sábado, 14 de maio de 2016

Quantum


Encontrei muitos cientistas e a estadia alterou profundamente a minha forma de ver o mundo, pois eles estão trabalhando realmente sobre o que é a criação do mundo.

Gilles Jobin

Quantum, e uma coreografia concebida por Gilles Jobin e que foi encenada no Teatro Rivoli no Porto no dia 8 de Abril de 2016. É indubitavelmente uma criação inovadora e arrojada e resulta da estadia do coreógrafo suíço no Centro Europeu de Investigação Nuclear (CERN), o maior laboratório científico do mundo, localizado na fronteira franco-suíça junto à cidade de Genebra. 

Na verdade, o coreógrafo é um bem conhecido experimentador que há muito tem estado muito próximo da ciência como muito bem atestam alguns de seus trabalhos anteriores: A+B=X (1997), Le Voyage de Moebius (2001), Spider Galaxy (2011), entre outros. 

O coreógrafo descreve a experiência de ter estado no CERN como artista residente por alguns meses em 2012, como uma colisão de alta energia entre a sua experiência pessoal e profissional e a visão do mundo dos físicos. O coreógrafo teve a sorte de presenciar o extraordinariamente feliz e emocional momento do anúncio ao mundo da comprovação experimental da existência do bosão de Higgs, no histórico dia de 4 de Julho de 2012. A presença de físico britânico Peter Higgs e do colega belga François Englert (ambos dividiram o Prémio Nobel de Física em 2014) adicionaram uma dimensão humana aos desenvolvimentos teóricos, experimentais e tecnológicos que permitiram a descoberta do bosão de Higgs 48 anos depois da sua previsão teórica. 

Na verdade, para além do privilégio de termos sido arrastados pelas ondas de movimento dos membros da Companhia de Gilles Jobin, nós tivemos a honra de receber o coreógrafo no Departamento de Física e Astronomia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto no final da tarde do dia 6 de Abril para uma apresentação e uma longa e animada conversa sobre a criatividade artística, sobre a “polinização” cruzada de ideias entre arte e ciência, sobre o ensino e a aprendizagem, sobre ballet e claro, sobre a dança das partículas elementares no palco do Universo. 

Quantum é o resultado de uma experiência de convivência única de um artista com o mundo dos físicos de altas energias. Oxalá a experiência seja repetida por mais artistas em outros  contextos, ambientes, laboratórios e institutos de investigação. Reciprocamente, os cientistas ficam profundamente enriquecidos com a experiência e a sensibilidade dos artistas.  

Orfeu B.



domingo, 24 de abril de 2016

Os Papéis do Inglês


Ao acordar de manhã procuro averiguar daquela sensação, algumas vezes experimentada mas quase sempre só recordação longínqua já, de encontrar satisfação por estar vivo e haver um dia à frente para viver. A memória que tenho disso, ou a imagem que ela projecta, remete-me a Londres: disponibilidade, ausência de culpa, um envolvimento exterior simultaneamente propício e distante que me poupava a confrontos maiores, o tédio, ainda assim, de alguma forma alheio, a certeza de que a intensidade e a densidade dos estímulos e dos recursos garantiriam, de alguma forma, contornos suportáveis à presença no mundo. Aqui, talvez, depois de tantos exílios interiores e de tanta auto-flagelação, estarei mais perto de uma experiência equivalente. O acordar é fácil e acompanha a emergência da luz, os pássaros anunciam o dia com folgada antecedência, nada oprime a perspectiva da movimentação, as hipóteses de trabalho são boas, há um jipe lá fora, tenho todas as razões para acreditar que nenhuma hostilidade me cerca, pelo menos num raio de 130 kms. Quando olhar para fora depararei muito provavelmente com silhuetas distantes de mulheres que se deslocam alheias, estou no meio de um espaço que me tem servido de referência pela vida fora, em plena vigência de uma hipótese duramente conquistada à força de determinação e vontade. Por isso me coloco mansa e cautelosamente perante mim mesmo e o que me cerca, não tanto, em consciência, para aproveitar, quanto para me entregar e não estragar, impedir, viciar ou destruir.

"Os Papéis do Inglês"

                           
Um romance acerca de uma estória, que segundo ao autor, bastaria meia dúzia de minutos para contar, mas que nos remete para o cerne da arte narrativa, que passa pela história pessoal do autor, pelos aspectos problemáticos da ciência antropológica e etnográfica, pelos descaminhos históricos e  políticos pós-coloniais de Angola. Em "Os Papéis do Inglês", Ruy Duarte de Carvalho conta-nos a desventura de um personagem conradiano, Archibald Perkings, caçador e antropólogo inglês, que, em 1923, na região angolana do Kwando, matou o seu colega grego e acabou por se suicidar. Escrito numa linguagem única e extremamente original, o autor, constrói a sua versão da história através da sua própria deambulação pelo território angolano e por meio das dificuldades em recuperar os papéis do caçador inglês que possivelmente estariam entre os papéis do pai do autor que, por sua vez, estavam dispersos há dezenas de anos. 

Ruy Duarte de Carvalho (Santarém, 1941 – Swakopmund, 2010) foi um escritor, cineasta, antropólogo e professor angolano. Autor de referência da língua portuguesa, Ruy Duarte de Carvalho doutorou-se em Antropologia na École des Hautes Études de Sciences Sociales em Paris e lecionou na Universidade de Luanda e como professor convidado nas Universidades de Coimbra e de São Paulo. Para além da sua obra científica sobre as sociedades pastoris de Angola e da Namíbia, Ruy Duarte de Carvalho legou-nos um rico espólio cinematográfico e uma significativa obra literária, em verso e em prosa. 

Orfeu B.



sábado, 2 de abril de 2016

A singularidade de uma voz


Imre Kertész (1929 - 2016) nasceu em Budapeste, descendente de uma família judaica que foi totalmente dizimada nos campos de concentração nazistas. Em 1944, aos 15 anos, foi deportado para Auschwitz, Buchenwald e Zeitz, sendo libertado em 1945 pelas tropas norte-americanas. Ao retornar a Budapeste trabalhou, de 1948 a 1951, como jornalista até ter sido exonerado quando o jornal onde trabalhava se transformou em órgão do Partido Comunista Húngaro. Dedicou-se então à escrita e à tradução para o húngaro de obras de  Nietzsche, Hofmannsthal, Schnitzler, Roth, Freud, Wittgenstein, Canetti, entre outros. Escreveu também musicais e teatro de diversão. Trabalhou durante 10 anos no livro, Sem Destino, o seu primeiro romance. Pela profundidade e originalidade da sua obra literária recebeu inúmeros prémios entre os quais o Prémio Nobel da Literatura em 2002.       

"… 
Após um silêncio, o meu pai disse: pois bem, ficamos mais leves – a minha madrasta, com voz ainda embargada, perguntou-lhe se não teria sido melhor aceitar o recibo do senhor Suto. Mas o meu pai respondeu que tais recibos não tinham qualquer «valor pratico», além de ser perigoso esconde-los do que ao próprio cofre. E explicou-lhe: desta feita, «é preciso jogar tudo num única cartada», dado que, por agora não nos resta alternativa. 
Desde há duas semanas, também sou obrigado a trabalhar. Notificaram-me em papel oficial que eu estava «afecto a um emprego fixo» estava endereçado «Ao jovem aprendiz auxiliar Koves Giorgy», e vi logo que ali havia mão da União das Juventudes. 
O local de trabalho é em Csepel, numa sociedade cujo nome é «Refinarias de petróleo Shell». Desta forma, acabei por gozar de uma espécie de privilégio, pois é proibido sair da cidade com a estrela amarela.”
Quando um prisioneiro tenta regatear a entrega de um objecto de valor em troca de água e comida:

“…e ele mostrava-se disposto a fazê-lo, embora fosse, disse «contra os regulamentos». Só que não há acordo, porque a voz queria, primeiro, a água e o guarda queria, primeiro, as coisas, e ninguém queria ceder. Por fim o guarda sentiu-se melindrado: – Porcos judeus, que fazem negócio com as coisas mais sagradas!”
“Só em Zeitz percebi mesmo que o cativeiro tem a sua rotina, que o verdadeiro cativeiro não passa, no fundo, de um quotidiano cinzento.
“Não tardei muito a perceber que as opiniões favoráveis ouvidas ainda em Auschwitz acerca da instituição dos “Arbeitlager”, se baseavam, forçosamente, em informações exageradas.”

Sem Destino (1975)


“Auschwitz é o meu maior tesouro. A proximidade da morte é inesquecível. A vida nunca foi tão bela como nesse longo momento.”

O Fiasco (A Recusa) (1988)


“Não!”
"Tornou-se livre, porque já não tinha pátria. Já nem sequer tinha que decidir em que qualidade devia morrer. Como judeu, como cristão, como herói ou vítima, eventualmente, como absurdo metafísico, vítima do novo caos demiúrgico? Como estas noções nada significam para ele, decide, ao menos não sujar com a mentira o facto límpido da sua morte. Tudo lhe parece simples, porque conquistou o direito à lucidez: “Não procuremos sentidos onde não existem: o século, este pelotão de execução que cumpre o seu serviço, sem cessar prepara-se, pois, para dizimar de novo, e quis a sorte que me calhasse um número mau - ponto final”, são as sua últimas palavras, com as minhas palavras, claro.”   

Kaddish para uma Criança que não Vai Nascer (1990)


“ …
A língua – sim, ela é a única coisa que me mantém ligado a ele (Hungria). Como é estranho.  Essa língua estrangeira, minha língua materna. Minha língua materna, que me ajuda a entender os meus assassinos.
Às vezes, quase tenho que me arrancar do refúgio sossegado do meu anonimato, quando ouço falar ou vejo escrito o nome I. K., mas sei que nunca vou me identificar com ele.
"Eu sou um judeu diferente. Que tipo de judeu sou afinal? ... Sou diferente deles, sou diferente dos outros, sou diferente de mim.”

Um Outro - Crónica de Uma Metamorfose (1997)


“Vivemos na era das catástrofes, todo homem é portador da catástrofe, e para a sobrevivência se faz necessária uma arte peculiar da sobrevivência. O homem do tempo das catástrofes não tem destino, não tem qualidades, não tem caráter. O meio social terrível — o Estado, a ditadura, chame-o como quiser — o seduz com a força de atração dos redemoinhos vertiginosos até que ele desista da resistência e nele exploda o caos como um gêiser fervente — e a partir de então o caos se torna sua morada. Para ele, já não existe retorno a um ponto de equilíbrio do Eu, a uma certeza sólida e incontestável do Eu: portanto, perde-se no sentido mais verdadeiro da palavra. Esse ser sem o Eu é a catástrofe, o verdadeiro Mal.”

Aniquilação (2004)


Orfeu B.





domingo, 27 de março de 2016

Submissão


“L’idée renversante et simple, jamais exprimée auparavant avec cette force, que le sommet du bonheur humain réside dans la soumission la plus absolue. C'est une idée que j'hésiterais à exposer devant mes coreligionnaires qu'ils jugeraient peut-être blasphématoire, mais il y a pour moi un rapport entre l'absolue soumission de la femme à l'homme, telle que la décrit Histoire d'O, et la soumission de l'homme à Dieu, telle que l'envisage l'islam. Voyez-vous, poursuivit-il, l'islam accepte le monde, et il l'accepte dans son intégralité, il accepte le monde tel quel pour parler comme Nietzsche. Le point de vue du bouddhisme est que le monde est dukkha – inadéquation, souffrance. La christianisme lui-même manifeste de sérieuses réserves – Satan n'est-il pas qualifié de “prince du monde”? Pour l'Islam au contraire la création divine est parfaite, c'est un chef-d'œuvre absolu. Qu'est-ce que le Coran au fond, sinon un immense poème mystique de louange? De louange au Créateur, et de soumission à ses lois.”

Michel Houellebecq

Submissão é mais um inquietante romance do polémico escritor francês Michel Houellebecq, autor de obras não menos controversas como Les particules élémentaires, Plateforme, Extension de domaine de la lute, La possibilité d'une île, entre outras . Em 2022, a França, logo após a primeira volta das eleições presidenciais, é um país profundamente dividido entre a extrema direita de Marine Le Pen e o recém-criado partido da Fraternidade Muçulmana conduzido por um líder astuto e carismático que vence por pequena margem o candidato do partido socialista. O país é assolado por tumultos, por  incêndios de carros e pela destruição de mesas de voto. Anos sucessivos de políticas sociais desastrosas subordinadas prioritariamente às questões práticas da economia e das finanças dão origem a um confronto entre forças políticas que inevitavelmente desfigurarão para sempre a identidade do país. Para o  embate final, socialistas e gaulistas unem-se à Fraternidade Muçulmana para derrotar os neo-fascistas. O preço a pagar é a destruição de dezenas de anos de políticas sociais e uma radical reforma educacional e cultural que desmontará a educação laica e republicana e a substituirá por uma educação de inspiração religiosa e muçulmana. 

Este é o pano de fundo político da narrativa que tem como personagem principal François, um professor e investigador de literatura francesa do século XIX na Sorbonne - Paris III. A forma desapaixonada e algo cínica como encara o ensino levam-no a adoptar sem sobressaltos pela reforma aquando da islamização da universidades que tem lugar após a vitória da Fraternidade Muçulmana. Porém, após um período de depressão e isolamento, acaba por sucumbir à oferta que lhe é formulada de retornar à universidade. A perspectiva de gozar da notoriedade decorrente da nova posição universitária, a triplicação do seu salário e a possibilidade de poder gozar do direito da poligamia parecem-lhe compensar largamente a exigência de se converter ao islamismo. 

Submissão é um livro que analisa com grande perspicácia as questões fundamentais da construção europeia, da natureza das identidades no início do século XXI, e a correlação de forças políticas e sociais que nas décadas vindouras serão incontornáveis na Europa.  

Orfeu B.

                                                      

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Da Beleza e a Consolação

                                               

“Of Beauty and Consolation”, é uma invulgar série de entrevistas com figuras essenciais da cultura do nosso tempo, conduzidas pelo jornalista holandês Wim Kayser. A série foi estreada na VPRO, um canal holandês, a 2 de Janeiro de 2003 e prolongou-se até 1 de Julho do mesmo ano. Em Portugal, a série foi difundida em 2006 pela RTP2, para os noctívagos e para os que sofriam de insónias. Felizmente, hoje as entrevistas podem ser visualizadas e saboreadas através do You Tube.  

Foram entrevistadas 26 figuras marcantes da arte, da filosofia, da literatura, da música, da biologia e da física. A lista de personalidades intrevistadas é absolutamente impressionante (por ordem alfabética): Karel Appel, artista plástico; Vladimir Ashkenazy, pianista e maestro; Catherine Bott, soprano; John Coetzee, escritor; Richard Dufallo, maestro; Freeman Dyson, físico teórico; Rudi Fuchs, director de museu; Jane Goodall, primatóloga; Stephen Jay Gould, zoólogo e paleontólogo; Germaine Greer, escritora; György Konrád, escritor; Rutger Kopland, poeta e psiquiatra; Leon Lederman, físico experimental; Elizabeth Loftus, psicóloga; Gary Lynch, psicólogo e químico; Yehudi Menuhin, violinista e maestro; Martha Nussbaum, filósofa; Richard Rorty, filósofo; Simon Schama, historiador; Roger Scruton, filósofo, Wole Soyinka, escritor; George Steiner, escritor e filósofo; Tatjana Tolstaja, escritora; Dubravka Ugresić, escritor; Steven Weinberg, físico teórico; Edward Witten, físico teórico e físico-matemático. Num último programa, muitos dos entrevistados reuniram-se para um acalorado debate sobre o tema central da série. Este encontro teve lugar a 9 de Julho de 2000, no Stedelijk Museum, em Amesterdão. 

Ainda não tive o oportunidade de ver todas as entrevistas, contudo considero marcantes as que tive a oportunidade de ver (cerca de dez). Ouvir Steve Weinberg e Edward Witten a falar sobre os problemas candentes da física contemporânea e sobre a unificação das interacções fundamentais da natureza, Jay Gould sobre as evidências paleontológicas da evolução, Vladimir Ashkenazy sobre os desafios e a complexidade do trabalho da regência orquestral, George Steiner sobre o reino da memória e sobre a grandeza de certas obras literárias, e Yehudi Menuhin discursar sobre a necessidade da aprendizagem musical e do ensino em geral e também acerca do conflito israelo-palestiniano, propiciam momentos de comovente empatia e de sublime iluminação. 

Fossem os nossos programadores televisivos mais lúcidos esta série seria retransmitida em horário nobre e em regime de obrigatoriedade.

Orfeu B.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

RELENDO CRISTÓVÃO AGUIAR





Relendo Cristóvão de Aguiar


1. Voltei a ler Raiz comovida, agora reeditada pela Afrontamento, no 1º volume das Obras Completas de Cristóvão de Aguiar. A obra apareceu nos finais de 70, em três tomos: A semente e a seiva, 1979, (Prémio Ricardo Malheiros), Vindima de fogo (1979), e O fruto e o sonho (80).
Soube-me bem tornar a lê-la. A esta distância de quase 40 anos a obra não envelheceu nada, continua viva e com todas as suas qualidades. Pelo menos para aqueles que conheceram aquele Portugal, e aquele tempo, que se criaram a amá-lo e a sofrê-lo, com tudo o que implicava de ambientes, pessoas, situações, mentalidades, carências, injustiças, desequilíbrios sociais, misérias e grandezas. É um retrato magnífico da sociedade portuguesa da primeira metade do século XX, uma autêntica aguarela, como se costuma dizer, rica, colorida, picaresca, mas realista e cheia de humanidade e graça. E com a especificidade açoriana – na linguagem, nas paisagens, nos ambientes sociais - a dar-lhe um toque muito particular e a acrescentar-lhe o interesse, sem deixar de retratar todo o Portugal de então.
Com uma estrutura aberta, numa sequência de memórias de lugares, de pessoas e situações, uma criança recorda as suas vivências e vai muito para trás relatando casos contados por familiares seus, histórias da vila e das famílias, ligações, relações, ódios e afetos. E tudo isto através de uma escrita de grande qualidade, conseguindo misturar ingredientes que não é comum vermos tão bem sintetizados numa só obra. É de facto, como disse o Medeiros Ferreira, uma «homenagem à língua portuguesa»; mas é mais do que isso, é uma homenagem ao povo açoriano e, em termos mais vastos, a todo o povo português, pois sentimo-lo ali igual ao açoriano das mais variadas e sempre autênticas maneiras.

Não sei se haverá outra obra em Portugal, dentro do género, que nos mostre tão bem o Portugal de então. E se nos restringirmos aos Açores, certamente que não encontramos outra. Fala-se, por exemplo, de Mau tempo no canal, como um dos melhores romances do século XX. É uma opinião discutível, claro, embora se trate, sem dúvida, de uma das grandes obras literárias do nosso século XX. Tendo em conta que os dois autores são açorianos, que emergem da mesma realidade cultural e sem grande diferença temporal, a comparação é inevitável. E embora este tipo de comparações possa ser fonte de equívocos e de possíveis injustiças, Raiz comovida é um retrato mais rico, mais realista e mais próximo do povo açoriano que Mau tempo no canal. A obra de Nemésio retrata sobretudo a burguesia endinheirada e uma ou outra família com fumos de aristocracia, enquanto que a de Cristóvão de Aguiar vive do povo, dos artesãos, dos pescadores, dos trabalhadores rurais. Pode-se talvez falar duma densidade maior das personagens – sobretudo dessa personagem notável que é Margarida Dulmo – mas a própria estrutura e enredo do romance de Nemésio favorecem esta dimensão psicológica, que o livro de Cristóvão de Aguiar capta talvez menos pela própria estrutura e textura.
Se outro mérito não tivesse, a obra constitui um vastíssimo e variadíssimo quadro social e cultural, uma montra dos usos, costumes, mentalidades, falas, expressões, relações familiares, artes, ofícios, crenças, moralidade, sexualidade, repressão, formas de educação, manhas e artimanhas, enfim, histórias de muitas formas e feitios, que nos proporcionam um enorme prazer na leitura e uma informação sobre os Açores que nenhum outro meio consegue.


2. Mas, para lá disso, que é muito, tem ainda um mérito literário inquestionável. Ponho-me a pensar nos neorrealistas, entre os quais a obra de Cristóvão de Aguiar pode ser integrada - um neorrealismo tardio, é certo, mas, de qualquer modo, dentro da sua tradição - e dificilmente encontro um autor que tenha conseguido fazer tanto e tão bem com uma só obra; ou mesmo com três, já que se trata de uma trilogia. Os nossos neorrealistas mais considerados (por exemplo, Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Alves Redol) escrevem dum modo muito diferente, e embora com algumas obras de grande qualidade, qualquer deles esta longe de ter produzido uma riqueza colorida e múltipla como esta obra consegue.
Por outro lado, repito, a obra tem uma qualidade que não cede ao longo de todos os livros, uma originalidade de sintaxe - sem desconstruir sintaticamente - uma riqueza linguística única, e um sem número de achados de primeira, (De contente, «o senhor padre não cabia nos paramentos», ou «os luteranos recolheram as redes e partiram com elas vazia de almas e de peixes», p. 405; «os olhos colavam-se às montras das lojas que se sucediam como pevides de melancia», p. 277, etc., etc.). E algumas descrições de antologia, como a ida à cidade, com o pai, para comprar ferro, no pós-guerra, pp. 274 – 280, ou a aparição do Inferno ao pobre do Luz Cruz, pp. 241 – 244).
Talvez um pouco gongórica aqui e além. Mas também isto tem que ser contextualizado e relativizado, porque faz parte da amálgama lexical, social, cultural e até paisagística que, de algum modo, a solicita. E talvez até exija, pois a obra é sobretudo descrição, oralidade, colorido e não propriamente o jogo verbal e o arrebique desnecessário de que o gongorismo tanto gosta. Ou seja, a base coloquial das histórias, sequenciais e entrecruzadas, implica uma certa repetição, e até, por vezes, alguma redundância, que estranhamos talvez, afeiçoados que estamos hoje à concisão dos referidos Cardoso Pires e Carlos de Oliveira. Mas todas as obras são unidades sistémicas, definem a sua coerência e organizam-se em função disso. Importante é saber se conseguem mantê-la, ou não. Ora, também a este nível, Raiz comovida é irrepreensível. E se pensarmos na obra de alguns dos nossos maiores (Aquilino Ribeiro, Tomaz de Figueiredo, até mesmo Camilo Castelo Branco) encontramos gongorismos bem mais assumidos e desenvolvidos, e nem por isso as consideramos menos.



3. Por outro lado, ao relê-lo, tive várias vezes a sensação de uma injustiça. E, chegado ao fim, essa sensação reforçou-se. A obra teve o seu sucesso, ao tempo, é certo, mas o facto de manter a sua qualidade intacta ao fim de todos estes anos, mostra que ela tem todas as condições para se transformar num clássico. Ou melhor, já é um clássico, e estou certo de que o será cada vez mais. E a injustiça está precisamente aqui, não se compreendendo, portanto, o silêncio que se fez sobre ela, e que continua a fazer-se, quando é certo que a sua reedição, com a qualidade que agora tem, devia ser motivo para muito maior projeção e divulgação. É estranho que nada se diga sobre esta obra quando tanto se diz sobre outras que, dentro de alguns anos, provavelmente ninguém lerá. Há mistérios na nossa vida intelectual e literária que são difíceis de entender. Ou que talvez se entendam se desprezarmos a qualidade literária – único critério que de facto interessa mas à qual nem todos chegam – e pensarmos em mesquinhices paróquias de natureza político-partidária.

O plano da edição das Obras Completas de Cristóvão de Aguiar, cujo 2º volume – Amor ilhéu, saiu juntamente com o primeiro, vai continuar, com a promessa de uma edição de 13 volumes. Esperemos que o projeto vá até ao fim com a qualidade destes dois primeiros, e que possa beneficiar da divulgação que merece, porque, como diz Mário Mesquita na contra-capa deste primeiro volume, «Cristóvão de Aguiar é um dos principais responsáveis pela afirmação cultural dos Açores após o 25 de Abril». E mais do isso, a sua prosa é de uma qualidade, de uma vivacidade e duma riqueza que constitui, ou deveria constituir, uma referência entre os nossos bons escritores do século XX.

João Boavida

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Meu nome é vermelho

 …
Procurar imitar o mundo através da pintura parece-me desonroso. Eu ressinto-me disto. Mas há um inegável fascínio nas pinturas que eles produzem com os novos métodos. Eles representam o que os olhos vêem como os olhos as vêem. De facto, eles pintam os que os olhos vêem, enquanto que nós pintamos o que nós olhamos. Ao contemplar os seus trabalhos, percebemos que a única forma de imortalizar uma face é através do estilo dos ocidentais. E não são só os habitantes de Veneza que já foram convencidos por esta noção, mas todos os alfaiates, talhantes, soldados, párocos e merceeiros de todo o Ocidente. Eles têm os seus retratos representados desta forma. Um breve olhar nestes retratos e também nós quereríamos nos ver retratados desta forma, pois queremos acreditar que somos diferentes de todos os outros, um único e particular ser humano. Retratar pessoas, não como a mente as percebe, mas elas são realmente vistas pela vista desarmada, é a possibilidade que o novo método nos permite. Chegará um tempo onde todos pintarão como eles o fazem. Quando a pintura for mencionada, o mundo pensará necessariamente na pintura dos ocidentais.         
Qualquer um que pense que um artista assemelha-se à pintura que ele pinta, não me compreende e aos meus mestres artistas. O que nos expõe não é tema que nos foi encomendado, mas as sensibilidades implícitas que nós imprimimos ao tema. A luz que parece radiar do interior da pintura, uma palpável dúvida ou rancor que se nota na composição das figuras, cavalos e árvores, o desejo e a tristeza que emana de um cipreste quando este atinge os céus, a resignação sincera e a paciência que imprimimos quando ilustramos os ladrilhos de parede com um fervor que convida à cegueira … Sim, estes são os nossos traços escondidos, não aqueles cavalos idênticos todos em linha. Quando um artista representa a fúria e a velocidade de um cavalo, ele não pinta a sua fúria e a sua velocidade; ao procurar pintar um cavalo perfeito, ele revela o seu amor pela riqueza do mundo e do seu criador, exibindo todas as cores da paixão pela vida - apenas isto, nada mais.        
Fosse este livro completo e enviado, os artistas de Veneza o ridicularizariam e o seu escárnio chegaria ao Doge de Veneza. Eles dar-se-iam conta que os Otomanos haviam deixado de ser Otomanos e não mais nos temeriam. Quão maravilhoso seria se nós pudéssemos persistir no caminho dos antigos mestres! Porém ninguém quer seguir este caminho, nem Sua Excelência O Nosso Sultão, nem o Senhor Negro - que está melancólico por não ter um retrato da sua Shekure. Neste caso, nós nos resignaremos a copiar, como macacos, século após século, os Europeus. Orgulhosamente nós assinaremos os nossos nomes na nossa arte de imitação. Os antigos mestres de Herat procuraram pintar o mundo segundo os olhos de Deus, e para ocultar a sua individualidade eles nunca assinaram os seus nomes. Vós, não obstante, estão condenados a assinar os vossos nomes para ocultar a vossa ausência de individualidade. Porém, não há alternativa. Cada um vós foi convocado, e o estão a me esconder: Akhar, Sultão do Hindustão, está distribuindo dinheiro e benesses, tentando juntar na sua corte os artistas mais talentosos do mundo. É evidente que o livro para celebrar o milénio do Islão não será compilado aqui em Istambul, mas num atelier de Agra.       

Ohran Pamuk

Um livro magnífico do autor turco, Orhan Pamuk, Prémio Nobel da Literatura de 2006. Um conjunto de dezanove vozes, que se exprimem na primeira pessoa, e que incluem um cadáver, o diabo, um cão, e o pigmento vermelho que dá título ao livro. Um livro que nos expõe enfaticamente à riqueza cultural do Império Otomano, tão singularmente situado entre o Ocidente e o Oriente. A Istambul do Inverno de 1591 é o palco desta trama barroca que envolve dois assassinatos e a colisão estética e filosófica da arte dos iluminaristas muçulmanos com a arte ocidental, que então já absorvera completamente as técnicas de perspectiva da Itália renascentista.

O fio condutor desta narrativa profundamente humana e reflexiva é a encomenda secreta do sultão, Murat III, de um livro ilustrado pelos seus mais hábeis artistas para presentear o Doge de Veneza. Pretendia o sultão celebrar o primeiro milénio da Hégira (a fuga de Maomé de Meca para Medina em 622 D.C.) e demonstrar, através do livro, a riqueza do Império Otomano e a superioridade do mundo islâmico. A encomenda encerrava no entanto, uma exigência invulgar: o sultão deveria ser retratado segundo as técnicas ocidentais da perspectiva.  

A exigência do sultão desencadeia um conflito entre os artistas que defendem a manutenção das técnicas tradicionais de ilustração chinesa-mongol-persa-otomana de retratar a realidade segundo os olhos de Alá, e os artistas que trabalhavam sem reservas no livro. Quando um dos artistas é assassinado, a intriga se transforma num thriller de caça ao assassino, mas também numa análise histórica acerca o sentido da manutenção de uma filosofia de retratar o mundo cujo sentido último era vislumbrar a eternidade e cuja virtude maior dos seus executantes jazia na capacidade de copiar os antigos mestres sem que no processo se evidenciasse um estilo pessoal. 

Decorre simultaneamente à trama envolvendo os artistas, o pungente caso de amor entre Negro, um artista que regressa a Istambul após doze anos de ausência, e a bela Shekure, relação esta intermediada pela judia analfabeta, Esther, profissional na “arte” de unir pares e compreender as complexas nuances dos sentimentos amorosos. Estas personagens femininas propiciam um contraponto precioso, pois têm “um olho no livro e outro fora dele”. 

Um livro estatisticamente exuberante que espelha com cores vivas as radicais diferenças entre duas culturas, e que encerra grandes momentos de lirismo, meta-literatura, história, da dura sociologia de submissão e abuso nos ateliers de artistas, e uma ampla dimensão reflexiva sobre os grandes vectores da vida.   

Orfeu B.



sábado, 19 de dezembro de 2015

O MERGULHO NA ESTRANHEZA




Peter Carey, premiado escritor australiano, escreveu um delicioso livrinho publicado há tempo pela Tinta da China e intitulado "O Japão é um lugar estranho".

O livro de Peter Carey era um repositório de situações estranhas. O livro de Ricardo Adolfoque pode perfeitamente ser alinhado ao lado de Carey, na mesma prateleira, embora o primeiro seja uma espécie de reportagem e o segundo uma obra de ficção.

Mas ambos abordam a vida dos japoneses nessa imensa metrópole que é Tóquio, num Japão que foi arrasadpo pela Guerra e onde, dizem,-me, houve um corte radical com o passado, para se construir um presente onde a importação de tradições e hábitos ocidentais se faz de forma completamente arbitrária e estranha para um leitor desavisado como é o meu caso.

Ricardo Adolfo é um escritor nascido em Angola, e que viveu vários anos num dos subúrbios do Concelho de Sintra. Conhece e usa brilhantemente a forma de falar e de pensar dos jovens desses bairros. Escreveu 3 ou 4 romances muito ineteressantes dos quais saliento "Mizé, antes galdéria que normal e remediada".

Ricardo Adolfo foi viver para o Japão e dá-nos agora uma imporessionante descrição do quotidiano, da forma de viver e pensar dos japoneses de um subúrbio de Tóquio.

A ironia começa porque o narrador do livro descreve um subúrbio de Tóquio a partir de uma linguagem típica do habitante de um subúrbio de Sintra.

No início explica-nos muito vagamente que seria um pequeno marginal com problemas repetidos com a polícia portuguesa e que ao mudar de país procura também mudar de vida e integrar-se na vida normal dos japoneses, o que inclui comprrender de que é que consta essa vida, até casar-se com uma japonesa que parece ter preocupações muito longínquas de uma portuguesa do mesmo escalão.

De surpresa em surpresa vamos caminhando apaixonadamente pela prosa do autor, tentando arrumar um puzzle de peças difíceis de entender aos olhos de um ocidental impreparado e explicadas pelo olhar amalandrado do Cacém ou do Algueirão que é o do narrador.

Não se pode falar exactamente de romance mas de uma sequência algo frenética de histórias e acontecimentos hilariantes que foram publicados como crónicas na revista Sábado.

Talvez nem tudo seja verdade. A leitura deixa-nos frequentemente na possível fronteira entre ficção e realidade. O resultado é sempre ou quase sempre muito divertido.

Desde a naturalidade com que as pessoas dormem no emprego, passando pelo Natal do qual, segundo o narrador, os japoneses apenas retiveram a ideia de amor e, assim, torna-se quase obrigatório passar o dia 25 de Dezembro com uma parceira num Motel de encontros ocasionais, até ao protesto da jovem esposa por o marido não ter uma amante, facto que a desvaloriza aos olhos da comunidade.

Li o livro num ápice como me tem acontecido com as obras do autor. É uma escrita talvez única n nossa literatura actual. Uma escrita que vale muito a pena ler.


quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Caminhada




A vida harmoniza-se com a terra selvagem. O mais vivo é o mais selvagem. Como o selvagem ainda não se rendeu ao homem, a terra retempera-o. Quem avança incessantemente e nunca descansa dos seus afazeres, quem se desenvolve depressa e exige coisas infinitas à vida encontra-se eternamente numa nova terra ou numa zona selvagem, rodeado pela matéria-prima da vida. É como se trepasse aos troncos derrubados das árvores da floresta primitiva. 

Para mim, a esperança e o futuro não nos campos relvados nem nas terras de cultivo, nas cidades nem nas vilas, mas nos impenetráveis pântanos de solo instável …

A minha boa disposição é proporcional à desolação exterior. Dêem-me o oceano, o deserto ou a natureza selvagem! No deserto o ar puro e a solidão compensam a ausência de humidade e a aridez … 

Henry David Thoreau


Caminhada é a derradeira exposição de Thoreau (1817 - 1862) sobre a sua relação íntima e privilegiada com a natureza. Resultado das inúmeras palestras proferidas sobre a temática, Caminhada, faz parte do legado de cerca de 20 obras que o autor do seminal Walden ou a Vida nos Bosques e do influente Desobediência Civil nos deixou. O pensamento de Thoreau está inevitavelmente associado ao naturalismo, à ecologia, ao abolicionismo militante e ao ativismo anti-impostos. Em essência, o que Thoreau nos propõe, retórica e pragmaticamente, é um retorno à simplicidade de uma existência vivida no seio da natureza intacta. A visão de Thoreau para além de precursora dos movimentos ecologistas modernos, contém também uma advertência sobre os perigos da industrialização, que embora ainda incipiente nos Estados Unidos do seu tempo, já prenunciava o aparecimento de uma mentalidade socialmente marcada pelo materialismo e pelo egotismo.

Politicamente, Thoreau defende que contra um estado injusto e opressor, o indivíduo tem o dever de demonstrar a sua oposição, pacífica e racionalmente, pensamento que influenciou indelevelmente personalidades como Tolstói, Gandhi, e Martin Luther King Jr. Thoreau é, no entanto, um realista que almeja antes uma melhoria da governação do que a sua radical substituição; e por ser um anarquista individualista defende que: "O melhor governo é o que não governa. Quando os homens estiverem devidamente preparados,terão esse governo”. Mas para lá chegar, Thoreau advoga uma vida afastada da sociedade e uma viagem interior através de uma existência reduzida ao essencial e em liberdade de modo a responder às verdadeiras questões da vida.

Assim, por entre bosques, colinas, ribeiras e pântanos, a leitura deste livro possibilitará o leitor ter um magnífico vislumbre da personalidade de um indivíduo que colocou a liberdade de seu espírito acima das ideias consensuais do seu tempo e que abdicou conscientemente das conveniências materiais que estas lhe poderiam ter propiciado.

Orfeu B. 

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

"Todas as vidas de homens são contos de fadas escritos pelas mãos de Deus" Hans Christian Andersen

Coisas de Bruxa... 

"Se Andersen vivesse hoje as suas histórias nasceriam diferentes. O Patinho Feio deixaria a família que o desprezava e tornava-se mascote da escola da aldeia até o seu fecho levar para longe a meia dúzia de crianças que o acarinhavam. A aldeia deserta de crianças das seis da manhã às sete da noite não era lugar para ele. Tentaria a sorte no Canadá pensando que, por ser mal amado na sua terra, podia pedir estatuto de refugiado. Seria repatriado. Finalmente, transformado em lindo cisne, batia as asas seguro de si e tombava na margem do lago, acabando por ter a sua história contada na televisão, o moderno ópio do povo.A realidade não está para contos. Paris deixou de ser a cidade dos sonhos e a nossa rua não é lugar ao abrigo de nada. Mas, para as crianças, a realidade é a ponta visível de um gigantesco iceberg. Imerso está um mundo de fantasia que as sustenta. As histórias que lhe contamos preparam-nas para a vida. O destino de cada criança tem de ser ancorado a uma excelente educação. Os livros não podem ser esquecidos. E por isso tudo vale a pena."S.A.

Escrito em Maio de 2011... 
Igual a hoje quando o tempo voa na vida complicada que não permite não atender a muito mais que o quotidiano. Mas ainda não morremos. Nem podemos deixar morrer o que nos guia.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

UMA ALMA ENORME


Conheci a Cristina há meia dúzia de anos. Descobri que era filha de António Gedeão e fiquei naturalmente encantado por ser filha de quem é e por ser quem é: uma pessoa encantadora, capaz de viver a vida em todas direcções e sempre com uma alma enorme.

Nessa altura tinha lido um livro dela: "O gato de Upsala", uma delícia que ela assinou escrevendo que h´4o anis que éramos amigos e só então é que nos conhecíamos.

Continuamos a ser amigos. Muito amigos. E eu tive o imenso prazer de colaborar na apresentação deste seu livro recente, ao seu lado, do Mário de Carvalho e da Ana Pereirinha, a excelente editora da Planeta.


Posso dizer que a minha querida amiga Cristina Carvalho é uma mulher de paixões que transbordam na escrita onde tem dado a público nos últimos anos uma série de livros muito interessantes, quer para adultos quer para jovens.

Lendo este livro percebemos logo nas primeiras páginas que a Cristina fugiu aos modelos clássicos do género, e que se apaixonou pela figura fantástica d e Modigliani e desatou a escrever uma biografia que também pode ser uma auto-biografia escrita por outra mão que não a do que se auto-bigrafa.

Isto pode parecer esquisito mas não é.

A Cristina escreve esta biografia como se se tratasse de um painel de vários olhares e várias mãos escritoras. A dela, autora, a de Modigliani sob a forma de de uma certa biografia, a da descrição de várias outras personagens, nomedamente algumas das mulheres que amaram e foam foram amadas pelo grande pintor.

Em destaque estão as doenças que sempre massacraram o pintor desde a sua infância e juventude, o seu mergulho em álcool e drogas, a vida que arrasta numa roda de boémia e miséria, a forma como arrebata o coração das mulheres, a forte crença no valor da sua própria obra, a forma com alterna os estados de espírito entre a depressão e a euforia, tão próprio das personalidades criativas.

Em destaque ainda está o encanto sensual e o deslumbre que o belo judeu italiano exercia sobre as mulheres, as mais mundanas e experientes ou as mais ingénuas como aquela que foi a mãe da sua filha e que por ele se suicidou a seguir à sua morte.

O romance não será bem um romance no sentido clássico mas um turbilhão crescente que arrasta o leitor, uma roda de viva de momentos, pequenas histórias, personagens diversas desde mãe até aos amigos e às amantes, passando pela estranhíssima relação com Picasso (ou de Picasso com ele) e tudo num carrosel de olhares sobre Modigliani que vai rodando cada vez mais depressa até à morte inevitável ainda numa idade jovem..


sábado, 31 de outubro de 2015

UMA CIDADE CONTADA PELO LONGE E PELO PERTO



É excelente esta colecção da Tinta da China que nos leva a viajar por lugares diversos do mundo real ou do imaginário através das palavras sempre ou quase sempre envolventes que se tornam elas próprias em caminhos admiráveis dirigidos pela mão de excelentes escritores.

Neste caso trata-se de Enric González, jornalista catalão de que já aqui falei de "Histórias de Londres" e "Histórias de Roma".

Correspondente estrangeiro do jornal El País, González tem vivido períodos de 4/5 anos em diversas cidades e que vai contando como se cruza com pequenas histórias e grandes vividas nessas cidades, lendas e mitos da sua história, do futebol, dos restaurantes, das suas figuras míticas...

O autor dá-nos o jeito da cidade, o tom, o cheiro das ruas, o gosto das suas bebidas, o característico dos seus recantos. Torna-nos cúmplices de alguns típicos personagens. Íntimos de artesãos, comeerciantes, cozinheiros, jornalistas... Liga os conhecimentos mais ou menos básicos que temos dessas cidades através de caminhos novos por onde nos faz entrar através da palavra que nos incia em dimensões novas que nos revelam dimensões desconhecidas.

Neste último livrinho, o autor leva-nos pela mão à histórias das terríveis raízes da violência com que se foi construindo Nova York. Começa pelos «bandos italianos e irlandeses do século XIX (de que nos fala com extremamente dureza o filme de Scorcese "Gangs de Nova York"). Segue pelas guerras da Mafia no ec. XX até aos extraordinários desmandos do Mayor Giuliani que acabou por limpar Manhattan da criminalidade de rua.

Conta-nos a história do aparecimento dos arranha-céus. Avisa-nos de onde se comem os melhores bifes e hamburgueres. Tenta explicar os encantos do basebol o que se revela no meu caso com pouco êxito já que sempre revelei uma grande incapacidade para entender as regras e os encantos do jogo. Ajuda-nos a entender a história dos bairros. Fala-nos dos milionários do início do século XX, Rockfeller, Morgan, Carnegie, Vanderbilt, capazes de criar fortunas impensáveis, museus fabulosos, lendas e tragédias.

O livro lê-se como quem passeia pela cidade. Mas parece não acender o mesmo encanto que nos deixa quando fala de Londres ou de Roma. Será porque a espessura das cidades europeias tem outra dimensão? Será porque o próprio autor não se deixa envolver nas malhas do encanto desta cidade? Mas o livro é imperdível. Tanto para quem nunca foi a Nova York como para quem a conhece muito bem. Saramago afirmou que "poucas leituras me deram tanto prazer nos últimos anos". Isso basta. Parece-me a mim.

domingo, 11 de outubro de 2015

SOMBRA E LUZ


Henning Mankell é um excepcional narrador com o ofício caldeado na literatura policial.

O seu inspector Kurt Wallander é uma personagem excepcionalmente bem talhada. A sua humanidade vai-se desenvolvendo através de aventuras, crimes, quer doS pequenos, quer dos crimes dos grandes grupos económicos e políticos.

O ritmo é seguro, eficaz e envolvente e a narrativa desenvolve-se através de surpresas que nos interrogam e questionam.

Assim também este “Anjo Impuro”.

Sendo um dos autores europeus que mais livros vende, Mankell vive em Maputo onde colabora e apoIa a vários níveis o excelente grupo de teatro “Mutumbela Gogo”

O seu romance, inspirado numa história real, centra-se numa jovem sueca de origem muito pobre que em 1904 embarca como cozinheira e única mulher a bordo de vapor que leva madeira para a Austrália.

Na viagem, Hanna casa-se com o imediato do navio tornando-se inesperadamente viúva, poucas semanas depois.

Incapaz de continuar a bordo desembarca em Lourenço Marques, descobre-se grávida, adoece e é recolhida e tratada no mais famoso bordel da cidade, cujas protitutas são todas negras e muito procuradas por homens brancos, profundamente racistas, mandadores de uma sociedade radicalmente racista quer em Moçambique quer na África do Sul.

Recuperada de um aborto natural, graças a uma prostituta de quem se torna amiga, Hanna começa a confrontar-se com uma sociedade que não entende. Não entende a violência e o racismo, e também não entende a reacção dos negros, os seus silêncios e as suas estranhas emoções. .

Entalada entre dois mundos, aprendendo a pouco e pouco a língua portuguesa, Hanna que aprendeu a ler e a escrever sozinha ainda na Suécia, começa a escrever um diário.

Com surpresa, Hanna recebe o pedido de casamento do riquíssimo dono do bordel. Aceita e casa-se com ele. E de novo fica viúva. Viúva e muito rica.

E a historia continua centrada na digna oposição de Hanna ao terror racista e colonial e ainda na sua tentativa de se entender, comunicar e expressar afectos aos negros, o que nem sempre se torna fácil.

Mankell consegue traçar um quadro impressionante sobre a África Austral do início do séc. XX e a dificuldade de comunicação fora do contexto de um colonialismo básico e extremamente violento.

E consegue criar uma malha narrativa que nos envolve e nos vai levando de surpresa em surpresa, de angústia em angústia, de sombra em luz.


terça-feira, 22 de setembro de 2015

A terra devastada


Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas aleias de Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos.
Big gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.
Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,
Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.
E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,
Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizamos.
Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.
Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.
Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham
Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,
Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces
Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam,
nem te consola o canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.
(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto

De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.



T. S. Eliot

Um dos mais poderosos poemas de língua Inglesa do século XX. Um conjunto de imagens sobrepostas que retratam a fragmentação dos conceitos e o desvanecer das ideias luminosas que marcaram o final do século XIX. Um conjunto complexo de vozes e fontes de inspiração cantam melancolicamente o mal estar das fugazes certezas dilaceradas pela Primeira Grande Guerra e pelas crises do século XX. Um poema intemporal e sempre necessário.  

Publicado em Outubro de 1922 na Grã Bretanha e no mês seguinte nos Estados Unidos, “A terra devastada” é um dos mais representativos exemplos da poesia moderna. Riquíssimo em referências e vagamente inspirado nas lendas do Santo Graal e do Rei Pescador, o poema evoca a tradição grega através da insinuação e referência de figuras como UlissesSibila e Tirésias, os Upanishads hindi, a tradição cristã na sua versão anglicana.

A multiplicidade de imagens e ambientes sugeridos pelo poema composto por cinco partes, reflecte a fragmentação da espiritualidade do autor no início dos anos 1920. Na sua primeira parte, “The Burial of the Dead”, o poema é fortemente marcado pelo desespero e pela dúvida espiritual; na sua segunda parte “The Game of Chess”, caracteriza-se pelo contacto com a existência material; o inevitável tema da morte marca a terceira parte “The Fire Sermon”, e sua relação com as religiões do ocidente; a brevíssima quarta secção “Death by Water” é marcada pelo lirismo e pela alusão, “… Gentio ou Judeu/Ó tu que voltas o leme e olhas na direcção do vento/Pensa em Phlebas, que foi em tempos alto e belo como tu; na quinta parte, “What the Thunder said”, coloca-nos diante do julgamento final e da derradeira hipótese de remissão espiritual, “… A pescar, tendo atrás de mim a planície árida/Porei ao menos as minhas terras em ordem? …” para encerrar o poema com um mantra em Sânscrito "Shantih shantih shantih” dos Upanishads, após passar pela rima infantil, “London bridge is falling down, falling down, falling down”, uma linha do Purgatório de Dante, outra de um soneto de Nerval e uma da Tragédia Espanhola de Kyd.   

Um poema magistral de T. S. Eliot (1888-1965), autor norte-americano naturalizado britânico em 1927, autor de coletâneas marcantes da poesia de língua Inglesa do século XX, tais como The Hollow Men (1925), Ash Wednesday (1930), and Four Quartets (1945). Foi também autor de várias peças de teatro, as mais conhecidas “Murder in the Cathedral” (1935) e “Family Reunion” (1939), foram largamente encenadas. T. S. Eliot foi galardoado com o Prémio Nobel de Literatura em 1948.  

Orfeu B.
   

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

ORATURA E LITERATURA


Hans Magnus Enzensberger fala de analfabetos primários e analfabetos secundários. Os primários não sabem ler, por isso têm de ter uma grande memória para guardar todo o seu saber, o seu por vezes enorme conhecimento oral que inclui histórias, lendas, mitos, poemas, lenga-lengas, orações, etc.

Há quem chame a este património a ORATURA. Ou seja, a literatura oral.

Foi e continua a ser importantíssimo o trabalho de muitos escritores e antropólogos que procuraram e continuam a procurar guardar lendas e mitos orais fixando-os através da escrita, fazendo assim a passagem da oratura à literatura.

Oral ou escrita, toda a nossa civilização se baseia na palavra, seja ela dita ou escrita.

Enzensberger fala-nos ainda dos analfabetos secundários. Os que sabem ler mas... Não têm tempo para ler. Sabem usar cartões de crédito, ouvem imperetrivelmente todas as notícias que logo de seguida deixam de ter qualuqer importância, são consumidores atentos e venerados dos que propagam a opinião única, que espalham verdades absolutas, descartadas depois com a maior facilidade.

Estes analfabetos secundários, podem ser pessoas de grande importância, ministros, presidentes, directores de bancos; ou de menor importância, empregados bancários, caixas de supermercado, vendedores de fruta, cantores de três o pataco. Todos eles viraram costas à palavra em toda a sua grandeza e maravilha. Não crescem através da literatura e da narração, não pertencem ao número dos privilegiados pela arte da leitura.

A ausência de ligação à palavra do mito e da lenda, da reflexão e da busca de sentido, faz com que estes analfabetos vão perdendo a sua identidade antiga ao contrário dos inúmeros povos que dentro do espaço da lusofonia cuja língua materna não tem escrita mas que possuem uma fortíssima identidade passada de pais a filhos através da sua tradição oral.

É na língua oficial, o português, que a sua oratura destes povos se torna literatura, como é o caso das lendas dos índios Kayapós aqui reunidas por Susana Ventura com deliciosas ilustrações de Vanina Starkoff.

Susana Ventura alerta-nos na introdução para o facto de que há inúmeras tribos Kayapóes pelo Brasil, com diversas línguas vivas, o que que faz com que estas lendas e histórias apropriadas aqui ou ali, desta ou daquela forma, dão origem a um número vasto de versões de cada uma.

Fico cheio de "inveja" da Susana. Porque sou como um menino que fica apaixonado por estas nbarrativas e logo me atece reescrevê-las com os meus olhos de lisboeta espantado da vida e do mundo.

Mas dou os parab´nes à Susana porque esta recriação literária constitui uma excelente maneira de entrar em contacto com um universo fantástico e fascinante e que nos enriquece e acrescenta em poesia e humanidade.



sábado, 12 de setembro de 2015

ANTÓNIO FERRO MODERNISMO, PROPAGANDA, SALAZARISMO


Este é o livro de um jornalista sobre um outro jornalista que terá vendido a verdade da sua profissão para se tornar num propagandista sem escrúpulos da figura tão oblíqua e tão duradoura como foi a do ditador Oliveira Salazar.

O núcleo central do livro entrega-nos, com revolta e com pormenor resultante de muita investigação, a figura multifacetada de um homem que desempenhou um papel fundamental nos anos 30 em Portugal e que acabou afastado do país, numa espécie de exílio dourado, a seguir ao final da 2ª Guerra Mundial.

O livro de Orlando Raimundo, centrando-se na figura controversa e espaventosa de António Ferro, dá-nos também um retrato atento do Portugal cultural, político e social dos primeiros anos da ditadura.

Amigo de Fernando Pessoa e de Almada Negreiros, escritor de fraca qualidade, admirador incondicional de Mussulini, apoiante do nacionalismo franquista de Espanha, apoiante incondicional de Salazar, António Ferro terá estado disposto a torcer toda a verdade, a fabricar obras de claríssima propaganda como as entrevistas a Salazar, disfarçadas de peças de jornalismo ou literatura.

Ferro mexer-se-ia com facilidade em certos meios da cultura internacional, trazendo a Portugal figuras de prestígio inquestionável que cercava de honrarias e festas, procurando vender uma imagem nacional de progresso e desenvolvimento fazendo do povo português um povo pacífico e seguidor entusiasta da política salazarista.

Algumas cenas ridículas e menores vão sendo desenterrados por Orlando Raimundo que procura ao longo do livro contestar claramente o mito de que Ferro seria um homem do modernismo com obra literária apreciável.

A denúncia das manigâncias de Ferro deixam surpreendidos os menos informados. E mesmo quem, como eu, cresceu debaixo de alguns dos mitos do propagandista, fica ainda surpreendido perante as mentiras e invenções falsamente populares como são o galo de Barcelos, a aldeia mais portuguesa de Portugal, as sete saias das mulheres da Nazaré, as arrecadas de ouro das noivas do Minho, as marchas dos Santos Populares e etc, etc.

Outro aspecto importante.

Percebemos aqui como, além de Almada Negreiros, Ferro puxou para si a colaboração de inúmeros artistas plásticos, mesmo os mais vanguardistas. Pelo contrário foram muito menos os escritores a marcar presença ao lado do regime. E talvez a razão seja simples. Os artistas plásticos, sem outros mecenas ou compradores, passaram a depender em grande parte das encomendas do homem da propaganda do regime. Os escritores, por seu lado, tinham outras profissões e não viviam da escrita.

Muito mais haveria para dizer de um livro que assume claramente o risco de tratar a memória com emoção. Por isso mesmo e não só trata-se de um livro fundamental sobre um período e uma figura que muito tem sido maquilhada e que nos mostra a importância de trazer a terreiro as memóias, por vezes tontas, por vezes dolorosas, da nossa história recente.


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

O EXÉRCITO ILUMINADO


Há editores que marcam a vida dos leitores. Através da tradução e da edição trazem-nos ao conhecimento autores que nos escapariam porque não podemos saber tudo nem conhecer todos os autores e todos os livros do mundo e muitos nos escapam e sempre nos hão-de escapar.

No entanto, a sensibilidade e teimosia destes homens ou mulheres vão traçando caminhos de leitura e, talvez até, caminhos de vida.

Recordo o João Rodrigues que me deu a conhecer na colecção de Bolso da Âmbar o notável escritor italiano Erri de Luca, que muito aprecio e que sigo em português e por vezes em traduções francesas. Mais tarde, na Sextante, o João continuou a dar a conhecer autores fundamentais como Don de Lillo, Romain Gary e mais e mais.

O Carlos da Veiga Ferreira criou um catálogo fabuloso na editora Teorema e continua na Teodolito. Agradeço-lhe ter conhecido escritores como Ignácio Martínez de Pisón, ou o tão diverso W. G. Sebald.

Recordo ainda Rolin, Modiano, aparecidos em português na colecção da ASA pelas mãos do Manuel Alberto Valente.

Ou o trabalho fantástico da Maria do Rosário Pedreira na Temas & Debates ao dar a conhecer estritores como João Tordo, Paulo Moreiras e José Luís Peixoto.

E ainda antes deles todos, o Carlos Araújo, na D. Quixote dos anos 60, com os seus fantásticos Cadernos D. Qixote, Cadernos de Poesia, Cadernos de cinema e outros.

Um destes editores a quem me sinto particularmente agradecido é o Marcelo Teixeira da Editora Parsifal. Há uns anos, estava ele na Campo das Letras (Grupo Leya) e publicou uma excelente colecção, Ovelha Negra de seu nome, que me deu a conhecer autores latino-americanos como José Emílio Pacheco, Jesus Zarate, Augusto Monterroso e vários outros, entre os quais o mexicano David Toscana.

O primeiro livro de Toscana que li chama-se "O primeiro leitor", já aqui o abordei e guardo dele uma recordação entusiasta.

"O Exército iluminado" é uma pérola, uma delícia, um delírio, um caminho de grandes e pequenas surpresas que nos arrastam

Talvez possam querer arrumá-lo nas prateleiras do "realismo fantástico" onde, com rancor, alguns críticos gostam de guardar os seus ódios.

Eu cá, gosto de excessos. Gosto do uso desbragado da imaginação que leva as situação até às últimas e impensáveis consequênciasao do riso à mais profunda e comovente emoção. É neste território que Toscana trabalha.

Ignacio Matus é um professor que transmite repetidamente aos alunos a vergonha nacional que constituiu a perda do estado mexicano do Texas para os Estados Unidos da América, o que leva à sua expulsão do estabelecimento de ensino.

Ferido no seu patriotismo, decide formar um exército no qual se alistam crianças deficientes, que sai da cidade de Monterrey numa carrossa puxada por um burro com a missão de atravessar o rio Bravo, reconquistar o forte El Álamo e, assim, recuperar o Texas e a dignidade da pátria mexicana.

O seu antiamericanismo deve-se também à firme convicção de que um atleta norte-americano lhe arrebatou a glória da medalha de bronze nas Olimpíadas de Paris em que, de resto, ele não participou mas, correndo ao mesmo tempo, em Monterrey, teve melhor melhor resultado.

Romance inquietante, irónico e comovente, onde os fracassos das personagens os transformam em verdadeiros heróis e onde aas narrativas do onírico, da mitomania patriótica, do consumismo mediático, se atravessam e sobrepõem numa malha que está sempre a arrastar-nos para permanentes surpresas que tornam a leitura numa experiência que nos agarra pelos olhos e não nos larga até ao fim.

domingo, 16 de agosto de 2015

Travessia de Verão

Grady nunca passara o Verão em Nova Iorque, e por isso nunca conhecera uma noite como aquela. O tempo quente abre o crânio a uma cidade, mostrando o cérebro branco, e o coração cheio de nervos, que crepitam como fios no interior de uma lâmpada. E emana um cheiro acre sobre-humano que faz com que as próprias pedras pareçam de carne viva, ligadas e a pulsar. Não era que Grady não estivesse familiarizada com o desespero acelerado que uma cidade pode produzir, pois já vira todos os seus componentes na Broadway. Só que aí fora algo a que assistira como espectadora, e na qual não tomara parte. Mas agora, não havia saída possível: ela mesma era um dos participantes. 

Truman Capote 

Travessia de Verão (Summer Crossing) é uma das primeiras experiências novelísticas de Truman Capote (1924-1984), celebrado escritor norte-americano, autor de “Breakfast at Tiffany’s” (1958) e “In Cold Blood” (1966). Publicado postumamente em 2004 (em 2006 entre nós), o manuscrito foi encontrado nos pertences do autor após a sua morte numa das suas antigas moradas em Nova Iorque, não se sabe se por esquecimento ou deliberadamente. Depois de uma análise cuidadosa, os representantes legais do Fundo Literário Truman Capote, estabelecido ainda em vida por desejo do autor, decidiram pela publicação do manuscrito por  considerá-lo completo e após umas poucas ligeiras correcções.

O traço estilístico do autor é indelével e trata-se de uma obra muito carregada com as preocupações dos autores norte-americanos dos anos 1950. As descrições claras e penetrantes são intercaladas pelas reflexões dos protagonistas que se sucedem com grande energia. Capote é exímio em contrastar as classes sociais dos personagens e descreve com cores vívidas o absurdo das etiquetas, a veleidade e a prodigalidade da classe dominante de Nova Iorque dos anos 1950.

Em a Travessia de Verão, Capote cria o relacionamento de Grady, de 17 anos e filha de um magnata da indústria, com Clyde de 23 anos, um modesto judeu do Brooklin, cujos horizontes estão fechados pela falta de qualificações e pela falta de talento no basebol. Contra a vontade da família, Grady decide não acompanhar os pais num cruzeiro para a Europa, para desfrutar em liberdade o recém estabelecido relacionamento com Clyde que trabalha em um parque de estacionamento na Broadway junto ao Teatro Roxy. A voragem consome os jovens protagonistas que acabam por casar clandestinamente. Quando a irmã de Grady descobre que Grady está grávida toda a tensão descritiva é resolvida com um final indefinido, no qual ficam abertas todas as possibilidades e cujas decisões fundamentais são deixadas para leitor.    

Orfeu B.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Contos de Odessa e outros


Toda a gente da nossa categoria, correctores, lojistas, bancários e empregados de companhias de navegação, ensinava música aos filhos. Os nossos pais, não vendo saída para os rebentos, imaginaram uma lotaria para enriquecer e montaram-na à custa do nosso esforço. Odessa foi afectada por esse delírio mais do que outras cidades, Devido a isso durante decénios forneceu meninos prodígio às salas de concerto de todo o mundo. De Odessa saíram Micha Elman, Zimbalist, Gabrilovitch, e aqui começou Yacha Heifetz.

Quando a criança fazia quatro ou cinco anos, a mamã levava esse ser minúsculo e enfezado ao senhor Zagurski. Zagurski tinha uma fábrica de meninos prodígios, uma fábrica de anões judeus com gola de renda e sapatinhos envernizados. Descobria-os nos tugúrios de Moldavanka e nos pátios macilentos do Bazar velho. Dava a primeira orientação, e depois as crianças eram enviadas para o professor Auer, de Petersburgo. A alma daqueles alfenins de grande cabeça azul ansiava por uma potente harmonia. Alguns chegaram a ser virtuosos afamados. Meu pai quis entrar na competição. Tinha eu quatorze anos, já passara da idade dos meninos prodígios , mas, devido à minha estatura e moleza, bem podia passar por oito anos. Aí residiam todas as esperanças. 


Por respeito pela sabedoria e pela demência do meu avô, Zagusrski cobrava-nos um rublo por aula. Mais: só por receio ao meu avô gastava tempo comigo, porque eu era um caso perdido. Os sons que se desprendiam do meu violino pareciam limalha de ferro. A mim mesmo aqueles sons destroçavam-me o coração, mas o meu pai não me deixava em paz. Em casa só se falava de Micha Elman, isento do serviço militar pelo czar em pessoa. Zimbalist, ao que o meu pai apurara, tinha sido apresentado ao rei de Inglaterra e tocara no palácio de Buckingham; os pais de Gabrilovitch tinham comprado duas casas em Petersburgo. Os meninos prodígio tinham enriquecido os pais. Meu pai podia aceitar ser pobre, mas precisava da fama. 

— Não é possível — sussurravam-lhe os que comiam por sua conta —, não é possível que o neto de um avô destes …

Eu não era da mesma opinião. Quando ensaiava os exercícios de violino, colocava na estante da pauta um livro de Turguénev ou de Dumas e, enquanto arranhava o instrumento, ia devorando uma página após outra. Durante o dia contava aos miúdos da vizinhança patranhas que à noite passava ao papel. Na nossa família a escrita vinha por herança. O meu avô, Leivi-Itsjok, que ao chegar a velho perdeu o juízo, passou a vida a escrever uma novela intitulada “O homem sem cabeça”. Eu saí a ele.  


Isaak Babel


Na tradição de Turguénev, Gógol e Tchekov,  uma breve coletânea, ainda que rica e marcante, de contos de Isaak Babel (1894-1940), escritor considerado por Harold Bloom uma força primordial e dotado de uma intensidade tolstoniana. O crítico naturalizado brasileiro Otto Maria Carpeaux  (1900-1978) considerava Babel “o maior contista que já surgiu no século XX” e acrescentou: “A amplidão e o objetivo de sua visão social permitiu-lhe ver o mundo pelos olhos dos camponeses, soldados, padres, rabinos, crianças, artistas, atores, mulheres de todas as classes. Tornou-se amigo de prostitutas, cocheiros, jóqueis; sabia o que era ficar sem um centavo, viver no limite da pobreza e marginalizado. Foi ao mesmo tempo o poeta da cidade e um lírico da vida rural. ... Vive de uma maneira robusta, inquisitiva e faminta: seu apetite pelo que é imprevisivelmente humano é gargantuesco, inclusivo, excêntrico. Ele é cheio de truques, malandro, irônico, um amante instável, um impostor imprudente – saindo dessas centenas de fogosos ‘eus’, verdades insidiosas arrastam-se para fora, uma por uma, em um rosto, na cor do céu, em uma poça de lama, em uma palavra. É como se ele fosse uma membrana irritável, sujeita a cada vibração das criaturas.”

É de facto espantosa a multiplicidade de pontos de vista adoptados pela prosa de Babel e a amplitude e profundidade da sua visão do mundo. O seu estilo é extraordinariamente histórico, e numas poucas frases é capaz de traçar como uma vida se desenha no contexto dos mais complexos e turbulentos desenvolvimentos históricos. Suas descrições da vida quotidiana da comunidade judaica no início do século XX em Odessa e dos odiosos pogroms são pungentes, como o são os seus contos sobre o sangrento período que sucedeu à Revolução Bolchevique.  

Babel nasceu no seio uma família judaica ortodoxa em Odessa. Membros da sua família foram assassinados em pogroms da era czarista. Na adolescência, cursou um liceu comercial, e estudou também o Talmude e música. Não foi bem sucedido na tentativa ingressar na Universidade de Odessa, pelo que se matriculou no Instituto de Finanças de Kiev. Em 1915, depois de graduado, mudou para Petersburgo onde conheceu o escritor russo Maxim Gorky (1868-1936), facto que marcou a sua vida literária e a sua militância política. Bolchevique de primeira hora, acreditava que a Revolução permitiria uma evolução cultural que ultrapassaria os pogroms e o anti-semistimo. A partir de 1920, participa activamente na guerra contra os “brancos” que se teve lugar de 1918 a 1922. Documentou os horrores que testemunhou num diário que posteriormente tomou a forma de uma colectânea de contos, A Cavalaria Vermelha, publicados em 1924, com o apoio de Gorky, na revista "ЛЕФ" (LEF) de Maiakovski (1893-1930). Estes textos foram recebidos com hostilidade pelas autoridades soviéticas.

Em 1930, Babel trabalhou na Ucrânia, e testemunhou a brutalidade imposta pelas autoridades soviéticas durante o processo de colectivização coerciva, e do qual resultou a morte pela fome de centenas de milhares de camponeses ucranianos. A imposição de Stalin relativamente à adopção do realismo socialista como forma única de expressão artística, levou-lhe a se afastar da vida pública. Quando subsequentemente foi acusado publicamente de improdutividade, declarou ironicamente, no primeiro congresso da União dos Escritores Soviéticos em 1934, que estava a aperfeiçoar um novo estilo literário, o “género do silêncio”. Em 1935, foi repreendido pelo próprio Gorky por cultivar uma “baudelaireana predilecção pela miséria humana" e por retratar a sociedade soviética de forma desfavorável. Nesses anos, também colaborou com Sergei Eisenstein (1898-1948), e foi autor de diversos guiões de filmes de propaganda soviética.

Em Maio de 1939, Babel foi preso na sua dacha em Peredelkino, ao sul de Moscovo, e interrogado sob tortura na prisão Lubyanka. Acabou por confessar pertencer a uma organização controlada do estrangeiro por Trotsky (1879-1949), e de ter sido recrutado para espionar em favor da França pelo escritor francês André Malraux (1901-1976). O seu nome foi removido das enciclopédias e dos dicionários literários, assim como dos créditos dos filmes com os quais colaborou. Segundo a versão oficial, Isaac Babel morreu em 17 de Março de 1941 num dos campos de concentração do regime, porém os registos da NKVD indicam que foi fuzilado em 26 de Janeiro de 1940, depois de um julgamento sumário que durou 20 minutos. Os seus manuscritos e pertences foram confiscados e destruídos pela NKVD. 

Em Dezembro de 1954, durante a abertura do regime depois da morte de Stalin em 1953 e a sucessão de Khrushchev, Babel foi oficialmente absolvido do seu “crime”. Antologias selectas dos seus trabalhos só foram publicadas depois de 1966. 

Orfeu B.