quarta-feira, 13 de julho de 2011

“Tu és a minha terra” in Sparkenbroke de Charles Morgan


Só Para o Meu Amor é Sempre Maio

Cartas do Verão de 1943

de António José Saraiva / Maria Isabel Saraiva

1997, Gradiva

Em tempos idos eram as cartas… Levavam e traziam sentimentos, despertavam e acalmavam saudades. Cada tempo tem o seu quê de vantagem. Não gostaria de prescindir, hoje, das vantagens da comunicação mas lamento a perda das cartas. Havia um lado bom na sua lentidão, no seu registo perene, na possibilidade de se poderem acariciar nas mãos. Não, não dá para colocar uma fita à volta de uma panóplia de mails, ou sms, chorar sobre eles ou estreitá-los de encontro ao coração. Por muito démodé que seja o meu lamento é um lamento.

Este livro, agora relido, consta da correspondência trocada entre António José Saraiva e sua futura mulher, Maria Isabel Saraiva, durante os meses de Verão de 1943. As suas cartas permitem-nos acompanhar o enamoramento, pinceladas da vida profissional, dilemas pessoais, registos da época, quase como uma autobiografia a duas mãos.

Tudo começou, segundo ela conta, numa aula dele a que ela assistia, quando ele era primeiro-assistente do professor Vitorino Nemésio.

“A menina não se importa de desenvolver mais o que disse? Gostei muito de a ouvir. As suas palavras ficaram a dançar no ar.”

Começou aí e as palavras continuaram a dançar… O António esperava-a à saída da Faculdade de Letras e iam da Rua do Arco até Santos, onde ela apanhava o eléctrico para Belém. Ambos gostavam de andar a pé, gosto que mantiveram vida fora. Falavam de tudo, da guerra, raramente de política, sobretudo de Literatura. António gostava muito de Camões, é de um soneto de Camões, de que António gostava particularmente, o título deste livro.

Quando se conheceram a Isabel namorava outro rapaz, um bom partido, com o qual se sentia incompreendida. António começa por ser seu confidente, o namoro só começará mais a tarde, a 8 de Julho precisamente, segundo ela conta. Têm a oposição da família, até no casamento que acontecerá a 16 de Outubro do mesmo ano, em cerimónia simples, também por esse facto, nos Jerónimos.

As cartas de um e de outro contam das impaciências e da paciência. De detalhes e contratempos próprios da época: no mandar um telegrama, fazer um telefonema, uma viagem ou do receber uma encomenda de livros. Desfiam-se os relatos das hora a que se escreveu, da data em que a carta devia ter chegado, da circunstância em que chega… Num ritmo lento que parece tornar meses em anos. Neste passeio ao passado acompanhamos tricas dos colegas da Universidade, Vitorino Nemésio, Óscar Lopes, Agostinho da Silva... As relações familiares, as dificuldades económicas. É curioso o preciosismo com que enumeram os gastos, os preços do que compraram ou pretendem comprar. Detalham pequenos nadas que só se partilham com o beneplácito do amor e da ternura.

A relação de Isabel e António cria um espaço próprio apesar de muito condicionada por tudo o que gira à volta deles. Passamos pela História, episódios com a censura, notas de exames da Faculdade, um desentendimento do António José Saraiva com Vitorino Nemésio (ficarão de relações cortadas e apenas Isabel continuará a relacionar-se com ele). Andanças várias com detalhe dos lugares e pessoas que vão cruzando as suas vidas. Falta-lhes a loucura das grandes paixões, são comedidos na ousadia. A leitura das cartas permite-nos fazer um esboço da maneira de ser de um e de outro, ainda em fase de definição e ver, na época, um certo lado preconceituoso e conservador de ambos. Numa carta António admoesta-a pelo facto de se ter pintado, facto que ele descobre através de uma foto. E na carta seguinte ela justifica-se, entregando-lhe a razão, algo submissa e recatada como era suposto uma boa mulher ser na época. Noutra ela assume a sua dificuldade em relacionar-se entre cheiros ou tarefas mais “populares”. No entanto, Maria Isabel vai revelando nas cartas uma força uma capacidade maior, por acção ou conciliação, de resistir a adversidades. Interessante a forma como o lado feminino evolui e ancora uma relação. António dizia-o embora, creio, sem ter total consciência do alcance do dito: “Tu és a minha terra.”

Interessante a referência aos livros e histórias de amor que os entusiasmam e que eles comentam nos pontos em se sentem mais próximos ou mais afastados, como Sparkenbroke ou Tristão e Isolda, na tentativa de chegarem à melhor definição do que sentem um pelo outro, de encontrar um caminho, uma vida comum dentro da harmonia. Ou as reflexões sobre o pecado e a moral seja nos sentimentos seja na forma de ver o mundo exterior a eles. Lemos sugestões para a uma tese, conselhos para um trabalho ou recomendações sobre a saúde. Preocupações dele pela magreza dela. Ou os planos para mobilar a casa com parcos recursos. Tudo parece arquitectura de um plano maior para o seu amor.

“quando nos encontrámos começamos a a caminhar naturalmente como se sempre tivesse sido assim” AJS

"Estou mais triste que contente mas é uma tristeza calma e sossegada" MIS

“O correio de hoje não trouxe carta tua. Ontem, antes de te conseguir falar, tive uma grande questão com o telefonista do hotel” AJS

"O Correio da Guarda chega cá às 9h30m da noite. Não chegaste a comprar a gravata? Gostei muito de falar contigo ontem. Foi o dia em gostei mais. Pareceste-me muito simpático. Responde às minhas cartas" MIS

“Ontem pensei que, se tu morresses, eu também morria. Só posso pensar a vida contigo. Que coisa extraordinária!” AJS

"Quando eu penso que poderíamos não nos ter encontrado falta-me logo o ar, sinto o desespero de quem quer respirar e não pode" MIS

“Tem confiança em mim. Eu sou uma cousa segura. Tenho a certeza que no fim da vida pensarás que valeu a pena viver comigo. Valeu, porque tu vieste comigo.”AJS

"Eu sinto saudades de tudo de ti. Tenho saudades de falar contigo, de apertar as tuas mãos, de andarmos de ombro a ombro. " MIS

“Meu amor, não te sei dizer mais nada. Logo telefono-te. Mas a telefonar-te também não me sinto bem. Estamos a 12 de Agosto. Vais-te embora daqui a oito dias. O tempo parece-me comprido. O que já passou tem custado a passar; mas o que está para vir ainda mais. Ainda não “criei a situação” de estar longe de ti. “AJS

"Não desperdiçamos hora a hora uma riqueza que nunca mais recuperaremos. não leias isto como umas palavras quaisquer, vê se por detrás das palavras consegues sentir a força e a vida das coisas"MIS

“Sinto cousas para te dizer esta noite. Quando te escrevo agora fujo para o meu país. Às vezes todo o mundo à roda me parece tão diferente do nosso país. Tu és a única pessoa com quem posso ser ingénuo e crente. Mas nós dois juntos talvez possamos ser ingénuos e crentes no mundo” AJS

"Cada dia que vier é uma prova e eu quereria muito que no fim do dia pudéssemos dizer que vencemos" MIS

Há uma certa puerilidade. Estamos em 1943… Não é de todo a única justificação, mais que a época pesam, talvez, as características da personalidade de cada um. Não sei como terá sido depois. Se o apaziguamento que ansiavam os deixou menos românticos. Não fui à procura de detalhes do seu relacionamento posterior. Mas é elucidativo e enternecedor o que escreve Isabel, no prólogo, sobre o efeito da leitura das cartas à data da publicação:

“Depois… a vida foi o que foi. Mas houve coisas boas e muito bonitas: uma delas são os três filhos, o António, o José António e o Pedro. Hoje ao reler as cartas, apaixonei-me – e não digo tornei a apaixonar-me porque os sentimentos não se repetem - por quem as escreveu, e amei aquele homem como se fosse pela primeira vez, como se nada do que se passou entre aquele Verão de 43 e hoje tivesse acontecido”.

Maria Isabel revela nesta breve introdução uma capacidade de análise distanciada e lúcida distinta já da Menina e Moça que parafraseava Bernadim Ribeiro. Revela o seu lado de mulher mais capaz de decompor e analisar a realidade, de agir com força e determinação por entre as vicissitudes da vida, sobre os seus pequenos desencantos.

Qualquer pessoa apaixonada sonha, romanticamente, cartas que cheguem pelo meio dos dias comuns sem mais razão que aquela que o coração dita. Anoitecem os dias, ensombra-se o espírito na espera se o carteiro não tocar, uma, duas vezes, ad eternum … O momento escrito permite guardar a memória do vivido e, assim, na leitura, ser revisitado, vivido, ad eternum

Se esta partilha de livro vos inspirar à leitura terá cumprido sua missão. Se vos colocar no trilho da escrita epistolar alguém por certo vos agradecerá.


domingo, 10 de julho de 2011

UMA IDEIA DA ÍNDIA



Bela colecção, esta dirigida por Carlos Vale Marques. Livros de viagem, alguns de autores mais conhecidos, Robert L. Stevenson, Peter Carey, Saul Bellow, Werner Herzog, por exemplo. Outros de autores que se vão tornando conhecidos e reconhecidos como é o caso de Alexandra Lucas Coelho.

Estes livros são graficamente agradáveis, pensados como objectos que nos apetece ter na mão, tão diferentes das capas que estão na moda e que no geral traduzem uma concepção de grafismo cheio de dourados, resultantes de opções editoriais que, com algumas excepções, são pouco exigentes e produzem livros dirigidos a consumidores apressados e também pouco exigentes.

Os livros desta colecção guardam escritos, opiniões, resumos, apontamentos, resumem ideias, impressões, reflexões, episódios de viagens, cumprem uma das mais importantes funções da literatura: dar-nos a conhecer o outro, o nosso irmão do outro lado do mundo, as suas diferenças e semelhanças, o clima em que se movem, a religião que professam, as suas idiosincrasias que por vezes nos estranham profundamente e que outras tantas vezes nos interrogam e iluminam.

Livros de viagens a kilómetros de distância do conceito básico de fast food que é o turismo de massas. Trazem olhares que mergulham na realidade visitada. Questionam-na. Viram-na do avesso. Relacionam-na com outros relatos, outras ideias e outros olhares.

De uma viagem assim, compartilhada neste caso com a escritora Elsa Morante e o realizador de cinema Pier Paolo Pasolini, resultou este livro do grande romancista Alberto Moravia que procura uma ideia que nos permita entender a Índia. Escrito há 50 anos, Moravia fala-nos de uma Índia que não terá mudado em muito, por um lado, mas que mudou e muito por outro lado.



Impiedoso, Moravia dá-nos sobre a Índia um olhar duro, racional e culto, sem simpatia artificial nem paternalismo. Podemos dizer que o resultado é um conjunto de reflexões e “retratos” que nos envolvem e que nos fazem querer saber mais e mais sobre este país fantástico e tão contraditório.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

DOIS GRANDES ESCRITORES FRANCESES NAS TEIAS DA REVOLUÇÃO




Anatole France (1844-1924) e Roger Vailland (1907-1965), dois grandes romancistas franceses nas teias da Revolução Francesa, nas teias literárias da escalpelização do maior acontecimento da História de França dos tempos modernos. Duas obras magistrais: “Os Deuses têm Sede”, de Anatole France (1ª edição em 1912, edição portuguesa esgotada); “Um Homem do Povo na Revolução (edição portuguesa da Portugália, sem data); dois grandes romances com um suporte impressionante de documentação histórica. No caso de Anatole France, em grande parte devido ao seu pai, livreiro em Paris, especializado em obras sobre a Revolução Francesa; Roger Vailland, romancista probo, a recorrer à colaboração do historiador Raymond Manevy, especialista naquela época histórica. Duas obras diferentes, escritas em momentos diferentes,que nos explicam mais sobre a Revolução Francesa do que muitas obras históricas que se têm debruçado sobre o tema. O que coloca, uma vez mais, o problema da relação entre romance e História. A minha experiência como leitor atento e estudioso de alguns períodos históricos sempre me mostrou que o romance histórico, quando fundamentado em documentação fiável, tem um poder explicativo e interpretativo da realidade histórica que ultrapassa, e em muito, a obra histórica propriamente dita. O que se compreende se pensarmos que uma das finalidades do romance é fazer-nos sentir, compreender, em suma, “viver” o que as suas personagens sentem, pensam, fazem, num determinado contexto.
Por outro lado, a afirmação de que a literatura é uma fonte inesgotável para o conhecimento de uma época é algo de insofismável, como se poderá comprovar, por exemplo, pelos romances de Eça de Queirós, imprescindíveis para o conhecimento da burguesia lisboeta da segunda metade do século XIX.



O que acabei de dizer sobre o romance histórico aplica-se, com toda a propriedade, aos romances de Anatole France e Roger Vailland, atrás citados. São dois romances através dos quais podemos sentir o pulsar do mais conturbado período da História de França, ou seja, o final do século XVIII e inícios do XIX. Período a partir do qual se forjou muito da História da Europa dos tempos actuais.
Anatole France, com a sua obra “Os Deuses têm Sede,”faz-nos compreender como o pior, o mais cruel dos fanatismos pode surgir do mais puro, do mais generoso dos ideais revolucionários. A finura da sua análise da política e dos políticos da época, em busca de novas formas de governação, que a queda da monarquia e o consequente vazio de poder forçosamente exigiam, constitui, em última instância, uma lúcida advertência que os homens do século XX não quiseram ou não puderam compreender: não foi do ideal comunista da Revolução Soviética de 1917 que nasceu uma das maiores tragédias da História dos nossos dias, com as purgas e o terror do estalinismo?
“Um Homem do Povo na Revolução” apresenta-nos uma outra perspectiva da Revolução Francesa, através da descrição da acção de “um homem do povo”, apanhado nas malhas da Revolução: Drouet, tribuno inflamado, companheiro de Robespierre (o “Incorruptível”) e de Marat, que encarnou os ideais republicanos, pelos quais luta nos bons e maus momentos. Enfim, a história de um puro, idealista e generoso. História que simboliza a saga de um povo em busca da dignidade que só a liberdade, a fraternidade e a igualdade lhe poderão conferir. Mas esta história foi escrita em pleno século XX, quando o modelo de herói já não era o homem saído da Revolução Francesa, mas sim o herói soviético. Daí, algumas das diferenças que este livro apresenta em relação ao de Anatole France. Embora se assemelhem em alguns pontos. Talvez num, mais do que no outro, o verdadeiro herói, o verdadeiro revolucionário é aquele que, vitoriosa a revolução, se confina à sua situação inicial, não aceitando qualquer cargo político. O que nos leva, inevitavelmente, a uma pergunta: quem foi o verdadeiro herói do nosso 25 de Abril: Otelo Saraiva de Carvalho ou Salgueiro Maia? Estou em crer que foi Salgueiro Maia, o eterno “capitão de Abril”. Mas esperemos que surja em breve o romancista do 25 de Abril e dos seus “heróis”, para que esse período da nossa História possa adquirir uma outra inteligibilidade.

sábado, 2 de julho de 2011

A IMPORTÂNCIA DE UMA BOA CAPA


Também pela capa se escolhe um livro.

Com as devidas e honrosas excepções as nossas editoras andam a fabricar demasiadas capas para comer e deitar fora. Capas para encher o olho de públicos apressados e pouco exigentes.

Nas frequentes visitas às livrarias deito aos livros o Raio X do olho leitor, passo por cima de tudo o que é florido, gritante e dourado, e vou à procura dos outros, dos diferentes, dos que vêm do bom gosto, da mão de designers, de caminhos gráficos consistentes, exigentes e com alma própria.

Há editoras cujas capas desenhadas com cuidado, delicadeza e parcimónia são sinais da qualidade da escrita que lhes vai por dentro. Caminho, Sextante, Assírio e Alvim, Relógio d’Água, Cotovia são algumas dessas editoras.

Não quer dizer que outras editoras, com menos pruridos plásticos não editem grandes obras da literatura mundial. Só que pretendem apanhar o leitor pelo lado do “encher o olho”. E há leitores com certeza que precisam desse ”enchimento” para serem chamados aos doces e fantásticos caminhos da leitura.

A verdade é que, se somos o país com mais baixa literacia literária da Europa, no que toca à literacia plástica é de deitar as mãos à cabeça.

Devo dizer que eu, por exemplo, não sou facilmente apanhável por certo tipo de publicidade. Fujo, por exemplo, dos livros de autores anunciados como finalistas deste ou daquele prémio. Primeiro porque poucos são por certo os escritores anglo-saxónios que não foram finalistas de um prémio qualquer. Segundo porque, como diz um amigo meu: “Não tenho tempo para ler. Por isso só posso ler os melhores.”

Vem tudo isto a propósito das obras de um escritor policial americano de que a Cotovia publicou 3 volumes de uma assentada. Gosto de policiais. Nunca tinha ouvido falar deste autor (mea culpa). Foi o bom gosto da capa que me chamou. Li a contracapa e pronto, nestas coisas de livros sou facilzito. Trouxe-o logo para a sobremesa.

Fui à net saber alguma coisa do autor. Nascido em 1938, escreveu mais de 50 livros e criou dois personagens e duas séries diferentes.



Esde livro está cheio de boas ideias. O personagem central é um simpático bibliófilo, livreiro, amante de Espinosa e ladrão especialista em chaves e fechaduras, Bernard Rhodenbarr e tem por cúmplice uma simpática lésbica tratadora e cabeleireira de cães. ,

Vendo-se frequentemente acusado de crimes que não cometeu, Bernard tem de os investigar para salvar a pele..

O ponto de partida é divertido e ligeiro. O enredo é agradável de seguir. E pouco mais. Entretém, seja lá o que isso for. E cumpre bem a sua função. Boa leitura para afastar nuvens ao fim de um dia complicado. Também de um livro assim se fazem os caminhos da leitura.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O PESO DA ESCRITA




"Os cascos do gamo são os quatro dedos do violinista. Avançam às cegas e não falham um milímetro. Saltam precipícios, malabaristas em subida, acrobatas em descida, são artistas circenses para a plateia das montanhas. Os cascos do gamo agarram-se ao ar. O calo almofadado serve de silenciador quando quer, caso contrário, a unha partida ao meio é castalholas de flamenco. Os cascos do gamo são quatro ases no bolso de um batoteiro. Para eles, a gravidade é uma variação sobre o tema, não uma lei."

Um grande livro é feito disto: linguagem, beleza, escrita levada ao patamar da arte.

Uma história feita de quase nada. O velho gamo, chefe da manada, adivinha a chegada do seu último Inverno. O velho caçador furtivo sobe à montanha para a sua última caçada. E há uma borboleta que pousa aqui e ali e cujo peso faz toda a diferença.

A história é curta. O resto é quase um poema, a arte da escrita que nos leva através dos penhascos da montanha, pela grandeza dos animais, pela arte difícil de ser homem e aprender o terrível momento da aproximação da morte. Quase um poema.

Erri de Luca, militante da esquerda jovem dos anos 60 e 70, homem que atravessou o mundo em mil ofícios, jornalista, poeta que aprendeu hebraico e traduz textos bíblicos.

Ao virar da página deixa-nos ainda uma pequena refdlexão ou testemunho de um tempo que não abandona a pele de quem o viveu.

"Durante algum tempo do século passadoa juventude adoptou uma lei diferente da estabelecida. Deixou de aprender dos adultos, aboliu a paciência. Queria ser o prelúdio de tempos opostos, declarava que todas as moedas eram falsas. Nunca mais se viu numa juventude tanta teimosia em virar o prato."


sábado, 18 de junho de 2011

A HORA DOS CONTOS EM ESPANHA

Agora, que estou velho e reformado, agora, um dos prazeres mais intensos dos meus tempos livres é a leitura de livros de contos de autores actuais. E, felizmente, as escolhas não faltam. O contismo, nos últimos tempos, voltou a ser género cultivado em muitos países, nomeadamente em Espanha. Embora pouco traduzidas em Portugal, a aquisição dessas obras está extremamente simplificada através da internet (e utilizando os serviços de uma distribuidora de livros, como a Amazon). Por outro lado, o conhecimento das obras que vão aparecendo está, hoje em dia, muito facilitado pela divulgação que delas faz a imprensa diária espanhola (por exemplo, os suplementos literários de “El País” ou “EL Mundo”). A dificuldade estará, em última instância, na selecção das obras que vão surgindo. Entre essas obras poderei citar: “Pobres mujeres”, de Ignacio Carrión (Edições Rey Lear); “Tanta pasión para nada”, de Julio Llamares (edição Alfaguara) e “ A Hora da Morte dos Pássaros”, de ~
Ignacio Martinez de Pisón (Edições Teorema).



Três antologias de autores conhecidos, a última traduzida em português, razão pela qual a referirei em primeiro lugar. Martinez Pisón, mais conhecido pelos seus romances, dá-nos, nesta obra, um conjunto de oito contos, que correspondem a outros tantos retratos de personagens da sociedade espanhola dos tempos de hoje. A título de exemplo, citarei três desse contos: “Copo de Água no Hotel Colón”, “Fotografia de Família” e “Aeroporto do Funchal”.



O primeiro é um texto divertidíssimo, que tem como tema a personagem do eterno “pendura”, ou seja, de alguém que se infiltra nos banquetes de casamento e, assim, vai sobrevivendo. Descoberto e desmascarado pelo gerente do hotel, é excluído desses banquetes. Mas a sua falta acaba por ser sentida, tal é a gentileza que o caracteriza, o seu porte e maneiras, o calor dos seus discursos, enfim, o brilhantismo que a sua presença confere a tais eventos. O que leva o gerente a convidá-lo a voltar ao “seu” hotel, a fim de animar os festejos nupciais que aí se realizam.

“Fotografia de Família” é outro texto pleno de ironia e mordacidade. Fotografia que irá perpetuar aquele dia em que se comemoram as bodas de ouro do velho casal que ainda não conhecia o marido (melhor, o companheiro) da filha, que não via há catorze anos. Na verdade, tratava-se de uma data festiva, com um significado especial para a família, pois o velho senhor tem os dias contados, embora ainda o não saiba. Por isso, todos desejam que o banquete comemorativo decorra bem e que a fotografia corra ainda melhor, a fim de que esse momento fique devidamente assinalado para todo o sempre. Mas há uma incógnita e um receio: qual será o comportamento de Jorge, o “marido” da filha, um alcoólico com comportamentos imprevisíveis? Todos os cuidados são tomados, mas o imprevisível”previsto”acaba por acontecer, numa catadupa imparável de situações”cinematográficas”, que têm tanto de hilariante como de dramático.

Mas não só de contos em que a paródia é meio (ou fim) é feito este livro. O texto “Aeroporto do Funchal” centra-se numa descrição de sentimentos de um casal em viagem de recreio no Funchal. Amor, ódio, tédio, tudo acontece sem nada ou quase nada acontecer. Enfim, uma descida aos infernos que vivem em nós e, que, de tão subtis, tão íntimos, não podem ser partilhados com os outros.



“Pobres Mujeres” é uma outra obra recentemente editada, que colige treze contos de que é autor Ignacio Carrión, jornalista que se tem distinguido pela publicação de artigos, crónicas, reportagens na imprensa espanhola. Os seus contos, de apurado recorte literário, têm uma nítida influência do jornalismo, o que os torna extremamente interessantes. O que nos faz reflectir, uma vez mais, sobre as relações entre jornalismo e ficção, levando-nos a recordar a obra de Truman Capote”Porgy and Bess”, que, de algum modo , inaugurou um novo género: a entrevista literária.



Atendendo ao que acabo de dizer, creio que não serão de estranhar algumas características desta obra de Inacio de Carrión: precisão de linguagem, objectividade nas descrições de situações; ênfase dada a alguns pormenores, o que permite que as personagens e as suas interacções adquiram um significado específico ( o que denota a influência de técnicas de reportagem). Como este livro não está traduzido em português, permitir-me-ei transcrever algumas passagens do conto “La más hermosa del universo”:

“Prefieres que me salga de tu habitación?, proseguió la madre, me estás despidiendo? Sólo quiero añadir una cosa: como madre esto todavia es peor que tener que afrontar la muerte de un hijo. Sí, peor que si tu murieras, porque no puedo siquiera decirme que te has muerto, no puedo llorar tu muerte...

La madre retrocedió un paso para salir de la habitación y desde alí observó a su hija tumbada en bragas y sujetador, frente al espejo del armário, vio los cabellos desordenados de su hija en el desordre indiscriptible del dormitorio, y se fijó en las manos escuálidas de su hija extendidas sobre el colchón. Reprimió el llanto. Se dijo: ahora no voy a llorar, no quiero darle ese gusto.”
(...)No se permitió ni un solo espasmo más. Se tragó las lágrimas. Endureció la expression de su rostro. Era una madre airada y desenganada. Se secó las lágrimas con una punta del delantal que llevaba puesto , y dijo: Ya está bien.
La hija imitó la voz de la madre. Ya está bien!, repetió, ya está bien, lo haces demasiado difícil, no hagas drama de todo esto, mi cuerpo es mío y mi vida es mía, asi que podrías dejarme en paz. Al oír estas palabras, la madre volvió a gemir y desapareció por el pasillo luego de cerrar la puerta del dormitorio para que muriera en paz la hija, para que se suicidara gradualmente, a su modo, si asi lo deseaba, solo e por supuesto en paz. “(...)
Os exemplos que escolhi revelam ainda outras características da obra do autor, que importa relevar: crueza nas descrições das situações, por vezes a resvalar para a crueldade; uma acentuada dificuldade de comunicação entre personagens, expressão da sua solidão interior.
Estamos, pois, perante uma obra diferente do que se vem publicando no campo do contismo, pelo menos entre nós; uma obra vertida numa linguagem que tem tanto de ágil como de incisiva.



“Tanta pasión para nada”, de Julio Llamazares (Alfaguara), é um conjunto de treze contos, extraídos de três obras suas, publicadas entre 1991 e 2008. Um conjunto excepcional, tanto na forma como no conteúdo. A vida vivida como uma paixão inútil que cumprimos com a mesma determinação, o mesmo entusiasmo que colocamos em tudo aquilo que nos faz sentido. E é exactamente essa falta de sentido que dá sentido às suas histórias, em que são personagens figuras do nosso quotidiano ou de quotidianos que nos são afins. Histórias decorrentes do real, mas eivadas de uma aura poética que as transfigura em algo de irreal, que as aproxima do sonho.



Difícil será citar um ou dois contos que ilustrem aquilo que acabei de dizer, tantas e tão variadas são as situações, os ambientes em que se desenrolam as histórias. Atrever-me-ei, no entanto, a preferir “Los viajes del tio Mario” e “El médico de la noche” No primeiro destes contos, relata-se a paixão de dois jovens que a vida separa e que o acaso volta a juntar no fim da vida, quando ao velho tio Mário (o jovem enamorado de outrora) pouco mais tempo lhe resta de vida.
“El médico de la noche”descreve um episódio da guerra civil espanhola, em que são protagonistas guerrilheiros em fuga às tropas franquistas e uma família de pobres camponeses que vivem isolados nas montanhas. Numa noite gelada, esse grupo de guerrilheiros bate à porta do casebre, à procura de um pouco de calor. O casal acabava de ter uma filha que se encontra doente. Um dos homens aproxima-se da criança, observa-a e tira da sua maleta alguns medicamentos que lhe administra. Esse guerrilheiro voltará em noites seguidas para observar e medicar a criança que acaba por melhorar. Destas visitas nocturnas nunca os pais deram conhecimento a alguém, nem à própria menina que, sobrevivendo, se fez mulher, tal o medo que a “guardia civil” infunde em todos os que, de um modo ou outro, alguma vez tiveram contacto com a guerrilha. É um segredo que a mãe da menina, agora uma nonagenária, guarda e espera levar consigo para a cova. Até que um dia se faz na aldeia uma exposição histórica de alguns objectos apreendidos à guerrilha.

“La madre gurdió también silencio. Parecia más tranquila tras habernos revelado su secreto, pero seguía muy emocionada. Lo estaba desde que reconoció, nos dijo,entre los objetos de los guerrilleros que se exponían en el Ayuntamiento, aquel maletín de cuero que el médico que salvó a su hija de morir portaba cada noche en sus visitas y del que sacaba la medicina que le inyectaba, y al saber, sobre todo, que su dueno había muerto en la emboscada que hizo famoso Cerro Moreno y de la que aún tenia el recuerdo, como todos los vecinos mayores de Santa Cruz, aparte de los disparos, que duraran toda la noche, de los cadáveres de los maquis pasando frente a su casa al amanecer cruzados sobre caballerías
(alguno con los sesos o las tripas colgándoles como trofeos) entre filas de guardias civiles, sin saber que uno deles era aquel médico misterioso que salvó su hija de morir sin pedir nada ello, salvo calentar-se al fuego.
- Que Dios se lo haya pagado! – concluyó la mujer su confesión cerrando los ojos.”
Preferi transcrever o texto espanhol com receio de que a minha tradução lhe fizesse perder qualidade, visto não ser especialista em tradução. Pelo que foi dito, creio que se tornou claro que se impõe a publicação destas obras por uma editora portuguesa. Não podemos continuar a desconhecer o que se publica tão perto de nós – tão perto e tão inacessível ao grande público.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

(…) Mais como son tan pobre só teño os meus soños; Despreguei mis soños baixo os teus pés; pisa devagar porque pisas os meus soños.” W. B. Yeats


“O único que queda é o amor”/Só Resta o Amor”,

Agustín Fernández Paz

Xerais/Edições Nelson de Matos



Foi a Orhan Pamuk que Agustín Fernández Paz resgatou o título do livro de contos “O único que queda é o amor”, com o qual venceu, em 2008, o Prémio Nacional de Literatura Infantil e Juvenil do Ministério da Cultura espanhol.

Agustín escreve com a serenidade do tempo, do silêncio e da memória sobre o mundo dos encontros e das perdas da vida. Mais que finais felizes tece dias felizes estendendo a mão aos poetas, são sempre eles que acompanham o (des)amor. Li-o em galego, a sonoridade é também algo que mora nas palavras e molda o seu significado. A voz é parte da leitura.

Por cá “Só Resta o Amor”, infeliz e indesculpavelmente sem as belíssimas ilustrações de Pablo Auladell que acompanham a edição galega, foi publicado pelas Edições Nelson de Matos e perdeu-se por aí… Acontece com tantos. Mas os bons livros não têm idade nem tempo para além do que o leitor lhes conceda.

Com o “Un radiante silencio” de um “Amor de Agosto” onde “Esa estraña lucidez” que acompanha “Unha historia de fantasmas” correrá ainda nos “Ríos da memoria” mesmo “Despois de tantos anos”… Como há almas que precisam de “Un río de palabras” é “De amores e de libros” que se constroem os dias (in)comuns que ancoram as nossas vidas.

terça-feira, 7 de junho de 2011

HADJI-MURAT



Devo confessar que me tornei perigosamente viciado em literatura russa do séc. XIX. Gogol, Turgueniev, Tolstoi, Tchekov, e até Dostoievsky, são paixões desmedidas. E grande parte desse vício devo-o ao notabilíssimo casal de tradutores que são Nina Guerra e Filipe Guerra que nos últimos anos têm traduzido directamente do russo dezenas de obras destes autores.

Entre todos estes gigantes da literatura não saberei dizer qual o que me toca mais fundo. Mas Tolstoi tem o condão de me atravessar o peito e mexer furiosamente com os meus sentimentos.

Aconteceu-me com "A morte de Ivan Ilitch" e com "A valsa de Kreutzer". Tremi ao reflectir sobre a dor e a morte na leitura do primeiro, confrontei-me com o sentimento do ciúme que nunca se tinha atravessado à minha frente tão nitidamente e terrível como na leitura do segundo.

Não foi bem o que me aconteceu na leitura deste "Hadji Murat". E é fácil perceber porquê. A novela passa-se na respiração de um tempo que está muito longe de mim na relação com o mundo em que vivo, em que nós, leitores, vivemos.

No entanto, como sempre com Tolstoi, foi uma leitura entusiasmante, que me levantou questões diversas e intensas. E é para isso que também serve a literatura.

Hadji Murat é um chefe guerreiro das montanhas do Cáucaso. Encontramos nesta narrativa tudo ou quase tudo o que é necessário para entrever as raízes históricas dos conflitos entre tchetchenos e russos.

O que Tolstoi faz de extraordinário para a época é dar um perfil de homem e de herói ao rebelde das montanhas pondo em paralelo o mundo cruel, sofisticado mas decadente da aristocracia russa e do prório Tzar, apresentado como pouco que um tonto que toma decisões ao sabor dos acasos.

Por tudo isto, o livro foi proibido até à Revolução de 1917. Percebe-se porquê. E continua a perceber-se como, retratando a jogo entre poder e revolta, decadência e vitalidade, a pena de Tolstoi continua a retratar tão intensamente os homens que governam este mundo tão imperfeito e inquietante em que vivemos.




Nesta novela (que foi proibida no tempo dos czares, Tolstoi faz uma crítica séria à superficialidade e alguma fragilidade intelectual do próprio czar, dos oficiais que estão numk dos limites do Império para pacificar

sábado, 4 de junho de 2011

" Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!" Fernando Pessoa




Rentes de Carvalho nasceu em 1930. Ouvi-o, com agrado, há pouco, numa Feira do Livro. Fala com o gosto de que tem muito que contar mas com a humildade de quem não nos quer maçar com isso. Na verdade vale a pena escutá-lo.
Os setenta anos já percorridos significam um longo caminho não só de escrita, por livros e jornais, mas também de deambulações entre exílio, viagens e paragem onde escolheu ou foi escolhido para permanência.

A viver na Holanda, apesar de ser um regressado sistemático a Portugal, passou muitos anos à margem do país que, conhecendo-o, pouco o leu como se indiferente ao seu valor.Podia dar-se o caso de ser pouco divulgado por ser autor de uma escrita hermética e inacessível, mas tal não é o caso. A sua escrita é rigorosa mas perfeitamente lúcida e inteligível o que é um indiscutível mérito.De há uns tempos a esta parte começou a ser falado por todo o lado e, de repente, tornou-se crime de lesa nacionalidade desconhecê-lo.

Tempo Contado

J. Rentes de Carvalho

Editora Quetzal

“Tempo Contado”, um Diário, é o quarto livro editado pela Quetzal que promete continuar a fazer luz sobre toda a sua obra.

Este diário percorre terras transmontanas. As estradas, as gentes, a calma, por vezes pasmaceira, que só quem lá vive ou passa atento tão bem conhece. Os transmontanos lerão com o desfastio com que atravessam os dias e as estradas, ainda cheias de curvas e de tangentes nos carros que se cruzam.

Rentes de carvalho pertence e não pertence aos lugares que nos leva a percorrer. É da terra mas só de tempos a tempos lá vive. É da terra e estranho não sendo uma nem outra coisa. Essa condição permite-lhe olhar de fora e de dentro. Passar-nos o olhar crítico mas sem interferir com o visto como faria sendo estrangeiro. Sente-se esse equilíbrio, em toda a escrita, e um humor decantado e precioso.

Sendo um registo de um ano da década de noventa, 1994-1995 podem pensar que é coisa do passado, mas não é. O interior do nosso país move-se lentamente e Rentes de Carvalho tem a inteligência de fazer a sua escrita intemporal, mesmo no registo próximo do quotidiano.

Começa a 15 de Maio, data da celebração melancólica do seu aniversário, numa idade em que a vida é uma dádiva mas ainda não um estorvo, afinal tudo funciona como antes, diz. Escolher este registo traz-lhe à memória outro, de adolescência, e as memórias ainda vivas e magoadas do pai, da sua incompreensão. Estou a lê-lo ainda. Mas não quis deixar de o partilhar desde já convosco.

Deixo-vos:

“Domingo, 5 de Junho – A meio da manhã para Moncorvo para o ritual da compra dos jornais e a visita ao café. Ainda é cedo e o Expresso esgotou-se. Acho estranho e falo com o dono do quiosque que, numa vila com uns mil habitantes e outros tantos ou mais nas aldeias em redor, só encomenda dez exemplares do Verão e cinco no Inverno.

- Se encomendasse mais –diz ele- quem mos comprava? E olhe que mesmo tão poucos às vezes ainda sobram.

(…)”

É certo que, quem passa pelo interior sabe, os jornais no Verão são assim… Como a vida, difícil de acertar a dose. Não há receita. Viver é improviso

E continuamos… Amanhã:

“16 de Junho - O senhor Machado ri às gargalhadas (…)”

Neste país, amanhã, o senhor Machado será dos poucos que terá vontade de rir...

Vou demorar a lê-lo. Terminarei na última entrada a 15 de Maio de 2012. A certeza que me resta: viver, um pouco cada dia, neste “Tempo contado” lendo.

Sílvia Alves/5 de Junho

sábado, 28 de maio de 2011

"RAYUELA", UM ROMANCE PORTUGUÊS?



Há muitos anos que eu conhecia obras do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984), nomeadamente contos e romances, embora nunca tivesse lido o mais célebre dos seus livros: “Rayuela” (“O Jogo do Mundo,” na tradução portuguesa da Cavalo de Ferro). Talvez por duas razões: por ter receio de alguma desilusão, tais os encómios que os eruditos encartados da nossa praça lhe faziam; pelo número avultado de páginas da obra, nada condizente com a minha idade avançada e consequente aproximação do fim da vida...
Mas, vencidos estes dois “obstáculos”, lancei-me à leitura das 631 páginas da obra, e, conforme a ia lendo, mais a emoção me ia perturbando: “Rayuela” era a história da minha geração, a geração que nos anos cinquenta despontou para a leitura, para a cultura que tinha Paris como grande centro de irradiação. Mas não só: a história, as histórias que aí se narram eram as histórias de amigos meus que rumaram a Paris nos inícios dos anos cinquenta, exactamente como Julio Cortázar (e as personagens de “Rayuela”). As semelhanças com a vida de um dos meus maiores amigos, o Ilídio Henrique Correia de Sousa, eram espantosas. Daí, a emoção que não pude evitar, acrescida pelo facto de o Ilídio ter morrido há relativamente pouco tempo, em condições penosas.



Tanto o Ilídio como as personagens masculinas de “Rayuela” testemunham o drama de se pertencer a uma “cultura periférica” e nela não encontrar a sua identidade. Ou, dito por outras palavras: enquanto essas personagens viviam no seu país de origem (Argentina, Portugal), a cultura do seu país era vivida como algo de periférico em relação à centralidade da cultura dominante, a francesa; quando passaram a viver em Paris, deu-se o fenómeno inverso, Buenos Aires (no caso das personagens de Cortázar), o Porto (no caso do Ilídio) adquiriram uma inesperada força centrípeta. E quando regressaram definitivamente aos seus países, a descompensação psicológica foi-se instalando nessas personagens, levando-as a um desequilíbrio emocional que se acentuou com a idade.
Esta a história que eu vivi através do meu amigo Ilídio, esta a quase não história de “Rayuela”. “Rayuela” (“O Jogo do Mundo”), um dos romances mais inovadores da segunda metade do século XX. Um romance que é um anti-romance, em que a história não é um elemento estruturante que dá sentido à obra. Um romance que não tem uma mensagem, mas mensageiros (em última instância, eles são as mensagens).
À semelhança das personagens de “Rayuela”, o meu amigo Ilídio, homem de vasta cultura, com um domínio perfeito da língua e da literatura do seu país de origem e da francesa, “perdeu-se” na multiplicidade de mensagens que a vivência em Paris lhe facultou, nunca encontrando a MENSAGEM e, portanto, o tema para o romance que desde sempre desejou escrever. Uma autêntica personagem cortazariana, que vive e se auto-destrói, sem suspeitar que o tema do seu romance só poderá ser ele próprio e que a forma narrática decorrerá forçosamente da descrição da sua peregrinação interior! E, como esta procura-peregrinação não obedece a uma lógica linear, também a escrita não poderá seguir uma linearidade narrática tradicional, pelo que se desenvolve em “ziguezagues”, em tentativa de apreensão do sentir e do pensar das personagens. O que representa uma ruptura com as formas de escrita dos ficcionistas de língua espanhola da primeira metade do século XX. Será nesse sentido que se deve compreender a interrogação-afirmação de Cortázar: “para que serve um escritor senão para destruir a literatura?”. E, ao destruir a literatura, o escritor está a criar uma nova literatura e, por consequência, um novo leitor – “o leitor do futuro”.
“Rayuela” um “anti-romance”? Sim, portanto um romance dos tempos actuais, tão genial, tão latino, tão nosso que até dói...

quarta-feira, 18 de maio de 2011

“Em algum momento fomos simultâneos/ como dois corpos tombando na água” José Tolentino de Mendonça in “A Estrada Branca”

“também as tuas mãos haviam de chegar um dia assim
ou pelo menos foi isso que pensei quando
o teu corpo tocou ao de leve a sombra das águas
que tinham corrido ao longo das noites da tua ausência”
É sempre ousadia escrever sobre os livros de poemas que vêm desaguar nas nossas mãos, a poesia merece que se escreva sobre ela apenas para que se anuncie ao vento, para que as suas palavras aos corações levem polén como se fossem flores.
Não saberei porquê ler poemas num tempo e não noutro… Porquê uns e não outros.
Ia escrever sobre o Manuel António Pina, o alegre e justamente celebrado prémio Camões mas veio do nada este livro, já antigo, da Alice Vieira. Deixo o Manuel António Pina no seu momento de glória, celebrando justamente todos os escritores que escrevem para todas as idades, e trago a Alice, uma mulher que renasceu, rejuvenesceu e vive uma alegria contagiante a espantar alguma tristeza escondida que não é para aqui chamada. Ganhou, com um nome que não era o seu, o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, em 2007, e daí “Dois Corpos Tombando Água”/Editora Caminho, seu primeiro livro de poesia.
Tombando na água da vida, da dor, da espera… Celebrando o amor, clandestino, vivido e recusado. Palavras de uma história onde cada um encontra a sua, a do seu, o que vive agora ou o que passou e o que há-de vir. A poesia chega-nos liberta das emoções de quem a escreveu preenche-se das de quem a lê e fica outra…. A poesia é como um corpo com o qual tombamos na água. Entregamos ao afago das palavras a nossa coragem para a queda ou a cobardia com que recusamos seguir o coração.
A poesia arranha como silvas e é bálsamo sobre as feridas, oferece-se para nosso deleite ou sofrimento. Não lhe podemos cobrar o embargo da voz porque a emoção somos nós que a despertamos no poema, é nossa.

“naquele tempo toda a cidade ardia e nós
ardíamos com ela mas sabíamos
que havia de chegar uma noite
em que as amarras (ou a pátria tanto faz)
seriam mais fortes e entraríamos
em silêncio no quarto
inventado palavras tão transparentes para a nossa vida
que hoje tenho dificuldade em encontrá-las
para as colocar em seus devidos lugares”

Abrimos um livro e seguimos aqueles dois seres e somos à sua medida felizes e infelizes no modo desacertado e louco do amor que passa como um rio.

“o que verdadeiramente me dói não são as palavras
que nestes anos todos ficaram por dizer
arrumadas entre os medos que não gritámos juntos
e os sonhos que não transpirei na tua pele
o que verdadeiramente me dói são os silêncios
que nunca habitámos do mesmo lado
porque o silêncio só pode ser partilhado
com aqueles que amamos até à loucura
só ele é a dádiva perfeita que não pede mais nada
a não ser um mesmo lugar para deitar a cabeça
e esperar que a madrugada lentamente desfaça
todos os segredos e nada mais seja preciso
para voltarmos a ter vinte anos mesmo que
os vinte anos tenham morrido para sempre
na cidade em chamas”

O tempo e a memória, inimigos numa vida que será o que vivemos ou será o que lembramos dela?

“e a verdade é que nunca terei outra história
para além da que nos aconteceu
e que ficamos à espera de um dia perceber melhor”

Fechado o livro continuamos mais leves ou mais pesados consoante o peso que, quando o abrimos, carregávamos.

“com que palavras irei escrever agora o nome
das horas que entram pela cama em que noutra vida
te ensinei o caminho do meu corpo
e da justeza dos gestos com que a alegria
se desenhava em mim quando dizias
agosto tu vais ver é a nossa pátria”

Poesia essa inútil existência para celebração do amor sem a/o qual a vida fica vazia de sentido.

“é claro que sei esperar por ti
sabendo desde sempre que não vens e mesmo assim
escolho sem sobressalto a música perfeita
de te acolher no sono como o enevoado rumor
de todos os encontros improváveis”

Ainda não é tarde para ler Alice.

domingo, 15 de maio de 2011

UM ADEUS COMOVENTE



O José Oliveira da Editora Caminho entregou-me este livro como se entrega uma preciosidade a alguém que é capaz de a avaliar.

Li-o com a maior atenção, sem deixar de fazer convergir todas as memórias que guardo do Mário Castrim.

Homem de convicções muito fortes, capaz de magoar e de amar, amigo extremo e adversário extremo. Não era flor que se cheirasse, dirão. O sectário geral, chamavam-lhe. Um pai de excepção, diz a Alice Vieira, sua companheira até à morte.

Conheci-o, visitei-o no dia seguinte ao nascimento do seu segundo filho. Teria eu uns 18, 19 anos...? Fiquei comovido com a sua comoção.

Li-o dia a dia nas suas críticas de televisão no "Diário de Lisboa". Delirei, detestei, comovi-me, revoltei-me com as suas palavras, os seus elogios e as suas diatribes.

Conheço-lhe as histórias e os poemas para crianças. A sua capacidade de voar nas palavras. A sua necessidade de as ancorar às certezas da ideologia que era a sua.

Mesmo saindo pouco de casa
foi um homem do mundo. Teve uma vida com sangue a correr-lhe nas veias,. Uma vida larga, contraditória, uma vida cheia de palavras que deixou cheias de vida, ao contrário de alguns jovens poetas, também cronistas, também diversos nas suas avaliações,que só têm literatura e cotão na dobra dos versos.

Os poemas agora publicados pertencem por certo aos últimos dias de Mário Castrim. Mostram-no na solitária vulnerabilidade dos seus amores, do seu espaço, dos seus objectos, da sua casa, da sua sala de onde observava o mundo através de breves rasgões e aonde convocava pássaros, mares, navios,sonhos e a dolorosa memória da su infância.

Conheceu alguns a quem o Mário, muita vezes contra a corrente, muito corajosamente colocou na galeria do pechisbeque. Sou amigo de alguns a quem ele, injustamente, magoou.

Este livro não faz esquecer farpas e ferretes mas afasta tais memórias para nos trazer a expressão intensa de um adeus comovente.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

UM PEQUENO GRANDE LIVRO



Quando se fala de livros pouco se fala de editores. E, no entanto, muitos dos caminhos da leitura são traçados pelos editores. Aqueles que vão às feiras de Frankfurt ou de Bolonha, que se apaixonam por um livro ou por autor, que apostam num desconhecido

Estou a pensar em gente de quem gosto e admiro muito, Carlos Araújo, Piedade Ferreira, Zeferino Coelho, Maria do Rosário Pedreira, Manuel Alberto Valente, João Rodrigues, Ana Pereirinha, Cristina Ovídio, Marcelo Teixeira... E outros que já se foram. Gente dos livros. Gente boa e que nos entrega nas mãos um livro como se fosse um tesouro raro (como me aconteceu hoje quando o José Oliveira da Caminho me entregou um livro de poesia do Mário Castrim)

Neste grupo queria também falar do Pedro Reisinho, jovem editor da Gailivro, editor de vários dos meus livros da área infanto-juvenil. Adoro conversar com ele, inventar projectos com ele, discutir com ele as ilustrações.

Noutro dia cheguei ao gabinete dele e o Pedro, com os olhos a brilhar, entregou-me um livro acabado de sair "LULU E O BRONTOSSAURO" escrita por Judith Viorst e ilustrada por Lane Smith. Ilustrações excelentes, concepção do objecto-livro notável, tradução (disse-me o Pedro e e eu confirmei depois) de primeira água de autoria da Carla Maia de Almeida.

Cheguei a casa e foi de uma vez que o li. Uma delícia para meninos, jovens e adultos. Um achado excelente a história de uma menina que quer ter à força um brontossauro como animal de estimação. Uma lição para pais pouco exigentes e filhos malcriados e pouco respeitadores das outras pessoas.

Uma pequena viagem que dá para rir e pensar. Sobre várias coisas e também sobre a educação dos nossos filhos.

Devia ser obrigatório. Para todas as idades.