segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Inês da Minha Alma


Ler até que esquecemos que existimos. Foi o que me aconteceu ao ler este livro. Porque é uma história fabulosa sobre os exploradores no Chile, é um livro de aventuras. Mas também sobre o ódio que fez dizimar comunidades de índios da América do Sul.
Trata-se de um romance histórico, baseado no diário de Inês Suárez, Espanhola que participou na conquista do Chile juntamente com Pedro de Valdivia famoso explorador, aventureiro, general que governou o Chille.
Muitas personagens são fascinantes e merecem a nossa admiração. Além dos citados, aquela personagem que me mais me fascinou foi a de Filipe, mais tarde Lautaro. A história deste índio foi fantástica, em criança deixou-se apanhar pelos espanhóis e com o Governador aprendeu muitas coisas, entre elas a domesticação de cães e de cavalos, as artes da guerra. Observou os costumes e os desejos dos espanhóis. Aos dezoito anos desapareceu de Santiago da Extremadura (mais tarde Santiago do Chile) e com o que aprendeu com os espanhóis usou para iniciar uma guerra de defesa do seu território contra os espanhóis que tinham usado da sua barbaridade para escravizar, violar , matar os índios das várias tribos. Este índio conseguiu organizar as várias tribos, domar cavalos e domesticar cães para uma guerra contra os invasores espanhóis. Entre os episódios aqui descritos há dois que merecem admiração deste índio: os espanhóis encontraram um bosque onde caiam das suas árvores pedras de ouro e encantados com esse ouro desprenderam-se das suas armas e armaduras para o apanharem, quando deram por ela estavam a ser atacados pelos índios que tinham feito esta armadilha com pedras banhadas a ouro; colocaram indignas belas a banharem-se nuas num lago perto de um pântano, os espanhóis maravilhados com o espectáculo foram ao encontro destas belas mulheres e ficaram enterrados com as suas pesadas armaduras no pântano.
Este índio é para mim o paradigma do homem de hoje, "aprender" é a palavra chave, com as informações que podemos obter conseguimos derrubar aquilo que não gostamos. Podemos lutar por um mundo livre e justo com o conhecimento. A ignorância não nos leva a nenhum lado.

sábado, 22 de agosto de 2009

O INSTANTE E A ETERNIDADE


(Fotografia de Henri cartier-Bresson)

Diz-nos Carlos Saura que o grande drama da fotografia (e do fotógrafo, portanto) é o tempo: a fotografia é o instante que se transforma - imediatamente - em passado. Posição idêntica é a do francês Henri Cartier-Bresson, possivelmente o maior fotógrafo do século XX, Em entrevista concedida ("concedida" é o termo exacto...) à crítica de arte e jornalista brasileira Sheila Leirner e publicada no Diário de Notícias, ele afirma: "(...) a fotografia é o problema do tempo. Tudo desaparece. Com a fotografia, existe uma angústia que não há com o desenho. O presente concreto ocorre numa fracção de segundo, o que é desagradável e maravilhoso, simultaneamente. Trata-se de uma luta contra o tempo..." Uma luta para a qual o fotógrafo só tem uma arma: a sensibilidade, "o olhar (...) de sensibilidade." Olhar que lhe permite transformar o instante em eternidade.
Cartier-Bresson tem um hábito curioso: utiliza frases de personalidades célebres para dar mais ênfase às suas ideias, Assim, cita De Gaulle quando quer caracterizar o acto de olhar do fotógrafo: "Visar bem, atirar seco e sair de campo." E será exactamente esse sentido de oportunidade que faz dele o grande fotógrafo do homem em solidão. Faz dele um fotógrafo, sim, e não um cineasta ou um ficcionista, embora sempre tivesse estado ligado a esses domínios da cultura. E a razão é bem simples: "Eu não tenho imaginação. O que me fascina é a vida, que tento compreender." Ou, dito por outras palavras: o que o "cativa" é "a observação da realidade", não a efabulação que sobre ela se possa fazer. Daí, a razão de ser da sua afirmação: "Eu não tenho nada para contar. Eu vou, olho, e as coisas me surpreendem. Isso é puramente visual. Tenho horror à palavra conceptual. Se os artistas conceptuais nos convidarem para jantar, eles servirão apenas as espinhas do peixe. Eu pessoalmente prefiro a carne dele. O conceptualismo é pura masturbação mental, na qual não entra a sensibilidade." Na verdade, é a "carne" (o real na sua concretude) que ele nos "serve" nas suas fotografias. A concretude que ele "rouba" às coisas para no-la dar. Ou, como diz, parafraseando Stendhal: "Essas pessoas" (e ele inclui-se entre elas) "roubam para nos dar." Por isso, não se considera um artista, mas um artesão: "Nós, os fotógrafos, não estamos perto dos artistas; para mim, somos como artesãos, como marceneiros..."
Ao chegar ao fim desta "recensão-crónica", pergunto-me por que a fiz e por que a fiz deste modo, utilizando a técnica do recorte de frases que Cartier-Bresson utilizou na sua entrevista. Creio que há fundamentalmente uma razão: tentar compreender o que de essencial há nas palavras do entrevistado, essencial que se encontra disperso (por vezes, com aparências de contraditório) ao longo das suas respostas. Mas ainda outra razão haverá: seria assim que eu montaria aquela entrevista, se entrevistador eu fosse...
Mas há, ainda, um aspecto diferente, para o qual eu queria chamar a atenção: se tomarmos como boas as palavras de Cartier-Bresson sobre o artista e o artesão-marceneiro (e não como uma simples "boutade"), concluiremos que a arte não resulta da intenção de quem a faz, mas sim, do "olhar" de quem a usufrui. O que nos leva a reflectir sobre o papel decisivo do espectador na construção da obra de arte. E, claro, a explicar a existência de tanto "artista" falhado... Ora, o que é válido para a arte, também o é, e talvez ainda mais, para a literatura.

MILLENIUM


“OS HOMENS QUE ODEIAM MULHERES”

“A RAPARIGA QUE SONHAVA COM UMA LATA DE GASOLINA E UM FÓSFORO”

STIEG LARSSON

Stieg Larsson, jornalista e activista de esquerda, não conheceu o sucesso que os seus livros têm conhecido por toda a parte. Escreveu os 3 primeiros livros de um projecto de 10 e, depois, caiu para o lado com um acidente cardio-vascular quando o primeiro dos livros saiu para as livrarias.

A série de três livros com o título geral de MILLENIUM insere-se na onda de popularidade do policial nórdico onde se contam (publicados em Portugal) os suecos Liza Marklund e Henning Mankell, as norueguesas Karin Fossum e Anne Holt, ou a islandesa Irsa Sigurgardóttir

Na sua última entrevista, Stieg Larsson afirmou, a propósito destes romances, que só pretendia produzir entretenimento. Mas um entretenimento que não virasse as costas ao mundo em seu redor. E, desse mundo, a sociedade sueca em primeiro lugar, Larsson dá-nos uma imagem negra de corrupção, perversidade, cinismo, crime e, acima de tudo, de um mundo que procura manter alguma aparência de organização e decência mas que perdeu o respeito pelas regras que faziam a superioridade da social-democracia sueca.

Stieg Larsson põe em causa os sistemas psiquiátrico e judiciário suecos, não poupa os bancos e os grandes financeiros, ataca a questão da violência sobre as mulheres, aflora a questão das máfias e do seu cruzamento com as polícias secretas.

Não estamos, é claro, no campo da grande literatura. Quanto a isso não haja dúvidas. A narração é ágil mas, frequentes vezes, é repetitiva e cheia de explicações para leitores pouco atentos. As personagens são pouco mais do que (bons) bonecos de BD, recortados numa aventura com muito de uma lógica do tipo “Indiana Jones”.

Deve ser essa lógica, essa urdidura de mistérios e surpresas, que nos faz ler quase sem parar. E também a certeza de que os bons hão-de triunfar no final.

Apesar de tudo, e mesmo sem grande profundidade, temos uma personagem notável: Lisbeth Salander, inspirada na famosa Pipi das Meias Altas, heroína da televisão sueca sem grandes preconceitos nem respeito pelo politicamente correcto.

Lisbeth é uma espécie de Pipi moderna. Magricela, cheia de tatuagens e pierciengs, praticante de boxe, dominando toda a moderna tecnologia de telemóveis aos computadores. Foi violada em jovem, internada em instituições psiquiátricas, considerada associal, violenta e atrasada mental.

No entanto, Lisbeth é uma hacker de fatásticos recursos, motard, bisexual, lutadora implacável, uma rapariga com um profundo e muito próprio sentido de justiça.

Ela vai ser o contraponto do jornalista de investigação Blomqvist do jornal Millenium (que dá o nome à série), que desempenha o óbvio papel de um Indiana Jones do jornalismo que procura descobrir e expor nas páginas da sua revista os podres e os escândalos que atravessam a Suécia.

Os livros leem-se como quem come torradinhas. É verdade. 500 ou 600 páginas cada livro que não custam nada a ler e que, no meu caso, também pouca deixaram. Cumpriram apenas a função de fazer passar tempo. Um bom entretenimento e a certeza de que o mundo das democracias em que vivemos está doente. Ou sempre esteve?

domingo, 16 de agosto de 2009

Ler sem palavras: Coelhos suicidas!?


Imagine-se a minha surpresa quando fui apresentado ao mundo surreal de uns coelhinhos que preparam o seu suicídio de formas imaginativas e esperam pela morte de uma forma impávida e entediada. Se te queres matar porque não te queres matar? Estes coelhinhos fofinhos dão muitas pistas. Desta leitura sem palavras aqui fica um exemplo.

sábado, 15 de agosto de 2009

O ÊXITO, ESSA CATÁSTROFE



(Javier Cercas)


Abundantes são os exemplos de escritores que foram destruídos pelo êxito das suas obras. E, entre eles, avulta o caso de Scott Fitzgerald - o exemplo paradigmático. Daí, estou em crer, ter surgido a lenda do êxito como sinónimo de catástrofe. Esta questão, e umas tantas mais com ela relacionadas, foram-me recordadas por Javier Cercas, em artigo publicado em "El País". Cercas, autor de "Soldados de Salamina", obra que o celebrizou, conta-nos o modo como o êxito o afectou e como se saiu dessa situação, utilizando o antídoto mais eficaz para essas ocasiões: escrevendo novo romance! Refere-se, também, ao ensaio que Tennessee Williams escreveu - "A Catástrofe do Êxito" - onde faz o seu retrato, no período que se seguiu à estreia da sua primeira peça, que o catapultou para os píncaros da fama. Mas a fama, a glória serão forçosamente causadoras do mais terrível dos anátemas que se pode abater sobre um escritor - a dificuldade, a impossibilidade de criar? Não sei, mas que tenham influência em tal, disso, não tenho dúvidas. O afundamento no turbilhão das manifestações de apreço em que o escritor se vê envolvido, a exposição social a que está sujeito não são, de modo algum, benéficas ao acto criativo. Tanto pelo excesso de estímulos que acarretam, como pela razão oposta ou seja, o bloqueamento que podem originar. Cercas, ao comentar este último aspecto, fala-nos do caso de escritores, inesperadamente famosos, que entraram em processo de ensimesmamento, em recuo para dentro de si-próprios, deixando de escrever durante vinte ou mais anos - ou para todo o sempre - tal o medo do fracasso. Este recolhimento em si-mesmo foi caracterizado por Rafael Sanchez Ferlosio (escritor que também sofreu uma celebridade repentina) em termos muito curiosos: "(...) Deram-me, até, um banquete (...) e, talvez já de um modo semiconsciente daquele enorme "bluff", senti tanta vergonha e tanta agorafobia, que cometi a terrível grosseria de não me levantar para agradecer a homenagem e os discursos." Seria nesse momento, diz Cercas, que Ferlosio teria compreendido que não tinha vocação para o papel de literato, o que o levou a retirar-se de cena: "O bispo de mim mesmo mandava que eu me retirasse e me dedicasse a altos estudos eclesiásticos…"
Cercas, no artigo referido, estende-se ainda, um tanto mais, sobre os malefícios do êxito literário - "que alimenta, mais do que qualquer outra coisa, o impulso destrutivo de um escritor" - e chama-nos a atenção para uma verdade insofismável: a obra prima nada tem a ver com o número dos seus leitores. Conclui dizendo que felizes são aqueles que o sucesso não bafeja - felizes sem o saberem...
Mas do que ele não fala é do sofrimento, do desespero, dos que não conseguem publicar as suas obras ou, se as publicam, ninguém delas fala... Desespero tão grande que, em muitos casos, leva à progressiva destruição do autor ou, até, à sua morte. Evidentemente que o suicídio não se confina a uma explicação linear de causa-efeito, pois há sempre um conjunto de factores por detrás, mas que o fracasso literário contribui para a concretização desse acto, disso, não tenho a menor dúvida - até por conhecimento pessoal de alguns casos. Enfim, variado é o mundo e várias são as suas gentes. E como nem todos têm um bispo dentro de si-mesmos...

sábado, 8 de agosto de 2009

A AUTOEDIÇÃO, UMA REVOLUÇÃO EM MARCHA




Como pequeno (pequeníssimo) editor que sou, vou tentando estar atento ao que se passa no domínio da edição. E algo se passa. Algo de novo, que está a revolucionar o meio editorial, nomeadamente nos Estados Unidos. Estou a referir-me às edições que têm a Internet como veículo.
Colocado o texto “em linha” (com ou sem o apoio de uma casa especializada), o autor aguarda a reacção do público. Se houver interessados, estes terão de pagar uma determinada quantia para cada cópia que seja “descarregada” para o papel.
Em 2008, nos Estados Unidos, foram editados mais títulos via Internet do que pelos processos tradicionais. Inclusivamente, há casas que trabalham apenas nesta área editorial, oferecendo aos autores serviços variados: formatação, capas mais cuidadas, correcção do texto. Os preços praticados são consideravelmente inferiores aos das editoras tradicionais.
Em França, diz-nos o “Figaro Littéraire”, começam a surgir estes serviços, com um número crescente de clientes. Se há editoras exclusivamente dedicadas à edição “em linha”, outras há que, sem abandonar a edição tradicional, abriram departamentos especializados nesta forma de editar. E, quando o número de exemplares da “edição numérica” atinge um determinado valor, a obra passa a ser editada pelos processos tradicionais. Eis, pois, um mecanismo inteligente (e seguro) de prospeccionar o mercado, portanto de minimizar os riscos financeiros inerentes ao investimento em novos autores ou em autores pouco conhecidos.
Estamos, assim, perante novas perspectivas de mercado no campo da edição. Embora Portugal não tenha o mesmo número de “escritores de gaveta” que existe noutros países europeus (principalmente em França), estou em crer que haverá algumas centenas de interessados dispostos a pagar preços módicos pela edição dos seus originais – assim se lhes ofereçam oportunidades.
E não quero deixar de fazer um comentário final: se a complementaridade entre diferentes formas de edição, difusão e circulação de obras literárias, já é um facto, o futuro se encarregará de aprofundar, de incrementar o que está apenas no início.

domingo, 2 de agosto de 2009

O Balão do menino Nicolau; 50º Aniversário



Eu cá gosto muito de fazer anos; é um dia em que nos divertimos imenso lá em casa. Esta manhã, quando a mamã me veio acordar , disse-me:
- Levanta-te depressa, Nicolau. Tenho uma surpresa para ti.
- É um carrinho? - perguntei eu. - Um vagão de mercadorias para o meu comboio? Uma caneta? Uma bola de Râguebi?
- Não - disse a mamã. - É um pulôver.
E então eu fiquei decepcionado, porque as coisas para vestir não são surpresas a sério, mas, como não queria causar nenhum desgosto à mamã, não disse nada, levantei-me, fui lavar-me e, quando voltei para o meu quarto, a mamã mostrou-me o pulôver, que era azul-claro, com três patos amarelos, cada um por cima do outro, e eu desatei a chorar.
- Que aconteceu? - perguntou-me a mamã.
- Não quero vesti-lo -disse eu. - Todos os meus amigos vão gozar comigo na escola!
- O dia começa bem... - disse o papá. Ouvi-vos gritar. Que se passa?
- Passa-se que o senhor Nicolau não gosta do pulôver novo que lhe comprei - disse a mamã.
- Não vou para a escola com este pulôver! - berrei eu.
Então o papá deu um murro na mesa.
- Nicolau! - gritou ele. - Fazes favor de não falar nesse tom com a tua mãe! E quando ela te oferece qualquer coisa deves agradecer-lhe e ficar muito orgulhosos de a usares.
- Então - disse eu a choramingar - , porque é que tu nunca usas a gravata que a mãe te deu?
- A gravata? - disse o papá. A gravata? A gravata não é para aqui chamada.
- Bem, lá isso é verdade - disse a mamã. Não usas essa gravata muitas vezes. Não gostas dela?
Então o papá e a mamã discutiram e a mamã disse que ia para casa da mamã dela que é a minha vovó.
Fui para a escola ter com os meus amigos. Estava muito ansioso porque à hora do lanche os meus amigos vão vir à minha festa de anos. O tempo nunca mais passava!
Fui almoçar a casa e brinquei com o urso de peluche que ainda tem um pouco pêlo porque a máquina de barbear do papá avariou.
Finalmente os meus amigos chegaram com prendas maravilhosas: uma data de coisas de chocolate. A mamã diz que só de ver aquilo tudo fica maldisposta do fígado. Quanto a mim é só depois de as ter comido que fico maldisposto, mas gosto muito.
Divertimo-nos à brava! O gordo Alceste, que come muito depressa, foi o primeiro a ficar maldisposto. E logo a seguir ficámos todos, menos o Joseph que é magro como tudo, mas que consegue comer bastante porque arranjou um parceiro formidável: ele tem a bicha solitária que fica maldisposta em vez dele.
A mamã telefonou a todas as mamãs dos meus amigos para que os viessem buscar o mais depressa possível. As mamãs chegaram e assim que entravam ficavam todas com cara de poucos amigos. Pegavam nos filhos delas pela mão e arrastavam-nos para fora de casa enquanto diziam à mamã que não cabia na cabeça de ninguém empanturrar as crianças daquela maneira.
A mamã, essa, ficou sentada no cadeirão, a olhar para lado nenhum. É preciso dizer que a sala de jantar se encontrava um pouco em desordem e havia algumas nódoas.
Á noite, a seguir ao jantar, a mamã trouxe um bolo de anos! Soprámos as velas e eu comi quatro fatias de bolo! Fiquei um pouco maldisposto!
O papá e a mamã emganaram-se foi nas velas. Havia um cinco e um zero!

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Pequenos poemas em prosa




Esta vida é um hospital onde cada enfermo vive ansioso por mudar de leito. Este desejaria sofrer diante da lareira; aquele pensa que se curaria ao pé da janela.
   Tenho a impressão de que estaria sempre bem lá onde não estou, e este problema de mudança é um dos que eu discuto sem cessar com a minha alma.

Charles Baudelaire.


Pequenos poemas em prosa, incialmente lançado com o título, Le spleen de Paris, é um livro absolutamente soberbo. Publicado postumamente, os textos que compõem os Pequenos poemas em prosa demonstram abundantemente a plenitude de um escritor para o qual prosa e poesia não têm fronteiras. Conjuntamente com as Flores do Mal, este livro é um dos pontos de partida da modernidade pós-romântica, uma pedra de toque de praticamente quase tudo o que subsequentemente se escreveu na literatura ocidental. 

Mas se a genialiadade de Baudelaire foi reconhecida por muitos dos seus contemporâneos, não se pode falar de forma alguma em glória literária. A breve vida do artista, que morreu as 46 anos, foi amarga, pontuada pela penúria material, pela desilusão amorosa, pela perseguição de credores e por um ridículo processo judicial pela suposta obscenidade de sua arte. Mas, como pode um artista sobreviver a tais vicissitudes? A resposta vamos encontrá-la nas páginas dos Pequenos peomas em prosa: através da perspicaz radiografia da vida e de seus pequenos incidentes, através da pintura dos acontecimentos com verve, humor e auto-ironia. Sobrevive o artista pelo aperfeiçoamento da sua arte, pela perseguição de um ideal de perfeição estética que não encontra modelos no seu tempo, mas que vai sendo forjada ao longo do seu percurso fundador.

E através de um delicioso percurso literário leva-nos Baudelaire a viajar por entre as nuvens, por entre a bizarria de certos caprichos, pelos prazeres da carne, pela mundana maldade, pela obstinada generosidade, rara, mas apesar de tudo activa, pela preguiça e pelo tédio, e por diálogos filosóficos com um sofisticado diabo que, muito digno, nunca se furta de cumprimentar com cordialidade, o senhor bom deus, o seu milenar adversário. 


E para os que por ventura desconfiam da descrição hiperbólica que vos faço desta magnífica obra, permitam-me exemplificar com um breve texto. Exemplo que revela que o autor dos Pequenos poemas em prosa esteve, muito antes do que outros, a dar uma volta (take a walk) no wild side:


Perda de Auréola

- Mas o quê? você por aqui, meu caro? Você em tão mau lugar! você o bebedor de quintessências! você, o comedor de ambrósia! Francamente, é de surpreender.
- Meu caro, você bem conhece o meu pavor dos cavalos e das carruagens. Ainda há pouco, quando atravessava a toda pressa o bulevar, saltitando na lama, através desse caos movediço, onde a morte surge a galope de todos os lados a um só tempo, a minha auréola caiu no lodo do macadame. Não tive coragem de apanhá-la. Julguei menos desagradável perder as minhas insígnias do que ter os ossos rebentados. De resto, disse com os meus botões, há males que vêm para bem. Agora posso passear incógnito, praticar ações vis, e entregar-me à crápula, como os simples mortais. E aqui estou, igualzinho a você, como está vendo!
- Você deveria ao menos pôr um anúncio, ou comunicar a perda ao comissário.
- Ah! não. Estou bem assim. Só você me reconheceu. Aliás, a dignidade me entedia. Depois, alegra-me pensar que talvez algum mau poeta encontre a auréola e com ela impudentemente se adorne. Fazer alguém feliz, que prazer! e sobretudo um feliz que me fará rir! Pense no X., ou no Z.! Xi! como será engraçado!

Finalmente, também digna de nota é a elegante tradução para o português, versão brasileira, de Aurélio Burque de Holanda Ferreira, para a edição de 1976 da Editora Nova Fronteira do Rio de Janeiro. 



Orfeu B.


domingo, 26 de julho de 2009

REQUIEM PELOS POVOS ELEITOS




O escritor israelita David Grossman apresentou, numa das últimas edições da Feira Internacional do Livro de Jerusalém, um texto corajoso, que o jornal “El País" publicou. Esse texto, que tem por título "Ver a Realidade através dos Olhos do nosso Inimigo", aborda uma questão central para a paz no Próximo Oriente, ou seja, a urgência de os israelitas se colocarem no lugar dos palestinianos e, assim, começarem a abandonar a sua postura de povo eleito, eterna vítima dos que o não são... O que implica uma outra consequência, não menos marcante: a necessidade de tomarem consciência de que a sua história não é a "História da Humanidade", mas tão só uma história entre muitas outras. O que, por outras palavras, se pode pôr de um modo ainda mais simples: não há povos eleitos, não há histórias centrais - todos são filhos de Deus...
Este modo de colocar a questão fez-me lembrar o que se passava com algumas literaturas nacionais, na primeira metade do século XX. Mais propriamente, com a literatura francesa. Tudo o que não fosse francês era considerado marginal ou secundário. Inclusivamente, os grandes autores americanos, apenas tolerados quando incluíam Paris nos seus itinerários literários... E só muito gradualmente é que as coisas se foram alterando. A pujança da cultura americana e o seu poder de penetração foram as alavancas principais dessa mudança, mudança relativa - note-se - pois a maioria, a grande maioria, das obras editadas em França continuou a ser de autores franceses - independentemente do seu mérito literário. Evidentemente que outros factores também exerceram a sua influência, como, por exemplo, a boa recepção que as obras francesas sempre tiveram nos Estados Unidos da América. Mas, o que, em última instância, originou a viragem foi a tomada de consciência, por parte de editores, de leitores franceses, do espartilho que os sufocava, ou seja do empobrecimento a que o seu ensimesmamento os estava a condenar, privando-os do conhecimento de outras literaturas, tão ricas como a sua.
Em última instância, as coisas não se passarão de modo muito diferente nas relações entre o povo israelita e o povo palestiniano. O fechamento de um engendra, forçosamente, o do outro. E, quando um se julga o eleito de Deus, é evidente que lhe compete tomar a iniciativa. A "revolução" terá, pois, de vir de dentro, do sentir, do pensar de Israel, da sua tomada de consciência de que o mundo mudou e de que uma nação, uma raça não têm o monopólio da Verdade. Se o não fizer, comete o mais estúpido dos suicídios: o da autodestruição progressiva, a que toda a centração auto-umbilical forçosamente conduz. No mínimo, condenar-se-á à marginalização, a um papel secundário, num futuro em que a universalidade é o horizonte. O que, aliás, esteve em riscos de acontecer com a literatura francesa - e, de algum modo, não acontecerá, ainda?

sábado, 18 de julho de 2009

A MINISTRA




Os poemas de O’Neill que abrem e fecham esta narrativa, “Poema pouco original do medo” e “Perfilados de medo”, tornam explícito que este livro é um panfleto. Um acto de cidadania de um escritor que é também professor (de Filosofia).

Mas não nos enganemos. O livro está muito além da função estrita do panfleto pois trata-se também de um belo momento de literatura. E aqui reside a originalidade do autor. “A Ministra” é e não é a ministra em que todos pensam quando olham para a capa do livro.

Não é porque Miguel Real inventa uma personagem completamente ficcional. Atribui-lhe um passado. O pai assassina a mãe adúltera. A menina que desde muito pequena gosta de arrancar as cabeças das bonecas, assiste ao assassinato e é depois criada primeiro por um tio-pai, sargento da GNR, expulso da corporação por corrupção passiva e caixeiro viajante de uma fabriqueta de lanifícios. A tia-mãe é medíocre, pequenina e trata com violência a menina que, depois da morte do pai, vai para um orfanato.

A “heroína” da história consegue estudar e tornar-se professora, primeiro do ensino secundário e depois da faculdade. Odeia tudo e todos e sobe esforçadamente na vida à custa de manha, de expedientes, de uma total falta de escrúpulos e acaba por fazer uma tese de doutoramento sobre: Como manipular dados estatísticos de modo a evidenciar resultados não existentes na realidade.

Mas esta ministra é também aquela outra em que todos pensam porque a sua ideologia (por vezes torpe, por vezes absurdamente cómica) reflecte muito do que está por trás da política da educação dos últimos anos, que se consubstancia quebra radical da qualidade pedagógica, na derrota do humanismo como grande matriz do ensino, na desvalorização da figura do professor e da própria ideia de saber.

Mas desenganem-se os que pretendam ver aqui um olhar maniqueista. O autor não deixa de fazer, pela voz da personagem/ministra, um retrato por vezes duro e inflexível dos vícios de uma certa forma rançosa e pouco séria de ser professor, que também existe e existiu durante muito tempo. Mas tenhamos a certeza de que foi à sombra dessa manha que cresceu a ideologia que agora domina e tende a destruir a ideia de ensino e de saber em favor de um conceito de creditação.

O brilhante exercício de escrita de Miguel Real leva-nos num rodopio imparável através de informações, reflexões, através da própria escolha vocabular, no desenvolvimento de uma panóplia estilística que forma como que uma prisão de palavras em que a personagem/ministra fica presa e se desnuda sem nada que possa salvá-la da vergonha de ser exposta ao escândalo e, quiçá, ao escárnio das pessoas de bem.

No final do livro a Ministra/personagem, que sonha chegar a primeira-ministra e mesma a presidenta, acaba por não ver ser-lhe confirmado o convite para o cargo, em benefício de alguém mais bem colocado na hierarquia partidária.

Estas são as voltas da ficção que, através do privilégio do ofício de manipulação do escritor, acaba com um final quase feliz, ao contrário da realidade onde o final se vai arrastando em cores demasiado autoritárias e negras.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

LAURENT GAUDÉ, UM CONTISTA CHEIO DE VIRTUDES





Laurent Gaudé é um escritor francês, relativamente jovem, que publicou vários romances e alguns contos. Contos que a ASA editou sob o título “Noite Dentro, Moçambique e Outras Narrativas”. Quatro histórias, abordando diversos temas, em contextos diferentes. De entre essas quatro histórias, destacarei a primeira, “Sangue Negreiro”, não só pelo tema, mas também pelo modo como é tratado.
No porto de Saint-Malo, um escravo negro foge do navio em que vinha e vagueia pelas ruas daquela cidade francesa. Cidade que se mobiliza para lhe dar caça, em cooperação com a tripulação do barco. Como não se lhe consegue encontrar o rasto, a população entra em pânico, temendo que o fugitivo possa vir a cometer os crimes mais hediondos. Um medo antigo, feito de irracionalidade, que se intensifica e alastra quando começam a aparecer, pregados nas portas das casas das pessoas gradas da terra, dedos ensanguentados de um negro. O oficial, que exerce as funções de capitão do veleiro de que se escapuliu o negro, sente-se responsável pela situação e crê que as gentes da cidade assim o consideram. E que o olham com desconfiança e hostilidade, o que lhe provoca uma forte insegurança – e um medo crescente. O que o leva ao enlouquecimento, lento mas inexorável. Numa linguagem nervosa e eivada de humanidade, mas primando pela obediência a um cânone clássico, Laurent Gaudé descreve com rigor e profundidade as grandes emoções das multidões e nelas enquadra os sentimentos e as acções dos indivíduos que com elas interagem (ou nelas se incluem). Sempre dentro de um clima de mistério, a roçar o sobrenatural. Enfim, um exemplo de um bom conto, simultaneamente clássico e moderno. E, acima de tudo, muito bem escrito.









O mel do leão




Apesar de ser o livro mais publicado de sempre, e supostamente o mais lido, a Bíblia é muito possivelmente uma das mais misteriosas reuniões de textos. A origem dos vários livros que a compõe, a sua laboriosa reunião, a ética e lógica subjacentes compreendem uma elaborada explicação histórica, e pressupõem um conjunto extraordinário de circunstâncias para garantir a continuidade do exercício de elaboração, compilação e reunião.
Naturalmente, o facto de serem algumas de suas partes instrumentos fundadores de três das mais representativas religiões da Humanidade, não permitiu durante muitos séculos, que os vários aspectos deste fundamental livro fossem objecto de estudo. A impermeabilidade da fé, não exige maiores questionamentos. A palavra de deus existe simplesmente e não requer explicações. Mas para além do carácter fundador, há objectivos histórico-políticos muito bem definidos. Visa a Torá hebráica, ou o Velho Testamento, garantir a coesão e a continuidade do povo de Israel através da sua adesão a um código ético explícito com deliberações negativas e positivas. O Novo Testamento, tem como objectivo difundir os ensinamentos do rebelde Jesus tornado deus na terra, estendendo e universalisando o código ético do Velho Testamento, procurando desta forma elevar o nível ético da Humanidade. As implicações histórico-políticas desta expansão são bem conhecidas.
É bem sabido que o património intelectual do Judaísmo compreende também exegeses e discussões rabínicas de episódios da Torá, da lei e da ética, reunidos no Talmud ou Gemara. Porém, estas discussões tendem a aguçar ainda mais o extraordinário da narrativa e o seu mistério. Por sua vez, o Novo Testamento é composto por uma selecção "politicamente correcta" de relatos da vida de Jesus de Nazaré, sendo assim um texto mais depurado. Mas não podemos esquecer que para muitos, a modernidade teve início no século XVII quando Spinoza, defende a necessidade de uma leitura exclusivamente secular da Bíblia. Educado no seio da ortodoxia judáica, que acaba por renegá-lo em 1656, Spinoza distancia-se das correntes espirituais do seu tempo ao defender que Judaísmo e Cristianismo deveriam ser reestruturados através da crítica racional e dum programa de reforma fundado na leitura crítica da Bíblia. É este espírito que motiva o livro de David Grossman sobre o mito de Sansão.
Sansão, o israelita que matou com as próprias mãos um leão e que, cerca de um ano depois, tirou o mel das abelhas que se instalaram na carcaça do leão morto para regalar os seus pais, é sem sombra de dúvida, digno de dissecação literária, histórica e psicoanalítica.
Enviado por Deus, para libertar os Israelitas da opressão dos Filistinos, um povo guerreiro que vivia a oeste de Israel, às margens do Grande Mar e que adorava o ídolo Dagon, uma criatura com corpo de homem e cabeça de peixe, Sansão exemplifica a derrocada de um homem que apesar da sua força física sobrenatural, nunca foi capaz de conciliar a sua vida adulta com a tarefa divina que lhe havia sido incumbida. Como Samuel, que acabou por liderar os Israelitas e impor a derrota aos Filistinos, Sansão foi declarado pelo anjo mensageiro de Deus, um nazarita, um homem consagrado a Deus, um "que tem um juramento" e, dada essa condição, a sua mãe foi explicitamente exortada: estão vetados a Sansão o vinho e as bebidas fortes, e o seu cabelo não deve jamais ser cortado.
Paradoxalmente, o Sansão adulto procurou deliberadamente a convivência com os Filistinos, que pela lógica das circunstâncias nunca ser-lhe-iam fiéis. Assim, responde com o brutal assassinato de 30 homens em Ashkelon por ter a sua esposa filistina revelado o segredo de um enigma por ele proposto aos Filistinos. Posteriormente, arrependido procura uma reconciliação com a sua esposa, mas quando esta não é mais possível, Sansão responde uma vez mais de forma brutal e desproporcional. A vingança demonstra que a Sansão não faltava engenho: captura 300 raposas atando-as duas a duas pela cauda, amarrando-lhes uma tocha; finalmente, após incandescer as tochas liberta os pares de raposas nas vinhas, oliveiras e campos de grãos dos Filistinos. Mas faltava-lhe claramente uma bússola moral para travar de forma madura e sensata a sua incapacidade de gerir as frustrações.
Dalila, é a última das suas mulheres filistinas. Uma mulher dividida entre a paixão por um homem infantilizado e a lealdade para com o seu povo. Este último sentimento acaba por prevalecer, também por força da necessidade que tinha Sansão de ver-se traído para poder então vingar-se usando a sua força sobre-humana. Desta vez contudo, o jogo dos amantes vai mais longe, pois Sansão acaba por revelar o segredo do seu poder físico: os caracóis do seu cabelo até então nunca cortado. Dalila corta-os enquanto Sansão dorme, e os Filistinos aprisionam-lhe e acabam por cegá-lo.
A captura do gigante trouxe júbilo aos Filistinos, que se juntam aos milhares para festejar a queda do formidável inimigo. Finalmente, é imposta a Sansão a humilhação de dançar para os senhores Filistinos. Mas Sansão aproveita a oportunidade e pede para ser conduzido para junto dos pilares e aí clamar a Deus para que lhe restitua a força. Tendo sido ouvida a sua prece, acaba por destruir o templo de Dagon desestabilizando o seu pilar principal. Um acto final desesperado que lhe custa a vida e a dos senhores Filistinos.
O mito de Sansão ilustra, a vários níveis, a inadequação da força puramente física e revela a inutilidade duma vida desprovida da percepção do seu verdadeiro propósito. O heroísmo vazio de Sansão só podia redundar em actos desesperados e despropositados. Só através da ética é que a liberdade pode ser verdadeiramente conquistada.

Orfeu B.

Um conto que me marcou profundamente


O conto "Baleia" de Graciliano ramos é um dos contos que mais me marcou e impressionou. É simultaneamente simples e de uma força impressionante. Ontem Baleia veio ter comigo revisitar-me e gostaria de partilhar convosco este pequeno - enorme -texto.



Baleia

Graciliano Ramos
A CACHORRA Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa nas base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.
Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.
Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que advinhavam desgraça e não se cansavam de repetir a mesma pergunta:
- Vão bulir com a Baleia?
Tinham visto o chumbeiro e o polvarinho, os modos de Fabiano afligiam-nos, davam-lhes a suspeita de que Baleia corria perigo.
Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para bem dizer não se difereciavam, rebolavam na areia do rio e no estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiquiro das cabras.
Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas sinhá vitória levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por tapar-lhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos resistissem, aperreou-­se e tratou de subjugá-los, resmungando com energia.
Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se: naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da Baleia.
Escutou, ouviu o rumor do chumbo que se derramava no cano da arma, as pancadas surdas da vareta na bucha. Suspirou. Coitadinha da Baleia.
Os meninos começaram a gritar e a espernear. E como sinhá Vitória tinha relaxado os músculos, deixou escapar o mais taludo e soltou uma praga:
- Capeta excomungado.
Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se de verdade. Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta vermelha e na saia de ramagens.
Pouco a pouco a cólera diminuiu, e sinhá Vitória, embalando as crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e nomes feios. Bicho nojento, babão. Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais um dia para ver se realmente a execução era indispensável.
Nesse momento Fabiano andava no copiar, batendo castanholas com os dedos. Sinhá Vitória encolheu o pescoço e tentou encostar os ombros às orelhas. Como isto era impossível, levantou um pedaço da cabeça.
Fabiano percorreu o alpendre, olhando as barúna e as porteiras, açulando um cão invisível contra animais invisíveis:
-Ecô! ecô!
Em seguida entrou na sala, atravessou o corredor e chegou à janela baixa da cozinha. Examinou o terreiro, viu Baleia coçando-se a e esfregar as peladuras no pé de turco, levou a espingarda ao rosto. A cachorra espiou o dono desconfiada, enroscou-se no tronco e foi-se desviando, até ficar no outro lado da árvore, agachada e arisca, mostrando apenas as pupilas negras. Aborrecido com esta manobra, Fabiano saltou a janela, esgueirou-se ao longo da cerca do curral, deteve-se no mourão do canto e levou de novo a arma ao rosto. Como o animal estivesse de frente e não apresentasse bom alvo, adiantou-se mais alguns passos. Ao chegar às catingueiras, modificou a pontaria e puxou o gatilho. A carga alcançou os quartos de Baleia, que se pôs latir desesperadamente.
Ouvindo o tiro e os latidos, sinhá Vitória pegou-se à Virgem Maria e os meninos rolaram na caca chorando alto. Fabiano recolheu-se.
E Baleia fugiu precipitada, rodeou o barreiro, entrou no quintalzinho da esquerda, passou rente aos craveiros e às panelas de losna, meteu-se por um buraco da cerca e ganhou o pátio, correndo em três pés. Dirigiu-se ao copiar, mas temeu encontrar Fabiano e afastou-se para o chiqueiro das cabras. Demorou-se aí por um instante, meio desorientada, saiu depois sem destino, aos pulos.
Defronte do carro de bois faltou-lhe a perna traseira. E, perdendo muito sangue, andou como gente em dois pés, arrastando com dificuldade a parte posterior do corpo. Quis recuar e esconder-se debaixo do carro, mas teve medo da roda.
Encaminhou-se aos juazeiros. Sob a raiz de um deles havia uma barroca macia e funda. Gostava de espojar-se ali: cobria-se de poeira, evitava as moscas e os mosquitos, e quando se levantava, tinha as folhas e gravetos colados às feridas, era um bicho diferente dos outros. Caiu antes de alcançar essa cova arredada. Tentou erguer-se, endireitou a cabeça e estirou as pernas dianteira, mas o resto do corpo ficou deitado de banda. Nesta posição torcida, mexeu-­se a custo, ralando as patas, cravando as unhas no chão, agarrando-se nos seixos miúdos. Afinal esmoreceu e aquietou-se junto às pedras onde os meninos jogavam cobras mortas. Uma sede horrível queimava-lhe a garganta. Procurou ver as pernas e não as distinguiu: um nevoeiro impedia-lhe a visão. Pôs-se a latir e desejou morder Fabiano. Realmente não latina: uivava baixinho, e os uivos iam diminuindo, tomavam-se quase imperceptíveis.
Como o sol a encandeasse, conseguiu adiantar-se umas polegadas e escondeu-se numa nesga de sombra que ladeava a pedra.
Olhou-se de novo, aflita. Que lhe estaria acontecendo? O nevoeiro engrossava e aproximava­se.
Sentiu o cheiro bom dos preás que desciam do morro, mas o cheiro vinha fraco e havia nele partículas de outros viventes. Parecia que o morro se tinha distanciado muito. Arregaçou o focinho, aspirou o ar lentamente, com vontade de subir a ladeira e perseguir os preás, que pulavam e corriam em liberdade.
Começou a arquejar penosamente, fingindo ladrar. Passou a língua pelos beiços torrados e não experimentou nenhum prazer. O olfato cada vez mais se embotava: certamente os preás tinha fugido.
Esqueceu-os e de novo lhe veio o desejo de morder Fabiano, que lhe apareceu diante dos olhos meio vidrados, com um objeto esquisito na mão. Não conhecia o objeto, mas pôs-se a tremer, convencida de que ele encerrava surpresas desagradáveis. Fez um esforço para desviar-se daquilo e encolher o rabo. Cerrou as pálpebras pesadas e julgou que o rabo estava encolhido. Não poderia morder Fabiano: tinha nascido perto dele, numa camarinha, sob a cama de varas, e consumira a existência em submissão, ladrando para juntar o gado quando o vaqueiro batia palmas.
O objeto desconhecido continuava a ameaçá-la. Conteve a respiração, cobriu os dentes, espiou o inimigo por baixo das pestanas caídas. Ficou assim algum tempo, depois sossegou. Fabiano e a coisa perigosa tinham-se sumido.
Abriu os olhos a custo. Agora havia uma grande escuridão, com certeza o sol desaparecera. Os chocalhos das cabras tilintaram para os lados do rio, o fartum do chiqueiro espalhou-se pela vizinhança.
Baleia assustou-se. Que faziam aqueles animais soltos de noite? A obrigação dela era levantar-se, conduzi-los ao bebedouro. Franziu as ventas, procurando distinguir os meninos. Estranhou a ausência deles.
Não se lembrava de Fabiano. Tinha havido um desastre, mas Baleia não atribuía a esse desastre a importância em que se achava nem percebia que estava livre de responsabilidades.
Uma angústia apertou-lhe o pequeno coração. Precisava vigiar cabras: àquela hora cheiros de suçuarana deviam andar pelas ribanceiras, rondar as moitas afastadas. Felizmente os meninos dormiam na esteira, por baixo do caritó onde sinhá Vitória guardava o cachimbo.
Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.
Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil no barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.
Provavelmente estava no cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha.
A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do outro peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.
Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.
Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.
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Fonte: RAMOS, Graciliano. Vidas secas, 82ªed. Rio de Janeiro: Record. 2001. p. 85-91.

terça-feira, 14 de julho de 2009

O fato cinzento



Há livros que nos acompanham muito para além da sua leitura. Ambientes que nos revisitam, personagens que revivem, frases que se reescrevem. Um livro que me tem visitado é "O fato cinzento" de Andrea Camilleri. E é o fantasma do personagem principal que me visita. Ele é um alto funcionário da banca que conhecemos no primeiro dia da sua reforma. É casado com Adele, muito mais jovem e muito bela. Acompanhamos um percurso de traição anunciada que é acompanhado por mudanças físicas no apartamento conjugal, com as aparências mantidas intactas. Envolve-nos uma intensa solidão, um vazio muito grande que se acentua com a reforma. Essa solidão é acompanhada de um grande cansaço físico que se vem a revelar fruto de uma doença incurável. Assistimos ao lento arrastar para a morte.
Muito mais tonalidades passam pelo livro. Por exemplo, o jogo de Adele com uma renovada aproximação física e respectivas mudanças no apartamento, mantendo talvez só as aparências (pelo menos para ela própria), o simbolismo do casto fato cinzento que só é usado em ocasiões de morte, etc, etc. Na capa do livro vem um excerto do Corriere della Sera: "Camilleri segue o batimento da alma feminina como ninguém". Mas é a alma vazia do marido preenchida pelo pouco que Adele lhe reserva que me revisita.

sábado, 11 de julho de 2009

A Queda


Através de um monólogo, Albert Camus conta-nos a história de um advogado de sucesso que inicia uma viagem aos meandros da sua consciência. A sua confissão a um outro homem é iniciado num bar num bairro de marinheiros e percorre em 4 ou 5 dias as ruas dessa cidade. Esta é um julgamento de todos, porque sentimos perfeitamente essa queda do confessor. O autor empurra-nos para um lugar pouco agradável, onde nós, juízes e inocentes, somos também culpados dessa acusação que fazemos aos outros. É portanto um livro pequeno mas muito pesado e que só devemos ler se estivermos num andar de baixo, acusados do pior. Se for o caso, então este livro é um tónico regenerador que não nos deixa indiferentes quando subirmos as escadas, porque ao subir, mesmo poucos degraus, podemos sempre cair, principalmente se subirmos com muita confiança, sem olharmos para os nossos próprios pés. Além de tudo, esta história fala-nos sobre a arte: "Sei o que está a pensar: é muito difícil destrinçar o verdadeiro do falso naquilo que conto. Confesso que tem razão. Eu próprio... Olhe uma pessoa das minhas relações dividia os seres em três categorias: os que preferem não ter nada a escondera serem obrigados a mentir, os que preferem mentir a não ter nada que esconder, e, finalmente, os que amam ao mesmo tempo a mentira e o segredo. Deixo à sua escolha o compartimento que mais me convém. Que importa, no fim de contas? As mentiras não conduzem finalmente à via da verdade? E as minhas histórias, verdadeiras ou falsas, não tenderão todas para o mesmo fim, não terão o mesmo sentido? Que importa, então, que sejam verdadeiras ou falsas, se, nos dois casos, são significativas do que fui e do que sou? Vê-se mais claro, por vezes, naquele que mente que no que fala verdade. A verdade cega, como a luz. A mentira, pelo o contrário, é um belo crepúsculo que põe cada objecto em realce." Ao ler lembra-me um pouco aquele poema de Fernando Pessoa "O poeta é um fingidor".

quinta-feira, 9 de julho de 2009

UM GRANDE ESCRITOR PORTUGUÊS DO SÉC. XX - QUE NINGUÉM CONHECE





Sílvio Lima foi meu professor de cadeiras de Psicologia, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Há cinquenta e quatro anos, exactamente. Dele, guardo várias imagens, por vezes, de sentido contraditório. Professor de verbo brilhante, o seu discurso tinha a finura da inteligência crítica e o peso do conhecimento erudito. Os assuntos abordados nas aulas eram actuais e, a maioria das vezes, apresentados de uma forma interessante e pessoal. Ora, todas estas características deveriam fazer dele um grande professor, por todos reconhecido. Mas, na verdade, assim não era. A inquietação que nele se adivinhava, as perspectivas ideológicas subjacentes às suas prelecções (e que ele não ocultava), o constante jogo de palavras, por vezes, a sobrepor-se à profundidade da análise, levavam alguns de nós, jovens de vinte anos, a tomar algumas precauções - pelo menos, um certo distanciamento...
De tudo isso eu me recordei, agora, ao ler uma dissertação de mestrado apresentada na Universidade de Coimbra. Dissertação curiosa, decorrente da "descoberta" de cerca de cem artigos sobre desporto, que Sílvio Lima publicou em "O Primeiro de Janeiro", entre 1935 e 1942, ou seja, no período em que esteve compulsivamente afastado da docência universitária, por razões políticas. Estes artigos e perto de vinte ensaios, que publicou sobre desporto, constituem uma obra ímpar na cultura portuguesa do segundo quartel do século XX. E mais rara ainda por vir de um professor da Universidade de Coimbra, nessa época tão fechada em si mesma, tão tradicional e refractária a tudo o que fosse inovação. Principalmente, quando essa inovação tinha uma nítida intenção de intervenção social. Creio, mesmo, que se trata do primeiro conjunto de estudos, que têm o desporto como tema, escritos por um professor universitário português.
A referida dissertação, apresentada por Pedro Falcão, levou-me à leitura (e à releitura) desses textos e a uma conclusão verdadeiramente surpreendente: Sílvio Lima é um dos grandes escritores portugueses do século XX. E totalmente desconhecido da nossa literatura. Se algum conhecimento ainda há, hoje em dia, das suas obras (nos meios universitários), tal se deve à edição das suas "Obras Completas", organizada por José Ferreira da Silva e publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian. O que é muito e, ao mesmo tempo, pouco, pois continua a faltar a abordagem da obra do autor, sob outros ângulos, como, por exemplo, o do seu lugar na história do ensaísmo português. Quer concordemos, quer não, com as suas posturas intelectuais, as suas teses, a pertinência das suas polémicas, não podemos deixar de concluir que Sílvio Lima é um dos maiores ensaístas portugueses do século XX – e um dos mais prolíferos. E não estou a esquecer nem o António Sérgio, nem o Fernando Pessoa, nem o Eduardo Lourenço.
E esta conclusão entristece-me: quantos escritores estarão esquecidos no limbo dos nossos arquivos, à espera que a sua fada madrinha os faça reviver da letargia em que nós, os viventes desatentos, os vamos sepultando? Se ao menos se perfilasse, no nosso horizonte, alguma preocupação pela elaboração de estudos temáticos sobre os principais géneros literários, entre nós cultivados... Se tal acontecesse, ainda haveria alguma esperança de que o nome de Sílvio Lima fosse enaltecido, como um dos grandes escritores dessa forma portuguesa de fazer ensaio - brilhantemente iniciada por Moniz Barreto, no final do século XIX. Mas quem é que, hoje, ainda sabe quem foi Moniz Barreto?

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Do sucesso e da mafia



Muitas vezes o sucesso de um escritor afasta-me da sua obra. Aconteceu, por exemplo, com o italiano Roberto Saviano. O sucesso de "Gomorra", o filme premiado no Festival de Cannes e a posterior vida em clandestinidade foram demais para mim.
Recentemente encontrei um pequeno livro (os primeiros escritos após Gomorra), "O contrário da morte". São dois pequenos contos. O primeiro, que dá título ao livro, começou a despertar o meu interesse. A história de jovens do sul de Itália, de aldeias esquecidas , que partem nas várias missões do exército italiano pelo mundo fora (muitas vezes para amealhar algum dinheiro, no caso para um casamento e uma hipoteca) é uma via para nos mostrar a Itália sulista profunda, plena de códigos, tradições e de um peso de chumbo que impregna a atmosfera. Há uma noiva - viúva antes do tempo que encarna essa atmosfera.
O outro conto, "O anel", arrebatou-me mesmo. O ambiente é o mesmo, e estamos perantes vários conhecidos que se juntam a um domingo na praça da terra. Todos, com excepção de um, labutam por pouca recompensa. O outro trafica droga para um chefe mafioso. O domingo decorre na modorra densa que impregna o livro até que somos confrontados com a inevitabilidade dos códigos mafiosos. A descrição que começa com a chegada de dois individuos aramados e drogados, a perseguição que se segue, e o desfecho com a inevitável lei do silêncio é muito cinematográfica mas excelente.
Acabei o dia a ver o filme.

domingo, 5 de julho de 2009

O RISO AMARGO




Senti-me repartido ao acabar de ler este livro. Terrivelmente divertido. Comicamente incómodo. O autor fez-me rir mas rapidamente fez com que o riso se tornasse muito amargo.

Com um ritmo preciso e meticuloso, uma escrita eficaz, Adiga traça o retrato radical, absurdo e doloroso de uma Índia contraditória, miserável, tradicionalista, avançada tecnologicamente, progredindo às cavalitas do capitalismo ultra-liberal assente na corrupção a níveis quase impensáveis.

O protagonista é um escroque que sobe da miséria absoluta a pequeno empresário através da sabujice, do assassínio, da corrupção, e que se orgulha dos seus crimes e da sua miséria moral.

A estratégia é divertida e foi utilizada de forma superior por Hazek com o seu valente soldado Shweik. Mas aí, o que nos fazia identificar-nos com o soldado era a sua humanidade e o facto de dirigir todas as suas “maldades” contra o poder. Aqui, e ao contrário do que diz a propaganda (ou alguma crítica) não cheguei a experimentar qualquer simpatia pelo protagonista. É repelente desde o início. E o livro acaba por ser uma espécie de hino inverso à repelência.

Simultaneamente vi o filme “Quem quer ser bilionário” que dá uma ideia semelhante da Índia actual. Violência e miséria em todos os sentidos.

A diferença é que no filme há uma humanidade que ressalta de vários personagens (chamem-lhe demagogia, se quiserem, mas é humanidade) . Aqui não. Não há saída. E, o que mais me incomoda, fica uma suspeita de que o autor o escreveu numa estratégia em que se coloca a si própria num degrau acima da podridão do mundo. E assim, através da descrição obsessiva da miséria está a vender-se a si próprio como figura intocável. Boa para receber prémios… estarei a ser injusto?

Este é o primeiro livro de Aravind Adiga e a escrita é uma maratona. Vamos ver, daqui a 10 ou 15 “kilómetros”, onde é que ele andará.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

UMA CORÇA EM FUGA




A Quetzal acaba de publicar uma obra póstuma de Cabrera Infante (1929-2005), “A Ninfa Inconstante”. Neste livro, Cabrera Infante, um dos mais notáveis escritores cubanos, a viver na Europa desde 1965/1966, recria, por um exercício de memória, a Havana da sua juventude, onde circulariam as personagens da sua história. A história de uma jovem, muito jovem, e de um jornalista e crítico cinematográfico, não tão jovem. Uma história que tanto pode ser considerada como um romance, uma novela ou um conto comprido – o que, em última instância, não tem importância de maior.
Um texto atravessado pela emoção, muito bem construído, pleno de referências, de remetências, para a coisa literária, cinematográfica ou musical, o que lhe confere uma forte densidade cultural e humana.
Um texto armadilhado pelos múltiplos sentidos que os léxicos (e as suas decomposições e recomposições) vão adquirindo, numa permanente reinvenção da linguagem, que o aproxima do James Joyce das últimas fases. O que equivale a dizer que estamos perante um texto passível de diferentes interpretações e, consequentemente, de difícil tradução. Dificuldade de que se saiu brilhantemente Salvato Telles de Menezes, que realizou um excelente trabalho, que dignifica a tradução que se faz em Portugal (por vezes, tão mal tratada).
Vejamos alguns exemplos:

“Esta Estelita – Estela, Estelita, a moça, a jovem corça permanentemente em fuga, por quem o jornalista se apaixona – Estalactite, Estalagmite: a sua cova súcubo, de entrada íncubo, antes arrepio, arrepiante, espelunca nunca. Imagina vagina. Porque ela é impúbere, púbere. Púbis. Ver virilhas e motivo do V: V de virgem mas também de virago, ver efígie no verão emotivo do V. Há em todas as mulheres um triângulo. Pode formá-lo com dois homens. Mas tem de ser adulta para ser adúltera.”

Ou, ainda:

“- Dizem que vai chover.
Sorri.
- Dizem que vou ver.
Aproximei-me das persianas.
- Persicum malum ou talvez bonum? Tudo depende de quem olha.
- E isso tem a ver com quê?
- Com nada, é claro.
- Sabes uma coisa, às vezes penso que não estás muito bom da cabeça.”

Ou:

…“nessa árvore nasciam sumaúmas, falsas orquídeas, que armazenavam água. Alma zenavam…
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Trocámos aquele olhar vermelho de que fala Guidemo Passant. Guido de Maupassant. Guillermo que passa…
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… entrei no cinema Rodi. Estúpido nome. O dono chamar-se-ia Romero Diaz? Ou Rodrigo Diaz? Dessas cavilações tirou-me o filme, que era “A Mulher Fatal.”

A intensidade amorosa do nosso herói jornalista (que conta a história na primeira pessoa) vai esmorecendo. Esmorecendo como nos diz o bolero:

“Estelita, como um bolero na moda, nunca se deixou levar às boas. O bolero continua: ‘É por isso que te amo tanto’. Mas eu não a amo: amei-a e não creio que fosse sequer isso”.

Os trocadilhos, as associações livres constituem o suporte de um ambiente em que o humor dá lugar à paródia e gera um clima de tensão, imprescindível ao desenrolar da trama – em crescendo progressivo.
Em suma, estamos perante um texto que nos dá a conhecer uma das obras mais inovadoras da actual literatura cubana e que, por via da tradução de Salvato Telles de Menezes, vem enriquecer a língua portuguesa.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Leite Derramado



"Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até ao fim da vida."
Chico Buarque convida-nos a entrar num quarto de um hospital onde um homem conta a uma mulher inexistente o seu passado, conta a degradação da sua vida, da sua família desde o tetra-avô ao tetra-neto. Por vezes a história repete-se, da forma como ele imagina alguns factos que desconhece, ou talvez não, talvez os queira acreditar assim. Os ouvintes, além de nós, são diversificados, desde dessa mulher, talvez uma enfermeira, até às pessoas que passam no corredor do hospital onde ele foi desterrado. Uma filha e um bisneto ajuda-o a queimar os poucos rendimentos e bens que lhe restam. O homem acaba numa favela a morar antes da queda que o faz ficar acamado numa casa de saúde (hospital).
Mas o melhor está na escrita de Chico Buarque que nos faz devorar este livro, cada palavra, cada frase. O facto de se colocar na cabeça de um homem idoso acamado que narra repetidamente as suas várias histórias de vida e um amor interrompido é um pretexto para a expressão da sua escrita da sua poética. Não é a primeira vez que Chico Buarque nos coloca perante uma personagem que teve um passado glorioso e um presente decadente, assim foi em "Budapeste", e no "Estorvo". Parece ser essa a sua generosidade literária, capaz de se meter na cabeça do homem que cai, dos outros, uma espécie de imagem de marca que de resto é coerente com as suas canções. Sente-se também alguma sátira, pelos rituais sociais, pela corrupção política. Depois há todo um conjunto de acontecimentos, intrigas, problemas que são bem cozinhados e com o tempero certo, que saboroso estava este livro.
Creio mesmo que este livro é mais uma das belas canções de Chico Buarque, a mais bela canção, a mais bela opera. Este romance fica para sempre na memória de quem o lê. Pelo menos eu,acho que só vou esquecer quando ficar senil, ou talvez não, ficará o romance também no meu corpo, porque por vezes senti um arrepio a lê-lo.

domingo, 28 de junho de 2009

MENINA OLÍMPIA E SUA CRIADA BELARMINA





Menina Olímpia e a sua criada Belarmina é um conto de José Régio, publicado nos anos quarenta e inserido em livro seu intitulado "Contos". É uma história portuense, que descreve as andanças da Menina Olímpia pelas ruas da cidade, seguida de perto pela criada Belarmina. Figuras características do Porto em finais dos anos trinta, inícios dos quarenta, que eu ainda conheci, na minha meninice. A Menina Olímpia vestia espalhafatosamente, roupagens de outras épocas, eivadas de rendas, de folhinhos, de tafetás, de peles que teriam pertencido a alguma raposa. Verão e Inverno, quase as mesmas indumentárias, usadíssimas, quase esfarrapadas, de cores que tinham sido berrantes. Uma demonstração pública do seu desequilibro mental e da sua decadência social - o "espantalho" dos garotos que a seguiam a distância. A criada, essa, quase mendiga.
E a propósito dessas figuras, Régio faz-nos percorrer ruas, largos e praças do burgo comercial (e residencial), faz-nos, inclusivamente, entrar numa "ilha" portuense - pessoas, hábitos e falas. Para mim, portuense que sou, o conto tem em encanto especial, pela revivescência de uma época, por esse encontro com um passado longínquo. Mas, para além desse encanto, também me causou um certo mal-estar: o texto é extremamente datado. Esse texto e os restantes que constituem o livrinho, em que se insere. Esteticamente, pertencem a outra época, mais perto de Camilo Castelo Branco (escritor maior da cidade do Porto), do que das literaturas do nosso tempo. E esta constatação fez-me reler parte da poesia de José Régio e alguns dos seus ensaios, como o "António Boto e o Amor". E surpreendi-me por não encontrar, neles, a mesma "patine" do tempo. Será porque o Régio é um contista menor, se comparamos os seus contos com a sua obra poética, ensaística ou dramatúrgica? Não creio que esta seja a explicação, mas, sim, uma outra: se todos os géneros literários evoluiram rapidamente nos últimos sessenta, setenta anos, aquele cuja evolução é mais acentuada é, sem dúvida, o da narrativa ficcional. E por uma razão que se me afigura clara: é o género que melhor expressa o nosso viver quotidiano, feito de comportamentos, de atitudes, de valores. É, pois, o género que nos dá a dimensão da nossa actualidade. Se assim é, não será a "velhice" do texto literário que está em causa, mas, sim, a nossa falta de capacidade para sairmos da "modernidade" em que nos situamos, ou seja, a nossa incapacidade de aderirmos a algo que já não é do nosso tempo. E isso é mais notório na narrativa ficcional, romanesca, do que no texto poético, pela proximidade da primeira com a "narração" que nós, constantemente, elaboramos (pelo menos, para nós próprios) da nossa vida quotidiana.

De um modo ou de outro, o melhor será, cada um de nós, concluir por si próprio da justeza das questões que formulo, lendo o livro de José Régio, que se encontra disponível em edição das Publicações Europa-América.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Diário de Um Velho Louco



Junichiro Tanizaki fala-nos disso mesmo. Um velho em decadência física muito perto da morte que se apaixona pela sua nora. Por parte de toda a família existe sempre um julgamento moral das atitudes do velho ou da nora. Censurado mas com a autoridade de quem é velho, ele segue o seu desejo até onde pode. Fala-nos da ideia de belo ligado à crueldade, à maledicência. Por outro lado a descrição da degradação física do velho é qualquer coisa de triste mas belo. Junichiro Tanizaki não nos dá tréguas neste livro.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

O MUNDO FABULOSO DE CRISTINA FERNÁNDEZ CUBAS




As edições Tusquets, de Barcelona, publicaram recentemente uma obra de Cristina Fernández Cubas, “Todos los cuentos”. É uma obra notável, que agrupa cinco livros da autora, com um total de vinte contos. Cinco livros, um panorama do universo contístico de Cristina Fernández Cubas, em que a sociedade espanhola contemporânea é caracterizada sob múltiplos aspectos, nomeadamente através de figuras femininas que são o eixo central de quase todos os seus contos. Personagens femininas magistralmente enquadradas na estrutura da história, a sobreporem-se às masculinas, reduzidas a uma função contrapontística, a valorizarem o apuro emocional, sentimental, das mulheres. E, o que é curioso (e talvez sintomático), as figuras masculinas mais conseguidas têm um toque de feminilidade, que, embora as não efeminize, as aproximam do que é essencial ao universo feminino. E surge a eterna questão: só os escritores de um determinado sexo é que “sabem” escrever sobre personagens do seu sexo? A questão posta nestes termos parece ter uma resposta óbvia, mas, na verdade, não é assim, tantos são os casos em que esta suposição não se confirma.
Os contos de Cristina Fernández Cubas, construídos à volta de figuras femininas, têm, quase sempre, uma forte dimensão social, pois, através deles, temos acesso a múltiplos “cenários do quotidiano, perfeitamente reconhecíveis, nos quais” – diz a autora – “no momento mais imprevisto, aparece um elemento perturbador”. Elemento que confere uma intensidade narrática, em que o insólito, o oculto, o obsessional, passam a desempenhar um papel primordial no desenrolar da acção.
Se a maior parte dos contos tem como cenário o jogo de emoções, de sentires, de fazeres, de personagens integradas na sociedade espanhola, alguns há que se centram à volta de personagens femininas a viver, episodicamente, em meios, em países distintos. Quando assim acontece, a acutilância, a finura de caracterização psicológica dessas personagens ainda se torna mais evidente.
As limitações de um blogue não me permitem uma análise minuciosa dos 20 contos, que ocupam 500 páginas, por isso, limitar-me-ei a citar dois deles, “Ausencia” e “El moscardón”. No primeiro, relata-se a vida de uma freira, que, ainda menina, entrou num convento e dele não mais saiu. Descrição espantosa, a denotar um grande conhecimento da vida conventual e uma sensibilidade apuradíssima das relações que um universo concentracionário engendra. No outro, “El moscardón”, mergulhamos no ambiente sufocante da casa de uma velha senhora, que teima em viver sozinha e vai sofrendo um processo de deterioração psicológica, em perda crescente da função do real. Um conto que é um requiem por todos nós, os que caminhamos para um fim, que tem tanto de próximo como de evidente.
Releio o que acabo de escrever e surge-me uma dúvida: ficará o leitor com a ideia de que os contos de Cristina Fernández Cubas constituem outras tantas tragédias? Não, de modo algum: são textos plenos de vida, em que o humor e a simpatia por tudo o que ao humano respeita têm um lugar central. Contos vertidos numa linguagem de grande precisão e rigor, que nos fazem sentir mais lúcidos, mais dignos.
E, uma vez mais, faço um apelo aos nossos editores: publiquem, difundam, obras tão admiráveis quanto esta.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Por Quem os Sinos Dobram


Para que serve ler um livro? Para que serve ler um livro se podemos conhecer a sua história através do filme, por exemplo? Para que serve ler um livro se podemos situar o livro na nossa biblioteca interior e conseguirmos falar dele?
Não me interessa falar do livro que li, interessa-me antes ter o privilégio de passar pela experiência do o ler, porque o livro é mais do que a história contada. É uma experiência virtual. Para isso é necessário sentir o pulsar do livro, compreender a poética do livro, saborear as palavras, os momentos, como quem saboreia uma excelente refeição.
Foi o que me aconteceu com este livro de Ernest Hemingway. Tive a sensação de comer algumas palavra. Por vezes não sabia se estava a ler um poema, ou um romance. Acho que essa é a principal razão de ler: Quando estamos a ler um livro assim, estamos a ter uma vivência única, não só estética, não só literária, mas também amorosa. Amamos as personagens e ouvimos tudo o que nos dizem, o que pensam, como agem. Se não for assim, não vale a pena ler. É sentir o pulsar do livro, a sua respiração.
É fácil, compreensível e simples a história do livro, acessível, acho eu. Os dilemas são complexos. Muito complexos, fazem-nos pensar, fazem-nos pensar em muitas coisas. Depois existe esta capacidade narrativa e poética do autor que nos faz estremecer a todos os momentos e até chorar.
Sei que qualquer leitor experiente já leu este livro. Aos outros, como eu que são leitores amadores, recomendo vivamente a leitura. Recomendo viajar por este livro.

sábado, 6 de junho de 2009

QUANTOS LIVROS JÁ LEU?



Umberto eco e Pierre Bayard (autor de "Como falar dos livros que não li?") encontraram-se num debate público em Nova York. O Magazine Littéraire de Junho publica um resumo da conversa entre os dois. Uma delícia.

A certa altura, Umberto Eco conta que, tendo cerca de 50.000 livros, 30.000 dos quais no seu apartamento em Milão, que de vez enquanto recebe a visita de algum imbecil que lhe pergunta: "Quantos livros já leu? Todos os que aqui tem?". Para esta pergunta tem três respostas possíveis:

1. "Já li muitos mais, caro senhor, muitos mais."

2. "Nenhum. Porque é que julgo que eu os guardo?"

3. "Nenhum. Os que lá li enviei-os para a Biblioteca Municipal. Estes são para ler para a semana."

Pierre Bayard acrescenta uma quarta hipótese de resposta:

4. "Não os li mas vivo com eles."

A conversa integral está em :

http://fora.tv/2007/11/17/Bayard_and_Eco_How_to_Talk_About_Books_You_Havent_Read



(Umkberto Eco)




quinta-feira, 4 de junho de 2009

BANALIDADE, COINCIDÊNCIA E ALUCINAÇÃO NA ESCRITA DE BERNARDO CARVALHO



Bernardo Carvalho é um dos escritores brasileiros mais badalados (e premiados) dos últimos anos. O que dele tinha lido, no entanto, não me havia entusiasmado. Por isso, hesitei em comprar o seu livro de contos, "Aberração", editado pela Cotovia. Mas não me arrependi. É uma obra notável, pela diversidade das histórias, pela linguagem em que são escritas - linguagem despida de ornatos, directa, com uma fluência e leveza que só a dimensão coloquial da fala pode conferir ao texto. Histórias diversas, ligadas - subterraneamente - por duas características: a coincidência e a alucinação. Coincidência de encontros, de descobertas, que tornam claro o que era nebuloso - ou nem sequer existia. Histórias centradas em situações do quotidiano, que têm tanto de óbvio, como de alienatório. E com uma técnica de construção que não é vulgar na ficção literária, pois costuma ser específica da obra cinematográfica: a acção não se desenvolve linearmente, mas decorre de diferentes situações, em que evoluem personagens diferentes, aparentemente sem relação entre si, mas que vão convergindo para uma mesma acção, cujo significado só se torna evidente no desfecho final.Em suma, uma prosa limpa, desocultadora do que se esconde nos actos mais simples da nossa vida - da nossa vida sem história - e que só adquirem sentido ao serem recriados pela mão de um escritor que não teme a inovação.

terça-feira, 2 de junho de 2009

A ESCRITA OU A VIDA


Morei neste livro durante 20 dias. Li-o, reli-o. Andei para a trás e para a frente. Sublinhei. Parei. Reflecti. Escrevi à margem.

Levei anos a ganhar coragem para o ler. Sabia que tratava da terrível experiência de dois anos de Semprún no campo de concentração nazi de Buchenwald. Adiei várias vezes confrontar-me com o relato dessa dor absoluta.

Até que chegou o dia. E logo à primeira página fui agarrado pela escrita brilhante, pela narração por vezes insuportável das memórias de Buchenwald, pela brilhante capacidade do autor de inter-relacionar uma diversidade de tempos

O autor começa por se interrogar como poderá explicar em palavras o cheiro a carne humana que saía das chaminés dos crematórios e que pairava permanentemente sobre os internados em Buchewald.

Assim, o livro não é exactamente sobre a experiência de Buchenwald mas sim sobre a escrita e a dificuldade de encontrar palavras que possam descrever um tamanho mergulho no inferno. Que palavras podem explicar a vivência do mal absoluto.

Mas o livro vai ainda além disto. Fala-nos sobre a morte e a capacidade que a escrita tem para a afastar e exorcizar ou, pelo contrário, mantê-la agarrada à pele do escritor.

Fala-nos ainda do tempo. O tempo da juventude e o tempo da maturidade. E ainda do reencontro com a juventude. Foi-me particularmente fantástica a leitura do episódio em que Semprún regressa a Buchewald com os netos e fica como que paralisado pelo regresso ao espaço onde foi jovem e onde alguma esperança, algum futuro era possível

Semprún mistura narrativas simples, reflexões pessoais, angústias, memórias, encontros com o fascínio da poesia de Celan ou de René Char, com a figura e a escrita de primo Levi, ou ainda com os conceitos de Wittgenstein sobre o mal e a liberdade.

Acima de tudo, Semprún domina com particularmente brilhantismo o uso do tempo narrativo. Pára a narrativa num momento para andar para trás ou para a frente, intercepta tempos, memórias, recordações e cria um puzzle que permite também ser usado pelo próprio leitor como matriz do olhar sobre a sua própria vida.

Creio que a literatura atinge o seu grau mais fundo quando nos atinge no centro das nossas inquietações e nos obriga interrogarmo-nos e a revermo-nos nesse fantástico e terrível jogo de espelhos que são as palavras levadas para além de todas as circunstâncias.

domingo, 31 de maio de 2009

"HISTÓRIAS DE AMOR" de JOSÉ CARDOSO PIRES




Bela escrita. Seca, dura, curta, eficaz. Segundo livro de José Cardoso Pires poribido pela censura depois de cortes inomináveis. Já aqui está presente o que fará a raiz de uma das mais belas aventuras da literatura em língua portuguesa, que viria a ter os momentos maiores em livros como “O delfim” ou “Alexandra Alpha.”

É óbvia a influência de uma certa literatura americana, sobretudo dos melhores escritores de short stories. A visualidade a dever muito ao cinema, a contenção a dar espaço ao leitor para completar a cena e desenvencilhar-se das ambiguidades cuidadosamente deixadas a pairar.

Curioso como a escrita nos situa nos anos 50 e na forma de respirar e falar desse tempo. Particularmente nos diálogos, nos gestos, nos movimentos, talvez até no discorrer do tempo da acção. Lembro-me desta forma de falar dos homens, das mulheres dos amantes. Já não a minha. Mas a que eu via/ouvia aos mais velhos e depois no cinema português da época.

São estes recantos da escrita que fazem da literatura um instrumento notável para estudarmos os anos idos e as suas pequenas histórias que são as que realmente constroem a grande História.

Curioso ainda ver o que preocupava os homens da censura nesta edição que mostra os cortes impostos pelo lápis azul. São a prova de que este país era, mais do que um estado policial, um mundo de pobreza humana, mediocridade e pequenez moral e estética.

Por fim, é muito curioso e muito próprio de Cardoso Pires a asa que, de repente, baixa sobre a dureza da posa e lhe abre uma inesperada dimensão poética, conferindo a alguns dos seus contos uma grandeza única.