quinta-feira, 20 de março de 2014

A ESCRITA ENCANTATÓRIA DE ISABELLE EBERHARDT

É sob o efeito da escrita encantatória de Isabelle Eberhardt (1877-1904) que escrevo estas linhas, embora esteja ciente da dificuldade de transmitir a emoção que as suas “Histórias da Areia” (editadas por Sistema Solar) me provocaram. Isabelle é uma suíça de língua francesa, descendente de russos que se fixaram na região de Genebra. Ela e sua mãe, sedentas de uma liberdade que não encontravam na Europa, partem para Argel, onde fixam residência. Aníbal Fernandes (AF), em prefácio à obra, fornece-nos alguns elementos necessários ao enquadramento da vida e da obra de Isabelle na antiga colónia francesa da Argélia. Vida aventurosa, em que ela se veste com as roupagens de um beduíno, o que lhe permite uma liberdade de movimentos só acessível aos homens. Adquire um nome árabe, domina a língua árabe, converte-se ao islamismo. Gradualmente vai se transformando num ser livre. Livre em todos os aspectos, no amor inclusivamente: quando um homem a atrai, entrega-se total, ardentemente. Apaixonada pelo deserto, percorre-o permanentemente. E, desta peregrinação, nascem muitos dos seus contos, eivados de luz, de cor, de fogo – de poesia. Escrita no feminino, que, na perspectiva europeia, se poderá enquadrar no que ficou conhecido pela designação genérica de movimento modernista (que, em Portugal, teve, em minha opinião, a sua expressão mais alta em Mário de Sá-Carneiro). Do prefácio de Aníbal Fernandes, cito alguns textos de Isabelle, que nos poderão fornecer pistas sobre a sua vida e obra. Assim, ao referir-se à sua vida de vagabundagem, diz: “Uma vez mais a vida beduína fácil, livre, embaladora, tomou conta de mim para me inebriar e amolecer.” E, ao falar da sua posição perante a sociedade, esclarece-nos: “Não sou política nem agente de nenhum partido, pois acho que todos de igual forma se enganam. Sou apenas uma extravagante, uma sonhadora com o desejo de viver longe do mundo, de viver uma vida livre e nómada para contar o que vê e à frente do triste esplendor do Sara conhecer, talvez, o melancólico e enfeitiçado estremecimento.” Aníbal Fernandes acrescenta mais adiante: “Naquela vida agitada existia um escritor incansável, espalhado por diários, por impressões de viagem, pensamentos e histórias. ‘Escrevo porque gosto de progredir na caminhada da criação literária’, deixou registado num dos seus papéis: ‘escrevo como amo, porque talvez seja este o meu destino. É o meu único e verdadeiro consolo’.” E continua Aníbal Fernandes: “(...) morte que nunca a assustou, a benfazeja, a que inspira aos muçulmanos esta saudação: «Faça-te Deus morrer jovem.» Ela própria reconhece-o nesta frase: ‘A morte sempre me surgiu com a forma atraente da sua imensa melancolia.’” Em 1904, com a idade de vinte e sete anos, morre Isabelle Eberhardt, esmagada pelos escombros da sua casa de argila, que se desmoronou durante uma tempestade. Deve-se ao General Lyautey, governador francês da colónia, a salvaguarda dos seus manuscritos, tal era a sua admiração por esta sua opositora, bela, pura, independente. Manuscritos e histórias que publicou em jornais argelinos, constituem o seu espólio, que só muito mais tarde foi valorizado e publicado. A título de exemplo, transcrevo a parte final do conto “O Paraíso das Águas”: “O dia de fogo apagava-se na irradiação da imensa planície e das colinas. Para lá dos sebkha de sal as tamarineiras acenderam-se como grandes velas negras. De novo o mueddine clamava o seu apelo melancólico. O Vagabundo estava agora completamente acordado. Os olhos com pálpebras magoadas e pesadas abriam-se com avidez ao esplendor da noite. De repente uma tristeza infinita desceu-lhe ao coração. Foi invadido por saudades infantis. Estava sozinho, sozinho neste canto da terra marroquina, e sozinho em todo o lado onde tinha vivido, em todo o lado para onde alguma vez fosse. Não tinha pátria, não tinha lar, não tinha família nem sequer amigos. Passara como um estranho e um intruso, despertando apenas a reprovação e o afastamento. Naquela hora sofria longe de todo o auxílio, entre os homens que assistem impassíveis à ruína de tudo que os rodeia e cruzam os braços perante a morte, a doença, dizendo: Mektub. Em nenhum ponto da terra havia um ser humano a pensar nele, a sofrer com o seu sofrimento. O coração do Vagabundo apertou-se terrivelmente, e dos olhos correram-lhe lágrimas. Mas mais lúcido, acalmado, sentiu desprezo pela sua fraqueza e sorriu. Se estava só, não era por tê-lo desejado nas horas conscientes em que o seu pensamento se elevava acima dos sentimentalismos do coração e da carne, de igual modo enfermos? Estar só era estar livre, e a liberdade era a única felicidade acessível à natureza do Vagabundo. Disse então a si próprio que a sua solidão era um bem; e à sua alma desceu uma grande paz melancólica e suave. Um sopro quente levantou-se na direcção do Oeste, um sopro de febre e angústia. A já cansada cabeça do Vagabundo voltou a cair no travesseiro. O seu corpo aniquilava-se num torpor quase voluptuoso. Os seus membros ficavam leves, moles, como se tivesse a pouco e pouco deixado de existir. A noite de Verão escura e estrelada desceu no deserto. O espírito do Vagabundo abandonou o corpo e levantou voo para sempre, rumo aos jardins encantados e às grandes e azulíneas lagoas do Paraíso das Águas. Nota: Este conto é a adaptação de dois textos que Isabelle Eberhardt escreveu sobre a sua própria experiência da febre, aqui transferidos para a personagem do Vagabundo. Na sua primeira versão, a voz do narrador é a do próprio autor. (A.F.)” Com este texto, não pretendo esgotar a beleza, a subtileza, a sensualidade da escrita de Isabelle Eberhardt, mas apenas chamar a atenção para algo que é essencial na sua vida conturbada: a escrita “talvez seja o meu destino. E o meu único verdadeiro consolo.”

domingo, 16 de março de 2014

Zetética


Zetética é a ciência que investiga formas de organizar a informação e usa-la criativamente. Foi sugerida e desenvolvida pelo engenheiro, inventor  e professor de engenharia electrotécnica da Universidade de Illinois, Joseph Tykociner (1877-1969). Tykociner, um judeu polaco que imigrou para os Estados Unidos em 1905, construiu neste país a sua reputação como inventor e tem o seu nome associado à invenção do cinema de animação sonora. Em 1959, Tykociner publicou o seu primeiro escrito sobre zetética e a sua perspectiva era a de criar um processo de investigação da informação que permitisse aumentar o corpo do conhecimento, uma visão extremamente contemporânea e com claras ligações à World Wide Web.

Etimologicamente, o termo zetética tem origem na palavra grega zetetikos, que significa procurar ou inquirir. Na Grécia antiga, os filósofos da escola céptica eram designados por Zetéticos ou investigadores. O pioneiro da álgebra, Francois Viete, usava, em 1590, a palavra para designar as quantidades conhecidas e desconhecidas numa equação. Alguns dicionários referem-se à Zetética, no contexto matemático e filosófico, como o conjunto de preceitos para solucionar um problema ou investigar as causa de alguma coisaHá também derivações algo nocivas do termo que o utilizam para designar cepticismo relativamente ao saber científico, investigação do paranormal e perspectivas heterodoxos da ciência e da filosofia.  

Tykociner, atribui à palavra zetética o sentido de uma metodologia, o método zetético, que consistia no processo de organizar o conhecimento adquirido segundo uma matriz e utiliza-la para obter a informação desejada num dado contexto bibliográfico. Mas para Tykociner, a Zetética era mais que uma ferramenta para bibiotecários, porque permitia a ampliação de horizontes ao arquivar e sistematizar o conhecimento segundo os métodos de investigação que foram utilizados na sua obtenção, os meios de  produção artística, os processos mentais, os factores psicológicos e as condições ambientais de modo a dar origem a novos problemas, estimular a imaginação criativa, guiar o pensamento selectivo, e dar origem a ideias frutíferas e originais. Tal organização incluiria como material factual básico toda a informação concernente à origem das descobertas, invenções, trabalhos de arte, e grandes sistemas filosóficos. Sistematização que teria sempre como objectivo aperfeiçoar os métodos de inquirição, através da expansão do escopo da metodologia científica, e identificar no corpo do conhecimento as lacunas que propiciassem a formulação de novos problemas.  

O opúsculo "Taxiology of the Pictorical Knowledge" que aqui apresentamos, sintetiza as principais ideias de Tykociner contidas no seu "Outline of Zetetics" de 1966. Os editores dizem-nos: "Este volume é a chave que abrirá ao leitor a porta para o mundo encantado do conhecimento. Ao longo das páginas desse volume, o leitor encontrará em palavras e fotografias a fascinante história do nosso progresso, do passado distante, quando os nossos ancestrais fizeram as primeiras descobertas, até os nossos tempos, quando novas maravilhas estão a ser reveladas por meio do trabalho dos nossos cientistas." A obra contem uma quinzena de páginas, onde nos é exposto o principal das ideias de Tykociner, e estas são ilustradas com cerca de duas centenas de fotografias que visam ilustrar os aspectos associativos e metodológicos da Zetética. 

A leitura do breve texto não permitiu, ao autor que agora escreve, atingir um grau de entendimento muito profundo sobre as propostas de Tykociner, porém ele não pode deixar de exprimir o seu deleite relativamente à compilação de fotografias e a riqueza de ideias e associações que elas engendraram.  

Quanto à proposta Zetética, o autor destas linhas tem a sensação de ter sido um zetético desde sempre. 


                                                          
Orfeu B.


sábado, 8 de março de 2014

BIBLIOTECA DE BABEL - LEOPOLDO LUGONES


A Biblioteca de Babel (no original, La biblioteca de Babel) é um conto de Jorge Luis Borges, inserido no livro Ficções ,e fala de uma biblioteca infindável, onde est+á guardada unma infinidade de livros.

O narrador, um dos muitos bibliotecários, supõe que os volumes da biblioteca contêm todas as possibilidades da realidade. Alguns não fazem o menor sentido, ou se fazem é numa língua há muito desconhecida. Outros são meras repetições de uma mesma palavra. Busca-se incessantemente alguém que saiba decifrar as mensagens contidas nos misteriosos volumes e que seria o correspondente a um Deus.

Entre as várias interpretações possíveis do conto de Jorge Luis Borges, uma afirma tratar-se de uma metáfora em que mundo e literatura se confundem. Apollinairee

Ler um texto é tentar decifrá-lo, mas se considerarmos que o próprio mundo está impregnado de linguagem, a própria realidade pode ser considerada como uma grande biblioteca cheia de textos à espera de quem os decifre.

A Biblioteca de Babel pode ser entendida como uma metáfora para a Sociedade da Informação.

Borges, entretantdo, dirigiu uma famosa colecção intitulada "A Biblioteca de Babel" onde publicou uma série de textos e contos fantásticos de autores diversos como Edgar Alan Poe, Papini, Stevenson, Apollinaire, Melville, Chesterton, etc, etc.

Essa colecção já começou a ser editada por duas vezes em português. A primeira pela Vega. A segunda pela Presença

O primeiro dos livros a ser publicado pela Vega foi "Os cavalos de Abdera" de leopoldo Lugones. Há anos que andava por aí à espera que eu lhe pegasse. E zás! Finalmente lá foi. E ainda bem. Como quase todos os textos desta colecção é uma delícia.




Segundo Borges, cada geração de grandes escritores ressuscita a sua própriua genealogia.

Os autores desta colecção são justamente o exemplo disto. Com eles vai Borges construindo a sua genealogia, a sua família de escritors, alguns dos quais menos conhecidos, todos eles movendo a sua escrita no campo do fantástico, do estranho, daquilo a que eventualmente dessa literatura pura que se situa no espaço do espanto, do arrepio, do deslumbre.

Leopoldo Lugones (1874-1938, argentino, pertence a essa família de escritores. A seu espaço é o de uma escrita barroca, de uma beleza inquietante, de um excesso que nos envolve e conduz como se nos atirasse para um precipício sem fundo para onde nos acabamos por nos deixar conduzir fascinados. E se de início as suas histórias são estranhas, ficamos rapidamente presos a esse excesso de linguagem que se espraia num delírio alucinante e envolvente que nos deixa um sabor amargo na boca quando, de súbito, o autor decide terminar a sua histórtia.

Lugones traz-nos literatura para mastigar. Fala de Sodoma e de acontecimentos assustadores, terríveis, apolípticos como a revolta dos cavalos de Abdera, ou conduz-nos de espanmto em espanto fazendo-nos tocar o indízível, o inacreditável, a insuportável maravilha do ledo negro e fantástiuco da realidade.

E depois, a tradução e o prólogo de de Luís Alves da Costa são simplesmente impecáveis.

Caros amigos, não hesitem. Na slivrarias não encontram mas nos alfarrabistas deve ser fácil.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

O TÁXI DA CULTURA POPULAR

Circula pela ruas de Lisboa um táxi que tem escrito nas portas um conjunto de informações de quem o conduz. Começa pelo título, em letras grandes, “CULTURA POPULAR”, logo seguido de dados sobre o condutor, autor de livros, ali em venda. E assim aconteceu, depois de me ter informado que era de Folgosinho, aldeia beirã, falou-me da cultura popular e da sua importância na cultura de um país. A que se seguiu um relato da sua vida e o modo como a relata em verso, no seu livro “Memórias do Trovador”, de que me mostrou um exemplar, que me vendia por dez euros. Mas que também tinha um outro, “Trovas dos Montes Hermínios”, que também tinha ali à mão. Os dois juntos valiam quinze euros – “mal dá para a impressão”. Enfim, uma técnica perfeita de vendedor experimentado. Como lhe pareceu que eu hesitava, acrescentou: “Os professores catedráticos da universidade são os primeiros a comprar; ainda aqui há dias transportei o professor Mariano Gago, aquele que foi ministro, que me disse que a cultura popular deve ser protegida”. Espantosamente, enquanto falava e me mostrava os seus livros, conduzia com uma segurança a toda a prova. Quando lhe comprei os dois livros, à porta da minha casa, tirou da bolsa lateral do “Mercedes” um saco em plástico com as suas obras. Perguntou-me como me chamava e fez uma dedicatória: “Para o casal Estrela com toda a dedicação do Mundo. O autor António Sequeira Tente”. Do seu livro “Trovas dos Montes Hermínios” transcrevo alguns dos seus versos. O poema “Fontes da minha inspiração” inicia-se com a seguinte epígrafe: “Um poeta fingidor dá valor ao que interpreta, e eu por não ter valor sou fingidor de poeta...” Seguem-se as quadras: “Ó fonte que me sorris, Mesmo que te chamem louca; Até te sentes feliz Por andares de boca em boca. Na fonte do teu jardim, Bebi água fiquei louco, Contigo junto de mim Deliro por muito pouco.” Noutro livro, “Memórias do Trovador”, o poeta inicia o poema “Conclusão”, com duas sextilhas: “São prosaicos e banais. Pelos intelectuais Estes versos não são lidos, Mas p’ra nós os grandes vultos Não passam de doidos cultos Doutra galáxia caídos. Os poemas eruditos Alguns são muito bonitos Os seus autores eu os louvo, Mas embora apetecida Esse tipo de comida Não vai à mesa do povo.” Mas António Tente não é só poeta, também anda a preparar um livro de histórias, que vai escrevendo na sua cabeça, enquanto conduz os seus passageiros aos respectivos destinos. Logo que pode, pára o táxi e anota o seu “texto mental” num caderninho (que tira do bolso, para me mostrar que era verdade). “Histórias terríveis”, tantas as desgraças que os passageiros lhe contam. Até breve António Sequeira Tente, até ao próximo livro de histórias terríveis – a literatura popular não é só poesia...

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

JORGE LISTOPAD - PARA ALÉM DO TEMPO E DO ESPAÇO; ENTRE O SONHO E A REALIDADE

Como se poderá depreender pelo título desta crónica, não será fácil escrever sobre o livro que Jorge Listopad acaba de publicar na Cavalo de Ferro – “Remington. Contos”. Jorge Listopad é uma personagem complexa, homem culto, inteligente, sensível, de trato afável. E todas estas características se expressam na sua escrita. Escrita elegante, com um domínio de linguagem como só um autor português de origem estrangeira sabe ter. Daí, a sua fixação nas palavras: as existentes e as que não existem. Sobre as primeiras, diz-nos no início do conto “Ponte em Odeceixe”: “A palavra nomeia. O nome fala. Às vezes com uma força inaudita”. A propósito das que não existem, termina do modo que se segue o conto “Jacuzzi no Cairo”: “Como é sabido que não sabemos inventar novas palavras, pelo menos criamos novas realidades, novos passados, novos acasos. E tu, quando leres este texto, que música te vai apetecer ouvir? Que música estarás a ouvir?” Estas últimas linhas revelam a faceta principal de Listopad autor: o teatro enquanto arte de síntese – a história, a decoração, a palavra, a música. A estrutura teatral deste livro é visível em muitos dos seus contos (veja-se, por exemplo, “Praga sem pontes”, com o seu décor, movimento das personagens, intensidade do diálogo, na fase inicial do conto). Como disse anteriormente, Jorge Listopad é um autor complexo, e este livro expressa abundamente essa complexidade. Duas características são bem patentes: o culto da Beleza e a impregnação erótica dos textos que o compõem. Textos que vivem da mestria da articulação entre o sonho e a realidade, em que presente e passado se fundem e adquirem uma lógica que só pode significar no estado onírico. E é exactamente no sonho que se concretiza de modo mais evidente o erotismo que sublima o desejo sexual: “Que estranho não a ter visto até aquele momento no grupo, quando se sentava debruçava-se, e foi assim que pude ver-lhe os seios nus ou apenas um seio; era bonita essa visão, como se fosse possível apaixonarmo-nos por alguém desconhecido e que pouco depois esqueceríamos para sempre”. Eis um exemplo extraído do conto “Bolívia”, um entre muitos outros. Outra face da escrita de Listopad é a procura do que não se pode alcançar, até porque não existe: “Procuramos sempre o que não há” (última frase do conto “Pró-Diário”). E, por vezes, nem no sonho se consegue vislumbrar o que já havia sido entrevisto, como nos diz na parte final do conto “Vale das Borboletas Mortas” – o paraíso para sempre perdido. Do alto dos seus 90 anos, Jorge Listopad já vive na eternidade, como nos diz nos dois últimos textos desta obra (“Chamo-me Orfeu” e “Sigmas, Sinos”). E o livro termina com este parágrafo: “Tu, que me estás a ouvir, faz de mim o que quiseres, pensa comigo até onde puderes, enquanto eu continuo a semear os sigmas e os sinos sonoros que tocam... tocam... tocam...” Obrigado Jorge Listopad e até sempre amigo, poeta semeador de sigmas, de sinos.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

CREIO PORQUE É ABSURDO

Credo quia absurdum (ou seja, “Creio porque é absurdo”) é assim que se inicia o novo romance de Luís Joyce-Moniz, intitulado “Dualistas: O Hipnotista Abade Faria e o Enigma da Descorporização em Vida” (Edições Colibri, 2013). Luís Joyce-Moniz é um autor diferente na moderna literatura portuguesa. Psicólogo de formação e profissão, é professor catedrático aposentado da Universidade de Lisboa, onde exerceu uma forte influência na formação (teórica e prática) de estudantes de cursos de Psicologia. Joyce-Moniz foi o grande introdutor em Portugal de modelos e metodologias que tinham como suporte a Psicoterapia Cognitiva. O que não foi tarefa fácil, numa época em que predominavam as correntes que se filiavam em princípios e práticas da Psicologia Analítica. Durante anos, Joyce-Moniz publicou uma série de obras de carácter científico e formativo, aliás, com êxito assinalável. Embora tivesse entrado, em jovem, no campo literário, como autor teatral, foi só em 1998 que iniciou a sua carreira como romancista. Primeiro com a publicação de “In & Out”, logo seguida, em 2000, do “Corpo Conversivo”, ambas as obras editadas pela Relógio d’Água. Em 2002, publica, pela Quarteto, “A Psicologia não Existe”. Dotado de uma inteligência brilhante, de uma intensa curiosidade pelo que ao Homem é essencial, possuidor de uma cultura profunda em vários domínios do saber, Joyce-Moniz expressa muitas dessas qualidades nos seus romances, sem esquecer a sua formação de base em Psicologia. Ora, o livro que agora se publica será talvez aquele em que o autor leva mais longe as suas qualidades de romancista. Não só pelo tema (a dualidade corpo-espírito), como pela trama em que se desenrola a acção e se apresenta o pensamento das personagens que intervêm ao longo do processo narrativo. Subjacente ao que acabei de dizer, está uma estrutura dramática eivada de mistério e conflitualidade, que o aproxima do romance policial, em que a acção se situa no plano psicológico. Ou seja, a partir de certo momento, o texto adquire o ritmo de um policial cinematográfico, tal a força da visualização da descrição e a dinâmica de que se vai impregnando. A história, propriamente dita, desenvolve-se ao longo de 18 capítulos e “está redigida no presente do indicativo e a narrativa reflecte o pensamento e as acções do protagonista, Claude Navarro (embora este não seja o narrador)”, no dizer do autor. O “auteur savant”, na expressão de críticos literários franceses, permite ao autor, portanto aquele que “sabe”, uma maior liberdade na introdução de conceitos (hipnose, sugestão, meditação, concentração, indução, sono lúcido, e outros) e na textura do drama psicológico. Conceitos e práticas que o autor domina cientificamente (veja-se o seu livro “Hipnose, Meditação, Relaxamento, Dramatização”, publicado em 2010, pela Porto Editora), cujas aplicações práticas nos descreve neste seu romance, em que acção se passa na Índia do Sul, local onde viveu e de que tem um conhecimento profundo. Permitam-me, ainda mais, algumas notas. Uma, sobre o modo como o dualismo espírito-corpo é compreendido nas três religiões da India: hinduísmo, jainnismo e budismo; outra nota, sobre o Abade Faria, português de finais do século XVIII, inícios de XIX, nascido em Goa e vivente em Paris, que ficou célebre pelas suas teorias e práticas sobre estados de alteração da consciência, de que o sono lúcido será a mais relevante. A última nota que quero deixar é algo que não é uma qualidade menor deste romance, antes pelo contrário: a finíssima linha erótica que o percorre e que tem o seu epílogo na parte final da obra. Fruto de uma saída do corpo mal sucedida, o espírito de Claude Navarro fica a pairar, em dificuldade de voltar ao corpo, o que poderá originar a sua morte física. Mas, finalmente, a situação resolve-se: “Jananee, em carne e osso, e com aqueles cabelos longos negros magníficos sobre as costas, está estendida em cima do seu corpo. ‘Claude, por favor, não morra agora…’ Não morre. Não morre, porque autoscopia, adieu. Como pode não acabar de pairar, se a vê e revê colada a ele, num boca a boca que imagina frenético? ‘Claude, não se atreva a morrer nos meus braços.’ Está quase a senti-la em cima dele. Da última vez que se entesou, foi no almoço de Vandiyur Mariamman Teppakulam, e os seus joelhos só se tocavam de quanto em vez. ‘Claude, regresse à vida!...’ Coragem. Que ela aguente, pois ele vai já na descensão. Antevendo-se a reincorporar tantas vezes quanto puder. ‘Claude…’ Cortando a brisa nocturna, desce vertiginosamente na direcção dos corpos. Se ela puder reter-se, ele desiste do dualismo para sempre.” Em suma, estamos perante uma obra com um argumento superiormente concebido e, acentue-se, muito, muito bem escrita.

domingo, 19 de janeiro de 2014

Qual é a palavra?



loucura
loucura para que
para que
qual é a palavra -
loucura disto -
de tudo isto -
loucura de tudo isto -
adquirida -
loucura dado tudo isto -
vendo
loucura vendo tudo isto -
isto -
qual é a palavra -
isto isto -
isto isto aqui -
tudo isto isto aqui -
loucura dado tudo isto -
vendo -
loucura vendo tudo isto isto aqui -
para que -
qual é a palavra -
ver -
mirada fugaz -
parece ver fugazmente -
precisa parecer que vê fugazmente -
loucura pela necessidade de parecer ver fugazmente -
qual -
qual é a palavra -
e onde -
loucura pela necessidade de parecer ver fugazmente o que onde -
onde -
qual é a palavra -
ali -
lá -
para além do lá longe -
longínquo -
longínquo para além do longe -
enfraquecido, vago -
enfraquecido, vago ao longe para além do lá qual -
qual -
qual é a palavra -
vendo tudo isto -
tudo isto isto -
tudo isto isto aqui -
loucura para ver qual -
mirada fugaz -
parecer ver fugazmente -
necessidade de parecer ver -
enfraquecido, vago ao longe para além do lá qual -
loucura pela necessidade parecer ver fugazmente -
qual -
qual é a palavra -

qual é a palavra

What is the word, Samuel Beckett

(Tradução de Orfeu B)


Há dias, ou ontem, ou antes, pouco ou muito, eu esperei por Godot por cerca de duas horas no Teatro Nacional São João (TNSJ) do Porto. Eu sabia que ele não viria, mas lá estive e fiquei para recordar-me da revelação que a leitura de Beckett me tem sido ao longo da vida.

Horas de espera, menos de dois meses depois de ter ido, também ao TNSJ, ver a enterrada viva, declarar que os dias são felizes. E vale a pena dizer que o monte que serviu de toca/campa para Molly era poroso e de cortiça. E é natural esperarmos pelo fim do jogo. Pela conclusão da trilogia. Ou simplesmente pelo fim, pois tudo em Beckett é sobre o fim. Embora não se trata de um estilo, ou de um modismo do seu tempo (1906-1989); não, em Beckett a acção e os movimentos forçados dos personagens decorrem das leis da inércia, das leis da psicologia, das normas metafísicas da alma humana na sua mais absoluta solidão. E os factos colam-se às palavras pelas afinidades da essência e da existência. As palavras, que segundo Beckett, são as únicas entidades que rompem o silêncio. E estas sucedem-se arrastadas pela inviabilidade do discurso (eu nunca uso o termo absurdo por considera-lo insuficiente, demasiado indistinto) e pela arbitrariedade dos acontecimentos na estrutura geral do cosmos. As palavras emulam a fluidez do tempo, e simultâneamente, materializam a impenetrabilidade dos significados, admitindo-se que faz sentido atribuir significado às coisas. Mas suponho que Beckett não acreditava em significados. Suponho que Beckett tinha crenças baseadas em movimentos e palavras. No sentido colectivo que as palavras têm ou podem adquirir se forem repetidas ao ponto de criarem condicionamentos emocionais. 

Para Beckett os territórios são brancos, e o público tem que os vislumbrar nos olhos dos seus personagens. São angústias de autor e de espectador a reflectirem-se infinitamente, de olhos para olhos, como se fossem um fogo frio que impregna a todos, mas que, por mero acaso, poupa uns quantos do verdadeiro exercício de entender: "Todos nós nascemos loucos. Alguns permanecem".    

E enquanto esperamos, há a deplorável vileza do amo que acaba cego, a submissão abjecta do escravo, que inunda os ouvintes com pensamentos conexos pela ausência de nexo. Pensamentos que inspiram Estragon e Vladimir a perguntarem-se: "Pensar? E isto já nos aconteceu?" 

Mas tudo em Beckett é um ancore do fim. E claro há o fim do último poema, What Is The Word (Qual É A Palavra) :

folly -
folly for to -
for to -
what is the word -
folly from this -
all this -
folly from all this -
given -
folly given all this -
seeing -
folly seeing all this -
this -
what is the word -


O fim que é um início para quem compreende qual é a palavra, ou o que é a palavra. Um início que marca o verdadeiro fim. O único fim possível.

Orfeu B.
   


quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O BISPO ALUCINADO




Albano Estrela fala do seu último livro (O bispo alucinado, Lisboa, edições Colibri, 2013) como sendo um livro «estranho». Mas reconhece-se imediatamente nele o seu estilo fluente, claro, escorreito e rápido, sem grandes pormenores, ou só os necessários para caracterizar personagens e situações, sem aparentes preocupações de estilo, enfim, com aquela maturidade de quem já não está para entrar na primeira (ou última) moda que lhe apareça nem muito preocupado com o que do livro possam dizer em termos de caracterização ou de catalogação literária.
A obra é constituída por duas novelas: “Um portuense em Paris entre a espiritualidade e a licenciosidade”, ou “A paixão segundo Santo Hirondino” (podemos escolher o que mais nos agradar) e uma segunda intitulada “ O bispo alucinado”, que dá título ao livro.
Da obra consta ainda uma Nota de apresentação, onde Albano Estrela explica a origem e a razão de ser das duas novelas, e um prefácio «Da paixão que nos ilumina na vida e na morte”, de Ana Viana, aliás excelente e que caracteriza, muito bem, toda a problemática das novelas em que se sente que o Autor está, sem estar; não se identificando com as personagens compreende-os e sente em si os problemas que os angustiam e a procura ansiosa a que votaram as suas vidas apaixonadas.
Pela apresentação que do livro faz o Autor ficamos a saber que a primeira novela é baseada numa personagem real da sua juventude portuense, e cujo itinerário foi acompanhando com alguma irregularidade pela vida fora, e a segunda foi-lhe sugerida por notícias, a princípio avulsas, e informações posteriores, umas com rigor histórico, outras mais ou menos lendárias, sobre D. António Luís Veiga Cabral e Câmara, bispo de Bragança e Miranda entre 1793 e 1819.
A primeira novela baseia-se pois em memórias pessoais do Autor e procura reconstituir o itinerário literário, cultural e espiritual de um amigo de juventude, com quem conviveu em algumas tertúlias portuenses, personalidade controversa e problemática, de invulgares capacidades intelectuais, que oscilando entre o erotismo mais desbragado e a espiritualidade mais exigente, não cessava de multiplicar interesses e acumular experiências que lhe haviam de permitir escrever, um dia, uma obra-prima que sintetizasse todas estas vivências. Passando por situações laterais e personagens curiosas, a viver dramas anódinos, que dir-se-ia diluídos no quotidiano prosaico da cidade, capazes todavia de situações extremas e de desenlaces fatais. Ou seja, são personagens perdidos no dia a dia, para o que parece concorrer a aparente simplicidade com que são relatados os factos e as situações, mas com a densidade dramática que só os desenlaces finais tiram da invisibilidade e as tornam muito mais complexas do que se pensaria.
E é aqui que radica grande parte do dramático que, na aparente ausência de dramatismo, a prosa de Albano Estrela consegue. O que parece contraditório, mas não é. Face a uma literatura que tem tendência para usar demasiadas palavras para produzir o drama, diluindo-o, é necessário reduzir o drama ao mínimo de palavras para este voltar a sê-lo, ou a poder ser. E isso consegue Albano estrela com uma prosa clara e elegante, e com uma grande capacidade de empatia pelas personagens e de entrada nos ambientes em que estas se movem.
Isto é particularmente notório na segunda novela, “O bispo alucinado”, em que, em poucas páginas, se reconstitui, com aparente facilidade, o quarto de moribundo de um bispo que sente, nos últimos dias de vida, necessidade de relatar as suas experiências espirituais porque ouviu vozes do alto que lhe ordenam que o faça. Toda a tensão psico-afetiva e toda a espiritualidade já meio demencial e alucinada perpassam, com suavidade, por aquele quarto, onde sentimos a morte pairando negra e, ao mesmo tempo, a força da espiritualidade mais violenta e ardente. Dai Ana Viana dizer, no prefácio, que se trata de duas novelas «magistralmente escritas».
Por outro lado, há, na primeira novela, o velho problema das vivências necessárias à criação. Ou inibidoras? Ou desnecessárias?
É, como se sabe, um problema eterno e sem solução fácil. Passa pelos autores que, em fichas, cadernos de apontamentos, blocos de notas, “moleskines” de vários tamanhos e categorias de elástico, gravadores, registos vários, acumulam ideias, esquemas, esboços, resumos, expressões idiomáticas, regionalismos, neologismos, etc., procurando guardar experiências e mais experiências que lhes permitam plasmar, um dia, em obra, todas essas diversas vivências e informações.
E ao lado os autores que, pelo menos aparentemente, não ligam nada a isso. E se metem num quarto, se sentam à mesa, de preferência voltados contra a parede, como Dulce Maria Cardoso, ou forrando janelas e paredes com pesados e duplos cortinados, como Marcel Prust, e sem terem vivido grande coisa, pelo menos na aparência («Navegar é preciso; viver não é preciso») como disse Pessoa retomando a fala de «marinheiros antigos e a turma toda dos seus heterónimos, ou de Kafka, começam a tirar da cabeça, a puxar, na solidão silenciosa, os fios das mais variadas e inesperadas experiência imaginadas ou rememoradas ou fantasiadas, criando obra. E às vezes que obra! Que, se calhar, nem tinham pensado escrever, nem para a qual se tinham andado a preparar, desleixando experiências, esquecendo, deixando pelo caminho muita coisas.
É um dos grandes dramas por que passam todos os escritores e que Albano Estela retrata muito bem, em relativamente poucas páginas, seguindo, quase sempre de longe, e com grandes prazos de intervalo, o itinerários do seu antigo amigo “Hirondino”, personagem rica, complexa, contraditória, sempre carente, à procura de experiências novas que lhe permitissem também a compreensão da natureza humana, além da obra perfeita, a síntese salvadora que uma vida intensa, múltipla e rica merecia. Mas que se confronta com a morte e com o falhanço (a inutilidade?) das suas experiências, todavia vividas e ricas e maravilhosas, mas que se multiplicaram sem, pelo menos na aparência, uma ”solução” salvadora. O que nos leva a perguntar, com a simplicidade e o drama que a pergunta contém: o que salva uma vida? O que a redime? E o que há na nossa vida de irrepetível ou de cíclico? E de passageiro ou de eterno? A última frase da novela é, sobre isto, ambígua e esclarecedora: «Não sei se me reconheceu, mas estou em crer que sim, pois, quando me despedi, abriu os olhos e o seu olhar foi atravessado por aquele lampejo que iluminava as nossas noites na cave do Café Rialto, sessenta anos atrás».

João Boavida

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

A PERSONAGEM E O ACTOR


Depois de há poucos meses me ter estreado na leitura de Ana Teresa Pereira com o notável romance "O Lago", tenho para mim a saborosa obrigação de entrar mais e mais na sua excelente escrita.

"As longas noites de chuva em Nova Orleões", tem óbvia relação com "O Lago". O mesmo ambiente, Londres, chuva, nevoeiro, os seus teatros, os actores, os pequenos almoços, os pubs, os perfumes, as flores, um universo de subtilezas distantes da evidência solar do Sul.

A acrescentar, a permanente referência à literatura, ao cinema e aos actores de filmes, todos anglo-saxónicos (quase todos do tempo do preto e branco e não por acaso, certamente), criando um permanente diálogo entre ficções e tempos, uma forma de ampliar a narrativa através de uma teia de referências a palavras, textos e rostos que, se por um lado, iluminam e explicam, por outro, estabelecem redes de ambiguidade e, por vezes, muito inquietantes identificações.

Se depois de ler estes dois livros, não soubesse quem era a autora, pensaria tratar-se de uma escritora inglesa, de tal maneira a paisagem, a cultura, a respiração inglesa impregnam a escrita de Ana Teresa Pereira.

A personagem central, Kate, é uma actriz que se vai dissolvendo na personagem que se prepara para levar à cena. E que se vai apaixonando ou deixando apaixonar pelo seu autor e actor, também. Mas é também, talvez, o retrato de cada um de nós à procura, desmunidamente, da nossa própria personagem na vida, do nosso perfume, da nossa roupa, da nossa assinatura, em busca de saber quem somos, e levados a viver perdidamente entre o real e a ficção, entre o natural e o cultural, entre o amor e a ideia de amor.

"O importante é amar alguma coisa e a partir daí pode-se começar de novo, começar de novo uma e outra vez."

A acompanhar esta novela, temos 3 contos de perfil próximo do gótico Ainda mais ingleses que a própria novela, se possível. Ou melhor, devedores de estratégias narrativas negras, ambíguas e fascinantes de autores como Ana Teresa Pereira que domina o mecanismo da estranheza e do arrepio.

Um dos contos fica para mim como dos melhores contos que já li, "A Sombra"

No final, saído desta notável literatura carregada de chuva, nevoeiro, e da extraordinária ambiguidade da negritude semi-gótica, corri em busca de um escritor mediterranico, alguém do lado da luz, da transparência, da fraternidade. Talvez Erri de Luca, Panos Karnesis ou Ignácio Martinez de Pisón... Talvez...

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A Ronda Noturna


Peter Greenaway (1942) é um dos mais criativos e sofisticados cineastas do nosso tempo. A beleza pictórica das suas criações reflectem a sua formação de artista plástico, embora seus filmes vão muito para além da imagem e são invariavelmente diálogos intelectuais e sensoriais entre a imagem, o texto e a linguagem cinematográfica. Desde The Falls (1980), o seu primeiro longa metragem, onde uma complexa rede de acontecimentos envolvendo 94 vítimas de VUEs (Violent Unknown Events) é-nos contada com um humor muito britânico, e somos confrontados com o inesperado, o burlesco, e uma estética extremamente rica e original. Seguiram-se The Draughtman's Contract (1982), A Zed & Two Noughts (1985), The Belly of an Architect (1987), Drowning by Numbers (1988), que abordam temas como a veracidade da representação pictórica, as patologias, as relações humanas enquanto construções arquitectónicas, a estrutura e a simetria das sucessões numéricas e dos acontecimentos.    

Filmes como The Cook, the Thief, His Wife & Her Lover (1989), Prospero's Book (1991), o controverso The Baby of Mâcon (1993), e The Pillow Book (1996) consolidaram o estilo e o carácter experimental da borbulhante imaginação de Greenaway. 

Em 2006, Greenaway deu início ao ambicioso projecto Nine Classical Paintings Revisited, onde analisa, primeiramente, a Ronda Noturna de Rembrandt, possivelmente uma das mais grandiosas e desconcertantes pinturas de sempre. Seguiram-lhe a apresentação-performance da Última Ceia de Leonardo no refeitório da Igreja Santa Maria delle Grazie em Milão em 2008, e as Bodas em Caná de Paolo Veronese na Bienal de Veneza em 2009. 

Nightwatching (2007), é um fascinante festim visual e intelectual, no contexto do qual 34 indagações associadas à representação duma milícia popular de Amesterdão do século XVII são formuladas. Greenaway propõe-nos como solução para os 34 mistérios, uma conspiração para assassinar um dos membros do prestigiado regimento. A demonstração fica concluída com o o filme associado, Rembrandt's J'Accuse (2008), no qual a desgraça pessoal e a ruína financeira de Rembrandt são apresentadas como consequências do libelo lançado, por meio da sua monumental pintura, pelo grande pintor holandês. 

Mas, na minha opinião, a questão mais inquietante da brilhante demonstração de Greenaway refere-se à reflexão sobre uma lacuna fundamental do nosso processo de aprendizagem. Greenaway argumenta que somos desde muito cedo ensinados a compreender textos literários de crescente dificuldade, mas muito pouco é-nos transmitido no que diz respeito à leitura das composições artísticas. Naturalmente, esta lacuna nos empobrece consideravelmente, e Greenaway defende que o trabalho artístico deve ser também desenhado para colmatar esta deficiência. A minha concordância com Greenaway relativamente este ponto leva-me a agradecer-lhe pelo contínuo esforço de educar a minha iliteracia visual.      

Mas claro, relativamente a qualquer obra de Peter Greenaway nada é certo, e seria igualmente plausível dizer que Nightwatching não passa duma bem conseguida fabricação visual, construída, acima de tudo, para deleite do seu autor. Neste caso, eu teria que bradar peremptoriamente: J'Acuse Mr. Greenaway de deliberada manipulação e falsificação histórica para fins de entretenimento próprio e da audiência!  

Termino afirmando que não ouso manifestar a minha preferência relativamente a qual das hipóteses é a mais verosímil, pois acredito que estas ambiguidades são inerentes às verdadeiras obras de arte.   
  
Orfeu B.



                                        

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

A MAGIA DE UM GRANDE CONTADOR DE HISTÓRIAS


A escrita de vargas Llosa é poderosa. A sua capacidade narrativa é brilhante. Tenho-o como um dos autores imprescindíveis da minha artesania de leitor.

Llosa cria várias linhas narrativas que começam por se ignorar mas que vão insinuando pequenos anúncios do seu possível cruzamento. O leitor vai caminhando em busca desse mesmo cruzamento que poderá, quem sabe, ilumina uma e outra narrativa.

Mais ainda, vários dos personagens deste romance foram já personagens de romances anteriores de Llosa (Lituma, D Rigoberto, Lucrécia…) como se aqui encontrassem o espaço de um balanço de parte significativa da obra do autor. Ou melhor, como se aqui os leitores de Llosa pudessem saber o que aconteceu aos “seus” personagens, aqueles que acompanhou em romances anteriores.

O Peru deste romance podia ser um Portugal dos anos 60. Nestes personagens reconheço tiques e objectivos de vida e formas de viver ronceiras e pequenas parecidas com as que eu observava nesses anos.

Felício Inaqué, pequeno proprietário de uma empresa de camionagem que subiu a pulso na vida, homem sério, cumpridor, decente em todos os sentidos da palavra, vê a vida castigá-lo destruindo a sua pequena ilusão de felicidade com uma amante que o trai com o seu próprio filho.

Llosa trabalha bem a perversidade, gosta de castigar os bons. Veste-os de tristeza, por vezes de tragédia. Demora-se prazentoso nas personagens mais complexas e ambíguas como D. Roberto e Lucrécia.

Estes dois são conservadores na aparência, apreciadores de arte, museus, literatura, estetas do sexo, vendo-se confrontados com a inquietação do filho adolescente que se encontra amiúde com uma estranha personagem, Edilberto Torres, que aparece e desaparece inesperadamente e que D Rigoberto receia que seja o diabo.

Ismael, riquíssimo patrão e amigo de D. Rigoberto, ao ficar viúvo resolve casar com uma bela empregada para castigar os dois filho, verdadeiros gansters de bairro.

A pouco e pouco estas histórias cruzam-se para que as personagens regressem depois ao seu âmbito social e geográfico, como se este país fosse feito de compartimentos estanques apenas unidos pelos lampejos inesperados e breves do destino.

E tudo isto conduzido pala magia de um grande contador de histórias, senhor de uma escrita que nos agarra pelos colarinhos e não nos deixa afastar até ao fim,


domingo, 22 de dezembro de 2013

Leviatã



Nunca na sua vida deixara Progrody. Nesta pequena cidade não havia nenhum rio, nem sequer um lago, rodeavam-na apenas pântanos, e ouvia-se na verdade, debaixo da superfície verde, o gorgolejar da água, sem que, no entanto, esta fosse visível. Nissen Piczenik imaginava que havia uma secreta relação entre as águas escondidas dos pântanos e as poderosas águas dos grandes mares - e que também no fundo dos pântanos poderia haver corais.   

Joseph Roth

Na novela Leviatã, o escritor, jornalista e ensaísta judeu austríaco Joseph Roth (1894-1939), conta-nos a história de um renomado comerciante de corais, Nissen Piczenik, um judeu devoto e profundamente honesto. Escrita em 1934, no exílio francês, e publicada postumamente em 1940, Roth descreve com a linguagem enganosamente simples de uma parábola infantil, a vida e a actividade comercial de Piczenik na pequena cidade de Progrody, situada no limite do império Austro-Húngaro. A convivência quotidiana com os corais, a essência e motivo último de sua existência, conduzem Piczenik à suposição mágica e simplória de que os corais cresciam nas profundezas do mar sob a protecção do poderoso monstro Leviatã. Mas a pacata e sonhadora existência de Piczenik é corrompida pelo aparecimento de um diabólico concorrente, Jenö Lakatos, que introduz naquela região rural o comércio de corais falsos. A prática comercial da falsificação eiva a existência de Piczenik, dado que é induzido pelo concorrente a vender corais falsos, cedendo assim à ganância que mina irreversivelmente as relações de confiança que cultivara ao longo de toda uma vida com os seus clientes e funcionários. Acaba por fim, por vender os seus  bens e abandonar a mulher indo para a cidade porto de  Odessa, arrebatado pela obsessão de encontrar no fundo do mar Leviatã, o protector dos seus corais.        

Mas a narrativa de Roth, para além do seu estilo muito próprio, é evocativa de circunstâncias de desagregação, um vincado traço da sua biografia. Roth testemunhou o desmoronamento irreversível do império Austro-Húngaro e dos seus valores após a primeira grande guerra, viu o desaparecimento das peculiares condições culturais da sua região natal, a Roménia austro-húngara, hoje Polónia e Ucrânia, região onde segundo o poeta judeu Paul Celan (1920-1970) também dali oriundo, viviam pessoas e livros. Sofreu profundamente com a desarticulação mental de sua esposa em 1928, que passou a viver em sanatórios e foi finalmente assassinada pelos nazistas. Por fim, Joseph Roth acabou ele mesmo por sucumbir à melancolia e ao álcool em Paris, onde se refugiou depois da subida de Hitler ao poder em 1933. Na verdade, Roth viveu em seis países com os pertences de duas malas, sempre como um homem cosmopolita, mas cujas raízes foram sistematicamente destruídas pela História. A forte impressão emocional que estes acontecimentos marcantes da História europeia deixaram nos espíritos é retratada com verve e espírito na sua bem conhecida obra, Hotel Savoy, de 1924. Joseph Roth faleceu, tal como Anton Chekhov, que ele tanto admirava, aos 44 anos.

Orfeu B.
   


sábado, 21 de dezembro de 2013

RUI HERBON E A GRANDE LITERATURA OCULTA

A literatura de um povo não é feita apenas pelos grandes nomes que os meios de comunicação ou as academias consagram. Também os que sabem escrever e se distinguem pela originalidade dos temas abordados têm lugar de destaque na literatura desse povo, embora não tenham a projecção de outros autores. Neste caso, está Rui Herbon, autor, entre outras obras, de “O Prazer dos Estranhos”, edição da Colibri. Os contos deste livro, além de estarem muito bem escritos, têm como temas situações e enredos em que a realidade (quase sempre histórica) e a fantasia se conjugam de um modo perfeito. Mas, o que mais me impressionou foi a construção sintáctica do texto, em que avultam a riqueza e o emprego inesperado dos vocábulos, o que dá um ritmo específico à frase. Exemplo do que acabo de dizer, é o conto “A Mulher Mais Bela do Mundo”, que me deslumbrou pelo seu ritmo camiliano, embora sem arcaísmos ou neologismos, mas que, à semelhança das obras de Camilo, impregna a narrativa de um fio de ironia que dá um sentido imprevisto à história. De sobressair será também a cultura literária de Rui Herbon, que lhe permite navegar por diferentes mares e horizontes, como é, entre outros, o caso do conto “O Mercador de Livros”, com um final tão inesperado quão “quixotesco”. Todos nós, os que se dedicam à leitura de obras literárias durante dezenas e dezenas de anos, somos influenciados por autores que nos disseram algo em determinado momento da nossa vida. Ora, no meu caso, nunca poderei esquecer as obras de Papini, autor italiano da primeira metade do século XX, hoje apenas lembrado pelos que se dedicam à literatura italiana. Ora, a escrita de Rui Herbon tem muito de Papini, nomeadamente nos temas abordados. Neste aspecto, não posso deixar de destacar uma obra prima de Papini, intitulada “Gog”. Enfim, esta é a minha leitura de “O Prazer dos Estranhos” de Rui Herbon, autor de quem muito ainda há a esperar.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

ALEXANDRA LUCAS COELHO OU O JORNALISMO COMO GRANDE ESCOLA LITERÁRIA

Sim, o jornalismo pode ser uma das grandes escolas literárias, nomeadamente quando assume a forma de crónica. Ora, é exactamente sob esta forma que a jornalista Alexandra Lucas Coelho apresenta o seu livro “Vai Brasil”, publicado pela editora Tinta da China. O que não é inédito na autora, pois, em 2010, havia publicado, pela mesma editora, uma obra intitulada “Viva México” (que me fez lembrar o filme inacabado do grande cineasta russo Eisenstein “Que viva México!”). Mas voltemos ao “Vai Brasil”, um conjunto de crónicas que a autora foi publicando, o que, em linguagem literária, corresponde a um conjunto de flashes sobre um Brasil multiforme e multicolor, um país que inventa e reinventa uma língua – o português – tornando-a sempre diferente, mas nunca deixando de ser a língua portuguesa. “Vai Brasil” é, pois, um conjunto de fragmentos que se completam ou se entrelaçam, permitindo que o texto adquira uma notável unidade estilística e conceptual. Alexandra Lucas Coelho é uma mulher inteligente, sensível, culta, com um grande poder de observação e um apurado sentido crítico, o que leva um escritor, Miguel Esteves Cardoso, a dizer, no jornal “Público”: A Alexandra apanha o Brasil como nunca li um português apanhar. Consegue apaixonar-se pelo Brasil e amá-lo ao mesmo tempo, conhecendo tanto as magias como os podres. Escreve numa língua que namora as muitas maneiras de falar e de escrever dos brasileiros. Permito-me, ainda, realçar a sua capacidade de impregnação da cultura de um país ou de uma região desse país, sem abdicar do seu espírito crítico, o que, aliás, é extremamente visível neste seu “Vai Brasil”. Embora assumindo a centralidade do Rio de Janeiro, onde vive, não abdica de “mergulhar” em São Paulo, em Curitiba, entre outras cidades e regiões, com um relevo muito especial para a Amazónia, a “nossa” Amazónia e de “A Selva” do nosso Ferreira de Castro, que ela cita por mais do que uma vez. A Amazónia de hoje, a situação do índio e o seu papel na actual discussão sobre a identidade do homem brasileiro. De realçar, também, o entrelaçamento do presente com o passado, o legado de Portugal, em múltiplos aspectos, de que a arquitectura é um dos mais visíveis. Mas sem esquecer o que opõe os dois países, nomeadamente a alegria de viver do brasileiro e o nosso pessimismo ancestral. O que me fez lembrar um pequeno filme, realizado há anos, aquando, creio, das comemorações do achamento do Brasil pela esquadra comandada por Pedro Álvares Cabral. O filme tinha por tema Belmonte, terra do nascimento de Álvares Cabral, e pretendia comparar o viver no Belmonte português com o da cidade brasileira do mesmo nome. Entrevistadas duas senhoras de alguma idade, viventes no nosso Belmonte, elas queixaram-se amargamente das agruras da vida. Feitas as mesmas perguntas a um cidadão brasileiro da cidade homónima, ele, homem de certa idade, vestindo pobremente, fala da beleza da vida, da felicidade em estar vivo. E, mesmo para terminar, não posso deixar de realçar a beleza poética da frase, a linguagem encantada e encantatória da escrita da Alexandra Lucas Coelho, que faz dela um dos melhores escritores portugueses da actualidade.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A MENTIRA COMO OBRA DE ARTE

Releio “O Mentiroso” de Henry James, agora em edição portuguesa da Sistema Solar, de 2012. Henry James, escritor norte-americano naturalizado cidadão britânico, é um grande autor de língua inglesa, de finais do século XIX, inícios de XX. Romancista célebre, recorde-se, por exemplo, “Retrato de uma Senhora”, autor teatral e novelista. Ora, “O Mentiroso” é uma das novelas mais bem conseguidas, não só pelo tema, como pelo modo como é abordado. O mentiroso compulsivo, que tão finamente caracteriza do ponto de vista psicológico, ter-lhe-ia sido sugerido por um cavalheiro durante um jantar em que ambos participaram: mentiroso que contava as histórias mais extravagantes com uma mestria que, num primeiro momento, conferia a essas histórias um aspecto de veracidade. Assim é a personagem criada pelo autor. Veracidade sempre confirmada pela mulher do mentiroso (coronel Capadose, de seu nome), visivelmente encantada com o que o marido contava. Personagem de que todos se afastavam, conhecedores que eram da sua fama de mentiroso compulsivo. Caso idêntico conheci eu: um colega de profissão, que inventava as mais variadas histórias, que tinham um pouco de verdade e muito de fantasia. Quase um género de literatura oral, a fazer jus à sua necessidade de transformar o real em algo de diferente, de melhor quase sempre. O que, à semelhança do que acontece na novela de James, fez com que uma mulher bonita, inteligente, crítica, vivesse apaixonada por ele. Mas, o texto de Henry James tem uma outra vertente, que o enriquece e lhe confere uma trama dramática: a personagem principal não é o coronel mentiroso, nem o autor-narrador, mas, sim, Lyon, um pintor britânico famoso, que se prontifica a fazer o retrato do mentiroso, onde espera poder captar, na postura do corpo, no gesto, no rosto, no olhar, a essência da mentira que dentro dele habita. Ainda a obra não estava concluída, quando o mentiroso e a mulher (que conhecia bem o pintor, desde os tempos de juventude), aproveitando uma ausência do pintor, penetram no seu estúdio para verem o estado de adiantamento do retrato. O pintor, chegado nesse momento, ouve gritos do casal, enquanto contemplam o quadro, gritaria que culmina em choro convulsivo da mulher, a que se segue o diálogo que se transcreve: - Mas o que é isso, querida, mas que diabo é isso? – perguntou [o mentiroso]. Lyon ouviu a resposta: - É cruel… Oh! É demasiado cruel! - Maldito… maldito… maldito! – repetia o coronel. - Está lá tudo… está lá tudo! – prosseguia Mrs Capadose [a esposa]. - Diabos o levem! Está lá tudo… como? - Tudo o que não devia estar… tudo o que ele viu… É horrível de mais! - Tudo o que ele viu? Ora! Não serei uma pessoa com bom aspecto? Um pouco mais bonito ele ainda me tornou. De repente Mrs Capadose voltou a pôr-se de pé e deitou àquela traição pintada outro olhar feroz. - Bonito? Hediondo, hediondo! Isto não… nunca, nunca! - Não, o quê? O céu me valha! – disse o coronel quase a gritar. Lyon pôde ver-lhe o rosto vermelho, desnorteado. - O que ele fez de ti… aquilo que tu sabes! Ele sabe… ele viu. Todos ficarão a saber… todos ficarão a vê-lo. Imagina uma coisa destas na Academia! Sempre escondido, Lyon, o pintor, vê o casal sair pela porta das traseiras, para ver voltar o marido, e, com um objecto cortante, fazer o quadro em pedaços. A parte final do texto é um prodígio hilariante de humor, que o aproxima de uma paródia teatral. Em suma, “O Mentiroso” de Henry James é um texto de grande beleza formal, com uma estrutura que tem muito de uma peça de teatro, e em que avultam uma finíssima análise psicológica e um sentido de humor que confere, a muitas das situações descritas, uma comicidade que só os grandes escritores conseguem atingir.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

DONALD BARTHELME OU O CONTO NORTE-AMERICANO EM FINAIS DO SÉCULO XX

Donald Barthelme (1931-1989) é um escritor desconhecido entre nós. Melhor, desconhecido até agora, até a Antígona ter publicado “40 Histórias”, o que representa um acontecimento na área do contismo moderno. Barthelme é um contista difícil de caracterizar, tal a multiplicidade de temas que aborda e a variedade de estilos que cultiva. Se em certos textos, como “No Museu Tolstoi” e “A Fuga dos Pombos do Palácio”, insere manchas gráficas e desenhos no corpo do texto, condicionando, assim, a interpretação dos leitores; por outro lado, em histórias como “Porcos-espinhos na Universidade”, o autor desenvolve uma fantasia hilariante, que nos incita a participar na “visualização” da descrição das situações que nos são apresentadas, como se pode comprovar pelo extracto que se transcreve. Ao longe, o reitor da universidade e a esposa (a bela Paula) avistam uma enorme vara de porcos-espinhos que se dirigem para a universidade: - Porcos-espinhos na universidade – comentou a mulher do reitor. – Bem, porque não? - Nós não temos instalações para quatro ou cinco mil porcos-espinhos – disse o reitor. – Não consigo fazer uma chamada. - Eles podiam inscrever-se em Estilos de Vida Alternativos – sugeriu Paula. - Já temos demasiada gente inscrita em Estilos de Vida Alternativos – retrucou o reitor, pousando o auscultador do telefone. – Raios partam isto. Eu próprio vou dar cabo deles. Vai ser uma matança. Pura e simples. Mente. - Ainda te magoas. - Disparate, são só porcos-espinhos. É melhor vestir umas roupas velhas. Convirá ainda referir as incursões de Barthelme no campo do experimentalismo literário, como se poderá verificar no conto intitulado “Frase”: Durante cerca de nove páginas não há um único ponto final, nem sequer quando o texto termina… Se, por um lado, o autor pretende captar a corrente da consciência no estado mais puro (onde não há pontos finais…); por outro lado, pretende-se abordar uma questão que se põe a muitos escritores: quando se deve colocar um ponto final numa frase, a fim de que ela ganhe o seu pleno sentido? Estamos, pois, perante um texto magnífico, que honra quem o traduziu para a nossa língua. Outras histórias revelam-nos aspectos diferentes do autor. Veja-se, por exemplo, “Acerca do Guarda-Costas”. O conto inicia-se com a seguinte interrogação: Será que o guarda-costas grita com a mulher que lhe passa a ferro as camisas? A mulher que lhe fez uma queimadura castanha na camisa amarela, uma camisa Yves St. Laurent caríssima? Uma grande queimadura castanha mesmo por cima do coração? Será que o cliente do guarda-costas faz conversa de circunstância com o guarda-costas enquanto esperam que o semáforo mude, dentro do Citroën cinzento-mortiço? Com o segundo guarda-costas, que vai a conduzir? Qual será o tom da conversa? O cliente do guarda-costas fará comentários acerca das jovens de pele morena que se aglomeram ao longo da avenida? Acerca dos jovens? Acerca do trânsito? O guarda-costas alguma vez terá tido uma discussão política séria com o seu cliente? E termina com outra interrogação: As ruas estarão cheias de pessoas a caminhar sobre andas? Pessoas de andas a serpentear três metros acima da multidão com grandes cabeças de ave de papier-mâché, fatos vermelhos e pretos, a agitar faixas de trinta metros de tecido colorido acima das cabeças da turba, simulando a violação de uma jovem personagem feminina que simboliza o país dele? Dentro do Mercedes, o guarda-costas e o seu colega fitam as centenas de pessoas, homens e mulheres, jovens e velhos, que contornam o automóvel, parado no semáforo, como se fosse um penedo no meio do rio. No banco traseiro, o cliente está a falar ao telefone. Ergue os olhos, pousa o auscultador. É impossível contar as pessoas que se comprimem em volta do carro, são demasiadas; não se pode saber quem são, são demasiadas; não se pode prever o que irão fazer, são voláteis. De repente, uma aberta. O carro acelera. Dar-se-á o caso de, numa certa manhã, os caixotes do lixo da cidade, os caixotes do lixo do país inteiro, estarem a transbordar de garrafas de champanhe vazias? Qual dos guarda-costas fracassou na sua missão? Um texto que revela o esqueleto (ou um esboço de carnação) de uma narrativa dramática, narrativa que não chegou a acontecer, acontecendo – como se de um sonho se tratasse. Como se pode concluir, através dos exemplos dados, estamos perante um autor complexo. Mas talvez se possam apontar algumas características comuns ao conjunto dos seus contos: forte sentido de humor (por vezes, a rasar a ironia); sagacidade da observação; projecção das suas emoções, dos seus medos, das suas dúvidas nas personagens dos seus textos (enquanto processo de pesquisa da sua própria vida interior?) Por estas (e outras razões, a descortinar por cada um dos seus leitores), importa ler e reler este grande contista da nossa contemporaneidade.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Não são assim os lobos,/na luz compacta do calor./Esta é a luz dos sonhos/ em que eles se passeiam/e nós com eles vamos,/sem nada nos doer,/ tranquilos, mudos, leves./E as árvores connosco.//Licínia Quitério


“Quando batem à porta pela noite”
Xabier P. DoCampo
Ambar

Xabier P. DoCampo é um escritor galego. Um dos seus livros “Quando batem à porta pela noite” é um pequeno livro de contos aterradores. Em 1995, em Espanha, ganhou o Prémio Nacional de Literatura para crianças.
Perguntarão, talvez, porque é um livro para crianças? No entanto, não farão tal pergunta a propósito de tantas coisas que passam na televisão tão indigentes que deviam aterrorizar os pais de modo a não deixarem as suas crianças por perto.
Sim pode ser um livro para crianças. A leitura não se faz passivamente e por isso os bons livros são para todas as idades, inofensivos mesmo que nos façam medo como os contos deste. Úteis até, pois o medo faz parte da nossa capacidade de defesa
Não vou desvedar o seu mistério. Um deles conheci-o a primeira vez na voz do António Fontinha, um exímio contador de histórias de figura magra e tímida que se transfigura quando começa a contar. Tem o gesto certeiro e a pausa precisa na voz para deixar que o medo nos percorra e se instale quando conta “O espelho do Viajante”. (E Fontinha tem também o dom de nos vencer pela ternura e pela emoção quando a história vai por esse caminho.)
Voltando ao livro. Gosto particularmente do conto “O aniversário da morte” que nos deixa a reflectir sobre quantas vezes desistimos por causa de um fim anunciado que melhor faríamos em ignorar e viver como se fora amanhã, vivendo hoje.
Em Portugal foi publicado pela Âmbar, editora que, tal como era, teve um fim. Não conheço reedição. Por isso o livro só se encontra em bibliotecas que o souberam escolher a tempo ou em algumas livrarias que vão guardando os livros que o passar do Tempo comprova merecerem continuar a ser lidos. Não são muitas mas ainda existem. E continuarão. Se soubermos vencer o medo. 
Deixo-vos o último capitulo, onde o autor falando de si fala por todos nós, creio.

Eu tenho medo...
Quando batem à porta pela noite.
De estar só quando não quero estar só.
De estar no meio da gente.
De ficar só no mundo.
De não morrer nunca.
De morrer cedo.
De morrer estupidamente numa estrada.
De ficar iutilizado.
De enlouquecer.
Que aconteça alguma coisa aos meus.
Que aqueles que eu amo não me amem.
De perder o gosto pelas coisas de que gosto.
De ter de viver sempre numa cidade.
Que não haja flores.
Que não haja animais em liberdade.
De não poder ver as estrelas à noite.
De não poder ver a paisagem no Outono.
Do mar. (visto do mar)
De olhar um dia para o céu e não ver um pássaro.
Que não haja trutas nos rios.
De ter de ir á guerra.
Da guerra mesmo que não tenha de ir.
Das almas miseráveis.
Dos que dizem sempre a verdade.
Dos que mentem sempre.
Das histórias de terror.
De filmes de terror.
De ir ao dentista.
De andar de avião.
De não ter medo de nada.
De ter muito medo.
Quando passa muito tempo sem que ninguém bata à minha porta.
De...”
Xabier P. DoCampo


sábado, 12 de outubro de 2013

UM BRILHANTE JOGO DE ESPELHOS


Malgré moi nunca tinha lido Ana Teresa Pereira, apesar da sua já longa obra. Penalizar-me-ei sempre na minha vida pelos autores e romances que nunca chegarei a ler. Felizmente conheci agora a escrita desta notável autora. E vou depressa ler mais livros dela.

"O Lago" recebeu o prémio de romance da Associação Portuguesa de Escritores.

A sua escrita é sem sobressaltos, lisa e sem adjectivos como um copo de água. Ana Teresa Pereira tece uma teia que nos envolve tranquilamente, conta uma história aparentemente serena. Não a sublinha. O fundamental passa-se quase no não dito e a autora deixa que seja o leitor a perceber que debaixo da superfície aparentemente calma existem tensões que crescem, preocupações que parecem prestes a rebentar, silêncios prenhos, coisas suspeitadas, adivinhadas.

Tudo ronda em torno da identidade e das suas alterações em torno de um texto teatral e de uma actriz que, conduzida pelo encenador e autor, busca entrar na pele da personagem através de um complexo jogo de espelhos. A actriz entrega-se à direcção e ao amor dele sem saber se ele a ama a ela ou à personagem em que quer transformá-la para poder amá-la verdadeiramente.

"Durante anos pensei que representar, representar a sério, era transformar-me noutra pessoa. (...) Mas quando estou a representar sou eu mesmo.", diz o encenador.

Como muitos criadores o encenador é um devorador que usa os outros e os deita fora quando aquele caminho está cumprido.

Tema comum a muitas obras terríveis. Lembro-me do "Baal" de Bertolt Brecht representado magnificamente no teatro da Trindade pelo Mário Viegas. Ana Teresa Pereira trata este tema de uma forma súbtil, silenciosa, nebulosamente britânica. E fá-lo de forma a envolver-nos, a inquietar-nos como uma aranha doce que apanha os seus leitores com delicadíssima artesania


terça-feira, 8 de outubro de 2013

PULP


Charles Bukovski é um autor famoso pela sua marginalidade, pelo alcoolismo, pela poesia, pela rudeza das suas narrativas, pela linguagem grossa e fácil, sem nenhuma compaixã, nem respeito por elegâncias e estilos de escrita.

"Dei um gole de saqué, frio. As minhas orelhas arrebitaram-se e senti-me ligeiramente melhor. Sentia o cérebro a começar a carburar. Anda não estava morto, apenas num estado de rápido declínio."

Este é o seu último livro escrito à beira da morte. Um livro que se chama PULP e que podia chamar-se fatela, foleiro, rasca.

Uma espécie de roman noir, usando todos os truques do género, a linguagem mais básica e grossa do género, e uma narrativa completamente delirante, sem qualquer espécie de desejo realista. PULP é um livro a traço grosso, completamente pulp. Mas só aparentemente.

PULP é um romance escrito á maneira pulp, mas a sua trama ultrapassa em muito o básico delírio deste tipo de romances. Logo o começo da acção é demasiado delirante para ser apenas pulp.

Um detective que bebe hectolitros de alcoóis diversos ao longo das páginas tem como primeiro cliente uma "gloriosa tontura carnal", a Senhora Morte. Pretende que o detective apanhe o escritor francês Céline que já devia ter morrido mas ainda circula pelas livrarias de Los Angeles.

Aparece outro cliente, empregado de uma agência funerária, que pretende livrar-se de uma fantástica mulher que é afinal uma extra-terrestre.

Fianalmente, um homem que quer que o detective encontre o Pardal Vermelho coisa que ninguém sabe o que seja e que tavez até possa ser a própria morte

Os vários casos misturam-se uns com os outros num banho de álcool, reflexões de filosofia barata e numa constante reflexão sobre a morte.

E é este característica que vai tornando conferindo à narrativa um carácter tão inquietante quanto pungente, tanto mais quando sabemos que o escritor escreveu esta história como um hino pulp às suas renitências, dúvidas e fraquezas, quando se encontrava ele próprio à beira da própria morte.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A PEDRA DAS PALAVRAS



Gosto da escrita de Rentes de Carvalho. Gosto muito. Tem alma. Tem força. Não facilita. É feita para mastigar. Exige um leitor atento. Mas também é verdade que ele o conquista pela intensidade da trama e pela consistência da forma como desenha as personagens. Na sua escrita há qualquer coisa de pedra, daquelas pedras imensas da sua terra de Trás-os-Montes, pedra bruta ali, no corpo das frases que nos coloca à frente dos olhos e nos obriga a sentir por dentro a dureza da própria palavra ou do olhar que a atira para o mundo.

Se a sua ironia, aqui ou ali, pode fazer crer que vamos por uma escrita mais doce e divertida, logo o autor nos ensosta à parede, nos deixa sem respiração e nos rouba ao sossego do nosso canto para nos avisar que o mundo não é doce e nada nos protege dessas tempestades que surgem silenciosamente e sem delas de início darmos conta.

Neste seu romance passa uma inglesa que gosta do Algarve e anda pelo mundo metida em negócios escuros com diamantes e muitas mentiras e se move num caldo quase marginal ao grosso da história, que, a propósito desse negócio dos diamantes, funciona como música de fundo nos falar de uma visão profundamente desencantada sobre o governo do mundo onde bandidos e governos se sentam à mesa dos mesmos repastos. E essa visão desencata do cosmolitismo permitido pelo dinheiro contrasta magnifica e agrestemente com a paisagem banhada pela luz dura e excissa da serra do Algarve.

Mas o que mais me tocou foi o Portugal de que o autor dá conta na sua trama e sublinha na sua situação de marginalidade face aos centros do mundo. Um Portugal poliédrico, com três facetas distintas

Com os velhos senhores da terra, convivemos com uma cultura antiga partilhada com criados, quase servos ainda, e uma melancolia de quem adivinha o fim de um tempo e de uma cultura.

Com Samuel, ex-combatente da Guiné, tocamos ao de leve um Portugal brutal, de vida e morte, de faca e sangue, o Portugal que tem pesadelos de noite e se gasta sem encontrar perdão.

Por fim temos um outro Portugal, videirinho, troca-tintas, aldrabófilo, iliterado, feito de negócios sujos e miseráveis, o Portual da política e dos partidos, dos empregos, do cinismo, da canalhice.

Neste vai-vém de personagens e histórias, o autor leva-nos sem nos dar descanso. E é bom, quase no final, subirmos ao alto deste monte, desta narrativa, e encostarmos a cabeça à pedra das palavras.

sábado, 21 de setembro de 2013

A PALAVRA E A LUZ


José Tolentino de Mendonça é o poeta que mais me emociona na sua geração e a sua obra tornou-se seguramente imprescindível, se quisermos conhecer o que de melhor se fez na poesia portuguesa das últimas décadas.

Madeirense, filho de pescador, JTM faz do diálogo com a natureza um caminho que parte do olhar para que desaguar na palavra. Não se trata da palavra liquída, óbvia, imediata, elegíaca, mas aquela que recolhe memórias de pessoas e sítios, de textos e reflexões, pedaços de filmes ou canções, veredas para um outro conhecimento que levam o poeta à boca do mundo.

Quando a sua poesia atravessa as cidades, ainda aí vai procurar a transcendência, nos recantos mais obscuros, nos anjos negros dos becos,nas margens mais perdidas, nas canções de quem traz pássaros feridos a voar na voz.

Sacerdote católico, estudioso e exegeta da Bíblia, JTM afirma que "A fé é uma ardente e incessante interrogação". Dessa interrogação e do encanto perante o mundo faz Tolentino de Mendonça o seu percurso de poeta, num ofício aparentemente sereno mas afinal inquieto, tecendo a sua poesia de momentos comoventes que nos aproximam da Luz. Ou de Deus.