sábado, 30 de agosto de 2014

A PRIMAVERA HÁ-DE CHEGAR


Não me canso de agradecer aos editores que me têm revelado e trazido para a língua portuguesa autores que eu não conhecia, mea culpa, mea culpa, e que vieram alargar o meu olhar sobre a literatura, ou seja sobre o sentido da vida.

Podia falar de muitos autores como Hernán Rivera Letelier, Olivier Rolin, Le Clézio, Errí de Luca, Julio Ramon Rybeiro, Barnard Malamud, Ignácio Martínez de Pisón e tantos outros mais como, agora, John Fante

Agradeço-vos a todos, queridos editores, a sensibilidade, a inteligência e quantas vezes o risco com que exercem a vossa profissão, sobretudo quando fogem aos sucessos garantidos por amor ao livro e à literatura.

A editora Ahab publicou o primeiro e o segundo romances do quarteto Bandini. O terceiro foi publicado pela Objectiva/Alfaguara e creio que o quarto romance não está publicado em português mas espero que alguém faça a gentileza e o acto de inteligência editorial de o publicar.

Descobri que Fante (1909-1983) é um autor extremamente elogiado no mundo literário americano, com rasgados elogios, entre outros, de Bukowski que dizia que ”Fante era o meu Deus”.

“A primavera há-de chegar, Bandini” é a história de um inverno na vida de Arturo, um jovem de 14 anos e da sua família italiana e pobre, constituída por pai, pedreiro, mãe, dona de casa, e três irmãos, Frederico, o patife, August o bonzinho que vai para padre, e Arturo, o mais velho, o nosso herói e narrador.

O romance passa elegantemente da voz de um narrador neutro para a voz de Arturo, passando, por vezes pela a voz do pai, Svevo, numa escrita brilhante, rápida, sem perdas de tempo, atravessando registos de grande dureza para logo desabar um pormenores de rara emoção e deixando tudo embrulhado aqui e ali, num inesperado fio poético.

O mundo de Bandini tem pontos óbvios de proximidade ou convergência com os romances de John Steinbeck. É o mundo dos pobres, dos trabalhadores.

Fala-nos do choque de uma família italiana e católica de origem rural do Sul de Itália, com os seus valores culturais e éticos, tratada pelos americanos como estrangeira.

E tem o sabor da pobreza experimentada por esta família, da verdadeira pobreza, a pobreza da América dos anos 30, e de uma solidariedade sem doçuras dentro da família.

Mas o que o romance sobretudo nos oferece é um extraordinário relato da vida feita por Arturo, em que se cruzam a forma como olha para o pai e para a mãe e ainda para a traição do pai com uma americana rica e do regresso do pai a casa, a expressão dos seus sonhos, do seu amor, da sua paixão pelo beisebol, do seu entendimento conturbado do catecismo e aquela inquietante lista de pecados da catequese que Arturo nunca sabe bem se são mortais ou não.

Deste delicioso diálogo do jovem com os pecados conclui ele que na hora da morte é preciso ser muito rápido para conseguir confessar-se antes de morrer e assim conseguir não morrer em pecado mortal.

O que é enternecedor é que Fante faz um acto de magia que só os grandes escritores conseguem quando conta um pouco da história todos nós, rapazes, de 14 anos de todos os tempos, ao contar a história de Arturo Bandini,

Todos nós tivemos amores deslumbrantes, inventámos grandes e complicadas ficções para nos entendermos com o mundo e com os outros, sofremos da mesma forma os desgostos de amor apenas sonhados, olhámos com espanto e inquietação para o desenvolvimento do desejo, tentámos entender-nos com o conceito de ciúme, e tentámos entender qual o papel que nos esperava como homens na sociedade e na família.

Trata-se de um livro que nos arrebata na verdadeira acepção da palavra e só posso acrescentar que estou mortinho para ler o segundo romance desta série que se intitula: “Pergunta ao pó”.


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Breves Notas sobre ciência


História das ciências (1)

  A História das Ciências encontra-se sempre ligeiramente atrasada em relação à História dos Desejos.
  Há metáforas famosas, peguemos nelas.
  É como se os cavalos fossem o Desejo e a carroça puxada por eles a ciência.
 Se os cavalos se separarem da carroça ganharão velocidade, mas perderão utilidade pública; a sociedade quer funções e não fugas.
 Mas o pior sucede mesmo à carroça. Se os cavalos se separarem ela, ela não mais se moverá.

A 2ª matemática

  Questão de Wittgenstein:
  “Se todos os homens acreditarem que 2 x 2=5, 2 x 2 será ainda igual a 4?”

  Existe uma 2ª matemática atrás da primeira. É feita daquilo que é Erro na primeira, e é ainda - como a primeira matemática - feita de ordem e regras. Os erros da 2ª Matemática são também proposições incontestáveis na 1ª Matemática.
 (Pensar nos opostos. No mal e no bem. Na exactidão e na falha. No alto e no baixo.)

Gonçalo M. Tavares


Gonçalo M. Tavares é um dos mais interessantes e originais jovens escritores portugueses: tem ideias, escreve com clareza e precisão, é prolífico e a sua obra é de qualidade homogénea e incontestável. Outra característica marcante dos textos de Gonçalo M. Tavares é a capacidade de obrigar o leitor a procurar continuamente o equilíbrio dos seus pontos de referência através do confronto com as ideias e conceitos expressos nos seus estimulantes textos. 

Em Breves Notas sobre ciência (2006), Gonçalo M. Tavares, o autor de Jerusalém (2004), Histórias falsas (2005), Canções Mexicanas (2011) e de muitos outros textos de interesse, procura aparentemente dissecar alguns dos pressupostos subjacentes ao trabalho científico. Digo-o aparentemente, porque apesar de as suas reflexões aparentarem ser, pela sua natureza e por conta da linguagem utilizada, de cunho epistemológico, elas o são só à primeira vista. De facto, nestas notas, impostas ao autor pelo seu interesse pela ciência, o ambiente discursivo científico-filosófico não passa de um engenhoso artifício para produzir um ensaio, escrito na forma de aforismos, sobre o método de abordar factos e o seu escopo, sobre a identidade do investigador e de seus estados de alma, sobre o objecto de estudo e a sua génese, sobre o amor, a verdade e o erro. 

Diz-nos Gonçalo M. Tavares:

«Céptico como os cépticos, crente como os crentes. A metade que avança é crente, a metade que confirma é céptica. Mas o cientista perfeito é também jardineiro: acredita que a beleza é conhecimento.»
   
Certamente, já o sabíamos desde Voltaire, e longe de dizer que o fazer científico não tem uma componente de crença e estética, mas há que se dizer que a beleza é um guia secundário para o investigador, embora seja, em oposição, a pulsão mais básica do artista. 

E também há no texto de Gonçalo M. Tavares um marcado interesse em focar o discurso nos equívocos inerentes aos procedimentos de busca das “verdades” e nos erros que o processo comporta. Mas, há muito a ciência não presume verdades acerca dos fenómenos e factos, mas se restringe a fazer hipóteses que servem, precária e temporariamente, como teorias. E nenhum cientista poderia afirmar que estas hipóteses são fruto exclusivo de factos puros e ideias com componentes estritamente científicas.   

Mas Gonçalo M. Tavares, não está interessado nas ciências, mas na literatura que se pode produzir tomando a ciência como pretexto. E sob este ponto de vista, estas Breves Notas sobre ciência propiciam, sem qualquer dúvida, uma leitura extremamente estimulante.  

Orfeu B.


segunda-feira, 11 de agosto de 2014

A MISERICÓRDIA DOS MERCADOS




Nunca entendi bem o conceito de geração referente apenas à idade. Talvez o entenda melhor no que diz respeito a uma arqueologia de vivências, atitudes, gostos, olhares, desejos

Nesse sentido, eu e o Luís Filipe Castro Mendes somos seguramente da mesma geração. Temos a mesma idade. Conhecemo-nos há muito. Os nossos filhos brincaram juntos. Vivemos seguramente momentos comuns nesse tempo de intensidades e angústias que foram os anos anteriores à queda da ditadura Ambos crescemos nos anos 60 com tudo que isso possa querer dizer.

É claro que temos relações com a escrita poética nascidas de fontes diferentes, influências diversas, relações de diferentes proximidades com as instituições literárias

A verdade é que sempre acompanhei a sua escrita com momentos de júbilo e felicidade. "Este é dos meus!", pensava eu. E é.
Leio e releio a sua poesia e fico mais feliz, por vezes mais triste e melancólico, mais mergulhado na matéria da poesia e, atrevo-me a dizer, mais cheio de mim próprio, ou melhor, dos meus velhos sonhos, raivas, irritações, delírios, paixões que, desde a juventude, não deixaram de me acompanhar.

Li este seu livro, reli-o e li também algumas críticas. Devo dizer que tenho muito pouco respeito pela actividade opininativa que se espalha por alguns jornais e que vem quase sempre revestida de seriedade literária ou cinéfila, ou teatral. Tenho razões para esta má vontade. E guardo recortes para não me esquecer das pequenas e grandes canalhices a que assisti ou até que sofri da parte dessa

Achei irónica a forma como se tentou puxar para o lado a poesia de Castro Mendes tentando "purificá-la" e retirando-a da vil prosa do mundo em que estamos mergulhados para a tornar em pura poesia, límpida, escrita sem mácula, com palavras sem ruas ou cidades, sem pobres e ricos, sem sofrimento ou desilusão em relação ao tempo que vivemos.

A música da poesia de Castro Mendes é neste livro um doloroso e melancólico diálogo com o avanço da idade e a constatação de que o mundo dos mercados é um mundo que escapa ao que foram os nossos sonhos, um mundo que conduz filhos à sobrevivência perante a miséria da economia.

O Luís Filipe não é um poeta político no sentido estrito do termo mas a sua melancolia resulta também do conhecimento directo de um mundo mergulhado em guerra e miséria e na lógica que para muita a gente não oferece discussão e parece até tornar-se na voz natural de um Deus qualquer.

A poesia serve também para isto. Abrir portas de questionamento sobre o mundo que vivemos e abrir pequenas janelas de dúvida amável, de fraterna partilha da arte das palavras.

"REGAS DE PROTOCOLO"

Os que não têm lugar à mesa
devem rodar delicadamente para trás
e afastar-se sem barulho e sem notícia.
Os lugares foram reduzidos por forma a
um número crescente de convidados deixar
de ter lugar no banquete, sem qualquer aviso prévio
ou desculpa improvisada. Prontamente.

Conhecer as regras é necessário.
Ignorá-las
é soberano.






domingo, 10 de agosto de 2014

A Minha Mulher



“Mas como tudo isto é absurdo, absurdo … resmoneava enquanto descia as escadas. É absurdo que esteja ser arrastado pela vaidade ou pelo amor-próprio … Que coisas tão pueris! Serei, acaso, condecorado por causa dos famintos? Irão nomear-me director dalguma repartição? Mas é absurdo, absurdo! E aqui, no campo, para que hei-de representar o papel de pessoa importante? Se me inquieto e aflijo é apenas por amor do próximo …

Sentia confusamente que estava a ser desonesto e mentia a mim próprio. O amor pelos famintos, que eu nunca tinha visto nem conhecia, nada tinha a ver com tudo aquilo. Tive vergonha e lembrou-me, não sei porquê, um verso dum antigo poema, que aprendera na infância:

Ah! como é agradável ser bom!

Mas ainda tive depois mais vergonha …

Anton Tchekov


Tchekov (1860-1904) é referenciado como um dos mais dotados contistas de sempre. As suas obras são constantemente re-editadas e as suas peças foram seminais no repertório teatral russo e moderno e gozam duma unanimidade incomum junto da crítica e do público. O seu estilo é directo e impressionista, as suas descrições anímicas reminescentes dos grandes escritores russos do século XIX. Julgo ser justo afirmar que obras como "O Cerejal", "A Gaivota", "O Tio Vânia", entre outras, são leituras obrigatórias para qualquer leitor interessado nos clássicos da literatura universal.    

"A Minha Mulher", é um longo conto (ou uma breve novela) escrito em 1891. Há neste magnífico texto todos os elementos do universo de Tchekov: a subtileza dos retratos psicológicos, enquadrados em situações quotidianas e/ou extraordinárias, a sua visão por vezes pessimista, mas sempre apaixonada da humanidade, e o seu profundo conhecimento da alma russa, na sua grandeza e nos seus aspectos mais sombrios. 

Neste conto, temos Pavel Andreievitch, um abastado funcionário reformado dos caminhos de ferro russo, que vive dilacerado pelo amor que descobre ainda sentir pela sua mulher. Esta, porém, não o julga digno de qualquer benevolência. A precária relação de separação que vivem, sob o mesmo tecto, perde a sua frieza habitual quando a sua esposa toma a iniciativa de reunir, junto da burguesia rural duma região da Rússia profunda, meios para aliviar a fome e a miséria que assolam os camponeses num inverno particularmente penoso. Pavel Andreievitch presume que esta iniciativa permitir-lhe-á re-estabelecer relações com a sua esposa, porém o seu zelo burocrático e a sua insensibilidade tornam as coisas ainda mais difíceis e insuportáveis. A tensão crescente acaba por empurrar Pavel Andreievitch para uma frustrada fuga para a capital, a qual culmina com um humilhante regresso, que o obriga a enfrentar, sem subterfúgios, a solidão e o irreversível desprezo da sua mulher.       

Um livro de grande intensidade psicológica, realista ao ponto de ser profundamente tocante, ainda que por vezes, sufocante na desesperança que nos descreve a impotência diante de relações humanas em conflito e a incapacidade da burguesia russa em entender as causas dos infortúnios do povo.

Orfeu B.
   

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

SOMBRA NO VENTRE



“… as noites só faziam sentido trincando nêsperas
e bordando palavras que dessem sombra no ventre”

Uma entre as boas poetas dos últimos anos, o que é raro e não é pouco, porque a poesia portuguesa não tem andado nos seus melhores tempos.

Este livro dedica-o a autora ao Miguel, “...que durante nove meses carregou comigo um filho. E durante outros tantos, este livro.”

É assim fácil de entender que este livro é um registo poético do tempo de gravidez.

Sem bonitinhos, adornos, requebros que o tema poderia sugerir, esta poesia é espessa, intensa, cuidadosamente elaborada numa vivência deslumbrada do corpo e da partilha do corpo com o filho que se aproxima e da sua celebração no altar do amor.

“MARSUPIAL” resulta do casamento notável entre a emoção vivida no corpo e a construção de um outro corpo feito de palavras nascendo inquietas das águas e da luz.

“agora a mulher estava no plural
a mulher era potável
a mulher escrevia o missal do seu corpo

um dia o anjo disse – vai à fábula –

então a mulher escolheu escrupulosamente o seu pé esquerdo
e foi.”

domingo, 3 de agosto de 2014

COMO SE NUNCA TIVESSE CONHECIDO RAÍZES NOS PÉS




“A mulher movia-se no silêncio nu da montanha como se nunca tivesse conhecido raízes nos pés.”

Um dia entrei numa livraria de Coimbra, a “Lápisdememórias” do Adelino Castro, e lá estava o Ondjaki a apresentar um livro. Não nos conhecíamos pessoalmente mas caímos nos braços um do outro e logo ali selámos uma daquelas valentes amizades que hão-de concretizar-se ao sabor dos acasos da vida.
Já guardava um cantinho das minhas paixões literárias para a escrita deste menino transcontinental que tem uma carga poética e emocional notáveis.
Esperava encontrar nestes contos aquelas narrativas realistas mas delicadas e ternas como em “Os da minha rua”.
Os contos reunidos neste livro são diversos. Vêm de lugares diferentes, de diferentes regiões do imaginário, de diferentes respirações da narrativa.
Avançam e recuam no espaço e no tempo, nas sombras do real e do irreal, do fantástico e do poético.
Cada conto tem o nome de um lugar, uma cidade, um sítio: Buenos Aires Budapeste, Madrid, Praga, Macau, Tânger, Nairobi, Dar Es Salaam
Porventura terão sido escritos ao sabor das viagens do autor. E estão divididos em 4 capítulos marcados por uma certa forma de atravessar o mundo com as palavras.
Há zonas onde predomina o labiríntico absurdo a soar a Borges, outros a cair no mágico, outros claramente poéticos apesar da prosa em que são vertidos.
Trata-se de um livro desigual, com altos e baixos em quem os baixos nunca são muito baixos e os altos conseguem chegar muito alto. Trata-se de um livro que exige uma entrega especial do seu leitor. É preciso deixarmo-nos mergulhar na escrita maravilhosa de Ondjaki, sem preconceito, sem querer saber: “E depois?” mas deixar que a chuva das palavras nos venha tocar no mais fundo da emoção
Ainda não li, mea culpa, “Os transparentes”, romance recente de Ondjaki. Tenho ouvido belos elogios e fico feliz por isso. Fico feliz por um bom livro e ainda por cima um bom livro de um bom amigo.
Destes “Sonhos…” gostava de salientar o conto que tem por título Massoxiangango, um dos mais belos poemas que li e de onde retirei a frase com que comecei esta prosa.


- E MAIS ALGUMA COISA -

Entusiasmado com o livro de Onjaki desatei a escrever sobre ele ainda me faltava o último conto. "Mossulo", história de fazer tremer, único momento explicitamente resultante de uma história vivida. E não é por acaso que se trata do último, uma vez que, de forma talvez oblíqua, é a chave de todos os contos, a raiz que prende os pés de quem lê à terra de que o autor faz nascer a ficção.


quarta-feira, 16 de julho de 2014



A Princesa que queria ser Rei
Texto: Sara Monteiro
Ilustração: Pedro Serapicos
Ed. Ambar
Porto, 2007


História atípica de princesa: não é linda, nem delicada. É forte e peluda e não quer bailes, nem bordados. 
O Rei baralhado: afinal o que é feminino? 
A rainha peremptória: “qualidades fora do seu sexo são defeitos”. O rei cogita: “e se as qualidades não fossem de nenhum sexo?”. Aos dezassete anos quer reinar. Só um homem pode ocupar o trono! Ela vai embora, provar ser melhor que um homem. 
Cai tristeza no palácio. 
Quando o reino é invadido o apelo de ajuda do rei é atendido por um cavaleiro que ninguém conhece. O rei quer acreditar que é a filha. Passam cem noites, o cavaleiro misterioso chega ao palácio. 
É ela! Forte, peluda, altiva e bonita! Tão boa como um homem. Melhor! Nos braços da guerreira que reclama o reino há uma criança recém nascida. São os pais que resolvem a questão do ser ou não ser rapaz ou rapariga e da aceitação plena da filha: “Que interessa isso?” E ficamos sem saber. 
A ilustração faz a ponte para um público mais pequeno a par de uma mensagem mais adulta nas entrelinhas. 
A figura da Princesa, menina, quase boneca, atenua o adjectivo de “cavalona” que lhe atiram; o pontilhado de barba na cara gera estranheza e graça; o minúsculo rei com um trono demasiado grande convive com a sombra dos imensos cabelos da princesa, símbolo da sua força. 
Não há príncipe. 
A princesa mulher/mãe será rei. 
O sexo não interessa para governar (bem). 
Um final feliz.

domingo, 13 de julho de 2014

O Passeio e outras Histórias

 Vim ao mundo a tantos de tal, fui educado em tal sítio, fui para a escola como qualquer um, sou isto e aquilo, chamo-me fulano de tal e não penso muito. Do ponto de vista do género sou do sexo masculino, do ponto de vista do estado sou um bom cidadão e do ponto de vista social pertenço à melhor sociedade. Sou um membro impecável, pacato e amável da sociedade humana, um dos chamados bons cidadãos, gosto de beber o meu copo de cerveja sobriamente, e não penso muito. Assim, não é de espantar que de preferência coma bem e também não é de espantar que as ideias não se aproximem de mim. O pensamento arguto é-me completamente alheio. As ideias ficam sempre muito longe de mim e por isso sou um bom cidadão, já que um bom cidadão não pensa muito. Um bom cidadão come o que tem a comer e isso basta!

Não esforço particularmente a cabeça, deixo isso às outras pessoas. Quem esforça a cabeça torna-se odiado. Quem pensa muito tem fama de ser incómodo. Já Júlio César apontava o dedo grosso ao Cássio, esquelético e de olhos encovados, a quem temia porque suspeitava que ele tinha ideias na cabeça. Um bom cidadão não pode inspirar medo e suspeita. Pensar muito não é o seu ofício. Quem pensa muito torna-se mal amado e é inteiramente desnecessário ser mal amado. Ressonar e dormir é melhor do que ser poeta ou pensar. Vim ao mundo a tantos de tal, fui à escola em tal sítio, leio ocasionalmente o jornal, tenho a profissão tal e tal, tenho tantos e tantos anos, pareço ser um bom cidadão e gostar de comer bem. Não esforço especialmente a cabeça, já que deixo isso às outras pessoas. Matar a cabeça a pensar não é o meu forte, pois quem pensa muito padece de dores de cabeça e a dor de cabeça é inteiramente supérflua. 

O Passeio e Outras Histórias


Os textos do escritor suíço de língua alemã, Robert Walser (1878 – 1956), são frequentemente referidos como sendo uma transição entre os do poeta romântico alemão Heinrich von Kleist (1777 – 1811) e os de Frans Kafka (1883 – 1924), escritor quinta essencial da literatura do século XX. Claramente, há entre estes autores denominadores comuns, porém eu prefiro pensa-los como ilhas no mar revolto das possibilidades criativas da ficção. No seu tempo, Walser era muito apreciado e entre os declarados admiradores estavam Stefan Zweig, Robert Musil, Hermann Hesse, Walter Benjamin e Franz Kafka. 
   
Em “O Passeio e Outras Histórias” o leitor pode apreciar com nitidez o estilo irónico, e sobretudo auto-irónico, de um autor que não se enquadrava nos cânones necessariamente pequeno-burgueses da posição de um escritor no seu tempo e nos padrões de gosto e estilo que esta posição sócio-económica e cultural subentendia. São também perceptíveis os danos causados na personalidade do autor a sua condição de perene solitário e excluído. O resultado é uma escrita fluída, necessariamente exaltada, e cheia de humores e de contida revolta.   

Ao lermos, por exemplo, o longo conto, O Passeio, salta à vista a felicidade que este caminhar desinteressado e libertador injecta no autor e como este não poupa esforços para que o leitor possa compartilhar estes momentos de surpreendente leveza e elação. Contudo, há nas entrelinhas, indeléveis traços de angústia, exasperação e duma solidão profunda. Não surpreende que tenha vivido o autor, as duas últimas décadas e meia da sua vida, num hospital de doentes mentais de Herisau a este da Suíça, alienado do mundo e dos seus semelhantes, e que só os passeios propiciavam algum alívio para a sua atormentada alma.  

A sua solitária morte num campo congelado pela neve no dia de Natal de 1956, parece ser a conclusão dolorosamente lógica de uma existência precária e solitária, e completamente dedicada à escrita e aos passeios. Walser deixou-nos poemas, novelas e uma infinidade diversificada e original de contos.  

Orfeu B.



domingo, 6 de julho de 2014

UM GRANDE ESCRITOR HÚNGARO: DEZSŐ KOSZTOLÁNYI

Dezsö Kosztolányi nasceu em 1885 e faleceu em 1936. É um grande poeta e romancista húngaro das primeiras décadas do século XX. De que eu tenha conhecimento, há apenas uma obra traduzida em Portugal, o romance “Cotovia”, edição da Dom Quixote, em 2006. Tive conhecimento deste escritor e desta obra através de uma antiga entrevista de António Lobo Antunes, que reli há pouco tempo. A edição é muito cuidada e valorizada pela tradução de Ernesto Rodrigues, professor da Faculdade de Letras de Lisboa. “Cotovia” é um romance em que se narra a vida quotidiana de uma família da burguesia média, residente numa pequena cidade da província húngara. A acção passa-se durante uma semana, período em que a filha, filha única de um casal já de certa idade, vai de férias e deixa os pais sózinhos, o que acontece pela primeira vez. Na verdade, estamos perante um texto brilhante, construído com maestria. Um romance de costumes (no sentido utilizado pela crítica literária francesa), com uma fabulosa caracterização de situações e personagens, em que os sentimentos em geral, e as emoções em particular, são a verdadeira mola impulsionadora da acção que se narra. Como me iniciei na literatura através de romances do século XIX de autores portugueses (principalmente Camilo Castelo Branco) e franceses (Balzac, Zola), a leitura deste romance não só me foi fácil, como também empolgante, o que talvez não aconteça com as novas gerações de leitores. A obra está organizada em treze capítulos. Desde o primeiro capítulo, que se sente pairar uma sombra escura sobre esta família aparentemente feliz, constituída pelo pai (Ákos Vajkay – a personagem central), a mulher e a filha Cotovia, assim denominada devido aos seus dotes vocais. A vida rotineira do casal altera-se profundamente quando a filha vai passar uma semana de férias a casa de uns tios. Obrigados a irem fazer as refeições a um restaurante bastante frequentado, os pais acabam por contactarem com antigos amigos e conhecidos e a retomarem hábitos de outros tempos. Assim, numa noite, Ákos chega a casa de madrugada, embriagado e “explode” com algo que o tem amargurado há anos e anos e que tem a filha como causa: “... Ákos continuou: - Pois não seria melhor assim? Também para ela, pobrezinha. E mesmo para nós. Saberás o que ela sofre? Só eu sei, só o meu coração de pai sabe. Assim e assado, é como bichanam permanentemente nas suas costas, dizem mal dela, fazem pouco. E nós, mãe, o que nós já sofremos. Um ano, dois anos, esperámos, tivemos esperanças, o tempo passou. Julgámos que era, simplesmente, fruto do acaso. Dizíamos que tudo havia de terminar bem. Mas é cada vez pior. Será cada vez pior, e pior, ainda. - Porquê? - Porquê? – perguntou também Ákos, e disse, numa voz surda: Porque é feia. Pela primeira vez, era dito. Seguiu-se um silêncio. Um vazio mudo que ressoava em redor. A mulher pôs-se de pé. Não, nunca ela imaginara tal. Quando falavam da filha, e, por delicadeza, rodeavam a questão, pensava que, um dia, voltariam ao assunto, a sério, que, ponto por ponto, em pormenor, ela e o marido, e talvez alguns parentes, Etelka e Béla, como em conselho de família, debateriam a questão, durante dias, mas não de maneira tão directa, com esta simplicidade brutal. O que Ákos dizia matava, cerce, qualquer argumento, troca de ideias, qualquer solução. Doía-lhe. Revoltava-a esta crueldade, esta sinceridade. O marido ultrajara uma mulher, ultrajara a sua filha. E como se só isso a fizesse sofrer, ulcerada e irritada, gritou-lhe: - Não! Não! - Mas sim, sim! É feia, muito feia! – gritou Ákos, voluptuoso –, feia, e uma pobre velha, tão feia – e fez uma careta horrível, torcendo boca e nariz –, tão feia como eu. Arrancou-se, a custo, do sofá, para mostrar como era, na verdade, ele, em pessoa, e foi ter com a mulher. Assim se desafiavam nos olhos os velhos pais de Cotovia, em camisa, descalços, quase nus os dois corpos, de cujos abraços nascera, outrora, a filha. Ambos tremiam de emoção. - Estás bêbedo – disse a mulher, com desprezo. - Não estou bêbedo. - Pecas contra Deus. - Ainda que fosse coxa – berrou Ákos –, fosse corcunda, ou fosse cega, nem assim era tão feia – e, aqui, desatou a chorar, lágrimas abundantes lavaram-lhe o rosto manchado de cinza, e alma atormentada. A mulher, entretanto, agigantava-se. Peço-te – disse, bruscamente, com uma severidade de que não se julgaria ser capaz, com uma inteligência aguda, uma vivacidade no olhar, que, até ali, ninguém ainda lhe vira, ninguém lhe conhecia no meio que frequentava. – Peço-te – e levantou a voz –, proíbo-te de falar assim da minha filha. Ela também é minha filha. Sinto-me na obrigação de defender a minha filha, a tua filha, contra ti. Envergonha-te! - O quê? – balbuciou Ákos, e fez corpo. - Não te admito – disse a mulher, e bateu na mesa. – Uma coisa assim, não te admito. Que farsa, disseste antes. Pois olha, isso é que é uma farsa! Ákos regressava da embriaguez, que parecia dissipar-se. - Bom, atirou-lhe –, falemos com seriedade... Comigo, também se pode falar com seriedade. - Hoje, comigo, não é possível falar com seriedade. Regressas de madrugada, deixas a casa de pernas para o ar, distribuis dinheiro pelos cantos, queres incendiar a casa em cima da minha cabeça, falas de tudo e de nada. Antes de mais, é preciso que durmas – e dirigiu-se para a cama. - Mãe – disse Ákos, retendo-a –, fica um pouco – disse, quase implorando. A mulher reteve-se- - O que queres afinal? – impetrou o marido. – Porque choras? Porque gritas? Não te percebo. Falava com dureza. Fez uma pausa. E, em tom mais doce: - Está bem, não casa. E depois? Há muitas mulheres que não casam. Tem trinta anos, ainda pode vir alguém. Nunca se sabe. Quando menos se espera. Eu devia abordar os homens na rua, ou colocar um pequeno anúncio nos jornais? Para uma Vajkay. Vamos, peço-te.” O capítulo (o décimo) termina com a mulher a chamar-lhe a atenção para o amor que existe entre os três, o mais belo dos sentimentos que pode unir os seres humanos. Os três capítulos finais centram-se na chegada da filha e na retoma das vidas de sempre, talvez agora mais tristes e mais conscientes, mas sem a tensão latente em que tinham vivido (a própria Cotovia, na semana em casa dos tios, tinha tomado consciência do modo como era olhada, tratada). Mas há um outro aspecto a realçar neste romance: é um belíssimo documento histórico sobre a vida quotidiana de uma pequena cidade húngara e um valioso contributo para o estudo da mentalidade de uma comunidade da Europa Central, nos primeiros anos do século XX.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

A ÚLTIMA NOITE EM LISBOA


Sérgio Luís de Carvalho é formado em História e todos os seus romances são construídos em torno da reconstrução cuidadosa de um determinado período que pode ser o tempo medieval, o renascimento, as trincheiras da 1ª Guerra Mundial ou, neste romance, a Lisboa da 2ª Guerra Mundial

Neste romance, situado em 1942, sente-se e vibra-se com a cuidadosa recolha de tudo o que pode dar consistência e rigor histórico à cidade, palco da ficção narrativa que se desenrola no cenário sublinhado por essa memória desenterrada dos relatos da época.

Estamos em Lisboa, cidade pobre, mais que pobre, quase miserável, mas alegrete, fadista, cheia do cheiro das tascas e do chilreio do rapazio a correr por ruas e calçadas, anunciando jornais ou a jogar à bola, imitando os ídolos do Benfica e do Sporting.

Esta Lisboa dos anos 40 está repartida entre os germanófilos cheios de pose bacoca e prosápia ribombante, os anglófilos mais discretos, os anarquistas e comunistas a falar e a protestar às escondidas, e os outros que andam distantes das políticas, os que vão vivendo e mantendo tabus que começam a ser estilhaçados pelos modos dos estrangeiros e estrangeiras que chegam ou passam por aqui.

Esta forte presença de estrangeiros em Portugal tem especial relevância nos judeus, fugidos da barbárie nazi, que aqui estacionam à espera de passagem para as Américas. Judeus ricos, nas esplanadas do Rossio ou nos hotéis do Estoril. E judeus pobres, na bicha para a Cozinha Económica de Israel ali à Travessa do Noronha, onde também acaba por ir pedir a esmola da comida o Cônsul Aristides Sousa Mendes, caído em desgraça junto de Salazar.

A narrativa é lenta e circular. Como lenta e circular é a vida de Lisboa, em torno de uma guerra lá longe que se vive através das notícias da rádio, tomando partido por alemães ou aliados e entremeando a tragédia distante com umas iscas, um copinho de branco, uma fadinho ouvido a Rádio Graça, um filme americano no Éden.

O título anuncia o final da história, ou seja, avisa-nos que chegaremos a uma noite que será a última passada em Lisboa. De quem? Talvez de Charlotte a bela austríaca que mora num rez-do-chão da Travessa do Noronha, ao lado da casa que aluga um quarto a Henrique que trabalha na “Esfera” embora sem grande convicção germanófila.

A acção é intervalada de cartas de um homem, Heinrich, que transcreve de ternura e amor no que escreve a Charlotte, primeiro de um campo de concentração nazi, e que sabemos ter sido libertado e ter conseguido partir para a Guerra Civil de Espanha.

Charlotte começa a fazer-se acompanhar por Henrique nas noites de Lisboa e depois por ele e pela sua namorada Maria Carolina que vai aprendendo com Charlotte outras formas de pensar, de vestir, de amar.

A pouco e pouco vai-se formando um triângulo amoroso em que a sensualidade cresce e se vai afirmando e em que a pequenez portuguesa vai sendo confrontada com outras formas de viver e pensar, até se chegar à última noite em que muitas coisas se revelam e outras tantos ficam por desvendar

É daqueles livros que se com facilidade, mesmo com urgência. E em que a ficção se conjuga bem com a História para nos ajudar a conhecer melhor os passos e os dramas dos que cruzaram as ruas da nossa Lisboa.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Retrato de Rapaz


“Dirão um dia que não conseguimos, mas cada voo a si mesmo se inventa, e nenhum se repete, partamos pois, meu Filho, para outra viagem, não há bússola que nos comande, nem universo que nos detenha.”

Mário Cláudio


Retrato de Rapaz é uma novela de grande amplitude humana e de uma superior perspicácia psicológica. Uma novela que descreve a relação de Leonardo da Vinci (1452-1519) com um dos seus mais próximos discípulos, Gian Giacomo Caprotti (1480-1524), um espírito diabólico em estado juvenil, conforme percebeu Leonardo quando o alcunhou de Salai. Mas entre o génio e este discípulo improvável, estabeleceu-se uma ligação emocional de grande cumplicidade e intimidade, que atravessou uma parte importante da vida adulta de Leonardo e que se estendeu até a sua morte. 

Retrato de Rapaz permite-nos vislumbrar a teia de afectos de Leonardo e resolver um enigma que não deixou de fascinar o próprio Freud, que chegou a afirmar, no seu bem conhecido texto sobre o génio renascentista, que este não tivera qualquer vida sentimental. Em oposição, Mário Cláudio, mostra-nos com uma invulgar riqueza de matizes narrativas e a sua exímia escrita, que muito pelo contrário, a vida emocional e íntima de Leonardo não era desprovida de um centro, e que neste estava solidamente instalado Salai.

O autor destas breves linhas nunca teve dúvidas quanto à capacidade única da arte em nos guiar por entre a riqueza e as subtilezas das emoções in vitro, mas é sempre um prazer renovado ver este “teorema” concretizado na forma de um texto que nos permite contemplar os pigmentos que singularizam cada alma e as paixões que as movem. Retrato de Rapaz propicia-nos o entendimento revelador da faceta  pessoal de uma das mais extraordinárias figuras do Renascimento. Só um grande artista tem o dom de descrever com tanta clarividência o lado humano no caudal turbilhonar de uma mente tão criativa como a de Leonardo.  

Orfeu B.




sábado, 21 de junho de 2014

O POETA NO EXÍLIO

O brasileiro Ferreira Gullar (nome literário de José Ribamar Ferreira) é um grande poeta de língua portuguesa da nossa contemporaneidade (veja-se, por exemplo, o seu célebre “Poema Sujo”). Mas não é da sua poesia que quero falar, hoje, é, sim, do seu livro de memórias do exílio. Obra editada em Portugal com o título “Rabo de Foguete. Os Anos de Exílio”, pela Verbo, em 2010. Uma autêntica epopeia de Ferreira Gullar por múltiplos países: o próprio Brasil, a União Soviética, Chile, Peru, Argentina. Sempre sob a alçada do Partido Comunista, de que fazia parte. A história começa quando é informado que o seu nome está na lista negra dos generais que haviam instaurado uma ditadura militar no Brasil. Assim, inicia uma fuga, primeiro no Brasil, em casas de familiares, a seguir por vários países, sempre pela mão do Partido Comunista Brasileiro, que lhe prepara a documentação necessária à fuga para Moscovo, onde irá frequentar uma “escola de quadros” para dirigentes e membros de partidos comunistas estrangeiros. O relato da sua estadia na União Soviética é algo de empolgante: o quotidiano na “escola”; os colegas brasileiros; a sua vida amorosa; o que vê e ouve no contacto com a sociedade russa, tudo é descrito num admirável estilo jornalístico, em que não se critica, nem se elogia, deixando a cada leitor a possibilidade de tirar as suas conclusões. Sempre numa prosa perfeita, inteligente, honesta. Terminado o curso, é “exportado” para a América do Sul, para o Chile, onde assiste à criação de um clima que leva ao golpe militar do General Pinochet, à morte do Presidente Allende. E ei-lo outra vez em fuga, com uma passagem pelo Peru, seguida da sua fixação na Argentina, onde assiste à revolta dos generais de extrema-direita e à implantação de uma ditadura militar, o que vai originar nova fuga e o regresso ao Brasil, onde, entretanto, a ditadura estava a desmoronar-se. É desta fuga permanente às baionetas dos militares que a obra colhe título: “Rabo de Foguete”. Fuga que tem consequências graves na sua vida e na da sua família, principalmente para os seus filhos. E a obra termina de um modo desconcertante: “Pedi mais tarde ao meu advogado que me obtivesse uma certidão de sentença absolutória do Superior Tribunal Militar para me garantir contra qualquer eventualidade. Ao ler o documento, verifiquei que, embora o processo fosse meu, a pessoa absolvida não era eu: chamava-se José Ribamar Ferreira mas os pais eram outros. Tratava-se de um líder camponês, também maranhense, que havia aderido à luta armada. Assim se explicava a surpresa do oficial do Exército, que invadira a minha casa em 1970, ao saber que eu não era líder camponês mas jornalista. E pensar que havia ficado todos aqueles anos no exílio à espera de uma absolvição que, afinal de contas, revelou-se desnecessária. Mas não importa. A vida não é o que deveria ter sido e sim o que foi. Cada um de nós é a sua própria história real e imaginária.” Sem dúvida, a realidade ultrapassa sempre a imaginação, mas quando mete polícia secreta, governos de militares e políticos incompetentes, então, acontece o que de mais imprevisível se possa imaginar... Quem não ler este livro perde um documento humano essencial ao conhecimento da História do século XX do mundo ocidental.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

UM GOSTO AMARGO NA BOCA


A arte de iniciar a escrita de um livro é diversa. Há escritores que o iniciam com intensa velocidade, de modo a agarrarem-nos pelos ombros e não nos deixam abandonar a leitura até ao fim.

Outros vão devagarinho, levam tempo a chegar ao miolo da noz, ao fundo da questão. Vão de roda, perdem-se em coisas aparentemente secundárias, parecem moles e levam-nos pro vezes a alguma impaciência até que desatem os fios da questão central.

Neste último caso, o leitor tem que ser teimoso, tem de conquistar a narrativa, vencendo a dúvida que o faz recear que aquela lentidão .

Hitchcock criou o célebre “MacGuffin”, o perigo ou bomba relógio que colocava no local para onde queria conduzir o olhar inquieto do espectador, enquanto fazia a acção decorrer noutra margem

Donna Léon começa devagar em mais um destes romances que têm como cenário Veneza, os seus canais, os seus restaurantes, a sua poesia.

Parece não haver motivos para se desconfiar de um crime quando se encontra um aluno da Academia Militar enforcado numa casa de banho.

É claro que desde o início somos conduzidos pela desconfiança do Comissário Brunetti, personagem central de todo o romance, e ficamos com a quase certeza de que se trata de um falso suicídio.

Brunetti pertence à linha de um Maigret, com as devidas diferenças. É um funcionário rendido à sua função, um tanto depressivo, desconfiado dos seus superiores, permanentemente revoltado pela corrupção que parece omni-presente no aparelho de Estado italiano.

O que me começou a pegar à leitura do livro foi a atitude de fortíssima irritação e até preconceito (que viremos a perceber que tem toda a razão de ser) de Brunetti e da sua mulher Paola em relação ao exército italiano e aos seus comportamentos.

De facto, e ao contrário do geral do exército português, tendo atravessado duas guerras mundiais e tendo sido o braço armado do fascismo, o exército italiano é uma casta no mínimo conservadora, que se defende a si própria e que defende ideias cheias de panache e sem qualquer conteúdo.

Lembrei-me do “Amarcord” de Fellini e daquelças marchas ridículas dos militares no tempo do Mussolini
Mas acima de que tudo, o que sobressai é a corrupção capazde cilindrar seja quem for para se proteger, capaz de mentir, de esconder, de matar. É assustador, não muito mais do que o que se passa com os senhores da corrupção na nossa terra.

A história vai ganhando espessura e intensidade a caminho do fim e consegue surpreender-nos, emocionar-nos e deixar-nos um gosto amargo na boca.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

A morte de Empedocles


Cuando esté lejos ya os hablarán por mi las flores del cielo, las brillantes estrellas, !si! y brotarán innumerables las flores de la tierra. La naturaleza con su presencia divina no necesita hablar, y una vez que se ha aproximado, ya nunca más vuelve a dejaros solitarios, pues indelebles son sus miradas y vivificante es el fuego celeste que alienta victorioso por todos los tiempos …

Habláis como insensatos a un poder que es más poderoso que vosotros; pero es en vano, y como el astro en su carrera incontenible, camina la vida hacia su perfección. ?No conocéis el lenguaje de los dioses? Yo la percebi al nacer a la vida y contemplarla, aun antes de aprender el lenguaje de los padres. 

Hoelderlin


Ao longo da sua vida adulta, o poeta romântico alemão Friedrich Hoelderlin (1779-1843), padeceu de uma precária estabilidade mental, fundamentalmente originada por uma hipersensibilidade acerca da fragilidade da condição humana e pelo desespero da busca do divino. A ausência de um sinal inequívoco de Deus, empurrou-o para a solidão e para a contemplação da Natureza. A crónica inquietação que sempre afligiu o poeta, sugere que nunca tenha sido tocado pela “felicidade do filósofo”, tão característica do pensador de quem era um ávido leitor, Espinoza. Mas na verdade, foi através da leitura do filósofo grego Empedocles, que Hoelderlin abraçou o panteísmo, e pôde assim libertar-se, ainda que nunca completamente, da sua formação de crente e seminarista. 

É no contexto do dilema da fé e do fado que aflige o eremita, que o drama teatral “A Morte de Empedocles” se desenrola. E mais marcadamente, na conclusão de que a loucura de se julgar divino, ou acreditar no divino, só pode conduzir ao suicídio.

Mas a iluminação que Hoelderlin encontra na vida do filósofo grego, cujo insaciável interesse pela Natureza e pela filosofia, o conduz à arrogância ou loucura de considerar-se divino, é na verdade mal disfarçada, pois por vezes o seu Empedocles, exprime-se como Jesus Cristo, embora a identificação não seja plena. 

E é inevitável que assim o seja, pois o poeta, em oposição ao crente, procura o divino através de “pistas” dispersas na Natureza: nos rios, árvores, jardins, montanhas e vales, nos heróis e na nobreza dos sentimentos, sendo assim também um desterrado do mundo dos homens. Nesta perspectiva, a morte do filósofo que se lança nas entranhas de um vulcão é um gesto subjectivo e portanto opaco no seu significado. Em oposição, a visão evangélica da morte do filho de deus almeja a interpretação universal de um pretenso gesto de sacrifício maior, o que do ponto de vista lógico é absurdo, pois foi orquestrado pelo próprio deus. 

Parece-me ser uma especulação interessante supor que as três versões que Hoelderlin apresentou do drama, e sua declarada insatisfação relativamente ao resultado final, têm muito a dever à precariedade da lógica evangélica e a incapacidade do poeta em resolver a questão essencial de identificar ou de separar os dois personagens. 

Naturalmente, uma leitura contemporânea deste drama permite-nos encarar esta ambiguidade como uma das suas maiores virtudes. De facto, parece-nos justo afirmar que a ansiedade desesperada que motivava os poetas românticos na busca das verdadeiras respostas é a mesma que move os leitores pós-modernos na busca das verdadeiras perguntas.  


Orfeu B.











quinta-feira, 15 de maio de 2014

BOM DIA SENHOR ESCRITOR


Álvaro Laborinho Lúcio é um homem com um currículo excepcional que inclui a direcção do Centro de Estudos Judiciais, o cargo de Ministro da Justiça e o de Juiz do Supremo Tribunal de Justiça

Figura grande na sua dimensão intelectual, moral e ética, grande senhor da comunicação, homem de inteligência brilhante e viva. E, por fim, devo dizer que o Àlvaro Laborinho Lúcio faz o grande favor de ser meu amigo. Cruzámo-nos muitas vezes nas voltas da vida, em palcos diversos, em defesa da cidadania. Acontece-nos aquele fenómeno que só nas grandes amizades é possível. Um de nós chama pelo outro e o outro responde imediatamente.

A vida do Laborinho está cheia de histórias. Conheceu as personagens mais estranhas e invulgares, as mais comoventes, as mais perdidas.

Agora, que está reformado, resolveu passar à escrita as histórias dessas personagens. Como quem põe em cena uma peça de teatro, criando um dédalo de espaços que, tendo entre si muitos anos de diferença, se tornam vizinhos de um mesmo palco, de um mesmo respirar, de um mesmo tempo, que é o tempo da palavra, o tempo da narrativa em que todos os tempos e todos os espaços convivem lado a lado.

"Eu não quero ser um reformado a escrever memórias." diz ele com muita convicção, "Quero ser um escritor!"

É fácil entender a diferença. O meu amigo Laborinho quer pegar na matéria da sua tão vasta vida e trabalhá-la na banca da palavra. Não quer contar o que lhe aconteceu. Quer pegar naquilo que lhe aconteceu e amassá-lo na farinha de uma arte maior até se tornar em pura literatura.

Quer ser um sapateiro das palavras. E um sapateiro é sempre um artista. Deve ser um artista. Ou melhor, o artista deve ser um sapateiro. Um cose solas e espera ver os seus sapatos a correr as ruas do m undo. O outro cose palavras e espera vê-las correr os dedos e os olhares e os corações de quem as vai ler.

"O Chamador" é um livro que conta histórias de 23 personagens, todas elas justamente convocadas ao palco da ficção pelo chamador, figura inspirada na paixão de Laborinho pelo teatro e pela extraordinária figura que vem das suas memórias da Nazaré, o velho que, pela noite, ia de porta em porta, a chamar os homens da companha para se juntarem no barco que ia fazer-se ao mar.

A escrita é envolvente, densa, complexa, cheia de ternura e de verdade, mesmo quando a verdade é dura. E tudo caminha como se a escrita envolvesse os tempos idos numa narrativa errática, dando-lhes corpo ou fazendo-os desaparecer, numa espécie de nevoeiro fantástico que os pega nas suas personagens, dando-lhes carne e sangue ou deixando-as como fantásticos fantasmas a caminhar no palco da escrita.


sexta-feira, 25 de abril de 2014

MI BUENOS AIRES QUERIDO



Esta colecção tem sido uma delícia, pela escolha dos títulos e dos autores e pela direcção gráfica. É bom ler estes livros e é bom tê-los na mão. É bom abri-los. E levává-los de um lado para o outro. E é bom marcar a página de leitura com aquela fitinha preta que nos garante que ainda há mais para ler.

Vários são os livros aqui publicados sobre cidades. E várias são as perspectivas de quem os escreve. A poesia de Julien Green sobre Paris, a ironia do olhar Enric González sobre Londres, a Nova Iorque dos bares irlandeses de Brendan Behan, ou a emoção dos muitos caminhos e descaminhos de Alexandra Lucas Coelho no México.

Quando peguei neste "Mi Buenos Aires querido" estava à espera de uma outra Buenos Aires. A verdade é que já sei muito de Buenos Aires, li muitos romances passados em Buenos Aires, ouvi tangos e milongas, mastiguei os mitos, li os poetas, amei as luas de Corto Maltese em Buenos Aires.

Estava à espera de mergulhar mais fundo na própria miscelânea mitológica com que visto o olhar sobre a cidade. Mas há sempre uma nova maneira de olhar para uma cidade. E foi o caso deste Buenos Aires de Ernesto Schoo, jornalista recentemente desaparecido. É outra. É a dele. Foi a dele.

Não é o Buenos Aires dos mitos mas uma outra a cidade dentro da cidade, uma cidade cuidadosamente narrada, que acompanhou o crescimento de um homem desde a infância até à morte. Uma cidade, ou melhor, um cenário que acompanhou uma vida, um cenário que resulta da História, uma construção multifacetada feita por estes europeus exilados que são os argentinos.

A cidade de Ernesto Schoo é uma cidade à beira de um grande rio lamacento, uma cidade física, feita de edifícios e da história dos edifícios, os que existem e os que já não existem. Uma cidade feita de jardins e árvores, de cemitérios e palácios, de teatros e avenidas.

Visitei intensamente esta cidade, ou melhor, esta parte de cidade que apenas inclui os percursos da vida do autor. Visitei-a como quem visita um museu, um espaço que de início me incomodou por estar vazio de pessoas ou emoções, mas em que as emoções acabam por surgir a partir da decoração de um teatro, das construções do jardim zoológico, do barroco em que se desdobra um velho palácio de traçado andaluz.

Conheci neste um outro Buenos Aires que não esperava, mas tão intenso como qualquer outra narrativa porventura mais colorida e emocionante. Conheci este outro Buenos Aires através de uma escrita que me arrebatou e me conduziu por caminhos novos. E que mais se pode desejar de um livro?

terça-feira, 22 de abril de 2014

O Ritual


Uma das mais interessantes experiências artísticas é aquela onde uma forma de expressão artística utiliza métodos e a linguagem duma outra. Refiro-me muito particularmente, ao caso do cinema, quando este recua às suas origens mais directas e utiliza o ritmo e a temporalidade do discurso teatral aquando do tratamento de uma ideia que é primordialmente cinematográfica. Este cruzar de fronteiras é muito mais raro do que o seu inverso, especialmente quando não há como elo de ligação um robusto e carismático texto literário.

Há inúmeros exemplos, algo recentes que são dignos de nota; recordo-me imediatamente de Próspero de Peter Greenway de 1991, Dogville de Lars von Trier de 2003, entre muitos outros. Mas suponho que embora não sendo Ingmar Bergman o encenador que mais frequentemente cultivou este recurso, foi possivelmente o que o fez com maior impacto e eficiência artística. E neste contexto, O Ritual, é talvez o mais paradigmático da sua cinematografia. 

Inserido na retrospectiva do encenador em Fevereiro-Março de 2014 no teatro do Campo Alegre no Porto, este filme notável de 1969, é perfeitamente consistente com a extraordinária sensibilidade artística que associamos ao encenador de Morangos Silvestres, O Sétimo Selo, Lágrimas e Suspiros, Fanny e Alexander para mencionar aqueles filmes que são incontestavelmente considerados obras primas da cinematografia universal. 

Restrito à encenação de quatro actores (o quinto é o próprio encenador que aparece fugazmente numa cena cheia de penumbras e declama umas breves linhas de texto), O Ritual é um filme intenso e sinuoso com uma forte componente onírica e uma linguagem teatral de inspiração clássica. Quase que podemos reconhecer as componentes do discurso poético-teatral descrito na Poética de Aristóteles: mimesis (representação); catharsis (purga e purificação); peripeteia (oposição); anagnorisis (identificação); hamartia (o erro trágico); mythos (enredo); ethos (carácter); dianoia (tema); etc. 

De facto, este magnífico exercício cinematográfico opõe uma trupe de actores, composta por um complexo casal e um terceiro elemento mercurioso, a um inspector conservador incumbido de averiguar a natureza obscena de uma representação do grupo. Aparentemente, a tarefa é extremamente simples, dado o comportamento acintoso e amoral dos actores. A solução ascética duma reprimenda e uma multa parece ser o desenlace lógico, porém Bergman oferece-nos, em vez da racionalidade burocrática, uma inesperada tragédia: o inspector acaba por morrer, vítima de uma paragem cardíaca, consumido pela volúpia propiciada por uma representação privada que lhe é oferecida pela trupe.        

E no microcosmo deste drama exemplar, Bergman opõe, com a maestria da sua inteligência artística, o ideal da arte à banalidade ordem burocrática assim como, a humanidade artística (com as suas  fraquezas e virtudes) à hipocrisia boçal da moral burguesa. 

A conclusão é que O Ritual faz necessariamente parte do grupo das grandes obras de Bergman. 

Orfeu B.


quinta-feira, 10 de abril de 2014

As rugas do envelhecimento

Um livro toma várias formas. “Rugas; Arrugas no original espanhol"
pode denominar-se por BD, novela gráfica, etc. Emílio, um bancário reformado, sofre da doença de Alzheimer e é internado num lar de terceira idade. O tema do envelhecimento (a batalha contra o envelhecimento) é tratado com ternura, evitando o melodrama (mas numa narrativa não isenta de lágrimas) e recorrendo a apontamentos de humor. Infelizmente, conheço bem a realidade dos lares de terceira idade e revejo muitos aspectos neste livro. Os dias marcados pelo dormitar em frente à TV numa existência marcada pela rotina das horas das refeições. As visitas esporádicas das famílias em que se olha frequentemente para o relógio e se disfarçam bocejos, etc.
Há personagens que “reconheço”: a senhora que guarda pacotes de ketchup e de azeite para poder dar ao neto, a única pessoa que a visita - não há muito mais que estas pessoas possam oferecer com a excepção dos eventuais trabalhos feitos em pequenas sessões de terapia ocupacional; a senhora que se senta junto à janela e olha para a paisagem imaginária de uma viagem no expresso do oriente, etc.
O colega de quarto de Emílio, Miguel, é o bem-disposto do lar. Tendo tido uma vida de bon vivant é quem mais activamente tenta combater o tédio e a erosão da rotina. O epílogo destas tentativas consiste em arranjar um descapotável para proporcionar um passeio nocturno com Emílio (ao volante) e a senhora dos pacotes de azeite. A viagem é memorável e retrata bem como a batalha de Miguel contra o tédio é complicada. Alguns apontamentos da senhora dos pacotes: “Podes levantar a capota? Tenho a garganta um bocado irritada e acho que estou com febre. Devo ter apanhado frio”; “Quando virem um bar, paramos. Preciso de água para tomar os meus comprimidos”; “Caraças, só trouxe os remédios da prisão de ventre. Não trouxe nem os do açucar, nem os da circulação, nem os da artrite…”. A viagem tem um epílogo memorável: Miguel chama a tenção de Emílio para o facto dos outros carros lhes fazerem sinais de luzes  e pergunta-lhe se tem os médios ligados. Emílio responde que vai ver...e vai mesmo ver abrindo a porta...felizmente todos sobrevivem!
A degradação do estado de Emílio vai-se acentuando ao longo da narrativa. E Miguel revela-se alguém de muita sensibilidade fazendo o possível e o impossível para disfarçar esse estado. Por exemplo, ele sabe que os médicos fazem perguntas sobre a última refeição e assim escreve a ementa na mão de Emílio. Também faz etiquetas para que Emílio saiba o nome de vários objectos, incluíndo peças de roupa. Tudo para evitar o degredo para o piso de cima, o gueto onde estão as pessoas com Alzheimer mais avançado. Mas a batalha de Miguel é uma batalha de destino previsível - apesar de tudo consegue adiar essa mudança para o degredo. E o livro termina com Miguel a dar as refeições a Emílio a quem a mente e a memória se vão desvanecendo.

Saí encantado desta leitura!

domingo, 6 de abril de 2014

CREIO NAS PALAVRAS TRANSPARENTES



(Desenho de António Ramos Rosa)

Abril é mês de poesia. Já foi Poesia na Rua. Há 40 anos. Agora a poesia já não está na rua. Resiste no coração de alguns.

O meu filho João foi visitar a namorada a Lyon e enviou-me uma mensagem a dizer que, visto de fora, Portugal é neste momento muito pouquinho.

Este pouquinho quer dizer também que o país está entregue a aldrabões e uma parte significativa da população nem reage. São pequeninos, sem alma. Andam todos satisfeitos a ver se lhes calha um Audi na rifa. Uma miséria sem dignidade nem poesia, portanto.

Mas deixemo-nos de queixas e vamos ao livrinho que nos traz aqui.


Leio sempre com grande emoção a poesia de António Ramos Rosa. Porque muita dela me leva ao ponto mais alto e belo do que é a escrita poética.

Foi com particular emoção que li este grande livrinho . Julgo tratar-se do último conjunto de poemas antes de António Ramos Rosa morrer. A morte paira nos versos. Mas não vem desenhada num enredo de sombras e medos. Vem sim iluminada pelo amor à plenitude da vida que a palavra transpira e oferece a quem o lê

Estes poemas soltam em cada passo um fantástico e generosa oferta que o poeta coloca no prato de prata da palavra.

"Creio nas palavras
transparentes
que pertencem ao vento
ao sal
à latitude pura.

(...")

Ler Ramos Rosa exige entrar "num estado semelhante ao transe…” como se referia C.S. Lewis em “A experiência de ler”, à necessária atitude do leitor na relação com muita da poesia moderna.

Esse transe transporta-nos ao júbilo de uma luz dificilmente explicável pelas palavras do nosso pobre dia-a-dia

Suponho que este pequeno grande livro inaugura a recente colecção de poesia Meia Lua da Editora Lua de Marfim, que conta com publicações de Amadeu Baptista, Casimiro de Brito e Graça Pires.

Num tempo de ausência de poesia da vida e dos livros é uma alegria ver um editor que se atira em frente e se põe a semear estrela para o futuro Bem hajas, paulo.


terça-feira, 25 de março de 2014

Mr Malamud, boy, you are good!!!!!

Sou mesmo “distraído”...Sempre associei o prémio PEN/Faulkner para romancistas ao grande William Faulkner (que faz parte da minha tetralogia sulista em conjunto com a Carson MCCullers, a Flannery O'Connor e o Erskine Caldwell).
Adoro a arte de bem escrever um conto e sabia da existência do prémio PEN/Malamud para autores de contos (entre os quais estão alguns dos meus contistas favoritos), mas a “distração” nunca me permitiu associar Malamud a um excelso autor de contos...tudo mudou quando vi este “O Barril Mágico” na livraria (não vou dizer porque seria publicidade encapotada)....
Na capa do livro que estou agora a ler (“A walk on the wild side-vidas perdidas” de Nelson Algren) há uma citação do Hemingway: “Mr. Algren, boy, you are good”.
Fazendo minhas as palavras do Hemingway: “Senhor Bernard Malamud, bolas rapaz, o senhor é mesmo muito, mas mesmo muito, bom!”. Os meus elogios podem ser suspeitos, mas na capa de “O Barril Mágico” encontramos uma citação da Flannery O'Connor (ver acima) espantosa: “Descobri um autor de contos que é melhor em absoluto, inclusive melhor do que eu”. Eu desculpo tudo à Flannery, mesmo esta citação um bocadinho pouco humilde, mas concordo plenamente que o Bernard Malamud é um dos melhores contistas em absoluto (com o Tchekov, a Flannery, o Raymond Carver, etc).
Na badana temos a seguinte informação que nos ajuda bastante a compreender a obra de Malamud:
(...) Filho de emigrantes judeus russos, Malamud cresceu durante os anos da Grande Depressão em Brooklyn, Nova Iorque, onde os seus pais eram proprietários de uma pequena mercearia de bairro. É na sua experiência pessoal neste ambiente fechado e miserável (…) que o escritor se inspirará, para descrever nas suas histórias um mundo feito de mediocridade, de falhanços quotidianos, de incompreensões, de dívidas por saldar – materiais e espirituais -; mas ao mesmo tempo, de momentos de ternura, de profunda ironia, comiseração e melancolia que assaltam a experiência existencial do homem contemporâneo”.
Malamud oferece-nos em cada conto um lugar sentado (num banco daqueles pequeninos; este não é um universo de sofás); é como se nos endereçasse um convite a assistir a uma pequena dramatização de episódios/histórias dos personagens. Somos convidados a partilhar a existência do outro, mas sem nunca nos sentirmos intrusos nas suas pequenas lojas, mercearias, alfaiatarias, quartos, casas.
A galeria de personagens é impressionante: Sobel, o ajudante de sapateiro apaixonado; Kessler, o reformado acossado; Mitka, o escritor falhado; Manischewitz, o alfaiate que tudo perdeu e o “anjo?” Levine; Carl Schneider, o homem à procura de casa em Roma (alguns contos reflectem a estadia do autor em Roma); Rosen, o homem que queria ajudar uma mulher; Tommy Castelli, o lojista ingénuo e de bom coração; Henry Levin, o apaixonado que não quis ser judeu; George Stoyonovich, o rapaz com cem livros por ler. Willy Schegel e a conta por pagar; Fidelman perseguido em Roma pelo “sem abrigo” Susskind; Lieb, o pasteleiro, e o seu amigo Kobotsky; Leo Finkel, o futuro rabino à procura de noiva.
Acabamos o livro e apetece-nos continuar a conviver com estas personagens. Uma alternativa seria ler o livro de novo. Mas, há a Amazon! Aleluia! Encomendei com carácter de urgência (e com envio por serviço ultra-rápido/urgente) as “Complete stories” e pude assim continuar no meu banquinho!


Acredito que o Hemingway terá dito algures e a alguém: ““Mr. Malamud, boy, you are good”.“

quinta-feira, 20 de março de 2014

A ESCRITA ENCANTATÓRIA DE ISABELLE EBERHARDT

É sob o efeito da escrita encantatória de Isabelle Eberhardt (1877-1904) que escrevo estas linhas, embora esteja ciente da dificuldade de transmitir a emoção que as suas “Histórias da Areia” (editadas por Sistema Solar) me provocaram. Isabelle é uma suíça de língua francesa, descendente de russos que se fixaram na região de Genebra. Ela e sua mãe, sedentas de uma liberdade que não encontravam na Europa, partem para Argel, onde fixam residência. Aníbal Fernandes (AF), em prefácio à obra, fornece-nos alguns elementos necessários ao enquadramento da vida e da obra de Isabelle na antiga colónia francesa da Argélia. Vida aventurosa, em que ela se veste com as roupagens de um beduíno, o que lhe permite uma liberdade de movimentos só acessível aos homens. Adquire um nome árabe, domina a língua árabe, converte-se ao islamismo. Gradualmente vai se transformando num ser livre. Livre em todos os aspectos, no amor inclusivamente: quando um homem a atrai, entrega-se total, ardentemente. Apaixonada pelo deserto, percorre-o permanentemente. E, desta peregrinação, nascem muitos dos seus contos, eivados de luz, de cor, de fogo – de poesia. Escrita no feminino, que, na perspectiva europeia, se poderá enquadrar no que ficou conhecido pela designação genérica de movimento modernista (que, em Portugal, teve, em minha opinião, a sua expressão mais alta em Mário de Sá-Carneiro). Do prefácio de Aníbal Fernandes, cito alguns textos de Isabelle, que nos poderão fornecer pistas sobre a sua vida e obra. Assim, ao referir-se à sua vida de vagabundagem, diz: “Uma vez mais a vida beduína fácil, livre, embaladora, tomou conta de mim para me inebriar e amolecer.” E, ao falar da sua posição perante a sociedade, esclarece-nos: “Não sou política nem agente de nenhum partido, pois acho que todos de igual forma se enganam. Sou apenas uma extravagante, uma sonhadora com o desejo de viver longe do mundo, de viver uma vida livre e nómada para contar o que vê e à frente do triste esplendor do Sara conhecer, talvez, o melancólico e enfeitiçado estremecimento.” Aníbal Fernandes acrescenta mais adiante: “Naquela vida agitada existia um escritor incansável, espalhado por diários, por impressões de viagem, pensamentos e histórias. ‘Escrevo porque gosto de progredir na caminhada da criação literária’, deixou registado num dos seus papéis: ‘escrevo como amo, porque talvez seja este o meu destino. É o meu único e verdadeiro consolo’.” E continua Aníbal Fernandes: “(...) morte que nunca a assustou, a benfazeja, a que inspira aos muçulmanos esta saudação: «Faça-te Deus morrer jovem.» Ela própria reconhece-o nesta frase: ‘A morte sempre me surgiu com a forma atraente da sua imensa melancolia.’” Em 1904, com a idade de vinte e sete anos, morre Isabelle Eberhardt, esmagada pelos escombros da sua casa de argila, que se desmoronou durante uma tempestade. Deve-se ao General Lyautey, governador francês da colónia, a salvaguarda dos seus manuscritos, tal era a sua admiração por esta sua opositora, bela, pura, independente. Manuscritos e histórias que publicou em jornais argelinos, constituem o seu espólio, que só muito mais tarde foi valorizado e publicado. A título de exemplo, transcrevo a parte final do conto “O Paraíso das Águas”: “O dia de fogo apagava-se na irradiação da imensa planície e das colinas. Para lá dos sebkha de sal as tamarineiras acenderam-se como grandes velas negras. De novo o mueddine clamava o seu apelo melancólico. O Vagabundo estava agora completamente acordado. Os olhos com pálpebras magoadas e pesadas abriam-se com avidez ao esplendor da noite. De repente uma tristeza infinita desceu-lhe ao coração. Foi invadido por saudades infantis. Estava sozinho, sozinho neste canto da terra marroquina, e sozinho em todo o lado onde tinha vivido, em todo o lado para onde alguma vez fosse. Não tinha pátria, não tinha lar, não tinha família nem sequer amigos. Passara como um estranho e um intruso, despertando apenas a reprovação e o afastamento. Naquela hora sofria longe de todo o auxílio, entre os homens que assistem impassíveis à ruína de tudo que os rodeia e cruzam os braços perante a morte, a doença, dizendo: Mektub. Em nenhum ponto da terra havia um ser humano a pensar nele, a sofrer com o seu sofrimento. O coração do Vagabundo apertou-se terrivelmente, e dos olhos correram-lhe lágrimas. Mas mais lúcido, acalmado, sentiu desprezo pela sua fraqueza e sorriu. Se estava só, não era por tê-lo desejado nas horas conscientes em que o seu pensamento se elevava acima dos sentimentalismos do coração e da carne, de igual modo enfermos? Estar só era estar livre, e a liberdade era a única felicidade acessível à natureza do Vagabundo. Disse então a si próprio que a sua solidão era um bem; e à sua alma desceu uma grande paz melancólica e suave. Um sopro quente levantou-se na direcção do Oeste, um sopro de febre e angústia. A já cansada cabeça do Vagabundo voltou a cair no travesseiro. O seu corpo aniquilava-se num torpor quase voluptuoso. Os seus membros ficavam leves, moles, como se tivesse a pouco e pouco deixado de existir. A noite de Verão escura e estrelada desceu no deserto. O espírito do Vagabundo abandonou o corpo e levantou voo para sempre, rumo aos jardins encantados e às grandes e azulíneas lagoas do Paraíso das Águas. Nota: Este conto é a adaptação de dois textos que Isabelle Eberhardt escreveu sobre a sua própria experiência da febre, aqui transferidos para a personagem do Vagabundo. Na sua primeira versão, a voz do narrador é a do próprio autor. (A.F.)” Com este texto, não pretendo esgotar a beleza, a subtileza, a sensualidade da escrita de Isabelle Eberhardt, mas apenas chamar a atenção para algo que é essencial na sua vida conturbada: a escrita “talvez seja o meu destino. E o meu único verdadeiro consolo.”

domingo, 16 de março de 2014

Zetética


Zetética é a ciência que investiga formas de organizar a informação e usa-la criativamente. Foi sugerida e desenvolvida pelo engenheiro, inventor  e professor de engenharia electrotécnica da Universidade de Illinois, Joseph Tykociner (1877-1969). Tykociner, um judeu polaco que imigrou para os Estados Unidos em 1905, construiu neste país a sua reputação como inventor e tem o seu nome associado à invenção do cinema de animação sonora. Em 1959, Tykociner publicou o seu primeiro escrito sobre zetética e a sua perspectiva era a de criar um processo de investigação da informação que permitisse aumentar o corpo do conhecimento, uma visão extremamente contemporânea e com claras ligações à World Wide Web.

Etimologicamente, o termo zetética tem origem na palavra grega zetetikos, que significa procurar ou inquirir. Na Grécia antiga, os filósofos da escola céptica eram designados por Zetéticos ou investigadores. O pioneiro da álgebra, Francois Viete, usava, em 1590, a palavra para designar as quantidades conhecidas e desconhecidas numa equação. Alguns dicionários referem-se à Zetética, no contexto matemático e filosófico, como o conjunto de preceitos para solucionar um problema ou investigar as causa de alguma coisaHá também derivações algo nocivas do termo que o utilizam para designar cepticismo relativamente ao saber científico, investigação do paranormal e perspectivas heterodoxos da ciência e da filosofia.  

Tykociner, atribui à palavra zetética o sentido de uma metodologia, o método zetético, que consistia no processo de organizar o conhecimento adquirido segundo uma matriz e utiliza-la para obter a informação desejada num dado contexto bibliográfico. Mas para Tykociner, a Zetética era mais que uma ferramenta para bibiotecários, porque permitia a ampliação de horizontes ao arquivar e sistematizar o conhecimento segundo os métodos de investigação que foram utilizados na sua obtenção, os meios de  produção artística, os processos mentais, os factores psicológicos e as condições ambientais de modo a dar origem a novos problemas, estimular a imaginação criativa, guiar o pensamento selectivo, e dar origem a ideias frutíferas e originais. Tal organização incluiria como material factual básico toda a informação concernente à origem das descobertas, invenções, trabalhos de arte, e grandes sistemas filosóficos. Sistematização que teria sempre como objectivo aperfeiçoar os métodos de inquirição, através da expansão do escopo da metodologia científica, e identificar no corpo do conhecimento as lacunas que propiciassem a formulação de novos problemas.  

O opúsculo "Taxiology of the Pictorical Knowledge" que aqui apresentamos, sintetiza as principais ideias de Tykociner contidas no seu "Outline of Zetetics" de 1966. Os editores dizem-nos: "Este volume é a chave que abrirá ao leitor a porta para o mundo encantado do conhecimento. Ao longo das páginas desse volume, o leitor encontrará em palavras e fotografias a fascinante história do nosso progresso, do passado distante, quando os nossos ancestrais fizeram as primeiras descobertas, até os nossos tempos, quando novas maravilhas estão a ser reveladas por meio do trabalho dos nossos cientistas." A obra contem uma quinzena de páginas, onde nos é exposto o principal das ideias de Tykociner, e estas são ilustradas com cerca de duas centenas de fotografias que visam ilustrar os aspectos associativos e metodológicos da Zetética. 

A leitura do breve texto não permitiu, ao autor que agora escreve, atingir um grau de entendimento muito profundo sobre as propostas de Tykociner, porém ele não pode deixar de exprimir o seu deleite relativamente à compilação de fotografias e a riqueza de ideias e associações que elas engendraram.  

Quanto à proposta Zetética, o autor destas linhas tem a sensação de ter sido um zetético desde sempre. 


                                                          
Orfeu B.


sábado, 8 de março de 2014

BIBLIOTECA DE BABEL - LEOPOLDO LUGONES


A Biblioteca de Babel (no original, La biblioteca de Babel) é um conto de Jorge Luis Borges, inserido no livro Ficções ,e fala de uma biblioteca infindável, onde est+á guardada unma infinidade de livros.

O narrador, um dos muitos bibliotecários, supõe que os volumes da biblioteca contêm todas as possibilidades da realidade. Alguns não fazem o menor sentido, ou se fazem é numa língua há muito desconhecida. Outros são meras repetições de uma mesma palavra. Busca-se incessantemente alguém que saiba decifrar as mensagens contidas nos misteriosos volumes e que seria o correspondente a um Deus.

Entre as várias interpretações possíveis do conto de Jorge Luis Borges, uma afirma tratar-se de uma metáfora em que mundo e literatura se confundem. Apollinairee

Ler um texto é tentar decifrá-lo, mas se considerarmos que o próprio mundo está impregnado de linguagem, a própria realidade pode ser considerada como uma grande biblioteca cheia de textos à espera de quem os decifre.

A Biblioteca de Babel pode ser entendida como uma metáfora para a Sociedade da Informação.

Borges, entretantdo, dirigiu uma famosa colecção intitulada "A Biblioteca de Babel" onde publicou uma série de textos e contos fantásticos de autores diversos como Edgar Alan Poe, Papini, Stevenson, Apollinaire, Melville, Chesterton, etc, etc.

Essa colecção já começou a ser editada por duas vezes em português. A primeira pela Vega. A segunda pela Presença

O primeiro dos livros a ser publicado pela Vega foi "Os cavalos de Abdera" de leopoldo Lugones. Há anos que andava por aí à espera que eu lhe pegasse. E zás! Finalmente lá foi. E ainda bem. Como quase todos os textos desta colecção é uma delícia.




Segundo Borges, cada geração de grandes escritores ressuscita a sua própriua genealogia.

Os autores desta colecção são justamente o exemplo disto. Com eles vai Borges construindo a sua genealogia, a sua família de escritors, alguns dos quais menos conhecidos, todos eles movendo a sua escrita no campo do fantástico, do estranho, daquilo a que eventualmente dessa literatura pura que se situa no espaço do espanto, do arrepio, do deslumbre.

Leopoldo Lugones (1874-1938, argentino, pertence a essa família de escritores. A seu espaço é o de uma escrita barroca, de uma beleza inquietante, de um excesso que nos envolve e conduz como se nos atirasse para um precipício sem fundo para onde nos acabamos por nos deixar conduzir fascinados. E se de início as suas histórias são estranhas, ficamos rapidamente presos a esse excesso de linguagem que se espraia num delírio alucinante e envolvente que nos deixa um sabor amargo na boca quando, de súbito, o autor decide terminar a sua histórtia.

Lugones traz-nos literatura para mastigar. Fala de Sodoma e de acontecimentos assustadores, terríveis, apolípticos como a revolta dos cavalos de Abdera, ou conduz-nos de espanmto em espanto fazendo-nos tocar o indízível, o inacreditável, a insuportável maravilha do ledo negro e fantástiuco da realidade.

E depois, a tradução e o prólogo de de Luís Alves da Costa são simplesmente impecáveis.

Caros amigos, não hesitem. Na slivrarias não encontram mas nos alfarrabistas deve ser fácil.