quinta-feira, 17 de setembro de 2015

ORATURA E LITERATURA


Hans Magnus Enzensberger fala de analfabetos primários e analfabetos secundários. Os primários não sabem ler, por isso têm de ter uma grande memória para guardar todo o seu saber, o seu por vezes enorme conhecimento oral que inclui histórias, lendas, mitos, poemas, lenga-lengas, orações, etc.

Há quem chame a este património a ORATURA. Ou seja, a literatura oral.

Foi e continua a ser importantíssimo o trabalho de muitos escritores e antropólogos que procuraram e continuam a procurar guardar lendas e mitos orais fixando-os através da escrita, fazendo assim a passagem da oratura à literatura.

Oral ou escrita, toda a nossa civilização se baseia na palavra, seja ela dita ou escrita.

Enzensberger fala-nos ainda dos analfabetos secundários. Os que sabem ler mas... Não têm tempo para ler. Sabem usar cartões de crédito, ouvem imperetrivelmente todas as notícias que logo de seguida deixam de ter qualuqer importância, são consumidores atentos e venerados dos que propagam a opinião única, que espalham verdades absolutas, descartadas depois com a maior facilidade.

Estes analfabetos secundários, podem ser pessoas de grande importância, ministros, presidentes, directores de bancos; ou de menor importância, empregados bancários, caixas de supermercado, vendedores de fruta, cantores de três o pataco. Todos eles viraram costas à palavra em toda a sua grandeza e maravilha. Não crescem através da literatura e da narração, não pertencem ao número dos privilegiados pela arte da leitura.

A ausência de ligação à palavra do mito e da lenda, da reflexão e da busca de sentido, faz com que estes analfabetos vão perdendo a sua identidade antiga ao contrário dos inúmeros povos que dentro do espaço da lusofonia cuja língua materna não tem escrita mas que possuem uma fortíssima identidade passada de pais a filhos através da sua tradição oral.

É na língua oficial, o português, que a sua oratura destes povos se torna literatura, como é o caso das lendas dos índios Kayapós aqui reunidas por Susana Ventura com deliciosas ilustrações de Vanina Starkoff.

Susana Ventura alerta-nos na introdução para o facto de que há inúmeras tribos Kayapóes pelo Brasil, com diversas línguas vivas, o que que faz com que estas lendas e histórias apropriadas aqui ou ali, desta ou daquela forma, dão origem a um número vasto de versões de cada uma.

Fico cheio de "inveja" da Susana. Porque sou como um menino que fica apaixonado por estas nbarrativas e logo me atece reescrevê-las com os meus olhos de lisboeta espantado da vida e do mundo.

Mas dou os parab´nes à Susana porque esta recriação literária constitui uma excelente maneira de entrar em contacto com um universo fantástico e fascinante e que nos enriquece e acrescenta em poesia e humanidade.



1 comentário:

Luiz Santos-Roza disse...

Desconhecia a palavra "oratura;" obrigado por ma apresentar.