sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O EXÉRCITO ILUMINADO


Há editores que marcam a vida dos leitores. Através da tradução e da edição trazem-nos ao conhecimento autores que nos escapariam porque não podemos saber tudo nem conhecer todos os autores e todos os livros do mundo e muitos nos escapam e sempre nos hão-de escapar.

No entanto, a sensibilidade e teimosia destes homens ou mulheres vão traçando caminhos de leitura e, talvez até, caminhos de vida.

Recordo o João Rodrigues que me deu a conhecer na colecção de Bolso da Âmbar o notável escritor italiano Erri de Luca, que muito aprecio e que sigo em português e por vezes em traduções francesas. Mais tarde, na Sextante, o João continuou a dar a conhecer autores fundamentais como Don de Lillo, Romain Gary e mais e mais.

O Carlos da Veiga Ferreira criou um catálogo fabuloso na editora Teorema e continua na Teodolito. Agradeço-lhe ter conhecido escritores como Ignácio Martínez de Pisón, ou o tão diverso W. G. Sebald.

Recordo ainda Rolin, Modiano, aparecidos em português na colecção da ASA pelas mãos do Manuel Alberto Valente.

Ou o trabalho fantástico da Maria do Rosário Pedreira na Temas & Debates ao dar a conhecer estritores como João Tordo, Paulo Moreiras e José Luís Peixoto.

E ainda antes deles todos, o Carlos Araújo, na D. Quixote dos anos 60, com os seus fantásticos Cadernos D. Qixote, Cadernos de Poesia, Cadernos de cinema e outros.

Um destes editores a quem me sinto particularmente agradecido é o Marcelo Teixeira da Editora Parsifal. Há uns anos, estava ele na Campo das Letras (Grupo Leya) e publicou uma excelente colecção, Ovelha Negra de seu nome, que me deu a conhecer autores latino-americanos como José Emílio Pacheco, Jesus Zarate, Augusto Monterroso e vários outros, entre os quais o mexicano David Toscana.

O primeiro livro de Toscana que li chama-se "O primeiro leitor", já aqui o abordei e guardo dele uma recordação entusiasta.

"O Exército iluminado" é uma pérola, uma delícia, um delírio, um caminho de grandes e pequenas surpresas que nos arrastam

Talvez possam querer arrumá-lo nas prateleiras do "realismo fantástico" onde, com rancor, alguns críticos gostam de guardar os seus ódios.

Eu cá, gosto de excessos. Gosto do uso desbragado da imaginação que leva as situação até às últimas e impensáveis consequênciasao do riso à mais profunda e comovente emoção. É neste território que Toscana trabalha.

Ignacio Matus é um professor que transmite repetidamente aos alunos a vergonha nacional que constituiu a perda do estado mexicano do Texas para os Estados Unidos da América, o que leva à sua expulsão do estabelecimento de ensino.

Ferido no seu patriotismo, decide formar um exército no qual se alistam crianças deficientes, que sai da cidade de Monterrey numa carrossa puxada por um burro com a missão de atravessar o rio Bravo, reconquistar o forte El Álamo e, assim, recuperar o Texas e a dignidade da pátria mexicana.

O seu antiamericanismo deve-se também à firme convicção de que um atleta norte-americano lhe arrebatou a glória da medalha de bronze nas Olimpíadas de Paris em que, de resto, ele não participou mas, correndo ao mesmo tempo, em Monterrey, teve melhor melhor resultado.

Romance inquietante, irónico e comovente, onde os fracassos das personagens os transformam em verdadeiros heróis e onde aas narrativas do onírico, da mitomania patriótica, do consumismo mediático, se atravessam e sobrepõem numa malha que está sempre a arrastar-nos para permanentes surpresas que tornam a leitura numa experiência que nos agarra pelos olhos e não nos larga até ao fim.

domingo, 16 de agosto de 2015

Travessia de Verão

Grady nunca passara o Verão em Nova Iorque, e por isso nunca conhecera uma noite como aquela. O tempo quente abre o crânio a uma cidade, mostrando o cérebro branco, e o coração cheio de nervos, que crepitam como fios no interior de uma lâmpada. E emana um cheiro acre sobre-humano que faz com que as próprias pedras pareçam de carne viva, ligadas e a pulsar. Não era que Grady não estivesse familiarizada com o desespero acelerado que uma cidade pode produzir, pois já vira todos os seus componentes na Broadway. Só que aí fora algo a que assistira como espectadora, e na qual não tomara parte. Mas agora, não havia saída possível: ela mesma era um dos participantes. 

Truman Capote 

Travessia de Verão (Summer Crossing) é uma das primeiras experiências novelísticas de Truman Capote (1924-1984), celebrado escritor norte-americano, autor de “Breakfast at Tiffany’s” (1958) e “In Cold Blood” (1966). Publicado postumamente em 2004 (em 2006 entre nós), o manuscrito foi encontrado nos pertences do autor após a sua morte numa das suas antigas moradas em Nova Iorque, não se sabe se por esquecimento ou deliberadamente. Depois de uma análise cuidadosa, os representantes legais do Fundo Literário Truman Capote, estabelecido ainda em vida por desejo do autor, decidiram pela publicação do manuscrito por  considerá-lo completo e após umas poucas ligeiras correcções.

O traço estilístico do autor é indelével e trata-se de uma obra muito carregada com as preocupações dos autores norte-americanos dos anos 1950. As descrições claras e penetrantes são intercaladas pelas reflexões dos protagonistas que se sucedem com grande energia. Capote é exímio em contrastar as classes sociais dos personagens e descreve com cores vívidas o absurdo das etiquetas, a veleidade e a prodigalidade da classe dominante de Nova Iorque dos anos 1950.

Em a Travessia de Verão, Capote cria o relacionamento de Grady, de 17 anos e filha de um magnata da indústria, com Clyde de 23 anos, um modesto judeu do Brooklin, cujos horizontes estão fechados pela falta de qualificações e pela falta de talento no basebol. Contra a vontade da família, Grady decide não acompanhar os pais num cruzeiro para a Europa, para desfrutar em liberdade o recém estabelecido relacionamento com Clyde que trabalha em um parque de estacionamento na Broadway junto ao Teatro Roxy. A voragem consome os jovens protagonistas que acabam por casar clandestinamente. Quando a irmã de Grady descobre que Grady está grávida toda a tensão descritiva é resolvida com um final indefinido, no qual ficam abertas todas as possibilidades e cujas decisões fundamentais são deixadas para leitor.    

Orfeu B.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Contos de Odessa e outros


Toda a gente da nossa categoria, correctores, lojistas, bancários e empregados de companhias de navegação, ensinava música aos filhos. Os nossos pais, não vendo saída para os rebentos, imaginaram uma lotaria para enriquecer e montaram-na à custa do nosso esforço. Odessa foi afectada por esse delírio mais do que outras cidades, Devido a isso durante decénios forneceu meninos prodígio às salas de concerto de todo o mundo. De Odessa saíram Micha Elman, Zimbalist, Gabrilovitch, e aqui começou Yacha Heifetz.

Quando a criança fazia quatro ou cinco anos, a mamã levava esse ser minúsculo e enfezado ao senhor Zagurski. Zagurski tinha uma fábrica de meninos prodígios, uma fábrica de anões judeus com gola de renda e sapatinhos envernizados. Descobria-os nos tugúrios de Moldavanka e nos pátios macilentos do Bazar velho. Dava a primeira orientação, e depois as crianças eram enviadas para o professor Auer, de Petersburgo. A alma daqueles alfenins de grande cabeça azul ansiava por uma potente harmonia. Alguns chegaram a ser virtuosos afamados. Meu pai quis entrar na competição. Tinha eu quatorze anos, já passara da idade dos meninos prodígios , mas, devido à minha estatura e moleza, bem podia passar por oito anos. Aí residiam todas as esperanças. 


Por respeito pela sabedoria e pela demência do meu avô, Zagusrski cobrava-nos um rublo por aula. Mais: só por receio ao meu avô gastava tempo comigo, porque eu era um caso perdido. Os sons que se desprendiam do meu violino pareciam limalha de ferro. A mim mesmo aqueles sons destroçavam-me o coração, mas o meu pai não me deixava em paz. Em casa só se falava de Micha Elman, isento do serviço militar pelo czar em pessoa. Zimbalist, ao que o meu pai apurara, tinha sido apresentado ao rei de Inglaterra e tocara no palácio de Buckingham; os pais de Gabrilovitch tinham comprado duas casas em Petersburgo. Os meninos prodígio tinham enriquecido os pais. Meu pai podia aceitar ser pobre, mas precisava da fama. 

— Não é possível — sussurravam-lhe os que comiam por sua conta —, não é possível que o neto de um avô destes …

Eu não era da mesma opinião. Quando ensaiava os exercícios de violino, colocava na estante da pauta um livro de Turguénev ou de Dumas e, enquanto arranhava o instrumento, ia devorando uma página após outra. Durante o dia contava aos miúdos da vizinhança patranhas que à noite passava ao papel. Na nossa família a escrita vinha por herança. O meu avô, Leivi-Itsjok, que ao chegar a velho perdeu o juízo, passou a vida a escrever uma novela intitulada “O homem sem cabeça”. Eu saí a ele.  


Isaak Babel


Na tradição de Turguénev, Gógol e Tchekov,  uma breve coletânea, ainda que rica e marcante, de contos de Isaak Babel (1894-1940), escritor considerado por Harold Bloom uma força primordial e dotado de uma intensidade tolstoniana. O crítico naturalizado brasileiro Otto Maria Carpeaux  (1900-1978) considerava Babel “o maior contista que já surgiu no século XX” e acrescentou: “A amplidão e o objetivo de sua visão social permitiu-lhe ver o mundo pelos olhos dos camponeses, soldados, padres, rabinos, crianças, artistas, atores, mulheres de todas as classes. Tornou-se amigo de prostitutas, cocheiros, jóqueis; sabia o que era ficar sem um centavo, viver no limite da pobreza e marginalizado. Foi ao mesmo tempo o poeta da cidade e um lírico da vida rural. ... Vive de uma maneira robusta, inquisitiva e faminta: seu apetite pelo que é imprevisivelmente humano é gargantuesco, inclusivo, excêntrico. Ele é cheio de truques, malandro, irônico, um amante instável, um impostor imprudente – saindo dessas centenas de fogosos ‘eus’, verdades insidiosas arrastam-se para fora, uma por uma, em um rosto, na cor do céu, em uma poça de lama, em uma palavra. É como se ele fosse uma membrana irritável, sujeita a cada vibração das criaturas.”

É de facto espantosa a multiplicidade de pontos de vista adoptados pela prosa de Babel e a amplitude e profundidade da sua visão do mundo. O seu estilo é extraordinariamente histórico, e numas poucas frases é capaz de traçar como uma vida se desenha no contexto dos mais complexos e turbulentos desenvolvimentos históricos. Suas descrições da vida quotidiana da comunidade judaica no início do século XX em Odessa e dos odiosos pogroms são pungentes, como o são os seus contos sobre o sangrento período que sucedeu à Revolução Bolchevique.  

Babel nasceu no seio uma família judaica ortodoxa em Odessa. Membros da sua família foram assassinados em pogroms da era czarista. Na adolescência, cursou um liceu comercial, e estudou também o Talmude e música. Não foi bem sucedido na tentativa ingressar na Universidade de Odessa, pelo que se matriculou no Instituto de Finanças de Kiev. Em 1915, depois de graduado, mudou para Petersburgo onde conheceu o escritor russo Maxim Gorky (1868-1936), facto que marcou a sua vida literária e a sua militância política. Bolchevique de primeira hora, acreditava que a Revolução permitiria uma evolução cultural que ultrapassaria os pogroms e o anti-semistimo. A partir de 1920, participa activamente na guerra contra os “brancos” que se teve lugar de 1918 a 1922. Documentou os horrores que testemunhou num diário que posteriormente tomou a forma de uma colectânea de contos, A Cavalaria Vermelha, publicados em 1924, com o apoio de Gorky, na revista "ЛЕФ" (LEF) de Maiakovski (1893-1930). Estes textos foram recebidos com hostilidade pelas autoridades soviéticas.

Em 1930, Babel trabalhou na Ucrânia, e testemunhou a brutalidade imposta pelas autoridades soviéticas durante o processo de colectivização coerciva, e do qual resultou a morte pela fome de centenas de milhares de camponeses ucranianos. A imposição de Stalin relativamente à adopção do realismo socialista como forma única de expressão artística, levou-lhe a se afastar da vida pública. Quando subsequentemente foi acusado publicamente de improdutividade, declarou ironicamente, no primeiro congresso da União dos Escritores Soviéticos em 1934, que estava a aperfeiçoar um novo estilo literário, o “género do silêncio”. Em 1935, foi repreendido pelo próprio Gorky por cultivar uma “baudelaireana predilecção pela miséria humana" e por retratar a sociedade soviética de forma desfavorável. Nesses anos, também colaborou com Sergei Eisenstein (1898-1948), e foi autor de diversos guiões de filmes de propaganda soviética.

Em Maio de 1939, Babel foi preso na sua dacha em Peredelkino, ao sul de Moscovo, e interrogado sob tortura na prisão Lubyanka. Acabou por confessar pertencer a uma organização controlada do estrangeiro por Trotsky (1879-1949), e de ter sido recrutado para espionar em favor da França pelo escritor francês André Malraux (1901-1976). O seu nome foi removido das enciclopédias e dos dicionários literários, assim como dos créditos dos filmes com os quais colaborou. Segundo a versão oficial, Isaac Babel morreu em 17 de Março de 1941 num dos campos de concentração do regime, porém os registos da NKVD indicam que foi fuzilado em 26 de Janeiro de 1940, depois de um julgamento sumário que durou 20 minutos. Os seus manuscritos e pertences foram confiscados e destruídos pela NKVD. 

Em Dezembro de 1954, durante a abertura do regime depois da morte de Stalin em 1953 e a sucessão de Khrushchev, Babel foi oficialmente absolvido do seu “crime”. Antologias selectas dos seus trabalhos só foram publicadas depois de 1966. 

Orfeu B.


terça-feira, 11 de agosto de 2015

QUANDO A LEITURA SE TORNA UM VíCIO


Ao fim de 60 páginas eu não sabia dizer exactamente qaul o tema deste romance mas, simultaneamente, não era capaz de parar a leitura.

A escrita do João Tordo tinha-se-me colado à pele, envolvia-me, questionava-se, puxava-me para dentro de mim como se fosse um vício insistente que não me largava por um minuto.

Neste romance, talvez o mais fundo e sério de todos os do João, a literatura vai longe. Não se trata aqui de contar uma história. Embora exista uma história. E quando nos apercebemos de que essa históttia existe levamos um tremendo murro no estômago.

Todo o trabalho do narrador em volta da palavra parece de início uma deambulação sem aparente destino em torno de tudo e de nada. Já estamos mergulhados no rame-rame duro, lento, encantatório dessa construção literária quando tudo explode dentro do nosso coração. E percebemos então que a história, a terrível história, já se tinha iniciado há muito tempo, antes até da leitura. Apanhámos a história a meio caminho. E ela continua e leva-nos num ritmo implacável talvez muito para lá do próprio romance.

Uma ilha canadiana. Gente com diversas origens. Um lugar de solidão e questonamento perante o céu, o mar, a vida.

Trata-se de um lugar que pode ir ao fundo como foi a casa do poeta Drosler com todos os seus dários e memórias. Um lugar de expiação de culpas e de exílio. Um lugar onde o narrador procura esquecer a culpa exilando-se de si próprio.

A escrita de João Tordo parece simples e perturba. Parece falar de coisas vulgares e toca nos grandes temas e angústias da nossa existência.

Acima de tudo, não nos dá o consolo de nenhuma certeza. Apenas o júbilo de sentir como a literatura nos pode levar longe. Muito, muio longe.

a vida.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

POR TRÁS DOS VÉUS


O romance histórico tem sido um dos campos mais vivos da literatura portuguesa dos últimos anos. Poemos lembrar nomes de autores como Miguel Real, Paulo Moreiras, Pedro Almeida Vieira, Isabel Stilwell, entre vários outros.

O trabalho dos romancistas que cultuivam este género exige a documentação sobre a época e a convergência com a busca de outras formas de pensar, outros modos sociais, outros desenhos da coloquialidade.

No entanto, o romance histórico não pretende mergulhar-nos totalmente no passado. Até porque o escritor deste género, se utiliza um esqueleto de investigação, trabalha depois nas fissuras que podem ser preenchidas pela criação das suas personagens e dos sus dramas.

Penso, de qualquer maneira, que o futuro conhecerá a história passada também através da ficção. É esse o encanto que tem este tipo de romance que melhor cumprirá a sua função literária na medida em que escapar à tentação de deixar que o presente com as suas particularidades, as suas questionações próprias e o seu vocabulário se imponham e tornem a narrativa numa história banalizada e sem alma.

Raquel Ochoa tomou conhecimento de uma história verdadeira e esquecida de que ouviu falar em Marrocos e depois a investigou nos arquivos de Lisbo

1793, o herdeiro do trono marroquino ordenou, por razões de segurança, já que o país se encontrava em guerra, que a mulher, e outros membros da família real, assim como as concubinas do sultão, saíssem de Casablanca e fossem para Rabat.

Tempestades sucessivas e falta de conhecimentos nauticas levam as embarcações a aportar à Madeira, aos Açores e, finalmente a Lisboa.

Aqui, por ordem da rainha D. Maria I, um notável frei João de Sousa, arabista e membro da Academia de Ciências, mediou os encontros diplomáticos.

Há algo de um "O Nome da Rosa" em que Raquel Ochoa se influenciou ao desenvolver a figura deliciosa de Frei João, tradutor e investigador de mistérios que envolvem a comitiva marroquina e que põem em risco algumas das concubinas.

O choque entre hábitos muito diferentes dá origem a alguns episódios picaresco com os nobres e os mesmo nobres ansiosos por saber que beldades se esconderão por trás dos véus das concubinas.

No meio de tudo, Frei João dá voltas e viravoltas para evitar os conflitos de protocolo e tentar resolver o mistério que envovlve a comitiva
.
Narrartiva divertida que põe em destaque o contacto entre duas civilizações que eram tão diferentes há cerca de dois séculos e que continua a ter muitas diferenças passado este tempo.


segunda-feira, 3 de agosto de 2015

NA PELE DO OUTRO


Em 1970, em Amesterdão, subi ao sótão onde Anne Franck esteve escondida dos nazis, antes de acabar por ser apanhada e morrer em Auschwitz. Lembro-me de como ali me senti, apertado0naquele espaço estreito ne sombrio, sentindo na pele, tanto quanto é possível, o drama de um povo que tentava fugir ao holocausto.

Esta história contada por Hans Keilson é a de um homem, judeu, que um casal de jovens holandeses escondem na sua casa durante a ocuipação nazi da Holanda.

O estilo é simples e eficaz. Se não há nada de efectiva comédia na narrativa em que vamos conhecendo os pequenos sobresaltos, os receios, as angústias de quem está escondido e, também, as de quem esconde. Mas são necessariamente diferentes as suas condições e a sua liberdade de movimentos.

A pouco e pouco vamos também ercebendo que terá sido normal muitos holandeses esconderem em suas casas os judeus perseguidos pela Gestapo, pelas SS e sei lá que mais.

O marido sai de manhã e vai trabalhar. Volta a meio da tarde. A mulher recebe o leiteiro, vai às compras, fala com as vizinhas, procura dar uma aparência de absoluta normallidade.

O homem escondido passa horas deitado na cama a ler. Espreita a rua pela frincha das cortinas. Defacilmente a polícia sce de manhã para o pequeno almoço e à noite para o jantar com os seus hospedeiros. Às vezes fala sobre a esperança no fim da guerra e do nazismo. Manifesta por vezes a angústia do tempo que passa e não traz uma promessa de porta de saída.

Tudo corre com a possível tranquilidade, quando o homem escondido adoece. Chamam o médico que ao saber da situção do doente se mostra solidário e vai acompanhar a doença procurando também manter o segredo daquela reclusão.

Ao fim de alguns dias o homem morre. E aqui começam os problemas. Que fazer ao corpo do falecido sem denunciar às autoridades aqueles que tão generosamente o esconderam?

A solução encontrada é relativamente simples. Esperaram pela lua nova, embrulharam o corpo num cobertor e foram colocá-lo debaixo de um banco num jardim próximo.

Tudo corre bem. Quer dizer, tudo corre o melhor possível naquela situação. Até que a mulher se lembra de que o cobertor tem a marca da lavandaria. E, com essa marca, facilmente a polícia dará com eles e os virá necessariamente a prender.

Que fazer? Simples. O jovem casal deixa a sua casa e vai esconder-se na casa de uma familiar. E assim, passam a viver a situação contrária. Aprendem a sentir na pele o drama e a angústia do homem que receberam em sua casa.

Desta forma, a narrativa inverte-se e torna-se naquilo que é uma das funções da literatura: colocar-nos no papel do outro. Fazer-nos sentir a angústia do outro. Habitar o coração do outro, mesmo quando sabemos reconhecer as inevitáveis diferenças.

Quando a literatura cumpre esta sua função está a abrir o grande e belo caminho para a democracia e para a paz.

sábado, 1 de agosto de 2015

Novos Contos do Imprevisto


                           
A Vingança Será Minha e C.ª

Exmo. Sr. _____

Já deve ter lido o ataque calunioso e despropositado ao carácter do jornalista _____, publicado no jornal de hoje. Trata-se de uma insinuação injuriosa, de uma deturpação deliberada da verdade. 

Está disposto a permitir que esse miserável caluniador o insulte dessa madeira sem fazer nada? 

Toda a gente sabe que não faz parte da natureza dos americanos permitir-se serem insultados quer em público quer em particular sem manifestarem uma indignação justificada e sem exigir — ou melhor, reclamar — que seja feita justiça. 

Por lado, é perfeitamente natural que um cidadão do seu prestígio e reputação não queira envolver-se pessoalmente nesta questão sórdida e mesquinha, ou ter sequer qualquer contacto directo com esse indivíduo abjecto.

Então como exigir reparação?

A resposta é simples A Vingança Será Minha e C.ª exigi-la-á por si. Comprometemo-nos, em nome de V. Exa. e no mais estrito sigilo, administrar um castigo ao jornalista _____, pelo que apresentamos uma lista de métodos (incluindo os respectivos preços): 

1º Um único murro no nariz, com força     - 500 dólares

2º Um olho negro                                             - 600 dólares

3º Um murro no nariz e um olho negro      - 1000 dólares 

4º Pôr uma cascavel (sem veneno) no chão do carro dele, junto dos pedais, quando ele estacionar                                        - 1500 dólares

5º Raptá-lo, tirar-lhe a roupa toda, excepto as cuecas, os sapatos e as meias, e largá-lo na Quinta Avenida, à hora de ponta                            - 2500 dólares

(Este trabalho será executado por um profissional.)   

Caso pretenda aproveitar uma dessas ofertas, queira responder para A Vingança Será Minha e C.ª, para a morada indicada na folha em anexo. Se for viável, ser-lhe-á comunicado com antecendência o local e a hora a que a operação terá lugar, de modo que V. Exa. possa, caso assim o dele, assistir pessoalmente à punição, a uma distância segura e no mais absoluto anonimato.

Não será necessário efectuar qualquer pagamento antes de o serviço encomendado ter sido desempenhado de forma satisfatória, sendo-lhe posteriormente enviada a conta da forma habitual.  

Roald Dahl

O insólito, o bizarro, o cómico e o inesperado. Penso que seriam estes os adjectivos mas apropriados para caracterizar este conjunto de contos do excêntrico e controverso escritor britânico Roald Dahl (1916 — 1990). Sendo um dos escritores mais vendidos no mundo, Roald Dahl é conhecido, sobretudo, pelas suas obras para o público infantil, sendo célebres “The The Gremlins” (1943) e “Charlie and the Chocolate Factory” (1964), cujas versões cinematográficas são bem conhecidas.

Contos do imprevisto, do original “Tales of the Unexpected” (1979) e a a sua continuação “More Tales of the Unexpected” (1980), reúne uma dúzia de contos com qualidade algo desigual, mas todos originais e muito variados na sua temática e abordagem. Novos Contos do Imprevisto propicia momentos de grande prazer e humor, e cuja leitura é particularmente adequada aos tempos estivais.  

Orfeu B.



domingo, 19 de julho de 2015

O Passageiro Walter Benjamin

 E, se olhasse bem, um lenço que se agitava na distância, não era quase o começo de um fio que, ao desenvolver-se, avança necessariamente para o outro extremo, o da melancolia do regresso? Sim, existia um fio invisível que se desenvolve em cada partida, cada passagem de um lugar para outro, daí o costume de lançar fitas de papel nos molhes, fitas de diferentes cores que acrescentam um aspecto quase festivo à tristeza das despedidas, muitas vezes saboreada por ele com uma complacência que a qualquer outro deveria parecer sempre suspeita. Quase sempre uma mulher se despedira dele num porto, numa estação, daí o seu costume de urdir sempre novas travessias destinadas a aumentar indefinidamente a cadeia … “Será isto a morte?”            
                                    
Ricardo Cano Gaviria

Uma narrativa intensa e íntima das últimas horas de Walter Benjamin, uma figura incontornável da cultura alemã da primeira metade do século XX. Em Setembro de 1940, com 48 anos, uma pasta preta com um manuscrito inacabado e um bilhete de navio para os Estados Unidos, Walter Benjamin, filósofo, crítico cultural, tradutor, especialista no romantismo, no idealismo alemão, na teoria estética e no misticismo judaico, autor de Kafka e do texto essencial “A Obra de Arte na Era de Sua Reprodutibilidade Técnica”, tentava chegar a Lisboa através de Espanha, após cruzar os Pirenéus de França, país onde se refugiara desde 1932. Recordemos que a fúria nazista que varreu da Alemanha toda a actividade intelectual civilizada, obrigou os mais ilustres intelectuais e cientistas a abandonar o país, de Einstein a Thomas Mann, de Max Born a Otto Klemperer, de Bertold Brecht a Kurt Weil, de Alma Mahler a Heinrich Mann. Walter Benjamin, associado ao pensamento crítico da influente, prolífica e muito “judaica” Escola de Frankfurt, estava entre os milhares de intelectuais que abandonaram a Alemanha nazi pouco antes ou logo após Hitler instalar-se no poder em Janeiro de 1933.      

Em “O passageiro Walter Benjamin”, o escritor colombiano radicado em Espanha desde 1970, Ricardo Cano Gaviria, descreve com grande maturidade literária e um grande sentido intuitivo a vida afectiva e intelectual do grande pensador durante as suas horas derradeiras. Adicionando aos factos conhecidos consideráveis doses de imaginação literária, o autor relaciona o trivial de uma fuga desesperada ao transcedental, enquanto explora os meandros de uma mente complexa, exausta e perplexa com a desfavorável cadeia de circunstâncias que lhe impedem de concretizar um precário plano de fuga. Há que mencionar o facto historicamente relevante de estar então o Ministro das Relações Exteriores de Espanha em Berlim, e para demonstrar a Hitler a colaboração do seu país, Franco ordena que a permeável fronteira entre Espanha e França, em Portbou na Catalúnia, seja encerrada para os desprovidos de nacionalidade (a Alemanha nazi retirara a nacionalidade de todos os judeus e dos seus inimigos políticos). Assim, impedido de entrar em Espanha, Walter Benjamin, vê-se na contingência de ser capturado pela polícia francesa da república de Vichy e ser enviado para um campo de extermínio. Na madrugada do dia 26 de Setembro de 1940, o homem que traduziu “Les Fleur du Mal” e parcialmente “À la recherche du temps perdu” de Proust para o alemão, se suicidou com uma forte dose de morfina. 

Orfeu B.




sábado, 6 de junho de 2015

Poemas Canhotos


em boa verdade houve tempo em que tive uma
                                 ou duas artes poéticas,
agora não tenho nada:
sento-me, abro um caderno, pego numa esferográfica
                                   e traço meia dúzia de linhas:
às vezes apenas duas ou três linhas;
outras, vinte ou trinta:
houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei
                      a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu
                                                        estremecer,
mas o mundo, não: nunca senti que o mundo estremecesse
                                        sob as minhas palavras escritas,
o que já senti, e é de facto um pouco estranho, foi isto:
enquanto escrevia, o mundo parecia deslocar-se,
e quando eu chegava ao fim das linhas escritas,
sabia que estava tudo feito,
sentia que deveria morrer
mas, como se vê, nunca o mais simples atingiu em mim a
                                                 sua própria profundidade


Herberto Helder 


O mais simples é possivelmente o mais inacessível. Tornar com que umas poucas linhas façam mais sentido que todas as linhas que as antecederam. Entender que a profundidade é capturar a rasura dos dias e emprestar-lhes um significado até o derradeiro momento. Encerrar a obra no ponto verdadeiramente final.

Agora o poeta não voltará a escrever, a obra está concluída e reverbera na mente dos sonâmbulos sobreviventes. Ler um poema de Herberto Helder era como mergulhar num sonho, mas agora nós acordamos e não haverá novos poemas, destros ou canhotos. Deixou-nos o poeta, ficou-nos a sua ciência e a sua poesia.

Foi assim e será o Herberto Helder dos 13 poemas canhotos finais, o último destes com rimas em ão. Impossível! Não há impossíveis na poesia, o que há são imaginações demasiado curtas, ou imaginações fora do alcance da imaginação. A fabulação de Herberto Helder era ser a cada poema, um outro Herberto Helder, sempre sendo Herberto Helder.    

Um poema não salva o mundo, mas o protege da cacofonia dos maus poemas e dos sofismas de outros discursos. Todo poeta deveria pensar, poisar a pena e fazer um minuto de silêncio. Talvez, escrever  o  poema longuíssimo de um minuto de silêncio de muitas vidas.  

Orfeu B.


escrever poemas não é boa maneira de atordoar os 
tempos do verbo, 
não é o mesmo que meter a cabeça num buraco abissínio,
nem perder algures uma perna/ e lembrar-me depois de perder ainda a outra:
 ninguém ganha assim uma barra de ouro,
ninguém glorifica o corpo queimando-o com barras de ouro,
ninguém transforma assim uma chaga a beleza humana,
tórax e membros e a cabeça por entre a espuma:
e como só de pensá-lo o corpo avança! escrever, 
deixar de escrever,
escrever ou não escrever não é acabar assim tão depressa
 quanto se pensava
um poema ou dois ou cem não é nunca até ao fim,
escrever poemas não é apenas vou ali e já volto à morte do costume:
 colinas tão próximas como se guardassem os nossos próprios olhos,
e logo depois leva-as o vento para adjectivos longínquos,
tudo tão prodigioso que se não entende nada:
uma rosa é uma rosa é uma rosa - disse ela em inglês
 (há quantos anos li isso!)
(há quantos anos fiquei bêbedo desse talhão de roseiras!)
a rose is a rose is a rose et coetera
- mudou-me a vida?
oh faminta ciência da paciência!
coisas bem menores mudaram para sempre a minha vida, 
e então porque não a mudaria uma rosa compactamente múltipla?
morrer por uma rosa é que fia mais fino: 
que fabuloso fio em que roca e em que fuso,
que segredo do mundo

Herberto Helder



terça-feira, 2 de junho de 2015

A ARTE SUPREMA DO MONÓLOGO



Lê-se Sandor Marai como um doce veneno que, página a página, se infiltra no nosso coração e o carrega do júbilo de encontrar as semelhanças que todo o leitor procura nas suas leituras mas também do ferro da dúvida que coloca o nosso rosto no espelho do lado mais sombrio da profunda inquietude de que se faz a condição humana.

O tecido narrativo foge ao diálogo e espalha-se gloriosamente pela arte deslumbrante do monólogo que Marai tão bem domina.

Poderíamos dizer que a estrutura narrativa não é a de um romance mas a de uma sequência de monólogos teatrais.

Sabemos que Casanova fugiu da prisão da Inquisição de Veneza e acaba de chegar a Bolzano, já fora da República de Veneza e vai recompor-se dormindo hopra e horas a fio.

Três momentos poderiam depois tornar-se nos três actos de uma peça de teatro.

1º O monólogo de Casanova ao acordar e descobrir que várias mulheres de Bolzano o vieram espreitar pelo buraco da fechadura para ver quem é aquela personagem extraordinária, artista exímio na arte das cartas e do amor. (“O que é que tu vês?”, perguntam as mulheres à que espreita no momento em que ele se levanta. E ela responde cheia de espanto e admiração: “É um homem!”)

2º O monólogo do Conde de Parma que traz uma curtíssima carta de amor de Francesca, a sua própria mulher, a Giacomo Casanova. O marido velho e poderoso, propõe, mediante uma enorme quantia, que Giacomo se encontre com Francesca, que a seduza e a desengane para que ela regresse para junto do marido “curada” da tentação daquele amor.

3º O encontro dos dois apaixonados, ele mascarado de mulher e ela de homem, a extraordinária declaração de amor de Francesca a Giacomo, e a separação perante a acusação de que Casanova não ser capaz de abraçar o amor verdadeiro, o amor total, o amor de entrega absoluta para além de todas as regras e limites.

Ler Marai é mergulhar no prazer intenso, obsessivo, por vezes quase doentio de trazer os extremos das emoções humanas para o reino da palavra., Sem psicologias baratas nem complicadas elaborações narrativas. Usando apenas o luxo da palavra que, com frequência, nos deixa sem respiração.

domingo, 10 de maio de 2015

Carta ao Futuro

                
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Toda a vida que se cumpre esgota a comunicabilidade onde quer que se anuncie. Assim, a hora da sua verdade não é uma hora de comício, mas de solidão final. A máscara que nos defende não tanto contra os autores como contra nós próprios (porque se nós a montamos não é tanto para que os outros nos identifiquem por ela, como para que nós acabemos de por ela nos identificarmos), essa máscara que é de comédia, ainda quando de tragédia, é bem vã nos instantes derradeiros de qualquer situação, porque então os ohos que nos vêem não nos vêem de fora mas de dentro. Ah, estar só é terrível. E difícil: a própria solidão do espírito inventa a memória da fraternidade corpórea, relembra a presença dos outros, o seu olhar que nos fita e que nos espera do lado de lá da provação. Por isso me ocorre muitas vezes que para um homem saber que voz última lhe fala, deveria ao menos ver-se flagrantemente à hora de uma morte abandonada, numa ilha deserta e perdida. Pascal: On moura seul.

… 

Se há uma vida a cumprir em unidade, se cada qual, dentro do seu mundo, é uma positividade sem margens - toda a vida está certa, para aquele que a vive, dentro da ilusão ou do erro. Por isso nós conhecemos, fora dos que nos oprime ou deseja oprimir, uma certa tolerância fatigada ou fraterna. Irmãos de uma só comunidade, esta que se limita no nascer, no morrer, na angústia de uma redenção qualquer, é bom que nos reconheçamos, sob o mesmo império de uma mesma lei - é bom que um olhar de concórdia nos dê o que puder de reconforto e de encorajamento.

Vergílio Ferreira


Carta ao Futuro (1958) é um texto do romancista e ensaísta Vergílio Ferreira (1916-1996), nome maior da prosa ficcional portuguesa do século XX. Com um claro pendor metafísico e existencialista, a escrita de Vergílio Ferreira, com indeléveis raízes queirosianas, é particularmente tocante no seu cariz memorialista. O autor deixou-nos uma vasta obra, das quais destaco as que conheço e considero marcantes: "Para Sempre" (1983), “Uma Esplanada sobre o Mar" (1986). Vergílio Ferreira foi recipiente do Prémio Camões em 1992.

Carta ao Futuro é uma longa carta-ensaio destinada a um amigo imaginário, para ser lida amanhã, daqui a séculos ou a milénios. Vergílio Ferreira procura nessas linhas aferir se os temas existenciais que nos afligem desde sempre são ainda sentidos ou se já estarão superados. As questões em foco envolvem: o papel da arte e das emoções estéticas, a morte do indivíduo e a sua opacidade, a morte de Deus, a solidão final, a comunicação e a empatia, a unidade do ser, as verdades - que segundo o autor são necessariamente existenciais, o absoluto da arte e a sua sagração. 

Vergílio Ferreira identifica os seus temas essenciais colocando-os no contexto do encontro do ser consigo próprio e da re-criação dos pilares do mundo, substituindo a ilusão da procura de Deus e de algo superior, pelo sentido da comunidade humana adquirido através do entendimento profundo da dádiva da vida, do fazer e do criar, através do sentimento estético associado à arte.  

Nesta carta à humanidade, Vergílio Ferreira apresenta a sua crença de que, ao longo dos tempos, a arte é a forma mais fundamental de evitar que as angústias existenciais fragmentem a essência da humanidade. Uma carta para ser lida inúmeras vezes amanhã, daqui a séculos ou milénios, sempre.
   
Orfeu B.


quarta-feira, 22 de abril de 2015

Contos hieroglíficos


O reino de Larbidel situava-se antigamente no sopé da imponente montanha da Hirgonquiu. Os geógrafos, pouco habilitados para fazer comparações deste género, diziam que o reino se assemelhava a uma bola de futebol prestes a levar um valente pontapé. E foi isso mesmo que aconteceu, já que a montanha pontapeou o reino para dentro do oceano e nunca mais se ouviu falar de tal sítio. 

Um dia, uma jovem princesa subiu à montanha para apanhar ovos de cabra, cujas claras são excelentes para fazer desaparecer sardas. Ovos de cabra! — Sim: os naturalistas afirmam que todos os seres são concebidos em ovos. As cabras de Hirgonquiu podiam muito bem ser ovíparas e pôr ovos para chocarem ao sol. Esta é a minha suposição, independentemente de acreditar nela ou não. Estou aliás, disposto a contestar e a insultar qualquer pessoa que se oponha à minha hipótese. Seria o cúmulo, se homens eruditos fossem obrigados a acreditar naquilo que afirmam!

Horace Walpole

Há autores cuja característica fundamental é a de serem singulares e de terem uma clarividência surpreendentemente intemporal. É indubitavelmente o caso de Walpole, que através desta breve colectânea de seis contos “hieroglíficos”, nos regala com deliciosas distorções, com narrativas absurdas e factos surreais, todos estes invariavelmente impregnados de um humor “non sense”, quinta-essencialmente britânico. 

Escritos antes de 1785, os textos desta rica colectânea só foram publicados depois da morte do autor, em 1797. Mas para além da sua precocidade histórica, os textos de Walpole são de uma contemporaneidade desconcertante. Poder-se-ia argumentar que esta actualidade é fundamentalmente devida à constância do absurdo nas convenções sociais e das situações políticas, mas, na minha opinião, é também muito devida à imaginação delirante e a genialidade do seu autor. 

Os cenários destes contos são tão variados como a fertilidade imaginativa de Walpole e passam pelas Arábias, China, Espanha, Irlanda e Veneza, e foram, apesar de subversivos com relação ao estilo e aos conteúdos literários do seu tempo, um grande sucesso. Outra peculiaridade desta reunião de textos e que só foram publicados postumamente, pois em vida o autor imprimiu apenas sete cópias para a leitura de amigos (apesar da intenção declarada no prefácio de publicar 100 mil cópias!). 

Horace Walpole, que nasceu em 1717, teve uma longa vida e, como o pai, Robert Walpole, que foi primeiro-ministro de Inglaterra, seguiu a carreira política. Porém, foi através da literatura que se imortalizou. O seu O Castelo de Otranto (que eu não li), publicado em  1764, é considerado o marco inicial do movimento gótico europeu. Descrito pelos críticos como um “romance irracional”, a associação dos textos de Walpole aos do surrealismo e aos da modernidade literária é inevitável. A obra de Walpole compreende naturalmente, cartas e discursos políticos, mas também ensaios sobre jardinagem, e previsivelmente, histórias anedóticas, artigos polémicos, memórias forjadas, escritos que suscitaram invariavelmente numerosas polémicas.

Os Contos hieroglíficos são uma preciosidade literária e proporcionam uma leitura extremamente divertida e agradável.  

Orfeu B.




sexta-feira, 17 de abril de 2015

PESSOA LISBOA E OS OUTROS



Nos últimos tempos li duas excelentes publicações de poetas colombianos. A primeira uma antologia da poesia colombiana, a segunda uma colectânea de Juan Manuel Roca, ambos magnificamente traduzidos por Nuno Júdice.
Já ouvi falar e quero ler depressa "Troco a minha vida por candeeiros velhos", creio que de Jeronimo Pizarro, com tradução de Gastão Cruz e publicado pela Abysmo.

Parece-me óbvio que as autoridades colombianas (tão ao contrário das portuguesas) se preocupam em divulgar a sua literatura e, neste caso, a sua poesia.

O entusiasmo que senti ao ler "OS CINCO ENTERROS DE PESSOA" de Juan Manuel Roca começou na apresentação de Germán Santamaría Barragán, Embaixador da Colômbia em Portugal.

"Portugal é a literatura, e o seu idioma é talvez a língua da terra onde melhor soa a lírica da poesia. Portugal é o país contemporâneo onde mais se publica, e se lêem livros de poesia e onde há mais poetas por metro quadrado, e nas ruas de Lisboa a poesia está presente em cada livraria, nas casas de Fado, na roupa estendida ao colorido sol das janelas em cada calçada que trepa por labirintos de assombro...
A silhueta e o fantasma de Fernando Pessoa , um dos maiores poetas da literatura universal de todos os tempos, sente-se respira-se vive-se, e até assusta nesta cidade que é como o umbral mesmo de um paraíso urbano perdido para o homem e eis porque aqui a poesia encontra a sua perfeita morada para existir a partir da própria vida quotidiana dos seres que a habitam."

Juan Manuel Roca traz nos seus versos um sabor latino-americano maravilhosamente excessivo, largo e luminoso, sensual, carregando aos ombros a dignidade da palavra e a forma como apresenta o sabor dos frutos e da almas . É uma poesia que fala da dignidade dos homens ou do amor, que nos faz correr em círculo e nos deixa de súbito suspensos na explosão da palavra.

"Mas nenhum punhal de sobra tão cortante
Como a longa ausência do teu corpo."

Com ressonância de alguns versos de Vallejo, Neruda e outros, esta sensualidade derrama-se numa música de que a nossa poesia, infelizmente, tem andado tão afastada.

Juan Manuel Roca escreve poesia para mastigar, para cantar; poesia para a voz, para a partilha com o leitores, com os leitores que nele também se lembram de que uma vez tiveram "o sol na cabeça", "Os que sempre hão-se ser/ Mãe/ eu próprio corpo de delito"

terça-feira, 14 de abril de 2015

As bibliotecas do futuro

Octave Uzanne (1851-1931) é para a maioria dos leitores um autor desconhecido, apesar de ter sido um dos mais importantes e interessantes homens de letras e publicistas franceses dos finais do século XIX e da primeira metade do século XX. Para os bibliófilos, contudo, é uma figura incontornável, pelas dezenas de textos que publicou sobre o livro e sobretudo sobre a figura excêntrica, maníaca e enigmática do bibliómano, sendo ele próprio um dos maiores representantes da espécie.





aqui foi comentado pelo leitor Orfeu B. um dos seus textos mais importantes sobre a temática: O Fim dos Livros, um texto breve, publicado originalmente em inglês ("The end of books"), no número 2 da Scribner's Magazine e no volume Contes pour les bibliophiles, ambos de 1894.






imagens retiradas de
http://www.octaveuzanne.com/

Neste, o autor prevê que o futuro do livro será aquilo a que hoje chamamos audiolivro:


    "Não acredito (...) que a invenção de Gutenberg possa não cair, mais ou menos proximamente, em desuso (...).
     (...) os nossos descendentes já não confiarão as suas obras a este processo bastante velhinho e na realidade fácil de substituir pela fotografia, que está ainda nos seus inícios.
     O fonógrafo destruirá provavelmente a tipografia. Os nossos olhos são feitos para ver e reflectir as belezas da natureza e não para serem usados na leitura de textos (...)
     Os nossos ouvidos, pelo contrário, são chamados a dar a sua contribuição com menos frequência.
      (...) Nessa altura, que está bastante próxima, já não se chamará escritores aos homens de letras, mas antes narradores; o gosto pelo estilo e pelas frases pomposamente adornadas perder-se-á (...)”

(tradução de Jacinta Gomes, na excelente edição da Palimpsesto)







A leitura do pequeno conto pode ser complementada por um outro texto do mesmo autor, publicado em 1901 na Revue Franco-Allemande, intitulado “Les bibliothèques de l'avenir" (tanto quanto sei, ainda sem tradução portuguesa). É um texto ainda mais curto, sem o recorte literário do anterior, um pouco mais profundo e filosófico, mas igualmente pleno de humor e de ironia.

Uzanne começa por fazer uma crítica aos bibliófilos do seu tempo, por não se preocuparem nem se inquietarem com o futuro das suas bibliotecas. Vivem alegre e festivamente com os seus livros, como nos braços de uma amante, sem pensarem no acolhimento que estes possam vir a ter no futuro.

Mas o tema central são as bibliotecas do futuro, que Uzanne prevê que venham a ser constituídas por uma escolha muito criteriosa de livros, excluindo romances e textos de teatro:

“Os romances, esses enganadores da imaginação, esses inúteis gastadores de tempo serão proscritos para sempre, assim como os textos de teatro, que poderemos continuar a ver representados, mas que jamais voltarão a ser lidos.”

As bibliotecas dos bibliófilos do futuro serão um imenso “directory” de livros, constituído por dicionários, enciclopédias condensadas, compêndios, glossários de palavras e de coisas, obras de referência e índices de todos os géneros. Os livros serão bem encadernados e marcados com símbolos que permitam a sua rápida identificação.

Os homens de letras pertencerão a uma espécie de clubes ou círculos, onde os livros que constam dessas obras de referência podem ser lidos nos seus salões ou ser requisitados para leitura domiciliária através do telefone.

Os livros da época de Uzanne não serão mais do que pesos-mortos para as gerações pragmáticas do futuro, que se livrarão deles para prosseguirem a sua rápida marcha em frente.

A leitura de “Les bibliothèques de l’avenir” não só complementa (por vezes até contradiz) O Fim dos Livros, mas também nos diverte quando verificamos se as previsões se aproximam ou afastam da realidade do nosso tempo. Ambos os textos primam pela ironia, pois, como em todas as utopias, a previsão do futuro diz-nos provavelmente mais sobre as aspirações, receios e mundividência de quem escreve do que sobre o mundo que profetiza.

Para ler o texto de Uzanne em formato pdf:

https://www.hightail.com/download/UVJnYUo4ckk5eFVsYzhUQw

Para consultar o site de Bertrand Hugonnard-Roche, o maior especialista actual em Octave Uzanne:

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Boa Noite, Senhor Soares



O senhor Soares percorre as áleas do Jardim da Estrela, o qual se esconde como um fantasma de um parque antigo, dos séculos antes do descontentamento da alma. E enquanto os cisnes deslizam no espelho de água o senhor Soares, contemplando-os com olhos semifechados por trás das lentes, magica numa quermesse em que participam columbinas e pierrots e arlequins. Observa a criança que apanhou um tabefe da mãe por ter desejado mais um caramelo, e compadece-se do choro desabalado, vendo nele a metáfora da condição de todos nós, ambiciosos de uma cor inatingível, e do paladar que lhe corresponde. O senhor Soares repara agora no soldado que passa o braço nos ombros da criadita no banco que fica à beira  do canteiro de gladíolos, e inventa o teor das cartas que os dois se trocam ao longo das semanas, e nas quais se tratam por “meu adorado amor”, “minha vida”, e “riqueza do meu coração”. O senhor Soares leva o sapatos ligeiramente cambados, a dobra das calças surradas pelo pó, e o cabelo ao léu, mal lambido pela brilhantina. Aproxima-se de uma rapariga de expressão azougada, uma dessas moreninhas que gostam de exteriorizar uma certa malícia, simbolizada pela vírgula de penteado que se lhes cola à testa. 

E tudo isto se mistura na minha visão, não sei bem porquê, com um romance ancestral, em  cujas linhas intervêm Hamlet e Ofélia, heróis do grande Shakespeare, que só conheço de ouvir falar. A mulher, tendo escorraçado o cão para o quintal, e dado de comer às galinhas e rolas, passaria agora na cozinha, remexendo nas cafeteiras do pequeno almoço, e gemendo por causa das artroses que pela manhã, e enquanto os joelhos se lhe não desprendem, a afligem mais do que nunca. O senhor Soares dissolve-se na luz do Jardim da Estrela, passeado a par da jovem que o esperava, mas de atenção posta mais nos carreirinhos das formigas do que nas pupilas negras daquela que palra sem cessar, acho eu que o metro da renda de Malines, ou sobre a audácia dos trapezistas do Circo Price que veio uma vez a Lisboa. E é então que principio a resvalar em definitivo para o sono, quando a claridade me entra pelas frinchas da persiana, e o senhor Soares se dirige a um país muito distante que no meu torpor se chama “Mar Português”. Atrás dele segue uma fosca multidão, e a primeira individualidade que nela distingo é aquele famoso doutor Reis, marchando muito erecto, com um livro aberto na mão direita, e um lápis em riste na mão esquerda, e que vai contando as sílabas de um verso, ou dividindo as orações de uma estrofe.

Mário Cláudio


Numa célebre carta a Casais Monteiro, Fernando Pessoa define o autor do Livro do Desassossego: «O meu semi-heterónimo Bernardo Soares, que aliás em muitas coisas se parece com Álvaro de Campos, aparece sempre que estou cansado ou sonolento, de sorte que tenha um pouco suspensas as qualidades de raciocínio e de inibição; aquela prosa é um constante devaneio. É um semi-heterónimo porque, não sendo a personalidade a minha, é, não diferente da minha, mas uma simples mutilação dela. Sou eu menos o raciocínio e a afectividade.»

Há muito, eu acredito que há uma infinidade de Livros do Desassossego. As razões que me levam a pensar desta forma foram expostas neste mesmo blog num breve texto. Mas se esta multiplicidade pode sugerir uma diluição do estilo do autor e uma dificuldade acrescida na fixação da sua unicidade, a leitura desta deliciosa novela convenceu-me que, depois da fonte, o Livro do Desassossego, o texto de Mário Cláudio é o que melhor situa o semi-heterónimo de Fernando Pessoa no contexto da cultura portuguesa. A novela de Mário Cláudio é uma radiografia da alma portuguesa, nas suas fraquezas e na sua grandeza. Mário Cláudio captura, com grande argúcia, as minudências e a essência dos tempos de Fernando Pessoa, demonstrando, por contraste, a singularidade da sua obra face às limitações materiais e intelectuais da sua vida quotidiana.   

Fundamentando-se no Livro do Desassossego, Mário Cláudio recria o guarda-livros Bernardo Soares através de um engenhoso artifício. Utiliza como narrador o moço de escritório - António da Silva Felício — um jovem recém chegado da província que se emprega, na função de aprendiz de caixeiro de escritório, no armazém de venda a retalho situado na Rua dos Douradores, onde o senhor Soares é tradutor. Mas na verdade, também o artifício esconde uma surpresa final: o autor do texto que exara os tempos de escritório de António da Silva Felício, é na verdade um escritor contratado, que não se coíbe de imprimir o seu estilo e as suas convicções à narrativa do seu contratante!   

Boa Noite, Senhor Soares, é uma novela de grande densidade humana e de grande mestria literária. Nela o leitor encontrará, para além da prazeirosa leitura, uma reinvenção extraordinária da vida criativa de um dos mais enigmáticos autores da língua portuguesa.

Orfeu B.


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?






“-Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde.”

A frase, convocada pela memória da personagem Beatriz logo no início do livro, é um dos pontos de partida deste romance, uma memória da juventude do autor e também uma citação do seu primeiro romance, Memória de Elefante. Assim se define uma das temáticas centrais: a passagem do tempo e a memória. Neste romance tudo se orienta e tudo se constrói a partir da morte da mãe, origem do labirinto das memórias individuais de uma vida familiar, que vão ser a sua substância narrativa.

Aquele domingo de Páscoa, 23 de Março, às 6 horas da tarde, momento da morte, sorte suprema de um romance estruturado como uma corrida de touros, é o pretexto para que o marido, os filhos e a criada Mercília se assumam como vozes narrativas de cada um dos quatro andamentos das cinco sortes tauromáquicas da corrida, que podem ser também as da vida e as da escrita.

Na linha de uma temática recorrente na obra de ALA, desde, pelo menos, Auto dos Danados, o romance revela-nos uma família desagregada e disfuncional, onde as relações e manifestações de ternura e afecto são sempre difíceis ou inexistentes, e onde as personagens procuram, na alienação ou no delírio, mitigar o deserto da sua dificuldade emocional e da carência que dela decorre.

Neste romance encontramos uns pais distantes, cujo afecto pelos filhos é sempre recusado ou apenas concedido em breves momentos, como aquele, real ou imaginário, em que o pai convida Beatriz a subir ao estribo do cavalo e a leva junto ao mar. É nesse espaço de fronteira para um limiar da imaginação que esta jura ter visto a sombra dos cavalos, memória eufórica e insistentemente convocada por esta personagem, que abre e fecha o romance.

A mãe, cuja morte se aproxima, como que delega em Mercília o amor e a proximidade que sempre recusou aos filhos. Mercília, afinal alter ego maternal que todos amam e simultaneamente desprezam ou rejeitam, única fonte de afecto que a todos protege e cujos pecados encobre. Mercília e o seu álbum de fotografias, que revela um surpreendente passado familiar que se vai entrelaçando no presente. Mercília, revelada tia por esse passado, e que, após a morte da mãe, tem também sofre a sua sorte suprema, ao ser expulsa por Francisco.

“-Onde é o passeio dona Mercília?
-Longe”

O afecto é procurado nos espaços de alienação exteriores à quinta, exteriores à terra, à mãe, à família. É procurado por Ana, no baldio onde se relaciona com o traficante de heroína que a explora e maltrata:

“-Quem é o teu dono?”

Também é procurado por João, homossexual e pedófilo, no parque em que transacciona o amor com os meninos, único lugar em que parece conseguir exprimir a dádiva do amor:

“-Quanto custas menino?”

Pelo pai, sempre ausente nos trabalhos da terra, pelos quais tenta sublimar a relação falhada com a mulher e que se vai perdendo e arruinando no jogo, numa repetição constante e obsessiva da aposta no número dezassete, um número que, por sempre falhar, parece não existir na roleta daquele casino, espaço de sortes adversas em que vai delapidando a fortuna e a vida.

O afecto é ainda procurado por Francisco, que sofre a obsessão da avareza e da vingança, e que tudo faz ilicitamente para ficar com os bens da família, possuído por uma espécie de racionalidade materialista de quem se sente injustiçado e que tudo rejeita e odeia nessa cegueira da carência:

“-Não tenho pais.”

Por fim, a personagem Rita, a quem a lua sorria, que atravessa o romance devastada pelo cancro, como um espectro nas vozes dos irmãos. Irmãos que paradoxalmente, para além da enunciação desta condição, parecem nada ter de fraterno, vivendo num universo de tensão, repulsa e raiva, ainda que pontualmente marcado por memórias de momentos intensos de alguma ternura.

A quinta onde vivem é o lugar matricial do romance, lugar amado e rejeitado, por oposição à cidade ou à casa da cidade, e que contamina a todo o momento um discurso povoado de elementos telúricos, onde os touros e os cavalos, junto às azinheiras, são tantas vezes metáfora e metonímia de medos e fantasmas.

O discurso exerce-se na técnica polifónica, magistralmente reelaborada por ALA, onde múltiplas vozes se entretecem à volta de uma dominante, que configuram, muitas vezes, apenas ecos distantes da recordação de situações ou objectos. Uma polifonia em que a voz do autor-narrador também emerge, exprimindo as suas dúvidas ou hesitações criativas que muitas vezes transfere para a consciência das personagens de cujos destinos é artífice.

As frases são reiteradas, numa técnica habitual em ALA, como que figurações de temas com inúmeras variações ou modulações de tonalidade, formando uma filigrana narrativa depurada segmento a segmento, palavra a palavra, por vezes mesmo letra a letra, num exercício de composição que confere à escrita de ALA um carácter de palavra essencial: nela nada está a mais ou a menos, como se uma outra palavra, em vez da que está, desse origem a um outro livro que não este.

Estamos perante uma escrita que, na sua ambiguidade e desestruturação, nos interpela e nos fascina e que obriga o leitor a reconstruir dentro de si toda a teia lógica do romance.

Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? é um romance de sombra e sol, em que os cavalos, sob a luz, vão ludibriando a morte que se anuncia projectando a sua sombra sobre as águas, destruidoras ou criativas, que nem todos conseguem alcançar ou sequer vislumbrar. O lente, lente currite, noctis equi, como se os mesmos cavalos do verso de Ovídio pudessem trazer a noite.

“Chegam os cavalos que fazem sombra no mar e assim que o mar emergir do escuro desaparecemos para sempre.”