quinta-feira, 23 de junho de 2011

O PESO DA ESCRITA




"Os cascos do gamo são os quatro dedos do violinista. Avançam às cegas e não falham um milímetro. Saltam precipícios, malabaristas em subida, acrobatas em descida, são artistas circenses para a plateia das montanhas. Os cascos do gamo agarram-se ao ar. O calo almofadado serve de silenciador quando quer, caso contrário, a unha partida ao meio é castalholas de flamenco. Os cascos do gamo são quatro ases no bolso de um batoteiro. Para eles, a gravidade é uma variação sobre o tema, não uma lei."

Um grande livro é feito disto: linguagem, beleza, escrita levada ao patamar da arte.

Uma história feita de quase nada. O velho gamo, chefe da manada, adivinha a chegada do seu último Inverno. O velho caçador furtivo sobe à montanha para a sua última caçada. E há uma borboleta que pousa aqui e ali e cujo peso faz toda a diferença.

A história é curta. O resto é quase um poema, a arte da escrita que nos leva através dos penhascos da montanha, pela grandeza dos animais, pela arte difícil de ser homem e aprender o terrível momento da aproximação da morte. Quase um poema.

Erri de Luca, militante da esquerda jovem dos anos 60 e 70, homem que atravessou o mundo em mil ofícios, jornalista, poeta que aprendeu hebraico e traduz textos bíblicos.

Ao virar da página deixa-nos ainda uma pequena refdlexão ou testemunho de um tempo que não abandona a pele de quem o viveu.

"Durante algum tempo do século passadoa juventude adoptou uma lei diferente da estabelecida. Deixou de aprender dos adultos, aboliu a paciência. Queria ser o prelúdio de tempos opostos, declarava que todas as moedas eram falsas. Nunca mais se viu numa juventude tanta teimosia em virar o prato."


sábado, 18 de junho de 2011

A HORA DOS CONTOS EM ESPANHA

Agora, que estou velho e reformado, agora, um dos prazeres mais intensos dos meus tempos livres é a leitura de livros de contos de autores actuais. E, felizmente, as escolhas não faltam. O contismo, nos últimos tempos, voltou a ser género cultivado em muitos países, nomeadamente em Espanha. Embora pouco traduzidas em Portugal, a aquisição dessas obras está extremamente simplificada através da internet (e utilizando os serviços de uma distribuidora de livros, como a Amazon). Por outro lado, o conhecimento das obras que vão aparecendo está, hoje em dia, muito facilitado pela divulgação que delas faz a imprensa diária espanhola (por exemplo, os suplementos literários de “El País” ou “EL Mundo”). A dificuldade estará, em última instância, na selecção das obras que vão surgindo. Entre essas obras poderei citar: “Pobres mujeres”, de Ignacio Carrión (Edições Rey Lear); “Tanta pasión para nada”, de Julio Llamares (edição Alfaguara) e “ A Hora da Morte dos Pássaros”, de ~
Ignacio Martinez de Pisón (Edições Teorema).



Três antologias de autores conhecidos, a última traduzida em português, razão pela qual a referirei em primeiro lugar. Martinez Pisón, mais conhecido pelos seus romances, dá-nos, nesta obra, um conjunto de oito contos, que correspondem a outros tantos retratos de personagens da sociedade espanhola dos tempos de hoje. A título de exemplo, citarei três desse contos: “Copo de Água no Hotel Colón”, “Fotografia de Família” e “Aeroporto do Funchal”.



O primeiro é um texto divertidíssimo, que tem como tema a personagem do eterno “pendura”, ou seja, de alguém que se infiltra nos banquetes de casamento e, assim, vai sobrevivendo. Descoberto e desmascarado pelo gerente do hotel, é excluído desses banquetes. Mas a sua falta acaba por ser sentida, tal é a gentileza que o caracteriza, o seu porte e maneiras, o calor dos seus discursos, enfim, o brilhantismo que a sua presença confere a tais eventos. O que leva o gerente a convidá-lo a voltar ao “seu” hotel, a fim de animar os festejos nupciais que aí se realizam.

“Fotografia de Família” é outro texto pleno de ironia e mordacidade. Fotografia que irá perpetuar aquele dia em que se comemoram as bodas de ouro do velho casal que ainda não conhecia o marido (melhor, o companheiro) da filha, que não via há catorze anos. Na verdade, tratava-se de uma data festiva, com um significado especial para a família, pois o velho senhor tem os dias contados, embora ainda o não saiba. Por isso, todos desejam que o banquete comemorativo decorra bem e que a fotografia corra ainda melhor, a fim de que esse momento fique devidamente assinalado para todo o sempre. Mas há uma incógnita e um receio: qual será o comportamento de Jorge, o “marido” da filha, um alcoólico com comportamentos imprevisíveis? Todos os cuidados são tomados, mas o imprevisível”previsto”acaba por acontecer, numa catadupa imparável de situações”cinematográficas”, que têm tanto de hilariante como de dramático.

Mas não só de contos em que a paródia é meio (ou fim) é feito este livro. O texto “Aeroporto do Funchal” centra-se numa descrição de sentimentos de um casal em viagem de recreio no Funchal. Amor, ódio, tédio, tudo acontece sem nada ou quase nada acontecer. Enfim, uma descida aos infernos que vivem em nós e, que, de tão subtis, tão íntimos, não podem ser partilhados com os outros.



“Pobres Mujeres” é uma outra obra recentemente editada, que colige treze contos de que é autor Ignacio Carrión, jornalista que se tem distinguido pela publicação de artigos, crónicas, reportagens na imprensa espanhola. Os seus contos, de apurado recorte literário, têm uma nítida influência do jornalismo, o que os torna extremamente interessantes. O que nos faz reflectir, uma vez mais, sobre as relações entre jornalismo e ficção, levando-nos a recordar a obra de Truman Capote”Porgy and Bess”, que, de algum modo , inaugurou um novo género: a entrevista literária.



Atendendo ao que acabo de dizer, creio que não serão de estranhar algumas características desta obra de Inacio de Carrión: precisão de linguagem, objectividade nas descrições de situações; ênfase dada a alguns pormenores, o que permite que as personagens e as suas interacções adquiram um significado específico ( o que denota a influência de técnicas de reportagem). Como este livro não está traduzido em português, permitir-me-ei transcrever algumas passagens do conto “La más hermosa del universo”:

“Prefieres que me salga de tu habitación?, proseguió la madre, me estás despidiendo? Sólo quiero añadir una cosa: como madre esto todavia es peor que tener que afrontar la muerte de un hijo. Sí, peor que si tu murieras, porque no puedo siquiera decirme que te has muerto, no puedo llorar tu muerte...

La madre retrocedió un paso para salir de la habitación y desde alí observó a su hija tumbada en bragas y sujetador, frente al espejo del armário, vio los cabellos desordenados de su hija en el desordre indiscriptible del dormitorio, y se fijó en las manos escuálidas de su hija extendidas sobre el colchón. Reprimió el llanto. Se dijo: ahora no voy a llorar, no quiero darle ese gusto.”
(...)No se permitió ni un solo espasmo más. Se tragó las lágrimas. Endureció la expression de su rostro. Era una madre airada y desenganada. Se secó las lágrimas con una punta del delantal que llevaba puesto , y dijo: Ya está bien.
La hija imitó la voz de la madre. Ya está bien!, repetió, ya está bien, lo haces demasiado difícil, no hagas drama de todo esto, mi cuerpo es mío y mi vida es mía, asi que podrías dejarme en paz. Al oír estas palabras, la madre volvió a gemir y desapareció por el pasillo luego de cerrar la puerta del dormitorio para que muriera en paz la hija, para que se suicidara gradualmente, a su modo, si asi lo deseaba, solo e por supuesto en paz. “(...)
Os exemplos que escolhi revelam ainda outras características da obra do autor, que importa relevar: crueza nas descrições das situações, por vezes a resvalar para a crueldade; uma acentuada dificuldade de comunicação entre personagens, expressão da sua solidão interior.
Estamos, pois, perante uma obra diferente do que se vem publicando no campo do contismo, pelo menos entre nós; uma obra vertida numa linguagem que tem tanto de ágil como de incisiva.



“Tanta pasión para nada”, de Julio Llamazares (Alfaguara), é um conjunto de treze contos, extraídos de três obras suas, publicadas entre 1991 e 2008. Um conjunto excepcional, tanto na forma como no conteúdo. A vida vivida como uma paixão inútil que cumprimos com a mesma determinação, o mesmo entusiasmo que colocamos em tudo aquilo que nos faz sentido. E é exactamente essa falta de sentido que dá sentido às suas histórias, em que são personagens figuras do nosso quotidiano ou de quotidianos que nos são afins. Histórias decorrentes do real, mas eivadas de uma aura poética que as transfigura em algo de irreal, que as aproxima do sonho.



Difícil será citar um ou dois contos que ilustrem aquilo que acabei de dizer, tantas e tão variadas são as situações, os ambientes em que se desenrolam as histórias. Atrever-me-ei, no entanto, a preferir “Los viajes del tio Mario” e “El médico de la noche” No primeiro destes contos, relata-se a paixão de dois jovens que a vida separa e que o acaso volta a juntar no fim da vida, quando ao velho tio Mário (o jovem enamorado de outrora) pouco mais tempo lhe resta de vida.
“El médico de la noche”descreve um episódio da guerra civil espanhola, em que são protagonistas guerrilheiros em fuga às tropas franquistas e uma família de pobres camponeses que vivem isolados nas montanhas. Numa noite gelada, esse grupo de guerrilheiros bate à porta do casebre, à procura de um pouco de calor. O casal acabava de ter uma filha que se encontra doente. Um dos homens aproxima-se da criança, observa-a e tira da sua maleta alguns medicamentos que lhe administra. Esse guerrilheiro voltará em noites seguidas para observar e medicar a criança que acaba por melhorar. Destas visitas nocturnas nunca os pais deram conhecimento a alguém, nem à própria menina que, sobrevivendo, se fez mulher, tal o medo que a “guardia civil” infunde em todos os que, de um modo ou outro, alguma vez tiveram contacto com a guerrilha. É um segredo que a mãe da menina, agora uma nonagenária, guarda e espera levar consigo para a cova. Até que um dia se faz na aldeia uma exposição histórica de alguns objectos apreendidos à guerrilha.

“La madre gurdió también silencio. Parecia más tranquila tras habernos revelado su secreto, pero seguía muy emocionada. Lo estaba desde que reconoció, nos dijo,entre los objetos de los guerrilleros que se exponían en el Ayuntamiento, aquel maletín de cuero que el médico que salvó a su hija de morir portaba cada noche en sus visitas y del que sacaba la medicina que le inyectaba, y al saber, sobre todo, que su dueno había muerto en la emboscada que hizo famoso Cerro Moreno y de la que aún tenia el recuerdo, como todos los vecinos mayores de Santa Cruz, aparte de los disparos, que duraran toda la noche, de los cadáveres de los maquis pasando frente a su casa al amanecer cruzados sobre caballerías
(alguno con los sesos o las tripas colgándoles como trofeos) entre filas de guardias civiles, sin saber que uno deles era aquel médico misterioso que salvó su hija de morir sin pedir nada ello, salvo calentar-se al fuego.
- Que Dios se lo haya pagado! – concluyó la mujer su confesión cerrando los ojos.”
Preferi transcrever o texto espanhol com receio de que a minha tradução lhe fizesse perder qualidade, visto não ser especialista em tradução. Pelo que foi dito, creio que se tornou claro que se impõe a publicação destas obras por uma editora portuguesa. Não podemos continuar a desconhecer o que se publica tão perto de nós – tão perto e tão inacessível ao grande público.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

(…) Mais como son tan pobre só teño os meus soños; Despreguei mis soños baixo os teus pés; pisa devagar porque pisas os meus soños.” W. B. Yeats


“O único que queda é o amor”/Só Resta o Amor”,

Agustín Fernández Paz

Xerais/Edições Nelson de Matos



Foi a Orhan Pamuk que Agustín Fernández Paz resgatou o título do livro de contos “O único que queda é o amor”, com o qual venceu, em 2008, o Prémio Nacional de Literatura Infantil e Juvenil do Ministério da Cultura espanhol.

Agustín escreve com a serenidade do tempo, do silêncio e da memória sobre o mundo dos encontros e das perdas da vida. Mais que finais felizes tece dias felizes estendendo a mão aos poetas, são sempre eles que acompanham o (des)amor. Li-o em galego, a sonoridade é também algo que mora nas palavras e molda o seu significado. A voz é parte da leitura.

Por cá “Só Resta o Amor”, infeliz e indesculpavelmente sem as belíssimas ilustrações de Pablo Auladell que acompanham a edição galega, foi publicado pelas Edições Nelson de Matos e perdeu-se por aí… Acontece com tantos. Mas os bons livros não têm idade nem tempo para além do que o leitor lhes conceda.

Com o “Un radiante silencio” de um “Amor de Agosto” onde “Esa estraña lucidez” que acompanha “Unha historia de fantasmas” correrá ainda nos “Ríos da memoria” mesmo “Despois de tantos anos”… Como há almas que precisam de “Un río de palabras” é “De amores e de libros” que se constroem os dias (in)comuns que ancoram as nossas vidas.

terça-feira, 7 de junho de 2011

HADJI-MURAT



Devo confessar que me tornei perigosamente viciado em literatura russa do séc. XIX. Gogol, Turgueniev, Tolstoi, Tchekov, e até Dostoievsky, são paixões desmedidas. E grande parte desse vício devo-o ao notabilíssimo casal de tradutores que são Nina Guerra e Filipe Guerra que nos últimos anos têm traduzido directamente do russo dezenas de obras destes autores.

Entre todos estes gigantes da literatura não saberei dizer qual o que me toca mais fundo. Mas Tolstoi tem o condão de me atravessar o peito e mexer furiosamente com os meus sentimentos.

Aconteceu-me com "A morte de Ivan Ilitch" e com "A valsa de Kreutzer". Tremi ao reflectir sobre a dor e a morte na leitura do primeiro, confrontei-me com o sentimento do ciúme que nunca se tinha atravessado à minha frente tão nitidamente e terrível como na leitura do segundo.

Não foi bem o que me aconteceu na leitura deste "Hadji Murat". E é fácil perceber porquê. A novela passa-se na respiração de um tempo que está muito longe de mim na relação com o mundo em que vivo, em que nós, leitores, vivemos.

No entanto, como sempre com Tolstoi, foi uma leitura entusiasmante, que me levantou questões diversas e intensas. E é para isso que também serve a literatura.

Hadji Murat é um chefe guerreiro das montanhas do Cáucaso. Encontramos nesta narrativa tudo ou quase tudo o que é necessário para entrever as raízes históricas dos conflitos entre tchetchenos e russos.

O que Tolstoi faz de extraordinário para a época é dar um perfil de homem e de herói ao rebelde das montanhas pondo em paralelo o mundo cruel, sofisticado mas decadente da aristocracia russa e do prório Tzar, apresentado como pouco que um tonto que toma decisões ao sabor dos acasos.

Por tudo isto, o livro foi proibido até à Revolução de 1917. Percebe-se porquê. E continua a perceber-se como, retratando a jogo entre poder e revolta, decadência e vitalidade, a pena de Tolstoi continua a retratar tão intensamente os homens que governam este mundo tão imperfeito e inquietante em que vivemos.




Nesta novela (que foi proibida no tempo dos czares, Tolstoi faz uma crítica séria à superficialidade e alguma fragilidade intelectual do próprio czar, dos oficiais que estão numk dos limites do Império para pacificar

sábado, 4 de junho de 2011

" Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez. Senhor, falta cumprir-se Portugal!" Fernando Pessoa




Rentes de Carvalho nasceu em 1930. Ouvi-o, com agrado, há pouco, numa Feira do Livro. Fala com o gosto de que tem muito que contar mas com a humildade de quem não nos quer maçar com isso. Na verdade vale a pena escutá-lo.
Os setenta anos já percorridos significam um longo caminho não só de escrita, por livros e jornais, mas também de deambulações entre exílio, viagens e paragem onde escolheu ou foi escolhido para permanência.

A viver na Holanda, apesar de ser um regressado sistemático a Portugal, passou muitos anos à margem do país que, conhecendo-o, pouco o leu como se indiferente ao seu valor.Podia dar-se o caso de ser pouco divulgado por ser autor de uma escrita hermética e inacessível, mas tal não é o caso. A sua escrita é rigorosa mas perfeitamente lúcida e inteligível o que é um indiscutível mérito.De há uns tempos a esta parte começou a ser falado por todo o lado e, de repente, tornou-se crime de lesa nacionalidade desconhecê-lo.

Tempo Contado

J. Rentes de Carvalho

Editora Quetzal

“Tempo Contado”, um Diário, é o quarto livro editado pela Quetzal que promete continuar a fazer luz sobre toda a sua obra.

Este diário percorre terras transmontanas. As estradas, as gentes, a calma, por vezes pasmaceira, que só quem lá vive ou passa atento tão bem conhece. Os transmontanos lerão com o desfastio com que atravessam os dias e as estradas, ainda cheias de curvas e de tangentes nos carros que se cruzam.

Rentes de carvalho pertence e não pertence aos lugares que nos leva a percorrer. É da terra mas só de tempos a tempos lá vive. É da terra e estranho não sendo uma nem outra coisa. Essa condição permite-lhe olhar de fora e de dentro. Passar-nos o olhar crítico mas sem interferir com o visto como faria sendo estrangeiro. Sente-se esse equilíbrio, em toda a escrita, e um humor decantado e precioso.

Sendo um registo de um ano da década de noventa, 1994-1995 podem pensar que é coisa do passado, mas não é. O interior do nosso país move-se lentamente e Rentes de Carvalho tem a inteligência de fazer a sua escrita intemporal, mesmo no registo próximo do quotidiano.

Começa a 15 de Maio, data da celebração melancólica do seu aniversário, numa idade em que a vida é uma dádiva mas ainda não um estorvo, afinal tudo funciona como antes, diz. Escolher este registo traz-lhe à memória outro, de adolescência, e as memórias ainda vivas e magoadas do pai, da sua incompreensão. Estou a lê-lo ainda. Mas não quis deixar de o partilhar desde já convosco.

Deixo-vos:

“Domingo, 5 de Junho – A meio da manhã para Moncorvo para o ritual da compra dos jornais e a visita ao café. Ainda é cedo e o Expresso esgotou-se. Acho estranho e falo com o dono do quiosque que, numa vila com uns mil habitantes e outros tantos ou mais nas aldeias em redor, só encomenda dez exemplares do Verão e cinco no Inverno.

- Se encomendasse mais –diz ele- quem mos comprava? E olhe que mesmo tão poucos às vezes ainda sobram.

(…)”

É certo que, quem passa pelo interior sabe, os jornais no Verão são assim… Como a vida, difícil de acertar a dose. Não há receita. Viver é improviso

E continuamos… Amanhã:

“16 de Junho - O senhor Machado ri às gargalhadas (…)”

Neste país, amanhã, o senhor Machado será dos poucos que terá vontade de rir...

Vou demorar a lê-lo. Terminarei na última entrada a 15 de Maio de 2012. A certeza que me resta: viver, um pouco cada dia, neste “Tempo contado” lendo.

Sílvia Alves/5 de Junho

sábado, 28 de maio de 2011

"RAYUELA", UM ROMANCE PORTUGUÊS?



Há muitos anos que eu conhecia obras do escritor argentino Julio Cortázar (1914-1984), nomeadamente contos e romances, embora nunca tivesse lido o mais célebre dos seus livros: “Rayuela” (“O Jogo do Mundo,” na tradução portuguesa da Cavalo de Ferro). Talvez por duas razões: por ter receio de alguma desilusão, tais os encómios que os eruditos encartados da nossa praça lhe faziam; pelo número avultado de páginas da obra, nada condizente com a minha idade avançada e consequente aproximação do fim da vida...
Mas, vencidos estes dois “obstáculos”, lancei-me à leitura das 631 páginas da obra, e, conforme a ia lendo, mais a emoção me ia perturbando: “Rayuela” era a história da minha geração, a geração que nos anos cinquenta despontou para a leitura, para a cultura que tinha Paris como grande centro de irradiação. Mas não só: a história, as histórias que aí se narram eram as histórias de amigos meus que rumaram a Paris nos inícios dos anos cinquenta, exactamente como Julio Cortázar (e as personagens de “Rayuela”). As semelhanças com a vida de um dos meus maiores amigos, o Ilídio Henrique Correia de Sousa, eram espantosas. Daí, a emoção que não pude evitar, acrescida pelo facto de o Ilídio ter morrido há relativamente pouco tempo, em condições penosas.



Tanto o Ilídio como as personagens masculinas de “Rayuela” testemunham o drama de se pertencer a uma “cultura periférica” e nela não encontrar a sua identidade. Ou, dito por outras palavras: enquanto essas personagens viviam no seu país de origem (Argentina, Portugal), a cultura do seu país era vivida como algo de periférico em relação à centralidade da cultura dominante, a francesa; quando passaram a viver em Paris, deu-se o fenómeno inverso, Buenos Aires (no caso das personagens de Cortázar), o Porto (no caso do Ilídio) adquiriram uma inesperada força centrípeta. E quando regressaram definitivamente aos seus países, a descompensação psicológica foi-se instalando nessas personagens, levando-as a um desequilíbrio emocional que se acentuou com a idade.
Esta a história que eu vivi através do meu amigo Ilídio, esta a quase não história de “Rayuela”. “Rayuela” (“O Jogo do Mundo”), um dos romances mais inovadores da segunda metade do século XX. Um romance que é um anti-romance, em que a história não é um elemento estruturante que dá sentido à obra. Um romance que não tem uma mensagem, mas mensageiros (em última instância, eles são as mensagens).
À semelhança das personagens de “Rayuela”, o meu amigo Ilídio, homem de vasta cultura, com um domínio perfeito da língua e da literatura do seu país de origem e da francesa, “perdeu-se” na multiplicidade de mensagens que a vivência em Paris lhe facultou, nunca encontrando a MENSAGEM e, portanto, o tema para o romance que desde sempre desejou escrever. Uma autêntica personagem cortazariana, que vive e se auto-destrói, sem suspeitar que o tema do seu romance só poderá ser ele próprio e que a forma narrática decorrerá forçosamente da descrição da sua peregrinação interior! E, como esta procura-peregrinação não obedece a uma lógica linear, também a escrita não poderá seguir uma linearidade narrática tradicional, pelo que se desenvolve em “ziguezagues”, em tentativa de apreensão do sentir e do pensar das personagens. O que representa uma ruptura com as formas de escrita dos ficcionistas de língua espanhola da primeira metade do século XX. Será nesse sentido que se deve compreender a interrogação-afirmação de Cortázar: “para que serve um escritor senão para destruir a literatura?”. E, ao destruir a literatura, o escritor está a criar uma nova literatura e, por consequência, um novo leitor – “o leitor do futuro”.
“Rayuela” um “anti-romance”? Sim, portanto um romance dos tempos actuais, tão genial, tão latino, tão nosso que até dói...

quarta-feira, 18 de maio de 2011

“Em algum momento fomos simultâneos/ como dois corpos tombando na água” José Tolentino de Mendonça in “A Estrada Branca”

“também as tuas mãos haviam de chegar um dia assim
ou pelo menos foi isso que pensei quando
o teu corpo tocou ao de leve a sombra das águas
que tinham corrido ao longo das noites da tua ausência”
É sempre ousadia escrever sobre os livros de poemas que vêm desaguar nas nossas mãos, a poesia merece que se escreva sobre ela apenas para que se anuncie ao vento, para que as suas palavras aos corações levem polén como se fossem flores.
Não saberei porquê ler poemas num tempo e não noutro… Porquê uns e não outros.
Ia escrever sobre o Manuel António Pina, o alegre e justamente celebrado prémio Camões mas veio do nada este livro, já antigo, da Alice Vieira. Deixo o Manuel António Pina no seu momento de glória, celebrando justamente todos os escritores que escrevem para todas as idades, e trago a Alice, uma mulher que renasceu, rejuvenesceu e vive uma alegria contagiante a espantar alguma tristeza escondida que não é para aqui chamada. Ganhou, com um nome que não era o seu, o Prémio Maria Amália Vaz de Carvalho, em 2007, e daí “Dois Corpos Tombando Água”/Editora Caminho, seu primeiro livro de poesia.
Tombando na água da vida, da dor, da espera… Celebrando o amor, clandestino, vivido e recusado. Palavras de uma história onde cada um encontra a sua, a do seu, o que vive agora ou o que passou e o que há-de vir. A poesia chega-nos liberta das emoções de quem a escreveu preenche-se das de quem a lê e fica outra…. A poesia é como um corpo com o qual tombamos na água. Entregamos ao afago das palavras a nossa coragem para a queda ou a cobardia com que recusamos seguir o coração.
A poesia arranha como silvas e é bálsamo sobre as feridas, oferece-se para nosso deleite ou sofrimento. Não lhe podemos cobrar o embargo da voz porque a emoção somos nós que a despertamos no poema, é nossa.

“naquele tempo toda a cidade ardia e nós
ardíamos com ela mas sabíamos
que havia de chegar uma noite
em que as amarras (ou a pátria tanto faz)
seriam mais fortes e entraríamos
em silêncio no quarto
inventado palavras tão transparentes para a nossa vida
que hoje tenho dificuldade em encontrá-las
para as colocar em seus devidos lugares”

Abrimos um livro e seguimos aqueles dois seres e somos à sua medida felizes e infelizes no modo desacertado e louco do amor que passa como um rio.

“o que verdadeiramente me dói não são as palavras
que nestes anos todos ficaram por dizer
arrumadas entre os medos que não gritámos juntos
e os sonhos que não transpirei na tua pele
o que verdadeiramente me dói são os silêncios
que nunca habitámos do mesmo lado
porque o silêncio só pode ser partilhado
com aqueles que amamos até à loucura
só ele é a dádiva perfeita que não pede mais nada
a não ser um mesmo lugar para deitar a cabeça
e esperar que a madrugada lentamente desfaça
todos os segredos e nada mais seja preciso
para voltarmos a ter vinte anos mesmo que
os vinte anos tenham morrido para sempre
na cidade em chamas”

O tempo e a memória, inimigos numa vida que será o que vivemos ou será o que lembramos dela?

“e a verdade é que nunca terei outra história
para além da que nos aconteceu
e que ficamos à espera de um dia perceber melhor”

Fechado o livro continuamos mais leves ou mais pesados consoante o peso que, quando o abrimos, carregávamos.

“com que palavras irei escrever agora o nome
das horas que entram pela cama em que noutra vida
te ensinei o caminho do meu corpo
e da justeza dos gestos com que a alegria
se desenhava em mim quando dizias
agosto tu vais ver é a nossa pátria”

Poesia essa inútil existência para celebração do amor sem a/o qual a vida fica vazia de sentido.

“é claro que sei esperar por ti
sabendo desde sempre que não vens e mesmo assim
escolho sem sobressalto a música perfeita
de te acolher no sono como o enevoado rumor
de todos os encontros improváveis”

Ainda não é tarde para ler Alice.

domingo, 15 de maio de 2011

UM ADEUS COMOVENTE



O José Oliveira da Editora Caminho entregou-me este livro como se entrega uma preciosidade a alguém que é capaz de a avaliar.

Li-o com a maior atenção, sem deixar de fazer convergir todas as memórias que guardo do Mário Castrim.

Homem de convicções muito fortes, capaz de magoar e de amar, amigo extremo e adversário extremo. Não era flor que se cheirasse, dirão. O sectário geral, chamavam-lhe. Um pai de excepção, diz a Alice Vieira, sua companheira até à morte.

Conheci-o, visitei-o no dia seguinte ao nascimento do seu segundo filho. Teria eu uns 18, 19 anos...? Fiquei comovido com a sua comoção.

Li-o dia a dia nas suas críticas de televisão no "Diário de Lisboa". Delirei, detestei, comovi-me, revoltei-me com as suas palavras, os seus elogios e as suas diatribes.

Conheço-lhe as histórias e os poemas para crianças. A sua capacidade de voar nas palavras. A sua necessidade de as ancorar às certezas da ideologia que era a sua.

Mesmo saindo pouco de casa
foi um homem do mundo. Teve uma vida com sangue a correr-lhe nas veias,. Uma vida larga, contraditória, uma vida cheia de palavras que deixou cheias de vida, ao contrário de alguns jovens poetas, também cronistas, também diversos nas suas avaliações,que só têm literatura e cotão na dobra dos versos.

Os poemas agora publicados pertencem por certo aos últimos dias de Mário Castrim. Mostram-no na solitária vulnerabilidade dos seus amores, do seu espaço, dos seus objectos, da sua casa, da sua sala de onde observava o mundo através de breves rasgões e aonde convocava pássaros, mares, navios,sonhos e a dolorosa memória da su infância.

Conheceu alguns a quem o Mário, muita vezes contra a corrente, muito corajosamente colocou na galeria do pechisbeque. Sou amigo de alguns a quem ele, injustamente, magoou.

Este livro não faz esquecer farpas e ferretes mas afasta tais memórias para nos trazer a expressão intensa de um adeus comovente.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

UM PEQUENO GRANDE LIVRO



Quando se fala de livros pouco se fala de editores. E, no entanto, muitos dos caminhos da leitura são traçados pelos editores. Aqueles que vão às feiras de Frankfurt ou de Bolonha, que se apaixonam por um livro ou por autor, que apostam num desconhecido

Estou a pensar em gente de quem gosto e admiro muito, Carlos Araújo, Piedade Ferreira, Zeferino Coelho, Maria do Rosário Pedreira, Manuel Alberto Valente, João Rodrigues, Ana Pereirinha, Cristina Ovídio, Marcelo Teixeira... E outros que já se foram. Gente dos livros. Gente boa e que nos entrega nas mãos um livro como se fosse um tesouro raro (como me aconteceu hoje quando o José Oliveira da Caminho me entregou um livro de poesia do Mário Castrim)

Neste grupo queria também falar do Pedro Reisinho, jovem editor da Gailivro, editor de vários dos meus livros da área infanto-juvenil. Adoro conversar com ele, inventar projectos com ele, discutir com ele as ilustrações.

Noutro dia cheguei ao gabinete dele e o Pedro, com os olhos a brilhar, entregou-me um livro acabado de sair "LULU E O BRONTOSSAURO" escrita por Judith Viorst e ilustrada por Lane Smith. Ilustrações excelentes, concepção do objecto-livro notável, tradução (disse-me o Pedro e e eu confirmei depois) de primeira água de autoria da Carla Maia de Almeida.

Cheguei a casa e foi de uma vez que o li. Uma delícia para meninos, jovens e adultos. Um achado excelente a história de uma menina que quer ter à força um brontossauro como animal de estimação. Uma lição para pais pouco exigentes e filhos malcriados e pouco respeitadores das outras pessoas.

Uma pequena viagem que dá para rir e pensar. Sobre várias coisas e também sobre a educação dos nossos filhos.

Devia ser obrigatório. Para todas as idades.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

VIVA MÉXICO



Alexandra Lucas Coelho tem-se vindo a mostrar uma repórter notável. As suas reportagens sobre o Afeganistão e depois sobre o México são do melhor que o nosso jornalismo nos tem dado.

Li ocasionalmente algumas dessas reportagens quando publicadas no Público. Agora que estão publicadas em livro pude lê-las todas e ter delas uma visão de conjunto. E deliciei-me, emocionei-me, fiquei ansioso por conhecer este país fabuloso.

A autora leva-nos pela mão através da desmesura mexicana,das suas gentes, dos seus dramas e das suas paixões, da sua história trágica, convulsa, feroz, intensa. Aborda os mitos que são Frida Khalo e Diego Rivera, visita as suas casas, toca nos vestidos de Frida, observa as fotografias. Tudo caldeado pela recordação aqui e ali do que sobre o México e os seu mitos escreveram Octávio Paz, Le Clézio, Carlos Fuentes e vários outros.

Alexandra Lucas Coelho vai aos museus, às escavações arqueológicas, mete-se por becos, entra em livrarias, fala com um historiador ou com um velho sapateiro zapatista, com um editor, um padre, uma freira, e mais e mais.

Viaja de camioneta, de avião,de taxi e de metro, regista as grandes e as pequenas coisas, anota isto e aquilo à medida do seu deambular, usa as palavras como uma máquina fotográfica que apanha museus, escavações arqueológicas, paisagens, a dimensão delirante da Universidade da Cidade do México, as grandes praças e monumentos com as suas igrejas e vendedores e polícias, e tudo sem maneirismos para turista ver.

E apanha ainda o pequeno momento fugaz das personagens que estão a assistir a um jogo de futebol, as baratas que estão no lavatório do hotel, as mulheres que acabam de fazer a maquilhagem na viagem de metro, a ementa do restaurante, o domingo de fé e loucura na adoração à Virgem de Guadalupe, a tragédia do narcotráfico em Juarez

Esta escrita não julga, não moraliza, procura apenas desvendar, mostrar numa espécie de visão caleidoscópica onde as imagens, as reflexões, as notas se entrecruzam e nos fazem sentir a respiração desmedida e por vezes trágica deste país único.

A autora procura deixar de fora a sua emoção que aparece não pela sua mas pela acumulação de pontos de vista por vezes inesperados, por vezes violentamente contraditórios.

Sabemos que a forma de mostrar ou de não mostrar é sempre uma escolha. Essa escolha é a da pessoa que escreve. E a escolha de Alexandra é tornar a reportagem numa prima da ficção, isto é, faz da realidade uma espécie de romance que torna a leitura num prazer raro.

Resumindo e concluindo: quero ir ao México depressa, e ler e ouvir e beber o México, e a culpa é da Alexandra Lucas Coelho.

domingo, 24 de abril de 2011

LITERATURA E FEITIÇARIA



Mia Couto é um contador de histórias e um feiticeiro na oficina das palavras. Sabe comboiá-las. Sabe fazer com que se torçam e contorçam como artistas do grande circo da literatura.

É claro que sabemos que literaturas há muitas. Modernas e pós-modernas e outras que nem uma coisa nem outra. E são sempre pontes de palavras que vão do escritor para o peito de outras pessoas, mesmo aquelas que nunca o leram. Ou que vão do escritor para sítio nenhum , ou melhor, para um estranho deserto onde alguns leitores encontram uma trave ou um degrau da grande casa da sua desolação.

A literatura do Mia é uma ponte que vai longe no coração das pessoas e na respiração da terra.

Os poemas deste livro são exactamente o que são e não o que outras pessoas que andam com definições de poesia no bolso quereriam que eles fossem.

A poesia do Mia não é muito diferente dos seus contos e dos seus romances. É a voz de um homem que trabalha do lado da amabilidade, da humanidade, do grande fogo preso de quem se apaga perante as mãos, os olhos, as alegrias e o sofrimento dos seres humanos em seu redor, para, num acto de magia, transformar a escuridão em luz, e a luz no bailado das borboletas que são as suas palavras.

Muitas destes poemas são histórias pequeninas, retratos inesperados de gente vista por dentro, pequenas frases, quase aforismos. E sobretudo são declarações de amor pelo amor, pelos homens seus vizinhos, pela mulher, pela vida.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

MILAN KUNDERA, FIGURA MAIOR DA CULTURA EUROPEIA



De Milan Kundera, publicou a D. Quixote um conjunto de textos de cariz ensaístico, compilados numa obra que tem como título “ Um Encontro”. É uma obra em que a inteligência, o humanismo e a cultura do autor estão sobejamente demonstrados. Uma obra que se lê com prazer e se relê ainda com maior prazer. Por isso, estas linhas, a assinalar o seu aparecimento, em Portugal.
Um tanto ao acaso, destacarei o capítulo dedicado aos autores que, ao longo dos tempos, vão passando para a “lista negra” dos autores designados de “malditos” ( os esquecidos ou os que deixaram de estar na moda). Entre eles, Anatole France, considerado hoje como um autor menor, que nada diz às gerações actuais.O que sempre surpreendeu Kundera, pois guarda uma lembrança extremamente positiva de alguns textos seus, como “Les dieux ont soif” (há uma edição portuguesa, esgotada, creio). É exactamente essa obra que Kundera valoriza, no capítulo “As Listas Negras ou Homenagem a Anatole France”. O ensaísta checo tenta explicar essa descida aos infernos deste “autor maldito”:
“ O cortejo fúnebre que acompanhava Anatole France tinha vários quilómetros de comprimento. Depois tudo se alterou. Exaltados pela sua morte, quatro jovens poetas surrealistas escreveram um panfleto contra ele. (...)”De facto , mal o caixão tocou o fundo da cova, começou para ele a marcha para a lista negra”

De onde vêm as maldições como a que caiu sobre Anatole France?
“Dos salões. Em nenhuma parte do mundo desempenharam um papel tão importante como em França. Graças à tradição aristocrática que dura há séculos, depois graças a Paris, onde, num espaço exíguo, se amontoa e fabrica opiniões de toda a elite intelectual do país; não os propaga através de estudos críticos, de debates eruditos, mas de fórmulas surpreendentes, de jogos de palavras, de tolices estrondosas(...)
Anatole France, no seu romance “Os Deuses Têm Sede, faz-nos uma análise das forças políticas e sociais que se desenvolveram durante a Revolução Francesa, análise que nos diz mais do que a História nos tem apresentado. Mas o livro de Kundera não se limita à análise literária. Outros temas são abordados, sempre com o inconformismo e a argúcia que o caracterizam. Assim, por exemplo, estabelece uma diferença radical entre “As Duas Grandes Primaveras”, ou seja, entre a “primavera francesa”, a do Maio de 1968, e a “primavera checa”, ocorrida no mesmo ano, acontecimentos que os franceses dessa época consideraram idênticos. Kundera esclarece:
“O Maio de 68 foi uma explosão inesperada. A Primavera de Praga foi o culminar de um longo processo enraizado no choque do Terror estalinista dos primeiros anos que se seguiram a 1948.
O Maio de Paris , resultando em primeiro lugar da iniciativa dos jovens, estava impregnado do lirismo revolucionário. A Primavera de Praga inspirava-se no cepticismo pós- revolucionário dos adultos.
O Maio de Paris era uma contestação jovial da cultura europeia, considerada enfadonha, oficial, esclerosada. A Primavera de Praga era a exaltação desta mesma cultura durante muito tempo abafada pela ideotia ideológica, a defesa tanto do cristianismo como da descrença libertina e, obviamente, da arte moderna (digo bem: moderna, não pós-moderna).
O Maio de Paris exibia o seu internacionalismo. A Primavera de Praga pretendia voltar a conferir a uma pequena nação a sua originalidae e a sua independência”
Esta reflexão de Kundera é extremamente actual e corresponde a uma tendência que os diferentes povos têm de explicar o que acontece com outros, à luz do que ocorreu com eles. Situação semelhante tem acontecido entre nós, nos últimos tempos ao compararem-se os movimentos insurreccionais de massa, em curso nos países árabes do Norte de África, com o nosso 25 de Abril de 1974. Esta centração no que acontece entre nós para explicar o que se passa com os outros, é de um primarismo alarmante, pois revela um desconhecimento total do que é a História, a Política, a Sociologia dos diferentes povos e regiões.
E mais alarmante é ainda por ser um fenómeno que tem afectado grande parte do mundo ocidental, ao longo dos últimos séculos. Enfim, uma matriz psicossocial que nos formata e dificulta uma real mundividência.



Mas Kundera não é apenas um grande escritor ou um analista de apurada subtileza do fenómeno político. É também um estudioso das correntes musicais que atravessaram o século XX. Ao comparar a literatura com a música, diz-nos, no capítulo “ A Recusa Integral da Herança de Iannis Xenakis”:
“ Por mais que um Stravinsky rejeite a música como expressão de sentimentos, o simples ouvinte não sabe compreendê-la de outro modo. É a maldição da música, é o seu lado animal. Basta que um violinista toque três primeiras lentas notas de um largo para que um ouvinte sensível suspire: «Há que maravilha!». Nestas três primeiras notas que provocaram emoção, não há nada, nenhuma invenção, nenhuma criação, absolutamente nada: o mais ridículo «embuste sentimental». Mas ninguém está livre dessa percepção da música, deste suspiro ingénuo que suscita”.
A música ocidental baseia-se no som artificial de uma nota, de uma gama; é assim que se encontra no oposto da sonoridade objectiva do mundo. Está ligada , desde o seu aparecimento, por uma convenção de insuperável, à necessidade de exprimir uma subjectividade.”

Ora, esta “subjectividade” não tem necessariamente paralelo na literatura: James Joyce, “o profeta da insensibilidade”continuará sempre a ser um romancista. Xenakis, pelo contrário, ao tomar partido pela “sonoridade ojectiva”, cortou todos os laços com as tradições musicais, situando-se num plano diferente, que dificilmente poderemos considerar música. Embora esta concepção seja discutível, revela uma tomada de posição extremamente curiosa.
Creio que os exemplos que acabei de citar nos dão uma panorâmica da riqueza do pensamento desta grande figura da cultura europeia do século XX e XXI.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

A DELICIOSA FRAUDE



Romain Gary, escritor francês nascido lituano, comete duas deliciosas fraudes com este romance.

A primeira é que assinou-o com o pseudónimo de Émile Ajar e, como não foi identificado, ganhou pela segunda vez o prémio Goncourt que só pode ser atiribuído uma única vez a cada escritor.

A segunda fraude, entre aspas se se quiser, é a de criar um pequeno narrador marroquino, Mohamed, que não tem a idade que julga que tem e vive em casa de uma senhora judia, ex-prostituta sobrevivente de Auschwitz que ganha dinheiro recebendo e cuidando de filhos de prostitutas.

As reflexões e aforismos de Mohamed são deliciosas porque o seu olhar sobre o mundo e as pessoas está isento dos lugares comuns e de uma certa moralidade com que normalmente se constrói o crescimento e a socialização de uma criança.

"No início não tinha uma mãe nem sabia que era preciso ter uma."

"Aquele sacana não era deste mundo. Já tinha 4 anos e ainda era feliz."

"- São os pediatras que se ocupam das crianças.

- Só quando são bebés. Depois são os psiquiatras."

"...o sono dos justoS... Acho que são os injustos que dormem melhor, porque se estão a borrifar, enquanto os justos não pregam olho e preocupam-se com tudo. Se não não seriam justos."

"Eu sabia que tinha toda uma vida á minha frente, mas não me ia pôr doente por causa disso."

"Eu acho que os judeus são pessoas como toda a gente mas não devemos ficar ressentidos com isso."

"... o que era importante era tocar muito tãtã para afastar a morte que já devia estar por aí e que tinha pavor aos tãtãs por razões pessoais."

Mohamed é uma espécie de menino da selva, se bem que a selva seja um bairro pobre de Paris onde abundam os africanos, os judeus e os árabes. E, no seu deambular pela vida e pelo bairro, talvez sem o saber, procura uma mãe para poder tratar dela. E no seu sonho chega a desejar uma mãe prostituta para que ele seja seu chulo e, assim, possa protegê-la...!

A história cresce como uma comédia negra que se vai adensando e nos leva a pensar no que é o amor, a doença, a morte, e onde a solidariedade, sem palavras grandiloquentes a embrulhá-la, é apenas a forma única de sobrevivência entre vizinhos de um prédio, de um bairro ou do mundo.


quarta-feira, 13 de abril de 2011

"Sei qual é a velocidade da luz mas não aprendemos qual é a da escuridão!"



Malboro Sarajevo

de

Miljenko Jergovic

Editora Cavalo de Ferro

Nos tempos que correm apesar de muita gente pensar dever recuperar o velho hábito de ter lápis e bloco de notas de despesas o preço dos livros jamais pode ser desculpa para não se ler, até porque existem bibliotecas.

Ultimamente tenho-me cruzado com livros de editoras desaparecidas ou esquecidas. Livros que não foram iluminados pela vertigem da moda. E se os livros alimentam uma indústria a leitura alimenta-nos a alma e essa não pode morrer de inanição por muito que seja o corpo a preocupação que colocamos em primeiro lugar.

Da Cavalo de Ferro tenho encontrado edições cuidadas e bonitas quase a preço de café em estação de serviço. O que significa que os livros têm sido muito baratos e o café demasiado caro. Não recordo o café mas dou por bem empregue 1 euro que custou o livro.

Autores desconhecidos. Lugares onde nunca fomos. Pessoas que nunca cruzámos iguais a outras que se cruzam connosco todos os dias povoam este livro de Miljenko Jergovic, um escritor de uma geração de autores publicados durante o tempo do cerco de Sarajevo. Não conhecia o autor mas recomendo o livro: Malboro Sarajevo.

Malboro Sarajevo, o cigarro que a Philip Morris adaptou ao gosto dos fumadores bósnios, surge numa espantosa conversa entre um bósnio e um americano no conto “”O Túmulo”.

“(…)Para alguns all over the world é de Bascarsija a Marijindvor, para outros é à volta do globo terrestre. E feliz, tal como infeliz, pode ser quer um quer outro. (…) Pergunta-me se tenho pena de, depois de ter dado volta ao mundo três vezes, acabar em Sarajevo sitiada, e eu digo-lhe que não acabei aqui, antes nasci aqui e graças a Deus não deixei a cabeça em nenhum outro lugar(…) A vida vale só se sabes que a tens senão a morte apanha-te desprevenido(…)"

Gosto de livros de contos. Por vezes ficamos ligados a eles por um ou outro conto e os restantes perdem-se nos recantos da memória, neste todos eles se complementam compondo um puzzle de lugares e pessoas ao mesmo tempo cruel e terno.

Na velha questão de valer a história ou o talento de a contar eu faço questão das duas, sabendo que o grande talento de contar torna grandes as pequenas histórias.

“Os saxofonistas não escrevem a História, tocam. As palavras não proferidas formam o silêncio na doçura do qual, depois da tagarelice e das guerras, para o bem e para o mal, os sobreviventes dormem placidamente.”

”(…)Não faz sentido impedir que o fogo devore aquilo que a indiferença dos Homens já devorou.(…)”

“ (…)No mundo, tal como está, existe uma regra fundamental, a mesma que Zuko Dzumhur formulou pensando na Bósnia, e que se reduz a duas malas sempre feitas. Nelas devem caber todos os teus bens e todas as tuas memórias. Tudo o que esteja fora disso já está perdido.(…)”

Penso na perda material das memórias. Como sobrevivem tantas pessoas à perda de tudo no meio de uma guerra? Podem voltar a ter coisas… Mas as memórias… Como imagino ser duro viver no meio de recordações sem qualquer enquadramento material, será como ter dores num braço amputado.

Há lugares que aparecem na nossa sala, acenam à nossa frente nas páginas dos jornais em dias de grande desgraça e depois desaparecem silenciosamente. As feridas ficam lá longe, cicatrizam, ficam cicatrizes que doem. A vida das pessoas continua com mágoas invisíveis que se arrastam em cidades sem o “glamour” de Paris ou o cosmopolitismo de Nova York mas onde os sonhos não são menos brilhantes.

“É estranho, está sol, mas mesmo assim nada seca. Estava agradavelmente a refrescar a cara e a pensar: Heraclito troçava apenas de si próprio, enquanto Zenão zombava com o mundo inteiro. Platão era o travesti que pretendia revestir a humanidade, a Sócrates tiveram de o matar para que não fizesse uma peça de teatro da sua própria morte.(…)”

“O mundo desaparece com as palavras não proferidas”

“Não é fácil livrar-nos de coisas supérfluas”

Mais do que os livros que ficam sob os holofotes prefiro os que são iluminados por velhos candeeiros em ruas esconsas. Os que nos falam da vida, de corpos que sagram, de árvores que dão maçãs com vida. Quando lemos viajamos, a viagem não se faz por sítios despovoados, aprendemos a conhecer as pessoas. Partimos, levamos quem mora dentro de nós e tudo o que lemos. Mesmo se perdermos aquelas duas malas que nos aconselha…

“Acaricia com ternura os teus livros, forasteiro, e lembra-te que são pó”

Livros assim merecem ser acariciados com ternura, lidos e pensados. Há vida para lá das manchetes que (já não) vendem jornais. Vidas que um dia serão pó, como todos seremos.

Seremos melhores pessoas… Amanhã.