segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ferdydurke

...

Os autores, com perícia e grande mestria poética, escondiam-se atrás de conceitos como Beleza, Perfeição Técnica, Lógica Interna da Obra, Férrea Consequência das Associações, ou ainda atrás da Consciência de Classes, da Luta, das Alvoradas da História e de outras ideias objectivas e anti-pantorrilheiras. Mas, desde o princípio, era evidente que estes versinhos, com a sua arte arrevesada e confrangedora pieguice, que não servem a nada e a ninguém, formavam uma linguagem secreta e complexa, e que devia haver alguma razão específica e de sobeja importância para que tantos sonhadores sofríveis compusessem aquelas extravagantes charadas. E, com efeito, após um longo tempo de reflexão, consegui verter para uma linguagem inteligível o conteúdo da seguinte estrofe:

O POEMA

Os horizontes estoiram como garrafas
a mancha verde eleva-se às nuvens
regresso à sombra dos pinheiros -
e de lá:
sorvo de um só gole

a minha primavera quotidiana.


A MINHA VERSÂO

Pantorrilhas, pantorilheiras, pantorilheiras
Pantorrilhas, pantorrilhas, pantorrilhas, pantorrilhas
Pantorrilhas, pantorrilhas, pantorrilhas, pantorrilhas, pantorrilhas -
Pantorrilha:
Pantorrilha, pantorrilha, pantorrilha

Pantorrilhas, pantorrilhas, pantorrilhas.

...

Ferdydurke


Um livro burlesco, satírico, experimental e iconoclástico do mais original escritor polaco do século XX, Witold Gombrowicz (1904 - 1969), autor de livros marcantes como "Cosmos" e "A Pornografia".

Józio é o herói desta insólita trama "Gombrowisquiana". Tendo completado trinta anos e renunciado abandonar a sua imaturidade, acaba por ser raptado pelo seu ex-professor, que após um superficial exame de latim e sobre advérbios, obriga-o a voltar aos bancos da escola dum liceu conhecido pela excelência dos seus professores e pelo modernismo dos seus métodos. O absurdo da circunstância exige da sanidade do protagonista uma contínua adaptação ao surrealismo das situações que se sucedem umas às outras.

Mas em reacção, o tornado infantil Józio, disseca todo o processo colocando a nu o ridículo dos condicionamentos subjacentes à norma social relativamente à vida quotidiana, às relações de classes, às obras-de-arte, à etiqueta, à moralidade, à sexualidade e às mentiras culturais engendradas pela ideologia e pela inteligentsia de serviço. E tudo isto numa linguagem satírica de grande originalidade, que cria situações absurdas e hilariantes, que descreve os personagens arquetípicos com um escárnio feroz e reduz ao ridículo as atitudes ditas modernas (hoje seriam pós-modernas) e os tiques mentais dos agentes da cultura oficial em todas as suas vertentes.

Uma leitura refrescante e libertadora.

Também digna de nota é a qualidade extraordinária da tradução levada a cabo por Maja Marek e Júlio Carmo Gomes directamente do polaco.

Orfeu B.



quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A CRISE NA LITERATURA ou A LITERATURA DA CRISE



Camilleri foi autor de guiões para televisão e de uma série de romances de cariz policial que tem como personagem principal o inspetor Mantalbano (cujo nome é óbvia homenagem ao escritor catalão Manuel Vasquez Montálban, por sua vez autor das aventuras do detetive particular Pepe Carvalho).

A escrita de Camilleri é ligeira, rápida , recebendo obviamente a influência da escrita para televisão e cinema. Uma ou duas pinceladas breves dão-nos a personagem. Não se perde na volta da palavra. Investe na situação, Avança na narrativa. Não dá muito descanso a quem lê.

Este romance é muito apropriado a estes tempos de crise. Passa-se em Itália, entre gestores, directores e administradores de um grande grupo económico.

Estas personagens vivem mergulhadas numa girândola de golpes e contra-golpes, corrupção, mentiras, ausência absoluta de valores éticos, jogo de influências, violência, traições, baixa política, promiscuidade a todos os níveis, sexo obsessivo.,

Explicado com clareza temos aqui um retrato cru e frenético do neo-liberalismo (especificamente do italiano no caso) e do desastre a que tem conduzido as economias ocidentais.

Por aqui se movem as personagens belas e elegantes mas grotescas e repelentes que conduzem a acção e onde até, por vezes, se tornam em vítimas das suas próprias maquinações.

Camilleri leva-nos rápida e facilmente nas asas da sua escrita e nós agradecemos a boleia.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

The Anglo Portuguese News



Arcádia

Notícia de uma Família Anglo-Portuguesa

Ana Vicente

Editora Gótica


O primeiro livro de Ana Vicente que me chegou às mãos era para crianças, chamava-se “O H Perdeu a Perna” e tinha ilustrações de Madalena Matoso. Talvez por associação à Madalena e pela frescura da história imaginei a Ana uma jovem moça. Algumas trocas de mails depois, desfeito o equívoco, descobri-a dona de uma já longa vida e rica de múltiplas actividades. Uns tempos depois foi publicado este: “Arcádia - Notícia de uma Família Anglo-Portuguesa”, estávamos em 2006. Hoje, ainda não nos conhecemos pessoalmente, ela já editou mais livros para crianças e a Gótica, que editou este, já não existe. Recentemente chegou-me o convite para o lançamento de um outro, na minha lista de leituras futuras: “Memórias e Outras Histórias”, uma edição Temas e Debates/Círculo de Leitores. E eu voltei a Arcádia de cuja leitura guardo excelente memória.

A história, a das vidas de Luiz de Oliveira Marques e Susan Lowndes, pais de Ana vicente, leva-nos numa longa viagem no tempo entre Portugal e Inglaterra atravessando a vida da família durante cerca de oito décadas.

A escrita, resultante de uma detalhada pesquisa de correspondência e testemunhos de pessoas que privaram com o casal, decorre num tom muito suave. Ana Vicente conduz-nos, sem se interpor mas também sem ser asséptica ou destituída de sentimento, num registo de memórias que é, aliás, uma tradição quer do lado inglês, quer do lado português desta família.

Susan e Luís conheceram-se no Hotel Inglaterra, no Estoril, quando Susan passava férias em Portugal. A mãe dela tinha ficado em Inglaterra a terminar mais um livro. Marie Belloc Lowndes era autora de policiais. Um dos seus livros, “The Lodge”, foi várias vezes adaptado para cinema, uma das quais por Alfred Hitchcock, ainda no tempo do cinema mudo.

Luiz tinha vivido doze anos em Inglaterra, primeiro como estudante e depois trabalhando no Banco Nacional Ultramarino. Começara a trabalhar quando o seu pai sofre a crise da queda do escudo, em 1921, após ter gasto mais de duzentos contos na construção de um palacete de habitação, escritório, armazém e rendimento na Calçada de Santos, e deixa de lhe poder enviar a regular a mensalidade.

Quando se conheceram, corria o ano de 1938 e Luiz Marques era director do APN (The Anglo Portuguese News), o primeiro número do jornal, saído a 20 de Fevereiro de 1937, custava 1 escudo (o Diário de Notícias era vendido por 50 centavos). O APN, jornal quinzenal, foi uma importante referência para toda a comunidade inglesa em Portugal.

Susan e Luiz namoraram por carta criando aí espaço para a emoção e hesitações sobre as mudanças que seriam necessárias para uma vida em comum. E por carta combinaram os preparativos do casamento que aconteceu em Londres, quatro meses depois do primeiro encontro.

Escreve Luiz: “Minha querida, dei um passo momentoso. Aluguei uma casa. Trata-se definitivamente de andar ideal e por isso achei que não devia perder esta oportunidade. É o primeiro andar de um prédio muito antiquado (…)A renda é de 545 escudos, pouco mais de 4 libras o que eu acho barato (…)” Este primeiro andar de um prédio na Rua José Fontana, nº12 virá a ser a casa da família.

Susan escreve no comboio a caminho de casa de uns amigos: “Gostei imenso das fotografias, em particular de ti em bebé. Espero que o nosso seja parecido. Os Pinney querem emprestar-nos a casa para a lua de mel. Acho que vais gostar. Fica no condado de Dorset, a a cerca de seis milhas de Bridport, onde podemos ir ao cinema(…)”

Susan dizia de si: “nasci e cresci londrina numa família muito dedicada às letras . Vivíamos no bairro de Westminster, ali à sombra da abadia , ao nº 9, Barton Street. Era como uma aldeia no coração de Londres.“ O seu pai propôs-lhe estudar em Oxford o que ela recusou, lamentado mais tarde tal recusa. “Eu pertenci à última geração de raparigas que não estavam preparadas nem tal lhes era pedido, para ter uma carreira profissional autónoma.” No entanto foi uma mulher independente e activa, estranhava que as mulheres da família do marido fossem apenas mães e esposas, e trabalhou, ao lado do marido, na redacção do APN. O jornalismo foi a principal actividade do casal.

Apesar de Susan nunca ter aprendido a falar ou a escrever português correctamente, as suas conversas intelectuais decorriam sempre em inglês, isso nunca a impediu de se relacionar. Era uma mulher que convocava muita simpatia e sempre disponível para ajudar e intervir civicamente. Um traço que, por certo, influenciou a filha.

Acompanhamos as notícias do rebentar da Segunda Guerra. É muito interessante o relato dos comentários e preocupações de quem está em Lisboa, dos refugiados e dos seus familiares durante os bombardeamentos de Londres e de todas as complicações da guerra.

São inúmeros e deliciosos, ao longo do livro, os registos de cumplicidades, detalhes do quotidiano revelando planos, custos, dificuldades da vida. Alguma contenção e austeridade apesar da posição social correspondente às famílias de ambos.

No Verão de 1940, no mesmo ano em os Duques de Windsor passam por Lisboa, Luís Marques comparece na conferência de imprensa, como jornalista, alugam, por 15 libras, durante dois meses e meio, uma casa em S. Pedro de Sintra, com um grande alpendre, jardim e, o que era raro, esgotos. Quando o gato, Titus, morre Susan recebe uma carta de pêsames pelo passamento do bichano.

No Verão de 1947 Susan e uma amiga, Ann Bridge, dão a volta a Portugal num automóvel. Duas mulheres a viajar sozinhas não era comum na época. Desse périplo resultou um livro que foi, originalmente, publicado em 1949 e diversas vezes reeditado. “The Selective Traveller in Portugal”. Nunca houve referência a esse livro na imprensa portuguesa ou interesse de alguma editora e só recentemente foi publicado no nosso país, numa edição da Quidnovi: “Duas Inglesas em Portugal”, um excelente e rigoroso roteiro da época, de locais e de mentalidades, e ainda actual em alguns lugares.

Passamos pelos anos 50 quando toda a roupa de menina ou senhora era confeccionada por medida depois de aturadas provas, pelos momentos de nascimento dos filhos, viagens e relatos de pessoas e acontecimentos que vão passando pelas suas vidas.

Nem Susan nem Luiz escreviam diários mas organizavam a sua vida em agendas onde anotavam todos os seus inúmeros compromissos sociais. Tiveram uma vida social muito preenchida. Eram ambos crentes e praticantes. Susan escrevia em cada agenda, em cada ano: “Sou Católica. Em caso de acidente é favor mandar vir um sacerdote.”

Luís é conceituado como tradutor “capaz de traduzir poemas de Chaucer para português medieval fazendo-o rimar”. Um dia tendo uma dúvida numa tradução telefona a um amigo, Director da Biblioteca Britânica, que promete fazer uma pesquisa e telefonar depois. Passado algum tempo Luiz Marques recebe um telefonema da Embaixada Britânica colocando-lhe uma questão e exclama desesperado: “mas sou eu que tenho essa dúvida!”

Luís, faleceu a 1 de Outubro de 1976. Muitas cartas chegaram testemunhando a perda de uma excelente pessoa. Susan escreveu: “o nosso casamento foi muito forte e durou quase 40 anos”

Susan continuou a coordenar a edição do APN, com ajuda da sua secretária Maria Luísa Ferreira. Fizeram-se várias exposições sobre o jornal, considerado uma fonte para a história da comunidade inglesa durante segunda Guerra Mundial. O jornal foi comprado por Nigel Bartley, em 1979 e só chegou ao fim em 2002.
Susan morreu a 3 de Fevereiro de 1993. Um artigo de Francisco Hipólito Raposo intitulado: "Goodbye, Mrs. Lowndes" enaltece a sua vida, sensibilidade, interesses e humor.

Um livro de leitura, indubitavelmente, útil e muito agradável atravessando a história desta família, vivendo na sua “Arcádia”: essa região da Grécia Antiga onde os habitantes viviam um contentamento inocente.
No meio dos problemas da vida e do quotidiano a invejável ventura de uma relação de mútuo afecto, respeito e atenção ao próximo.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

À BEIRA DO ABISMO



Creio que terá sido lá pelos 12 anos que vi NO CINEMA "THE BIG SLEEP" ("À Beira do abismo").

Não nasci no tempo da televisão. Já tinha 10 anos quando o pequeno écran começou a entrar pelos cafés e pela casa dos mais abonados. Dava para ver o Eusébio, o Festival da Canção e o Villaret.

Mesmo assim, andei pouco pela televisão. Cresci com cinema. A partir dos 10 na Promotora, cinema de reprise no Largo do Calvário, Lisboa. Ao fim-de-semana e nas férias. Dois filmes pelo preço de um.

Depois fui alargando pela cidade. Muitas vezes sozinho, corri quase todos esses deliciosos cinemas, O "Palhinhas", o Paris, o Chiado-Terrace, o Lys, etc, etc.

Vi de tudo. Filmes americanos dos anos 40 e 50, mexicanos de fazer chorar as pedrinhas da calçada ("La Nobia" foi demais), cow-boys a granel, filmes históricos, de guerra, musicais, de polícias e ladrões, comédias com o Jerry Lewis, o Cantinflas, M. Hulot... Sei lá, sei lá que mais.

Julgo que vi o "THE BIG SLEEP" antes de ter lido o livro.



Depois li-o várias vezes na vida. A primeira deve ter sido na velha colecção vampiro. Depois, volta e meia, lá vai. Editado vezes sem conta, a última pelo Jornal o Público, não sei se li todas as traduções e todas as edições mas devo ter andado lá perto.



Chandler seguiu o estilo de Hamett. Ou terá sido o contrário? Fui ver as datas. Primeiro "A relíquia Macabra". Sam Spade. Philip Marlowe é o seu émulo.

No entanto, na minha memória, os dois têm a mesma cara, o mesmo jeito, a mesma forma única de conviver com as sombras do perigo: falo de Humphrey Bogart que mais do que Spade ou Marlowe será sempre para mim o Rick de Casablanca.



Ambos os autores trabalharam sobre uma figura de detective duro e solitário, cínico e íntegro, senhor do seu nariz, capaz de dizer que não às mais fantásticas loiras platinadas ou às carteiras mais bem recheadas, de conduzir um raciocínio para lá da nossa inteligência envergonhada e de despachar em menos de nada os mais terríveis assassinos.

É o romance negro, modelo de uma América cheia de podres mas também de gente que não precindia dos valores. Uma América onde os gangsters dominavam as ruas e os escritores iriam ser encostados à parede pelos esbirros dessa figura sinistra que foi o Senador McCarthy.

Volto sempre a lê-los com emoção e com a noção de que estes romances trabalham sobre alguma tipicação simplista mas a verdade é que, quando lhes pegamos só os largamos no fim.


sábado, 1 de outubro de 2011

DO PRAZER DA ESCRITA AO PRAZER DA LEITURA



Devo confessar que sou, leitor atento e agradecido do Afonso Cruz.

Ilustrador, músico, agricultor e escritor, senhor de uma cultura sólida em vários domínios, da literatura e da filosofia a muitos outros domínios, o Afonso é daquelas pessoas para quem uma vida só é curta para o muito que tem para dizer e fazer.

Conhecemo-nos de raspão, cruzámo-nos 2 ou 3 vezes, temos um livro em comum. Não me canso de recomendar os seus livros aos meus amigos desde o primeiro que foi "Os livros que devoraram o meu +pai".

A primeira coisa que salta da leitura dos seus livros é o prazer de escrever em Afonso Cruz, aliado ao gosto de fintar o leitor, abrindo sucessivos alçapões em que mistura citações reais com outras inventadas, personagens da História com outros de ficção e ainda alguns retirados de ficções alheias como é o caso de Helen e Schwartz saídos de "Uma noite em Lisboa" de Erich Maria Remarque, que se cruzam com o pintor Joseph Sors, a personagem central desta novela que se inspira, por sua vez, numa personagem real de que o autor diz pouco saber e que terá sido um judeu refugiado em casa de seus avós durante a 2ª Guerra Mundial.

Sors é uma personagem sui generis, um pintor que pinta olhos. Olhos fechados e olhos abertos. E que reflecte sobre o desenho, a arte e a vida de forma muito particular como na altura em que fala de:

"... um plátano que se despia no Inverno como se o frio lhe fizesse calor."

A aparente "naifeté" desta escrita resulta de uma sólida cultura literária, filosófica e artística e de um raríssimo sentido de ironia como na voz de uma personagem que afirma que:

"... que a metafísica sem duas pessoas a gritar não passa de ciência exata como a matemática".

Do prazer da escrita ao prazer da leitura vai um passo. Digo eu. E se esta afirmação pode nem sempre ser verdade, neste caso é-o plenamente.

domingo, 25 de setembro de 2011

Verdade e Política

Da genial filósofa Hannah Arendt (1906 – 1975), autora do monumental estudo “As Origens do Totalitarismo” de 1951, do controverso “Eichmann em Jerusalém: um relatório sobre a banalidade do mal” (1963), a “Crise da Cultura” (1972), entre tantos outros títulos, este surpreendente opúsculo de 1968, que impressiona pela lucidez da análise e pela actualidade do tema.

A problemática é-nos introduzida sem ambiguidades:

"O objecto destas reflexões é um lugar comum. Nunca ninguém teve dúvidas que a verdade e a politica estão em bastante más relações, e ninguém, tanto quanto saiba, contou alguma vez a boa fé no número da virtudes politicas. As mentiras foram sempre consideradas como instrumentos necessários e legítimos, não apenas na profissão de politico ou demagogo, mas também na de homem de estado. Por que será assim? E o que isso significa no que refere à natureza e à dignidade do domínio político, por um lado, e à natureza e à dignidade da verdade e da boa-fé, por outro? Será da própria essência da verdade ser impotente e da própria essência do poder enganar. E que espécie de realidade possui a verdade se não tem poder no domínio público, o qual, mais do que qualquer outra esfera da vida humana, garante a realidade da existência aos homens que nascem e morrem - que dizer, seres que sabem que surgiram de não-ser e que voltarão para aí depois de um breve momento? Finalmente, a verdade impotente não será tão desprezível como o poder despreocupado com a verdade?”

Reflexões que suscitam a inevitável pergunta: Estão os políticos comprometidos com a mentira como estão os filósofos com a verdade? Esta e outras questões relacionadas com a manipulação da verdade factual, prática comum nos regimes totalitários, são brilhantemente discutidas neste breve ensaio. Uma preciosidade. E muito útil nos dias que correm.

Orfeu B.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

CONTOS DE JOSÉ CARDOSO PIRES, 30/40 ANOS DEPOIS - UM COMENTÁRIO APENAS


Há 30/40 anos, li, pela primeira vez, um livro de José Cardoso Pires, “Jogos de Azar”. E voltei a lê- lo há pouco, agora numa edição da Leya, de 2011. É uma colectânea de onze contos, recolhidos de dois livros do autor, publicados nos anos 50 e nos anos 60 do século passado. Dessa primeira leitura guardo uma memória precisa: era algo de novo, que me impressionou bastante, tanto pela forma como pelo conteúdo. Essa primeira impressão foi corroborada e ampliada pela leitura de outras obras do autor: “Balada da Praia dos Cães, “Alexandra Alpha”, por exemplo.
Por isso, foi com curiosidade que iniciei a releitura dos “Jogos de Azar”. Os contos nele incluídos teriam resistido aos efeitos de um dos tempos mais cruéis que conheço, o tempo literário? A resposta não é clara: por um lado, sim; por outro, não. Sim, pela beleza da escrita, feita de rigor, imaginação e criatividade. Não, pelos temas tratados. Temas que , de um modo geral, podemos situar no âmbito de um “neo-realismo urbano”, em voga nos meados do século XX e que já pouco nos diz nestes primeiros anos do século XXI. “Amanhã se Deus quiser”, “ Dom Quixote, as Velhas Viúvas e a Rapariga dos Fósforos”, “ Ritual dos Pequenos Vampiros” são alguns dos exemplos do que acabo de dizer. Em todos eles, a mestria da escrita e da construção da história atinge um fulgor extremamente raro na nossa ficção literária da segunda metade do século XX ( e não me estou a esquecer de Saramago nem de Lobo Antunes). Mas neles também se notam as marcas de um neo-realismo social característico de certos meios urbanos, em que a miséria e a morbidez dos ambientes e dos que neles vivem contrastam com a pureza, a ingenuidade de certas personagens que neles dificilmente vão sobrevivendo.

sábado, 17 de setembro de 2011

O AMOR, A GUERRA, LISBOA



Nasci em 51. Tinha um irmão muito mais velho e um pai militar. Deles encontrei pela casa inúmeras imagens de aviões, tanques, batalhas, bombardeamentos em postais, revistas, reportagens sobre a 2ª Guerra Mundial. Nos anos 50 essas memórias de pavor e talvez de algum fascínio ainda estavam muito vivas.

Mais tarde, aluno do Colégio Militar, voltei à iconografia e aos romances que davam testemunho não só da 2ª Guerra como da guerra da Indochina.

Entre os vários escritores que li na adolescência, Erich Maria Remarque foi uma das leituras de primeira linha.

A ele regressei para ler este seu romance já com várias edições em português e agora reeditado de novo pelo Público na excelente colecção dos escritores famosos que não tiveram o Prémio Nobel.

O autor, alemão, combateu na 1ª Guerra Mundial e dessa experiência extraiu a matéria para o seu mais famoso romance "A Oeste nada de novo".

O nazismo baniu a sua obra e queimou os seus livros e Remarque fugiu percorrendo vários paísses até chegar à América onde viveu o resto da sua vida.

"UMA NOITE EM LISBOA" é o longo monólogo de um homem que oferece a outro a salvação (dois bilhetes para a América) com o único preço de ouvir a sua história.

O narrador é também o "ouvidor" de uma fantástica história de amor, melodrama levado ao extremo, igual a tantos que terão acontecido nos tempos terríveis dos tempos II Guerra Mundial.

É uma história cheia de palavras, de voltas e viravoltas, de dúvidas e devoção amorosa sem limite, de perda de identidades que se desenrola com a sombra da noite de Lisboa em fundo.

Haverá por aqui muito da experiência do próprio autor. A cidade natal do protagonista é a de Remarque, muito do percurso na fuga do personagem até chegar a Lisboa coincidirá porventura com o do autor.

A literatura é isto também. O sarro que fica de um tempo que ainda produz filhos sinistros (veja-se o caso do monstro norueguês) e cujos relatos continuam a fazer-me tremer e me deixam ainda mais irritado com caricaturas simplistas, equívocas e grosseiras como a de Tarantino nos "Sacanas sem lei".

É claro que literatura não tem que ser retrato da realidade. Mas não pode ser traição à realidade. E foi nesse digno ofício de respeito pela realidade que Remarque trabalhou e nos deixou páginas que vale a pena revisitar.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

GOLPE SOBRE GOLPE



Na linha de Le Carré, Boyd conduz a acção no fio da lâmina, golpe sobre golpe, criando uma história verdadeiramente inquietante, numa sequência imparável de obstáculos à busca da verdade por parte do personagem principal, Adam, que se viu envolvido num assassínio com que não tem nada a ver e que acaba perseguido pela polícia e por um mercenário encarregue por uma grande empresa de o encontrar e matar.

O livro lê-se de um fôlego. Talvez o ritmo trepidante quebre no último terço ou então deveria o autor terminar a narrativa um pouco mais cedo.

O fulcro da questão é uma multinacional farmacêutica que pretende lançar um remédio supostamente revolucionário para a asma, escondendo o facto de que os últimos ensaios foram negativos e contam-se inúmeros casos de crianças que morreram após tomar o remédio.

Adam, jovem e brilhante especialista em climatologia, tem duas hipóteses: entregar-se ou não se entregar à polícia. E esta alternativa vai determinar toda a acção.

Resolve não se entregar e desaparece. Torna-se num sem abrigo, num não-existente, e vai aprender a sobreviver na grande cidade de Londres sem identificação, sem comunicações, sem dinheiro nem cartões de crédito.

Sofre os truques duros da vida sombria das zonas negras da cidade. Mas descobre também o amor quando se apaixona pela prostituta que começa por assaltá-lo e agredi-lo.

Quando a vida miserável dos dois e do filho dela começa a tornar-se de alguma forma consolador e confortável, o perseguidor encontra-lhes o rasto e mata-a.

Adam, no entanto, segue em frente. A partir de pequenos pormenores vai reconstruindo uma nova dida.

O autor mostra como um homem que sabe e está habituado a pensar é capaz de sobreviver, de elaborar informação, de usar a seu favor as mais dramáticas contrariedades.

Adam, o sem nome e sem abrigo arranja um nome falso, documentos, e começa a institucionalizar-se embora sempre numa espécie de clandestinidade. Arranja uma nova personalidade. Volta a apaixonar-se, agora por uma polícia a quem não se revela. Arranja casa e emprego no hospital onde morreram as crianças afectado pelo remédio contra a asma. Vasculha o registo informático dos testes e as circunstâncias das mortes.

Finalmente, com a ajuda de um jornalista especializado em remédios e farmacêuticas, Adam consegue desmascarar a multinacional e resolver a questão do assassinato e impedir a empresa a novos testes ao remédio e, assim, adiar os esperados milhões de lucro.

É claro que apenas se arranhou a superfície dos interesses económicos que tudo justificam em nome do lucro.

O romance tem como pano de fundo o retrato do ultra-liberalismo que comanda o mundo em que vivemos.

Várias vezes ao longo da leitura me veio à memória “O fiel jardineiro” de Le Carré. É a mesma problemática embora na arte da narrativa, Le Carré seja um mestre difícil de igualar.


quarta-feira, 7 de setembro de 2011

ALBANO ESTRELA - 7LEITORES EM LIVRO



O blog 7leitores dá mais um passo. Ou melhor, dá o seu primeiro livro. É do Albano Estrela que foi o primeiro companheiro deste blog e talvez o mais entusiasta. Reuniu parte dos seus comentários aqui publicados e juntou-os num livro onde encontramos com mais facilidade a linha que os une e que é a do olhar sábio de um professor com que todos temos muito a aprender.

Pediu-me (por gentileza mais do que por mérito que eu possa ter) para lhe fazer o Prefácio. Aqui está ele:


"A ARTE DE SER LEITOR

Na elaboração dos seus direitos do leitor, Daniel Pennac incluiu o direito de não falar do que se leu. Esses direitos, que tanto sucesso conheceram, constituirão sobretudo uma crítica à forma conservadora e instrumentalizante de abordar a leitura em âmbito escolar.
Em última instância, creio que o pensamento de Pennac insere-se na corrente dos que entendem que colocar a tónica na interpretação pode matar o prazer da leitura entre os jovens.
Quem gosta de ler constrói a sua própria oficina de interpretação. Pelo contrário, são muitos os casos em que a promoção da leitura vira as costas ao afectivo e ao lúdico e reduz-se a um exercício quase abstracto de interpretação. Esse excesso e esse carácter abstracto da interpretação coloca-nos no compartimento da mais estreita mecânica escolar e pode conduzir à ausência de prazer na leitura.
Voltemos, assim , a Pennac que nos “concedeu” o direito a não falar do que lemos. Temos esse direito, sabemos que o temos e, no entanto, os verdadeiros leitores, os leitores obsessivos, gostam de falar dos livros que acabaram de ler. Mais do que isso: precisam de contaminar as pessoas à sua volta com o vírus dessa paixão feita vício que é a leitura.
Confesso que sou um desses viciados. Preciso de falar dos livros que leio durante a leitura, depois da leitura e, por vezes, muito depois dela.
Conheço outros assim. Amigas e amigos com quem a conversa, quando nos cruzamos, começa invariavelmente por: O que é que andas a ler? Já leste este ou aquele autor? E aquela personagem, não é fantástica? E aquela descrição de uma cidade? E aquela viagem? E, e, e…
O primeiro de todos é o meu muito querido amigo e mestre Albano Estrela. Um dia desafiei-o a ele e a outros para fazermos um blog que veio a intitular-se 7leitores. Trata-se de um espaço onde damos conta dos livros que lemos e partilhamos reflexões, ideias, apontamentos que nos foram acontecendo ao logo da respectiva leitura.
O blog já leva quase 2 anos e os 7 leitores já são mais. Gostava de encontrar uma designação que nos coubesse bem. Estamos longe de ser grandes leitores como Alberto Manguel, Georges Steiner, Umberto Ecco ou Jean-Claude Carriére.
Seremos talvez uns pequeninos grandes leitores. Isto é, pessoas que fazem da leitura uma actividade fundamental do seu quotidiano e da construção da sua sempre imperfeita humanidade.
O leitor que somos não é um crítico, nem um catalogador, nem um patologista clínico da leitura. Não tem contas a ajustar com os autores. Não pertence ao negócio mais ou menos bilioso da construção e destruição de prestígios literários.
Regra geral, o leitor que somos não tem tempo para falar dos livros que lhe desagradam. Está demasiado absorvido por aqueles outros que lhe abrem caminhos, que o fazem voar, que lhes mostram novas formas de olhar o mundo por fora e por dentro de si, que lhe acendem uma luz no coração.
Um leitor precisa sempre de quem o leve pela mão. Já leste o David Toscana? E o Bartleby de
Melville? É preciso revisitar o Chesterton. Vale a pena dar uma vista de olhos pelos policiais
suecos? E a última tradução do Tolstoi! E os portugueses, tantos, do Eça ao Raul Brandão, do
Saramago ao Miguel Real, da efervescência do Lobo Antunes à prosa fantástica do Mário de
Carvalho!
Este levar pela mão é sempre mútuo e resulta de um processo em que as referências se atropelam quase ofegantemente e saltam umas por cima das outras porque vício é vício e nem o dobro dos anos de vida nos permitiria ler tudo o que já acumulámos nas prateleiras abarrotadas das leituras urgentes.
Ao longo dos anos que dura a amizade que lhe agradeço, Albano Estrela tem-me levado pela mão nos caminhos da leitura e dos livros. Fez-me ter atenção a Buzatti e a Papini, à micro-literatura ibérico-americana, os contos de John Cheever e a tantos outros autores e livros. Agradeço-lhe do fundo do coração.
Acima de tudo há que dizer que Albano Estrela é um mestre na ARTE DE SER LEITOR que, como todos os verdadeiros mestres, nunca se põe em bicos de pés. Exerce a sua mestria com uma generosidade e uma discrição invulgares.
Neste livro, Albano Estrela reúne e partilha as suas reflexões de leitor, por vezes inesperadas, sempre sagazes, luminosas e apaixonadas.
Quanto a nós, os que temos a sorte de conviver e aprender o Albano Estrela temos de lhe agradecer comovidamente estes textos e, já agora, de perguntar-lhe: Ó Albano, o que é que está a ler agora?”


domingo, 4 de setembro de 2011

UMA CAIXINHA DE HISTÓRIAS



Dizia-me a editora Piedade Ferreira há poucos dias que algumas editoras publicam demasiado cedo autores que só mais tarde começam a cair no goto do público e no da máquina publicitário/crítica que promove alguns autores e ignora outros sem razão aparente que não seja a ignorância.

Deu-me a Piedade como exemplo os dois magníficos romances que publicou na Quetzal há 15/20 anos de Hernán Rivera Letelier,autor que só agora se tornou referido e sublinhado mas que foram então foram um fracasso na época e que aparecem a pataco por aí nas feiras do livro barato.

A Cavalo de Ferro tem feito um trabalho notável de divulgação de escritores de literaturas menos divulgadas em Portugal. E entre vários conta-se Ivo Andric, nacido de família croata na Bósnia, diplomata e Prémio Nobel em 1961.

Esta sua pequena novela é passada no pátio de uma terrível prisão turca, em Istambul. Em redor estão as celas que em cada manhã atiram para o pátio uma variado e muito sui geris grupo de prisioneiros que vivem durante o dia no pátio onde conversam, brigam, jogam e contam histórias.

Naquele pátio maldito onde um director exerce o poder sem peias e de forma muito própria, cruzam-se assassinos, ladrões, aldrabões, inocentes, ignorantes da sua culpa, gente da mais baixa condição social e senhores de hábitos de grande sofisticação.

Aqui se sussurram ou gritam as histórias reais dos presos, as memórias, invenções, mentiras, acusações, delírios, mitos e ficções que cada preso inventa para poder sobreviver e afirmar-se perante os outros.

Neste ambiente inquietante, as histórias quase que trepam umas por cima das outras, envolvem-se, repetem-se em versões novas, divergindo e convergindo numa girândola imparável.

Este pátio e esta história podiam ser uma espécie de mil e muitas mais noites, uma caixinha sempre pronta a deixar sair mais uma e outra história.


quarta-feira, 31 de agosto de 2011

"(...)/ao cair da noite. Tenho sempre medo que não voltes." Maria do Rosário Pedreira



A Árvore Vermelha

Shaun Tan

Kalandraka


Setembro é o mês de recomeços. Para os dias de ainda Verão mas, por vezes, de céu carregado de nuvens e ameaçadoras tempestades um livro feliz para todas as idades. Um livro irrepreensível como poucos.

Shaun Tan, ilustrador (e não só), nascido na Austrália, em 1974, deve dar por bem empregue o tempo de estudante em que se dedicava ao desenho e exibia o seu talento de desenhador para compensar o facto de ser o mais pequeno da classe. Tem uma obra maior, merecedora de detalhada atenção e entre vários prémios recebeu, em 2011, o Prémio Memorial Astrid Lindgren (ALMA).

Uma menina e o começo de um dia vazio de esperança. As horas passam e nada melhora. Vemos, em grandes imagens, a ameaça da obscuridade, a incomunicabilidade, a falta de sentido e lógica do que acontece ou a espera interminável sem que nada se passe. Uma avalanche de problemas. Coisas maravilhosas que parecem inatingíveis. Não sabe o que fazer nem sabe ao certo quem é ou onde está. Mas eis que, ao terminar o dia, de regresso ao quarto, encontra uma explosão de cor, que tanto pode ser uma voz que soa, um gesto ou uma ideia, em todo o caso um ponto de evasão de todo o drama do dia.

Um olhar atento sobre as belíssimas e surreais ilustrações far-nos-á descobrir uma pequena folha colorida que a acompanha sem que ela disso tenha consciência. A esperança, mesmo nos dias mais negros, é um pequeno detalhe colorido à espera do nosso olhar.

É um livro luminoso. Ofereçam-no!

domingo, 21 de agosto de 2011

“Não devo falar de flores/em tempos favoráveis/à dor das oliveiras" Licínia Quitério





“Poemas do Tempo Breve”

Licínia Quitério

Edição de autor

Nestes tempos temos livros, blogues e redes sociais e risco do tempo ser excessivamente tomado. Mas, como em tudo, o mal e o bem não residem nas coisas mas em nós, no bom ou mau uso que delas fazemos.

Há uma inegável panóplia de possibilidades no mundo on-line. A cargo de cada um o uso assertivo e comedido, para multiplicar os caminhos mas não dividir, irremediavelmente, o tempo. E sim, podemos pôr este mundo ao serviço dos livros, da sua divulgação, da distribuição, da comunicação com os leitores. Aliás, este blogue (7Leitores) também se inscreve nessa intenção. O mundo cresce, a edição multiplica-se e o que nos resta para orientação e escolha é uma proximidade feita de detalhes e afectos.

Há tempos trouxe aqui um livro de Poesia do Henrique Manuel Bento Fialho, uma limitada edição de autor distribuída apenas por envio postal (recentemente sobre ele escreveu Pedro Mexia, no Expresso/Actual/9/7/2011). Este “Poemas do Tempo Breve” segue o mesmo exemplo de distribuição. Assim devia ser a poesia: apenas palavras atiradas ao vento para quem as souber apanhar… Mas é preciso salvaguardar o lado humano dos poetas que têm o hábito de ser mortais e não viver só de luar.

Foi um acaso que me levou a descobrir esta senhora, o seu blogue e depois o livro. Sigam por aqui e saberão do que falo: http://sitiopoema.blogspot.com/

A vida vai-nos dando passado. Um dia olhamos e reparamos que esse tempo é infinita e irremediavelmente maior que o futuro. Devemos cuidar de ter o melhor e mais intenso passado pois cada dia que vivemos é um dia perdido, apenas ganho no que dele restar de memória.

O livro abre com palavras da escritora Cristina Carvalho e do poeta Joaquim Pessoa. Não são prefácios, no sentido comum do termo, nem cedência de simpatia, apenas palavras de quem partilha a respiração da poesia que Licínia Quitério escreve. “Poesia sem tempo e para todo o tempo”, “de procura de novos caminhos”, diz Joaquim Pessoa saindo-se muito bem da difícil tarefa de falar, poeticamente, desta poesia “desassossegada” e, no entanto, portadora de paz, cheia de alma mas, também, de corpo presente.

Lícínia Quitério também ao seu jeito se apresenta. Começa: “Tenho setenta anos”… O tempo de vida é algo que não se recusa. O que sabemos, em certa idade é diferente do que sabemos em outra. O que fazemos, a partir de um certo momento da vida, com os sentimentos, com as palavras, ousando fazê-lo e não desistindo, não deixando que a vida se perca, não é sinónimo de juventude mas de sabedoria.

“Quem quiser saber de mim há-de saber ler os meus poemas. Se deles gostar, bem poderá ser que de mim goste” diz Lícínia.

E na verdade fiquei a gostar desta senhora. Do modo delicado e genuíno como se partilha na poesia que se impõe “como luz e caminho”, assumindo que é preciso saber esperá-la mas também trabalhá-la, desveladamente. E o resultado, por muito trabalho que tenha dado, tem naturalidade e leveza sem ter ausente a profundidade das mágoas que encerra, a inquietação da presença dos outros como existência ou promessa de existirem algures.

NÃO DEVO FALAR

“Não devo falar de flores/em tempos favoráveis/à dor das oliveiras (…)//Direi então devagarinho/do desenho das dálias/na memória dos canteiros/da palpitação das asas/da borboleta em fuga/do silvo dos comboios/rasando as oliveiras//”

Sente-se uma correspondência discreta e forte entre o escrito e a essência de quem escreve. Gostei imenso de a ler. Pela sabedoria e serenidade que emana da sua poesia, sem, no entanto, perder frescura e alguma inocência que o anúncio do início, “tenho 70 anos”, nos pode fazer estranhar neste tempo em que as pessoas se libertam da Vida demasiado cedo.

POR VEZES

“Por vezes tudo se confunde. As minhas mãos/são sol dentro das tuas e há cintilações nos campos/do Outono onde se guardam nuvens e esmeraldas./(…)/Por vezes sou o Verão a suportar a casa./Por vezes sou a casa e acolho a sombra./Por vezes tudo se confunde e sou a sombra./Por vezes//”.

A Poesia que canta o amor mesmo no meio da solidão, à luz ténue de uma longínqua, quiçá impossível, esperança.

ESTOU SÓ

“Estou só. Semicerro os olhos e vejo-te no longe,
a acenar. A tua mão é a corrente a que me prendo
por vontade, a demorar o tempo de partir.
Hei-de saber, amor, se nome tem esta batida
do meu coração dentro do teu. Vem para o pé
de mim. Senta-te no sofá que guarda a forma
do teu corpo intenso, com cheiro ao veludo das manhãs.
Fala-me mesmo que as palavras nada digam
a não ser o que sempre dissemos e continuaremos
a dizer até ao fim dos dias. Preciso da tua voz
no meu ouvido para saber o canto das marés.
Não tenhas pressa. Amanhã sairemos à rua
e seremos a febre de todas as lutas e abraçaremos
os amigos que não envelheceram, que não adormeceram
nos tapetes de flores. E nós, que nos amamos
para além do nevoeiro, há muito a encobrir a nossa rua,
beijar-nos-emos no meio da multidão, e o sol virá.
Seremos árvores até que delas fique não mais
do que um recorte em águas vivas onde repousa o céu.”

Poesia que embrulha delicadamente a mágoa das partidas, o que fica para trás. O que levamos é sempre o que vimos e sentimos, mais nada. Não vivemos por delegação. Bom e mau tudo passa por nós, pela alma e pelo corpo. São nossas as memórias, são nossas as cicatrizes e a dor cíclica que o tempo traz ao dobrar das datas.

A Poesia é o que fica do indizível.

AMEI O VERÃO

“Amei o verão e as sombras ofertantes
de grutas e desvãos e amáveis
copas aos tórridos amantes.
Imensa a praia onde me deitei
e mais ninguém pisou como eu pisei.
Eram então os dias em que o corpo
se vestia de carmim e açafrão
para receber o desenho dos pássaros
na frescura da lâmina da tarde
e a minha escrita era líquida e nua
a deixar-se tomar por peixes verdes
que um poeta andarilho me oferecera.

Foi claro e breve o tempo da inocência.
A praia essa continua imensa.”

Todos os dias o blogue da Licinia é visitável. http://sitiopoema.blogspot.com/

Como diz nunca se sabe quando os poemas nos visitam. Como nunca sabemos quando os sentimentos batem à porta ou quando entram, não costumam pedir licença, ou quando partem, também sem aviso prévio. A vida continua seja ou não feita de dias felizes, feita das memórias que nos acompanham tornando-nos, simultaneamente, mais densos e mais leves.

“em tempos favoráveis/à dor das oliveiras” a Poesia é o que resta a preencher as mãos, a amparar a alma, a guiar a esperança. Não estou certa de que todos os poetas sempre acreditem mas sei que escrevendo nos ofertam a nós, leitores, o dom de não deixar de acreditar na incessante busca da felicidade.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O SENTIDO DO MUNDO



"Uma das maiores satisfações da minha vida não me foi dada pelos livros que escrevi mas pelos livros que editei"

Isto afirmava Ricardo Menéndez Salmón, escritor e editor, num artigo publicado pela Babélia há cerca de um ano.

Dizia Borges que precisava de duas vidas: uma para ler e outra para escrever. E Menéndez acrescenta um terceiro caminho, o da edição, "...que integra o melhor de ambos os mundos e ensina, como uma imperecível lição de humildade, que bela, necessária e nobre continua a ser esta velha arte de dotar o mundo de sentido através da palavra."

Vem isto a propósito do meu amigo João Rodrigues, editor da Sextante. Ele edita livros de que gosta e fala deles com um entusiasmo que nos obriga a ir lê-los depressa.

Falei-lhe do escritor italiano Erri de Luca e do encanto que tive a ler "O peso da borboleta" de que já aqui falei. O João disse-me que o mais impressionante livro de de Luca era "Três cavalos" e tinha-o ele editado na Biblioteca Âmbar de Bolso de que foi editor e onde publicou alguns notáveis autores.

A colecção acabou. Os seus livrinhos encontram-se por vezes nalgumas feiras do livro a preço de saldo ou mais baixo ainda.

Preparei-me para me fazer ao caminho em busca de "Os três cavalos" quando, inesperadamente, o encontrei no fundo de uma das pilhas dos livros que tenho para ler nos próximos meses, ou anos, ou...

Atirei-me a ele. E foi emocionante. De Luca é um escritor raro. Um poeta. Porque o seu trabalho não é apenas contar uma história. O seu trabalho é reinventar o mundo, encontrar novos caminhos para o entender, para o nomear através do ofício das palavras.

A história é a de um ex-militante político que, por amor a uma mulher depois assassinada, torna-se combatente contra a ditadura dos generais na Argentina.

Depois de uma longa fuga de anos, regressa ao sul de Itália onde se torna jardineiro.

Tem em Salim, emigrante africano, um amigo sólido, um homem como ele, um irmão como se verá no final. Muito entre eles passa pelo não dito ou, melhor, pelas metáforas secas e duras. E tudo também assim: acção e linguagem agarradas ao chão, à busca de um outro sentido para o mundo.

O tempo narrativo é sempre o presente, mesmo o que já aconteceu há 20 anos. se passa à volta das árvores, das ervas, da terra, das azeitonas, do café, do vinho.

O narrador reencontra o amor numa prostituta. Um amor também contido, feito de toques, de cheiros, de geometrias cuidadosas. E messe amor se cruza a sua história de combatente. E tudo regressa ao presente ou talvez nunca daí tenha saído.