terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A memória dos livros

"A Misteriosa chama da Rainha Loana" de Umberto Eco, Difel, 2005

Ser leitor é algo que nos envolve num sem número de circunstâncias. Os livros que lemos ancoram memórias. Quem nunca mudou de casa, não amaldiçoou o peso de caixas cheias de livros e não se sentou no chão esquecido do mundo e da mudança a reler um livro reencontrado? Parte da nossa vida é feita de (re)leituras. Uma parte de nós é feita de memórias.

Giambattista Bodoni, Yambo como todos lhe chamam, é um bem sucedido alfarrabista de Milão que aos cinquenta e nove anos sofre um AVC e perde a sua memória autobiográfica. No entanto, sendo um leitor voraz, a par do desconhecimento de si,mantém toda a memória das leituras feitas, os conhecimentos históricos e as referências literárias.

Desabitado de si, não se lembra do próprio nome, não reconhece a mulher ou as filhas . O afecto está ligado à memória. Sem a memória nada somos e os outros nada são para nós. Atravessa o livro esta condição perturbante da doença, a perspectiva real e assustadora de passarmos por algo assim. Mas Umberto Eco leva-nos de forma enternecedora pelos meandros da convalescença e poupa-nos como se partindo em viagem e olhando a paisagem esquecêssemos a dor de não poder caminhar.

Yambo, seguindo a sugestão de Paola, sua mulher, volta à casa da sua infância, em Solara, no campo, onde nasceu no Natal de 1931. Aí, entre livros, álbuns de banda desenhada, revistas, discos de outros tempos, cadernos de escola religiosamente guardados, vai tentando recuperar a memória feita de imagens fictícias e reais. Eu desconhecia muitas das referências a publicações periódicas, pela dupla distância da época e país, daí que de bom grado me teria levantado para fazer uma viagem a Itália e perder-me num alfarrabista em busca das reproduções que aparecem pelo meio do livro. (Seria também interessante ver o percurso de leituras portuguesas correspondentes…)

No caminho pelo meio dos livros, seus heróis, suas mulheres, Yambo descobre/recorda Lila seu amor de juventude perdido, esquecido, morta já há muitos anos. Entretanto, sofre um segundo AVC e mergulha de novo na penumbra. Fica prisioneiro do corpo, em coma, incapaz de comunicar. Mesmo assim ainda percorremos com ele memórias de infância, dos pais, dos programas de rádio… “voltarás para mim/porque o único sonho és/do meu coração./Voltarás/ porque sem teus beijos lânguidos /não viverei.”... Uma canção do fim da emissão como um apelo, uma promessa a um qualquer soldado perdido nas estepes, durante a guerra. Folheamos álbuns de selos, seguimos reflexões sobre Deus e seus mandamentos, memórias de Mussolini e da Itália fascista que também foi a da infância de Umberto Eco e continuamos a atravessar livros e a encontrar os seus personagens no meio de um nevoeiro cada vez mais cerrado. Acompanhamos Yambo na derradeira tentativa de ver Lila, como se a vida tivesse sido apenas um pretexto para esperar o momento de reencontrar, como Cyrano, no limiar da vida “a mais bela das criaturas”, o seu amor.

Povoam as páginas inúmeras ilustrações de livros, álbuns de BD, revistas… Este é um bom exemplo de um livro cheio de potencialidades para uma versão digital. Há um lado bom nos dois mundos: no de papel e no digital. Neste último aquela ideia da viagem a Itália para me perder num alfarrabista podia cumprir-se instantaneamente. E, se assim fosse ,talvez eu não estivesse já aqui a falar-vos de um livro que vos aconselho ler mas ainda a viajar com Salgari, com Dumas… Ou qual Beatriz seguindo Dante.

sábado, 25 de dezembro de 2010

O Fim dos Livros




Foi em Londres, há cerca de dois anos, que a questão do fim dos livros e da sua completa transformação foi agitada num pequeno grupo de bibliófilos e de eruditos, do decurso de um serão memorável cuja recordação ficará gravada na memória de cada um dos assistentes.

Octave Uzanne


Exactamente, uma tertúlia de eruditos após uma famosa palestra de Sir William Thomson, ou Lord Kelvin como é mais conhecido, no final do século XIX na Royal Society, discute enquanto ceava o futuro da humanidade, dos costumes e das artes. O ponto de partida era a previsão matemática (completamente equivocada pelo desconhecimento da radiatividade, hoje o sabemos) do cientista britânico, e segundo a qual, o globo terrestre, e com este a raça humana, encontraria ao seu ocaso ao fim de 10 milhões de anos,

E sob os efeitos da champanhe um dos membros da tertúlia toma a palavra para discorrer sobre a predominância moral e intelectual dos novos continentes sobre os antigos, lá pelo final do próximo século. Anunciava também que a América tomaria a dianteira do movimento de marcha do progresso ...

"Um afável vegetariano e sábio naturalista, deleitou-se a imaginar" como a nossa alimentação seria doseada sob a forma de pós, xaropes, pílulas e biscoitos e que "não mais haverá padeiros, talhantes e comerciantes de vinho, nem restaurantes e merceeiros, apenas alguns droguistas, e toda a gente livre, feliz, capaz de prover às suas necessidades com alguns céntimos ..."

Um conhecido pintor e crítico de arte, místico, esotérico e simbolista discorre sobre as artes plásticas. "Aquilo a que chamamos arte moderna é verdadeiramente arte? E o número de artistas sem vocação que a exercem mediocremente, aparentando talento, não demonstra suficientemente que se trata, antes, dum ofício ao qual tanto falta a alma criativa quanto a visão?" E prevê que a proliferação dessa arte medíocre invadiria os museus e que estes seriam incendiados para evitar contagiar a criatividade de génios nascentes. A ilustração, a fotografia e o teatro ocupar-se-iam de retratar os acontecimentos da vida e surgiria então uma arte renovada, que subtil exprimiria o esencial, e que estaria reservada uma aristocracia bem pensante. A fotografia e a ilustração bastariam à satisfação popular.

Finalmente surge a questão dos livros. Como serão os livros no futuro? E toma a palavra o nosso autor, para após algumas reflexões de natureza histórica e técnica sentenciar sem muitas dúvidas que: "... o elevador pôs fim às escaladas dentro de casa; o fonógrafo destruirá provavelmente a tipografia. Os nossos olhos são feitos para ver e reflectir as belezas da natureza e não para serem usados na leitura de textos ..." Os ouvidos são chamados a dar a sua contribuição ...

Um opúsculo divertido que se lê de um fôlego e que nos dá uma interessante visão de como o futuro era visto pelos nossos antepassados. O autor, Octave Uzanne (1851-1931), um bem conhecido bibliófilo no seu tempo, foi também autor de romances e estudos bibliográficos, para além de obras sobre a moda feminina. O seu amor aos livros conduziram-no com naturalidade a especular sobre o seu futuro. E se a sua previsão de que os livros seriam substituídos pelos áudio-livros não se concretizou, não deixa de ser verdade que a cultura dos livros está sob constante ataque dos modernos meios de comunicação social, e que as suas indagações permanecem válidas. Serão os livros substituídos por versões electrónicas? Sobreviverão os livros e as bibliotecas ou serão os seus conteúdos digitalizados e mantidos por não se sabe quanto tempo em bibliotecas virtuais? Sem os livros a humanidade nunca teria chegado ao actual estágio de desenvolvimento, o futuro do livro deve preocupar a todos.


Orfeu B.


segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

UMA CASA CALOROSA



Regresso à escrita de Sepúlveda como a uma casa calorosa e simples, onde o pão e o vinho nos esperam em mesa de boa madeira, onde o chão e as paredes são de boa pedra antiga e um sol fraterno entra pelas janelas.

Sepúlveda sabe narrar um pequeno acontecimento com doçura, elegância e eficácia, e transformá-lo numa história que nos acrescenta sorriso ou emoção e nos torna melhores seres humanos no final.

Sabe ainda revestir as suas histórias de valores honrados e decentes (palavras que usa com frequência) quando nos conta momentos dramáticos, duros, muito difíceis de uma vida de revolta contra todas as tiranias.

São histórias vividas por aqui e por ali, com amigos e companheiros que relembra generosa e comovidamente.

É absolutamente notável a forma como, por exemplo, nos relata a génese desse romance maravilhoso e imprescindível que é "O VELHO QUE LIA ROMANCES DE AMOR", um dos livros que mais leitores deve ter feito nos últimos anos.

Literatos há que defendem uma literatura "pura". isto é, uma literatura que deixe à margem de si a "impureza" literária que é o próprio autor e a sua vida.

Dizia Joprge Semprún que só renegam o valor literário da vida do autor, aqueles que não têm vida que valha uma linha.

Luís Sepúlveda tem uma vida que vale muitas linhas e sabe contá-la com a grandeza da simplicidade.


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

UM FUTURO DECENTE E LIMPO



Autor do celebtrado romance "Quem quer ser bilionário?", Vikas Swarup é um escritor de sucesso, um escritor comprometido com a tremenda realidade social e económica do seu país, um escritor da emoção. E a emoção é o que muitos procuram na literatura, e eu também, sempre que essa emoção seja servida por uma escrita sem concessões à facilidade como é o caso.

Não sei definir o que é boa literatura. Sei que é aquela que nos acrescenta alguma coisa séria e sólida. E o autor acrescentou-me conhecimento, emoção e uma arte da narrativa muito bem conduzida.

Este romance que tem uma estrutura policiária, mas vai muito além disso,começa por um gangster, produtor de filmes de Bollywood filho de um ministro particularmente corrupto e que é assassinado na festa de arromba em que comemora a absolvição escandalosa de um crime que de facto cometeu.

Há 6 suspeitos muito diferentes entre si e o livro de Swarup vai contar-nos a história de cada um deles e mostrar-nos como todos eles têm uma razão fortíssima para cometer aquilo que mais se afigura como um acto de justiça radical.

As histórias são atravessadas de momentos singulares, comoventes, pungentes mesmo, e mostram-nos um país onde a absoluta miséria se cruza com a alta tecnologia, a riqueza demesurada, a altíssima corrupção, a violência desmedida, uma religiosidade por vezes demasiado idealizada no ocidente mas que transporta uma espiritualidade eivado dos valores da ética, da solidariedade e da paz.

O final é uma sequência de falsos finais conduzidos com uma ironia deliciosa e um apelo a uma Índia que acorde para construir um futuro decente e limpo para todos.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

“Seríamos piores do que somos sem os bons livros que lemos” Vargas Llosa






Florbela Espanca - Antologia Poética

Ilustrações de Joana Rêgo

Faktoria de Livros

Livros de poesia. Como falar deles? Talvez não falando… Lendo e sentindo apenas.

A poesia não se vende. A poesia devia ser dada se os poetas pudessem ser etéreos como as palavras mas não… São, também, de carne e osso. E os livros têm de ser anunciados. Os bons livros merecem-no e não é a qualidade por si que trilha caminhos até às mãos dos leitores.

Aqui cabe o espírito de falar dos livros, sem o pressuposto da crítica, deste lado há leitores. Aí, desse lado, leitores haverá e cada um toma o livro e o ama, ou não, a seu bel-prazer.

Esta Antologia é uma edição muito cuidada, belíssima, da Faktoria de Livros (uma chancela da kalandraka) a pensar no público infanto-juvenil e, como todos os bons livros para esse público, capaz de satisfazer a exigência de qualquer outro.

As ilustrações são de Joana Rêgo que convive e dialoga de forma exemplar com a delicadeza e com a força da poesia de Florbela Espanca.


Das inúmeras celebrações, que têm acontecido pelo país, a propósito do centenário da República, podemos fazer um balanço das conquistas inacabadas dos direitos das mulheres, no início do século passado, celebrar Abril e o seu legado e olhar para hoje e ver o quão ainda estamos, em pleno século XXI, presas a atávicas ideias.

É impossível ignorar Florbela Espanca que viveu como não era permitido viver às mulheres do seu tempo. Uma mulher que das dores da maternidade não cumprida ou dos amores infelizes nos legou, na ousadia de deambular pela vida e pelas suas paixões, uma poesia onde não há, oitenta anos volvidos sobre sua morte, a mais pequena marca/estrago do tempo.

Não haverá melhor maneira de a celebrar, no dia do aniversário da sua morte, do que lendo os seus poemas no deslumbre emocionado de serem belos e intemporais como só as paixões podem ser.

Um livro onde mora, mesmo ausente, o canto dolente de Florbela Espanca:

“Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...”

Para ler e olhar com o coração, perdidamente!

8 de Dezembro de 2010

Sílvia Alves

domingo, 5 de dezembro de 2010

POETAS NOSSOS IRMÃOS



Luís García Montero é um poeta granadino cujos poemeas encontrei na deriva por jornais e sites em busca de novos poetas, quer dizer, poetas que eu não conheça ainda.

Pelos 5 continentes há muitas vozes poéticas que é lamentável não chegarmos a conhecer. As nossas editoras deixaram de arriscar e publicar novas e antigas vozes da poesia do mundo. E é pena.

Lembro o espanto com que na adolescência descobri Neruda, Ferlinghetti, Voznessenski, Ungaretti nos velhos Cadernos de Poesia da D. Quixoite, Szymborska na Relógio d'Água, Tarkovski ou Tonino Guerra na Assírio & Alvim, e tantos, tantos outros poetas que estas duas editoras e algumas outras como a Campo das Letras publicaram.

Diz-se que a poesia não se vende. Não sei se é verdade. Sei que é também por isso que temos uma crise. A falta de poesia cria um grande buraco onde a incompetência e a corrupção fazem ninho facilmente.

Encontrei um poema de Montero num suplemento cultural de um jornal espanhol. Achei que um homem que escrevia assim tinha de ser meu irmão. É um poeta da emoção e dos valores , talvez afastado da frieza ética e cognitiva onde trabalham muitas das artes plásticas e alguma da literatura do pós-modernas.

Resolvi traduzi-lo e tentar verter para português a música e a emoção das suas palavras.

Fica a tradução do poema e a notícia do livro "VISTA CANSADA" de onde ele saiu.



OS FILHOS



Por favor, não tragam ruído
à tranquilidade deste poema
escrito com a mão
do que fecha a porta ao apagar
a luz.
Os meus três filhos acabam de adormecer.
Necessito de silêncio para pensar
neles.


Cores indeléveis num lápis
de traçado infantil,
voltam a desenhar
- mas desta vez a sério –
uma árvore, uma casa, a memória
de uma luz acesa
com sabor a Dezembro,
os cristais do medo
e a ilusão do futuro
debaixo do sol dos dias…..

Um filho é o segundo país onde nas-
cemos.
Com a sua falta de idade faz-nos
repetir aniversários
e devolve-nos
ao mundo do relógio,
às chamadas telefónicas
que são uma raiz
na margem do tempo.

Um filho ensina-nos a perguntar
com voz de água
a verdade decisiva da terra.
Sermos como juncos, e em amor flexíveis,
não assegura respostas
nem confirma o repouso.

Elisa, Irene, Mauro,
cada qual com o seu porto e com a sua
chuva,
luzes cintilantes de um mesmo rio.
Ninguém revele, por favor,
que acabo de escrever-lhes um poema.
Os filhos crescem com espinhos.
Nunca sei imaginar o que podem dizer do que digo,
o que podem pensar do que
penso,
o que podem fazer com o que faço

domingo, 28 de novembro de 2010

HERNÁN RIVERA LETELIER



Há que falar da importância dos editores e da forma como vão conduzindo os nossos caminhos de leitura. É o caso deste autor que nos chegou há uns anos atrás pelas mãos sábias da Maria da Piedade Ferreira, editora então da Quetzal, e com capas notáveis de Rogério Petinga.

Publicaram dois títulos deliciosos (os títulos e o conteúdo) "A ranha Isabel cantava rancheras" e "Miragem de amor com banda de música", de que fiquei fã incondicional. Na feira do livro da Estação do Oriente têm estado à venda a 3 e 4 euros.

Letelier, mineiro nas terríveis minas de salitre do deserto de Atacama assegura que começou a escrever para ganhar um almoço num concurso radiofónico,.

Fala-nos nos seus livros (naqueles que li) do mundo de extrema pobreza da gente do deserto e das minas. E consegue fazê-lo com uma imensa ternura. Ficamos cheios de vontade de namorar aquelas prostitutas que estão no fim da linha e no fim do mundo, de nos tornarmos amigos daqueles homens mais curtidos que pele de vaca, de partilhar os desvarios, as grandezas e as revoltas da gente que vive despojada de tudo menos da poesia e da humanidade no sentido mais estrito,

O comboio que atravessa este livro atravessando o deserto leva ciganos, mineiros, videntes, prostitutas, nados-mortos, um guitarrista, um acordeonista e tudo o mais que se possa imaginar neste fim do mundo.

Nesta viagem acontece tudo o que pode acontecer, ama-se, morre-se, nasce-se, há grandes bebedeiras e bailes, assaltos, mortes, vida... E tudo acontece a um ritmo muito intenso e mergulhado numa enorme melancolia, numa deliciosa ternura e num não menos impressionante desvario.

Resumindo: quem não gostar da prosa de Letelier não merece ler e voar e amar e viver com toda a intensidade que as pessoas da poesia são capazes de pôr no correr dos seus dias.


domingo, 21 de novembro de 2010

«Como quem bebe água, o homem precisa de beber sonhos.»Álvaro Cunqueiro


"O Laboratório do Dr. Nogueira"
de Augustín Fernández Paz
Agustín Fernández Paz é quase desconhecido entre nós como, infelizmente, muitos dos escritores da Galiza apesar da proximidade, da semelhança linguística e de ter alguns livros publicados em Portugal. Com "O único que queda é o Amor" ganhou, em 2008, o Prémio Nacional de Literatura Juvenil de Espanha, publicado entre nós pelas Edições Nelson de Matos” sob o título “Só resta o Amor”, infelizmente, sem as belíssimas ilustrações que acompanham a edição original.
Os professores mais atentos saberão que o “O Laboratório do Doutor Nogueira” faz parte do PNL para o Secundário. Mas publicado, numa edição de 2004, pela defunta Ambar não sei que existência terá por livrarias e bibliotecas. Fica a merecer uma reedição e um trabalho gráfico de capa que faça justiça ao conteúdo. Para lá destes fait divers o livro é uma leitura interessante para passar entre mãos de pais e filhos e um pretexto para uma bem-humorada conversa sobre leituras, em dia de avaria televisiva pois, em breve, só assim se garante conversa nas famílias.
O Dr. Nogueira é um sábio milionário e excêntrico em incansável demanda de soluções para os problemas da humanidade através da ciência, de problemas prosaicos como a falta de cabelo ou problemas mais sérios como o racismo. As suas soluções conseguem apenas um relativo sucesso pois não há males no mundo que possamos resolver sem criar outros, de igual ou maior dimensão.
Um dos problemas que sensibiliza o Dr. Nogueira é o empobrecimento da linguagem, a redução lexical que parece afectar, transversalmente, toda a sociedade. Comenta ele com Rosa, sua leal e dedicada assistente, “cúmplice” na tarefa de encontrar a felicidade e o bem-estar do género humano” e narradora do livro, o espanto de serem usados os mesmo adjectivos nas situações mais diversas: “um gelado fantástico, a beleza de um pôr-do-sol fantástico, uma melodia fantástica, a declaração amor de uma pessoa de quem se gosta também fantástica… Tudo fantástico! Onde já se viu um gelado posto ao nível de uma declaração de amor?”
O Dr. Nogueira descobre então uma brilhante fórmula para melhorar, instantaneamente, o desempenho linguístico de uma sociedade que corre o risco de passar a usar menos de cinquenta palavras ou mesmo ficar reduzida à mais pura afasia comunicativa. Descontando o exagero, às vezes caminhamos nessa direcção.
Rosa conta-nos como o empregado da padaria, que habitualmente batia à porta atirando um seco: “Bom dia. O pão e o leite”, depois da solução milagrosa do Dr. Nogueira faz a entrega dizendo: “ seis pecinhas arredondadas feitas com a farinha branca obtida dos grãos desse cereal monocotiledóneo a que chamamos trigo, convenientemente misturada com água, sal e um pouco de levedura e cozidas no forno por não mais que vinte minutos…” e continua acrescentando uma reflexão crítica sobre a quota leiteira e os efeitos da pertença à Comunidade Europeia… Três páginas de um rosário de reflexões económicas e sociológicas cheias de humor e actualidade.
Claro que o caos se instala na cidade com toda a gente a exercer tão profícua comunicação exigindo, mais uma vez, um antídoto para regresso à normalidade.
“Só se aprende com os erros querida Rosa. A tentativa e o erro assinalam o caminho que o cientista tem de percorrer…” diz o incansável Dr. Nogueira à sua entusiasta e apaixonada Rosa. Ambos não reconhecem fracassos apenas percalços no caminho de uma missão maior continuada agora na mais absoluta clandestinidade. Aguardamos os resultados. Os da leitura só podem ser excelentes.
Sílvia Alves


sexta-feira, 19 de novembro de 2010

IRONIA, POESIA E MORTE



Rubem Fonseca é daqueles autores que se lê de um sorvo. E é também um autor que sempre me deixou repartido. Cheia de cadáveres e mortes e matadores, a sua escrita sempre me atraiu intensamente e, simultaneamente, incomoda-me pela perversidade que transporta, pelo mergulho num mundo negro, grosseiro e mau a que me obriga.

No entanto, este romance é aquele em que menos senti essa perversidade.
Será por o autor estar a envelhecer? De alguma forma há aqui uma despedida já que o matador resolve neste livro reformar-se, embora as circunstâncias o envolvam de novo numa tremenda girândola de mortes e violêndia.



É divertidíssima a ironia do assassino profissional que é um ex-seminarista e enche o livro de citações latinas e da Bíblia. Além de ex-seminarista, o assassino é um leitor fervoroso, adora poesia, é estritamente fiel à mulher amada, com quem discute Rilke e outros poeta na cama.

Quer tudo isto dizer que o assassino não é perverso. Apenas um profissional, um homem culto que toca conforme a música, e que, neste livro, apenas pretende reformar-se e dedicar-se ao seu amor.

Há aqui alguma ou muita semelhança com os quatro livrinhos policiais que Dinis Machado escreveu nos anos 60 sob o pseudónimo de Dennis McShade.
Também o assassino dele era um profissional e gostava de ler e ouvir música clássica.

Sendo uma tremenda ironia, a questão transporta-nos para a questão do nazismo e da música clássica discutida por Luckács e Georges Steiner:

“Para ele (Luckács), os artistas, os escritores, os pensadores são responsáveis até ao fim dos tempos pelos abusos cometidos com as suas obras. Nietzsche e Holderlin seriam responsáveis pelo facto de a Wermacht e a Gestapo terem distribuído extractos das suas obras aos soldados alemães. Wagner seria responsável até ao fim dos tempos pelo facto de a sua música ter acompanhado todos os grandes SS no momento da morte. Tratava-se de um argumento falacioso, pensei eu: não existe nenhuma obra que não possa ser abusivamente usada. Lukács disse-me então que qualquer uso ou abuso inumano de uma nota que seja de Mozart era impossível.”

A literatura serve também para acender estas questões. Não sei discuti-la mas sei que é uma questão tão difícil como inquietante.

sábado, 13 de novembro de 2010

O Barão Trepador


Ombrosa já não existe. Olhando para o céu sombrio, pergunto a mim mesmo se alguma vez terá existido. Aquela pujança de ramos e folhas, bifurcações, penugens sem fim e o céu somente entrevisto a espaços irregulares e retalhos talvez fosse assim só de propósito para que sob ele vivesse o meu irmão, com o seu ligeiro passo de esquilo; era um bordado feito de nada, assemelhando-se a este fio de tinta que sai da minha pena e que deixei correr livremente por páginas e páginas, cheio de riscos, emendas, traços nervosos, manchas, lacunas, e que por momentos se estende em grossas bagas muito claras, outras vezes se recolhe em minúsculos e tímidos, como pequenas sementes, que se dobra sobre si mesmo ou se bifurca, ou ainda descreve partes de frases com contornos de folhas ou de nuvens, e depois se encontra novamente, e novamente também volta a enredar-se, e corre, corre, e continua correndo, torna-se mais espesso, cresce num último cacho insensato de palavras, ideias, sonhos, e termina.

Italo Calvino.


O Barão Trepador (Il borone rampante 1957) é a segunda obra da "trilogia heráldica" do genial do escritor e jornalista italiano Italo Calvino (1923-1985), que foi inaugurada e encerrada com os romances "O visconde dividido" e "O cavaleiro inexistente".

Nesta deliciosa narrativa Calvino conta-nos a vida e as aventuras do filho dum nobre da província de Ombrosa na costa da Liguria que decide viver, depois duma querela familiar, trepado nas árvores.

É outro livro notável do autor de obras inesquecíveis como "O castelo dos destinos cruzados" (1969), "As Cidades Invisíveis" (1972), "Sob o céu jaguar" (1986), entre tantas outras. E sem falar no seu alter-ego tornado o personagem "Palomar", que apareceu inicialmente em crónicas no ``Il Corrieri della Sera" a partir de 1975, e em livro em 1983, e sobre o qual o autor dessas linhas já teve a oportunidade de escrever num contexto epistemológico.

O Barão Trepador dá-nos uma visão extraordinária da mente do seu autor. É impossível não se encantar com a divertida vida do Barão de Rondó, um "Peter Pan" das árvores, que na transição entre o feudalismo e a modernidade, vê o mundo por cima de tudo e de todos, sem nunca deixar de participar nas transformações políticas e sociais desencadeadas pela Revolução Francesa. Este Lafayette italiano, apesar de viver nas árvores, lê os clássicos e os livros fundamentais do seu tempo, e troca correspondência com Diderot, Rousseau e o Tsar da Rússia. Quando em Itália, Napoleão não quis perder a oportunidade de conhecê-lo. Duma árvore o barão pergunta se pode fazer alguma coisa pelo imperador. Napoleão diz-lhe que poderia se afastar ligeiramente para que o sol não o ofuscasse, e dá-se conta que a situação lhe excita a memória. O Barão de Rondó responde-lhe que o imperador provavelmente se referia ao encontro de Alexandre Magno com o filósofo Diógenes no qual este pedia a Alexandre que se afastasse ...

Se um dos aspectos mais fundamentais da literatura é de nos permitir ver a vida de pontos de completamente distintos e diferentes do usual, este livro demonstra-nos que a volta às árvores não é necessariamente uma regressão. As ilações que se podem retirar desta mudança de referencial existencial são todas extremamente interessantes.

Orfeu B.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

REEDIÇÕES



Há livros que passam despercebidos. Resultam da escolha de editores avisados e trazem avant la lettre grandes textos ao convívio de críticos virados para outras urgências mediáticas e de um público que por vezes anda pouco atento às pequenas pérolas que lhe são ferecidas.

É o caso de dois livros recentemente reeditados.

O primeiro, de de Carlos María Domínguez, argentino a viver no Uruguai. Uma história que se desenvolve sob a forma de uma investigação que parte de um livro e de uma relação amorosa que ele evoca e que segue em busca dos passos de um homem e do seu desmedido amor aos livros e à leitura.



O segundo é do irlandês Sebasian Barry em que o autor visita a Irlanda a partir do início do século XX com todas as suas lutas e contradições, misérias e grandezas, através da figura de Eneas, um não-herói ou anti-herói, que nos entra indelevelmente na pele e nos faz mergulhar intensamente na sua leitura.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O FEITIÇO DE BARCELONA



Cada grande cidade tem os seus grandes (e pequenos) escritores. Ainda não conhecia Juan Marsé. Estava ansioso por lê-lo. E fi-lo passeando pela sua Barcelona pobre e misteriosa, cheia de personagens invulgares e de feridas da Guerra Civil e fui seguindo pela Barcelona que conheço, aquela que me foi trazida palavra a palavra por Vazquez Montalban e por Zafón.

Cruzam-se aqui duas grandes histórias, uma realista e cheia de dores e pe1quenas tragédias, numa Barcelona com grente estranha e louca, gente grande e generosa, gente que guarda na pele a memória da guerra e continua uma militância política cuja dimensão épica se esvai na areia do tempo.

Uma menina tísica espera pelo pai, revolucionário e pistoleiro fugido em França. Um companheiro do pai conta-lhe a história de como ele foi arrastado para Xangai numa aventura que parece um filme da série B, com nazis, tríades chinesas, mulhlíssimas misteriosas.

A arte de Marsé está, em primeiro lugar, nas personagens que cria: o capitão Blay que percorre as ruas da cidade envolto em ligaduras como se fosse o Homem Invisível, a senhora Anita, muuitíssimo sensual, bilheteira de um cinema e alcoólica, os dois irmãos que vendem livros de quadradinhos em segunda mão e recolhem folhas aromáticas que levam à menina que sofre dos pulmões, o homem que tem o poder nas mãos de aquecer e tratar um joelho ou as dores de cabeça de alguém.

Em segundo luigar, Marsé liga magnificamente os dois fios narrativos, deixando-nos até ao fim presos a essa forma notável de nos chamar ao convívio com o desejo, o sonho desmedido e uma imensa melancolia.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

SALAZAR UMA BIOGRAFIA



Não, não é uma obra de ficção. É uma biografia que corresponde a um trabalho de de investigação histórica, consciencioso e bastante minucioso. É, como foi salientado, a primeira grande biografia de Salazar digna desse nome. Um trabalho que vem preencher uma lacuna na nossa historiagrafia contemporânea e coloca no seu devido lugar a biografia da autoria de Franco Nogueira (“Salazar”, 6 volumes, Atlântida Editora e Livraria Civilização), que se confinava a uma visão apologética da vida e obra de Salazar.
É seu autor um professor de História, Filipe Ribeiro de Menezes, que realizou esta investigação no âmbito do seu trabalho académico na Universidade de Dublin. Trabalho que intitulou “Salazar. Uma Biografia Política”e que acaba de ser publicado pela D. Quixote. Ribeiro de Menezes mobilizou um amplo conjunto de fontes documentais que analisou cuidadosamente. As análises e algumas interpretações de factos e situações nem sempre fáceis de interpretar (interpretações geralmente baseadas numa perspectiva linear de causa-efeito) são sempre feitas de modo isento e inteligente.
Daí a pergunta: a partir de agora poderemos considerar que temos, finalmente, uma obra de referência sobre Salazar, que nos permite conhecer em profundidade a pessoa e a sua época? Sim e não. Sim, na medida em que a documentação utilizada nos permite um conhecimento factual de quem foi ( e o que fez) o homem que nos governou cerca de 40 anos. Não, na medida em que as causas profundas que permitiram a sua subida ao poder e a sua permanência no poder durante décadas não são realmente analisadas. As perspectivas socio-políticas, ideológicas ou psicossociais que caracterizaram a época em que Salazar viveu e que condicionaram a sua acção governativa não são abordadas.
Estamos perante uma obra que não pretende ir além da descrição e da análise factual. Nesse sentido, cumpre os objectivos que se propunha alcançar. Mas a História, hoje, é mais do que isso. Sem retirar mérito à obra , considero que é apenas um ponto de partida para uma explicação abrangente do que foram as décadas de ditadura em que Salazar exerceu o seu poder discricionário. Do que foram essas décadas e quais as suas consequências na formação de uma mentalidade que, sob certos aspectos, continua a condicionar-nos. Por isso, considero que há uma História de Salazar e do Estado Novo ainda por fazer.

domingo, 17 de outubro de 2010

A VIDA DE GENTE VULGAR



Todos os anos, Rafaelle, fascista italiano que foi voluntário na Guerra Civil de Espanha, veste-se a si e ao neto com a camisa negra e a devida farda e vai à homenagem aos fascistas italianos mortos em Espanha e percebemos que essa cerimónia anual cria uma clara crispação no resto da família.

Temos neste ritual repetido anualmente o sinal de um tempo que vai apodrecendo e desagregando os afecto e a consistência da família Canmeroni.

Ignácio Martinez de Pisón relata nos seus livros a história de pessoas normais, se é que existem pessoas normais. Não se trata de grandes naufragados no tempo ou no espaço, grandes tragédias, grandes amores.

São pessoas vulgares (talvez seja melhor a palavra “vulgares” que “normais”); pessoas vulgares com os seus vulgares problemas quotidianos, os seus pequenos-grandes dramas, os seus amores sem grandes altitudes nem grandes quedas.

Estas histórias são servidas por um gosto agudo pela reconstrução cuidadosa de tempos recentes, na multiplicação de pormenores, gestos, preocupações e limitações das personagens, que quase nos transporta e faz respirar nesses anos em que alguns de nós ainda vivemos e que quase nos faz voltar a sentir os cheiros e o ambiente dos anos 50, 60, 70, com tantas semelhanças entre Espanha e Portugal.

A história de "Dentes de Leite" roda em torno deste fascista italiano voluntário na Guerra Civil de Espanha que deixa uma mulher e uma filha anormal em Itália e se casa e constrói outra família em Espanha.

Rafaelle vê nascerem 3 filhos espanhóis, um deles também anormal. Fascista, sim, mas aparentemente não será má pessoa. Autoritário apenas, o que talvez não seja pouco., porque, como diz o autor, o fascismo é uma forma de pensamento que impregna a vida de todos os dias.

Um dia, um a um, num tempo em que o franquismo anuncia o seu final, os membros da família revoltam-se com o autoritarismo de Rafaelle e com a mentira sobre a qual foi construída a sua vida. E abandonam progressivamente um velho que vê o seu universo ideológico e familiar a apodrecer.

Neste belo romance, mais do que a sua espinha dorsal que é conduzida com um ritmo tranquilo e metódico, são os pormenores, as reacções de cada personagem, as suas contradições, os seus conflitos, as suas pequenas paixões, os seus percursos cheios de surpresas e inversões que nos conduzem na leitura que em cada página se torna mais intensa.

O que nos faz amar esta escrita é o sentido humano que o autor confere às suas personagens que se nos apresentam pessoas como qualquer um de nós. Por isso mesmo, este é daqueles livros onde a leitura também nos inscreve o leitor, a sua história, as suas inquietações, as suas dúvidas e que o faz mais intensamente personagem do “romance da sua própria vida”.

sábado, 9 de outubro de 2010

amor.com



Pede-me uma leitora para que eu escreva algo sobre este livro. Porém, apesar de inúmeras tentativas, acabo sempre por voltar à objecção inicial, ou seja, à óbvia conclusão de que a ausência de distanciamento não me permite qualquer julgamento crítico da obra. Destaco contudo, a beleza da capa, concebida pela artista-editora-poeta-professora Ana Viana, e o interessante mosaico gerado por um programa que exibe de forma pictórica a frequência das palavras mais utilizadas. Finalmente, permito-me também reproduzir um fragmento do poema Copiar o Tejo:


Aprendemos com o rio
o sistema de suportar os outros elementos;
não nos roubam o caudal
de sermos mais calmos
que o tempo das águas
e o possível de cada margem.

...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

AS MARAVILHAS DA LEITURA




Belíssimo livro de Rui Zink. Delicioso divertimento e magnífica lição sobre o que é a leitura e o amor aos livros.

Um menino embarca sem querer num navio que vai à procura de um animal fantástico, um animal leitor de que um remoto explorador deixou notícia num escrito em que por estar constipado troca na escrita (!) os emes pelos bês e, por em vez de “animal leitor” escreve “anibaleitor”.

Num naufrágio, o menino naufraga e vai ter à caverna do Anibaleitor, um imenso gorila que Lê e come seres humanos. Não como o protagonista porque precisa de alguém para falar dos livros que lê.

Os diálogos entre os dois são não divertidíssimose carregados do humor e do uso brilhante do non-sense habituais em Rui Zink. Simultaneamente são uma lição fantástica sobre a leitura que vai derrubando um a um todos os lugares comuns que se interpõem entre os jovens e a fantástica aventura que é a leitura.

Este é daqueles livros que pode e deve ser lido por todas as idades, dos 12 aos 82 anos. E todos terão motivo para um tempo útil e muito bem passado.



Por puro acaso li de seguida estes dois livros com muitos pontos de semelhança. Afonso Cruz (também magnífico ilustrador de livros para a infância) serve-se também de uma imaginação e de um humor notáveis para nos dar a história de um homem que dedica a sua vida a ler e morre com um problema cardíaco. O filho vai percorrer o caminho das leituras do pai para o encontrar.

Da Ilha do dr. Moreau de Wells, passa ao Médico e o Monstro de Stevenson, deste chega a Crime e Castigo de Dostoievsky, passa pelo Barão Trepador de Italo Calvino e pelo “Farenheit 451” de Ray Bradbury. Conversa e discute com as personagens, irrita-se com elas, vai aprendendo que a leitura nos questiona ou ilumina a vida, como acontece no caso da sua amizade pelo gordo Bombo ou no amor por Beatriz, ambos seus colegas.

Outro livro que devia ser obrigatório (se é que faz sentuido falar de livros obrigatórios…), construído com uma ironia notável e que constitui também uma magnífica lição sobre o supremo prazer da leitura.

domingo, 3 de outubro de 2010

Val McDermid - Um Eco Distante




Este é um policial absorvente, lê-se numa assentada, sem respirar. Val McDermid é uma escritora escocesa que foi jornalista, talvez por isso retracta tão bem um jornalismo mediático e sensacionalista cada vez mais comum e onde uma pessoas poderá ser acusado, nas primeiras páginas de um jornal, de um crime que não cometeu.
“Um Eco Distante” conta-nos a história de amizade de um grupo de quatro jovens universitários passado nos anos 70 numa pequena cidade Escocesa e que numa noitada de festa e de boémia encontram uma rapariga quase morta num atalho que costumavam fazer. Um dos jovens, estudante de medicina, tenta salvar a rapariga enquanto outro procura socorro de um patrulha da policia com quem tinham cruzado anteriormente. O facto dos jovens ficarem com o sangue da rapariga são levados a interrogatório policial e ficam na lista dos suspeitos, para a imprensa e consequentemente para o público são considerados culpados. Embora as relações de amizade fossem grandes, a pressão leva a quebrar alguma ligação e suspeitarem também uns dos outros. É interessante como a escritora faz-nos envolver no ambiente emotivo e psicológico de forma a nós compreendermos todas as suspeitas e todos os pontos de vista. O assassínio nunca não foi descoberto e as suspeitas irão continuam nestes quatro jovens. 25 anos mais tarde o caso é aberto pela policia local para com as novas formas de investigação forense e á luz das descobertas dobre o DNA tentarem encontrar o criminoso, no entanto, as provas desapareceram nos armazéns da policia. Surge na história um filho desconhecido da vitima muito interessado em vingar o assassinato da mãe e quem foi o assassino. Duas das testemunhas que encontraram a vitima (dois dos jovens universitários) são estranhamente e violentamente assassinados o que leva aos outros dois a procurarem saber o que aconteceu. O livro tem mais intriga, mas intriga que estimula a nossa inteligência, sensibilidade e criatividade e não a outra. Claro que o final é muito surpreendente.

Tal como Mankell e Stieg Larsson, Val McDermid dá-nos um policial intenso, dramático e emocionalmente rico. Consegue caracterizar uma imprensa muito formatada e instrumentalizada por interesses puramente economicistas. O seu valor também esta da forma como apresenta os problemas e vivencias da nossa época assim como os preconceitos e os estados de alma das personagens. Não se esquece dos pormenores e as descrições de um ambiente paisagístico da Escócia. Assim como o ambiente cultural dos anos setenta e na entrada deste século.
Alem deste livro de Val McDermid em Portugal está traduzido muitos outros que tenho como perspectiva de ler, entre eles o “O Canto das Sereias” que é considerado um excelente livro policial.
Uma série na TV “Wire in the Blood” também escrita pala autora está a ser um êxito no Reino Unido. 

sábado, 2 de outubro de 2010

GARCÍA MÁRQUEZ: AS HISTÓRIAS DO REALISMO MÁGICO



Esta crónica tem como finalidade dar notícia de uma obra de Gabriel García Marquez, “A Incrível e Triste História da Cândida Eréndira e da Sua Avó Desalmada”, publicada recentemente pela D. Quixote. Obra que agrupa seis contos e uma novela de um dos mais considerados autores da literatura da segunda metade do século XX. Textos escritos nos anos sessenta, princípios de setenta e considerados como exemplos perfeitos de uma corrente literária que se celebrizou sob a designação de realismo mágico.
Histórias em que a magia irrompe para além dos limites impostos pela realidade, aprofundando o significado dos actos mais triviais do quotidiano. O que confere um sentido simbólico à linguagem e a impregna de uma aura poética. Veja-se, como exemplo , o início do conto “A Última Viagem do Navio Fantasma”:
“Agora vão ver quem sou, disse para si mesmo, com o seu novo vozeirão de homem, muitos anos depois de ter visto pela primeira vez o transatlântico imenso, sem luzes e sem ruídos, que uma noite passou em frente da aldeia como um grande palácio desabitado, mais comprido que toda a aldeia e muito mais alto que a torre da sua igreja, e continuou a navegar no escuro até à cidade colonial fortificada contra os corsários do outro lado da baía, com o seu antigo porto negreiro e o farol giratório cujas lúgubres riscas de luz, de quinze em quinze segundos, tranfiguravam a aldeia num acampamento lunar de casas fosforecentes e ruas de desertos vulcânicos(...)”
Atente-se no caudal impetuoso da escrita, uma das características mais marcantes do realismo mágico em García Márquez. Outra das características é a temática das histórias, a assemelharem-se a lendas ou a sagas medievais, em que o Bem e o Mal , encarnados pelas personagens principais, são postos em confronto.



Mas nem todas as histórias deste livro estão subordinadas aos cânones estritos do realismo mágico. E estas, em minha opinião, não são os menos interessantes. É o caso de “Morte Constante para Além do Amor.” História que poderemos designar como se situando na fronteira do realismo mágico. Nela se relata a viagem do senador Onésimo Sánchez, em campanha eleitoral por terras de todos os compromissos, ao encontro do Amor e da Morte, que acaba por dar sentido à sua Vida, purificando-a, ao despojá-la do ruído que as vicissitudes sociais a vinham conspurcando, ao longo dos anos.
A aura poética a que me referi é um elemento central da última história ( a que dá o título à obra), transportando-a para um mundo surreal, em que o onírico ressitua personagens, conferindo-lhes uma realidade simbólica. Entre outros, veja-se o seguinte exemplo:
“ Dispunha-se a regressar à tenda quando viu Ulisses de pé, sozinho, no espaço vazio e escuro onde antes estivera a fila dos homens. Tinha uma aura irreal e parecia visível na penumbra graças ao fulgor próprio da beleza.
E tu – disse-lhe a avó - ,onde deixaste as asas?
Quem as tinha era o meu avô – respondeu Ulisses com naturalidade - , mas ninguém acredita.
A avó voltou a examiná-lo com uma atenção enfeitiçada. “Pois eu acredito, disse.”Amanhã vem com els postas”. Entrou na tenda e deixou Ulisses a arder no seu lugar”
Estamos, pois, perante uma obra situada no tempo, mas de uma força e de uma beleza que a faz ser de todos os tempos.