quarta-feira, 27 de julho de 2016

Copo de Cólera


… estava longe de me interessar pelos traços corriqueiros de um caráter trivial, e nem eu ia, movendo-lhe o anzol, propiciar suas costumeiras peripécias de raciocínio, não que metessem medo as unhas que ela punha nas palavras, eu também, além das caras amenas (aqui e ali quem sabe marota), sabia dar ao verbo o reverso das carrancas e das garras, sabia, incisivo como ela, morder certeiro com os dentes das ideias, já que era com esses cacos que se compunham de hábito as nossas intrigas, sem contar que - empurrando pra raia do rigor - meus cascos sabiam inventar a sua lógica, mas toda essa agressão discursiva já beirava exaustivamente a monotonia, não era mais o caso de bocejar em cima de um sono mal-dormido, não era o caso enfadonho de esticar braços supérfluos, as coisas aqui dentro se fundiam velozmente com a febre, eu já não tinha sequer pedrisco na moela, quanto mais cascalho que era o indicado para digerir o papo dela, sem esquecer que a reflexão não passava da excreção totalmente enobrecida do drama da existência, … 
                                         
Raduan Nassar


Prémio Camões de 2016, autor sintético de uma prosa elegante e cortante, Raduan Nassar (1935) é autor de narrativas exactas e intensas, por vezes inspiradas na escrita seca e directa de Graciliano Ramos, de quem é um confesso admirador. Sendo autor de apenas três obras, Lavoura arcaica (1975), Copo de cólera, escrita em 1970, mas só publicada em 1979, e a coletânea de contos Menina a caminho, publicada em 1997, não deixa de ser surpreendente que uma prosa com um estilo tão marcado e original tenha surgido praticamente sem qualquer experimentação. 

Copo de cólera é uma novela erótica e feroz, veloz e arrebatadora na forma como se situa na instabilidade entre a dominação e a submissão, entre a paixão e o ódio, entre a ternura e a violência. Pela dialéctica visceral como disseca a complexa anatomia de um amor selvagem e arrebatador, Copo de cólera é uma obra verdadeiramente intrigante e única na língua portuguesa.  

Orfeu B.



domingo, 10 de julho de 2016

VAMOS COMPRAR UM POETA



Uma pequena delícia. Uma brincadeira muito séria.

Retrato de uma sociedade reduzida aos números e aos processos mentais de um economia incapaz de integrar o valor do sonho, da metáfora, da poesia.

Uma família compra um poeta como quem compra um cão e põe-no a viver debaixo da escada.

Este texto pertence à família de outros como , por exemplo, “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, ou, de certa forma, “As aventuras de João sem medo” de José Gomes Ferreira.

São textos que se constroem contra ditaduras políticas ou económicas, que excluem a cultura do seu dia a dia e que, resolvendo aparentemente todos os problemas dos homens, se tornam secas e poucas e, por isso mesmo, incapazes de estrangular o que há de profundamente humano dentro de nós e que, mais tarde ou mais cedo, acaba por vir à tona na literatura, na arte, na poesia, coisas “inúteis” que resistem e se tornam em atitudes que o(s) poder(es) consideram perigosamente subversivas.

A literatura em Afonso Cruz é uma festa. E, sendo capaz de tratar assuntos de grande espessura e profundidade, fá-lo sempre de forma clara, instilando no leitor capacidade desconstruir as certezas manhosas do mundo em que vivemos, mas fazendo disso uma promessa de felicidade.

Este “Vamos comprar um poeta” torna a leitura num divertimento muito muito sério. Devia ser texto obrigatório no ensino.

sábado, 9 de julho de 2016

Shakespeare, Albert Camus, Sándor Márai, Orfeu e a Ilha de Lesbos

Apresentação da Revista número 11 do Centro de Estudos Teatrais da Universidade do Porto “O estranho e o estrangeiro no Teatro”
7 de julho de 2016, Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Shakespeare, Albert Camus, Sándor Márai, Orfeu e a Ilha de Lesbos
No dia 20 de junho a Professora Cristina Marinho esteve no Departamento de Física e Astronomia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e deixou-me: um volume intitulado “O estranho e o estrangeiro no Teatro”; uma belíssima rosa encarnada com subtis traços cor de rosa; e o pedido para apresentar o volume 11º da revista de Teatro do Mundo, publicado pelo Centro de Estudos Teatrais da Universidade do Porto (CETUP).
Ao folhear o volume, tornou-se mais que evidente que não havia qualquer hipótese de satisfazer minimamente o que me era pedido. Eu simplesmente não tenho os conhecimentos, a cultura e a perspicácia para fazer uma apresentação que seja minimamente credível e competente de uma revista tão rica e tão complexa. Inevitavelmente, recordei-me de um texto de Borges, no qual o participante de um concurso de poesia que tinha como tema a rosa, decidiu, por conta das convicções estilísticas, enviar ao júri o mais genuíno poema naturalista: um botão de rosa. Mas, para a apresentação da revista, já não era possível. A rosa já tinha aparecido no início da história.
Todos sabem que Shakespeare é a quinta essência do teatro e, assumindo que esta apresentação termina bem, ou noutra língua, a de Shakespeare, “All’s well that ends well”, o que me cabe é conduzir esta apresentação de modo a ser consentânea com o epílogo desta bem conhecida peça:
King: The King’s a beggar now the play is done. All is well ended, if this suit be won: That you express content: which we will pay: With strife to please you, day exceeding day: Ours be your patience then, and yours our parts; Your gentle hands lend us, and take our hearts.
E também com as linhas iniciais e finais do soneto número XXIII do bardo inglês:
As an unperfect actor on the stage.
Who with his fear is put besides his part.
... 
O! learn to read what silent love hath writ: 
To hear with eyes belongs to love's fine wit. 
Albert Camus é possivelmente o mais eminente escritor e pensador que encarnou a figura de um Sísifo da existência; Albert Camus é também o criador do personagem aparentemente  simplório que era estrangeiro da própria vida. Estrangeiro, estranho, alienígena, errante, refugiado. Albert Camus deu à existência a densidade do chão que todos nós pisamos e partiu prematuramente, deixando-nos encurralados no segundo acto de uma peça de Beckett que não tem seguimento, ainda que todos saibamos que a solução deveria nos ser revelada no terceiro acto.
Sándor Márai: Na sua obra prima “A mulher certa” o escritor húngaro apresenta-nos a história de uma relação marital desfeita do ponto de vista dos três personagens envolvidos (algo como a “Caixa Negra” de Amos Oz). Três pontos de vista pós-modernamente correctos, mas que constroem uma encenação teatral disjunta e contraditória, na qual os personagens se dirigem a si próprios, estranhos uns para os outros, estrangeiros na sua terra natal e noutras, estando ao mesmo tempo profundamente entranhados na trama da vida desfeita e refeita pela continua transformação do mundo e das vontades.
Orfeu: Orfeu é aqui o personagem à procura de um autor; é o estrangeiro, objectivo e subjectivo, desta apresentação. Nome mítico que imperfeitamente habita a condição de ser actor de si mesmo. Percebe alguma coisa de física e de manipulações matemáticas, mas tem grande dificuldade em formalizar e exprimir o essencial no que se refere ao lançamento do 11º número da revista de Teatro do CETUP.
A Ilha de Lesbos: quem viu a “Vida de Adéle”, ou como sugere o texto da Professora Cristina Marinho nesta revista e onde é sugerido o título alternativo “Le Bleu est une Couleur Chaude”, entende que mesmo as coisas mais genuínas como o amor entre duas mulheres pode dar origem a tempestades de areia nas mentes mais porosas. Orfeu, o estrangeiro, não sabe se há um amor lésbico, um amor gay, um amor hétero, pois só acredita na existência do amor ou do desamor, embora perceba que, em oposição, o ódio pode ter infinitas nuances.
Mas esta apresentação já vai longa e não dá um sinal inequívoco de que vai terminar bem.
Sim, Orfeu, o estrangeiro, pede desculpas pela generalidade dos comentários. Ele percebe a estratégia das apresentações, mas costuma perder-se nas tácticas das subtilezas retóricas. Enfim, não são só as palavras que exprimem o estranho e o estrangeiro no teatro, há muito mais no teatro naturalista da vida. E, neste, somos todos estrangeiros uns para os outros; desempenhamos com convicção o nosso papel, mas falhamos miseravelmente na representação do que os outros actores-encenadores esperam de nós. Transformamos a comédia em tragédia, a tragédia em comédia e, contrariamente ao que preconizava Shakespeare, almejamos ser reis, embora não passemos, quase que invariavelmente, de mendigos.

Orfeu B. 

domingo, 5 de junho de 2016

As Vozes de Marraquexe


" … Será a linguagem daquela gente, e que eu ainda não entendo, que se introduz, a pouco e pouco, em mim? Caos, imagens, sons, tudo a fundir-se num todo que as palavras não capturariam e não alterariam. “Todo” que vai para além das palavras, e que é mais profundo e mais ambíguo do que elas. 

Imagino um homem que, desaprendidas todas as línguas da terra, chegue ao ponto de não mais entender o que que quer que seja, onde quer que seja.

O que é que vive numa linguagem? O que é que ela encobre? O que é que ela capta? Durante aquelas semanas passadas em Marrocos, nunca tentei aprender árabe nem tão pouco os dialectos berberes. Não queria perder nada da força contida nessas estranhas lamentações. Queria ser apanhado em cheio por esses sons e não abrandá-los através de vagos conhecimentos, tão insuficientes como artificiais.

Não lera sobre essa terra. Os seus costumes me eram tão desconhecidos como as suas gentes. O pouco que se possa ter aprendido durante toda uma vida acerca de qualquer país e acerca do seu povo, some-se por inteiro, logo nas primeiras horas.    


Todos os cegos como que ofereciam o nome de Deus. Era, pois, através das esmolas que ganhávamos direito a Ele. Com Deus começam e com Deus terminam, repetindo o Seu Nome dez mil vezes por dia. Todos os seus lamentos contêm sempre esse Nome. A invocação à qual se agarram um dia, mantêm-se inalteravelmente. Espécie de arabescos acústicos mais convincentes do que qualquer coisa obtida através da visão. 

…  

Para homenagearem e dignificarem as suas próprias palavras, os contadores de histórias trajavam de forma singular, distinguindo-se sempre as suas vestes das dos simples ouvintes. Davam toda a preferência aos tecidos sumptuosos, e era vê-los entrar em cena, vestindo lindas sedas de tonalidades ora azuis ora castanhas. pareciam personagens saídas de contos de fadas.

Raramente olhavam os seus ouvintes. Viam apenas os seus heróis. E se por acaso um olhar seu caísse em alguém que não estivesse a viver a história, teria esse alguém como que se dissolver na massa anónima do auditório. Deixara de existir para o contador, tornava-se um estranho, um ausente, que já não pertencia ao reino das suas palavras.

De início custava-me aceitar o pouco ou nada que representava para eles. Era demasiado estranho para ser verdade. Por isso mesmo me mantinha ali, ao mesmo tempo sentindo-me transportado daquele lugar, tão inundado de sons, para outros sons ainda mais longínquos. E sempre despercebido, mesmo quando, no grande círculo, era tomado por uma sensação de presença. Mas para ele, eu era um estranho no seu círculo mágico, um estranho porque o não compreendia. 

Desejava intensamente poder compreender, e anseio pelo dia em que saiba apreciar, sem restrições, esses contadores errantes, tal como eles o merecem. Mas igualmente me regozijei por não os entender. Permaneciam para mim como um enclave, como uma vida longamente vivida, mas sempre intocada. 

A sua linguagem era-lhes tão importante como a minha o era para mim. As palavras tornavam-se o seu alimento e não se deixavam eles tentar por qualquer outro, mesmo que de qualidade  superior. Senti orgulho no poder que o contador exercia sobre os seus companheiros ouvintes. Eu considerei-os como meus irmãos mais velhos e sabedores. Era com um sentido de felicidade que dizia para comigo: 

“Também eu serei capaz de reunir pessoas à minha volta, a quem contarei coisas! Também hei-de ser ouvido!” Mas em vez de errar de terra em terra, desconhecendo sempre quem irei encontrar, que ouvidos desconhecidos se abrirem para mim, em vez de viver da pura confiança na histórias que viesse a contar, foi minha vontade dedicar-me à escrita!”   

Elias Canetti

«As Vozes de Marraquexe» é considerado por muitos críticos como um dos mais belos relatos de viagem da literatura europeia do século XX. O livro resulta de uma estada de três semanas em Marrocos com uma equipe de cineastas ingleses e que teve lugar em 1952. O autor que admite não se ter preparado para a viagem, estava decidido, no entanto, a sentir Marraquexe como a intensidade dos ventos do deserto. O seu propósito era mergulhar emocionalmente nos recônditos meandros de uma cultura tão estranha como fascinante. O seu método consistiu em deambular pela cidade e deixar-se guiar pelos cinco sentidos e pelo impacto com que os acontecimentos lhe marcavam a alma. O resultado é um magnífico mosaico que abarca os aromas do bazar, o mercado dos camelos, as lamentações encantatórias dos cegos pedintes, o curioso hábito de um cego pedinte mastigar longamente as moedas recebidas, as visitas à Mellah, o bairro judeu, e o conhecimento de uma de suas famílias, a fascinante atmosfera que circundava os contadores de histórias. 

Este livro, algo singular na robusta e densa obra de Elias Canetti (1905-1994), vem confirmar a maestria do autor de obras monumentais como “Auto da Fé” (1935), “As Massas e o Poder” (1960) entre muitos outras. Autor de língua alemã, Elias Canetti, judeu sefardita, nasceu na Bulgária e viveu em Inglaterra a maior parte de sua vida. Pela originalidade da sua obra, Elias Canetti foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura de 1981.

Orfeu B.



sábado, 14 de maio de 2016

Quantum


Encontrei muitos cientistas e a estadia alterou profundamente a minha forma de ver o mundo, pois eles estão trabalhando realmente sobre o que é a criação do mundo.

Gilles Jobin

Quantum, e uma coreografia concebida por Gilles Jobin e que foi encenada no Teatro Rivoli no Porto no dia 8 de Abril de 2016. É indubitavelmente uma criação inovadora e arrojada e resulta da estadia do coreógrafo suíço no Centro Europeu de Investigação Nuclear (CERN), o maior laboratório científico do mundo, localizado na fronteira franco-suíça junto à cidade de Genebra. 

Na verdade, o coreógrafo é um bem conhecido experimentador que há muito tem estado muito próximo da ciência como muito bem atestam alguns de seus trabalhos anteriores: A+B=X (1997), Le Voyage de Moebius (2001), Spider Galaxy (2011), entre outros. 

O coreógrafo descreve a experiência de ter estado no CERN como artista residente por alguns meses em 2012, como uma colisão de alta energia entre a sua experiência pessoal e profissional e a visão do mundo dos físicos. O coreógrafo teve a sorte de presenciar o extraordinariamente feliz e emocional momento do anúncio ao mundo da comprovação experimental da existência do bosão de Higgs, no histórico dia de 4 de Julho de 2012. A presença de físico britânico Peter Higgs e do colega belga François Englert (ambos dividiram o Prémio Nobel de Física em 2014) adicionaram uma dimensão humana aos desenvolvimentos teóricos, experimentais e tecnológicos que permitiram a descoberta do bosão de Higgs 48 anos depois da sua previsão teórica. 

Na verdade, para além do privilégio de termos sido arrastados pelas ondas de movimento dos membros da Companhia de Gilles Jobin, nós tivemos a honra de receber o coreógrafo no Departamento de Física e Astronomia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto no final da tarde do dia 6 de Abril para uma apresentação e uma longa e animada conversa sobre a criatividade artística, sobre a “polinização” cruzada de ideias entre arte e ciência, sobre o ensino e a aprendizagem, sobre ballet e claro, sobre a dança das partículas elementares no palco do Universo. 

Quantum é o resultado de uma experiência de convivência única de um artista com o mundo dos físicos de altas energias. Oxalá a experiência seja repetida por mais artistas em outros  contextos, ambientes, laboratórios e institutos de investigação. Reciprocamente, os cientistas ficam profundamente enriquecidos com a experiência e a sensibilidade dos artistas.  

Orfeu B.



domingo, 24 de abril de 2016

Os Papéis do Inglês


Ao acordar de manhã procuro averiguar daquela sensação, algumas vezes experimentada mas quase sempre só recordação longínqua já, de encontrar satisfação por estar vivo e haver um dia à frente para viver. A memória que tenho disso, ou a imagem que ela projecta, remete-me a Londres: disponibilidade, ausência de culpa, um envolvimento exterior simultaneamente propício e distante que me poupava a confrontos maiores, o tédio, ainda assim, de alguma forma alheio, a certeza de que a intensidade e a densidade dos estímulos e dos recursos garantiriam, de alguma forma, contornos suportáveis à presença no mundo. Aqui, talvez, depois de tantos exílios interiores e de tanta auto-flagelação, estarei mais perto de uma experiência equivalente. O acordar é fácil e acompanha a emergência da luz, os pássaros anunciam o dia com folgada antecedência, nada oprime a perspectiva da movimentação, as hipóteses de trabalho são boas, há um jipe lá fora, tenho todas as razões para acreditar que nenhuma hostilidade me cerca, pelo menos num raio de 130 kms. Quando olhar para fora depararei muito provavelmente com silhuetas distantes de mulheres que se deslocam alheias, estou no meio de um espaço que me tem servido de referência pela vida fora, em plena vigência de uma hipótese duramente conquistada à força de determinação e vontade. Por isso me coloco mansa e cautelosamente perante mim mesmo e o que me cerca, não tanto, em consciência, para aproveitar, quanto para me entregar e não estragar, impedir, viciar ou destruir.

"Os Papéis do Inglês"

                           
Um romance acerca de uma estória, que segundo ao autor, bastaria meia dúzia de minutos para contar, mas que nos remete para o cerne da arte narrativa, que passa pela história pessoal do autor, pelos aspectos problemáticos da ciência antropológica e etnográfica, pelos descaminhos históricos e  políticos pós-coloniais de Angola. Em "Os Papéis do Inglês", Ruy Duarte de Carvalho conta-nos a desventura de um personagem conradiano, Archibald Perkings, caçador e antropólogo inglês, que, em 1923, na região angolana do Kwando, matou o seu colega grego e acabou por se suicidar. Escrito numa linguagem única e extremamente original, o autor, constrói a sua versão da história através da sua própria deambulação pelo território angolano e por meio das dificuldades em recuperar os papéis do caçador inglês que possivelmente estariam entre os papéis do pai do autor que, por sua vez, estavam dispersos há dezenas de anos. 

Ruy Duarte de Carvalho (Santarém, 1941 – Swakopmund, 2010) foi um escritor, cineasta, antropólogo e professor angolano. Autor de referência da língua portuguesa, Ruy Duarte de Carvalho doutorou-se em Antropologia na École des Hautes Études de Sciences Sociales em Paris e lecionou na Universidade de Luanda e como professor convidado nas Universidades de Coimbra e de São Paulo. Para além da sua obra científica sobre as sociedades pastoris de Angola e da Namíbia, Ruy Duarte de Carvalho legou-nos um rico espólio cinematográfico e uma significativa obra literária, em verso e em prosa. 

Orfeu B.



sábado, 2 de abril de 2016

A singularidade de uma voz


Imre Kertész (1929 - 2016) nasceu em Budapeste, descendente de uma família judaica que foi totalmente dizimada nos campos de concentração nazistas. Em 1944, aos 15 anos, foi deportado para Auschwitz, Buchenwald e Zeitz, sendo libertado em 1945 pelas tropas norte-americanas. Ao retornar a Budapeste trabalhou, de 1948 a 1951, como jornalista até ter sido exonerado quando o jornal onde trabalhava se transformou em órgão do Partido Comunista Húngaro. Dedicou-se então à escrita e à tradução para o húngaro de obras de  Nietzsche, Hofmannsthal, Schnitzler, Roth, Freud, Wittgenstein, Canetti, entre outros. Escreveu também musicais e teatro de diversão. Trabalhou durante 10 anos no livro, Sem Destino, o seu primeiro romance. Pela profundidade e originalidade da sua obra literária recebeu inúmeros prémios entre os quais o Prémio Nobel da Literatura em 2002.       

"… 
Após um silêncio, o meu pai disse: pois bem, ficamos mais leves – a minha madrasta, com voz ainda embargada, perguntou-lhe se não teria sido melhor aceitar o recibo do senhor Suto. Mas o meu pai respondeu que tais recibos não tinham qualquer «valor pratico», além de ser perigoso esconde-los do que ao próprio cofre. E explicou-lhe: desta feita, «é preciso jogar tudo num única cartada», dado que, por agora não nos resta alternativa. 
Desde há duas semanas, também sou obrigado a trabalhar. Notificaram-me em papel oficial que eu estava «afecto a um emprego fixo» estava endereçado «Ao jovem aprendiz auxiliar Koves Giorgy», e vi logo que ali havia mão da União das Juventudes. 
O local de trabalho é em Csepel, numa sociedade cujo nome é «Refinarias de petróleo Shell». Desta forma, acabei por gozar de uma espécie de privilégio, pois é proibido sair da cidade com a estrela amarela.”
Quando um prisioneiro tenta regatear a entrega de um objecto de valor em troca de água e comida:

“…e ele mostrava-se disposto a fazê-lo, embora fosse, disse «contra os regulamentos». Só que não há acordo, porque a voz queria, primeiro, a água e o guarda queria, primeiro, as coisas, e ninguém queria ceder. Por fim o guarda sentiu-se melindrado: – Porcos judeus, que fazem negócio com as coisas mais sagradas!”
“Só em Zeitz percebi mesmo que o cativeiro tem a sua rotina, que o verdadeiro cativeiro não passa, no fundo, de um quotidiano cinzento.
“Não tardei muito a perceber que as opiniões favoráveis ouvidas ainda em Auschwitz acerca da instituição dos “Arbeitlager”, se baseavam, forçosamente, em informações exageradas.”

Sem Destino (1975)


“Auschwitz é o meu maior tesouro. A proximidade da morte é inesquecível. A vida nunca foi tão bela como nesse longo momento.”

O Fiasco (A Recusa) (1988)


“Não!”
"Tornou-se livre, porque já não tinha pátria. Já nem sequer tinha que decidir em que qualidade devia morrer. Como judeu, como cristão, como herói ou vítima, eventualmente, como absurdo metafísico, vítima do novo caos demiúrgico? Como estas noções nada significam para ele, decide, ao menos não sujar com a mentira o facto límpido da sua morte. Tudo lhe parece simples, porque conquistou o direito à lucidez: “Não procuremos sentidos onde não existem: o século, este pelotão de execução que cumpre o seu serviço, sem cessar prepara-se, pois, para dizimar de novo, e quis a sorte que me calhasse um número mau - ponto final”, são as sua últimas palavras, com as minhas palavras, claro.”   

Kaddish para uma Criança que não Vai Nascer (1990)


“ …
A língua – sim, ela é a única coisa que me mantém ligado a ele (Hungria). Como é estranho.  Essa língua estrangeira, minha língua materna. Minha língua materna, que me ajuda a entender os meus assassinos.
Às vezes, quase tenho que me arrancar do refúgio sossegado do meu anonimato, quando ouço falar ou vejo escrito o nome I. K., mas sei que nunca vou me identificar com ele.
"Eu sou um judeu diferente. Que tipo de judeu sou afinal? ... Sou diferente deles, sou diferente dos outros, sou diferente de mim.”

Um Outro - Crónica de Uma Metamorfose (1997)


“Vivemos na era das catástrofes, todo homem é portador da catástrofe, e para a sobrevivência se faz necessária uma arte peculiar da sobrevivência. O homem do tempo das catástrofes não tem destino, não tem qualidades, não tem caráter. O meio social terrível — o Estado, a ditadura, chame-o como quiser — o seduz com a força de atração dos redemoinhos vertiginosos até que ele desista da resistência e nele exploda o caos como um gêiser fervente — e a partir de então o caos se torna sua morada. Para ele, já não existe retorno a um ponto de equilíbrio do Eu, a uma certeza sólida e incontestável do Eu: portanto, perde-se no sentido mais verdadeiro da palavra. Esse ser sem o Eu é a catástrofe, o verdadeiro Mal.”

Aniquilação (2004)


Orfeu B.





domingo, 27 de março de 2016

Submissão


“L’idée renversante et simple, jamais exprimée auparavant avec cette force, que le sommet du bonheur humain réside dans la soumission la plus absolue. C'est une idée que j'hésiterais à exposer devant mes coreligionnaires qu'ils jugeraient peut-être blasphématoire, mais il y a pour moi un rapport entre l'absolue soumission de la femme à l'homme, telle que la décrit Histoire d'O, et la soumission de l'homme à Dieu, telle que l'envisage l'islam. Voyez-vous, poursuivit-il, l'islam accepte le monde, et il l'accepte dans son intégralité, il accepte le monde tel quel pour parler comme Nietzsche. Le point de vue du bouddhisme est que le monde est dukkha – inadéquation, souffrance. La christianisme lui-même manifeste de sérieuses réserves – Satan n'est-il pas qualifié de “prince du monde”? Pour l'Islam au contraire la création divine est parfaite, c'est un chef-d'œuvre absolu. Qu'est-ce que le Coran au fond, sinon un immense poème mystique de louange? De louange au Créateur, et de soumission à ses lois.”

Michel Houellebecq

Submissão é mais um inquietante romance do polémico escritor francês Michel Houellebecq, autor de obras não menos controversas como Les particules élémentaires, Plateforme, Extension de domaine de la lute, La possibilité d'une île, entre outras . Em 2022, a França, logo após a primeira volta das eleições presidenciais, é um país profundamente dividido entre a extrema direita de Marine Le Pen e o recém-criado partido da Fraternidade Muçulmana conduzido por um líder astuto e carismático que vence por pequena margem o candidato do partido socialista. O país é assolado por tumultos, por  incêndios de carros e pela destruição de mesas de voto. Anos sucessivos de políticas sociais desastrosas subordinadas prioritariamente às questões práticas da economia e das finanças dão origem a um confronto entre forças políticas que inevitavelmente desfigurarão para sempre a identidade do país. Para o  embate final, socialistas e gaulistas unem-se à Fraternidade Muçulmana para derrotar os neo-fascistas. O preço a pagar é a destruição de dezenas de anos de políticas sociais e uma radical reforma educacional e cultural que desmontará a educação laica e republicana e a substituirá por uma educação de inspiração religiosa e muçulmana. 

Este é o pano de fundo político da narrativa que tem como personagem principal François, um professor e investigador de literatura francesa do século XIX na Sorbonne - Paris III. A forma desapaixonada e algo cínica como encara o ensino levam-no a adoptar sem sobressaltos pela reforma aquando da islamização da universidades que tem lugar após a vitória da Fraternidade Muçulmana. Porém, após um período de depressão e isolamento, acaba por sucumbir à oferta que lhe é formulada de retornar à universidade. A perspectiva de gozar da notoriedade decorrente da nova posição universitária, a triplicação do seu salário e a possibilidade de poder gozar do direito da poligamia parecem-lhe compensar largamente a exigência de se converter ao islamismo. 

Submissão é um livro que analisa com grande perspicácia as questões fundamentais da construção europeia, da natureza das identidades no início do século XXI, e a correlação de forças políticas e sociais que nas décadas vindouras serão incontornáveis na Europa.  

Orfeu B.

                                                      

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

Da Beleza e a Consolação

                                               

“Of Beauty and Consolation”, é uma invulgar série de entrevistas com figuras essenciais da cultura do nosso tempo, conduzidas pelo jornalista holandês Wim Kayser. A série foi estreada na VPRO, um canal holandês, a 2 de Janeiro de 2003 e prolongou-se até 1 de Julho do mesmo ano. Em Portugal, a série foi difundida em 2006 pela RTP2, para os noctívagos e para os que sofriam de insónias. Felizmente, hoje as entrevistas podem ser visualizadas e saboreadas através do You Tube.  

Foram entrevistadas 26 figuras marcantes da arte, da filosofia, da literatura, da música, da biologia e da física. A lista de personalidades intrevistadas é absolutamente impressionante (por ordem alfabética): Karel Appel, artista plástico; Vladimir Ashkenazy, pianista e maestro; Catherine Bott, soprano; John Coetzee, escritor; Richard Dufallo, maestro; Freeman Dyson, físico teórico; Rudi Fuchs, director de museu; Jane Goodall, primatóloga; Stephen Jay Gould, zoólogo e paleontólogo; Germaine Greer, escritora; György Konrád, escritor; Rutger Kopland, poeta e psiquiatra; Leon Lederman, físico experimental; Elizabeth Loftus, psicóloga; Gary Lynch, psicólogo e químico; Yehudi Menuhin, violinista e maestro; Martha Nussbaum, filósofa; Richard Rorty, filósofo; Simon Schama, historiador; Roger Scruton, filósofo, Wole Soyinka, escritor; George Steiner, escritor e filósofo; Tatjana Tolstaja, escritora; Dubravka Ugresić, escritor; Steven Weinberg, físico teórico; Edward Witten, físico teórico e físico-matemático. Num último programa, muitos dos entrevistados reuniram-se para um acalorado debate sobre o tema central da série. Este encontro teve lugar a 9 de Julho de 2000, no Stedelijk Museum, em Amesterdão. 

Ainda não tive o oportunidade de ver todas as entrevistas, contudo considero marcantes as que tive a oportunidade de ver (cerca de dez). Ouvir Steve Weinberg e Edward Witten a falar sobre os problemas candentes da física contemporânea e sobre a unificação das interacções fundamentais da natureza, Jay Gould sobre as evidências paleontológicas da evolução, Vladimir Ashkenazy sobre os desafios e a complexidade do trabalho da regência orquestral, George Steiner sobre o reino da memória e sobre a grandeza de certas obras literárias, e Yehudi Menuhin discursar sobre a necessidade da aprendizagem musical e do ensino em geral e também acerca do conflito israelo-palestiniano, propiciam momentos de comovente empatia e de sublime iluminação. 

Fossem os nossos programadores televisivos mais lúcidos esta série seria retransmitida em horário nobre e em regime de obrigatoriedade.

Orfeu B.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

RELENDO CRISTÓVÃO AGUIAR





Relendo Cristóvão de Aguiar


1. Voltei a ler Raiz comovida, agora reeditada pela Afrontamento, no 1º volume das Obras Completas de Cristóvão de Aguiar. A obra apareceu nos finais de 70, em três tomos: A semente e a seiva, 1979, (Prémio Ricardo Malheiros), Vindima de fogo (1979), e O fruto e o sonho (80).
Soube-me bem tornar a lê-la. A esta distância de quase 40 anos a obra não envelheceu nada, continua viva e com todas as suas qualidades. Pelo menos para aqueles que conheceram aquele Portugal, e aquele tempo, que se criaram a amá-lo e a sofrê-lo, com tudo o que implicava de ambientes, pessoas, situações, mentalidades, carências, injustiças, desequilíbrios sociais, misérias e grandezas. É um retrato magnífico da sociedade portuguesa da primeira metade do século XX, uma autêntica aguarela, como se costuma dizer, rica, colorida, picaresca, mas realista e cheia de humanidade e graça. E com a especificidade açoriana – na linguagem, nas paisagens, nos ambientes sociais - a dar-lhe um toque muito particular e a acrescentar-lhe o interesse, sem deixar de retratar todo o Portugal de então.
Com uma estrutura aberta, numa sequência de memórias de lugares, de pessoas e situações, uma criança recorda as suas vivências e vai muito para trás relatando casos contados por familiares seus, histórias da vila e das famílias, ligações, relações, ódios e afetos. E tudo isto através de uma escrita de grande qualidade, conseguindo misturar ingredientes que não é comum vermos tão bem sintetizados numa só obra. É de facto, como disse o Medeiros Ferreira, uma «homenagem à língua portuguesa»; mas é mais do que isso, é uma homenagem ao povo açoriano e, em termos mais vastos, a todo o povo português, pois sentimo-lo ali igual ao açoriano das mais variadas e sempre autênticas maneiras.

Não sei se haverá outra obra em Portugal, dentro do género, que nos mostre tão bem o Portugal de então. E se nos restringirmos aos Açores, certamente que não encontramos outra. Fala-se, por exemplo, de Mau tempo no canal, como um dos melhores romances do século XX. É uma opinião discutível, claro, embora se trate, sem dúvida, de uma das grandes obras literárias do nosso século XX. Tendo em conta que os dois autores são açorianos, que emergem da mesma realidade cultural e sem grande diferença temporal, a comparação é inevitável. E embora este tipo de comparações possa ser fonte de equívocos e de possíveis injustiças, Raiz comovida é um retrato mais rico, mais realista e mais próximo do povo açoriano que Mau tempo no canal. A obra de Nemésio retrata sobretudo a burguesia endinheirada e uma ou outra família com fumos de aristocracia, enquanto que a de Cristóvão de Aguiar vive do povo, dos artesãos, dos pescadores, dos trabalhadores rurais. Pode-se talvez falar duma densidade maior das personagens – sobretudo dessa personagem notável que é Margarida Dulmo – mas a própria estrutura e enredo do romance de Nemésio favorecem esta dimensão psicológica, que o livro de Cristóvão de Aguiar capta talvez menos pela própria estrutura e textura.
Se outro mérito não tivesse, a obra constitui um vastíssimo e variadíssimo quadro social e cultural, uma montra dos usos, costumes, mentalidades, falas, expressões, relações familiares, artes, ofícios, crenças, moralidade, sexualidade, repressão, formas de educação, manhas e artimanhas, enfim, histórias de muitas formas e feitios, que nos proporcionam um enorme prazer na leitura e uma informação sobre os Açores que nenhum outro meio consegue.


2. Mas, para lá disso, que é muito, tem ainda um mérito literário inquestionável. Ponho-me a pensar nos neorrealistas, entre os quais a obra de Cristóvão de Aguiar pode ser integrada - um neorrealismo tardio, é certo, mas, de qualquer modo, dentro da sua tradição - e dificilmente encontro um autor que tenha conseguido fazer tanto e tão bem com uma só obra; ou mesmo com três, já que se trata de uma trilogia. Os nossos neorrealistas mais considerados (por exemplo, Carlos de Oliveira, Cardoso Pires, Alves Redol) escrevem dum modo muito diferente, e embora com algumas obras de grande qualidade, qualquer deles esta longe de ter produzido uma riqueza colorida e múltipla como esta obra consegue.
Por outro lado, repito, a obra tem uma qualidade que não cede ao longo de todos os livros, uma originalidade de sintaxe - sem desconstruir sintaticamente - uma riqueza linguística única, e um sem número de achados de primeira, (De contente, «o senhor padre não cabia nos paramentos», ou «os luteranos recolheram as redes e partiram com elas vazia de almas e de peixes», p. 405; «os olhos colavam-se às montras das lojas que se sucediam como pevides de melancia», p. 277, etc., etc.). E algumas descrições de antologia, como a ida à cidade, com o pai, para comprar ferro, no pós-guerra, pp. 274 – 280, ou a aparição do Inferno ao pobre do Luz Cruz, pp. 241 – 244).
Talvez um pouco gongórica aqui e além. Mas também isto tem que ser contextualizado e relativizado, porque faz parte da amálgama lexical, social, cultural e até paisagística que, de algum modo, a solicita. E talvez até exija, pois a obra é sobretudo descrição, oralidade, colorido e não propriamente o jogo verbal e o arrebique desnecessário de que o gongorismo tanto gosta. Ou seja, a base coloquial das histórias, sequenciais e entrecruzadas, implica uma certa repetição, e até, por vezes, alguma redundância, que estranhamos talvez, afeiçoados que estamos hoje à concisão dos referidos Cardoso Pires e Carlos de Oliveira. Mas todas as obras são unidades sistémicas, definem a sua coerência e organizam-se em função disso. Importante é saber se conseguem mantê-la, ou não. Ora, também a este nível, Raiz comovida é irrepreensível. E se pensarmos na obra de alguns dos nossos maiores (Aquilino Ribeiro, Tomaz de Figueiredo, até mesmo Camilo Castelo Branco) encontramos gongorismos bem mais assumidos e desenvolvidos, e nem por isso as consideramos menos.



3. Por outro lado, ao relê-lo, tive várias vezes a sensação de uma injustiça. E, chegado ao fim, essa sensação reforçou-se. A obra teve o seu sucesso, ao tempo, é certo, mas o facto de manter a sua qualidade intacta ao fim de todos estes anos, mostra que ela tem todas as condições para se transformar num clássico. Ou melhor, já é um clássico, e estou certo de que o será cada vez mais. E a injustiça está precisamente aqui, não se compreendendo, portanto, o silêncio que se fez sobre ela, e que continua a fazer-se, quando é certo que a sua reedição, com a qualidade que agora tem, devia ser motivo para muito maior projeção e divulgação. É estranho que nada se diga sobre esta obra quando tanto se diz sobre outras que, dentro de alguns anos, provavelmente ninguém lerá. Há mistérios na nossa vida intelectual e literária que são difíceis de entender. Ou que talvez se entendam se desprezarmos a qualidade literária – único critério que de facto interessa mas à qual nem todos chegam – e pensarmos em mesquinhices paróquias de natureza político-partidária.

O plano da edição das Obras Completas de Cristóvão de Aguiar, cujo 2º volume – Amor ilhéu, saiu juntamente com o primeiro, vai continuar, com a promessa de uma edição de 13 volumes. Esperemos que o projeto vá até ao fim com a qualidade destes dois primeiros, e que possa beneficiar da divulgação que merece, porque, como diz Mário Mesquita na contra-capa deste primeiro volume, «Cristóvão de Aguiar é um dos principais responsáveis pela afirmação cultural dos Açores após o 25 de Abril». E mais do isso, a sua prosa é de uma qualidade, de uma vivacidade e duma riqueza que constitui, ou deveria constituir, uma referência entre os nossos bons escritores do século XX.

João Boavida

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Meu nome é vermelho

 …
Procurar imitar o mundo através da pintura parece-me desonroso. Eu ressinto-me disto. Mas há um inegável fascínio nas pinturas que eles produzem com os novos métodos. Eles representam o que os olhos vêem como os olhos as vêem. De facto, eles pintam os que os olhos vêem, enquanto que nós pintamos o que nós olhamos. Ao contemplar os seus trabalhos, percebemos que a única forma de imortalizar uma face é através do estilo dos ocidentais. E não são só os habitantes de Veneza que já foram convencidos por esta noção, mas todos os alfaiates, talhantes, soldados, párocos e merceeiros de todo o Ocidente. Eles têm os seus retratos representados desta forma. Um breve olhar nestes retratos e também nós quereríamos nos ver retratados desta forma, pois queremos acreditar que somos diferentes de todos os outros, um único e particular ser humano. Retratar pessoas, não como a mente as percebe, mas elas são realmente vistas pela vista desarmada, é a possibilidade que o novo método nos permite. Chegará um tempo onde todos pintarão como eles o fazem. Quando a pintura for mencionada, o mundo pensará necessariamente na pintura dos ocidentais.         
Qualquer um que pense que um artista assemelha-se à pintura que ele pinta, não me compreende e aos meus mestres artistas. O que nos expõe não é tema que nos foi encomendado, mas as sensibilidades implícitas que nós imprimimos ao tema. A luz que parece radiar do interior da pintura, uma palpável dúvida ou rancor que se nota na composição das figuras, cavalos e árvores, o desejo e a tristeza que emana de um cipreste quando este atinge os céus, a resignação sincera e a paciência que imprimimos quando ilustramos os ladrilhos de parede com um fervor que convida à cegueira … Sim, estes são os nossos traços escondidos, não aqueles cavalos idênticos todos em linha. Quando um artista representa a fúria e a velocidade de um cavalo, ele não pinta a sua fúria e a sua velocidade; ao procurar pintar um cavalo perfeito, ele revela o seu amor pela riqueza do mundo e do seu criador, exibindo todas as cores da paixão pela vida - apenas isto, nada mais.        
Fosse este livro completo e enviado, os artistas de Veneza o ridicularizariam e o seu escárnio chegaria ao Doge de Veneza. Eles dar-se-iam conta que os Otomanos haviam deixado de ser Otomanos e não mais nos temeriam. Quão maravilhoso seria se nós pudéssemos persistir no caminho dos antigos mestres! Porém ninguém quer seguir este caminho, nem Sua Excelência O Nosso Sultão, nem o Senhor Negro - que está melancólico por não ter um retrato da sua Shekure. Neste caso, nós nos resignaremos a copiar, como macacos, século após século, os Europeus. Orgulhosamente nós assinaremos os nossos nomes na nossa arte de imitação. Os antigos mestres de Herat procuraram pintar o mundo segundo os olhos de Deus, e para ocultar a sua individualidade eles nunca assinaram os seus nomes. Vós, não obstante, estão condenados a assinar os vossos nomes para ocultar a vossa ausência de individualidade. Porém, não há alternativa. Cada um vós foi convocado, e o estão a me esconder: Akhar, Sultão do Hindustão, está distribuindo dinheiro e benesses, tentando juntar na sua corte os artistas mais talentosos do mundo. É evidente que o livro para celebrar o milénio do Islão não será compilado aqui em Istambul, mas num atelier de Agra.       

Ohran Pamuk

Um livro magnífico do autor turco, Orhan Pamuk, Prémio Nobel da Literatura de 2006. Um conjunto de dezanove vozes, que se exprimem na primeira pessoa, e que incluem um cadáver, o diabo, um cão, e o pigmento vermelho que dá título ao livro. Um livro que nos expõe enfaticamente à riqueza cultural do Império Otomano, tão singularmente situado entre o Ocidente e o Oriente. A Istambul do Inverno de 1591 é o palco desta trama barroca que envolve dois assassinatos e a colisão estética e filosófica da arte dos iluminaristas muçulmanos com a arte ocidental, que então já absorvera completamente as técnicas de perspectiva da Itália renascentista.

O fio condutor desta narrativa profundamente humana e reflexiva é a encomenda secreta do sultão, Murat III, de um livro ilustrado pelos seus mais hábeis artistas para presentear o Doge de Veneza. Pretendia o sultão celebrar o primeiro milénio da Hégira (a fuga de Maomé de Meca para Medina em 622 D.C.) e demonstrar, através do livro, a riqueza do Império Otomano e a superioridade do mundo islâmico. A encomenda encerrava no entanto, uma exigência invulgar: o sultão deveria ser retratado segundo as técnicas ocidentais da perspectiva.  

A exigência do sultão desencadeia um conflito entre os artistas que defendem a manutenção das técnicas tradicionais de ilustração chinesa-mongol-persa-otomana de retratar a realidade segundo os olhos de Alá, e os artistas que trabalhavam sem reservas no livro. Quando um dos artistas é assassinado, a intriga se transforma num thriller de caça ao assassino, mas também numa análise histórica acerca o sentido da manutenção de uma filosofia de retratar o mundo cujo sentido último era vislumbrar a eternidade e cuja virtude maior dos seus executantes jazia na capacidade de copiar os antigos mestres sem que no processo se evidenciasse um estilo pessoal. 

Decorre simultaneamente à trama envolvendo os artistas, o pungente caso de amor entre Negro, um artista que regressa a Istambul após doze anos de ausência, e a bela Shekure, relação esta intermediada pela judia analfabeta, Esther, profissional na “arte” de unir pares e compreender as complexas nuances dos sentimentos amorosos. Estas personagens femininas propiciam um contraponto precioso, pois têm “um olho no livro e outro fora dele”. 

Um livro estatisticamente exuberante que espelha com cores vivas as radicais diferenças entre duas culturas, e que encerra grandes momentos de lirismo, meta-literatura, história, da dura sociologia de submissão e abuso nos ateliers de artistas, e uma ampla dimensão reflexiva sobre os grandes vectores da vida.   

Orfeu B.



sábado, 19 de dezembro de 2015

O MERGULHO NA ESTRANHEZA




Peter Carey, premiado escritor australiano, escreveu um delicioso livrinho publicado há tempo pela Tinta da China e intitulado "O Japão é um lugar estranho".

O livro de Peter Carey era um repositório de situações estranhas. O livro de Ricardo Adolfoque pode perfeitamente ser alinhado ao lado de Carey, na mesma prateleira, embora o primeiro seja uma espécie de reportagem e o segundo uma obra de ficção.

Mas ambos abordam a vida dos japoneses nessa imensa metrópole que é Tóquio, num Japão que foi arrasadpo pela Guerra e onde, dizem,-me, houve um corte radical com o passado, para se construir um presente onde a importação de tradições e hábitos ocidentais se faz de forma completamente arbitrária e estranha para um leitor desavisado como é o meu caso.

Ricardo Adolfo é um escritor nascido em Angola, e que viveu vários anos num dos subúrbios do Concelho de Sintra. Conhece e usa brilhantemente a forma de falar e de pensar dos jovens desses bairros. Escreveu 3 ou 4 romances muito ineteressantes dos quais saliento "Mizé, antes galdéria que normal e remediada".

Ricardo Adolfo foi viver para o Japão e dá-nos agora uma imporessionante descrição do quotidiano, da forma de viver e pensar dos japoneses de um subúrbio de Tóquio.

A ironia começa porque o narrador do livro descreve um subúrbio de Tóquio a partir de uma linguagem típica do habitante de um subúrbio de Sintra.

No início explica-nos muito vagamente que seria um pequeno marginal com problemas repetidos com a polícia portuguesa e que ao mudar de país procura também mudar de vida e integrar-se na vida normal dos japoneses, o que inclui comprrender de que é que consta essa vida, até casar-se com uma japonesa que parece ter preocupações muito longínquas de uma portuguesa do mesmo escalão.

De surpresa em surpresa vamos caminhando apaixonadamente pela prosa do autor, tentando arrumar um puzzle de peças difíceis de entender aos olhos de um ocidental impreparado e explicadas pelo olhar amalandrado do Cacém ou do Algueirão que é o do narrador.

Não se pode falar exactamente de romance mas de uma sequência algo frenética de histórias e acontecimentos hilariantes que foram publicados como crónicas na revista Sábado.

Talvez nem tudo seja verdade. A leitura deixa-nos frequentemente na possível fronteira entre ficção e realidade. O resultado é sempre ou quase sempre muito divertido.

Desde a naturalidade com que as pessoas dormem no emprego, passando pelo Natal do qual, segundo o narrador, os japoneses apenas retiveram a ideia de amor e, assim, torna-se quase obrigatório passar o dia 25 de Dezembro com uma parceira num Motel de encontros ocasionais, até ao protesto da jovem esposa por o marido não ter uma amante, facto que a desvaloriza aos olhos da comunidade.

Li o livro num ápice como me tem acontecido com as obras do autor. É uma escrita talvez única n nossa literatura actual. Uma escrita que vale muito a pena ler.


quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Caminhada




A vida harmoniza-se com a terra selvagem. O mais vivo é o mais selvagem. Como o selvagem ainda não se rendeu ao homem, a terra retempera-o. Quem avança incessantemente e nunca descansa dos seus afazeres, quem se desenvolve depressa e exige coisas infinitas à vida encontra-se eternamente numa nova terra ou numa zona selvagem, rodeado pela matéria-prima da vida. É como se trepasse aos troncos derrubados das árvores da floresta primitiva. 

Para mim, a esperança e o futuro não nos campos relvados nem nas terras de cultivo, nas cidades nem nas vilas, mas nos impenetráveis pântanos de solo instável …

A minha boa disposição é proporcional à desolação exterior. Dêem-me o oceano, o deserto ou a natureza selvagem! No deserto o ar puro e a solidão compensam a ausência de humidade e a aridez … 

Henry David Thoreau


Caminhada é a derradeira exposição de Thoreau (1817 - 1862) sobre a sua relação íntima e privilegiada com a natureza. Resultado das inúmeras palestras proferidas sobre a temática, Caminhada, faz parte do legado de cerca de 20 obras que o autor do seminal Walden ou a Vida nos Bosques e do influente Desobediência Civil nos deixou. O pensamento de Thoreau está inevitavelmente associado ao naturalismo, à ecologia, ao abolicionismo militante e ao ativismo anti-impostos. Em essência, o que Thoreau nos propõe, retórica e pragmaticamente, é um retorno à simplicidade de uma existência vivida no seio da natureza intacta. A visão de Thoreau para além de precursora dos movimentos ecologistas modernos, contém também uma advertência sobre os perigos da industrialização, que embora ainda incipiente nos Estados Unidos do seu tempo, já prenunciava o aparecimento de uma mentalidade socialmente marcada pelo materialismo e pelo egotismo.

Politicamente, Thoreau defende que contra um estado injusto e opressor, o indivíduo tem o dever de demonstrar a sua oposição, pacífica e racionalmente, pensamento que influenciou indelevelmente personalidades como Tolstói, Gandhi, e Martin Luther King Jr. Thoreau é, no entanto, um realista que almeja antes uma melhoria da governação do que a sua radical substituição; e por ser um anarquista individualista defende que: "O melhor governo é o que não governa. Quando os homens estiverem devidamente preparados,terão esse governo”. Mas para lá chegar, Thoreau advoga uma vida afastada da sociedade e uma viagem interior através de uma existência reduzida ao essencial e em liberdade de modo a responder às verdadeiras questões da vida.

Assim, por entre bosques, colinas, ribeiras e pântanos, a leitura deste livro possibilitará o leitor ter um magnífico vislumbre da personalidade de um indivíduo que colocou a liberdade de seu espírito acima das ideias consensuais do seu tempo e que abdicou conscientemente das conveniências materiais que estas lhe poderiam ter propiciado.

Orfeu B. 

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

"Todas as vidas de homens são contos de fadas escritos pelas mãos de Deus" Hans Christian Andersen

Coisas de Bruxa... 

"Se Andersen vivesse hoje as suas histórias nasceriam diferentes. O Patinho Feio deixaria a família que o desprezava e tornava-se mascote da escola da aldeia até o seu fecho levar para longe a meia dúzia de crianças que o acarinhavam. A aldeia deserta de crianças das seis da manhã às sete da noite não era lugar para ele. Tentaria a sorte no Canadá pensando que, por ser mal amado na sua terra, podia pedir estatuto de refugiado. Seria repatriado. Finalmente, transformado em lindo cisne, batia as asas seguro de si e tombava na margem do lago, acabando por ter a sua história contada na televisão, o moderno ópio do povo.A realidade não está para contos. Paris deixou de ser a cidade dos sonhos e a nossa rua não é lugar ao abrigo de nada. Mas, para as crianças, a realidade é a ponta visível de um gigantesco iceberg. Imerso está um mundo de fantasia que as sustenta. As histórias que lhe contamos preparam-nas para a vida. O destino de cada criança tem de ser ancorado a uma excelente educação. Os livros não podem ser esquecidos. E por isso tudo vale a pena."S.A.

Escrito em Maio de 2011... 
Igual a hoje quando o tempo voa na vida complicada que não permite não atender a muito mais que o quotidiano. Mas ainda não morremos. Nem podemos deixar morrer o que nos guia.