sábado, 14 de setembro de 2013

ENTRE O QUE A HISTÓRIA NOS CONTA E O QUE NÃO CONTA


A História sempre foi para mim uma paixão. A paixão de contar e ouvir contar histórias.

Ficcionar a história tem sido o trabalho de muitos escritores com resultados variáveis mas muitas vezes com o encanto que leva o leitor a imaginar-se noutro tempo histórico, vivendo os amores e as tragédias de grandes personagnens de tempos idos.

O autor de romances históricos procura trabalhar sobre o trabalho do historiador, ocupando os interstícios que esse historiador deixa em aberto por já não ter matéria para melhor investigar.

É aí que o escritor se instala, mantendo umpé na história e colocando o outro na ficção.

Alberto Santos pegou em dois temas particularmente interessantes à volta do culto centrado na catedrasl de Santiago de Compostela. Em primeiro lugar, o facto de se ter concluído em finais do séc XIX que as ossadas que estão em Compostela não pertencem ao Apóstolo Santiago Maior como era crença até então.

Compostela, ou a região do Finis Terra, seria um local de peregrinação muito antes do cristianismo que, como foi prática corrente, se apropriou de uma tradição pagã para tornar cristã a devoção e a visita ao lugar.

À ideia de que não as ossadas de Santiago Maior que estão em Compostela, Alberto Santos juntou-lhe outra ideia. A possibilidade de os restos mortais existentes na Catedral de Santiago de Compostela pertencerem ao Bispo Prisciliano do séc. IV depois de Crist, primeiro herege justiçado pela Igraja Católica.

As suas idéias obtiveram grande sucesso, em especial entre as mulheres e as classes populares, pela sua recusa à união da Igreja com o Estado imperial e pela denúncia da corrupção e enriquecimento das hierarquias.

A história de Prisciliano, bispo heterodoxo eleito pelo povo de Braga no séc. IV, tem atraído diversos artistas e escritores. São os casos do romance sobre a vida de Priciliano escrito por Ramón Chao (pai de Manu Chao), do romance de João Aguiar "O trono do Altíssimo" e do filme de Luís Buñuel "A via Láctea".

Alberto Santos documentou-se com grande rigor. Fas-nos conhecer os espaços e os hábitos da época com vivacidade e pormenor.

A essa descrição cuidadosa da época juntou aventuras, conflitos religiosos e amores, tudo servido por um romantismo que terá a grande vantagem de chamar um público vasto à leitura de um tema que permite o mergulho noutros voos e inquirições para além dos estritos pormenores da ficção.

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