quinta-feira, 2 de abril de 2015

Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?






“-Como esta casa deve ser triste às três horas da tarde.”

A frase, convocada pela memória da personagem Beatriz logo no início do livro, é um dos pontos de partida deste romance, uma memória da juventude do autor e também uma citação do seu primeiro romance, Memória de Elefante. Assim se define uma das temáticas centrais: a passagem do tempo e a memória. Neste romance tudo se orienta e tudo se constrói a partir da morte da mãe, origem do labirinto das memórias individuais de uma vida familiar, que vão ser a sua substância narrativa.

Aquele domingo de Páscoa, 23 de Março, às 6 horas da tarde, momento da morte, sorte suprema de um romance estruturado como uma corrida de touros, é o pretexto para que o marido, os filhos e a criada Mercília se assumam como vozes narrativas de cada um dos quatro andamentos das cinco sortes tauromáquicas da corrida, que podem ser também as da vida e as da escrita.

Na linha de uma temática recorrente na obra de ALA, desde, pelo menos, Auto dos Danados, o romance revela-nos uma família desagregada e disfuncional, onde as relações e manifestações de ternura e afecto são sempre difíceis ou inexistentes, e onde as personagens procuram, na alienação ou no delírio, mitigar o deserto da sua dificuldade emocional e da carência que dela decorre.

Neste romance encontramos uns pais distantes, cujo afecto pelos filhos é sempre recusado ou apenas concedido em breves momentos, como aquele, real ou imaginário, em que o pai convida Beatriz a subir ao estribo do cavalo e a leva junto ao mar. É nesse espaço de fronteira para um limiar da imaginação que esta jura ter visto a sombra dos cavalos, memória eufórica e insistentemente convocada por esta personagem, que abre e fecha o romance.

A mãe, cuja morte se aproxima, como que delega em Mercília o amor e a proximidade que sempre recusou aos filhos. Mercília, afinal alter ego maternal que todos amam e simultaneamente desprezam ou rejeitam, única fonte de afecto que a todos protege e cujos pecados encobre. Mercília e o seu álbum de fotografias, que revela um surpreendente passado familiar que se vai entrelaçando no presente. Mercília, revelada tia por esse passado, e que, após a morte da mãe, tem também sofre a sua sorte suprema, ao ser expulsa por Francisco.

“-Onde é o passeio dona Mercília?
-Longe”

O afecto é procurado nos espaços de alienação exteriores à quinta, exteriores à terra, à mãe, à família. É procurado por Ana, no baldio onde se relaciona com o traficante de heroína que a explora e maltrata:

“-Quem é o teu dono?”

Também é procurado por João, homossexual e pedófilo, no parque em que transacciona o amor com os meninos, único lugar em que parece conseguir exprimir a dádiva do amor:

“-Quanto custas menino?”

Pelo pai, sempre ausente nos trabalhos da terra, pelos quais tenta sublimar a relação falhada com a mulher e que se vai perdendo e arruinando no jogo, numa repetição constante e obsessiva da aposta no número dezassete, um número que, por sempre falhar, parece não existir na roleta daquele casino, espaço de sortes adversas em que vai delapidando a fortuna e a vida.

O afecto é ainda procurado por Francisco, que sofre a obsessão da avareza e da vingança, e que tudo faz ilicitamente para ficar com os bens da família, possuído por uma espécie de racionalidade materialista de quem se sente injustiçado e que tudo rejeita e odeia nessa cegueira da carência:

“-Não tenho pais.”

Por fim, a personagem Rita, a quem a lua sorria, que atravessa o romance devastada pelo cancro, como um espectro nas vozes dos irmãos. Irmãos que paradoxalmente, para além da enunciação desta condição, parecem nada ter de fraterno, vivendo num universo de tensão, repulsa e raiva, ainda que pontualmente marcado por memórias de momentos intensos de alguma ternura.

A quinta onde vivem é o lugar matricial do romance, lugar amado e rejeitado, por oposição à cidade ou à casa da cidade, e que contamina a todo o momento um discurso povoado de elementos telúricos, onde os touros e os cavalos, junto às azinheiras, são tantas vezes metáfora e metonímia de medos e fantasmas.

O discurso exerce-se na técnica polifónica, magistralmente reelaborada por ALA, onde múltiplas vozes se entretecem à volta de uma dominante, que configuram, muitas vezes, apenas ecos distantes da recordação de situações ou objectos. Uma polifonia em que a voz do autor-narrador também emerge, exprimindo as suas dúvidas ou hesitações criativas que muitas vezes transfere para a consciência das personagens de cujos destinos é artífice.

As frases são reiteradas, numa técnica habitual em ALA, como que figurações de temas com inúmeras variações ou modulações de tonalidade, formando uma filigrana narrativa depurada segmento a segmento, palavra a palavra, por vezes mesmo letra a letra, num exercício de composição que confere à escrita de ALA um carácter de palavra essencial: nela nada está a mais ou a menos, como se uma outra palavra, em vez da que está, desse origem a um outro livro que não este.

Estamos perante uma escrita que, na sua ambiguidade e desestruturação, nos interpela e nos fascina e que obriga o leitor a reconstruir dentro de si toda a teia lógica do romance.

Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar? é um romance de sombra e sol, em que os cavalos, sob a luz, vão ludibriando a morte que se anuncia projectando a sua sombra sobre as águas, destruidoras ou criativas, que nem todos conseguem alcançar ou sequer vislumbrar. O lente, lente currite, noctis equi, como se os mesmos cavalos do verso de Ovídio pudessem trazer a noite.

“Chegam os cavalos que fazem sombra no mar e assim que o mar emergir do escuro desaparecemos para sempre.”

domingo, 22 de março de 2015

AINDA “O VISITANTE DA NOITE” DE B. TRAVEN

A Maria Teresa, minha mulher, que tinha lido a obra de B. Traven (“O Visitante da Noite”), chamou-me a atenção para um conto deste livro, intitulado “Linha de Montagem” que, em sua opinião, era dos contos mais conseguidos, mais representativos do sentir, do pensar dos índios de Chiapas, região onde B. Traven viveu. Texto que não tinha sido mencionado na minha crónica que havia publicado sobre o livro. Evidentemente que este reparo crítico me levou a reler o conto e, como era de prever, a dar razão à Maria Teresa. De facto, trata-se de uma pequena obra prima, na qual se caracteriza a alma, a argúcia de um habitante da região. Um pobre camponês índio que, nas horas que não tinha trabalho no campo, se dedicava à confecção de pequenos cestos, para vender no mercado da cidade mais próxima. Cestos de palha, nos quais inseria fibras de cores variadas, que representavam animais e outros seres, segundo a sua fantasia no momento da confecção desses objectos, para vender nos dias de mercado. “No mercado, pagava uma taxa de vinte centavos para poder vender os cestos. Cada um deles exigia-lhe vinte a trinta horas de trabalho, sem contar com o tempo gasto a colher as fibras, a prepará-las, a tingi-las – e vendia-os a cinquenta centavos, o correspondente a quatro cents americanos”. E as coisas iam-se mantendo assim até que apareceu um turista norte-americano, o senhor Winthrop, que se encantou com os cestinhos. Regressado à sua cidade, vendeu os cestos que trouxera a uma confeitaria, que lhe encomendou uma remessa de dez mil dos ditos cestos, para acondicionar os chocolates que fabricava. O que ele considerou ser o negócio da sua vida. De volta à aldeia índia, o senhor Winthrop apresentou uma proposta ao autor daquelas pequenas obras primas, o que o não deixou nada entusiasmado, pois, considerou o camponês índio, que, nem ao longo da sua vida, conseguiria fazer uma quantidade tão avultada de “canastitas”. Ao que o norte-americano argumentou que podia ensinar aos outros agricultores a sua arte, o que os levaria a ganhar muito mais do que auferiam com os seus campos. Contrariado, o artista índio pede-lhe uma noite para pensar no assunto e apresentar-lhe uma contraproposta de preços e prazos. O que, de facto, aconteceu, com surpresa do norte-americano, pois quanto mais cestos fizesse, mais caros seriam. E explicou que com o abandono progressivo dos campos mais cara se tornaria a vida quotidiana, pois seriam obrigados a comprar os produtos alimentares, que deixariam de poder cultivar. Por consequência, os cestos teriam de ser muito mais caros, para as pessoas poderem sobreviver. Enfim, uma lógica imbatível, que ultrapassava a compreensão do senhor Winthrop, o homem da civilização das linhas de montagem. E o nosso artista índio dá o assunto por encerrado quando diz ao senhor Winthrop: “Aliás, há mais uma coisa que talvez não saiba, señor: bem vê, estas canastitas, tenho de as fazer à minha maneira, metendo nelas a minha canção e entrançando pedacinhos da minha alma. Se tivesse de fazer todas as que o senhor quer, deixaria de poder pôr a minha alma e as minhas canções em cada uma, seriam todas iguais umas às outras, e isso ir-me-ia matando aos poucos. Cada um dos meus cestos tem de ser uma canção, que ouço de manhã quando o sol nasce, quando as aves despertam e as borboletas vêm pousar neles. Porque as borboletas gostam dos meus cestos e das suas cores bonitas, e é por isso que vêm pousar neles, e é observando-as que imagino novas canastitas. E com isto, señor jefecito, desculpar-me-á, mas tenho de voltar ao trabalho. Já perdi muito tempo, embora seja para mim um prazer e uma grande honra ouvir um caballero do seu gabarito. Mas depois de amanhã é dia de mercado na cidade, preciso de ter cestos para vender. Obrigado pela sua visita, señor, e adiós”. Moral da história: a Maria Teresa tinha razão. A alma de um índio habita na obra de arte que ele produz. E não será assim com todo o verdadeiro artista?

sábado, 7 de março de 2015

OMBELA





"Dizem os mais-velhos
que a chuva nasceu
das lágrimas de Ombela,
uma deusa que estava triste."

Inspirado num conjunto de poemas de Manuel Rui, esta narrativa de Ondjaki situa-nos no campo maravilhoso da mitologia e conta-nos como nasceram as chuvas.

"OMBELA" é um daqueles livros que nos leva a perceber que há uma diferença grande entre literatura infantil e "livros para crianças" ou pedagogia envolta em papel de letras.

"Ombela" fala-nos do início do mundo e fá-lo de forma delicada e doce, situando a narrativa o centro do mais belo uso das palavras como símbolos, instrumentos mágicos para entender o sentido das coisas mais simples e das mais complexas.

Esta é a literatura de que as crianças precisam. E mais, esta é a língua que as crianças conhecem e desejam, a língua da poesia, a língua primeira da humanidade.

O excelente trabalho de ilustração de Rachel Caiano leva-nos a outra questão que é a de destrinçar a ilustração que repete as palavras, que as torna mais pequenas ou mais explícitas e óbvias, e a outra ilustração, que em verdade talvez nem ilustração se devesse chamar, e que constitui um discurso plástico paralelo ao texto e que por vezes se aproxima mais desse texto, outras vezes se afasta mais. E assim, a "ilustração" não ilustra ou repete a palavra mas acrescenta-lhe uma outra dimensão.

"Ombela" é um livro maravilhoso de literatura infantil que por o ser deve ser lido por todos tenham que idade tiverem.

quarta-feira, 4 de março de 2015

"O VISITANTE E A NOITE" B. TRAVEN

“O Visitante da Noite e Outros Contos” é o título de uma obra de B. Traven (1882-1969), publicado pela Antígona. B. Traven não é um pseudónimo literário, é a assumpção de uma nova identidade que o autor assume, a partir de um determinado momento, e que utiliza em todos os actos da sua vida. Uma forma de ocultação da sua vida pessoal. E escreve B. Traven: “Nunca a um criador de uma obra intelectual se deveria exigir a apresentação do «curriculum». É uma falta de cortesia”. Só depois da sua morte é que se descobre a sua identidade original: Ret Marut, um revolucionário e homem de teatro alemão, que se refugia no México, na região de Chiapas. Chiapas, no sudoeste do México, terra de índios pobres (camponeses e mineiros), de “bandoleros”, é o local onde se passam as histórias deste livro. Onze histórias, de três a cinquenta e nove páginas, de que destaco dois textos: o que dá título ao livro e “Chamada Nocturna”, uma das histórias mais longas da obra - e das melhores. “O Visitante da Noite” passa-se no interior da floresta mais densa, onde B. Traven se fixara como agricultor, explorando um lote de terra que tinha adquirido. O seu diálogo com a floresta misteriosa, as leituras que faz em casa de um outro branco, o seu vizinho mais próximo, leva-o a um estado de “devaneio”, em que a realidade e a fantasia se confundem e o confundem, de tal modo que só fugindo daquele ambiente é que poderá recuperar a sua lucidez. É um belíssimo conto, onde a natureza, o homem, a sua história e a sua mitologia, se entrelaçam numa teia que ameaça devorar-nos se dentro dela nos deixarmos cair. Povo misterioso, descendente de grandes senhores aztecas, maias, “Chamada Nocturna”, conto a que já me referi, é um texto que nos dá uma outra dimensão deste povo, explorado pelo capital do colonizador norte-americano. Povo que reage e luta pela reposição dos seus direitos. Povo de “bandoleros” que lutam com as forças militares oficiais, em que o autor se vê envolvido ao salvar a vida de um desses fora de lei. Uma visão da realidade do tempo em que Traven escreve, realidade na qual se insere o movimento “zapatista”. O livro que acabo de ler é isto e muito mais. Por isso, não posso deixar de recomendar a sua leitura, tão variada e tão rica é a temática que aborda na caracterização do povo de Chiapas, na primeira metade do século XX.

sábado, 28 de fevereiro de 2015

O centauro no jardim



(Me imaginava vagueando, não no deserto, como os judeus, mas numa planície coberta de neve, na qual meus cascos afundavam; as patas enregeladas quase não me obedecendo, mas de cabeça erguida, eu prosseguia - arriscando tudo. E conseguia: de súbito, toda a parte posterior do corpo se destacava e ficava, pelas patas, encravada na neve, enquanto a metade anterior, agora aliviada da carga avançava, sumia no horizonte.)

Moacyr Scliar



Desde A Metamorfose de Kafka (texto escrito em 1912 e publicado em 1915), a transformação (do alemão Die Verwandlung, ou metamorfose segundo a versão francesa que mais nos influenciou) é um artifício fundamental da literatura moderna. Em O Seio (1972), Philip Roth inicia a trilogia envolvendo o professor de literatura David Kepech, com a desconcertante transformação deste especialista em literatura do século XX em um gigante seio feminino. Tal como na metamorfose de Gregor Samsa, o enigma acerca da génese da transformação de Kepech é mantido e esta parece ser irreversível.  

Em “O centauro no jardim” (1980), o escritor gáucho, médico, judeu, Moacyr Scliar (1937-2011), apresenta-nos uma nuance particularmente fascinante do processo de transformação, associando a componente mítica da figura do centauro ao realismo psico-neurológico de uma patologia no contexto das bruscas alterações da sociedade brasileira dos anos 1960 e 1970.  

Neste livro de grande engenhosidade e humanidade, o autor da A guerra no Bom Fim (1972), Os leopardos de Kafka (2000), entre muitos outros, expõe-nos, em primeira pessoa, a biografia de um homem de 38 anos, filho de um casal de judeus de origem russa, transplantado no interior do Rio Grande do Sul por um programa para salvar famílias judias vítimas dos pogroms. Neste ambiente radicalmente distinto ao das suas origens, nascem os filhos do casal Tratskovsky, o quarto assaz extraordinário, Guedali, centauro: metade homem, metade cavalo. Guedali, cresce, por força da sua bizarra natureza, solitário, excluído, propenso à leitura e aos estudos. Mas à extraordinária descrição da existência de Guedali, segue a reflexão do homem a caminho da maturidade e o inevitável vislumbre de que a sua singularidade individual só faz sentido no contexto da sua família e da sua história pessoal, no contraste da sua condição de judeu, ainda que centauro, com a sociedade que o circunda, e o inevitável processo de assimilação. Ao homem maduro impõe-se a explicação racional de que a sua condição de centauro, era na verdade, uma situação patológica causada por um tumor no cérebro. E finalmente, a conclusão de que ansiedade centáurea ou de cavalo alado, não lhe foi extirpada pelo escalpelo do cirurgião que lhe restituiu a condição de homem, pois continuava sempre viva a sua voracidade pelas cavalgadas por campos abertos e pelo seu irresistível poder libertário. 

Orfeu B.


                                                      

sábado, 17 de janeiro de 2015

UM CONTO EXEMPLAR DE RUBEN FONSECA

O conto é um dos géneros literários que mais evoluíram ao longo dos tempos. Hoje, é impossível definir o que é um conto. Em última instância, será o que o autor considerar como tal… O termo “exemplar”, que utilizo para designar um conto de Rubem Fonseca, intitulado “A Festa”, publicado no seu livro “Amálgama” (Sextante Editora), não tem o significado das “Novelas Exemplares” de Cervantes, nem o sentido de histórias exemplares de “virtude” e “proveito” da Idade Média. Significa, apenas e tão somente, que estamos perante um exemplo perfeito da estrutura de um conto do nosso tempo, nitidamente com influência de autores norte-americanos da segunda metade do século XX. O conto é narrado pela personagem central da história como algo que lhe tenha acontecido, o que confere ao texto um cunho de oralidade que favorece a sua veracidade. Inicia-se com a postura do autor em relação a festas de salão – que ele odeia, pura e simplesmente. De seguida, passa a caracterizar o ambiente em que decorre a festa em que ele se encontra, festa dada por uma viúva rica, que vive sozinha, pois a sua única filha está zangada com a mãe. Mãe que, apesar de todas as plásticas, continua “um bucho”. A descrição da festa onde ele se encontra vai-se processando através de referências a algumas mulheres que também lá se encontram. Ele esclarece que é um homem que as mulheres consideram “bonito”. Este facto, aliado à elegância do seu vestir, abre-lhe as portas das festas e facilita-lhe o convívio com as mulheres. No entanto, o seu objectivo é outro: aproximar-se da dona da casa e seduzi-la – o que, de facto, acaba por conseguir. Fala-lhe de Amesterdão (onde sabe que ela tem um apartamento), esclarecendo-a da existência de três Distritos da Luz Vermelha e não de um, como ela pensava (as informações que a “internet” nos fornece…). A senhora, que diz chamar-se Mimi, quer saber o nome dele e o que faz. Ele é perentório: não tem profissão porque é milionário. E diz-lhe que ela é uma senhora encantadora e, depois de muito hesitar, confessa que gostaria de beijá-la, a que ela depressa acede e, camufladamente, fornece-lhe uma chave da casa e, à puridade, recomenda-lhe que volte daí a três horas. O que ele faz. Mal chega, é recebido pela dama que o conduz imediatamente ao quarto e se despe. Na cama, ele, muito profissionalmente, assassina-a com uma torsão de pescoço. Revista os armários e junta, num saco que trazia no bolso, as joias que encontra. Abre uma janela que dá para o jardim e sai tranquilamente pela porta da rua. E o conto termina com um diálogo espantoso, que faz luz sobre a narrativa que se vinha desenvolvendo ao longo de seis páginas: “Retirei-me calmamente e, três ruas adiante, peguei o meu carro e fui para a casa de Lucy. Ela me esperava, ansiosa. «Foi tudo bem? Matou a megera?» «Sim.» Peguei o saco com as joias e coloquei à sua frente. «Aqui estão as joias dela. Tive que fingir que o assassino é um ladrão.» «Depois vamos sumir com essa merda, jogar no lixo. Ai, que bom que você matou a megera. Vamos para a cama. José, meu amor, estou morrendo de tesão.» Fomos para a cama. Eu não disse que as pessoas são estranhas? Eu mato a mãe de Lucy e ela fica cheia de tesão.”

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

O Epigrama de Staline


 Vivemos, surdos à terra abaixo de nós,
A dez passos de distância ninguém ouve os nossos discursos.

Tudo quanto ouvimos é o alpinista do Kremlim,
O assassino e exterminador de camponeses.

Os seus dedos são gordos como larvas
E palavras, finais como pesos de chumbo, caem-lhe dos lábios.

Os seus bigodes de barata são maldosos,
E o cimo das suas botas brilha.

À sua volta, uma turba de líderes de pescoço fino
Meios-homens bajuladores com os quais ele brinca.

Eles relincham, ronronam ou gemem 
Quando ele palra e aponta o dedo.

Um a um a forjarem as suas leis, para serem lançadas 
Como ferraduras à cabeça, aos olhos ou às virilhas.

E cada morte é um deleite
Para o osseta de peito largo.

Osip Mandelstam


Nos anos de 1930 a vida valia muito pouco no sistema soviético. Enquanto os camponeses morriam à fome e as suas colheitas eram confiscadas para que se organizassem nos improdutivos kolkozes, os opositores eram impiedosamente humilhados, sentenciados e considerados culpados de acusações absurdas. Eram invariavelmente fuzilados ou desterrados para as mais elevadas latitudes na Sibéria.

Em Novembro de 1933, num acesso de ingenuidade demencial, o poeta Osip Mandelstam, considerado por muitos como o mais dotado poeta russo do século XX, escreve a sua sentença de morte sob a forma de 16 estrofes. Um epigrama dedicado a Staline, que no seu infantil julgamento, criaria uma reação colectiva e finalmente a queda do ditador. 

Na noite de 16 de Maio de 1934, Mandelstam é preso e conduzido à prisão do KGB em Lubyanka. Foi torturado e interrogado ao ponto de perder temporariamente a razão, mas não foi fuzilado por ser protegido de Bukharine, ou talvez porque Staline pretendesse que o poeta lhe escrevesse uma homenagem. Foi deportado por quatro anos, com o direito de escolher a povoação do seu desterro. Sobrevive neste período, com a sua esposa Nadezhda, à pobreza extrema. Ao regressar a Moscovo, o próprio Bukharine e os seus torturadores já haviam sido fuzilados e substituídos. Voltou a ser preso e condenado a um novo exílio, agora num Gulag na Sibéria, onde acabou por morrer, presumivelmente no inverno de 1938-1939, com 47 anos.

Em 1956 Osip Mandelstam foi reabilitado e declarado inocente das acusações contra si proferidas em 1938. Em Outubro de 1987, durante a Perestroika de Mikhail Gorbachev, Mandelstam foi ilibado das acusações de 1934 e portanto, completamente reabilitado.

O Epigrama de Staline descreve-nos com realismo a vida trágica de um artista notável condenado pelo crime de poesia. O Epigrama de Staline é um livro sobre um período negro da História, sobre a vida num regime que eliminou impiedosamente qualquer forma oposição, esmagou os seus protagonistas culturais mais notáveis (Mayakovski, por exemplo, suicidou-se em 1930, o físico Lev Landau esteve preso por um ano em 1938-1939), levou muitos outros ao exílio (Rachmaninoff e Prokofiev), e subjugou os sobreviventes aos asfixiantes cânones da arte oficial do realismo socialista. O Epigrama de Staline é também notável pela mestria psicológica com que descreve a complexa relação de Mandelstam com escritores como Anna Akhmatova e Boris Pasternak (ver também Salvo-Conduto) e com outros do mundo literário do seu tempo. 

A morte de Mandelstam coincide com encerrar duma era e com o apagar de qualquer esperança  de humanidade de uma revolução que, cínica e violentamente, deu origem a um regime brutal e completamente irracional. Staline, o subtil observador da dialéctica da História, não percebe a inevitabilidade da guerra e mesmo às portas do mais sangrento conflito armado de sempre, faz um pacto sinistro com o Nazismo, o tratado Molotov-Ribbentrop de 1939, no qual acorda com Hitler a divisão da Polónia e obtém a anuência para invadir a Finlândia e os Países do Mar Báltico. Os acontecimentos subsequentes são bem conhecidos. No verão de 1941, a Alemanha ataca a União Soviética, sua aliada. A União Soviética está seriamente despreparada. Dos 55 milhões de seres humanos que morreram na Segunda Grande Guerra, 20 milhões eram cidadãos soviéticos.  


Orfeu B.

domingo, 4 de janeiro de 2015

As Avenidas Periféricas




O mais gordo dos três é o meu pai, …

Uma velha fotografia, descoberta por acaso no fundo de uma gaveta e à qual, com cuidado, tiramos o pó. A noite cai. Os fantasmas se encontram como de costume no bar do Clos- Foucré …

O mais gordo, sentado numa poltrona em frente deles desapareceu um belo dia. Um barão de qualquer coisa …

Conheceu dezenas assim, que se encontravam ao bar, sonhadores, e que depois desapareciam. Impossível lembrar-se de todas as caras. No fundo … está bem, se quero a fotografia ele dá-ma. Mas eu sou novo, diz ele, e faria melhor em pensar no futuro.

Patrick Modiano

Um Proust dos nossos tempos. Um escritor preocupado com o trabalho da memória e da inserção do indivíduo no tempo e na História. Fascinado e obcecado com o desonroso período da ocupação nazi, Modiano cria os seus personagens através do ténue rasto que deixam no passado.  

Concretamente, em as As Avenidas Periféricas (1972), Modiano desliza através do tempo e nos transporta a uma pequena aldeia junto à floresta de Fontainebleau, onde reúnem-se nos fins de semana alguns personagens pouco recomendados. Entre estes, o pai do narrador, um judeu que sobreviveu à ocupação vivendo na semi-clandestinidade e através de negócios pouco claros. Paralelamente à ternura que imprime ao exercício de perdoar as acções do etéreo e acossado pai, o escritor empreende uma vigorosa tentativa de definir os seus personagens e de fazer sentido às suas existências no contexto de circunstâncias históricas extraordinárias.

Patrick Modiano é o décimo quinto escritor francês a ser galardoado com o Prémio Nobel da Literatura.  

Orfeu B.





domingo, 28 de dezembro de 2014

Ultimatum

Mandado de despejo aos mandarins da Europa! Fora.
Fora tu , Anatole France , Epicuro de farmacopeia homeopática, tenia-Jaurès do Ancien Régime, salada de Renan-Flaubert em loiça do século dezassete, falsificada!
Fora tu, Maurice Barrès, feminista da Acção, Châteaubriand de paredes nuas, alcoviteiro de palco da pátria de cartaz, bolor da Lorena, algibebe dos mortos dos outros, vestindo do seu comércio!
Fora tu, Bourget das almas, lamparineiro das partículas alheias, psicólogo de tampa de brasão, reles snob plebeu, sublinhando a régua de lascas os mandamentos da lei da Igreja!
Fora tu, mercadoria Kipling, homem-prático do verso, imperialista das sucatas, épico para Majuba e Colenso, Empire-Day do calão das fardas, tramp-steamer da baixa imortalidade! Fora! Fora!
Fora tu, George Bernard Shaw, vegeteriano do paradoxo, charlatão da sin- ceridade, tumor frio do ibsenismo, arranjista da intelectualidade inesperada, Kilkenny-Cat de ti próprio, Irish Melody calvinista com letra da Origem das Espécies!
Fora tu, H. G. Wells, ideativo de gesso, saca-rolhas de papelão para a garrafa da Complexidade !
Fora tu, G. K. Chesterton, cristianismo para uso de prestidigitadores, barril de cerveja ao pé do altar, adiposidade da dialéctica cockney com o horror ao sabão influindo na limpeza dos raciocínios!
Fora tu, Yeats da céltica bruma à roda de poste sem indicações, saco de podres que veio à praia do naufrágio do simbolismo inglês!
Fora ! Fora !
Fora tu, Rapagnetta-Annunzio, banalidade em caracteres gregos, «D. Juan em Patmos» (solo de trombone)!
E tu, Maeterlinck, fogão do Mistério apagado!
E tu, Loti, sopa salgada, fria!
E finalmente tu, Rostand-tand-tand-tand-tand-tand-tand-tand! Fora! Fora! Fora!
E se houver outros que faltem, procurem-nos aí para um canto! Tirem isso tudo da minha frente!
Fora com isso tudo! Fora!
Aí ! Que fazes tu na celebridade, Guilherme Segundo da Alemanha, canhoto maneta do braço esquerdo, Bismarck sem tampa a estorvar o lume?!
Quem és tu, tu da juba socialista, David Lloyd George, bobo de barrete frígio feito de Union Jacks?!
E tu, Venizelos, fatia de Péricles com manteiga, caída no chão de manteiga para baixo?!
E tu, qualquer outro, todos os outros, açorda Briand-Dato-Boselli da in- competência ante os factos, todos os estadistas pão-de-guerra que datam de muito antes da guerra! Todos! todos! todos! Lixo, cisco, choldra provinciana, safardanagem intelectual!
E todos os chefes de estado, incompetentes ao léu, barris de lixo virados pra baixo à porta da Insuficiência da Época!
Tirem isso tudo da minha frente!
Arranjem feixes de palha e ponham-nos a fingir gente que seja outra! Tudo daqui para fora! Tudo daqui para fora!
Ultimatum a eles todos, e a todos os outros que sejam como eles todos! Se não querem sair, fiquem e lavem-se!
Falência geral de tudo por causa de todos ! Falência geral de todos por causa de tudo ! Falência dos povos e dos destinos — falência total! Desfile das nações para o meu Desprezo!
Tu, ambição italiana, cão de colo chamado César!
Tu, «esforço francês», galo depenado com a pele pintada de penas! (Não lhe dêem muita corda senão parte-se!)
Tu organização britânica, com Kitchener no fundo do mar desde o princípio da guerra!
(It’s a long, long way to Tipperary, and a jolly sight longer way to Berlin !) Tu, cultura alemã, Esparta podre com azeite de cristianismo e vinagre de nietzschização, colmeia de lata, transbordeamento imperialóide de servilismo engatado!
Tu, Áustria-súbdita, mistura de sub-raças, batente de porta tipo K!
Tu, Von Bélgica, heróica à força, limpa a mão à parede que foste!
Tu, escravatura russa, Europa de malaios, libertação de mola desoprimida
porque se partiu!
Tu, «imperialimo» espanhol, salero em política, com toureiros de sambenito
nas almas ao voltar da esquina e qualidades guerreiras enterradas em Marrocos !
Tu, Estados Unidos da America, síntese-bastardia da baixa-Europa, alho da aÁorda transatlântica, pronúncia nasal do modernismo inestético!
E tu, Portugal-centavos, resto de Monarquia a apodrecer República, extrema- -unção-enxovalho da Desgraça, colaboração artificial na guerra com vergonhas
naturais em África!
E tu, Brasil «república irmã», blague de Pedro Álvares Cabral, que nem te
queria descobrir!
Ponham-me um pano por cima de tudo isso!
Fechem-me isso à chave e deitem a chave fora!
Onde estão os antigos, as forças, os homens, os guias, os guardas?
Vão aos cemitérios, que hoje são só nomes nas lápides!
Agora a filosophia é o ter morrido Fouillée!
Agora a arte é o ter ficado Rodin!
Agora a literatura é Barrès significar!
Agora a crítica é haver bestas que não chamam besta ao Bourget!
Agora a política é a degeneração gordurosa da organização da incompetência!
Agora a religião é o catolicismo militante dos taberneiros da fé, o entusiasmo cozinha-franceza dos Maurras de razão-descascada, é a espectaculite dos pragmatistas cristãos, dos intuicionistas católicos, dos ritualistas nirvânicos, angariadores de anúncios para Deus !
Agora é a guerra, jogo do empurra do lado de cá e jogo de porta do lado de lá!
Sufoco de ter só isto à minha volta!
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas !
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo!
Abolição total do passado e do futuro como elementos com que se conte, ou em que se pense, nas soluções políticas. Quebra inteira de todas as continuidades.

3. — Abolição do dogma do objectivismo pessoal. — A objectividade é uma média grosseira entre as subjectividades parciais. Se uma sociedade for composta, por ex., de cinco homens, a, b, c, d, e e, a «verdade» ou «objectividade» para essa sociedade será representada por a+b+c+d+e/5

No futuro cada indivíduo deve tender para realizar em si esta média. Tendência, portanto de cada indivíduo, ou, pelo menos, de cada indivíduo superior, a ser uma harmonia entre as subjectividades alheias (das quais a própria faz parte), para assim se aproximar o mais possível daquela Verdade-Infinito, para a qual idealmente tende a série numérica das verdades parciais.

Resultado:
(a) Em política: O domínio apenas do indivíduo ou dos indivíduos que sejam os mais hábeis Realizadores de Médias, desaparecendo por completo o conceito de que a qualquer indivíduo é lícito ter opiniões sobre política (como sobre qualquer outra coisa), pois que só pode ter opiniões o que for Média.(b) Em arte: Abolição do conceito de Expressão, sustituído pelo de Entre- -Expressão. Só o que tiver a consciência plena de estar exprimindo as opiniões de pessoa nenhuma (o que for Média portanto) pode ter alcance.
(c) Em filosofia: Substituição do conceito de Filosofia pelo de Ciência, visto a Ciência ser a Média concreta entre as opiniões filosóficas, verificando-se ser média pelo seu «carácter objectivo», isto é, pela sua adaptação ao «universo exterior» que é a Média das subjectividades. Desaparecimento portanto da
Filosofia em proveito da Ciência. Resultados finais, sintéticos:
(a) Em política: Monarquia Científica, antitradicionalista e anti-hereditária, absolutamente espontânea pelo aparecimento sempre imprevisto do Rei-Média. Relegação do Povo ao seu papel cientificamente natural de mero fixador dos impulsos de momento.
(b) Em arte: Substituição da expressão de uma época por trinta ou quarenta poetas, pela sua expressão por (por ex.), dois poetas cada um com quinze ou vinte personalidades, cada uma das quais seja uma Média entre correntes sociais do momento.
(c) Em filosofia: Integração da filosofia na arte e na ciência; desaparecimento, portanto, da filosofia como metafísica-ciência. Desaparecimento de todas as formas do sentimento religioso (desde o cristianismo ao humanitarismo revolucionário) por não representarem uma Média.
Mas qual o Método, o feitio da operação colectiva que há de organizar, nos homens do futuro, esses resultados? Qual o Método operatório inicial?
O Método sabe-o só a geração por quem grito por quem o cio da Europa se roça contra as paredes ! Se eu soubesse o Método, seria eu-próprio toda essa geração!
Mas eu só vejo o Caminho; não sei onde ele vai ter.
Em todo o caso proclamo a necessidade da vinda da Humanidade dos Engenheiros!
Faço mais: garanto absolutamente a vinda da Humanidade dos Engenheiros! Proclamo, para um futuro próximo, a criação científica dos Super-homens! Proclamo a vinda de uma Humanidade matemática e perfeita!

Proclamo a sua Vinda em altos gritos!
Proclamo a sua Obra em altos gritos! Proclamo-A, sem mais nada, em altos gritos!
E proclamo também: Primeiro:
O Super-homem será, não o mais forte, mas o mais completo! E proclamo também: Segundo:
O Super-homem será, não o mais duro, mas o mais complexo! E proclamo também: Terceiro:
O Super-homem será, não o mais livre, mas o mais harmónico!
Proclamo isto bem alto e bem no auge, na barra do Tejo, de costas para a Europa, braços 
erguidos, fitando o Atlântico e saudando abstractamente o Infinito.


Publicado em Novembro de 1917, no primeiro e único número de Portugal Futurista, este manifesto de Álvaro de Campos é uma reacção ao Manifesto Futurista de Marinetti de 1909, e de outros artísticos que lhe seguiram (o Manifesto Cubista de 1912, o Manifesto Supremacista de Kandinsky de 1915, o Manifesto Dada de Hugo Ball de 1916). O seu título é uma clara alusão ao Ultimatum inglês de 1890 e dá eco aos ideais de independência cultural que esta profunda crise política provocou em Portugal no final do século XIX. O Ultimatum do genial autor do poema da Tabacaria, tenta suscitar o entusiasmo dos criadores de língua portuguesa e lançar um repto ao bafiento e restrito meio artístico da época. As repetidas metáforas relacionadas à comida e a um imaginário antropofágico são a forma estilística mais marcante deste texto que sugere que a superação artística (o desenvolvimento da sensibilidade) exige radicais mudanças de paradigmas sociais, políticos e psíquicos.

É interessante referir que a analogia antropofágica é retomada na língua portuguesa no Manifesto Antropofágico, texto literário escrito por Oswald de Andrade, principal agitador cultural do Modernismo brasileiro. Lido na casa de Mário de Andrade para colegas artistas e escritores em 1928, foi publicado no mesmo ano na Revista de Antropofagia. Neste manifesto, a deglutinação e a digestão da cultura europeia é a fórmula sugerida para dar continuidade ao Modernismo brasileiro iniciado em 1922.                    

Orfeu B.





sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

FAREI O MEU MELHOR




“Um poema não serve para ganhar dinheiro mas serve para reorganizar o mundo”

Cornelius Castoriadis

Como Castoriadis podíamos dizer que o romance, e especialmente o romance em Portugal, não serve para ganhar dinheiro mas serve para reorganizar o mundo.


A verdade é que todos nós somos uma Alice que precisa da chave, da palavra mágica, da pedra filosofal que nos faça atravessar o espelho para nos reencontrarmos do outro lado, mais completos, mais claros, mais pacificados, improvavelmente mais felizes.

Numa sociedade de neurose, de excessivo peso do objecto, uma sociedade dominada por esta economia que mata reduziu a própria arte a uma dimensão de mercadoria, é do lado dessa mesma arte, do lado da literatura, do símbolo, da metáfora, da poesia, que podemos encontrar a chave que nos leve a atravessar o espelho.

Mal iremos sempre que a poesia, o pensamento, a literatura se auto-mutilarem, recusando o diálogo com o mundo e os homens.

Frágil e doente de ultra-romantismo me pareceu sempre a corrente que afirma a independência das artes em relação à espessura da realidade histórica, social ou política,

Um jovem poeta português escreveu há 3 ou 4 anos que:

“Não existe num verso nada de útil à salvação do mundo…”

Contra este ensimesmamento convoco duas vozes.

Jorge Semprún que, ao falar da experiência extrema da sobrevivência num campo de concentração nazi, dizia que

“… uma voz encostada a outra voz pode chegar para manter um ser humano em vida”

E o que é a Lídia Jorge senão uma voz que se encosta às nossas vozes para nos manter verticais e em vida?

Outra voz, a de Czeslaw Milosz, poeta polaco nascido para a poesia no final da 2ª Guerra Mundial, que afirmava com grande veemência no seu poema “Dedicatória”,

“O que é a poesia que não salva
Nações ou pessoas?
Um conluio com mentiras oficiais,
Uma canção de bêbados cujas gargantas serão cortadas num momento,
Leitura para raparigas de liceu.”

(tradução Jorge Gomes Miranda)

Temos em Portugal uma vasta tradição de poetas e escritores cujas vozes e cujas obras são faróis que nos ajudam a pensar e a situar o nosso pensamento perante a sorte dos homens neste estrepitoso rolar do mundo.

Basta citar, entre vários outros, Antero, Torga, Sophia, Carlos Oliveira ou, mais recentemente, Saramago.

Cada um à sua maneira, todos eles se tornaram faróis que por momentos se exilaram da sua própria originalidade, da sua individualidade criadora, ou melhor, que as completaram, chamando a si o fogo da cidadania, oferecendo aos seus concidadãos uma palavra de consolo, um olhar rebelde e independente, uma capacidade de olhar mais largo e mais fundo.

Longa e, por vezes feroz, tem sido desde sempre a discussão à volta do compromisso dos escritores e dos poetas nomeadamente entre os presencistas e os neo-realistas.

A questão continua a pôr-se de outras formas, noutro cenário social e político, noutro tempo.

Muitos dos que se reclamam da mac-felicidade pós-moderna passam gloriosamente por palcos de purpurina escovando dos ombros os mosquitos da cidadania e do compromisso.

Mas a questão continua de pé. Senão oiçamos o poeta irlandês, prémio Nobel, Seamus Heaney

“Se pensarmos em países como a Rússia ou a Polónia, a Espanha até certo ponto, e talvez a Irlanda, em todos eles os poetas são objecto de uma permanente expectativa. Há aí uma tradição da poesia que faz com que os poetas tenham um compromisso com a História e com o país e faz com que haja um espaço no espírito colectivo para o poeta como figura representativa.”

O poeta fala de poetas talvez no sentido estrito. Eu falo de poetas num sentido largo que engloba obviamente a nossa Lídia Jorge, uma mulher que pela sua escrita e pela sua presença cívica afirma de forma tão elegante quanto incisiva um compromisso com a literatura, com o tempo, com o espírito colectivo de uma nação, através da denúncia dos tropeções diversos que a magoam e da necessidade de voltar a construir um dia limpo e pleno de esperança.

Em tempos, há uns 30 anos talvez, dizia-me um destacado músico que, quando não sabia o que fazer ou em que sentido caminhar, olhava para o Zeca Afonso porque era ele o farol, era ele que apontava os caminhos necessários.

Gosto de pensar assim da Lídia, como um farol para onde podemos olhar quando nos perdemo.

"O organista", um pequeno conto e uma grande obra.Um farol paraentendermos que caminhos podem levar muito longe a literatura em língua portuguesa.

Para terminar talvez possa usar as palavras de Helicon quando pergunta a Calígula na peça de Camus:


HELICON
Em que posso eu ajudar-te ?

CALÍGULA
No impossível !

HELICON
Farei então o meu melhor.

E é a isto que a Lídia nos habituou e que nós esperamos dela em cada obra e em cada uma das suas intervenções, que faça o seu melhor, porque precisamos muito desse melhor, da sua verticalidade e da grandeza com que exerce a sua condição excelente de mulher e de poeta.


sábado, 20 de dezembro de 2014

A Mortalidade do Poema Contínuo

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder


O aparecimento de uma colectânea integral da obra de um grande poeta é sempre motivo de júbilo e celebração. A recente publicação dos Poemas Completos de Herberto Helder não seria excepção, mas ao facto em si há que se adicionar a opção feita, há muito pelo poeta, de viver no anonimato e a implicação implícita de que a sua obra estava encerrada.

Mas o ofício de escrever tem uma lógica própria e um “vício” de muitas décadas não pode, para nossa felicidade, ser completamente silenciado; como um vulcão, o hábito de querer se fazer ouvir, vive longos períodos de dormência até voltar à sua actividade eruptiva quando a pressão magmática aumenta.

Eu julgo que a imagem é particularmente apropriada no que diz respeito a Herberto Helder, um autor inquieto, cuja riqueza e instabilidade biográfica se coaduna com a sua escrita explosiva e visceral.    

O que se conhece do autor de A Colher na Boca (1961), Os Passos em Volta (1963), Húmus (1966), Cinco Canções Lacunares (1968), Photomaton & Vox (1979), A Faca Não Corta o Fogo (2008), Servidões (2013), A Morte sem Mestre (2014) entre outros títulos igualmente essenciais? Que nasceu em 1930 no Funchal no seio de uma família de origem judaica e que passou, inevitavelmente, pelo curso de Direito em Coimbra e que pouco depois se refugiou, também inevitavelmente, na Filologia Românica do curso de Letras da mesma universidade? Que em 1955 frequentou em Lisboa o grupo do Café Gelo, do qual faziam parte Mário Cesariny, Luiz Pacheco, António José Forte, João Vieira e Hélder Macedo e que então trabalhava como propagandista de produtos farmacêuticos? Que … Sim, poderíamos continuar, mas este esboço biográfico, ou talvez qualquer outro mais comprometido e completo, pouco acrescentaria enquanto explicação para a prodigiosa capacidade encantatória da escrita do autor.    

Porque nos ensinou o poeta, aquando da colectânea Ou o Poema Contínuo, que precisamente, a poesia é um fluxo e que enquanto tal não pode ser fixada ou dissecada. Ensinou-nos que o seu entendimento através dos sentidos-sentimentos-razão só pode ser alcançado in vivo, enquanto ela respirar. E talvez mais, que o momento da poesia é o da respiração agonizante do peixe fora d’água, é o instante aquando o sangue perde o seu calor e está ainda vivo, pouco antes de se tornar apenas um fluido inerte.

Sim, a morte interrompe o poeta, com ou sem meios para comprar uma bilha de gás, mas antes do silêncio, há uma centelha magnífica de vida e criatividade através da qual tudo nos é revelado, materializando um generoso vislumbre da solução que explica a galáxia e a pétala.

E depois de desvendada a fórmula, poderemos todos, e poderão os habitantes no futuro, lê-la infinitas vezes para fixar as estrelas ou para torna-las cadentes:

e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma


queria fechar-se inteiro num poema
lavrado em língua ao mesmo tempo plana e plena
poema enfim onde coubessem os dez dedos
desde a roca ao fuso
para lá dentro ficar escrito direito e esquerdo
quero eu dizer: todo
vivo moribundo morto
a sombra dos elementos por cima


Orfeu B.


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

ROMA, ROMA ROMA




Tinha ficado de olho neste autor, jornalista espanhol de profissão que, como correspondente do El País tem corrido mundo. Da sua estadia aqui ou ali foi escrevendo livros de “Histórias” sobre as cidades que habitou, Londres, Roma, Nova York.

As “Histórias de Roma” dão-nos uma leitura muito pessoal sobe a cidade eterna. A História e as histórias, as pessoas, a comida, o futebol, a política. Não se trata de um guia para turistas Nem pensar. Trata-se sim, de um livro que resulta de uma vivência

O autor leva-nos pela mão, quer dizer, pela palavra, através casas, ruas e ruelas, restaurantes e personagens tão reais como inesquecíveis.

Fala-nos da Roma Imperial e dos seus monumentos, do Vaticano, da corrupção dos políticos, nomeadamente das histórias de Berlusconi, e mostra-nos que os nossos políticos corruptos ainda são amadores perante a grandiosidade e descaramento dos negócios à italiana.

E também nos lembra a grandeza do cinema italiano relembrando Monicelli ou Alberto Sordi, a escrita de Leonardo Sciascia, ou mostra a inesperada formalidade dos italianos.e especialmente dos romanos.

No meio de uma infinidade de pormenores, fiquei algo espantado pela persistente presença do fascismo numa cidade que foi cabeça do regime de Mussolini e onde os sinais de pompa bacoca, de violência gratuita e tribal permanece nas claques da Roma e da Lacio, numa celebração semanal de ritos que bem gostávamos fossem afastados de vez para que a Europa das democracias pudesse florir em pleno.

Vê-se que Eric González gosta de gostar e gosta de partilhar com os seus leitores as coisas de que gosta e as surpresas com que se depara na sua vida de jornalista andarilho.

O livro é editado pela Tinta da China na sua deliciosa colecção onde tem vindo a publicar títulos que guardo com carinho sobre cidades e viagens verdadeiras ou inventadas. Livros que, além do mais têm um design gráfico simples e de rara eficácia e são objectos que sabe bem ter na mão.


sábado, 29 de novembro de 2014

HAVERÁ MÚSICA E LIVROS



Primeiro livro de Romand Gary, que tem como cenário as florestas Lituanas em 1942 durante os duríssimos anos de resistência ao nazismo.

Gary, ele próprio, fugiu de França onde vivia com a mão para Inglaterra onde se juntou às tropas gaulista e se tornou num heroico piloto de aviação durante a 2ª Guerra.

O personagem central do livro é o jovem Janeck que vive na floresta com os partisans. O pai, o médico Tardowski morre como um heróis sem que o filho o saiba.

Janeck torna-se um homem e encontra o amor ao longo do livro e dos anos de luta na floresta contra os nazis. Torna-se ele próprio um partisan, colabora nas várias tarefas da resistência, apoio assaltos, ajuda os companheiros mais velhos na vida e na hora de morrerem. E tem uma paixão: a música. E pode-se dizer que as passagens em que ele encontra uma rapariga pianista, num caso, um menino judeu violinista, noutro caso, são momentos de rara beleza e emoção.

A música representa udo aquilo a que Janeck aspira, o contrário absoluto da opressão, da barbárie, da desumanidade. A música é para ele um diálogo transcendente com o que há de mais humano (ou mais divino) nos homens.


Por vezes o livro parece ficar por uma idealização da resistência, dos valores humanos que persistiuram na luta contra a barbárie nazi. Mas Gary foge rapidamente a essa idealização através da construção de um tapete de pequenas histórias que se cruzam, sucedem, sobrepõem-se com momentos de horror ou de ternura, fugindo a essa idealização do que possa ser a humanidade, a dos próprios partisans que não são heróis impolutos mas homens que se debatem com o nazismo e com as suas próprias contradições.

O título vem da ideia subjacente a todo o livro de que na resistência se adquirem e constroem os valores que irão ser os da construção de uma nova Europa livre, culta, democrática, em que todos acreditaram e que, com o correr dos tempos, nos escapou por entre os dedos das mãos.

Uma outra sequência de narrativas cruza o romance. São os contos que o estudante Dobranski vai escrevendo com a alegria e a paixão de quem faz da palavra uma arma também ela de resistência.

O jovem escritor afirma a dado passo que “Não há arte desesperada. O desespero é apenas falta de talento.”

As suas histórias são estranhas, raiam o absurdo e acendem uma faúlha de esperança e delírio, como é o caso do conto que anuncia a vitória na batalha de Leninegrado em que os cadáveres de soldados alemães conversam enquanto são levados pelas águas do Volga, sob o olhar de dois corvos russos saídos de um poema de Pushkin que os observam e se preparam para os devorar.

No final, quando a guerra está nos últimos dias Dobranski é atingido e enquanto vê a sua vida esvair-se ouve Janeck que lhe fala do tempo que está para vir com o fim da guerra e do nazismo.

“Havera música e livros, pão para todos e calor fraterno. Não haverá mais guerras, não haverá mais ódio.”

Sabemos como esta esperança alimentou muitos homens e continua a alimentar muitos outros apesar de estarmos a viver de novo um tempo de desespero em que teremos de lutar de novo e de outra maneira por tudo o que os partisans sonharam um dia.

terça-feira, 25 de novembro de 2014

O FEITIÇO DA ÍNDIA E O FIM DO IMPÉRIO




escrita de Miguel Real atinge neste livro um momento de grande qualidade e equilíbrio na ligação entre o trabalho do escritor, a investigação histórica necessária a um romance que atravessa vários séculos, a reflexão do filósofo sobre a identidade portuguesa na relação com os outros povos e sobre o conceito de Império Português e o seu fim que neste caso se torna territorial e humano na semente que põe um termo à presença portuguesa na Índia.

O autor conta-nos a história de 3 homens, José Martins que no fim do séc. XV é o primeiro português a desembarcar na Índia.

Depois virá Augusto Martiins., mestre de metalurgia que no início dos anos 50 do séc. XX emigra para a Índia.

Finalmente outro José Martins, filho de Augusto que vai à procura do pai em 1975.

Os três deixam-se enfeitiçar pela Índia e trocam nos dois primeiros casos as suas Rosas de Lisboa por Rhemas da Índia.

O ultimo apaixona-se por Sumitha, sua meia irmã e torna-se pai de Arun com quem acaba o sangue português na Índia.

Através destas três histórias conta-se a história do fascínio dos portugueses pela Índia, pelos seus hábitos e costumes, pela sua natureza excessiva e envolvente, pela sua sensualidade livre do mal e do. pecado cristãos. Fala-se, enfim, dessa “perdição”, dessa entrega ao fascínio do outro, que subjaz ao Império Português, já que é de homens e das suas paixões que se fazem os Impérios.

Nos três momentos desta história assistimos primeiro ao início do Império, à conquista e ao domínio feroz dos primeiros governantes, Vasco da Gama, Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque. E ainda ao extermínio dos árabes e aos primeiros sinais de entendimento entre portugueses e hindus.

O autor mostra-nos ainda a distância entre os que partem do pequeno Portugal e lutam e sofrem lá longe e os que governam na Côrte de Lisboa sem visão nem projecto e que apenas aspiram ao lucro fácil e imediato. Sempre foi assim e, ao que parece, continua.

No segundo momento, o autor mostra-nos a pequenez do domínio lusitano em tempos de Salazar, a perda do território da Índia Portuguesa, a manutenção de uma classe de burocratas luso-indianos onde a cultura do Império se resume a um exercício balofo e pomposo de rotinas caídas em desuso e que, de alguma forma, vão sendo tranquilamente suportadas ou toleradas pela nova Índia.

Num terceiro momento é a queda do Império, o fim dessa união carnal, sensual, estética, espiritual entre duas culturas tão distantes mas aparentemente tão afeitas uma à outra, através da morte de Arun e do fim do sangue português na Índia.

A escrita de Miguel Real funciona como uma espécie de máquina fotográfica que dispara permanentemente e nos vai dando páginas sucessivas de pormenores que se entrelaçam para compor um vasto retrato da realidade (a Índia ou Lisboa) que nos chega através de cheiros, cores, sabores, temperaturas, materiais, frutos, animais, doenças, pústulas, luzes, águas que nos colocam no interior desses espaços com uma raríssima intensidade.

Mas Miguel Real é um homem da filosofia e não apenas um narrador realista de cidades, casas, rituais, corpos entrelaçados. Todas essas descrições lhe servem para ir construindo de forma ficcional um olhar estruturado sobre aquilo a que se chama ou chamou o Império Português, a sua decadência e o seu final.

Eu diria que este é livro denso, uma manta de histórias apaixonantes, em que a principal personagem somos todos nós, ou melhor, é Portugal, um herói multifacetado, ora pícaro, ora heróico e corajoso, ora feroz e bárbaro, ora sensual e deslumbrado, um Portugal à procura do seu novo lugar no mundo.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

INDÍCIOS DE OURO

INDÍCIOS DE OIRO
“Indícios de Oiro” é o título do último livro de poesia de Mário de Sá-Carneiro, publicado em 1937, pela revista Presença. O poeta, no entanto, havia-se suicidado, em Paris, em 1916, com vinte e seis anos incompletos. O conceito “indícios” já tinha sido utilizado por Mário de Sá-Carneiro em poemas anteriores, como “Quasi”, de que se transcreve a estrofe inicial: QUASI Um pouco mais de sol – eu era brasa Um pouco mais de azul – eu era além Para atingir, faltou-me um golpe d’asa... Se ao menos eu permanecesse aquém... Mas são exactamente os indícios desse “além” que se repercutem no “aquém” (a que estamos confinados), que se constituem em o verdadeiro Oiro da sua expressão poética – o que o autor não reconhece enquanto tal. Mário de Sá-Carneiro considera que não consegue atingir o “além”, mas que no “aquém” não pode permanecer. Daí, as tentativas de suicídio, a presença da morte nos últimos poemas, para mim, os mais belos. E o que acontece na Poesia, também ocorre noutras Artes, como a Música. Estou a pensar numa novela de Julio Cortázar (1914-1984), publicada na sua obra “As Armas Secretas”, edição da Cavalo de Ferro, em 2014. Nessa novela (é mais uma novela do que um conto), Cortázar dá notícia dos últimos tempos de vida de um músico norte-americano de Jazz, Charlie Parker. O texto, que tem como título “O Perseguidor”, é uma história romanceada dos últimos meses de Charlie Parker, a quem ele chama de Johnny Parker, o músico de Jazz, que, através do seu saxofone, persegue uma sonoridade muito pessoal, dificilmente vislumbrada, que lhe foge. Sonoridade talvez alcançada numa peça musical, “Amorous”, gravada sem a sua autorização. Se Mário de Sá-Carneiro vivia mergulhado em absinto, Parker era um consumidor inveterado de drogas duras. Quando morre, com quarenta e tal anos, tem o aspecto de um homem de mais de setenta anos. Cortázar diz-nos que tendo sido perguntado a Parker o que via, o que sentia, quando tocava peças como o “Amorous”, ele fala da Morte que o acompanha nesses momentos, em que tudo está perto, mas não se atinge. Que nunca se alcançará: “Campos cheios de urnas, Bruno. Montes de urnas invisíveis, enterradas num campo imenso”. E, mais adiante: “Não é uma questão de mais ou menos música, é outra coisa... por exemplo, é a diferença entre Bee [a filha] estar morta e estar viva. O que toco é Bee morta, sabes, enquanto o que quero, o que quero...” Como acontece com Mário de Sá-Carneiro, também esta situação se passa em Paris. Também estes “indícios”, afinal, sejam o Oiro mais fino que se possa alcançar no campo da Música de Jazz.

domingo, 9 de novembro de 2014

"Dijiste: "Iré a otra ciudad, iré a otro mar./Otra ciudad ha de hallarse mejor que ésta./Todo esfuerzo mío es una condena escrita;/y está mi corazón - como un cadáver - sepultado./(...)" Kavafis

A Lámpara de Aladino” 
de Luís Sepúlveda 
Porto Editora

Nesta época absolutamente desumana e falsamente embrulhada em humanidade que vamos atravessar podemos oferecer muito ou pouco. Sendo que o muito ou pouco que damos reside numa riqueza de palavras que não podemos ter sem o contributo da leitura. Digo leitura e não livros por ser mais lato, ainda que muitos de nós tenhamos coladas a nós as páginas do papel como a pele ao corpo.

Se podemos viver sem livros? Claro que sim. Mas seríamos muito mais pobres, solitários e infelizes. Ainda que possamos ser isso tudo no meio deles.
Quando recomendamos um livro fazemo-lo, por vezes, pelo que ela nos deu independentemente do contributo que deu à grande Literatura.

Gostar de um autor pode levar-nos à tentação de ler tudo dele e esgotar a surpresa ou de o relegar durante muito tempo para leituras futuras enquanto partimos à descoberta de novos. Na busca de equilíbrio cruzei-me com “A Lámpada de Aladino” de Luís Sepúlveda
Neste caso vale a pena o regresso porque reconhecemos a escrita, a atmosfera e a surpresa está lá. E trago-o aqui porque ainda não o consegui arrumar. 

Um livro de contos que é um livro de viagens. Quando estamos em casa para sair por aí e quando andamos por aí para ter um lugar de regresso. Para ser andarilho sem ficar perdido é preciso ter dentro de nós a casa e o ser. E para ser sedentário quanto baste é preciso viver nos livros a vida que nos falta.

Luís Sepúlveda conta-nos como surgiu o “Velho que lia romances do amor” e ficamos com a sensação de que cada conto dele nasce assim. E sentimos esse privilégio de, ao ler, nos parecer estarmos lá a olhar por cima do ombro, o momento inspirador da história, a história ela mesma. Ficção e realidade abraçadas. Que nisto de viajar, ou deambular pelo mundo, há quem volte o mesmo, desperdiçando a viagem e há quem pare num lugar para o apreender para o respirar, nunca desperdiçando a história do desconhecido/a solitário/a.

Nos solitários hotéis por onde Sepúlveda nos leva não nos sentimos esmagados pela desolação que encerram porque ele sempre nos coloca na rota do encontro, da confidência de mistérios da vida. Não há histórias de princípio e fim apenas farripas de vidas, de pequenas felicidades e mistérios, encontro/desencontro… Aparecem mulheres e é sempre com ternura que elas emergem das páginas. Sepúlveda dá-nos a sua visão da mulher. Não que haja uma escrita masculina mas há indiscutivelmente o olhar, o sentir do homem no olhar e ternura que usa para nos contar das mulheres. 

Tenho dificuldade em destacar apenas uma, todas têm uma unidade neste périplo pelo mundo. Vida repetida. Mas um faz-me pensar no livro do Gabriel Garcia Marques “Amor em tempo de Cólera”. nos poemas de Neruda, ou de kavafis. Gosto de sentir que os caminhos fazem sentido por algo que havemos de encontrar algures, mesmo que muitos anos depois.

Um pequeno livro viajante que toca com mãos e alma a realidade que encontra. 
Um bom presente... 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Crónicas de uma Loucura Ordinária

         

Estilo é a resposta para tudo.
Uma forma renovada de acercarmos algo enfadonho ou perigoso
Fazer algo enfadonho com estilo é preferível do que fazer algo perigoso sem estilo
Fazer algo perigoso com estilo é que eu chamo arte 



A mística do poeta maldito e desajustado atravessa a história da literatura. O fascínio dos artistas que, por força da sua criatividade, foram para além dos limites da sanidade, do decoro e do conforto da conveniência política e social, conduz-nos à essência da força libertadora da literatura.   

"Crónicas de uma Loucura Ordinária" corresponde à segunda parte de duas colectâneas de contos do poeta norte-americano Charles Bukowski publicadas em 1972. O primeiro volume, intitulado “Erections, Ejaculations, Exhibitions, and General Tales of Ordinary Madness” dá-nos uma ideia do estilo irreverente e pornográfico do autor. Charles Bukowski, poeta das franjas e alcoólatra inveterado, é bem conhecido por novelas como “Factotum” (1975), “Women” (1978), “Pulp” (1994), peças de teatro como “Barfly” (1984), assim como por um número considerável de colectâneas de poemas. 

O conto “The Most Beautiful Woman in Town” inspirou o comovente e perturbador filme de 1981 “Crónicas de uma Loucura Ordinária” do realizador italiano Mario Ferreri. Magistralmente interpretado por Ben Gazzara e Ornella Muti, o filme apresenta-nos com cores fortíssimas a voragem de uma relação apaixonada e suicida entre um poeta, Charles Serking, e a sua musa, a jovem prostituta Cass. Inadaptados numa sociedade desumanizada e embrutecida pelo consumismo e pelo materialismo, Charles e Cass vivem precariamente na vertigem do gume afiado da anestesia alcoólica e da auto-mutilação. Quando Cass se suicida, Charles é consumido pelo sentimento de culpa e mergulha na dor e na incerteza da sua escrita. 

A declamação do poema Estilo, que é transcrito abaixo na sua forma original, captura com fidelidade a intensidade do exercício poético e o seu extraordinário poder de iluminar os mais recônditos redutos da alma. Só um poeta tem a sensibilidade necessária para compreender completamente a tragicomédia da existência.  


“Style is the answer to everything.
A fresh way to approach a dull or dangerous thing
To do a dull thing with style is preferable to doing a dangerous thing without it
To do a dangerous thing with style is what I call art

Bullfighting can be an art
Boxing can be an art
Loving can be an art
Opening a can of sardines can be an art

Not many have style
Not many can keep style
I have seen dogs with more style than men,
although not many dogs have style.
Cats have it with abundance.

When Hemingway put his brains to the wall with a shotgun,
that was style.
Or sometimes people give you style
Joan of Arc had style
John the Baptist
Jesus
Socrates
Caesar
García Lorca.

I have met men in jail with style.
I have met more men in jail with style than men out of jail.
Style is the difference, a way of doing, a way of being done.
Six herons standing quietly in a pool of water,
or you, naked, walking out of the bathroom without seeing me.”


Orfeu B.