosso herói vai tentar evitar o rapto e para isso conta com a colaboração de Juli, homem-estátua africano albino, Pollo Morgan também homem-estátua que faz uma magnífica Rainha Leonor de Portugal embora com bigode e ainda Moski, russa estalinista que toca concertina nas ruas e no metro.

Mas ainda há mais: Quesito, uma miúda de 13 anos que só Magnuns e é capaz de arrombar qualquer porta; Cândida, a irmã do nosso herói, ex-prostituta que tem como medalha de honra ter batido uma segóvia ao bispo de Tudela; um swami, mestre de ioga e meditação transcendental, um restaurante chamado VENDE-SE CÃO e cento e desasseis chineses vestidos de tiroleses, de batman e do que mais calhou, intitulando-se COLÓNIA ALEMÃ DE BARCELONA cagindo em bloco sob comando do dono do Bazar chinés "LA BAMBA".

Se esta discrição não chegar para vos aguçar o apetite, meus amigos, resta-vos uma magnífica carreira como carpideiras profissionais!

quarta-feira, 3 de julho de 2013

e os hipopótamos cozeram nos seus tanques



OS BARES FECHAM ÀS TRÊS DA MANHÃ NAS NOITES DE SÁBADO e por isso cheguei a casa por volta das 3.45 depois de tomar o pequeno-almoço no Riker’s na esquina da Christopher com a Sétima Avenida. Atirei o News e o Mirror para cima do sofá, despi o meu casaco de crepom às riscas e larguei-o em cima deles. Ia direito para a cama.


Nesse momento, a campainha tocou. É uma campainha estridente que fura os ouvidos e por isso corri rapidamente para carregar no botão que abre a porta da rua. Depois tirei o casaco do sofá, pendurei-o numa cadeira para que ninguém pudesse sentar-se em cima dele e meti os jornais numa gaveta. Queria ter a certeza de os ter ali quando acordasse de manhã. A seguir atravessei a sala e abri a porta. Calculei o tempo precisamente para que não tivessem oportunidade e bater.

Entraram quatro pessoas. Agora vou dizer-vos por alto quem eram essas pessoas e que aspecto tinham, uma vez que esta história é quase toda acerca de duas delas.

William S. Burroughs & Jack Kerouac


Uma descrição dos acontecimentos que conduziram ao crime passional e que em certa medida foi a centelha original dos escritores Beats, William S. Burroughs (1914-1997), Jack Kerouac (1922-1969) e Allen Ginsberg (1926-1997). Escrito a meias por Burroughs e Kerouac em 1945, em capítulos quase alternados assinados por Will Dennison (Burroughs) e Mike Ryko (Kerouac), o manuscrito esteve perdido no espólio de Kerouac durante 60 anos e só foi publicado em 2008. Um livro que não sendo uma obra prima tem interesse do ponto vista histórico e sociológico. Um relato sobre os acontecimentos romanceados que antecederam um crime passional que teve lugar em Nova Iorque no final da II Grande Guerra e que envolveu dois homens, ambos amigos dos autores e de Ginsberg. Num estilo existencialista, podemos ler a descrição de vidas vazias, pontuadas pela indolência, pelo alcoolismo, pelo consumo de drogas e por relações hetero, homo e bissexuais complicadas, e claramente infelizes e frustradas. O crime passional é resultado da tensão e da ambiguidade destas relações. 

É interessante referir que este crime foi retratado no seu tempo com sensacionalismo e fez parte, durante alguns anos, da cultura urbana de Nova Iorque. Merece ser também mencionado que foi a reacção extremamente negativa dos professores e mentores de Ginsberg que o demoveram da intenção de escrever ele também o seu relato dos acontecimentos.  

Recordemos que este manuscrito antecede em muitos anos "Howl and Other Poems" (1956) de Ginsberg, "On the Road" (1957) de Kerouac e "Naked Lunch" (1959) de Burroughs, livros que são inquestionavelmente os mais marcantes e emblemáticos da Beat generation. Percebe-se com este "E os Hipopótamos Cozeram nos seus Tanques", que o romantismo em que estão envoltos os escritores desta geração é largamente exagerado. 

A obra, que em Portugal é editada pela Quetzal, conta também com um esclarecedor posfácio do editor nova-iorquino James Grauerholz. 

Orfeu B.     




O TEATRO DA LEI


Com a prática deste blog tenho descoberto a distância que vai da leitura à escrita. E também como a escrita nos ajuda a consolidar a leitura. Quando lemos com o propósito de vir a escrver, mesmo que seja só para consumo própio, somos obrigados a ir mais fundo que o simples entretenimento

Por isso este exercício se torna por vezes difícil de manter sobretudo quando o dia-a-dia é balburdento e o tempo escasseia

A leitura não a deixo. Mas quando quero parar para escrever, ao fim do dia, não me sobra a felicidade da preguiça tão importante para estruturar o escrito. Por isso se acumulam as leituras com que quero infectar os amigos e os leitores deste blog e escaseia o tempo para tornar esse desejo em palavra escrita.

Parece que agora o tempo chegou Tenho muitos livros lidos de que quero falar. Pequenos e grandes prazeres que quero partilhar. E começo por "Os dois irmãos" do meu amigo Germano de Almeida.

Por volta sw 1976, a seguir à ind, deixando Maria Joana, a jovem esposa, na aldeia. Ao longo do tempo, André vai-ze afastando

3 anos depois recebe uma carta do pai a anunciar-lhe que o irmão mais novo se envolveu com Maria Joana desonrando assim não só o marido como toda a família.

André tem uma ternura especial pelo irmão e regressa à aldeia para tentar encontrar alguma solução pacificadora. Mas toda a aldeia, começar pelo pai, lhe exige que mate o irmão.

21 dias depois de regressar, André mata o irmão e é levado a tribunal acusado de fratricídio.

A narrativa é conduzida com mão de mestre por Germano de Almeida, num balanço que vai do julgamento aos acontecimentos que o provocaram e confronta as várias versões e testemunhos com a verdade, ou a possível verdade, na busca da resposta à grande dúvida: até que ponto André terá sido apenas a mão de uma justiça ancestral que se recusa a conjugar-se com os critérios de uma justiça moderna. E se André terá porventura de ser condenado à luz da justiça oficial, tornar-se-á um herói perante a sua famúilia e a sua aldeia.

A história é baseado em factos verídicos e Germano de Almeida foi na realidade o agente do Ministério Público que fez a acusação ao fratricida.

O que é brilhante é ter conseguido construir uma história concentrada e multifacetada, com um ritmo que nos agarra pelos colarinhos e que mostra como se pode narrar histórias verídicos não do lado da estrita realidade jornalística mas do lado do puro talento talento e da arte literária.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

"Estamos sós com tudo aquilo que amamos" Novalis

Leituras de Verão... Respigando bibliotecas.


O Tempo Esquecido”

de Anita Brookner.
Difel


A boa escrita de Anita Brookner que prende e desconcerta. Como se, até na sombra de dentro de casa, confortavelmente sentados numa voltaire, com água fresca ao lado, nos assolasse o sufoco e o cansaço de percorrer ruas em abafadas e quentes tardes de Verão. 

sexta-feira, 7 de junho de 2013

A Vítima




Há noites em que Nova Iorque é tão quente como Banguecoque. É como se o continente inteiro saísse do seu lugar e deslizasse para mais perto do equador, o implacável e cinzento Atlântico se tornasse verde e tropical e as pessoas que enchem as ruas se transformassem em bárbaros felás no meio dos majestosos monumentos da sua fé, cujas luzes, numa profusão estonteante, se fundiam incessantemente com o calor do céu. 

Numa dessas noites Asa Leventhal apeou-se apressadamente de um comboio na Terceira Avenida. Absorto em pensamentos, quase ia deixando passar a sua paragem. Quando a reconheceu deu um salto e gritou ao condutor:

- Eh, aguente aí, espere um minuto! 

Saul Bellow



Asa Leventhal é o protagonista deste romance de 1947, escrito numa linguagem directa e desprovida de ornamentos, muito ao estilo dos grandes romancistas norte-americanos, Hemingway, Faulkner e Steinbeck. Sendo um dos seus primeiros romances, parece-me inevitável que o autor de obras primas como Herzog, Jerusalém ida e volta, O planeta do senhor Samler, tenha sido influenciado pelos grandes romancistas do seu tempo. Porém, há neste romance, o embrião dum estilo muito próprio e da abordagem temática que permeia toda a obra de Bellow, nomeadamente a instabilidade psicológica dos personagens que não escapam à fricção da cultura europeia dos judeus radicados nos Estados Unidos e a cultura fluída, mutante e em contínuo estado de auto-destruição e reconstrução que caracteriza as correntes sociais duma América multi-cultural. 

Asa Leventhal é um desses personagens. Por trás da forma concreta e directa como aborda a vida e os seus problemas, há um homem emocionalmente frágil, extremamente dependente duma rotina invariante e com uma obsessão muito judaica de agir correctamente e de não causar o mal. Quando durante a ausência da esposa num longo e escaldante Verão recebe a visita dum conhecido que há muitos anos o havia proposta para um emprego e que agora o culpa por ter perdido o emprego, Asa é incapaz de defender-se da acusação e deixa-se enredar numa vil e despropositada chantagem.

Um livro dotado duma subtileza psicológica muito refinada, e embora não sendo uma das obras mais importantes do autor, permite-nos ter uma excelente perspectiva da evolução estilística e das preocupações deste grande autor norte-americano, Prémio Nobel de Literatura de 1976.          

Naturalmente, a obra de Bellow é muito bem conhecida e objecto de estudo em vários contextos, porém parece-me particularmente interessante a sinopse comentada da obra de Bellow por outro grande escritor norte-americano, Philip Roth:


Orfeu B.