segunda-feira, 5 de abril de 2010

Sidereus Nuncius



MENSAGEIRO
DAS ESTRELAS
que desvela espectáculos
GRANDES E IMENSAMENTE ADMIRÁVEIS,
propondo a cada um, mas sobretudo
AOS FILÓSOFOS E ASTRÓNOMOS, contemplar o que
GALILEO GALILEI,
NOBRE FLORENTINO,
professor de matemática da Universidade de Pádua,
observou com o auxílio de uma
LUNETA
por ele recentemente concebida, na FACE DA LUA,
AS INUMERÁVEIS ESTRELAS FIXAS, A VIA LÁCTEA,
NEBULOSAS
e, sobretudo,
QUATRO PLANETAS
revolvendo em torno de JÚPITER, a distâncias e
com períodos diferentes, com espantosa rapidez, os quais
ninguém até hoje divisara, e agora pela primeira vez
foram vistos pelo Autor
E POR ELE DESIGNADOS DE
ESTRELAS MEDICEIAS.

Veneza, Tommaso Baglioni, 1610



Nada menos que 400 anos de atraso. No entanto, com a devida pompa e circunstância no encerramento do Ano Internacional da Astronomia. Enfim, antes tarde do que nunca, a primeira tradução em Portugal do Sidereus Nuncius, O Mensageiro das Estrelas de Galileo Galilei. E para tal foi instrumental o Ano Internacional da Astronomia, o maior evento de divulgação científica jamais empreendido, e que por meio de centenas de milhares de actividades levou cerca de 100 milhões de pessoas a participarem em eventos educacionais e na observação do céu em 148 países.

Mas, a bem da verdade, a primeira tradução para o português é devida ao filósofo e historiador brasileiro Carlos Ziller Camemietzki, numa encomenda do Museu de Astronomia e Ciências Afins do Rio de Janeiro, em 1987. Uma edição de bolso foi relançada na primeira metade de 2009 pela revista Scientific American Brasil. Mas este detalhe não impediu a nossa comunicação social de alardear a tradução em Portugal como sendo a primeira para a língua de Camões. E infelizmente, sem qualquer reflexão histórica sobre como foi possível este esquecimento de 400 anos.

Naturalmente, não deve haver qualquer dúvida quanto a importância desta tradução (e para qualquer língua!), pois o Sidereus Nuncius, o De revolutionibus orbium coelestium (1543), Sobre a Revolução das Esferas Celestes de Copérnico, e os Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica (1687), Princípios Matemáticos da Filosofia Natural de Newton, são os livros que desencadearam uma das mais profundas transformações da história da humanidade, a revolução científica.

Mas há que se compreender que as traduções deste livro fundamental foram sempre algo tardias dado que, apesar do impacto causado pelas 550 cópias da primeira edição Veneziana de Março de 1610, os que fundamentalmente se interessavam pela sua temática, "os filósofos e astrónomos", eram educados e escreviam sobre as suas ideias e descobertas em Latim, língua na qual praticamente todos os estudantes universitários na Europa tinham que ser proficientes, pelo menos até o final do século XVIII.

As edições imediatamente subsequentes do Sidereus Nuncius são de 1611, esta sob a forma de xilogravura, e possivelmente ilegal apareceu em Frankfurt, e de 1653 em Londres, na qual constava outras obras de Galileo. Para além do facto cultural acima mencionado, há a interdição imposta pela Igreja Católica Apostólica Romana que classificou o livro como "falso" por defender que a Terra girava em torno do Sol e colocou-o no Index dos livros proibidos em 1616, um anátema de grande peso. Assim, a primeira tradução para o francês apareceu em 1681, para o inglês em 1880 e para o alemão só em 1965!

O objecto do livro está descrito no frontespício do opúsculo de sessenta páginas reproduzido acima. Mas para além das descobertas absolutamente notáveis que são ali descritas, há a mente dum cientista em verdadeiro estado de ebulição, e acima de tudo, um princípio de acção. Isto é, uma metodologia, comummente referida como científica, que é baseada na observação dos factos e na construção de hipóteses que os explicam, podendo estas serem confirmadas ou refutadas através de observações suplementares. Foi esta a metodologia que substituiu o modo escolástico medieval de pensar, quase que completamente baseado em argumentos teóricos frequentemente infundados, pelo racionalismo moderno que molda a razão e as teorias em função dos factos e na verificação experimental de hipóteses.

Em suma, o magro livro de Galileo tem no seu seio a raiz de um dos elementos mais fecundos da civilização europeia; muito possivelmente a causa mais fundamental que propiciou à Europa a hegemonia do mundo nos séculos sucessivos. A revolução científica impulsionou não só as ciências e o pensamento, mas foi também um elemento decisivo da Revolução Industrial. Não é por acaso que o poeta místico inglês William Blake culpava Newton por todos os males que assolaram o mundo do seu tempo, e mais concretamente pela transformação do mundo rural e bucólico em um mundo urbano, mecanizado e desumanizado. Muito possivelmente, as suas convicções ficariam reforçadas se lhe fosse dada a oportunidade de vislumbrar o nosso tempo. A revolução científica transformou irreversivelmente o mundo. E curiosamente, a ciência encontra-se hoje numa posição semelhante à da Igreja Cristã no tempo de Galileo. Então, aquela instituição detinha a hegemonia do conhecimento oriundo de Jerusalém, Atenas e Roma, os focos fundadores da nossa civilização, e a sua posição determinava praticamente todas as actividades humanas na Europa, em parte da Ásia, e na Ámerica. Hoje, a ciência está na base de todas as decisões e baliza a nossa visão do mundo e do Universo (é a convicção deste autor que estamos muito melhor desta forma, apesar de todos os malefícios e perigos que hoje enfrentamos).

Assim, na opinião do presente autor, qualquer pessoa que tem a curiosidade de compreender o caminho que historicamente percorremos sairá beneficiada com a leitura deste livro de Galileo. O leitor poderá então entender como os livros deixaram de ser só veículos de ideias para se tornarem em ferramentas de transformação do mundo. E podem os leitores portugueses agora fazê-lo graças à competente tradução do historiador da ciência Henrique Leitão e à generosa edição da Fundação Calouste Gulbenkian que compreende: um elucidativo estudo introdutório devido ao tradutor; uma breve cronologia dos antecedentes e das observações que dão corpo ao livro; a tradução e valiosas notas explicativas; e a reprodução facsimilada da primeira edição de Março de 1610.


Orfeu B.



sexta-feira, 2 de abril de 2010

5 DE OUTUBRO

Estudar História é, ou devia ser também, mergulhar nas histórias de que é feita a História.

A ficção que se constrói sobre temas históricos traz-nos o cheiro de uma época, os tiques, os maneirismos, o recorte das principais figuras, as suas ansiedades e desejos, os seus amores.

A ficção não substiui mas contribui e muito para dar carne à matéria abordada pelo ensaio e pela investigação histórica.

Estamos em plenas comemorações do centenário da República. Têm sido dados à estampa alguns romances cuja acção incide directamente sobre os anos imediatamente anteriores e posteriores à implantação da República. Vale a pena visitá-los e fazer dessa visita uma forma menos pomposa mas mais apaixonante de comemorar o centenário do 5 de Outubro.

Lembro-me de alguns como "Café República" de Álvaro Guerra, "O milagre segundo Salomé" de José Rodrigues Miguéis, e mais recentemente "As Cidadãs" de Maria Filomena Beja, "O destino do Capitão Blanc" de Sérgio Luís de Carvalho, "1910" de António Trabulo e este "5 de Outubro" de Lourenço Pereira Coutinho.





O autor dá-nos neste romance um painel cheio de cor social e humana da teia fervilhante onde, entre encontros e desencontros, se faziam e desfaziam planos de muitos atentados, revoltas, compromissos políticos, conluios, conspirações que enredavam a sociedade portuguesa nos meses anteriores ao 5 de Outubro.

Por aqui se cruzam os republicanos, os monárquicos, os revolucionários, os moderados, os carbonários... A escrita ritmada e ligeira leva-nos a espreitar momentos da vida, das aspirações, dos amores de personagens tão importantes como o próprio Rei D. Manuel, José Relvas, Afonso Costa, Machado dos Santos, Paiva Couceiro...

Do Palácio das Necessidades à redacção do jornal A Lucta de Brito Camacho, do Hotel do Buçaco às barricadas da Rotunda, da casa dos Patudos em Alpiarça aos almoços no Tavares Rico e aos encontros clandestinos nos Banhos de S. Paulo, o autor passeia a nossa curiosidade por uma sociedades ligeirota e talvez pouco consistente, mas carregada de emoções excessivas.

A monarquia cai porque está pronta a cair. E cai sobretudo pela teimosia de Machado dos Santos, um visionário que na noite de 3 de Outubro, contra tudo e contra todos, entra com os seus carbonários pelo quartel de Infataria 16 e começa uma revolução em que parece que ninguém acredita a não ser ele próprio.

Em certos momentos parece ser uma revolução de opereta e nalgumas peripécias inesperadas é inevitável encontrarmos uma ou outra semelhança com a Revolução do 25 de Abril.

Quanto ao romance, deixa-se ler muito bem e isso já é dizer bastante.

domingo, 14 de março de 2010

O PUBLICITÁRIO FERNANDO PESSOA, AUTOR DA "MENSAGEM"




A “Mensagem”, único livro que Fernando Pessoa publicou em vida, é uma obra extremamente curiosa, por várias razões. Uma delas, bastante singular: é uma obra que só poderia ter sido escrita por um publicitário. O que, em última instância, não será de estranhar, visto ser esse um dos interesses profissionais de Fernando Pessoa.
Uma leitura cuidada do texto permite identificar mais de vinte versos que são autênticas mensagens publicitárias, versos que, se retirados do contexto da estrofe em que estão inseridos, funcionam como “slogans” de acutilância comprovada. Comprovada pela sua utilização constante em diferentes contextos, o que confirma a sua funcionalidade enquanto mensagem publicitária.
Assim, logo nas estrofes iniciais, poderá ler-se: “Os deuses vendem quando dão”; “A vida é breve, a obra é vasta.” E, porque não: “O mytho é nada que é tudo”.
Note-se que estes versos-slogan correspondem, geralmente, ao primeiro ou aos primeiros versos da estrofe e visam introduzir um sentido específico, a desenvolver nos versos que se lhe seguem, o que também não anda longe da estrutura do texto publicitário.
Muitos outros exemplos poderão ser dados, alguns sobejamente conhecidos, e que entraram no rol de citações (dos textos e dos discursos) dos que nos governam, que gostam de abrilhantar o seu texto com uma citação de cariz erudito. Como não quero fatigar o leitor com tanta citação e como sei que ele já está sobejamente convencido da justeza da minha “tese”, citarei apenas dois outros versos-exemplo: “O homem e a alma são um só”; “O espaço é grande, o homem é pequeno”. Não posso terminar sem recordar um dos slogans mais apreciados pelos que confiam na grandeza da nossa alma: “Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena”.
Esta característica da “Mensagem” não é específica deste poema. Na realidade, é comum a outros textos de Pessoa. Creio, no entanto, que é naquele que adquire maior ênfase, o que confere ao texto um pendor épico, como convinha à finalidade a que se destinava (um concurso do Secretariado Nacional de Informação).
É evidente que este meu escrito não pretende aminorar o valor desta obra de Pessoa, mas tão só explicar (tentar explicar) uma das razões da sua popularidade.

segunda-feira, 1 de março de 2010

PORTO-CIDADE, PERSONAGEM CENTRAL DE CONTOS QUE TÊM A CIDADE COMO TEMA OU CENÁRIO





Ao longo dos anos, fui descobrindo que há um conjunto de escritores que reinventaram a cidade do Porto, as suas ruas, as suas praças, ao fazerem-nos percorrer um espaço urbano em que algo não pode deixar de acontecer. Escritores que se expressaram tanto pela poesia como pela prosa. Entre os prosadores que têm a cidade como tema ou como cenário das suas narrativas, referir-me-ei apenas aos contistas. Contistas da segunda metade do século XX, primeira década de XXI. Portanto, autores nossos contemporâneos ou quase.
José Régio é um desses autores. Os seus “Contos” (Publicações Europa-América) passam-se, em grande parte, no Porto. De entre eles, destacarei “Menina Olímpia e a sua Criada Belarmina”, exemplo acabado da presença da urbe portuense no desenvolvimento da história e no comportamento das suas personagens. Algo de idêntico ou talvez de um modo mais acentuado encontra-se em textos de Jorge de Sena, insertos nos seus “Grão-Capitães” (Edições Asa), principalmente no conto “Choro de Criança”, um texto que tem tanto de terrível como de belo. De Agostinho da Silva destacarei o conto “Teresinha”, publicado na sua obra “Herta, Teresinha, Joan”, conto atravessado por um lirismo romântico, que, em muito, emana do espaço físico da cidade. Miguel Miranda, um autor que tem a cidade incrustada nos seus genes, tem publicado vários livros de contos sobre a cidade, o primeiro dos quais foi “Contos à Moda do Porto” (Edições Afrontamento). “A Raiz Quadrada de uma Abstracção Incerta” parece-me ser um dos contos mais conseguidos desse livro, pelo que nos diz do ser e do estar de alguma gente e da sua inserção na geografia da cidade. “Dia de Calma”, uma história da obra de Beatriz Pacheco Pereira, “As Fabulosas Histórias Dela, Contos do Porto Imaginário” (Edições Âmbar), é um texto em que se respira o desconforto da materialidade granítica da cidade. Diferente, mas extremamente conseguido, é o texto (texto de estreia, creio) de Óscar de Sá, “Deleituras”, publicado no número 9 de “Ficções. Revista de Contos”. Um estudante com livros a mais e sexo a menos, uma prostituta de sexo fácil e carências afectivas cruzam-se nas ruas das livrarias e dos encontros de amores clandestinos. Da sua relação surge uma história de amor, pontuada pelos espaços urbanos que ela percorre, primeiro à procura dos seus clientes, depois dos livros que entrevê nas montras das livrarias. Um Porto diferente do que é dado, habitualmente, na literatura, mas não menos autêntico.
Uma referência, ainda, a uma característica comum aos textos que cito: eles são textos urbanos, em que se descrevem os mesmos espaços (ou espaços contíguos), que dão sentido às situações que neles se vivem e às personagens que nelas evoluem.
É evidente que outros textos (dos mesmos ou de outros autores) poderiam ter sido escolhidos. Mas também não tenho dúvidas de que os textos que referi exprimem com precisão o que quero demonstrar, ou seja, a existência de um traço comum a determinados “autores do Porto”: que a cidade-urbe vive no seu imaginário de um modo extremamente “físico”, que não se confunde com o imaginário de outros autores que têm outras cidades como tema. Quando penso em contistas do século XX, que têm Lisboa como pano de fundo, mas nítida se me torna a especificidade destes “contos portuenses”. É evidente que Lisboa-cidade foi tema para grandes contistas do século XX – José Rodrigues Migueis e Judite de Carvalho a sobressaírem entre todos eles – mas também é evidente que a apropriação do espaço urbano não tem a “centralidade” que se encontra nos “textos portuenses” que destaquei.

A reflexão contida neste texto, se não tiver outros, talvez tenha, pelo menos, um mérito: fazer-nos lembrar o quanto desconhecemos da literatura portuguesa da actualidade!

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A máquina de fazer espanhóis


Existe um tom em cada livro. Todos os autores têm uma musicalidade própria. Quando conseguimos ouvir esse som, entrar, um pouco, no ritmo do livro, ficamos viciados na narrativa. Quando acaba queremos mais, então procuramos todos os livros desse mesmo autor. Exigimos mais livros dele. Foi assim que aconteceu comigo na leitura de “a máquina de fazer espanhóis” de Valter Hugo Mãe.

É uma história passada com o barbeiro Silva de 84 anos que depois de lhe morrer a mulher, que tanto amava, é despejado num lar de idosos. O Silva que é um poeta, conhece personagens fantásticas que o levam a entrar dentro dele, afinal a sua estadia naquele depósito torna-se um momento de vida, um momento como nunca teve, pois sempre esteve fechado dentro da família. Um dos amigos que faz é Esteves sem metafísica do poema de Fernando Pessoa, que afinal está com imensa metafísica, um engano de Pessoa. A Mariasinha, uma estátua de Maria com pombinhas e nuvens que vai sendo lapidada para o gozo deste Silva e do Pereira. Anísio “doutor em arte antiga” que se apaixona por Dona Glória do linho, alias é uma das cenas mais belas do livro a cena do enamoramento entre estes dois por meio de estátuas. Este livro está cheio de ingredientes fantásticos. Valter Hugo Mãe apropriou-se duma linguagem própria desta geração e leva-nos por este lar adentro, mas também por este Portugal adentro, pela nossa história, pelo o ambiente vivido nos anos 50 e 60 com Salazar no poder, com o medo instituído, com a religiosidade ortodoxa existente, uma espécie de anestesia da realidade. Muito mais tem este livro, lê-lo é uma experiência necessária para qualquer leitor.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Invisível


A música das pedras era uma uma partitura sumptuosa e impossível, executada por cinquenta ou sessenta martelos que retiniam constantemente, cada um movendo-se na sua própria cadência e, todos juntos, compunham uma harmonia insubmissa e majestosa, um som que se entranhava no meu corpo, um som que permaneceu no meu corpo durante muito tempo depois de eu ter partido ... Aquele som estará para sempre comigo.

Invisível

Paul Auster

É-me impossível concordar com os críticos que qualificam "Invisível" como o melhor de Auster até o presente. Também não compartilho a opinião doutros que julgavam ser essencial que Auster se aventurasse em escrever um romance com uma estrutura mais tradicional, despido do experimentalismo que caracteriza muitos dos seus textos. Sendo um apreciador da criatividade deste autor, mas que não é de todo um inovador a nível da linguagem, mergulhei na leitura deste romance com a quase certeza duma prazeirosa leitura. Infelizmente, a minha antecipação ficou algo frustrada. Deparei com um capítulo inicial promissor, um segundo capítulo inesperado e inteligente, que salvaria o livro não fossem os dois seguintes serem muito menos intensos e algo insípidos.

Naturalmente, estão presentes nesse romance todos elementos que caracterizam uma sólida construção literária, e também uma grande competência narrativa. Contudo, faltou ao autor da "A Trilogia de Nova Iorque", do "No país das últimas coisas" e do extraordinário "A Invenção da Solidão" - na verdade, "Invisível" é o seu décimo quinto livro - a genialidade que eu há muito espero.

Uma sinopse? Um advogado consumido pela leucemia, procura nos seus derradeiros dias escrever uma biografia que resumiria os bizarros acontecimentos dum ano marcante da sua vida, 1967. Era então um promissor jovem poeta, que no Verão deste ano, encontrara numa festa cujos contornos se lhe haviam perdido na memória, um casal francês. Ele, Rudolf Born, um misterioso professor convidado de ciências políticas na Universidade de Columbia; ela, Margot Jouffroy, uma atraente e silenciosa acompanhante. Pouco depois estabelecesse um triângulo amoroso, ao fim do qual Margot parte para Paris sem dizer palavra. Num passeio, Adam Walker, o poeta, e Rudolf são abordados por um assaltante e este é esfaqueado mortalmente por Rudolf. O Verão termina com uma relação incestuosa de Walker com a sua irmã (que é posteriormente desmentida por esta). O Outono é passado em Paris, onde Walker procura aperfeiçoar o seu francês. Procura também fazer Rudolf pagar pelo crime que cometera em Nova Iorque, através da intromissão na sua vida pessoal. Consegue apenas ser deportado sob a acusação fabricada de tráfego e consumo de drogas. Rudolf tinha profundas ligações com o governo francês e o seu serviço secreto.

Quarenta anos depois, o advogado, ex-poeta, procura a ajuda de um colega dos tempos da universidade, e agora eminente escritor, para vencer o bloqueio que lhe impede de terminar a sua narrativa 1967 antes de morrer.

Ao fim das contas, um romance de interesse, mas que talvez não seja do agrado dos que não conhecem e não compartilhem as ligações intelectuais e os temas recorrentes que interessam ao autor.

Quanto a mim, continuo à espera da obra prima que suponho Paul Auster ser ainda capaz de escrever.

Orfeu B.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

AS LIÇÕES DOS MESTRES




George Steiner, um dos mais brilhantes e fecundos pensadores da actualidade, proferiu, no ano lectivo de 2001-2002, na Universidade de Harvard, um conjunto de lições-conferência, que a Gradiva editou sob o título “As lições dos Mestres”. A obra trata, em última instância, de um só tema: as relações entre mestres e discípulos (e não propriamente entre professores e alunos). Relações analisadas sob diversos ângulos e ao longo dos vinte e cinco séculos da civilização ocidental - da Grécia Clássica aos dias de hoje. Portanto, em diversas regiões e países, em diversas culturas.



A viagem que Steiner faz, através dos tempos, é apresentada sob a forma de um ensaio, onde sobressaem a erudição, a inteligência, a capacidade do autor em relacionar situações e conceitos. O que, inevitavelmente, confere à obra um brilho que ofusca o leitor, pelo menos, numa primeira leitura.
Como se relaciona o mestre com o seu discípulo e o discípulo com o seu mestre? Como têm evoluído essas relações e que aspectos específicos assumem, nas diversas culturas? A influência do mestre faz-se preferencialmente através do ensinamento oral ou pelo texto escrito? Pela liberdade que concede ao discípulo ou pela imposição que sobre ele exerce? Pelo exemplo ou pela persuasão? Pela criação de condições de aceitação da sua mensagem ou pela oposição que provoca? Enfim, estes aspectos (e alguns mais) são analisados, aprofundados, numa linguagem fluente, rica. Mas, depois de tudo isto, o que nos fica? O brilho da palavra de um mestre (George Steiner), que talvez não faça – através deste livro – muitos discípulos... Por várias razões: a) porque as suas lições foram elaboradas para serem proferidas perante um auditório americano (não para serem lidas por um leitor comum); b) porque a erudição que alardeia esmaga qualquer "discípulo"; c) porque o volteio em que o seu discurso se situa é mais orientado para ofuscar, do que para levar o outro a pensar. E, talvez mais do que foi dito, porque é uma obra datada, centrada no "teaching" tradicional (e não no "learning"). Ou, por outras palavras, no "Master" e na sua "Lesson", o que não quer dizer que não seja uma obra muito interessante, construída dentro da boa tradição da docência oral de um "mestre pensador." Portanto, uma obra a ler por aqueles que fazem do ensino a sua profissão e da palavra a sua vocação!

domingo, 31 de janeiro de 2010

EU JÁ ESTIVE EM BUENOS AIRES



Ao fechar este livro de Tomás Eloy Martinez posso dizer que já estive em Buenos Aires. Acabo de chegar de lá. Passeei pelas suas ruas e mitos. Senti o tempo, o calor, o frio, a humidade, a pobreza, o cheiro das casas, a respiração dos cafés, das livrarias e milongas.

A literatura tem coisas destas. Leva-nos aonde nunca fomos. E, se calhar, aonde nunca poderemos ir de outra maneira.

Já conheço Buenos Aires, a cidade que espero um dia tocar com a mão, varrer com os olhos, entregar-me às livrarias que estão abertas 24 horas por dia, caso único no mundo julgo eu.

A história é simples aparentemente. Um cantor de tangos ccm uma voz única, muito melhor que Gardel, um homem deficiente que vai tendo cada vez mais dificuldade em ter-se de pé ou respirar, canta sem aviso e muitas vezes sem público em pontos especiais da cidade, fazendo com essa sua peregrinação um mapa dos crimes por vezes apagados da memória colectiva. São os crimes dos generais, dos ditadores e das polícias que se sucederam ao longo da história acidentada da mágica cidade.

Um estudante americano procura este cantor e segue os seus passos atravessando a cidade em todas as direcções num tempo recente em que a miséria sai para a rua, a fome cresce e os governos sucedem-se.

E este estudante procura também conhecer e interpretar a cidade mitificada por Jorge Luís Borges e julga ter descoberto o famoso Aleph que surge num dos primeiros ou mesmo no primeiro conto de Borges, um ponto lminoso que permite ver o passado e o futuro.

"Ali a realidade não sabia o que fazer e andava à solta, à caça de autores que se atrevessem a contá-la."

Nesta vagabundagem o jovem Bruno reconhece na cidade um labirinto físico, temporal, cultural, em que os habitantes se movimentam de uma forma misteriosa e os estrangeiros se perdem nas voltas do espaço, do tempo e do tango.

Pronto. Como vêem já estive em Buenos Aires. Vivi uma semana e meia nas suas ruas. E, no entanto, nunca lá estive. Mas mais dias menos dia... Não falho.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

"A Nova Inteligência"


A Nova Inteligência" é um best seller internacional de Daniel H. Pink. Embora pareça um manual ou um livro de auto-ajuda, não o é. Este livro mostra-nos uma mudança cultural que está ocorrer na nossa sociedade contemporânea. A valorização das competência ligadas ao lado direito do cérebro, o responsável pela a emoção, pela criatividade, etc. Daniel acredita que em cada instituição, em cada empresa irá haver, no futuro, um "poeta" de serviço. Só por isso vale a pena devorar este livro. Mas garanto-vos que daqui surge muito mais, coisas surpreendentes.
No Primeiro capitulo ele faz uma abordagem sobre os variados estudos sobre o funcionamento dos dois lados do cérebro, mas de uma forma cativante, contando boas histórias, na verdade sente-se a empatia e a capacidade narrativa deste autor. Sabiam por exemplo que embora o lado esquerdo do cérebro seja responsável pala compreensão de um texto, mas é o lado direito que o contextualiza-o, relaciona-o e percepciona a emoção - o que faz com que quem leia uma obra de literatura e que tenha lesões no lado direito do cérebro, não vai compreender as metáforas, não se vai emocionar nem vai contemplar esse texto literário. Fantástico 2-0 o lado direito está a ganhar. Mas vai ganhar muito mais, sabiam que nas universidades mais conceituadas dos E.U.A. os estudantes de medicina estudam pintura e teatro. Porque será? Não digo, leiam-no. No segundo capitulo Daniel Pink apresenta-nos os Seis Sentidos da era conceptual (que é esta nova era que está a surgir depois de uma era do conhecimento). Os seis são Design, História, Sinfonia, Empatia, Diversão e Sentido. Saio da leitura deste livro com mais certeza que os currículos escolares tem urgentemente que mudar, para nos prepararmos para os desafios desta nova Era. É necessário aulas de teatro, dança, música, artes, riso e conversa em vez de as imensas horas que os nossos alunos passam a decorar o aparelho digestivo, os acontecimentos sociais que estão na base da revolução francesa ou ainda o presente do conjuntivo do verbo ser porque pouco se chega a ser com estes programas de ensino.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

CARNAVALIZAÇÃO OU VANTAGENS E MALEFÍCIOS DE UMA TEORIA




O texto de Jorge Amado “A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água” (um dos contos mais fabulosos da moderna literatura brasileira) tem sido analisado a partir do modelo apresentado pelo estruturalista Bakhtin (veja-se a sua obra “La poétique de Dostoevski”), o que se me afigura extremamente redutor – portanto, errado.
No texto de Jorge Amado, são postos em confronto os dois mundos de Quincas: o mundo médio-burguês de funcionário público, em que viveu a grande parte da sua vida, e o mundo da vadiagem, do malandro dos bairros populares da Baía, em que mergulhou nos seus últimos anos de vida. Ou, de outro modo: o mundo dos socialmente "bem comportados" e o submundo dos "desregrados." É a morte de Quincas que desencadeia a acção, que culmina com o "rapto" do seu corpo do caixão, em que a família o depositara, e a "organização", pelos seus companheiros de estúrdia, de um funeral, durante o qual o morto-vivo é passeado pelo "bas-fond" baiano - e que atinge o seu clímax a bordo de um saveiro, em que todos embarcam, para festejarem condignamente a "morte-aniversário" de Quincas. Quintas que acaba por mergulhar no mar, para não mais ser visto. É evidente que a história (o conto, como lhe chamou o autor) não se confina a este esquema simplificado, pois envolve outros aspectos - de ordem psicológica, sociológica, antropológica - que lhe conferem uma densidade emocional e humana, digna das melhores páginas de Jorge Amado.
E aqui surge a minha discordância em relação a algumas interpretações de críticos brasileiros: para eles, Jorge Amado, nomeadamente neste conto, constitui o exemplo perfeito da carnavalização na literatura. O modelo de análise proposto por Bakhtin, quando aplicado a este autor, permitiria detectar e caracterizar a verdadeira carnavalização em literatura. Neste linha de interpretação encontra-se Affonso Romano de Sant'Anna, que, em artigo publicado em "Jorge Amado, Km 70. Tempo Brasileiro", transforma Jorge Amado num autor carnavalizante - "malgré lui". Mas Affonso Sant'Anna, quanto mais defende a sua tese, mais entra em contradição - de que não se apercebe. Sendo o Carnaval, para Affonso Sant'Anna, uma festa comunitária (feita de excessos consentidos), a ter lugar na praça pública, em que todos participam, mascarando-se do que não são, toma como exemplo acabado o enterro de Quincas, realizado pelos seus pares de folia. Sacado do seu caixão forrado a cetim, onde a família o tinha encafuado depois de lavado e vestido a preceito, Quincas é desvestido do seu fatinho de morto bem comportado e recupera os trapos com que se cobria, quando foi encontrado morto - os trapos que usara nos seus últimos doze anos de vida. Assim, voltado ao seu normal, Quincas é levado a fazer o périplo diário das tabernas da cidade e, destas, levado é para a grande farra do saveiro que sulca o mar da Baía - para a homenagem final, que os amigos lhe querem prestar - sempre acompanhado pelos seus companheiros do álcool, da música, do amor. Ou seja, é reposto na sua identidade, por aqueles com quem conviveu na parte final da vida - em suma, é "desmascarado."
Ora, na opinião de Affonso Sant'Anna, o "enterro" constituiria a mais lídima das expressões de uma verdadeira carnavalização, o que se me afigura totalmente errado. Não só porque a família não participa nele (nem o pode aceitar), mas também porque os amigos não o vêem como situação carnavalizante, mas, sim, como a recuperação de um viver normal (para eles, se carnavalização houvesse seria o seu enterro de caixão e roupinha de luto...). Em última instância, não há mascaração alguma, pois cada uma das classes sociais, a que pertenceu o Quincas, reivindica para si a identidade do "seu" morto, opondo-se a que a outra dele se aproprie. O enterro "em orgia" não é mais do que a legitimação do que seria a vontade final do falecido. Por outro lado, note-se (e repita-se) que não há qualquer festividade colectiva, em que todos participassem. Pelo contrário, cada uma das classes sociais se acantona no seu território, ignorando a outra.
Ao chegar ao fim destas linhas, interrogo-me sobre as razões que me levaram a escrevê-las. Talvez sejam duas: o valor literário do conto e a minha discordância pela análise que dele tem sido feita, à luz de um modelo que o simplifica e deforma. Os modelos são como fatos prontos-a-vestir: só por mero acaso é que o nosso corpo cabe dentro deles. E, aqui, a imagem do fato-pronto-a-vestir ultrapassa, e em muito, o seu sentido meramente simbólico - o fato é um elemento central da história de Jorge Amado... História maior dentro da literatura de língua portuguesa do século XX, em que o humor, a ironia, a paródia se entretecem de um modo inextrincável - e se negam a serem dissecados pelo escalpelo de um instrumento forjado na oficina do estruturalismo..

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Como a água que corre


Sem relógio, sem calendário ..., o tempo passava como um relâmpago ou então durava eternidades. Nascia o Sol, e desaparecia, num sítio um poucochinho diferente do da véspera, um pouco mais cedo todas as noites, um pouco mais tarde todas as manhãs. A madrugada e o crepúsculo eram os únicos acontecimentos de monta. Entre eles algo corria que não era o tempo, mas a vida.

Como a água que corre

Marguerite Yourcenar

Suponho que o filósofo pré-socrático Heráclito tenha sido o primeiro a utilizar a imagem da corrente de um rio como metáfora para a passagem do tempo: “Nunca nos banhamos nas mesmas águas ...”. A justeza da imagem, útil na discussão filosófica, e relevante também na física, não deixa de fascinar poetas e escritores.

Marguerite Yourcenar, não escapou ao encanto do fluir da água e a mestria do seu estilo único e memorialista deu origem a nada menos do que uma obra prima. “Como a água que corre” (Comme l’eau qui coule) de 1982, é um livro composto por três novelas escritas em períodos distintos. Um livro de rara beleza, escrito por uma autora cujo compromisso para com a escrita era um exercício existencial que só podia ser considerado concluído quando a sua exigência de perfeição estava inteiramente satisfeita.

A primeira novela, “Anna, Soror”, escrita em 1922, apareceu em 1935 numa colectânea de textos da autora emtitulada La Mort Conduit l’Attelage (A Morte Conduz a Carruagem). Porém, com “o correr da água” a autora compreendeu que o título era demasiado simplista, pois descobriu “que a morte conduz a carruagem, mas a vida também”. Como a “água do rio”, “ou por vezes da torrente, ora lamacenta, ora límpida, que a vida é”.

Anna, Soror”, reeditada com acrescentos em 1982, descreve a evolução espiritual duma mulher que encontra na devoção religiosa a resposta ao amor que sente pelo irmão. O pano de fundo são uma Nápoles renascentista e uma Flandres em guerra. Austeridade e mortificação convivem com a alteração das lealdades políticas, que obrigam as mulheres, e Anna em particular, a casar segundo os interesses do momento e das famílias. Casamentos marcados pela indiferença e por gravidezes, “suportadas com resignação”; pelo “amor animal pelos filhos, que diminuía logo que dela deixavam de necessitar”. Anna, vive os seus últimos dias como pensionista num convento. Conquista a sua paz na resignação e nas leituras. Os seus derradeiros dias são de uma “felicidade violenta” que preenche “com seus ecos e reflexos, todos os recantos da eternidade”.

“Um Homem Obscuro” apresenta-nos Natanael, um homem simples, de alma límpida, que viveu nos Países Baixos no século XVII, depois de fugir de Inglaterra ainda muito jovem, por erroneamente pensar que teria cometido um crime. A aventura leva-o à América, onde vive com colonos ingleses que, abandonados, vivem praticamente como selvagens. Acaba por voltar para a Europa e instala-se nos Países Baixos, terra de seus pais antes de terem emigrado para Inglaterra. Ali trabalha inicialmente na tipografia do tio avaro, que acaba por enganá-lo na transacção da sua herança. Envolve-se então com uma prostituta do bairro judeu com quem tem um filho, Lázaro. Acaba como lacaio e termina os seus dias na solidão duma ilha de seu amo. Doente e completamente só, pronunciava alto o próprio nome para “comprovar que ainda possuía voz e fala”. “Continuava a gostar apaixonadamente do mar” para manter “o ânimo para gostar apaixonadamente de qualquer coisa”. Esgota-se o seu tempo sem sobressaltos. Não tem certeza que a chama que representa se apague completamente, mas “optava, de preferência, pela escuridão total, que lhe parecia a solução mais desejável: ninguém necessitava de um Natanael imortal ... À sua volta havia o mar, a bruma, o sol e a chuva, os bichos do ar, da água e da gândara; ele vivia e morria tal qual os bichos. Isso bastava.”

“Uma Bela Manhã” dá continuidade à história de Natanael, ao retratar a fuga de seu filho Lázaro para se juntar a uma trupe de teatro. Conduzem-no o anseio pela liberdade inerente à vida etinerante e a ambição de poder representar as mais diversas personagens, Lady Macbeth, Shylock, Jessica, Próspero, ou simplesmente um palhaço. Uma novela onde a ênfase situa-se no tempo futuro, aberto e auspicioso, escultor dum personagem que não tem uma forma própria, pois almeja ter mil formas.

Orfeu B.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A ENTREVISTA ENQUANTO GÉNERO LITERÁRIO

A leitura de “Porgy and Bess”, de Truman Capote, constituiu, para mim, uma revelação: estava perante um género literário que eu conhecia bastante mal, ou seja, a entrevista alcandorada ao seu mais alto nível. Entrevista que tem um pé no jornalismo e outro na autobiografia. Desde aí, passei a acompanhar, tanto em publicações portuguesas como estrangeiras, o que se ia publicando neste domínio. E, entre as primeiras, um nome sobressaía: Carlos Vaz Marques, entrevistador extremamente bem informado da obra dos escritores que ia entrevistando. Ora, é exactamente de uma obra de Vaz Marques que quero falar: “Entrevistas da Paris Review”.
Trata-se de uma selecção (e tradução) feita pelo autor, que acaba de ser publicada pela Tinta da China. Obra que agrupa entrevistas a dez grandes nomes da literatura do século XX: E. M. Forster, Graham Greene, William Faulkner, Truman Capote, Ernest Hemingway, Laurence Durrel, Boris Pasternak, Saul Bellow, Jorge Luis Borges e Jack Kerouac.
Evidentemente que gostaria de me referir a estas dez entrevistas, mas, como tal não é possível, limitar-me-ei a três delas, às que foram feitas a Truman Capote, Boris Pasternak e Jack Kerouac, tanto por razões de conteúdo como de forma. E, claro, pela diversidade das abordagens dos vários entrevistadores e pelas reacções dos escritores sujeitos ao escrutínio da entrevista. Convirá lembrar que as entrevistas da Paris Review constituem uma contribuição decisiva para o aparecimento da entrevista enquanto género literário. Fundamentalmente por duas razões: por se centrarem exclusivamente na obra literária do autor e por serem realizadas por escritores, ou por pessoas verdadeiramente ligadas à literatura (daí, perguntas estereotipadas como “de que fruto gosta mais” ou “qual a sua cor preferida” ficassem definitivamente banidas...)
Na entrevista que lhe foi feita por Pati Hill, Truman Capote aborda aspectos essenciais para compreendermos a sua obra. Assim, considera que a escrita de contos, no início da sua carreira literária, constituiu o treino mais adequado para o desenvolvimento da sua escrita futura. Inclusivamente, teria sido o conto que lhe permitiu adquirir o “controlo” necessário à sua escrita. Esclarece que, por controlo, entende a manutenção das “rédeas estilísticas e emocionais do nosso material”. E acrescenta: “eu acredito que uma história pode naufragar por um problema de ritmo numa frase – em particular se isso acontece já na parte do fim – ou por um erro na abertura de um parágrafo, ou mesmo de pontuação”.
A pergunta de como se desenvolve a técnica do conto permite-lhe explicar: “Dado que cada conto nos coloca problemas técnicos próprios, não se pode obviamente generalizar a esse respeito, numa base de dois mais dois é igual a quatro. Encontrar a forma certa para a nossa história é pura e simplesmente descobrir qual o modo mais natural de a contar. O teste para descobrir se um escritor adivinhou qual o formato natural para a sua história é apenas este: depois de a ler, consegue imaginá-la de outra maneira ou ela silencia-lhe a imaginação e parece-lhe absoluta e definitiva?”.
Quando lhe perguntam sobre a forma de melhorar a técnica da escrita, ele é peremptório: “O trabalho é a única forma de que eu tenho conhecimento. A escrita tem as suas leis de perspectiva, de luz e de sombra, tal como a pintura e a música. Se se nasce conhecendo-as, óptimo. Se não, tem de se aprender”.
Capote considera que nunca teve um momento de tranquilidade, exceptuando aqueles em que está sob o efeito de tranquilizantes, pelo que não poderá dizer que alguma vez tenha escrito uma obra em tranquilidade. E reconhece que uma “pontinha de stress” lhe faz bem.
Diz que lê demasiado, inclusivamente quando está a escrever, mas que não sente a “presença de outro escritor a infiltrar-se por debaixo da (sua) escrita”.
Considera, ainda, que todos os escritores têm um estilo, o que é imprescindível para a sua afirmação. Estilo que não se alcança de uma forma consciente. “Bem vistas as coisas, o estilo somos nós. No fundo a personalidade de um escritor tem imenso que ver com a sua obra”... “A humanidade individual do escritor, a sua palavra ou o seu gesto em relação ao mundo, têm de surgir quase como uma personagem que entra em contacto com o leitor. Se a personalidade é vaga ou confusa ou meramente literária ça ne vas pas”.
Truman Capote referiu-se também às condições e aos processos da sua escrita, aos diversos rascunhos que faz, ao facto de só conseguir escrever na cama; ao processo da escrita propriamente dita. Embora a história já esteja na sua cabeça, o que vai acontecendo ao longo do processo é algo de grande importância. Escrita que não é autobiográfica, pois a sua imaginação é suficientemente rica para poder prescindir de outras fontes que alimentem as suas histórias.
Se a entrevista a Capote está centrada única e exclusivamente na sua obra, a que Olga Carlisle faz a Boris Pasternak tem como referentes o ambiente em que vive o escritor, as suas concepções sobre cultura, literatura, arte. O que a não torna menos aliciante. Aliciante, sim, embora extremamente difícil de dar notícia nas poucas linhas de um blogue. Por outro lado, toda a entrevista é atravessada pelas descrições do ambiente em que vive Pasternak: a sua casa, pequena, acolhedora, a cidadezinha de escritores dos arredores de Moscovo, onde se situa, as paisagens naturais em pano de fundo. E, mais do que o envolvimento físico, o envolvimento humano em que Pasternak circula, dentro da sua própria casa. A sua presença, a sua personalidade, a aura de que dele se desprende. Este encantamento não é quebrado pela sua fala, quando aborda temas de literatura, antes pelo contrário.
Olga Carlisle (a entrevistadora, de ascendência russa) quer saber por que Pasternak abandonou a poesia, em que se tinha destacado nos anos iniciais da sua carreira literária. A resposta, à semelhança de todas as outras, veio simples e esclarecedora: “A minha geração deu por si no centro da história. As nossas obras foram-nos ditadas pela época. Faltava-lhes universalidade, agora envelheceram. Mais ainda, acredito que já não é possível à poesia lírica exprimir a imensidão da nossa experiência. A vida desenvolveu-se de um modo extremamente incómodo, extremamente complicado. Adquirimos valores que se exprimem melhor em prosa. Eu tentei expressá-los no meu romance e tenho-os presente no meu espírito enquanto escrevo a minha peça de teatro”.
Pasternak estava a escrever uma peça teatral que se situava noutra época histórica. Daí, as referências que faz a essa peça e ao que considera essencial numa obra cuja acção se situa no passado: “A princípio, consultei todo o tipo de documentos do século XIX. Agora, dei por mim terminada a pesquisa. No fim de contas, o que é importante não é a precisão histórica da obra mas a recriação bem sucedida de uma época. Não é o objecto descrito que importa, mas a luz que se derrama sobre ele, como de um candeeiro de sala ao longe”.
Sobre a eternidade de uma obra literária, considera “que, embora o artista vá morrer, a alegria de viver que ele experimentou é imortal. Se ela foi captada de uma forma pessoal e simultaneamente universal pode na verdade ser revivida por outros por intermédio da sua obra”.
As transcrições que acabo de fazer são exemplos das perspectivas de um grande senhor das letras, que paira sobre a sua obra e a de outros escritores, deixando aos vindouros um testemunho pleno de lucidez sobre a sua época e a sua escrita.
Totalmente diferente é a entrevista feita a Jack Kerouac. Realizada em casa do escritor (aliás, como todas as outras), desenrola-se em condições muito especiais, o que acabou por condicionar o posicionamento e o depoimento de Kerouac. Entrevista regada com algumas bebidas alcoólicas e pontuada pela ingestão de anfetaminas. Ted Berrigan conduziu o diálogo com a colaboração de dois poetas presentes, Aran Saroyan (filho do escritor William Saroyan) e Duncan McNaughton. Da conjugação destes elementos resultou uma entrevista extremamente dinâmica, em que a criação desempenhou um papel essencial. Exemplo deste dinamismo criador é o que aconteceu quando lhe perguntaram como escrevia os seus haiku: “Haiku? Quer ouvir um haiku? Como sabe tem de se comprimir em três curtas linhas toda uma grande história. Primeiro começa-se com uma situação de haiku – por exemplo, vê-se uma folha, como lhe disse a ela uma noite destas, a cair sobre um pardal durante uma enorme ventania invernosa de Outubro. Uma folha grande cai sobre um pequeno pardal. Como é que se comprime isto em três linhas? Em japonês tem de se comprimir em dezassete sílabas. Isso nós não temos de fazer em americano – ou em inglês – porque não temos a mesma treta silábica que o idioma japonês tem. Portanto, diz-se: ‘Pequeno pardal’ – não é preciso dizer pequeno, toda a gente sabe que eles são pequenos e portanto diz-se:

Pardal
Com uma grande folha sobre si –
Ventania

Não presta, não funciona, rejeito-o.

Um pequeno pardal
Quando uma folha de Outono subitamente se agarra a ele
Trazida pelo vento.

Ah, assim não dá. Não, é um bocadinho longo demais. Está a ver? Já é um bocadinho longo demais, Berrigan, está a perceber o que eu lhe estou a dizer?

Parece haver uma palavra a mais ou coisa assim, como aquele quando.
E assim:

Um pardal
Uma folha de Outono subitamente agarra-se a ele –
Trazida pelo vento!

Hei, assim está bem. Acho que o quando era a palavra a mais. Apanhou a ideia certa, O’Hara! “Um pardal, uma folha de Outono subitamente”, não temos de dizer subitamente, pois não?

Um pardal
Uma folha de Outono agarra-se a ele –
Trazida pelo vento!”

Apesar de algum esforço do entrevistador, Kerouac pouco fala da sua obra, das suas características, das influências recebidas. Preferiu falar das suas relações com outros escritores, como Allen Ginsberg e Burroughs. Enfim, um conjunto de referências a autores e obras, dados importantes para se compreender o que foi a “geração beat”. Do pouco que diz sobre a sua escrita, será de destacar o que se refere à emoção: “E podem ter a certeza de uma coisa, eu passei toda a juventude a escrever muito lentamente, a rever o que escrevia e a refazer tudo e a apagar e portanto escrevia uma frase por dia e a frase não tinha EMOÇÃO. Rai’s partam, é da EMOÇÃO que eu gosto na arte, não é da ASTÚCIA e da dissimulação de emoções”.
Ora, será esta necessidade de emoção e a opção pelo estilo confessional que o terão levado a escrever “Pela Estrada Fora” (“On the Road”), a sua obra mais emblemática.
Também é curiosa a referência que faz às drogas, ao modo como as utilizou para escrever algumas das suas obras, nomeadamente poesia. Poesia em que, a partir de certo momento, se terá verificado influência do Budismo.
Esta entrevista que vale, fundamentalmente, por revelar muito do mundo interior de Kerouac, pleno de contradições, por vezes a roçar o caos. Mas pouco nos diz sobre o modo como desse mundo brotou a sua obra, qual flor exótica cujas raízes nem o próprio conhece – e não será esta a prova provada de que estamos perante um verdadeiro escritor?

sábado, 16 de janeiro de 2010

A LITERATURA POR DENTRO



Namorei este livro durante a época natalícia. Esteve quase a fazer parte das prendas que me concedo a mim próprio com mais frequência que o bolso desejaria, quer seja Natal ou não.

Só que eu estava mais interessado em romance e pouco inclinado a esperar que estes grandes autores de romances passassem nestas entrevistas pouco mais que da banalidade das opiniões avulsas, apesar das promessas em contrário de Carlos Vaz Marques na contracapa.

A tentação venceu. Talvez a capa tenha contribuído para isso. O trabalho gráfico de Vera tavares é muitíssimo apetitoso e, como os olhos também comem, lá trouxe estas entrevistas para casa. E em boa hora porque estão para além de todas as minhas expectativas.

Primeiro ponto: as entrevistas vão direitas ao processo de trabalho dos escritores e os rios da literatura em que se enquadram, filiações, paixões.

Duas excepções por razões diferentes: a entrevista a Joge Luís Borges que navega em torno de obsessões tão distantes de nós como as particularidades do inglês e do norueguês antigos, e ainda as catadupas de autores ingleses que refere e que só serão conhecidos dos especialistas da literatura anglo-americana. mas ele próprio diz que quando começou a perder a vsão, o mundo começou a afastar-se de si.

A outra excepção é a entrevista de Jack Kerouac. Tanto ele como o entrevistador estarão razoavelmente pedrados durante a entrevista que tem momentos delirantes num mergulho que por vezes vai ao fundo e corta as ligações com o leitor, outras vezes vem ao de cima e lança uma luz inesperada sobre uma sequência razoavelmente arbitrária de assuntos com especial incidência na história e autores da chamada literatura beat.

Fiquei particularmente tocado por dois autores que (malgré moi) nunca li e que faço agora questão de ler com alguma urgência, Lawrence Durrell e E. M: Forster.

Hemingway e Capote, magníficos, fazem um belo espectáculo, cada um à sua maneira. Brilham. São dois actores a fazer o papel de si próprios e daquilo que querem que os outros pensem de si próprios. E ficam-nos deles algumas curiosidades como saber que um escrevia de pé horas a fio e o outro na cama.

Boris Pasternak parece ser uma estátua, um monumento a si próprio e a esse filão fabuloso que é a literatura russa.

Faulkner é um grande senhor da literatura. Duro. Intransigente.Certeiro. tenho de o reler.

Saul Bellow dá-nos uma abordagem complexa sobre as questões da escrita e da cultura e ainda sobre o enfoque judaico no entrelaçar destes temas.

Figura tutelar para quase todos é a de James Joyce. Os anglo-saxónicos têm-no como a fonte, a referência, a ruptura imprescindível. Fora da literatura na sua língua são muito poucas as suas refrências.

Para mim, o fundamental foi saber o que é que cada um pensava do seu próprio ofício, da arte, da articulação de ideias e emoções através da palavra, visitar o seu canto, bisbilhotar os seus gestos, os seus adornos, os seus ritmos. Deixo o pedido à editora "Tinta da China" e ao carlos Vaz marques que seleccionou e traduziu estas entrevistas: não podem publicar mais umas quantas das entrevistas da Paris Review?

Ficam-me algumas citações, marrações provisórias, bombas de profundidade que me servirão para reflectir sobre esta arte maravilhosa que é a de escrever e escrever e escrever.

" - Como é que um escritor se torna num romancista sério?

(Faulkner) Noventa e nove por cento de talento... Noventa e nove por cento de disciplina... Noventa e nove por cento de trabalho. Nunca nos podemos dar por satisfeitos com aquilo que fazemos. Nunca nada é tão bom como aquilo de que somos capazes."

"(Saul Bellow) Alguns escritores são demasiado sérios a respeito de si próprios. existe o perigo de tornar o A de artista demasiado maiúsculo. Stravinsky diz que o compositor deve praticar o seu ofício tale qual como um sapateiro. Mozart e Haydn aceitaram encomendas. No séc. XIX, o artista esperava altivamente pela inspiração. Quando alguém se eleva a si mesmo a um patamar de instituição, está metido em sarilhos."

"(Jorge Luís Borges) Não me parece que um escritor se deva intrometer demasiado no seu próprio trabalho. Deve deixar o trabalho escrever-se a si próprio, não é?"

"Lawrence Durrell) A poesia acabou por se revelar uma amante extraordinária. Porque a poesia é forma, e o namoro e a sedução da forma é a regra do jogo."

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

QUE VIVA A LITERATURA QUE NOS DÁ PRAZER




A propósito do novo livro de Dan Brown, recordei-me do texto que escrevi, faz alguns anos, sobre o seu “Código Da Vinci”.


A propósito do valor literário que Alberto Manguei confere às obras que contam histórias, quero referir o livro de Dan Brown, "O Código Da Vinci". Li-o em poucos dias, o que, para mim, foi proeza notável, visto a obra ter mais de quinhentas páginas (na edição portuguesa). E essa leitura permitiu-me compreender a razão do seu êxito – êxito clamoroso, tanto nos Estados Unidos da América, como nos países da Europa (Portugal, neles compreendido). De facto, estamos perante uma história bem contada, que tem início no assassinato do conservador chefe do museu do Louvre e que se desenvolve segundo as regras do romance policial, em que cada capítulo constitui uma peça de um "puzzle" complexo e nos incita a passarmos ao capítulo seguinte, ou seja, à pedra seguinte do "puzzle", que dê sentido ao enigma em que nos vamos enredando.
O tema central é aliciante: a revelação dos segredos que envolvem a vida e a pregação de Jesus e o escamoteamento que a Igreja Católica Apostólica Romana teria feito, ao longo dos séculos, de tudo o que se refere à presença do elemento feminino na doutrina cristã – presença imprescindível à compreensão da mensagem de Cristo, na opinião de Dan Brown. Segredo, segredos que, no entanto, teriam sido preservados, desde tempos imemoriais, por figuras de eleição e por certas instituições, como é o caso da ordem místico-religiosa dos Templários. Leonardo Da Vinci seria, exactamente, um dos iniciados em tais secretismos e, ao longo da sua obra pictórica, ter-nos-ia deixado pistas várias, que permitiriam a sua revelação. Entre essas obras, avulta "A Última Ceia de Cristo", que, através das personagens que a compõem, nos colocaria na senda da decifração de um dos mistérios que mais têm inflamado a imaginação do homem ocidental: a demanda do Santo Graal!
Eis, em linhas gerais, a trama e os ingredientes de que é feita a obra. Mas há mais e será nesse mais que reside o que ela tem de singular – e cativante. Por exemplo, o crime de morte que desencadeia a acção gera dois "inquéritos": o policial e o que é conduzido por um professor americano, perito em simbologias, que, por via disso, é considerado o suspeito número um - o que o leva a empreender a fuga. A ele se agrega a neta do conservador, que guarda memória de algumas conversas com o avô, o que se revela de grande utilidade para a compreensão do que se teria passado. Estas duas investigações, opostas nos métodos que utilizam, vão-se mutuamente imbricando, por força das circunstâncias, o que confere um interesse acrescido à narrativa. Narrativa pontilhada por uma série de imprevistos, mortes, que adensa o mistério e apelam à imaginação do leitor. Este apelo ainda é mais evidente nas questões que lhe são postas, através de uma complexa orquestração "charadística" da acção (e de uma utilização permanente de onomásticos de raiz anagramática), o que exige uma dupla participação do leitor: enquanto "construtor reflexivo" do texto e sujeito moral que tem de "tomar partido". Por isso e pelo sentido eminentemente visual da narração, "O Código Da Vinci" apresenta fortes semelhanças com a obra cinematográfica (e, até, com algumas telenovelas). Semelhanças que se acentuam com a organização da acção por núcleos temáticos, que funcionam como registos autónomos (cada capítulo - curto - encerra um episódio específico e um conjunto de capítulos narra uma história dentro da história).
Poderemos dizer que os grandes temas abordados (profano versus sagrado; pagão e cristão; poder e prepotência da Igreja Católica; desvalorização e subordinação do feminino), são tratados de modo simplista, ingénuo, preconceituoso, confundindo-se constantemente a realidade com a fantasia, a História com a lenda – poderemos, pois, dizer tudo isso, mas não poderemos deixar de nos deliciar com o encanto que emana de urna história muito bem contada. Com Alberto Manguel, direi: que viva a literatura que nos dá prazer, seja ela qual for!

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O SENTIDO E A AUSÊNCA DE SENTIDO



Pintura também faz parte da leitura. E de que maneira. Vem isto a propósito de uma enorme e fantástica exposição no Palácio Galveias de João Abel Manta.

Grande senhor da cultura e da arte, João Abel Manta vive há muito retirado dos holofotes, dos jornais e das miudezas sociais. Desenhador, ilustrador e cartoonista, João Abel Manta, por insistência da filha, deu agora a conhecer parte do seu excepcional trabalho como pintor.

Está no Palácio Galveias em Lisboa, ao Campo Pequeno. Guarde-se um bom par de horas para o apreciar porque é de uma imensa coerência, densidade e extensão. Imperdível.



Vem esta conversa a propósito da busca de sentido em cada leitura que se faz do mundo, da arte e da vida, por um lado, e, por outro lado, do negócio manhosito que anda por aí a grassar e que faz profissão de louvar a ausência de sentido.

O Jornal de Letras de 16 de Dezembro traz uma reportagem/entrevista com João Abel e um artigo de Rocha de Sousa que reflecte e nos ajuda a ler a obra agora exposta e que, através de uma grande coerência formal nos leva a viajar por mitologias diversas, retratos de músicos, pintores e escritores que são reflexões plásticas sobre o fazer da arte e queainda nos atira à cara duas mortes de Salazar que têm algo de vingança tardia e retrato de um país onde a imagem reciclada do ditador continua a fazer algumas aparições fantasmáticas.

Tomando para si uma herança óbvia da paleta de Goya e, em parte, de alguns simbolistas e expressionistas, João Abel Manta trabalha sobre uma enorme teia de sentidos, de inter-relação de referências culturais, pictóricas, literárias, musicais, históricas e mitológicas, e assim acrescenta-nos na nossa sempre incompleta forma de olhar e ler o mundo e a história.



Curiosamente, ao lado das quatro páginas dedicadas a João Abel Manta, temos uma página dedicada à edição da obra de Adília Lopes que tem por título "Dobra".

Da comparação das duas abordagenn à obra de um e à "Doba" da outra, nasce-me uma leitura sobre alguns equívocos que passam pela promoção daquilo a que se tem chamado a pós-modernidade nas artes plásticas e na literatura.

Muita da arte contenporânea dita pós-moderna existe pelo que não é. Ou melhor, para existir exige complexas elaborações teóricas sem as quais essas mesmas formas artísticas seriam com frequência absolutamente ilegíveis. Em certos casos, diria, a obra dita de arte chega mesmo a ser excedentária e dispensável.

Podemos, assim, opôr uma arte que se baseia em rebuscadas explicações e elaborações teóricas de comissários, curadores, críticos e outros avulsos, a uma outra arte que busca na raiz da história a forja do sentido.

O artigo em causa fala-nos da obra ou da "Dobra" de Adília como algo que "levado às suas últimas consequências não quer dizer exactamente nada". Fala da "despoetização dos seus poemas" e tece-lhe desatados elogios, ligando-a a uma delirante lista de autores e pintores que vão de Gil Vicente e Eça de Queiroz a Paula Rego ou Alexandre O'Neill.

Por imensas razões poderia questionar a pertença da autora a esta sequência um pouco arbitrária de nomes respeitabilíssimos.

Refiro apenas O'Neill, curiosamemte grande amigo de João Abel Manta, e que era, quanto a mim, o oposto de Adília Lopes: um homem cuja obra é uma fantástica fábrica de produzir sentidos.

Ele próprio denunciava certas ligeirezas, perguntando num poema aos seus colegas poetas se não estariam a exagerar "no fabrico da faca sem lâmina a que lhe falta o cabo"...

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

ANTICLERICALISMO EM ALBERTO CAEIRO E GUERRA JUNQUEIRO




Se Alberto Caeiro é conhecido pelo seu lirismo panteísta, Guerra Junqueiro (o Junqueiro de “A Velhice do Padre Eterno”) é geralmente conotado com a sátira, a virulência anti-clerical. Mas será mesmo assim? Desta pergunta, decorre o texto que se segue

"Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado."

Assim começa Alberto Caeiro o seu poema "O Guardador de Rebanhos". Através destes primeiros versos, fica dado o tom lírico do texto. Lirismo eivado de amor por tudo o que existe na Natureza. Ora, é exactamente esta característica que tem levado os críticos a considerar "O Guardador de Rebanhos" como um dos grandes poemas panteístas da nossa literatura. Admitamos que assim seja. Mas, se o admitirmos, logo surge uma pergunta: como se explicam as primeiras estrofes do "canto" VIII? Estrofes do mais violento anticlericalismo da poesia portuguesa. O menino Jesus, que tinha descido à terra por um raio de sol, fala ao poeta do céu, do seu Pai e da sua Mãe:

"Tinha fugido do céu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No céu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e árvores e pedras.
No céu tinha que estar sempre sério
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda à roda de espinhos
E os pés espetados por um prego com cabeça,
E até com um trapo à roda da cintura
Como os pretos nas ilustrações.
Nem sequer o deixavam ter pai e mãe
Como as outras crianças.
O seu pai era duas pessoas –
Um velho chamado José, que era carpinteiro,
E que não era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estúpida,
A única pomba feia do mundo
Porque não era do mundo nem era pomba.
E a sua mãe não tinha amado antes de o ter
Não era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do céu.
E queriam que ele, que só nascera da mãe,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justiça!"

E depois de descrever as brincadeiras, as pequenas "diabruras" do Deus menino, Caeiro acrescenta:

"Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele é um velho estúpido e doente,
Sempre a escarrar no chão
E a dizer indecências.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Espírito Santo coça-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no céu é estúpido como a Igreja Católica.
Diz-me que Deus não percebe nada
Das coisas que criou
"Se é que ele as criou, do que duvido".

A violência anticlerical explode, pois, em toda a sua força, a contrastar não só com o início do poema, como com as estrofes seguintes do texto. Embora compreenda o efeito contrastante que Alberto Caeiro-Fernando Pessoa pretende obter com a inclusão deste "intermezzo", não posso deixar de me espantar com a violência anticlerical que o caracteriza. Tão violento quão primário, o que, de modo algum, caracteriza a poesia de Pessoa. Anticlericalismo que se aproxima, e em muito, da poesia de "A Velhice do Padre Eterno", de Guerra Junqueiro. Mas não é só neste aspecto que o poema de Caeiro-Pessoa se aproxima de "A Velhice...": as suas estruturas também apresentam grandes semelhanças. Como Pessoa-Caeiro, Guerra Junqueiro inicia o seu poema com uma estrofe feita de pureza e simplicidade:

"Ó almas que viveis puras, imaculadas
Na torre de luar da graça e da ilusão,
Vós que inda conservais, intactas, perfumadas,
As rosas para nós há tanto desfolhadas
Na aridez sepulcral do nosso coração;
Almas, filhas da luz das manhãs harmoniosas,
Da luz que acorda o berço e que entreabre as rosas..."

Repare-se como o lirismo que percorre estes versos se constrói a partir de imagens, de metáforas que têm a alma humana e a Natureza como referentes centrais. Mas, rapidamente, essa toada de elevada espiritualidade transforma-se num violento ataque à religião católica, à sua Igreja, aos sacerdotes que a constituem. A obra, embora entremeada por alguns trechos de sentido lírico, é, no seu conjunto, uma violentíssima diatribe contra a Igreja e as "suas concepções" de Deus:

..."Como éle é velho, com o frio
Tósse; e Prudhome diz-lhe então:
- Deus, aqui tens êste bacio...
Não vás cuspir no meu salão.

E às vezes do alto do infinito,
Talvez depois dum mau jantar,
O Padre Eterno faz cabrito,
E enche o bacio a transbordar.

E o pote enorme onde cuspinha
O truculento Manitu,
Sem ninguém ver, logo à
noitinha
Vai despejá-lo Belzebut."

Por sua vez, a criação do mundo ("O Génesis") constitui uma das tiradas mais violentas, em que o sórdido se alia à mais desenfreada das mordacidades:

"Jeová, por alcunha antiga - o Padre Eterno,
Deus muitíssimo padre e muito pouco eterno,
Teve uma ideia suja, uma ideia infeliz:
Pôs-se a esgaravatar co'o dedo no nariz,
Tirou dêsse nariz o que um nariz encerra,
Deitou isso depois cá baixo, e fez-se a terra.
Em seguida tirou da cabeça o chapéu,
Pô-lo em cima da terra, e zás, formou o céu.
Mas o chapéu azul do Padre-Onipotente
Era um velho penante, um penante indecente,
Já muito carcomido e muito esburacado,
E eis aí porque o céu ficou todo estrelado.
Depois o Criador (honra lhe seja feita!)

Achou a sua obra uma obra imperfeita,
Mundo sarrafaçal, globo de fancaria,
Que nem um aprendiz de Deus assinaria,
E furioso escarrou no mundo sublunar,
E a saliva ao cair na terra fez o mar.
Depois, para que a Igreja arranjasse entre os povos
Com bulas da cruzada alguns cruzados novos,
E Tartufo pudesse inda dessa maneira
Jejuar, sem comer de carne à sexta-feira,
Jeová fez então para a crença devota
A enguia, o bacalhau e a pescada marmota.
Em seguida meteu a mão pelo sovaco,
Mais profundo e maior que a caverna de Caco,
E arrancando de lá parasitas estranhos,
De toda a qualidade e todos os tamanhos,
Lançou-os sôbre a terra, e dêste modo insonte
Fez êle o megatério e fez o mastodonte..."

Creio que os exemplos que citei dão a dimensão do que pretendo fazer
ressaltar: as semelhanças entre o anticlericalismo dos dois autores. Semelhanças
na organização do discurso, nas terminologias, na construção das invectivas.
Evidentemente que em Alberto Caeiro surge como algo de pontual, o que não
acontece em Guerra Junqueiro, que utiliza este estilo de modo sistemático, com
um propósito bem definido: lutar contra o poder da Igreja Católica, enquanto
militante republicano que pretende minar o poder da Monarquia, de que a Igreja
era um dos suportes mais sólidos. Mas o escrito de Guerra Junqueiro data de 1882 e o de Caeiro-Pessoa de 1912, momento em que a República já estava implantada. Assim, o que se compreende em Guerra Junqueiro dificilmente será de entender em Caeiro-Pessoa. Não só pela sua inserção no tempo, como também pela falta de motivação de Fernando Pessoa para as lutas político-partidárias. Mas talvez possa haver uma explicação para o paralelismo entre “A Velhice do Padre Eterno” e “O Guardador de Rebanhos”. Ou seja, tratar-se-á de um mesmo artifício literário, através do qual se pretende fazer ressaltar a pureza, a beleza das “coisas simples e naturais”, por contraste com o “complicado”, o “bafiento” de crenças religiosas anquilosadas. Artifício extremamente evidente em Guerra Junqueiro, presente na estrutura temática de muitos dos poemas que constituem “A Velhice do Padre Eterno”, como é o caso de “O Melro”.
Como nota final, não posso deixar de formular uma pergunta: teria Alberto Caeiro colhido inspiração na obra de Guerra Junqueiro? Pergunta, questão, que nunca vi formulada pelos especialistas desses autores. Questão menor? Talvez não, até porque nos pode pôr na pista de alguma continuidade que a poesia do século XIX teve em autores da nossa modernidade. Inclusivamente, em Fernando Pessoa...

domingo, 27 de dezembro de 2009

A MÚSICA DA FOME



Entro na leitura de Clézio como se entrasse numa igreja ou numa catedral. A frase inicial “Conheço a fome, senti-a.” soa como um arco tenso que me atira a flecha das palavras sem adornos e me coloca frente a uma raiz carregada de emoção e verdade.

Essa emoção conduziu-me ao longo do livro entregue às palavras trabalhadas musicalmente num andamento cuidadoso, contido e seguro.

Tudo se passa nos olhares dos personagens, nas suas interrogações e memórias que se cruzam para construir o tempo da 2ª Guerra Mundial em França. O tempo da fome. E não é só de fome de comida que o livro fala, embora seja esse o seu ponto de partida e o seu cenário de fundo onde se move a principal personagem, Ethel que atrevessa a fome enquanto atravessa a adolescência.

Todo o romance me transportou para um tempo que não foi o meu, uma cidade que não foi nem é a minha, uma forma de olhar que não será a minha. E, no entanto, deve ser esse o sinal da boa literatura ou simplesmente da literatura, reconheço-me nas ruas, nos sobresaltos, nos olhares e nos silêncios que vão anunciando o naufrágio de uma família francesa com origem na Ilha Maurícia como o próprio autor.

Naufrágio dentro de outro naufrágio. Porque o pai, Alexandre, embarca em todos os negócios falhados, todos os naufrágios anunciados. E o único sonho verdadeiro, partilhado pela pequena Ethel e pelo tio avô, a construção da Casa Cor de Malva, acaba por falhar com a morte do tio avô e o apodrecimento das madeiras.

A mãe, Justine, embora se mantenha de pé até ao fim, falha perante o amor de Alexandre com Maude, e perde-se em discussões de que Ethel vai ouvindo aqui e ali apenas farrapos e reflexos.

No salão, à volta de Alexandre, juntam-se chauvinistas, anti-semitas, reaccionários, fascitoides que através dos seus diálogos nos vão dando a compasso a música do caminho para o abismo da guerra.

A guerra chega e vem a fome, descrita em pinceladas comoventes. E esta fome,
física, de tão absorvente, até parece aliviar a outra, a fome de alegria e de sonho.

O amor de Ethel por um silencioso inglês, amor aparentemente realizado embora sem palavras, leva-a para o Canadá no fim da guerra e da adolescência, afastando-a assim desta música e desta fome que talvez não termine, conforme nos é sugerido pela visita do filho de Ethel a Paris nas páginas finais.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O CONTO NORTE-AMERICANO NA ACTUALIDADE: RICHARD LANGE


Lange, Richard Lange, tem sido considerado pela crítica como um continuador de Raymond Carver ou, pelo menos, como alguém que lhe está muito próximo. Não sei se será exactamente assim. Enquanto em Carver as descrições objectivas de situações e de comportamentos (verbais e não verbais) das personagens assumem um papel central no processo de construção da história, em Lange as descrições não têm a mesma centralidade no processo narrativo, nem se situam num plano de pura objectividade. Constituem, sim, referências para um conhecimento do mundo de emoções, de pensamentos do narrador, enquanto personagem principal da história.
Se podemos considerar Carver um escritor pós-modernista (na acepção que lhe é atribuída por Douwe Fokkema), o mesmo não se poderá dizer de Lange, que se situa entre o modernismo e o pós-modernismo, na medida em que utiliza elementos de um e de outro destes dois movimentos, como se poderá verificar num dos seus livros mais recentes, “Dead Boys” (Little Brown and Company, USA ou Albin Michel, France).
Estamos, pois, perante uma escrita híbrida, o que não lhe retira legitimidade. Em última instância, podemos considerar que é uma expressão da cultura de uma época em que foram ultrapassadas as oposições entre escolas literárias.
“Dead Boys” é uma colectânea de doze contos que se estendem por cerca de 290 páginas (na edição francesa), que abordam temas variados, a constituir um fresco da sociedade norte-americana de hoje. “Bank of America”, o primeiro conto, é um texto que, do ponto de vista formal, deve algo a Carver, nomeadamente na organização das sequências preparatórias do assalto ao banco. De destacar a caracterização das personagens que compõem o grupo que prepara o assalto. Caracterização indirecta, decorrente da sua participação no processo que antecede a acção, mas extremamente conseguida. Personagens de nomes sugestivos, como Moriarty, o cérebro, o eixo do mal.
Num outro conto, “Fuzzyland”, Lange relata-nos a relação entre um irmão e a sua irmã, relação marcada pela violação da irmã por um desconhecido, o que nos sugere o clima de violência que se vive naquela comunidade da pequena burguesia das imediações de Los Angeles/Hollywood. Violência que se esconde nas pregas de um viver e de um estar em que, aparentemente, nada acontece. O incêndio que lavra nas montanhas que rodeiam a cidade é um marcador que pontua a narrativa e anuncia o drama que se oculta no quotidiano do autor-narrador. Nada é explícito, tudo se vai revelando insinuosamente, a criar uma tensão difusa, mais causadora de perplexidade do que de mal-estar.
“Tout ce qui est beau est bom” é o título (na edição francesa) de um dos contos mais característicos de Richard Lange, estruturado sob a forma de conjunto de fragmentos, aleatórios em relação à história que se vai urdindo (a progressiva perturbação psíquica de alguém abandonado pela namorada). Fragmentos que têm, ainda, uma outra função: revelar ao leitor o esqueleto a partir do qual se construiu a história. O que não é habitual na literatura ficcional, que nos apresenta a história acabada e nunca o processo da sua construção.
Por tudo isto e por algumas razões mais, uma pergunta: para quando uma tradução portuguesa dos contos de Lange?

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A Ilha das vozes


A mensagem do José Fanha tem vários pontos de contacto com o que escrevo agora. Também eu tenho um livro, A Ilha do Tesouro do Robert Louis Stevenson, na prateleira a aguardar um espaço entre as leituras vagabundas. Também na mesma colecção da Presença saiu recentemente uma selecção (sempre do Borges) de contos do Stevenson (A Ilha das Vozes). Ambientados quase todos nas ilhas para onde o autor se retirou por motivo de doença, entramos num mundo de magia, feitiços, encantos e aventura. Globalmernte o livro deixou-me encantado, mas o mesmo não posso dizer do conjunto da colecção que contem alguns volumes brem fraquitos.


Boas festas com boas leituras

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

BARTLEBY, O ESCRIVÃO



O que é escrever bem?, perguntou-me uma das minhas filha. Não é fácil encontrar resposta imediata. Mas estou certo que se quiser dizer a alguém o que é escrever bem dar-lhe-ei a ler este conto ou novela de Melville.

Herman Melleville escreveu um dos mais notáveis romances da história da literatura: "Moby Dick". É obrigatório lê-lo, farto-me de dizê-lo às filhas. E eu, miserável leitor vagabundo, tenho-o adiado na estante das urgências e envergonhadamente confesso que ainda não o li.

Mal vi este "Bartleby" agarrei-me a ele numa espécie de acto de contrição. Trata-se de um conto único, construído em torno de uma personagem enigmática e simbólica, Bartleby, o escrivão, sobre o qual muitos outros escritores se tâm debruçado, nomeadamente Jorge Luís Borges que faz a apresentação do conto nesta "Biblioteca de Babel" em que o grande escritor argentino juntou algumas obras primas da literatura fantástica e que, em boa hora, a Presença tem vindo a publicar, contando já com obras de Papini, Chesterton, Edgar Allan Poe, Kipling ou Jack London.

São pequenas jóias publicadas com a deliciosa apresentação gráfica da edição italiana.

Bartleby é o escrivão que começa a trabalhar no escritório de um notário e que se recusa a obedecer a qualquer ordem do patrão argumentando apenas que: "Preferia não fazer isso." E o narrador, o seu patrão fica paralisado perante o inesperado da resposta que se vai repetindo.

De início Bartleby prefere não fazer pequenas tarefas, depois, prefere não trabalhar e pasa o dia à janela. Quando o patrão o despede, Bartleby prefere não sair do escritório. Incapaz de lidar com a situação

É fantástica a sequência de reflexões que o patrão/narrador faz para tentar compreender as razões de um comportamente cada vez mais absurdo e desesperado que levará Bartleby à morte, provavelmente porque prefere não viver.

O ritmo da escrita de Melville que nos leva a mergulhar progressivamente nesse absurdo é irresistível.

E quando chegamos ao fim, sem saber bem o que dizer, ficamos revelados e envolvidos na frase com que o autor termina escrevendo:

"Ah! Bartleby! Ah! Humanidade"