quinta-feira, 24 de março de 2011

"... eu sou do tamanho do que vejo/E não, do tamanho da minha altura... " Alberto Caeiro


A árvore que dava olhos

Texto de João Paulo Cotrim

Ilustrações de Marial Keil

Editora Calendário

Tal como as árvores precisam de tempo para crescer os livros precisam de tempo para chegar aos seus leitores, precisam de quem não os deixe cair no esquecimento ao fim de uns meses, precisam de um vento que os espalhe por todos os lugares onde possam dar frutos. Por isso não desisto deste, uma colheita de 2007, já desaparecido de muitas livrarias e ainda, infelizmente, ausente de muitas bibliotecas. "A árvore que dava olhos" é um livro que merece ser lido, relido e recomendado e que, tal como todos os bons livros para crianças, é um livro para todas as idades.

Uma árvore de quintal com raízes presas num espaço limitado avisa que não pode ver o vê nem falar do que fala. É essa sua perplexidade, e a nossa, a história deste livro ou até de todas as histórias nascidas dentro de quem quer ver além da linha do horizonte.

A árvore deve dar frutos então porque não dar diferentes frutos? Ou usar os ramos para riscar o céu, ser aeroporto de borboletas, farol de gatos?

Esta árvore sonha e no seu sonho convivem o real e o impossível: ser casa de pássaro e navio voador. Tudo porque é uma árvore que dá olhos e com olhos abertos se vai a todo o lado.

Um belo texto de João Paulo Cotrim, numa união feliz com as ilustrações da Maria Keil que, mais cedo ou mais tarde, é imperdoável não reconhecer.

Maria Keil, infelizmente demasiado cedo arrumada e quase esquecida. Uma senhora que vem de longe e ainda enxerga longe, como a sua árvore que não cabe inteira nas páginas onde, por vezes, coloca uma cadeira, lugar de gente, lugar da Maria. Uma cadeira onde é suposto o leitor se sentar, ser árvore, ter olhos abertos. E ver longe pelo livro e pela imaginação. Sílvia Alves



quarta-feira, 23 de março de 2011

Film Socialisme

Jean-Luc nunca foi um dos meus favoritos. Muito provavelmente porque frequentemente fico algo irritado com a crueza e a frontalidade de seus julgamentos. E também porque a originalidade da Nouvelle Vague, embora atraente e próxima das minhas preocupações ideológicas e sociais, nunca me pareceu estar à altura da minha paixão pelo cinema italiano, que numas poucas décadas produziu encenadores geniais como De Sica, Rossellini, Fellini, Visconti, Pasolini, Antoniani, Bertolucci, Wertmueller, entre outros, e um sem número de actores e actrizes inesquecíveis.

O desaparecimento desta brilhante linhagem de cineastas empobreceu-nos tristemente e deixou um vazio que é muito raramente preenchido. Os filmes sucedem-se uns aos outros, mas para mim nada se compara ao festim intelectual e dos sentidos que era ir, sobretudo na adolescência, ver a última invenção do cinema italiano. Mas claramente, Godard também sempre foi uma referência. Assim, no mesmismo das ideias previsíveis e dos modismos cinematográficos dos dias correntes, o aparecimento dum novo filme de Godard é um acontecimento que merece ser celebrado. Na minha opinião, os filmes de Godard são obrigatórios e devem ser vistos como se fossem o texto dum manifesto. E Godard tem sido profícuo em produzi-los e torná-los incontornáveis. Justifico assim estas linhas sobre um filme num blog sobre livros.



Film Socialisme é, como aliás tudo de Godard, um filme irreverente, inquietante, instigador, inesperado e rico em questões para reflexão e em ideias cinematográficas. Os filmes de Goddard são também textos ilustrados. Em Film Socialisme, ao turbilhão de ideias juntam-se imagens de grande beleza estética que são dialecticamente confrontadas com segmentos ilustrativos do luxo kitsch dum consumismo vazio e embrutecedor, que é apresentado com imagens sem qualidade, sonorizadas por música auditivamente dolorosa e banal, e diálogos velados, truncados e em vozes off. A mensagem é clara e explícita: a sociedade de consumo não permite levar-nos para além da fruição fútil e efémera. "O dinheiro é um bem comum" é a primeira afirmação do filme; fluido como a água, completam as imagens, mas o que permite adquirir é necessariamente adulterado e, com frequência, moralmente questionável. O ouro desaparece num sítio para reaparecer noutro qualquer sob o pretexto duma nova ordem moral que se impõe pela força e através da mentira.

Os portos sucedem-se uns aos outros, mas são apenas lugares para mais fotografias e para serem referências descaracterizadas dum estar precário que não deixa marcas nos passageiros do paquete. O que conta é desfrutar. Já e agora. Nada fica.

Na última parte do filme, Quo Vadis Europa, o drama sem sentido, mas absolutamente típico e universal duma família (francesa no caso) desenrola-se. O pai não entende porque não é amado depois duma vida de trabalho e sacrifício. Os filhos não respondem. A filha lê as "Ilusões perdidas" de Balzac, indiferente a tudo e a todos. Tão jovem, e já sem qualquer ilusão. A "comunicação social" está a postos para capturar as declarações, os potenciais actos de violência, o escabroso, o mesquinho. Não há valoração moral, não há qualquer hipótese dum verdadeiro diálogo ou aproximação afectiva dos intervenientes. As afirmações são todas abstractas e desprovidas de sentimento. Os personagens são estátuas a fazer declarações. Exigem tudo, culpam a todos, mas não são capazes de dar nada. Vivem para receber e acumular bens, mas são incapazes de dar. O diagnóstico é exacto, as imagens são cruas, as implicações perturbantes. Para onde vamos?

Obrigado, Jean-Luc!



Orfeu B.

segunda-feira, 7 de março de 2011

WILLIAM TREVOR, O ESPLENDOR DO CONTO EM LÍNGUA INGLESA



O irlandês William Trevor (1928) é um dos grandes contistas de língua inglesa, na actualidade. Grande por várias razões: pela variedade de temas dos seus contos, a caracterizarem múltiplos aspectos das gentes irlandesas; pela contenção e precisão da linguagem; pela mestria com que domina a arte do conto (atente-se, por exemplo, nos “fechos” admiráveis das suas histórias).
A”Relógio de Água” acaba de editar , em tradução cuidada, um seu livro, intitulado “Depois da Chuva”, no qual se agrupam doze contos. No primeiro destes textos, “O Afinador de Pianos”, aborda-se um tema extremamente interessante: um cego (o afinador de pianos) casa-se, ainda jovem, com Violet, que o ensina a ver o mundo através dos seus olhos. Tendo enviuvado, volta a casar-se, já idoso, com uma antiga apaixonada, Belle, que não só vê o mundo de forma diferente de Violet, como passa a desenvolver um ciúme crescente da sua antecessora, que se expressa através da contradição permanente do modo como Violet tinha descrito as cores e formas de ambientes domésticos e de paisagens ao afinador de pianos. O que origina alguma perturbação no cego que, gradualmente, se vai apercebendo do processo de transformação que está a sofrer, transformação que não pode deixar de aceitar se quiser sobreviver
“Cada casa que continha um piano exibia as suas contradições [note-se, ele ia há anos, de casa em casa, no exercício da sua profissão, primeiro guiado por Violet , agora por Bell]. As pérolas que a velha Mrs. Purtill usava eram opalas, a pele tão branca do dono da papelaria de Kliath era sardenta, os dois renques de carvalhos acima de Oghill eram certamente faias, verdes? Claro que sim – anuia Owen Drowgould [o afinador], já que era essa a reacção mais razoável. Não se poderia censurar Belle por demarcar o seu território e tal demarcação acarretava, inevitavelmente, estragos e destruição. No fim de contas, Belle acabaria por vencer, porque os vivos vencem sempre. E também isso parecia razoável, já[que] Violet triunfara no início e saboreara os melhores anos”
Enfim, uma história comovente que narra o processo algo traumático da substituição de um “software” por outro na mente de uma pessoa cega.
“ Depois da Chuva”, o conto que dá o título à obra, é uma belíssima história de amor, de uma suavidade, de uma melancolia que o aproxima das baladas que cantam os afectos perdidos, a solidão de quem sofreu e os perdeu. Uma história quase sem história, com um fio narrativo tão ténue que quase se não vislumbra. Uma história decorrente do jogo de entrelaçamento de um tempo presente com a memória de um tempo de infância, entrelaçamento suscitado pelo lugar (Pensione Cesarina), onde se desenrola a acção. Em suma, uma história muito bem construída, assente na conjugação do tempo e do espaço em que a “heroína” vive e viveu. Uma história em que o tempo e o lugar se conjugam numa ambiência de fina erotização emocional, feita de saudade e mistério. E termina com a mesma subtileza que a percorre ao longo das suas quinze páginas:

“Ele [o namorado que a havia abandonado] bateu em retirada, tal como os outros fizeram, quando tentou alterar as circunstâncias que constituem o passado impondo-lhes um presente mais alegre e, acima de tudo, a fidelidade futura. Nada lhe sugere a resposta quando reflecte acerca da solidão da sua estadia na Pensione Cesarina, e pressente que nunca virá a conhecer.[...] Vê-se a caminhar no calor da manhã, deixando para trás o cemitério e as bombas de gasolina enferrujadas. Vê-se a procurar a sombra dos castanheiros no parque, a cruzar a “piazza” até à “trattoria” quando cairam as primeiras gotas de chuva. Ouve o ruge-ruge da esfregona da limpeza na igreja de Santa Fabíola, os susurros dos turistas. Os dedos da mulher que reza remexem as contas do rosário, as velas bruxuleiam. A história de Santa Fabíola [refere-se à pintura que havia na igreja] perde-se nas sombras que foram os personagens da sua vida, o sepulcro exala um fedor inodoro a morte. A chuva tornou mais suave o ar agressivo, o anjo surge também misteriosamente”.

“Terreno Perdido” é uma história diferente, uma história escrita de um modo discreto, quase suave, o que acentua ainda mais a terribilidade do seu conteúdo: numa comunidade irlandesa, de prática protestante e intolerâncias e ódios ancestaris, um jovem tem uma visão estranha, quando estava no terreno agrícola do seu pai. Visão essa que o perturba e o conforta e que ele acaba por interpretar como sendo a de uma santa católica, a Santa Rosa. Visão de que ele não pode nem quer abdicar, mesmo que tal acarreter a oposição feroz da comunidade em que se insere e da sua família em particular. Nem as cocções e as perseguições de que, gradualmente, vai sendo vítima, o demove da fidelidade a essa aparição. Ostracizado pela família que acabou por o encerrar no quarto, ocultando-o do mundo, Milton, o jovem que teve a “revelação”, passa a ser considerado louco, tais são as coisas “ sem sentido” que diz. Para acabar por ser morto em sua casa, com um tiro na cabeça. O mistério da sua morte começa a desvendar-se-nos com a chegada para o enterro de uma irmã, que tinha ido viver para Inglaterra, em fuga ao ambiente sufocante da sua família. É durante o enterro que os sinais começam a fazer sentido para Hazel, a irmã regressada, que conclui que o irmão tinha sido “executado” por um outro irmão, com a aprovação da família - “ele tinha sido avisado...” Mas Hazel também sabe que esse segredo terrível nunca sairá das paredes daquela casa e pesará para sempre sobre a sua família:

“ A mãe daria o último suspiro com a terrível angústia do sucedido ainda a queimá-la por dentro; o pai iria recordar aquele acontecimento em todas as marchas de Julho [as festas da aldeia em que todos participavam e onde se começou a revelar “a perturbação” de Milton] que ainda lhe restavam. Os membros da família nunca conversariam acerca daquele dia, mas, através da dor, diriam a si próprios que as coisas eram mesmo assim, não havia alternativa. Milton tinha de morrer: eis o único consolo. O terreno perdido [o terreno onde tinha aparecido a santa] fora recuperado”.

Esta transcrição (assim como as anteriore), corresponde aos períodos finais dos contos a que fizemos referência e atestam, por si sós, as qualidades de contista de William Trevor.

sexta-feira, 4 de março de 2011

PARTILHA DE EMOÇÕES



Sempre vivi com as emoções às costas.

Quando leio um livro ou vejo um filme de que gosto muito tenho de o impingir a toda a gante. É mais forte do que eu. Se quiserem, de forma poética, direi que é uma ínapelável pulsão de partilha das emoções.

Alguns dos meus amigos já me pediram várias vezes para não lhes contar os filmes. Depois vão vê-los e acham-lhes menos graça...

Mas atenção serei um narrador obsessivo mas democrático. Tanto gosto de contar como que me contem filmes ou livros. Porque quase sempre vou ver outra coisa, de outro ângulo, vou ver outro filme naquele filme, o meu filme, que não fica magoado se me contarem o que cada um viu dentro daquele que eu vou ver.

Por isso, o título deste livro agarrou-me imediatamente. Esta é das minhas! A menina é uma de cinco filhos de um mineiro que ficou sem andar, viu a mulher fugir e adora cinema.

Para a sessão de cinema semanal só há dinheiro para um bilhete. O pai faz então um concurso entre os filhos. Quem vai ao cinema tem depois de contar o filme aos outros.

A menina é a eleita como melhor contadora. E vai tornar-se numa pequena vedeta daquele acampamento onde ficará a viver da memória dos filmes, mesmo depois de a mina fechar e todos partirem.

Hernán Rivera Letelier é um dos meus autores favoritos. Ex-mineiro nas minas do salitre no deserto de Atacama, Letelier fala-nos dos pobres, dos mais pobres, da vida duríssima da gente do deserto. E apesar dessa dureza, a sua escrita é atravessada por um sopro doce, amável, nostálgico, decente, trágico por vezes.

Quando acabo de ler os seus livros fico sempre a sentir-me carregado da mais funda humanidade que as palavras podem trazer-nos.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

“Não quero ser uma árvore, quero ser o seu significado.” Orhan Pamuk



Do Longe e do Perto

Quase-Diário

Yvette K. Centeno

Editora Sextante


“Do Longe e do Perto Quase-Diário” é um livro de Yvette Centeno, senhora dona de uma bela voz literal e literariamente falando, que se lê como um passeio pelos campos. Campos de erva, arbustos, árvores, flores, numa desordenada ordem ou numa ordenada desordem. É leve e profundo e fresco

“No Outono já sei o que quero fazer. Plantar. Romãzeiras perto da casa.”

Gosto desta ideia, nos dias de todas as queixas, plantar árvores. Uma ideia de futuro, símbolo de esperança e de paciência para esperar os frutos.

Há neste livro o retrato do nosso mundo de hoje, um mundo de lonjuras que virtualmente ficam próximas e de proximidades que não sabem como vencer a distância de um olhar.

Andamos, como há mil anos, a aprender a arte da vida usando equações que têm cada vez mais incógnitas. Os resultados, nunca exactos, são o olhar e o sentir de cada um.

Há rituais que sabem bem, como este onde me cruzei com este livro e com a sua autora, as Correntes d’escritas, na Póvoa de Varzim, doze anos a crescer e, mais que isso, a consolidar uma ideia de celebração do que é a nossa mais profunda humanidade: a palavra e os mundos que ela constrói para serem habitados dentro do nosso. As palavras com que celebramos o brilho dos olhos dos amantes e a magnitude das estrelas.

“O Sol renova os dias, mas os dias não me renovam. Virou-se a página sobre quantas folhas passadas sobre quantos livros lidos que me fariam falta. São livros que guardam os segredos da alma, ficarei sem os saber”.

Sempre que abrimos um livro e nele encontramos uma alma que nos segreda ficamos redimidos por aqueles que ainda não visitámos.

Gosto de ler mas não vou a correr ler outro, vou ficar mais um tempo a reler este: quase-diário, do longe e do perto, da vida e do tempo solar e lunar de que somos feitos, na exacta medida do coração para o qual se inventaram as romãs. Para, calma e pacientemente, bago a bago, ensaiar arte do amor.

Sílvia Alves

sábado, 26 de fevereiro de 2011

A Máquina do Mundo Repensada





I

...

de mágico pelouro por inteiro
o pasmasse: já o poeta drummond duro
escolado na pedra do mineiro

caminho seco sob o céu escuro
de chumbo - cético entre lobo e cão -
a ver por dentro o enigma do futuro

incurioso furtou-se e o canto-chão
do seu trem-do-viver foi ruminando
pela estrada de minas sóbrio chão

- e todos: camões dante e palmilhando
seu pedroso caminho o itabirano
viram no ROSTO o nosso se estampado

minto: menos drummond que ao desengano
de repintar e neutra face agora
com crenças desepultadas do imo arcano

desapeteceu: ciente estando embora
que dante no registo do íris no íris
viu - alcançando o topo e soada a hora -

...

II

...

galileo - aquele que heliocentra
o sistema - chegou depondo a terra
do seu trono senil que só sustenta

uma ciência obsoleta: o sábio a exterra
e faz descer na escala de grandeza:
ei-la - abatido o orgulho - feita perra

que lambe o hélios-sol (sem realeza)
o rastro do rei-posto (subalterna) -
e depois newton vem: a maça (reza

a lenda) cai-lhe aos pés - maga lanterna
vermelha - da alta rama e ao intelecto
pronto lhe ensina a lei (à queda interna)

da gravidade inscrita no trajecto
dos corpos mais pesados do que o ar
por amor-atração sempre que o objecto

se precipite e tombe sem cessar
- lei universal seja aos mais pequenos
seja aos maiores corpos a ordenar

...

III

com esse paradoxo encerro a glosa
que entreteci à borda do caminho
da física evoluindo: deixo a prosa

ou relação de meu descaminho
para tentar erguer-me até o mirante
de onde a gesta do cosmos descortino:

no imaginar me finjo e na gigante
lente de um telescópio o ollho colando
abismo - apto a observar o cosmorante

berçário do universo gerando:
gerando aqui o big-bang - o começo(?)
de tudo - borborigma esse ur-canto

...

camões ao bravo gama todo-audácia
a máquina do mundo fez abrir -
não desenhou a nauta desta graça

e seguiu deleitoso a descobrir
o que não pode ver a vã ciência
dos ìnferos mortais: por um zefir

pôs-se a descortinar na transparência
o ptolomaico engenho de onze esferas
na na terra tem centro e pertinência

...

finjo uma hipótese entre o não e o sim?
remiro-me no espelho do perplexo?
recolho-me por dentro? vou de mim

para fora de mim tacteando o nexo?
observo o paradoxo de outrossim
e do outronão discuto o anjo e o sexo?

O nexo o nexo o nexo o nexo e nex


A Máquina do Mundo Repensada


Um livro de grande beleza do poeta, crítico, tradutor e professor brasileiro Haroldo de Campos (1929-2003), figura central da dita "poesia concreta". O movimento, que tinha ligações com o europeu (poesia concreta/konkrete poesie/concrete poetry), surgiu no Brasil em 1956-1957, através do grupo "Noigandes", título da revista que era o seu meio de expressão. O movimento brasileiro tinha uma vertente paulistana (oriundo da cidade de São Paulo, capital do estado de São Paulo) representada por Haroldo, seu irmão Augusto de Campos e o poeta Décio Pignatari, e uma corrente "carioca" composta por Wlademir Dias Pinto, Ferreira Gullar (Prémio Camões 2010) e Ronaldo Azeredo. Razões ideológicas deram origem à secessão do grupo carioca, que subsequentemente se auto-intitulou de "Neoconcretos". A poesia concreta caracteriza-se marcadamente pelo minimalismo linguístico e pela distribuição espacial não trivial e criativa das palavras, vocábulos e fonemas. Há inúmeros exemplos de grande beleza como os que reproduzimos abaixo e que são da autoria de Haroldo e Augusto de Campos, respectivamente.





Haroldo de Campos foi também um tradutor de excelência, responsável pela tradução para o português de vertente brasileira de obras fundamentais da literatura universal como a Ilíada de Homero, a prosa de Joyce, a poesia de Mallarmé. Nos seus últimos anos almejava apresentar ao público uma tradução integral da Divina Comédia de Dante. A sua sensibilidade e criatividade de poeta eram visíveis nas suas soluções de tradução e levaram Umberto Eco a afirmar que o poeta brasileiro era o melhor dos tradutores de Dante no mundo.

A Máquina do Mundo Repensada (2000), é segundo o seu autor, um livro que resultou da leitura dialogal da Divina Comédia de Dante, dos Lusíadas de Camões, e da Máquina do Mundo de Carlos Drummond de Andrade, para além de livros de divulgação de astronomia, cosmologia e física.

Digna de menção é também a edição brasileira (Ateliê Editorial) deste magnífico livro, na qual o prazer da linguagem é multiplicado por sugestivas ilustrações da galáxia Andrómeda e dalguns belos exemplos de nebulosas. Enfim, um livro que é uma obra de arte integral.

Orfeu B.


sábado, 19 de fevereiro de 2011

A LOUCURA DOS QUE NOS GOVERNAM



Sim, quase todos nós sabemos que Hitler, Estaline, Mussolini eram loucos. Mas nem todos sabemos das enfermidades que atormentaram alguns políticos que, em certos momentos, os terão inibido de exercer as suas funções na plenitude das suas faculdades. Este terá sido o caso de John Kennedy, sofredor de muitas maleitas físicas, que ocultava recorrendo constantemente a tratamentos vários. Ora, talvez tivesse sido num momento de maior acuidade dos seus males que ordenou o disparate da invasão de Cuba, e provocado, assim, o desastre da Baía dos Porcos.

Isso e algo mais nos diz o escritor, neurologista e político britânico David Owen, na sua obra “En el poder y en la enfermedad” (edição espanhola da Siruela). Obra que vem referenciada em extenso artigo da escritora e jornalista Rosa Montero, publicado na “Babélia”, suplemento cultural de “El País”.

Artigo que me fez recordar o desequilíbrio emocional de que dava mostras um nosso primeiro ministro (Vasco Gonçalves), no período que se seguiu ao 25 de Abril. E também não pude deixar de recordar as crises de hipocondria de Salazar que, em determinados dias, lhe dificultavam o exercício do poder. E não pude ainda deixar de pensar em certos comportamentos de políticos que hoje nos governam ou nos querem governar.

Rosa Montero termina o seu artigo com a evocação da “hybris” dos gregos:
“ Segundo Ésquilo, os deuses invejavam o êxito dos humanos e enviaram a maldição da “hybris”, a doença do excesso, da soberba absoluta, da perda do sentido da realidade.” “Hybris”, doença que muitas vezes se associa a um outro desmando psicológico, “ o pensamento de grupo”. O pequeno grupo que se fecha em si mesmo, rejeitando todas as ideias, as opiniões que considere diferentes das suas.

Exemplo flagrante é o que ocorreu recentemente no Egipto, em que Mubarak, já extremamente doente, continuou a governar (com o apoio do grupo que o rodeava) contra ventos e marés, isto é, contra milhões e milhões de concidadãos que exigiam a sua renúncia ao poder.

Mas não serão apenas os políticos que são afectados por este mal. Também os intelectuais, os escritores, os criadores em geral, apresentam, muitas vezes, sinais evidentes de tal desequilíbrio. A “hybris” não escolhe profissões, classes sociais ou raças para se manifestar. Afecta, sim, todos aqueles que querem roubar, um pouco que seja, do fogo sagrado dos deuses.

Moral da história: bem- aventurados sejam os humildes, de quem as divindades nada têm a temer.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

A AMANTE HOLANDESA



Há já alguns anos, um amigo holandês perguntou-me o que é que eu achava daquele grande escritor que era o Rentes de Carvalho. Devo dizer que, na altura, esse grande escritor português era-me completamente desconhecido. E até cheguei a desconfiar do entusiasmo do meu amigo holendês e que seria improvável não ter pelo menos ouvido falar de um tão elogiado escritor português.

Tenho de fazer um imenso mea culpa.

VIm a saber mais tarde que, depois de um exílio político que começou no Brasil, Rentes de Carvalho vivia na Holanda desde 1956, onde publicou vários romances com um tremendo sucesso junto do público holandês mas que o seu nome era quase desconhecido em Portugal.

Conheci-o há cerca de um ano, durante a “Literatura em Viagem”, na Biblioteca de Matosinhos. Conversámos, almoçámos e jantámos à mesma mesa. Fiquei encantado pela sua afabilidade e pelo seu brilho de palavra.

Finalmente cheguei à escrita dele. Li-o impressionadíssimo. Pela belíssima escrita, pela qualidade e pelo domínio do tempo narrativo, pelo retrato duro, intenso e arrebatador que faz de um Portugal profundo situado numa aldeia perdida no meio de Trás-os-Montes.

Dois amigos de infância reencontram-se, o professor de História e o pastor que foi emigrante na Holanda. O pastor conta-lhe a sua vida na emigração, o fascínio pela Holanda, o amor deslumbrante por uma belíssima holandesa de quem teve uma filha que lá ficou.

O professor começa a roubar ou a fazer sua a narrativa do outro e apaixonar-se pela amante holandesa do amigo. E tudo isto em longos passeios pelas encostas e penedias onde caminham e conversam.

Por razõres diversas ambos são diferentes do comum da sua aldeia. Por isso os seus conterrâneos vigiam-nos e tornam-nos em vítimas de olhares, de boatos e coscuvilhices

No entanto, debaixo da superfície daquilo que se diz no dia-a-dia de uma vida onde nada parece mudar, fica a pequenez, o azedume, o vício, a mentira, a inveja que germinam silenciosamente e que acabam por explodir numa violência desmesurada de que é máximo exemplo a cena da taberna, das mais intensas e agudas que tenho lido nos últimos tempos.

lavada a sangue a raiva, logo de seguida tudo parece ficar esquecido para se voltar à mesma rotina sempre minada e à beira de uma qualquer outra explosão.

A narrativa de Rentes de Carvalho é conduzida com um ritmo constante e controlado, dominando com eficácia o tempo com que faz surgir as surpresas que vêm rasgar uma e outra e outra vez a superfície da história e trazem um tremor crescente ao coração do leitor.


domingo, 13 de fevereiro de 2011

"A melhor coisa que há é ser criança. A segunda melhor coisa que há é escrever sobre ser criança." J.M.Barrie




“Os contos de fadas superam a realidade não por nos assegurarem que os dragões existem mas porque nos juram a pés juntos que os dragões podem ser vencidos."

G. K.Chesterton

Jardins de Kensington

de Rodrigo Fresán
Edição: Cavalo de Ferro


Robert Fresán inventa Peter Hook, um famoso autor de livros para a infância, que nos conta a sua história. Filho de um cantor de rock e de uma mãe aristocrata e hippie cresceu, em Londres,nos loucos anos 60. A morte prematura do irmão mais novo e dos pais leva-o a refugiar-se no mundo mágico de Peter Pan e à obsessão pelo seu criador, o escritor James Mattthew Barrie. Ao longo do livro as biografias de Peter Hook e de J. M. Barrie desenrolam-se como se estivessem ligados pelo mesmo destino. Confundem-se as sensações, as vidas, as leituras de Peter Hook e de Barrie; como, por exemplo, “A Ilha do Tesouro” lida por Hook , impossível,cronologicamente, de ter sido lida por Barrie. Hook assume e reage ao longo de todo o livro a esta miscelânea da sua infância com a de Barrie.

O livro é como aqueles sonhos recorrentes e complexos em que vamos acordando e sonhando acrescentando sempre algo ao interminável sonho. Ao acordar sentimos um certo desconforto de não sabermos exactamente se o sonho sonhado foi bom ou mau. Alguns detalhes são difusos e podemos depois de acordados interpretá-los à luz da razão e decidir que são maus embora no momento do sonho o não parecessem, ou o contrário. Fica-nos a dúvida se a maldade estará na nossa interpretação se no sonho.

O livro é um culminar de um aturado trabalho de pesquisa de Rodrigo Fresán sobre a vida e obra de J. M. Barrie. Mesmo que o próprio autor garanta que não foi sua intenção biografar Barrie todos os detalhes são apresentados com o rigor de quem mergulhou na vida e na obra do criador de Peter Pan, intercalando referências e reflexões extremamente interessantes e pertinentes sobre a infância, os livros, a leitura e a escrita.

Muitas coisas se decidem na infância. Ter uma infância é bom. Regressar sabe bem. É bom ter um lugar onde regressar mas é preciso crescer. As crianças precisam de uma matriz de carinho que as proteja. A Terra do Nunca pode ser também a revolta pela ausência de laços de afecto. O livro é excelente, muito bem escrito, que podemos ler como viagem ao passado, como passeio por Londres, como regresso à nossa própria infância ou às que vamos construindo nesses regressos.

James Mattthew Barrie nasceu em 9 de Maio de 1860, o menor de uma dezena de filhos de Margaret Ogilvy. É um miúdo franzino que aparece nas fotografias de família como figura esboçada como se sem força para fixar a sua imagem no papel, contrasta com a imagem da mãe: “…firme e forte como doce déspota, mãe profissional…”.

A morte de David, o irmão mais velho, num acidente marcará para sempre Barrie e também Margaret que passará a aparecer nas fotografias de olhar perdido, como uma figura translúcida. Barrie dirá, acentuando o impacto sentido aos sete anos com a morte do irmão, “nada de importante acontece a um homem depois de fazer doze anos” Depois da morte do irmão “Barrie entra no quarto da mãe, sempre às escuras, como se entrasse numa gruta de tesouro ou numa tormenta em alto mar.” A fuga da imagem da morte leva-o a refugiar-se nos livros. “Barrie abre os livros como se fossem janelas, abre livros para abrir caminho à luz de uma história numa vida tão sombria.”

“Os livros como motores mágicos que não deixam de impelir os seus heróis e vilões para novas margens e palácios e é por isso que não convém interromper a sua leitura, pensa Barrie, perde-se tanta coisa quando se fecha um livro.” (…) “ler é fazer memória e também escrever é fazer memória” (…) “Os escritores não fazem outra coisa para além de recordar algo que lhes aconteceu ou que nunca lhes acontecerá, mas que acontece agora, enquanto escrevem introduzem-se nas recordações de quem lê até já não saber onde começam umas e acabam outras.”

A tinta tornada elixir da vida eterna: “Se existe algo melhor que ser escritor é ser personagem.” Pensa Barrie e eis que um dia Peter Pan voará com tal pensamento, num repetido : “Não crescerás. Não crescerás. Não crescerás…”

Barrie é confrontado com o desencontro do afecto da mãe. Quando o abraça ele sente o abraço como uma busca de David, o outro filho morto. E caminhamos um caminho de tentativas de acerto dos afectos, de libertação dos fantasmas. E o mergulho nos livros como fuga. Um dia, recordaremos as vidas que lemos mais que a vivida ou uma terceira vida fusão de todas.

“Bem-aventurados aqueles que leram muito durante a infância porque deles, talvez, nunca será o reino dos céus; mas poderão aceder ao reino dos céus dos outros, e aí aprender as muitas maneiras de sair do próprio inferno graças às estratégias não fictícias de personagens de ficção.” Um elogio da leitura que só serve para os adultos. Porque não podemos aconselhar-nos durante a própria infância, mergulhar no rio e vê-lo correr. Crescemos. Felizmente, crescemos e só fazendo-o podemos ser porto seguro de outras infâncias.

Também Peter Hook perde um irmão… A sua vida e a de Barrie segue caminhos paralelos e intercepta-se, por vezes, parecendo uma mesma vida. Na infância de Peter Hook, passada nos loucos os anos sessenta, no mundo da música, aparece uma espécie de “Neverland” repleta de drogas e Rock and Roll, onde Bob Dylan, John Lennon, Kubrick e tantos outros músicos e artistas entram como heróis dos “lost boys”.

É, também, interessante a reflexão que nos propõe sobre os pequenos heróis da literatura do século XIX: Oliver Twist, Alice, Little Nell… A época em que a mortalidade frequentemente imortalizava a infância. A infância foi a grande descoberta e preocupação do século XIX. A juventude o património dos livros do século XXVIII e a adolescência a descoberta do século XX. Teremos a velhice a marcar o século XXI? Seremos velhos e saudáveis mas desesperados por não termos aprendido a viver, inteiros e felizes, essa maior idade que a ciência nos ofereceu?

Encontramos Barrie e a mulher, a elegante Mary Ansell, passeando em Kensington Gardens. Barrie crescido mas ainda pequeno quase perdido num descomunal casaco. Um adulto num corpo de criança, uma criança num corpo de adulto. Peter Pan por escolha ou por desígnio da natureza? Podemos reflectir sobre isso. É em Kensington Gardens que Barrie encontra os filhos de Sylvia Llewelyn Davies e não consegue resistir ao fascínio por aquelas crianças. Sente-se com elas no seu mundo mais do que nos aborrecidos jantares de sociedade que o seu estatuto exige que frequente. Fresán leva-nos de visita aos salões onde no final dos jantares os homens deixam as senhoras e vão para a biblioteca fumar. Fumar, não ler, quando muito comentar o livro da moda: “Drácula”. Barrie leu-o como um conto de fadas para adultos, comovido pelo personagem malvado e eternamente jovem e impressionado, também, por saber que Bram Stoker se recusou a andar até aos seis anos ou que é membro de lojas maçónicas. Barrie pergunta-se como serão essas lojas secretas imaginando uma recriação de uma Terra do Nunca para crescidos.

É num desses jantares que conhece Sylvia Llewelyn Davies e que se torna visita de sua casa. Hook leva-nos a questionar se tal acontece por acaso ou por cálculo. E Neverland começa a desenhar-se. Bem como Peter Pan inspirado no pequeno Peter Davies…

Mais uma vez seguimos o paralelo do modo de amar de Hook e Barrie na exaltação do amor platónico renunciando ao corpo como quem renuncia a viajar pelos aos incómodos das viagens. Um perfeito e sublime amor pelas crianças e por sua mãe, sem corpo, presume-se.

Frésan leva-nos numa incursão pela vasta e desconhecida obra de Barrie, pelas reacções que colhe junto do público e por todo impacto que têm na recriação da sua ideia de infância, de felicidade, de afecto tomado na admiração dos seus pequenos George, Jack e Peter. Barrie vicia-se nos irmãos Davies, precisa deles como de um medicamento para a vida para a sua escrita.

Fazemos uma viagem no tempo cheia de referências musicais e um passeio por Londres onde Fresán esteve apenas de passagem. É curioso como a escrita nos permite estar onde nunca estivemos, levados por alguém que nunca lá esteve e no entanto depois de lermos qualquer um de nós se poderá sentar a olhar a estátua de Peter Pan, aparecida, misteriosamente, na noite de 13 de Abril de 1912, em Kensington Gardens, com aquela sensação de “eu já aqui estive” que só uma boa escrita nos proporciona.

“A vida é breve, a morte é duradoura. (…) A morte é fértil. Semeia mortos e colherás fantasmas.” A morte de Sylvia proporciona a Barrie mais fantasmas: mães que regressam à procura dos filhos. Ao longo da leitura extraordinariamente absorvente deste livro por vezes fica a pairar uma espécie de fantasma sobre um coração de mãe. Do meu pelo menos, uma mãe nunca deixa de ver o mundo filtrado por essa marca impressa de permanente protecção dos seus filhos.

Não pensamos muito no assunto quando olhamos para a história de Peter Pan ou de Alice no País das Maravilhas. Barrie e Dodson, passaram mais ou menos incólumes sobre os ecos das suas motivações ao relacionarem-se com crianças. Mas, de facto, penso ao ler que não sei, exactamente, que relação teve ou quis ter Barrie com aqueles miúdos. E quando leio o que ele escreveu em “Little White Bird” acerca dos fantasmas de mães a deslizar pelas casas velhas a verificar como estão os seus filhos não consigo deixar de ver uma espécie de peso de consciência de Barrie sobre o outro lado do zelo com que rodeou os irmãos Davies, a ponto de alterar o testamento de Sylvia para ficar a cuidar deles. E fica a pairar a razão porque o faz. Porque dobra o destino para herdar os seus “lost boys”. Por nenhuma razão reprovável, podemos pensar e querer acreditar.

Mas nada como um afecto forte de mãe para que as crianças, tentados com promessas de um Peter Pan para voar pela janela, não façam viagens sem retorno. Só muito tarde Barrie compreende que as crianças querem ser adultas e só os adultos querem não envelhecer e regressar à infância. Nenhuma criança quer, saudavelmente, ser prisioneira da infância. É preciso crescer para quer regressar.

Peter Hook vê o filme “Finding Neverland”, que o autor, Rodrigo Fresán, também verá no final da escrita do livro. No filme Barrie aparece redimido por um Jonnhy Deep, um Barrie por fim alto e bem parecido. Que seria de Peter Pan se Barrie tivesse crescido alto e forte e bem parecido? Existiria? Somo todos uma amálgama mais ou menos bem amassada de infância…

Com a morte de George, filho mais velho de Sylvia, Barrie ganha mais um fantasma e pontos em comum com Conan Doyle e Rudyard Kipling, também eles perderam um filho. E Kipling que, tal com Barrie não acredita na vida para lá da morte, carrega, como ele, uma dor mais cruel, sem mistério nem redenção.

James Matthew Barrie morre a 19 de Junho de 1937, com 73 anos. Curiosamente, quis ser enterrado ao lado do pai e da mãe, das irmãs e do irmão David que nunca esqueceu. É enterrado num pequeno caixão tão leve que aos coveiros parece estar vazio. Tal como o de Baco, irmão de Peter Hook que não cresceu.

Barrie é enterrado, Peter Hook também, suicida-se atirando-se para a frente de um comboio logo no início desta narrativa e nos obriga a lê-la para descobrir quem era, quem são todos os povoam os livros que lemos e se tornam os fantasmas que umas vezes nos assustam e outras vezes nos fazem companhia. Afinal somos todos “lost boys”/”lost girls” em busca de afecto. Sílvia Alves.