domingo, 6 de julho de 2014
UM GRANDE ESCRITOR HÚNGARO: DEZSŐ KOSZTOLÁNYI
Dezsö Kosztolányi nasceu em 1885 e faleceu em 1936. É um grande poeta e romancista húngaro das primeiras décadas do século XX.
De que eu tenha conhecimento, há apenas uma obra traduzida em Portugal, o romance “Cotovia”, edição da Dom Quixote, em 2006. Tive conhecimento deste escritor e desta obra através de uma antiga entrevista de António Lobo Antunes, que reli há pouco tempo. A edição é muito cuidada e valorizada pela tradução de Ernesto Rodrigues, professor da Faculdade de Letras de Lisboa. “Cotovia” é um romance em que se narra a vida quotidiana de uma família da burguesia média, residente numa pequena cidade da província húngara. A acção passa-se durante uma semana, período em que a filha, filha única de um casal já de certa idade, vai de férias e deixa os pais sózinhos, o que acontece pela primeira vez.
Na verdade, estamos perante um texto brilhante, construído com maestria. Um romance de costumes (no sentido utilizado pela crítica literária francesa), com uma fabulosa caracterização de situações e personagens, em que os sentimentos em geral, e as emoções em particular, são a verdadeira mola impulsionadora da acção que se narra.
Como me iniciei na literatura através de romances do século XIX de autores portugueses (principalmente Camilo Castelo Branco) e franceses (Balzac, Zola), a leitura deste romance não só me foi fácil, como também empolgante, o que talvez não aconteça com as novas gerações de leitores.
A obra está organizada em treze capítulos. Desde o primeiro capítulo, que se sente pairar uma sombra escura sobre esta família aparentemente feliz, constituída pelo pai (Ákos Vajkay – a personagem central), a mulher e a filha Cotovia, assim denominada devido aos seus dotes vocais. A vida rotineira do casal altera-se profundamente quando a filha vai passar uma semana de férias a casa de uns tios. Obrigados a irem fazer as refeições a um restaurante bastante frequentado, os pais acabam por contactarem com antigos amigos e conhecidos e a retomarem hábitos de outros tempos.
Assim, numa noite, Ákos chega a casa de madrugada, embriagado e “explode” com algo que o tem amargurado há anos e anos e que tem a filha como causa:
“... Ákos continuou:
- Pois não seria melhor assim? Também para ela, pobrezinha. E mesmo para nós. Saberás o que ela sofre? Só eu sei, só o meu coração de pai sabe. Assim e assado, é como bichanam permanentemente nas suas costas, dizem mal dela, fazem pouco. E nós, mãe, o que nós já sofremos. Um ano, dois anos, esperámos, tivemos esperanças, o tempo passou. Julgámos que era, simplesmente, fruto do acaso. Dizíamos que tudo havia de terminar bem. Mas é cada vez pior. Será cada vez pior, e pior, ainda.
- Porquê?
- Porquê? – perguntou também Ákos, e disse, numa voz surda: Porque é feia.
Pela primeira vez, era dito. Seguiu-se um silêncio. Um vazio mudo que ressoava em redor.
A mulher pôs-se de pé. Não, nunca ela imaginara tal. Quando falavam da filha, e, por delicadeza, rodeavam a questão, pensava que, um dia, voltariam ao assunto, a sério, que, ponto por ponto, em pormenor, ela e o marido, e talvez alguns parentes, Etelka e Béla, como em conselho de família, debateriam a questão, durante dias, mas não de maneira tão directa, com esta simplicidade brutal. O que Ákos dizia matava, cerce, qualquer argumento, troca de ideias, qualquer solução. Doía-lhe. Revoltava-a esta crueldade, esta sinceridade. O marido ultrajara uma mulher, ultrajara a sua filha.
E como se só isso a fizesse sofrer, ulcerada e irritada, gritou-lhe:
- Não! Não!
- Mas sim, sim! É feia, muito feia! – gritou Ákos, voluptuoso –, feia, e uma pobre velha, tão feia – e fez uma careta horrível, torcendo boca e nariz –, tão feia como eu.
Arrancou-se, a custo, do sofá, para mostrar como era, na verdade, ele, em pessoa, e foi ter com a mulher.
Assim se desafiavam nos olhos os velhos pais de Cotovia, em camisa, descalços, quase nus os dois corpos, de cujos abraços nascera, outrora, a filha. Ambos tremiam de emoção.
- Estás bêbedo – disse a mulher, com desprezo.
- Não estou bêbedo.
- Pecas contra Deus.
- Ainda que fosse coxa – berrou Ákos –, fosse corcunda, ou fosse cega, nem assim era tão feia – e, aqui, desatou a chorar, lágrimas abundantes lavaram-lhe o rosto manchado de cinza, e alma atormentada.
A mulher, entretanto, agigantava-se.
Peço-te – disse, bruscamente, com uma severidade de que não se julgaria ser capaz, com uma inteligência aguda, uma vivacidade no olhar, que, até ali, ninguém ainda lhe vira, ninguém lhe conhecia no meio que frequentava. – Peço-te – e levantou a voz –, proíbo-te de falar assim da minha filha. Ela também é minha filha. Sinto-me na obrigação de defender a minha filha, a tua filha, contra ti. Envergonha-te!
- O quê? – balbuciou Ákos, e fez corpo.
- Não te admito – disse a mulher, e bateu na mesa. – Uma coisa assim, não te admito. Que farsa, disseste antes. Pois olha, isso é que é uma farsa!
Ákos regressava da embriaguez, que parecia dissipar-se.
- Bom, atirou-lhe –, falemos com seriedade... Comigo, também se pode falar com seriedade.
- Hoje, comigo, não é possível falar com seriedade. Regressas de madrugada, deixas a casa de pernas para o ar, distribuis dinheiro pelos cantos, queres incendiar a casa em cima da minha cabeça, falas de tudo e de nada. Antes de mais, é preciso que durmas – e dirigiu-se para a cama.
- Mãe – disse Ákos, retendo-a –, fica um pouco – disse, quase implorando.
A mulher reteve-se-
- O que queres afinal? – impetrou o marido. – Porque choras? Porque gritas? Não te percebo.
Falava com dureza. Fez uma pausa. E, em tom mais doce:
- Está bem, não casa. E depois? Há muitas mulheres que não casam. Tem trinta anos, ainda pode vir alguém. Nunca se sabe. Quando menos se espera. Eu devia abordar os homens na rua, ou colocar um pequeno anúncio nos jornais? Para uma Vajkay. Vamos, peço-te.”
O capítulo (o décimo) termina com a mulher a chamar-lhe a atenção para o amor que existe entre os três, o mais belo dos sentimentos que pode unir os seres humanos.
Os três capítulos finais centram-se na chegada da filha e na retoma das vidas de sempre, talvez agora mais tristes e mais conscientes, mas sem a tensão latente em que tinham vivido (a própria Cotovia, na semana em casa dos tios, tinha tomado consciência do modo como era olhada, tratada).
Mas há um outro aspecto a realçar neste romance: é um belíssimo documento histórico sobre a vida quotidiana de uma pequena cidade húngara e um valioso contributo para o estudo da mentalidade de uma comunidade da Europa Central, nos primeiros anos do século XX.
quarta-feira, 2 de julho de 2014
A ÚLTIMA NOITE EM LISBOA
Sérgio Luís de Carvalho é formado em História e todos os seus romances são construídos em torno da reconstrução cuidadosa de um determinado período que pode ser o tempo medieval, o renascimento, as trincheiras da 1ª Guerra Mundial ou, neste romance, a Lisboa da 2ª Guerra Mundial
Neste romance, situado em 1942, sente-se e vibra-se com a cuidadosa recolha de tudo o que pode dar consistência e rigor histórico à cidade, palco da ficção narrativa que se desenrola no cenário sublinhado por essa memória desenterrada dos relatos da época.
Estamos em Lisboa, cidade pobre, mais que pobre, quase miserável, mas alegrete, fadista, cheia do cheiro das tascas e do chilreio do rapazio a correr por ruas e calçadas, anunciando jornais ou a jogar à bola, imitando os ídolos do Benfica e do Sporting.
Esta Lisboa dos anos 40 está repartida entre os germanófilos cheios de pose bacoca e prosápia ribombante, os anglófilos mais discretos, os anarquistas e comunistas a falar e a protestar às escondidas, e os outros que andam distantes das políticas, os que vão vivendo e mantendo tabus que começam a ser estilhaçados pelos modos dos estrangeiros e estrangeiras que chegam ou passam por aqui.
Esta forte presença de estrangeiros em Portugal tem especial relevância nos judeus, fugidos da barbárie nazi, que aqui estacionam à espera de passagem para as Américas. Judeus ricos, nas esplanadas do Rossio ou nos hotéis do Estoril. E judeus pobres, na bicha para a Cozinha Económica de Israel ali à Travessa do Noronha, onde também acaba por ir pedir a esmola da comida o Cônsul Aristides Sousa Mendes, caído em desgraça junto de Salazar.
A narrativa é lenta e circular. Como lenta e circular é a vida de Lisboa, em torno de uma guerra lá longe que se vive através das notícias da rádio, tomando partido por alemães ou aliados e entremeando a tragédia distante com umas iscas, um copinho de branco, uma fadinho ouvido a Rádio Graça, um filme americano no Éden.
O título anuncia o final da história, ou seja, avisa-nos que chegaremos a uma noite que será a última passada em Lisboa. De quem? Talvez de Charlotte a bela austríaca que mora num rez-do-chão da Travessa do Noronha, ao lado da casa que aluga um quarto a Henrique que trabalha na “Esfera” embora sem grande convicção germanófila.
A acção é intervalada de cartas de um homem, Heinrich, que transcreve de ternura e amor no que escreve a Charlotte, primeiro de um campo de concentração nazi, e que sabemos ter sido libertado e ter conseguido partir para a Guerra Civil de Espanha.
Charlotte começa a fazer-se acompanhar por Henrique nas noites de Lisboa e depois por ele e pela sua namorada Maria Carolina que vai aprendendo com Charlotte outras formas de pensar, de vestir, de amar.
A pouco e pouco vai-se formando um triângulo amoroso em que a sensualidade cresce e se vai afirmando e em que a pequenez portuguesa vai sendo confrontada com outras formas de viver e pensar, até se chegar à última noite em que muitas coisas se revelam e outras tantos ficam por desvendar
É daqueles livros que se com facilidade, mesmo com urgência. E em que a ficção se conjuga bem com a História para nos ajudar a conhecer melhor os passos e os dramas dos que cruzaram as ruas da nossa Lisboa.
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Retrato de Rapaz
“Dirão um dia que não conseguimos, mas cada voo a si mesmo se inventa, e nenhum se repete, partamos pois, meu Filho, para outra viagem, não há bússola que nos comande, nem universo que nos detenha.”
Mário Cláudio
Retrato de Rapaz é uma novela de grande amplitude humana e de uma superior perspicácia psicológica. Uma novela que descreve a relação de Leonardo da Vinci (1452-1519) com um dos seus mais próximos discípulos, Gian Giacomo Caprotti (1480-1524), um espírito diabólico em estado juvenil, conforme percebeu Leonardo quando o alcunhou de Salai. Mas entre o génio e este discípulo improvável, estabeleceu-se uma ligação emocional de grande cumplicidade e intimidade, que atravessou uma parte importante da vida adulta de Leonardo e que se estendeu até a sua morte.
Retrato de Rapaz permite-nos vislumbrar a teia de afectos de Leonardo e resolver um enigma que não deixou de fascinar o próprio Freud, que chegou a afirmar, no seu bem conhecido texto sobre o génio renascentista, que este não tivera qualquer vida sentimental. Em oposição, Mário Cláudio, mostra-nos com uma invulgar riqueza de matizes narrativas e a sua exímia escrita, que muito pelo contrário, a vida emocional e íntima de Leonardo não era desprovida de um centro, e que neste estava solidamente instalado Salai.
O autor destas breves linhas nunca teve dúvidas quanto à capacidade única da arte em nos guiar por entre a riqueza e as subtilezas das emoções in vitro, mas é sempre um prazer renovado ver este “teorema” concretizado na forma de um texto que nos permite contemplar os pigmentos que singularizam cada alma e as paixões que as movem. Retrato de Rapaz propicia-nos o entendimento revelador da faceta pessoal de uma das mais extraordinárias figuras do Renascimento. Só um grande artista tem o dom de descrever com tanta clarividência o lado humano no caudal turbilhonar de uma mente tão criativa como a de Leonardo.
sábado, 21 de junho de 2014
O POETA NO EXÍLIO
O brasileiro Ferreira Gullar (nome literário de José Ribamar Ferreira) é um grande poeta de língua portuguesa da nossa contemporaneidade (veja-se, por exemplo, o seu célebre “Poema Sujo”).
Mas não é da sua poesia que quero falar, hoje, é, sim, do seu livro de memórias do exílio. Obra editada em Portugal com o título “Rabo de Foguete. Os Anos de Exílio”, pela Verbo, em 2010. Uma autêntica epopeia de Ferreira Gullar por múltiplos países: o próprio Brasil, a União Soviética, Chile, Peru, Argentina. Sempre sob a alçada do Partido Comunista, de que fazia parte.
A história começa quando é informado que o seu nome está na lista negra dos generais que haviam instaurado uma ditadura militar no Brasil. Assim, inicia uma fuga, primeiro no Brasil, em casas de familiares, a seguir por vários países, sempre pela mão do Partido Comunista Brasileiro, que lhe prepara a documentação necessária à fuga para Moscovo, onde irá frequentar uma “escola de quadros” para dirigentes e membros de partidos comunistas estrangeiros.
O relato da sua estadia na União Soviética é algo de empolgante: o quotidiano na “escola”; os colegas brasileiros; a sua vida amorosa; o que vê e ouve no contacto com a sociedade russa, tudo é descrito num admirável estilo jornalístico, em que não se critica, nem se elogia, deixando a cada leitor a possibilidade de tirar as suas conclusões. Sempre numa prosa perfeita, inteligente, honesta.
Terminado o curso, é “exportado” para a América do Sul, para o Chile, onde assiste à criação de um clima que leva ao golpe militar do General Pinochet, à morte do Presidente Allende. E ei-lo outra vez em fuga, com uma passagem pelo Peru, seguida da sua fixação na Argentina, onde assiste à revolta dos generais de extrema-direita e à implantação de uma ditadura militar, o que vai originar nova fuga e o regresso ao Brasil, onde, entretanto, a ditadura estava a desmoronar-se.
É desta fuga permanente às baionetas dos militares que a obra colhe título: “Rabo de Foguete”. Fuga que tem consequências graves na sua vida e na da sua família, principalmente para os seus filhos.
E a obra termina de um modo desconcertante:
“Pedi mais tarde ao meu advogado que me obtivesse uma certidão de sentença absolutória do Superior Tribunal Militar para me garantir contra qualquer eventualidade. Ao ler o documento, verifiquei que, embora o processo fosse meu, a pessoa absolvida não era eu: chamava-se José Ribamar Ferreira mas os pais eram outros. Tratava-se de um líder camponês, também maranhense, que havia aderido à luta armada. Assim se explicava a surpresa do oficial do Exército, que invadira a minha casa em 1970, ao saber que eu não era líder camponês mas jornalista. E pensar que havia ficado todos aqueles anos no exílio à espera de uma absolvição que, afinal de contas, revelou-se desnecessária.
Mas não importa. A vida não é o que deveria ter sido e sim o que foi. Cada um de nós é a sua própria história real e imaginária.”
Sem dúvida, a realidade ultrapassa sempre a imaginação, mas quando mete polícia secreta, governos de militares e políticos incompetentes, então, acontece o que de mais imprevisível se possa imaginar...
Quem não ler este livro perde um documento humano essencial ao conhecimento da História do século XX do mundo ocidental.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
UM GOSTO AMARGO NA BOCA
A arte de iniciar a escrita de um livro é diversa. Há escritores que o iniciam com intensa velocidade, de modo a agarrarem-nos pelos ombros e não nos deixam abandonar a leitura até ao fim.
Outros vão devagarinho, levam tempo a chegar ao miolo da noz, ao fundo da questão. Vão de roda, perdem-se em coisas aparentemente secundárias, parecem moles e levam-nos pro vezes a alguma impaciência até que desatem os fios da questão central.
Neste último caso, o leitor tem que ser teimoso, tem de conquistar a narrativa, vencendo a dúvida que o faz recear que aquela lentidão .
Hitchcock criou o célebre “MacGuffin”, o perigo ou bomba relógio que colocava no local para onde queria conduzir o olhar inquieto do espectador, enquanto fazia a acção decorrer noutra margem
Donna Léon começa devagar em mais um destes romances que têm como cenário Veneza, os seus canais, os seus restaurantes, a sua poesia.
Parece não haver motivos para se desconfiar de um crime quando se encontra um aluno da Academia Militar enforcado numa casa de banho.
É claro que desde o início somos conduzidos pela desconfiança do Comissário Brunetti, personagem central de todo o romance, e ficamos com a quase certeza de que se trata de um falso suicídio.
Brunetti pertence à linha de um Maigret, com as devidas diferenças. É um funcionário rendido à sua função, um tanto depressivo, desconfiado dos seus superiores, permanentemente revoltado pela corrupção que parece omni-presente no aparelho de Estado italiano.
O que me começou a pegar à leitura do livro foi a atitude de fortíssima irritação e até preconceito (que viremos a perceber que tem toda a razão de ser) de Brunetti e da sua mulher Paola em relação ao exército italiano e aos seus comportamentos.
De facto, e ao contrário do geral do exército português, tendo atravessado duas guerras mundiais e tendo sido o braço armado do fascismo, o exército italiano é uma casta no mínimo conservadora, que se defende a si própria e que defende ideias cheias de panache e sem qualquer conteúdo.
Lembrei-me do “Amarcord” de Fellini e daquelças marchas ridículas dos militares no tempo do Mussolini
Mas acima de que tudo, o que sobressai é a corrupção capazde cilindrar seja quem for para se proteger, capaz de mentir, de esconder, de matar. É assustador, não muito mais do que o que se passa com os senhores da corrupção na nossa terra.
A história vai ganhando espessura e intensidade a caminho do fim e consegue surpreender-nos, emocionar-nos e deixar-nos um gosto amargo na boca.
quinta-feira, 22 de maio de 2014
A morte de Empedocles
Cuando esté lejos ya os hablarán por mi las flores del cielo, las brillantes estrellas, !si! y brotarán innumerables las flores de la tierra. La naturaleza con su presencia divina no necesita hablar, y una vez que se ha aproximado, ya nunca más vuelve a dejaros solitarios, pues indelebles son sus miradas y vivificante es el fuego celeste que alienta victorioso por todos los tiempos …
Habláis como insensatos a un poder que es más poderoso que vosotros; pero es en vano, y como el astro en su carrera incontenible, camina la vida hacia su perfección. ?No conocéis el lenguaje de los dioses? Yo la percebi al nacer a la vida y contemplarla, aun antes de aprender el lenguaje de los padres.
Hoelderlin
Ao longo da sua vida adulta, o poeta romântico alemão Friedrich Hoelderlin (1779-1843), padeceu de uma precária estabilidade mental, fundamentalmente originada por uma hipersensibilidade acerca da fragilidade da condição humana e pelo desespero da busca do divino. A ausência de um sinal inequívoco de Deus, empurrou-o para a solidão e para a contemplação da Natureza. A crónica inquietação que sempre afligiu o poeta, sugere que nunca tenha sido tocado pela “felicidade do filósofo”, tão característica do pensador de quem era um ávido leitor, Espinoza. Mas na verdade, foi através da leitura do filósofo grego Empedocles, que Hoelderlin abraçou o panteísmo, e pôde assim libertar-se, ainda que nunca completamente, da sua formação de crente e seminarista.
É no contexto do dilema da fé e do fado que aflige o eremita, que o drama teatral “A Morte de Empedocles” se desenrola. E mais marcadamente, na conclusão de que a loucura de se julgar divino, ou acreditar no divino, só pode conduzir ao suicídio.
Mas a iluminação que Hoelderlin encontra na vida do filósofo grego, cujo insaciável interesse pela Natureza e pela filosofia, o conduz à arrogância ou loucura de considerar-se divino, é na verdade mal disfarçada, pois por vezes o seu Empedocles, exprime-se como Jesus Cristo, embora a identificação não seja plena.
E é inevitável que assim o seja, pois o poeta, em oposição ao crente, procura o divino através de “pistas” dispersas na Natureza: nos rios, árvores, jardins, montanhas e vales, nos heróis e na nobreza dos sentimentos, sendo assim também um desterrado do mundo dos homens. Nesta perspectiva, a morte do filósofo que se lança nas entranhas de um vulcão é um gesto subjectivo e portanto opaco no seu significado. Em oposição, a visão evangélica da morte do filho de deus almeja a interpretação universal de um pretenso gesto de sacrifício maior, o que do ponto de vista lógico é absurdo, pois foi orquestrado pelo próprio deus.
Parece-me ser uma especulação interessante supor que as três versões que Hoelderlin apresentou do drama, e sua declarada insatisfação relativamente ao resultado final, têm muito a dever à precariedade da lógica evangélica e a incapacidade do poeta em resolver a questão essencial de identificar ou de separar os dois personagens.
Naturalmente, uma leitura contemporânea deste drama permite-nos encarar esta ambiguidade como uma das suas maiores virtudes. De facto, parece-nos justo afirmar que a ansiedade desesperada que motivava os poetas românticos na busca das verdadeiras respostas é a mesma que move os leitores pós-modernos na busca das verdadeiras perguntas.
Orfeu B.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
BOM DIA SENHOR ESCRITOR
Álvaro Laborinho Lúcio é um homem com um currículo excepcional que inclui a direcção do Centro de Estudos Judiciais, o cargo de Ministro da Justiça e o de Juiz do Supremo Tribunal de Justiça
Figura grande na sua dimensão intelectual, moral e ética, grande senhor da comunicação, homem de inteligência brilhante e viva. E, por fim, devo dizer que o Àlvaro Laborinho Lúcio faz o grande favor de ser meu amigo. Cruzámo-nos muitas vezes nas voltas da vida, em palcos diversos, em defesa da cidadania. Acontece-nos aquele fenómeno que só nas grandes amizades é possível. Um de nós chama pelo outro e o outro responde imediatamente.
A vida do Laborinho está cheia de histórias. Conheceu as personagens mais estranhas e invulgares, as mais comoventes, as mais perdidas.
Agora, que está reformado, resolveu passar à escrita as histórias dessas personagens. Como quem põe em cena uma peça de teatro, criando um dédalo de espaços que, tendo entre si muitos anos de diferença, se tornam vizinhos de um mesmo palco, de um mesmo respirar, de um mesmo tempo, que é o tempo da palavra, o tempo da narrativa em que todos os tempos e todos os espaços convivem lado a lado.
"Eu não quero ser um reformado a escrever memórias." diz ele com muita convicção, "Quero ser um escritor!"
É fácil entender a diferença. O meu amigo Laborinho quer pegar na matéria da sua tão vasta vida e trabalhá-la na banca da palavra. Não quer contar o que lhe aconteceu. Quer pegar naquilo que lhe aconteceu e amassá-lo na farinha de uma arte maior até se tornar em pura literatura.
Quer ser um sapateiro das palavras. E um sapateiro é sempre um artista. Deve ser um artista. Ou melhor, o artista deve ser um sapateiro. Um cose solas e espera ver os seus sapatos a correr as ruas do m undo. O outro cose palavras e espera vê-las correr os dedos e os olhares e os corações de quem as vai ler.
"O Chamador" é um livro que conta histórias de 23 personagens, todas elas justamente convocadas ao palco da ficção pelo chamador, figura inspirada na paixão de Laborinho pelo teatro e pela extraordinária figura que vem das suas memórias da Nazaré, o velho que, pela noite, ia de porta em porta, a chamar os homens da companha para se juntarem no barco que ia fazer-se ao mar.
A escrita é envolvente, densa, complexa, cheia de ternura e de verdade, mesmo quando a verdade é dura. E tudo caminha como se a escrita envolvesse os tempos idos numa narrativa errática, dando-lhes corpo ou fazendo-os desaparecer, numa espécie de nevoeiro fantástico que os pega nas suas personagens, dando-lhes carne e sangue ou deixando-as como fantásticos fantasmas a caminhar no palco da escrita.
sexta-feira, 25 de abril de 2014
MI BUENOS AIRES QUERIDO
Esta colecção tem sido uma delícia, pela escolha dos títulos e dos autores e pela direcção gráfica. É bom ler estes livros e é bom tê-los na mão. É bom abri-los. E levává-los de um lado para o outro. E é bom marcar a página de leitura com aquela fitinha preta que nos garante que ainda há mais para ler.
Vários são os livros aqui publicados sobre cidades. E várias são as perspectivas de quem os escreve. A poesia de Julien Green sobre Paris, a ironia do olhar Enric González sobre Londres, a Nova Iorque dos bares irlandeses de Brendan Behan, ou a emoção dos muitos caminhos e descaminhos de Alexandra Lucas Coelho no México.
Quando peguei neste "Mi Buenos Aires querido" estava à espera de uma outra Buenos Aires. A verdade é que já sei muito de Buenos Aires, li muitos romances passados em Buenos Aires, ouvi tangos e milongas, mastiguei os mitos, li os poetas, amei as luas de Corto Maltese em Buenos Aires.
Estava à espera de mergulhar mais fundo na própria miscelânea mitológica com que visto o olhar sobre a cidade. Mas há sempre uma nova maneira de olhar para uma cidade. E foi o caso deste Buenos Aires de Ernesto Schoo, jornalista recentemente desaparecido. É outra. É a dele. Foi a dele.
Não é o Buenos Aires dos mitos mas uma outra a cidade dentro da cidade, uma cidade cuidadosamente narrada, que acompanhou o crescimento de um homem desde a infância até à morte. Uma cidade, ou melhor, um cenário que acompanhou uma vida, um cenário que resulta da História, uma construção multifacetada feita por estes europeus exilados que são os argentinos.
A cidade de Ernesto Schoo é uma cidade à beira de um grande rio lamacento, uma cidade física, feita de edifícios e da história dos edifícios, os que existem e os que já não existem. Uma cidade feita de jardins e árvores, de cemitérios e palácios, de teatros e avenidas.
Visitei intensamente esta cidade, ou melhor, esta parte de cidade que apenas inclui os percursos da vida do autor. Visitei-a como quem visita um museu, um espaço que de início me incomodou por estar vazio de pessoas ou emoções, mas em que as emoções acabam por surgir a partir da decoração de um teatro, das construções do jardim zoológico, do barroco em que se desdobra um velho palácio de traçado andaluz.
Conheci neste um outro Buenos Aires que não esperava, mas tão intenso como qualquer outra narrativa porventura mais colorida e emocionante. Conheci este outro Buenos Aires através de uma escrita que me arrebatou e me conduziu por caminhos novos. E que mais se pode desejar de um livro?
terça-feira, 22 de abril de 2014
O Ritual
Uma das mais interessantes experiências artísticas é aquela onde uma forma de expressão artística utiliza métodos e a linguagem duma outra. Refiro-me muito particularmente, ao caso do cinema, quando este recua às suas origens mais directas e utiliza o ritmo e a temporalidade do discurso teatral aquando do tratamento de uma ideia que é primordialmente cinematográfica. Este cruzar de fronteiras é muito mais raro do que o seu inverso, especialmente quando não há como elo de ligação um robusto e carismático texto literário.
Há inúmeros exemplos, algo recentes que são dignos de nota; recordo-me imediatamente de Próspero de Peter Greenway de 1991, Dogville de Lars von Trier de 2003, entre muitos outros. Mas suponho que embora não sendo Ingmar Bergman o encenador que mais frequentemente cultivou este recurso, foi possivelmente o que o fez com maior impacto e eficiência artística. E neste contexto, O Ritual, é talvez o mais paradigmático da sua cinematografia.
Inserido na retrospectiva do encenador em Fevereiro-Março de 2014 no teatro do Campo Alegre no Porto, este filme notável de 1969, é perfeitamente consistente com a extraordinária sensibilidade artística que associamos ao encenador de Morangos Silvestres, O Sétimo Selo, Lágrimas e Suspiros, Fanny e Alexander para mencionar aqueles filmes que são incontestavelmente considerados obras primas da cinematografia universal.
Restrito à encenação de quatro actores (o quinto é o próprio encenador que aparece fugazmente numa cena cheia de penumbras e declama umas breves linhas de texto), O Ritual é um filme intenso e sinuoso com uma forte componente onírica e uma linguagem teatral de inspiração clássica. Quase que podemos reconhecer as componentes do discurso poético-teatral descrito na Poética de Aristóteles: mimesis (representação); catharsis (purga e purificação); peripeteia (oposição); anagnorisis (identificação); hamartia (o erro trágico); mythos (enredo); ethos (carácter); dianoia (tema); etc.
De facto, este magnífico exercício cinematográfico opõe uma trupe de actores, composta por um complexo casal e um terceiro elemento mercurioso, a um inspector conservador incumbido de averiguar a natureza obscena de uma representação do grupo. Aparentemente, a tarefa é extremamente simples, dado o comportamento acintoso e amoral dos actores. A solução ascética duma reprimenda e uma multa parece ser o desenlace lógico, porém Bergman oferece-nos, em vez da racionalidade burocrática, uma inesperada tragédia: o inspector acaba por morrer, vítima de uma paragem cardíaca, consumido pela volúpia propiciada por uma representação privada que lhe é oferecida pela trupe.
E no microcosmo deste drama exemplar, Bergman opõe, com a maestria da sua inteligência artística, o ideal da arte à banalidade ordem burocrática assim como, a humanidade artística (com as suas fraquezas e virtudes) à hipocrisia boçal da moral burguesa.
A conclusão é que O Ritual faz necessariamente parte do grupo das grandes obras de Bergman.
Orfeu B.
quinta-feira, 10 de abril de 2014
As rugas do envelhecimento
Um livro toma várias formas. “Rugas; Arrugas no original espanhol"
pode denominar-se por
BD, novela gráfica, etc. Emílio, um bancário reformado, sofre da doença de
Alzheimer e é internado num lar de terceira idade. O tema do envelhecimento (a
batalha contra o envelhecimento) é tratado com ternura, evitando o melodrama
(mas numa narrativa não isenta de lágrimas) e recorrendo a apontamentos de
humor. Infelizmente, conheço bem a realidade dos lares de terceira idade e
revejo muitos aspectos neste livro. Os dias marcados pelo dormitar em frente à
TV numa existência marcada pela rotina das horas das refeições. As visitas
esporádicas das famílias em que se olha frequentemente para o relógio e se
disfarçam bocejos, etc.
Há personagens que “reconheço”: a senhora que guarda pacotes
de ketchup e de azeite para poder dar ao neto, a única pessoa que a visita -
não há muito mais que estas pessoas possam oferecer com a excepção dos
eventuais trabalhos feitos em pequenas sessões de terapia ocupacional; a
senhora que se senta junto à janela e olha para a paisagem imaginária de uma
viagem no expresso do oriente, etc.
O colega de quarto de Emílio, Miguel, é o bem-disposto do
lar. Tendo tido uma vida de bon vivant é quem mais activamente tenta combater o
tédio e a erosão da rotina. O epílogo destas tentativas consiste em arranjar um
descapotável para proporcionar um passeio nocturno com Emílio (ao volante) e a
senhora dos pacotes de azeite. A viagem é memorável e retrata bem como a
batalha de Miguel contra o tédio é complicada. Alguns apontamentos da senhora dos
pacotes: “Podes levantar a capota? Tenho a garganta um bocado irritada e acho
que estou com febre. Devo ter apanhado frio”; “Quando virem um bar, paramos.
Preciso de água para tomar os meus comprimidos”; “Caraças, só trouxe os
remédios da prisão de ventre. Não trouxe nem os do açucar, nem os da
circulação, nem os da artrite…”. A viagem tem um epílogo memorável: Miguel
chama a tenção de Emílio para o facto dos outros carros lhes fazerem sinais de
luzes e pergunta-lhe se tem os médios
ligados. Emílio responde que vai ver...e vai mesmo ver abrindo a
porta...felizmente todos sobrevivem!
A degradação do estado de Emílio vai-se acentuando ao longo
da narrativa. E Miguel revela-se alguém de muita sensibilidade fazendo o
possível e o impossível para disfarçar esse estado. Por exemplo, ele sabe que
os médicos fazem perguntas sobre a última refeição e assim escreve a ementa na
mão de Emílio. Também faz etiquetas para que Emílio saiba o nome de vários
objectos, incluíndo peças de roupa. Tudo para evitar o degredo para o piso de
cima, o gueto onde estão as pessoas com Alzheimer mais avançado. Mas a batalha
de Miguel é uma batalha de destino previsível - apesar de tudo consegue adiar
essa mudança para o degredo. E o livro termina com Miguel a dar as refeições a
Emílio a quem a mente e a memória se vão desvanecendo.
Saí encantado desta leitura!
domingo, 6 de abril de 2014
CREIO NAS PALAVRAS TRANSPARENTES
(Desenho de António Ramos Rosa)
Abril é mês de poesia. Já foi Poesia na Rua. Há 40 anos. Agora a poesia já não está na rua. Resiste no coração de alguns.
O meu filho João foi visitar a namorada a Lyon e enviou-me uma mensagem a dizer que, visto de fora, Portugal é neste momento muito pouquinho.
Este pouquinho quer dizer também que o país está entregue a aldrabões e uma parte significativa da população nem reage. São pequeninos, sem alma. Andam todos satisfeitos a ver se lhes calha um Audi na rifa. Uma miséria sem dignidade nem poesia, portanto.
Mas deixemo-nos de queixas e vamos ao livrinho que nos traz aqui.
Leio sempre com grande emoção a poesia de António Ramos Rosa. Porque muita dela me leva ao ponto mais alto e belo do que é a escrita poética.
Foi com particular emoção que li este grande livrinho . Julgo tratar-se do último conjunto de poemas antes de António Ramos Rosa morrer. A morte paira nos versos. Mas não vem desenhada num enredo de sombras e medos. Vem sim iluminada pelo amor à plenitude da vida que a palavra transpira e oferece a quem o lê
Estes poemas soltam em cada passo um fantástico e generosa oferta que o poeta coloca no prato de prata da palavra.
"Creio nas palavras
transparentes
que pertencem ao vento
ao sal
à latitude pura.
(...")
Ler Ramos Rosa exige entrar "num estado semelhante ao transe…” como se referia C.S. Lewis em “A experiência de ler”, à necessária atitude do leitor na relação com muita da poesia moderna.
Esse transe transporta-nos ao júbilo de uma luz dificilmente explicável pelas palavras do nosso pobre dia-a-dia
Suponho que este pequeno grande livro inaugura a recente colecção de poesia Meia Lua da Editora Lua de Marfim, que conta com publicações de Amadeu Baptista, Casimiro de Brito e Graça Pires.
Num tempo de ausência de poesia da vida e dos livros é uma alegria ver um editor que se atira em frente e se põe a semear estrela para o futuro Bem hajas, paulo.
terça-feira, 25 de março de 2014
Mr Malamud, boy, you are good!!!!!
Sou mesmo “distraído”...Sempre associei o prémio PEN/Faulkner para romancistas ao grande William Faulkner (que faz parte da minha tetralogia sulista em conjunto com a Carson MCCullers, a Flannery O'Connor e o Erskine Caldwell).
Adoro a arte de bem escrever um conto e sabia da existência do prémio PEN/Malamud para autores de contos (entre os quais estão alguns dos meus contistas favoritos), mas a “distração” nunca me permitiu associar Malamud a um excelso autor de contos...tudo mudou quando vi este “O Barril Mágico” na livraria (não vou dizer porque seria publicidade encapotada)....
Na capa do livro que estou agora a ler (“A walk on the wild side-vidas perdidas” de Nelson Algren) há uma citação do Hemingway: “Mr. Algren, boy, you are good”.
Fazendo minhas as palavras do Hemingway: “Senhor Bernard Malamud, bolas rapaz, o senhor é mesmo muito, mas mesmo muito, bom!”. Os meus elogios podem ser suspeitos, mas na capa de “O Barril Mágico” encontramos uma citação da Flannery O'Connor (ver acima) espantosa: “Descobri um autor de contos que é melhor em absoluto, inclusive melhor do que eu”. Eu desculpo tudo à Flannery, mesmo esta citação um bocadinho pouco humilde, mas concordo plenamente que o Bernard Malamud é um dos melhores contistas em absoluto (com o Tchekov, a Flannery, o Raymond Carver, etc).
Na badana temos a seguinte informação que nos ajuda bastante a compreender a obra de Malamud:
“(...) Filho de emigrantes judeus russos, Malamud cresceu durante os anos da Grande Depressão em Brooklyn, Nova Iorque, onde os seus pais eram proprietários de uma pequena mercearia de bairro. É na sua experiência pessoal neste ambiente fechado e miserável (…) que o escritor se inspirará, para descrever nas suas histórias um mundo feito de mediocridade, de falhanços quotidianos, de incompreensões, de dívidas por saldar – materiais e espirituais -; mas ao mesmo tempo, de momentos de ternura, de profunda ironia, comiseração e melancolia que assaltam a experiência existencial do homem contemporâneo”.
Malamud oferece-nos em cada conto um lugar sentado (num banco daqueles pequeninos; este não é um universo de sofás); é como se nos endereçasse um convite a assistir a uma pequena dramatização de episódios/histórias dos personagens. Somos convidados a partilhar a existência do outro, mas sem nunca nos sentirmos intrusos nas suas pequenas lojas, mercearias, alfaiatarias, quartos, casas.
A galeria de personagens é impressionante: Sobel, o ajudante de sapateiro apaixonado; Kessler, o reformado acossado; Mitka, o escritor falhado; Manischewitz, o alfaiate que tudo perdeu e o “anjo?” Levine; Carl Schneider, o homem à procura de casa em Roma (alguns contos reflectem a estadia do autor em Roma); Rosen, o homem que queria ajudar uma mulher; Tommy Castelli, o lojista ingénuo e de bom coração; Henry Levin, o apaixonado que não quis ser judeu; George Stoyonovich, o rapaz com cem livros por ler. Willy Schegel e a conta por pagar; Fidelman perseguido em Roma pelo “sem abrigo” Susskind; Lieb, o pasteleiro, e o seu amigo Kobotsky; Leo Finkel, o futuro rabino à procura de noiva.
Acabamos o livro e apetece-nos continuar a conviver com estas personagens. Uma alternativa seria ler o livro de novo. Mas, há a Amazon! Aleluia! Encomendei com carácter de urgência (e com envio por serviço ultra-rápido/urgente) as “Complete stories” e pude assim continuar no meu banquinho!
Acredito que o Hemingway terá dito algures e a alguém: ““Mr. Malamud, boy, you are good”.“
quinta-feira, 20 de março de 2014
A ESCRITA ENCANTATÓRIA DE ISABELLE EBERHARDT
É sob o efeito da escrita encantatória de Isabelle Eberhardt (1877-1904) que escrevo estas linhas, embora esteja ciente da dificuldade de transmitir a emoção que as suas “Histórias da Areia” (editadas por Sistema Solar) me provocaram. Isabelle é uma suíça de língua francesa, descendente de russos que se fixaram na região de Genebra. Ela e sua mãe, sedentas de uma liberdade que não encontravam na Europa, partem para Argel, onde fixam residência. Aníbal Fernandes (AF), em prefácio à obra, fornece-nos alguns elementos necessários ao enquadramento da vida e da obra de Isabelle na antiga colónia francesa da Argélia. Vida aventurosa, em que ela se veste com as roupagens de um beduíno, o que lhe permite uma liberdade de movimentos só acessível aos homens. Adquire um nome árabe, domina a língua árabe, converte-se ao islamismo. Gradualmente vai se transformando num ser livre. Livre em todos os aspectos, no amor inclusivamente: quando um homem a atrai, entrega-se total, ardentemente. Apaixonada pelo deserto, percorre-o permanentemente. E, desta peregrinação, nascem muitos dos seus contos, eivados de luz, de cor, de fogo – de poesia. Escrita no feminino, que, na perspectiva europeia, se poderá enquadrar no que ficou conhecido pela designação genérica de movimento modernista (que, em Portugal, teve, em minha opinião, a sua expressão mais alta em Mário de Sá-Carneiro). Do prefácio de Aníbal Fernandes, cito alguns textos de Isabelle, que nos poderão fornecer pistas sobre a sua vida e obra. Assim, ao referir-se à sua vida de vagabundagem, diz: “Uma vez mais a vida beduína fácil, livre, embaladora, tomou conta de mim para me inebriar e amolecer.” E, ao falar da sua posição perante a sociedade, esclarece-nos: “Não sou política nem agente de nenhum partido, pois acho que todos de igual forma se enganam. Sou apenas uma extravagante, uma sonhadora com o desejo de viver longe do mundo, de viver uma vida livre e nómada para contar o que vê e à frente do triste esplendor do Sara conhecer, talvez, o melancólico e enfeitiçado estremecimento.” Aníbal Fernandes acrescenta mais adiante: “Naquela vida agitada existia um escritor incansável, espalhado por diários, por impressões de viagem, pensamentos e histórias. ‘Escrevo porque gosto de progredir na caminhada da criação literária’, deixou registado num dos seus papéis: ‘escrevo como amo, porque talvez seja este o meu destino. É o meu único e verdadeiro consolo’.” E continua Aníbal Fernandes: “(...) morte que nunca a assustou, a benfazeja, a que inspira aos muçulmanos esta saudação: «Faça-te Deus morrer jovem.» Ela própria reconhece-o nesta frase: ‘A morte sempre me surgiu com a forma atraente da sua imensa melancolia.’” Em 1904, com a idade de vinte e sete anos, morre Isabelle Eberhardt, esmagada pelos escombros da sua casa de argila, que se desmoronou durante uma tempestade. Deve-se ao General Lyautey, governador francês da colónia, a salvaguarda dos seus manuscritos, tal era a sua admiração por esta sua opositora, bela, pura, independente. Manuscritos e histórias que publicou em jornais argelinos, constituem o seu espólio, que só muito mais tarde foi valorizado e publicado. A título de exemplo, transcrevo a parte final do conto “O Paraíso das Águas”: “O dia de fogo apagava-se na irradiação da imensa planície e das colinas. Para lá dos sebkha de sal as tamarineiras acenderam-se como grandes velas negras. De novo o mueddine clamava o seu apelo melancólico. O Vagabundo estava agora completamente acordado. Os olhos com pálpebras magoadas e pesadas abriam-se com avidez ao esplendor da noite. De repente uma tristeza infinita desceu-lhe ao coração. Foi invadido por saudades infantis. Estava sozinho, sozinho neste canto da terra marroquina, e sozinho em todo o lado onde tinha vivido, em todo o lado para onde alguma vez fosse. Não tinha pátria, não tinha lar, não tinha família nem sequer amigos. Passara como um estranho e um intruso, despertando apenas a reprovação e o afastamento. Naquela hora sofria longe de todo o auxílio, entre os homens que assistem impassíveis à ruína de tudo que os rodeia e cruzam os braços perante a morte, a doença, dizendo: Mektub. Em nenhum ponto da terra havia um ser humano a pensar nele, a sofrer com o seu sofrimento. O coração do Vagabundo apertou-se terrivelmente, e dos olhos correram-lhe lágrimas. Mas mais lúcido, acalmado, sentiu desprezo pela sua fraqueza e sorriu. Se estava só, não era por tê-lo desejado nas horas conscientes em que o seu pensamento se elevava acima dos sentimentalismos do coração e da carne, de igual modo enfermos? Estar só era estar livre, e a liberdade era a única felicidade acessível à natureza do Vagabundo. Disse então a si próprio que a sua solidão era um bem; e à sua alma desceu uma grande paz melancólica e suave. Um sopro quente levantou-se na direcção do Oeste, um sopro de febre e angústia. A já cansada cabeça do Vagabundo voltou a cair no travesseiro. O seu corpo aniquilava-se num torpor quase voluptuoso. Os seus membros ficavam leves, moles, como se tivesse a pouco e pouco deixado de existir. A noite de Verão escura e estrelada desceu no deserto. O espírito do Vagabundo abandonou o corpo e levantou voo para sempre, rumo aos jardins encantados e às grandes e azulíneas lagoas do Paraíso das Águas. Nota: Este conto é a adaptação de dois textos que Isabelle Eberhardt escreveu sobre a sua própria experiência da febre, aqui transferidos para a personagem do Vagabundo. Na sua primeira versão, a voz do narrador é a do próprio autor. (A.F.)” Com este texto, não pretendo esgotar a beleza, a subtileza, a sensualidade da escrita de Isabelle Eberhardt, mas apenas chamar a atenção para algo que é essencial na sua vida conturbada: a escrita “talvez seja o meu destino. E o meu único verdadeiro consolo.”
domingo, 16 de março de 2014
Zetética
Zetética é a ciência que investiga formas de organizar a informação e usa-la criativamente. Foi sugerida e desenvolvida pelo engenheiro, inventor e professor de engenharia electrotécnica da Universidade de Illinois, Joseph Tykociner (1877-1969). Tykociner, um judeu polaco que imigrou para os Estados Unidos em 1905, construiu neste país a sua reputação como inventor e tem o seu nome associado à invenção do cinema de animação sonora. Em 1959, Tykociner publicou o seu primeiro escrito sobre zetética e a sua perspectiva era a de criar um processo de investigação da informação que permitisse aumentar o corpo do conhecimento, uma visão extremamente contemporânea e com claras ligações à World Wide Web.
Etimologicamente, o termo zetética tem origem na palavra grega zetetikos, que significa procurar ou inquirir. Na Grécia antiga, os filósofos da escola céptica eram designados por Zetéticos ou investigadores. O pioneiro da álgebra, Francois Viete, usava, em 1590, a palavra para designar as quantidades conhecidas e desconhecidas numa equação. Alguns dicionários referem-se à Zetética, no contexto matemático e filosófico, como o conjunto de preceitos para solucionar um problema ou investigar as causa de alguma coisa. Há também derivações algo nocivas do termo que o utilizam para designar cepticismo relativamente ao saber científico, investigação do paranormal e perspectivas heterodoxos da ciência e da filosofia.
Tykociner, atribui à palavra zetética o sentido de uma metodologia, o método zetético, que consistia no processo de organizar o conhecimento adquirido segundo uma matriz e utiliza-la para obter a informação desejada num dado contexto bibliográfico. Mas para Tykociner, a Zetética era mais que uma ferramenta para bibiotecários, porque permitia a ampliação de horizontes ao arquivar e sistematizar o conhecimento segundo os métodos de investigação que foram utilizados na sua obtenção, os meios de produção artística, os processos mentais, os factores psicológicos e as condições ambientais de modo a dar origem a novos problemas, estimular a imaginação criativa, guiar o pensamento selectivo, e dar origem a ideias frutíferas e originais. Tal organização incluiria como material factual básico toda a informação concernente à origem das descobertas, invenções, trabalhos de arte, e grandes sistemas filosóficos. Sistematização que teria sempre como objectivo aperfeiçoar os métodos de inquirição, através da expansão do escopo da metodologia científica, e identificar no corpo do conhecimento as lacunas que propiciassem a formulação de novos problemas.
O opúsculo "Taxiology of the Pictorical Knowledge" que aqui apresentamos, sintetiza as principais ideias de Tykociner contidas no seu "Outline of Zetetics" de 1966. Os editores dizem-nos: "Este volume é a chave que abrirá ao leitor a porta para o mundo encantado do conhecimento. Ao longo das páginas desse volume, o leitor encontrará em palavras e fotografias a fascinante história do nosso progresso, do passado distante, quando os nossos ancestrais fizeram as primeiras descobertas, até os nossos tempos, quando novas maravilhas estão a ser reveladas por meio do trabalho dos nossos cientistas." A obra contem uma quinzena de páginas, onde nos é exposto o principal das ideias de Tykociner, e estas são ilustradas com cerca de duas centenas de fotografias que visam ilustrar os aspectos associativos e metodológicos da Zetética.
A leitura do breve texto não permitiu, ao autor que agora escreve, atingir um grau de entendimento muito profundo sobre as propostas de Tykociner, porém ele não pode deixar de exprimir o seu deleite relativamente à compilação de fotografias e a riqueza de ideias e associações que elas engendraram.
Quanto à proposta Zetética, o autor destas linhas tem a sensação de ter sido um zetético desde sempre.
sábado, 8 de março de 2014
BIBLIOTECA DE BABEL - LEOPOLDO LUGONES
A Biblioteca de Babel (no original, La biblioteca de Babel) é um conto de Jorge Luis Borges, inserido no livro Ficções ,e fala de uma biblioteca infindável, onde est+á guardada unma infinidade de livros.
O narrador, um dos muitos bibliotecários, supõe que os volumes da biblioteca contêm todas as possibilidades da realidade. Alguns não fazem o menor sentido, ou se fazem é numa língua há muito desconhecida. Outros são meras repetições de uma mesma palavra. Busca-se incessantemente alguém que saiba decifrar as mensagens contidas nos misteriosos volumes e que seria o correspondente a um Deus.
Entre as várias interpretações possíveis do conto de Jorge Luis Borges, uma afirma tratar-se de uma metáfora em que mundo e literatura se confundem. Apollinairee
Ler um texto é tentar decifrá-lo, mas se considerarmos que o próprio mundo está impregnado de linguagem, a própria realidade pode ser considerada como uma grande biblioteca cheia de textos à espera de quem os decifre.
A Biblioteca de Babel pode ser entendida como uma metáfora para a Sociedade da Informação.
Borges, entretantdo, dirigiu uma famosa colecção intitulada "A Biblioteca de Babel" onde publicou uma série de textos e contos fantásticos de autores diversos como Edgar Alan Poe, Papini, Stevenson, Apollinaire, Melville, Chesterton, etc, etc.
Essa colecção já começou a ser editada por duas vezes em português. A primeira pela Vega. A segunda pela Presença
O primeiro dos livros a ser publicado pela Vega foi "Os cavalos de Abdera" de leopoldo Lugones. Há anos que andava por aí à espera que eu lhe pegasse. E zás! Finalmente lá foi. E ainda bem. Como quase todos os textos desta colecção é uma delícia.
Segundo Borges, cada geração de grandes escritores ressuscita a sua própriua genealogia.
Os autores desta colecção são justamente o exemplo disto. Com eles vai Borges construindo a sua genealogia, a sua família de escritors, alguns dos quais menos conhecidos, todos eles movendo a sua escrita no campo do fantástico, do estranho, daquilo a que eventualmente dessa literatura pura que se situa no espaço do espanto, do arrepio, do deslumbre.
Leopoldo Lugones (1874-1938, argentino, pertence a essa família de escritores. A seu espaço é o de uma escrita barroca, de uma beleza inquietante, de um excesso que nos envolve e conduz como se nos atirasse para um precipício sem fundo para onde nos acabamos por nos deixar conduzir fascinados. E se de início as suas histórias são estranhas, ficamos rapidamente presos a esse excesso de linguagem que se espraia num delírio alucinante e envolvente que nos deixa um sabor amargo na boca quando, de súbito, o autor decide terminar a sua histórtia.
Lugones traz-nos literatura para mastigar. Fala de Sodoma e de acontecimentos assustadores, terríveis, apolípticos como a revolta dos cavalos de Abdera, ou conduz-nos de espanmto em espanto fazendo-nos tocar o indízível, o inacreditável, a insuportável maravilha do ledo negro e fantástiuco da realidade.
E depois, a tradução e o prólogo de de Luís Alves da Costa são simplesmente impecáveis.
Caros amigos, não hesitem. Na slivrarias não encontram mas nos alfarrabistas deve ser fácil.
domingo, 16 de fevereiro de 2014
O TÁXI DA CULTURA POPULAR
Circula pela ruas de Lisboa um táxi que tem escrito nas portas um conjunto de informações de quem o conduz. Começa pelo título, em letras grandes, “CULTURA POPULAR”, logo seguido de dados sobre o condutor, autor de livros, ali em venda.
E assim aconteceu, depois de me ter informado que era de Folgosinho, aldeia beirã, falou-me da cultura popular e da sua importância na cultura de um país. A que se seguiu um relato da sua vida e o modo como a relata em verso, no seu livro “Memórias do Trovador”, de que me mostrou um exemplar, que me vendia por dez euros. Mas que também tinha um outro, “Trovas dos Montes Hermínios”, que também tinha ali à mão. Os dois juntos valiam quinze euros – “mal dá para a impressão”. Enfim, uma técnica perfeita de vendedor experimentado. Como lhe pareceu que eu hesitava, acrescentou: “Os professores catedráticos da universidade são os primeiros a comprar; ainda aqui há dias transportei o professor Mariano Gago, aquele que foi ministro, que me disse que a cultura popular deve ser protegida”. Espantosamente, enquanto falava e me mostrava os seus livros, conduzia com uma segurança a toda a prova. Quando lhe comprei os dois livros, à porta da minha casa, tirou da bolsa lateral do “Mercedes” um saco em plástico com as suas obras.
Perguntou-me como me chamava e fez uma dedicatória: “Para o casal Estrela com toda a dedicação do Mundo. O autor António Sequeira Tente”.
Do seu livro “Trovas dos Montes Hermínios” transcrevo alguns dos seus versos. O poema “Fontes da minha inspiração” inicia-se com a seguinte epígrafe:
“Um poeta fingidor
dá valor ao que interpreta,
e eu por não ter valor
sou fingidor de poeta...”
Seguem-se as quadras:
“Ó fonte que me sorris,
Mesmo que te chamem louca;
Até te sentes feliz
Por andares de boca em boca.
Na fonte do teu jardim,
Bebi água fiquei louco,
Contigo junto de mim
Deliro por muito pouco.”
Noutro livro, “Memórias do Trovador”, o poeta inicia o poema “Conclusão”, com duas sextilhas:
“São prosaicos e banais.
Pelos intelectuais
Estes versos não são lidos,
Mas p’ra nós os grandes vultos
Não passam de doidos cultos
Doutra galáxia caídos.
Os poemas eruditos
Alguns são muito bonitos
Os seus autores eu os louvo,
Mas embora apetecida
Esse tipo de comida
Não vai à mesa do povo.”
Mas António Tente não é só poeta, também anda a preparar um livro de histórias, que vai escrevendo na sua cabeça, enquanto conduz os seus passageiros aos respectivos destinos. Logo que pode, pára o táxi e anota o seu “texto mental” num caderninho (que tira do bolso, para me mostrar que era verdade). “Histórias terríveis”, tantas as desgraças que os passageiros lhe contam.
Até breve António Sequeira Tente, até ao próximo livro de histórias terríveis – a literatura popular não é só poesia...
sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014
" Querida. Veio-me hoje uma vontade enorme de te amar. E então pensei: vou-te escrever. Mas não te quero amar no tempo em que te lembro. Quero-te amar antes, muito antes. É quando o que é grande acontece. E não me digas diz lá porquê. Não sei. O que é grande acontece no eterno e o amor é assim, devias saber. Ama-se como se tem uma iluminação (...) Ou como quando se dá uma conjugação de astros no infinito, deve vir nos livros." Vergílo Ferreira in Em Nome da Terra
Carta a D.
História de um Amor
André Gorz
Pianola.
Este livro não é para todos.
E é tudo o que tenho a dizer sobre ele.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
JORGE LISTOPAD - PARA ALÉM DO TEMPO E DO ESPAÇO; ENTRE O SONHO E A REALIDADE
Como se poderá depreender pelo título desta crónica, não será fácil escrever sobre o livro que Jorge Listopad acaba de publicar na Cavalo de Ferro – “Remington. Contos”. Jorge Listopad é uma personagem complexa, homem culto, inteligente, sensível, de trato afável. E todas estas características se expressam na sua escrita. Escrita elegante, com um domínio de linguagem como só um autor português de origem estrangeira sabe ter. Daí, a sua fixação nas palavras: as existentes e as que não existem. Sobre as primeiras, diz-nos no início do conto “Ponte em Odeceixe”: “A palavra nomeia. O nome fala. Às vezes com uma força inaudita”. A propósito das que não existem, termina do modo que se segue o conto “Jacuzzi no Cairo”: “Como é sabido que não sabemos inventar novas palavras, pelo menos criamos novas realidades, novos passados, novos acasos. E tu, quando leres este texto, que música te vai apetecer ouvir? Que música estarás a ouvir?”
Estas últimas linhas revelam a faceta principal de Listopad autor: o teatro enquanto arte de síntese – a história, a decoração, a palavra, a música. A estrutura teatral deste livro é visível em muitos dos seus contos (veja-se, por exemplo, “Praga sem pontes”, com o seu décor, movimento das personagens, intensidade do diálogo, na fase inicial do conto).
Como disse anteriormente, Jorge Listopad é um autor complexo, e este livro expressa abundamente essa complexidade. Duas características são bem patentes: o culto da Beleza e a impregnação erótica dos textos que o compõem. Textos que vivem da mestria da articulação entre o sonho e a realidade, em que presente e passado se fundem e adquirem uma lógica que só pode significar no estado onírico.
E é exactamente no sonho que se concretiza de modo mais evidente o erotismo que sublima o desejo sexual: “Que estranho não a ter visto até aquele momento no grupo, quando se sentava debruçava-se, e foi assim que pude ver-lhe os seios nus ou apenas um seio; era bonita essa visão, como se fosse possível apaixonarmo-nos por alguém desconhecido e que pouco depois esqueceríamos para sempre”. Eis um exemplo extraído do conto “Bolívia”, um entre muitos outros.
Outra face da escrita de Listopad é a procura do que não se pode alcançar, até porque não existe: “Procuramos sempre o que não há” (última frase do conto “Pró-Diário”). E, por vezes, nem no sonho se consegue vislumbrar o que já havia sido entrevisto, como nos diz na parte final do conto “Vale das Borboletas Mortas” – o paraíso para sempre perdido.
Do alto dos seus 90 anos, Jorge Listopad já vive na eternidade, como nos diz nos dois últimos textos desta obra (“Chamo-me Orfeu” e “Sigmas, Sinos”). E o livro termina com este parágrafo: “Tu, que me estás a ouvir, faz de mim o que quiseres, pensa comigo até onde puderes, enquanto eu continuo a semear os sigmas e os sinos sonoros que tocam... tocam... tocam...”
Obrigado Jorge Listopad e até sempre amigo, poeta semeador de sigmas, de sinos.
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
CREIO PORQUE É ABSURDO
Credo quia absurdum (ou seja, “Creio porque é absurdo”) é assim que se inicia o novo romance de Luís Joyce-Moniz, intitulado “Dualistas: O Hipnotista Abade Faria e o Enigma da Descorporização em Vida” (Edições Colibri, 2013). Luís Joyce-Moniz é um autor diferente na moderna literatura portuguesa. Psicólogo de formação e profissão, é professor catedrático aposentado da Universidade de Lisboa, onde exerceu uma forte influência na formação (teórica e prática) de estudantes de cursos de Psicologia. Joyce-Moniz foi o grande introdutor em Portugal de modelos e metodologias que tinham como suporte a Psicoterapia Cognitiva. O que não foi tarefa fácil, numa época em que predominavam as correntes que se filiavam em princípios e práticas da Psicologia Analítica. Durante anos, Joyce-Moniz publicou uma série de obras de carácter científico e formativo, aliás, com êxito assinalável. Embora tivesse entrado, em jovem, no campo literário, como autor teatral, foi só em 1998 que iniciou a sua carreira como romancista. Primeiro com a publicação de “In & Out”, logo seguida, em 2000, do “Corpo Conversivo”, ambas as obras editadas pela Relógio d’Água. Em 2002, publica, pela Quarteto, “A Psicologia não Existe”. Dotado de uma inteligência brilhante, de uma intensa curiosidade pelo que ao Homem é essencial, possuidor de uma cultura profunda em vários domínios do saber, Joyce-Moniz expressa muitas dessas qualidades nos seus romances, sem esquecer a sua formação de base em Psicologia. Ora, o livro que agora se publica será talvez aquele em que o autor leva mais longe as suas qualidades de romancista. Não só pelo tema (a dualidade corpo-espírito), como pela trama em que se desenrola a acção e se apresenta o pensamento das personagens que intervêm ao longo do processo narrativo. Subjacente ao que acabei de dizer, está uma estrutura dramática eivada de mistério e conflitualidade, que o aproxima do romance policial, em que a acção se situa no plano psicológico. Ou seja, a partir de certo momento, o texto adquire o ritmo de um policial cinematográfico, tal a força da visualização da descrição e a dinâmica de que se vai impregnando. A história, propriamente dita, desenvolve-se ao longo de 18 capítulos e “está redigida no presente do indicativo e a narrativa reflecte o pensamento e as acções do protagonista, Claude Navarro (embora este não seja o narrador)”, no dizer do autor. O “auteur savant”, na expressão de críticos literários franceses, permite ao autor, portanto aquele que “sabe”, uma maior liberdade na introdução de conceitos (hipnose, sugestão, meditação, concentração, indução, sono lúcido, e outros) e na textura do drama psicológico. Conceitos e práticas que o autor domina cientificamente (veja-se o seu livro “Hipnose, Meditação, Relaxamento, Dramatização”, publicado em 2010, pela Porto Editora), cujas aplicações práticas nos descreve neste seu romance, em que acção se passa na Índia do Sul, local onde viveu e de que tem um conhecimento profundo. Permitam-me, ainda mais, algumas notas. Uma, sobre o modo como o dualismo espírito-corpo é compreendido nas três religiões da India: hinduísmo, jainnismo e budismo; outra nota, sobre o Abade Faria, português de finais do século XVIII, inícios de XIX, nascido em Goa e vivente em Paris, que ficou célebre pelas suas teorias e práticas sobre estados de alteração da consciência, de que o sono lúcido será a mais relevante. A última nota que quero deixar é algo que não é uma qualidade menor deste romance, antes pelo contrário: a finíssima linha erótica que o percorre e que tem o seu epílogo na parte final da obra. Fruto de uma saída do corpo mal sucedida, o espírito de Claude Navarro fica a pairar, em dificuldade de voltar ao corpo, o que poderá originar a sua morte física. Mas, finalmente, a situação resolve-se: “Jananee, em carne e osso, e com aqueles cabelos longos negros magníficos sobre as costas, está estendida em cima do seu corpo. ‘Claude, por favor, não morra agora…’ Não morre. Não morre, porque autoscopia, adieu. Como pode não acabar de pairar, se a vê e revê colada a ele, num boca a boca que imagina frenético? ‘Claude, não se atreva a morrer nos meus braços.’ Está quase a senti-la em cima dele. Da última vez que se entesou, foi no almoço de Vandiyur Mariamman Teppakulam, e os seus joelhos só se tocavam de quanto em vez. ‘Claude, regresse à vida!...’ Coragem. Que ela aguente, pois ele vai já na descensão. Antevendo-se a reincorporar tantas vezes quanto puder. ‘Claude…’ Cortando a brisa nocturna, desce vertiginosamente na direcção dos corpos. Se ela puder reter-se, ele desiste do dualismo para sempre.” Em suma, estamos perante uma obra com um argumento superiormente concebido e, acentue-se, muito, muito bem escrita.
domingo, 19 de janeiro de 2014
Qual é a palavra?
loucura
loucura para que
para que
qual é a palavra -
loucura disto -
de tudo isto -
loucura de tudo isto -
adquirida -
loucura dado tudo isto -
vendo
loucura vendo tudo isto -
isto -
qual é a palavra -
isto isto -
isto isto aqui -
tudo isto isto aqui -
loucura dado tudo isto -
vendo -
loucura vendo tudo isto isto aqui -
para que -
qual é a palavra -
ver -
mirada fugaz -
parece ver fugazmente -
precisa parecer que vê fugazmente -
loucura pela necessidade de parecer ver fugazmente -
qual -
qual é a palavra -
e onde -
loucura pela necessidade de parecer ver fugazmente o que onde -
onde -
qual é a palavra -
ali -
lá -
para além do lá longe -
longínquo -
longínquo para além do longe -
enfraquecido, vago -
enfraquecido, vago ao longe para além do lá qual -
qual -
qual é a palavra -
vendo tudo isto -
tudo isto isto -
tudo isto isto aqui -
loucura para ver qual -
mirada fugaz -
parecer ver fugazmente -
necessidade de parecer ver -
enfraquecido, vago ao longe para além do lá qual -
loucura pela necessidade parecer ver fugazmente -
qual -
qual é a palavra -
qual é a palavra
What is the word, Samuel Beckett
(Tradução de Orfeu B)
Há dias, ou ontem, ou antes, pouco ou muito, eu esperei por Godot por cerca de duas horas no Teatro Nacional São João (TNSJ) do Porto. Eu sabia que ele não viria, mas lá estive e fiquei para recordar-me da revelação que a leitura de Beckett me tem sido ao longo da vida.
Horas de espera, menos de dois meses depois de ter ido, também ao TNSJ, ver a enterrada viva, declarar que os dias são felizes. E vale a pena dizer que o monte que serviu de toca/campa para Molly era poroso e de cortiça. E é natural esperarmos pelo fim do jogo. Pela conclusão da trilogia. Ou simplesmente pelo fim, pois tudo em Beckett é sobre o fim. Embora não se trata de um estilo, ou de um modismo do seu tempo (1906-1989); não, em Beckett a acção e os movimentos forçados dos personagens decorrem das leis da inércia, das leis da psicologia, das normas metafísicas da alma humana na sua mais absoluta solidão. E os factos colam-se às palavras pelas afinidades da essência e da existência. As palavras, que segundo Beckett, são as únicas entidades que rompem o silêncio. E estas sucedem-se arrastadas pela inviabilidade do discurso (eu nunca uso o termo absurdo por considera-lo insuficiente, demasiado indistinto) e pela arbitrariedade dos acontecimentos na estrutura geral do cosmos. As palavras emulam a fluidez do tempo, e simultâneamente, materializam a impenetrabilidade dos significados, admitindo-se que faz sentido atribuir significado às coisas. Mas suponho que Beckett não acreditava em significados. Suponho que Beckett tinha crenças baseadas em movimentos e palavras. No sentido colectivo que as palavras têm ou podem adquirir se forem repetidas ao ponto de criarem condicionamentos emocionais.
Para Beckett os territórios são brancos, e o público tem que os vislumbrar nos olhos dos seus personagens. São angústias de autor e de espectador a reflectirem-se infinitamente, de olhos para olhos, como se fossem um fogo frio que impregna a todos, mas que, por mero acaso, poupa uns quantos do verdadeiro exercício de entender: "Todos nós nascemos loucos. Alguns permanecem".
E enquanto esperamos, há a deplorável vileza do amo que acaba cego, a submissão abjecta do escravo, que inunda os ouvintes com pensamentos conexos pela ausência de nexo. Pensamentos que inspiram Estragon e Vladimir a perguntarem-se: "Pensar? E isto já nos aconteceu?"
Mas tudo em Beckett é um ancore do fim. E claro há o fim do último poema, What Is The Word (Qual É A Palavra) :
folly -
folly for to -
for to -
what is the word -
folly from this -
all this -
folly from all this -
given -
folly given all this -
seeing -
folly seeing all this -
this -
what is the word -
…
O fim que é um início para quem compreende qual é a palavra, ou o que é a palavra. Um início que marca o verdadeiro fim. O único fim possível.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
O BISPO ALUCINADO
Albano Estrela fala do seu último livro (O bispo alucinado, Lisboa, edições Colibri, 2013) como sendo um livro «estranho». Mas reconhece-se imediatamente nele o seu estilo fluente, claro, escorreito e rápido, sem grandes pormenores, ou só os necessários para caracterizar personagens e situações, sem aparentes preocupações de estilo, enfim, com aquela maturidade de quem já não está para entrar na primeira (ou última) moda que lhe apareça nem muito preocupado com o que do livro possam dizer em termos de caracterização ou de catalogação literária.
A obra é constituída por duas novelas: “Um portuense em Paris entre a espiritualidade e a licenciosidade”, ou “A paixão segundo Santo Hirondino” (podemos escolher o que mais nos agradar) e uma segunda intitulada “ O bispo alucinado”, que dá título ao livro.
Da obra consta ainda uma Nota de apresentação, onde Albano Estrela explica a origem e a razão de ser das duas novelas, e um prefácio «Da paixão que nos ilumina na vida e na morte”, de Ana Viana, aliás excelente e que caracteriza, muito bem, toda a problemática das novelas em que se sente que o Autor está, sem estar; não se identificando com as personagens compreende-os e sente em si os problemas que os angustiam e a procura ansiosa a que votaram as suas vidas apaixonadas.
Pela apresentação que do livro faz o Autor ficamos a saber que a primeira novela é baseada numa personagem real da sua juventude portuense, e cujo itinerário foi acompanhando com alguma irregularidade pela vida fora, e a segunda foi-lhe sugerida por notícias, a princípio avulsas, e informações posteriores, umas com rigor histórico, outras mais ou menos lendárias, sobre D. António Luís Veiga Cabral e Câmara, bispo de Bragança e Miranda entre 1793 e 1819.
A primeira novela baseia-se pois em memórias pessoais do Autor e procura reconstituir o itinerário literário, cultural e espiritual de um amigo de juventude, com quem conviveu em algumas tertúlias portuenses, personalidade controversa e problemática, de invulgares capacidades intelectuais, que oscilando entre o erotismo mais desbragado e a espiritualidade mais exigente, não cessava de multiplicar interesses e acumular experiências que lhe haviam de permitir escrever, um dia, uma obra-prima que sintetizasse todas estas vivências. Passando por situações laterais e personagens curiosas, a viver dramas anódinos, que dir-se-ia diluídos no quotidiano prosaico da cidade, capazes todavia de situações extremas e de desenlaces fatais. Ou seja, são personagens perdidos no dia a dia, para o que parece concorrer a aparente simplicidade com que são relatados os factos e as situações, mas com a densidade dramática que só os desenlaces finais tiram da invisibilidade e as tornam muito mais complexas do que se pensaria.
E é aqui que radica grande parte do dramático que, na aparente ausência de dramatismo, a prosa de Albano Estrela consegue. O que parece contraditório, mas não é. Face a uma literatura que tem tendência para usar demasiadas palavras para produzir o drama, diluindo-o, é necessário reduzir o drama ao mínimo de palavras para este voltar a sê-lo, ou a poder ser. E isso consegue Albano estrela com uma prosa clara e elegante, e com uma grande capacidade de empatia pelas personagens e de entrada nos ambientes em que estas se movem.
Isto é particularmente notório na segunda novela, “O bispo alucinado”, em que, em poucas páginas, se reconstitui, com aparente facilidade, o quarto de moribundo de um bispo que sente, nos últimos dias de vida, necessidade de relatar as suas experiências espirituais porque ouviu vozes do alto que lhe ordenam que o faça. Toda a tensão psico-afetiva e toda a espiritualidade já meio demencial e alucinada perpassam, com suavidade, por aquele quarto, onde sentimos a morte pairando negra e, ao mesmo tempo, a força da espiritualidade mais violenta e ardente. Dai Ana Viana dizer, no prefácio, que se trata de duas novelas «magistralmente escritas».
Por outro lado, há, na primeira novela, o velho problema das vivências necessárias à criação. Ou inibidoras? Ou desnecessárias?
É, como se sabe, um problema eterno e sem solução fácil. Passa pelos autores que, em fichas, cadernos de apontamentos, blocos de notas, “moleskines” de vários tamanhos e categorias de elástico, gravadores, registos vários, acumulam ideias, esquemas, esboços, resumos, expressões idiomáticas, regionalismos, neologismos, etc., procurando guardar experiências e mais experiências que lhes permitam plasmar, um dia, em obra, todas essas diversas vivências e informações.
E ao lado os autores que, pelo menos aparentemente, não ligam nada a isso. E se metem num quarto, se sentam à mesa, de preferência voltados contra a parede, como Dulce Maria Cardoso, ou forrando janelas e paredes com pesados e duplos cortinados, como Marcel Prust, e sem terem vivido grande coisa, pelo menos na aparência («Navegar é preciso; viver não é preciso») como disse Pessoa retomando a fala de «marinheiros antigos e a turma toda dos seus heterónimos, ou de Kafka, começam a tirar da cabeça, a puxar, na solidão silenciosa, os fios das mais variadas e inesperadas experiência imaginadas ou rememoradas ou fantasiadas, criando obra. E às vezes que obra! Que, se calhar, nem tinham pensado escrever, nem para a qual se tinham andado a preparar, desleixando experiências, esquecendo, deixando pelo caminho muita coisas.
É um dos grandes dramas por que passam todos os escritores e que Albano Estela retrata muito bem, em relativamente poucas páginas, seguindo, quase sempre de longe, e com grandes prazos de intervalo, o itinerários do seu antigo amigo “Hirondino”, personagem rica, complexa, contraditória, sempre carente, à procura de experiências novas que lhe permitissem também a compreensão da natureza humana, além da obra perfeita, a síntese salvadora que uma vida intensa, múltipla e rica merecia. Mas que se confronta com a morte e com o falhanço (a inutilidade?) das suas experiências, todavia vividas e ricas e maravilhosas, mas que se multiplicaram sem, pelo menos na aparência, uma ”solução” salvadora. O que nos leva a perguntar, com a simplicidade e o drama que a pergunta contém: o que salva uma vida? O que a redime? E o que há na nossa vida de irrepetível ou de cíclico? E de passageiro ou de eterno? A última frase da novela é, sobre isto, ambígua e esclarecedora: «Não sei se me reconheceu, mas estou em crer que sim, pois, quando me despedi, abriu os olhos e o seu olhar foi atravessado por aquele lampejo que iluminava as nossas noites na cave do Café Rialto, sessenta anos atrás».
João Boavida
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
A PERSONAGEM E O ACTOR
Depois de há poucos meses me ter estreado na leitura de Ana Teresa Pereira com o notável romance "O Lago", tenho para mim a saborosa obrigação de entrar mais e mais na sua excelente escrita.
"As longas noites de chuva em Nova Orleões", tem óbvia relação com "O Lago". O mesmo ambiente, Londres, chuva, nevoeiro, os seus teatros, os actores, os pequenos almoços, os pubs, os perfumes, as flores, um universo de subtilezas distantes da evidência solar do Sul.
A acrescentar, a permanente referência à literatura, ao cinema e aos actores de filmes, todos anglo-saxónicos (quase todos do tempo do preto e branco e não por acaso, certamente), criando um permanente diálogo entre ficções e tempos, uma forma de ampliar a narrativa através de uma teia de referências a palavras, textos e rostos que, se por um lado, iluminam e explicam, por outro, estabelecem redes de ambiguidade e, por vezes, muito inquietantes identificações.
Se depois de ler estes dois livros, não soubesse quem era a autora, pensaria tratar-se de uma escritora inglesa, de tal maneira a paisagem, a cultura, a respiração inglesa impregnam a escrita de Ana Teresa Pereira.
A personagem central, Kate, é uma actriz que se vai dissolvendo na personagem que se prepara para levar à cena. E que se vai apaixonando ou deixando apaixonar pelo seu autor e actor, também. Mas é também, talvez, o retrato de cada um de nós à procura, desmunidamente, da nossa própria personagem na vida, do nosso perfume, da nossa roupa, da nossa assinatura, em busca de saber quem somos, e levados a viver perdidamente entre o real e a ficção, entre o natural e o cultural, entre o amor e a ideia de amor.
"O importante é amar alguma coisa e a partir daí pode-se começar de novo, começar de novo uma e outra vez."
A acompanhar esta novela, temos 3 contos de perfil próximo do gótico Ainda mais ingleses que a própria novela, se possível. Ou melhor, devedores de estratégias narrativas negras, ambíguas e fascinantes de autores como Ana Teresa Pereira que domina o mecanismo da estranheza e do arrepio.
Um dos contos fica para mim como dos melhores contos que já li, "A Sombra"
No final, saído desta notável literatura carregada de chuva, nevoeiro, e da extraordinária ambiguidade da negritude semi-gótica, corri em busca de um escritor mediterranico, alguém do lado da luz, da transparência, da fraternidade. Talvez Erri de Luca, Panos Karnesis ou Ignácio Martinez de Pisón... Talvez...
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