domingo, 28 de agosto de 2016

FRAGMENTOS



“FRAGMENTOS”

GEORGES STEINER

Steiner é um mestre. Numa entrevista concedida a Ramin Jahanbegloo afirma que “Gostaria de ser recordado (...) como um mestre de leitura, como alguém que passou a vida a ler com os outros.” E é isso mesmo que ele faz. Ensina-nos a ler e a pensar. E esse é talvez um dos maiores prazeres da vida.

Logo na segunda página deste imenso livrinho afirma que” A nossa própria existência é um acto de leitura contínua do mundo, um exercício em decifração, em interpretação no interior de uma câmara de eco, cujo volume de mensagens, de entradas semióticas, é incomensurável”.

Este livro é um exercício brilhante de reflexão num gesto de deliciosa fantasia literária.

É suposto tratar-se de um conjunto de reflexões sobre um pergaminho carbonizado e incompleto atribuído a Epicarno de Agra, moralista e orador do séc. II d.C., e encontrado nas ruínas da cidade romana de Herculano.

Epicarno de Agra é uma invenção de Steiner que utiliza este estratagema para falar sobre alguns grandes temas da cultura e do pensamento humano. A eloquência do silêncio, as virtudes da amizade em comparação com as do amor, a importância da educação e a raridade do talento, a realidade ontológica do mal e a omnipotência do dinheiro, os perigos da religião e a transcendência da música. E finalmente, a morte, a decadência da velhice e o elogio do suicídio e da eutanásia na escolha do momento de morrer.

Brilhante, motivador, fazendo a ponte entre filosofia, história e literatura, Steiner
oferece-nos um pequeno livro que exige tempo para “mastigar”, já que, com cada linha, cada parágrafo, cada tema abordado, inquieta-nos, interroga-nos, leva-nos a reflectir emocionadamente sobre grandes temas e questões que vão das mais vastas e antigas do pensamento humano às mais actuais.


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

VER NO ESCURO


“VER NO ESCURO”

CLAUDIA R. SAMPAIO

Tenho aprendido a lutar contra o preconceito na minha leitura de poesia. Em boa parte devo-o ao trabalho que levei a cabo com o Pedro Quintas na organização da Antologia “POEMAS DA SAÚDE E DA DOENÇA – De Fernando Pessoa aos nossos dias”.

Ambos leitores fervorosos de poesia, com uma diferença de 28 anos de idade, apesar de uma larga disponibilidade ao desfrute da diferença, descobrimos que cada um de nós trazia consigo alguma forma de preconceito em parte geracional (e por isso mesmo também de discurso e estilístico) em relação a certos nomes de poetas.

A trabalhar um com o outro aprendemos muito a vencer preconceitos e a olhar de forma mais disponível para nomes que cada um tinha tendência a pôr de parte.

Foi o que me aconteceu também com a jovem Cláudia R. Sampaio.

Nas suas duas obras anteriores contavam-se dois livros, entre os quais um intitulado “A primeira urina da manhã”.

Este título irritou-me. Não gosto em poesia do excesso de mergulho num quotidiano limitado, por vezes rasca, que tem sido próprio de alguns poetas com cuja escrita francamente embirro (também tenho direito, quand même).

Só não deixei de lado este novo livro de Cláudia R. Sampaio porque foi publicado numa muito respeitável colecção de poesia dirigida por Pedro Mexia para a editora Tinta da China.

Folheei e percebi que se tratava de poesia mesmo. Da boa. De lei. Intensa e comovente. Trouxe-o para casa e li-o devagar e fiquei rendido à voz de Claudia R. Sampaio

Fui ler mais sobre a poeta e encontrei o que ela afirmou acerca do do tal objecto da minha embirração:

“O livro fala de coisas que me aconteceram numa fase da minha vida em que fui ao fundo e depois tive de renascer das cinzas, evoluir."

Resultado: vou à procura urgentemente da "Primeira urina da manhã", mea culpa e adiante.

A poesia deste "Ver no escuro" é intensa, é dura, é frágil, atravessa o escuro da vida à procura de um corpo, de uma casa, de uma cidade, da essência do amor.

Escrever assim rasga-nos. Talvez esta escrita seja a única forma de nos curarmos de muita dor. E eu pergunto-me: até que ponto é possível a autora continuar a manter-se inteira escrevendo desta forma? Não seria a única. Mas esta escrita exige habitar continuadamente numa dolorosa margem de si própria. Sei bem como a arte é uma forma de correr alguma espécie de maratona. Fico, por isso mesmo, muito ansioso pelo que possa estar para vir.

Quando for embora não deixarei
migalha de mim.
Levarei o cheiro a desorientada
melancolia e desastre
e não deixarei um cabelo que seja.
Levarei comigo as gatas e os livros,
a roupa deixo-a às minhas amigas,
o umbigo, à minha mãe.

Vou e não esqueço.

Partirei sem as orquídeas que
me assombram delicadeza
e sem os cactos que me superam
em estirpe.
Vou aberta como um eterno retorno
e na simplicidade de um bebé que
procura um sítio onde se sentar.

Aqui há a desactivação das almas à
nascença e a ovação aos tristes.
Há a exultação do silêncio profundo
e a altivez congratulada dos néscios.
Há o sangue cansado dos bichos
e a preparação para a fuga da terra.
Aqui há a terra sem terra e a saliência
do teu ombro morto.

Há orelhas frias que soluçam tarde
e uma cova a dizer adeus.

Por isso vou embora no sentido inverso
ao das árvores
numa descida clandestina à mulher que
morreu em ondas.
Vou embora e deixo o meu vinco que
não morre mesmo que me passem com
alcatrão fresco e me estiquem.

Deixo apenas a verdade dos meus
olhos quando pendurados na janela,
a sorrir mundos
deixo as abelhinhas doidas que ignoraram
o meu salto,
e o riso da desistência
porque ainda preciso de mim.

sábado, 20 de agosto de 2016

O AMOR EM LOBITO BAY




“O AMOR EM LOBITO BAY”

LÍDIA JORGE

Lídia Jorge é uma grande senhora da literatura portuguesa que escreve do alto de uma enorme elegância e de um rigor pouco comuns, sem que, no entanto, as suas narrativas se furtem ao lado mais duro e inquietante da humanidade.

Estes contos são atravessados por um sopro de estranheza e de inquietação. Subvertem mas também procuram encontrar um caminho de pacificação.

Surgem inofensivos, sem sobressaltos, sem anunciarem a dimensão que depois surge à medida que se vai caminhando na narração.

Serão talvez desiguais, embora sem nunca deixar a elegância e o rigor da escrita. Embora sejam contos há uma estratégia de escrita que os atravessa a todos, uma atitude permanente e sublinhada em relação à forma de olhar para o mundo e para a humanidade que os conduz a todos como num percurso que se pretende unificador.

Alguns emocionaram-me, entusiasmaram-me, fizeram-me pensar: “Boa, minha amiga! Acertaste no alvo com o melhor do teu talento!”

Nesse sentido, a “Imitação do êxodo” é um conto notável e impiedoso relativamente a uma certa vulgata pedagógica e bem intencionada mas que impõe boas intenções numa cegueira que não presta nenhuma atenção nem respeito pelo profundo olhar da criança.

O conto que dá o título ao livro “O amor em Lobito Bay”, depois de nos expor ao horror do ritual com que uma criança pretende tornar-se no melhor corredor do mundo e que é salva desse ritual por um secreto sentimento de bondade, de poesia e de solidariedade familiar .

“Overbooking” parte de uma extraordinária vitória por 9-2 num jogo de futebol. Mas torna-se terrível, assustador e, no entanto, revela-nos a necessidade de perdão que todos temos para os pequenos e grandes “crimes” de que alguns serão capazes em momentos únicos da sua vida.

Será sempre um prazer raro partilhar com Lídia Jorge a arte que a leva a percorrer os caminhos inquietantes e exaltantes da literatura.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

As cores da memória



    
A propósito da obra Mariola Landowska

Todo artista é um microscópio, um telescópio, uma máquina do tempo, um prestidigitador, um tomógrafo de almas. Todo artista, no delírio febril do processo criativo é, acima de tudo, um fabulador de estórias possíveis na sua impossibilidade, um narrador de estórias reais e potenciais. A verdadeira arte é a verosimilhança do inverosímil, é o recuperar da cor da memória dissipada que melhor se adequa ao exercício de relembrar. Mas desculpe-me o leitor por essas considerações iniciais algo genéricas. Certamente, fosse eu um artista, sentiria a arte de Mariola Landowska de forma distinta e seria capaz de exprimir mais claramente as motivações e as ambições mais profundas que caracterizam os artistas do nosso tempo. Mas quem escreve não é mais que um professor de física que tem como horizonte a expansão acelerada do universo e a matemática como seu guia. Ocorre-me o exemplo clássico de Giorgio Vasari, o artista que magistralmente descreveu-nos as vidas e as obras de Giotto, Brunelleschi, Donatello, Mantegna, Leonardo, Michelangelo, entre outros, e que demonstrou serem os artistas os mais capacitados para discursarem sobre a arte. Mas suponho que um físico que tem a imaginação como fiel instrumento de trabalho, terá alguma sensibilidade para escrever umas poucas linhas sobre o encantamento e o fascínio que suscita a obra de Mariola Landowska. Que assim o seja.

Ao contemplar as telas de Mariola Landowska somos impelidos a viagens inesperadas. Sentimo-nos indígenas banhando-se nas águas amazónicas da realidade e do mito. Ouvimos a orquestra selvática de símios e aves, o zumbido de insectos, o miar abundante de gatos multicoloridos, que elegantes  e melancólicos, executam Noturnos de Chopin. Ou então, mergulhamos na alma da Índia ou do Fado, enquanto pedalamos na bicicleta da infância da artista. E é muito ágil essa improvável polaca que abraça o universo e que o pinta com o optimismo da inocência infantil. Os meus olhos a acompanham até onde a minha imaginação pode ir, mas ela é demasiado curta e às tantas perco de vista a artista quando ela vira a esquina duma estrela distante e reaparece no cantar de um galo numa encosta de Alfama ou a molhar os pés na praia de Carcavelos. Porque a arte de Mariola Landowska conduz-nos à canícula dos trópicos, leva-nos a respirar a salsugem e os aromas fortes e cortantes, a sentir o fresco das montanhas e as águas gélidas do Mar Báltico. Cada tela de Mariola nos impele contingentemente para direções surpreendentes, mas inexoravelmente para o âmago dos temas em foco. Mariola Landowska tem o mundo como sua casa e as suas telas transpiram a multiplicidade tonal das suas experiências existenciais. E há na arte de Mariola Landowska a clareza estética que define inequivocamente a maturidade de um estilo. E jaz na essência dessa afirmação o delicioso paradoxo da antropofagia artística. Se pudéssemos encharcar uma esponja com solvente e passar numa tela de Mariola Landowska, e quando digo uma tela quero dizer qualquer tela de Mariola, e fizéssemos uma análise semântica-cromatógrafa-anímica encontraríamos fragmentos dum Chagall tropical, dum Lazar Segall centro-europeu, dum Portinari amazónico, duma Morisot onírica, e as cores de Macke, Kandinski e Gauguin. E sentiríamos o aroma de especiarias incorruptas e chás exóticos. E o sabor de raízes cozidas e de carnes de caça.

E a explicação do pretenso paradoxo é tão simples como o da mistura das cores: o verdadeiro artista é a encarnação intelectual e emocional de todos os artistas. O mesmo exercício, por exemplo, numa tela de Chagall revelaria uma Mariola Landowska embrionária ou em processo metamórfico. Mas para além da beleza pictórica e a estética do optimismo praticada por Mariola Landowaska há na sua arte um compromisso espontâneo com a humanidade nas suas múltiplas e variadas manifestações culturais. A arte de Mariola Landowska não é um exercício de expansão de um ego que procura justificar-se enquanto artista inserida na dimensão mesquinha duma sociedade de consumo e do seu mercado; muito pelo contrário, a arte de Mariola Landowska é fruto duma identidade madura e segura que desaparece ao capturar os seus sujeitos, mas que reaparece íntegra e indelével no resultado de cada tela. O conhecido dito segundo o qual a descrição duma imagem exige pelo menos mil palavras sugere que seria necessário um extenso e mágico texto para fazer justiça à arte de Mariola Landowska; contudo, sinto-me escusado de multiplicar linhas, pois julgo que o mais adequado é o exercício zen que sugere, para mais profundamente apreender a essência das coisas, uma desconstrução da lógica usual e o entendimento do “som” duma só mão a aplaudir. Noutro registo, mas na mesma linha, a poeta Natália Correia proclamava ao perorar um bem conhecido poema: “ó subalimentados do sonho! a poesia é para comer”. Penso que as telas de Mariola Landowska são a dieta ideal para carências como a anemia crónica de imaginação.

Porto, Julho 2012

Orfeu B.



quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Do Big Bang ao Homem


Do Big Bang ao Homem é uma coletânea de textos resultantes de um conjunto de palestras que tiveram lugar na Reitoria da Universidade do Porto de Novembro a Dezembro de 2013, no âmbito da Exposição Terra em Transformação. Neste livro são debatidos temas de uma vastíssima problemática: da origem do Universo à origem da vida e do homem, passando pelo aparecimento dos planetas, da Terra, das plantas e dos animais. Ao leitor é permi­tido vislumbrar a riqueza conceptual e metodológica de diversas disciplinas de investigação, mas acima de tudo, perceber as ideias centrais de cada tema e o esforço de articulação das distintas áreas do saber. Somos todos cidadãos do Universo, mas só através do entendimento dos aspetos centrais do conhecimento integral que temos do mundo é que podemos efetivamente usufruir desta cidadania.  

A coordenação e organização dos textos esteve ao encargo de Orfeu Bertolami e Helena Couto, e  contribuíram para o livro: António Amorim, Frederico Sodré Borges, Orfeu Bertolami, Helena Couto, Octávio Mateus, Mário Mendes, João Pais, João Pedro Cunha Ribeiro e Nuno C. Santos.




terça-feira, 2 de agosto de 2016

O Ponto da Ternura


Se

Se me dessem um animal de solidão
seria um flamingo.
Sua mancha rosada se vislumbraria de longe,
seus pés aparentemente hesitantes
traçariam um círculo ao meu redor
e seu pescoço fino acharia sempre 
o ínfimo espaço
entre mim e qualquer outro
e se fecharia, fiel, no meu pescoço.


Cobertura

… debruço-me de noite sobre os filhos maus como sobre os bons, comuns no sono em que são meus. 

Bernardo Soares/Fernando Pessoa, “O Livro do Desassossego”


Nesta hora escura
todas as crianças são iguais.
Nesta treva basta a palavra “crianças”
para que se encolha de medo.
A boca do caminhão se escancara, Salima
Matria procura tesouros na imundície,
já estará enterrado no monte de lixo
cobertura, a mão busca os cobertores
enrolados em sua candidez,
cobertores que nem tinham caído. 
Ahmed Zar’una não subirá mais
no brinquedo do grande blindado,
seu coração agita-se no peito magro
sob o alvo do fuzil
Assim, com os pulsos sobre a cabeça,
o amor está amarrado ao terror. 


O Ponto da Ternura

… at the hour when we are
trembling with tenderness
lips that would kiss
form prayers to broken stone

T.S. Eliot

Aqui é onde mora a ternura.
Ainda que o coração, em seu silêncio,
afunde pela cidade feito pedra -
sabe que este é o ponto de ternura.

Segura a minha mão neste mundo.
Vi uma mãe falando ódio a seu filho,
exterminado com palavras.
Vi um prédio ruir a pó,
devagar, piso por piso -
como precisamos de piedade,
como precisamos de alívio. 

O cair da noite numa nuca tão beijada
vai além da cura: para toda asfixia,
de toda garganta,só há um remédio.
Vê, simplesmente, é o ponto. 

Tal Nitzán


Há literaturas que são indissociáveis do contexto que lhes dá origem. Tal ligação é muito marcada nos escritores de origem judaica. De Kafka a Joseph Roth e Paul Celan na Europa central, passando por Saul Bellow, Philip Roth, Paul Auster e Moacyr Scliar nas Américas, para citar alguns exemplos, retratar o ambiente que os circunda de uma forma única e original não é só um exercício literário, mas pelo contrário, é a fonte primordial, ainda que muitas vezes críptica, que engendra e alimenta as suas fabulações e estilos. 

Esta ligação é ainda mais forte nos escritores israelitas contemporâneos. Das condições históricas que deram origem ao estado de Israel, ao incontornável conflito israelo-palestiniano, a literatura israelita é um campo aberto de experimentação que não pode deixar de reflectir sobre estas questões sem correr o risco de ser artificial e estéril. E neste contexto historicamente complexo e tenso, escritores da estirpe de Amos Oz e David Grossman demonstraram que não há neutralidade possível. O escritor deve estar necessariamente do lado da humanidade, do lado da solução e da mitigação imediata dos conflitos que hoje afligem a todos, israelitas e palestinianos. O escritor deve ir necessariamente para além da sua origem e do seu posicionamento político-ideológico, deve situar-se no terreno mais elevado duma ética que não pode admitir o sofrimento dos semelhantes, independentemente da sua origem, deve ser arauto de uma ética que coloca a humanidade acima de tudo. Esta posição é compartilhada e está fortemente reflectida na escrita da poeta israelita Tal Nitzán. 

A coletânea “O Ponto da Ternura” em versão bilingue, Hebraico-Português, publicada em 2013 em São Paulo (Lumme Editore, Brasil 2013) com tradução de Moacir Amancio, reune poemas escritos ao longo de cerca de década e reflectem a maturidade de uma escritora com uma voz muito própria. Mas como o dissemos acima, a originalidade de Tal Nitzán está indelevelmente marcada pelo contexto denso e viscoso de uma realidade que impõe a todos, e muito particularmente aos escritores, a defesa de causas, o examinar crítico das encruzilhadas da ética e da lógica dos posicionamentos automáticos. 

Se por um lado, a minha incapacidade de apreender a poesia de Tal Nitzán na sua versão hebraica original é um óbvio obstáculo, a universalidade da mensagem de Tal Nitzán é-me perfeitamente inteligível e conduz-me, sem reservas, a uma solidária empatia com as causas que defende. No livro “O Ponto da Ternura” a autora intercala a sua intimidade emocional e as suas inquietações com a discussão de questões que envolvem diretamente as implicações do conflito israelo-palestiniano. Inconformada com a violência de toda espécie, com qualquer acção repressiva e com a guerra, há na mensagem da poeta Tal Nitzán um clarão de esperança na forma pungente como expressa o seu amor por todas as crianças, israelitas e palestinianas, por todos os gatos, pelos flamingos e pela pureza das emoções. Ao ler Tal Nitzán somos confrontados com a certeza básica de que pertencemos a uma família alargada que deve necessariamente incluir aqueles que durante décadas foram retratados como sendo os inimigos.      
    
Etty Hillesum (1914-1943), escreveu em 1943 no seu diário, enquanto ia a caminho de um campo de extermínio, que era preciso ajudar Deus, então fraco e moribundo, a cumprir a sua tarefa. Não creio em Deus ou em deuses, acredito nas ideias. Mas penso que vivemos tempos onde até as ideias que potencialmente nos poderiam salvar estão exangues. Há que as resgatar das sombras e do cinismo, e as pintar com as tintas frescas da esperança. Há que reinventar as palavras e as religar segundo critérios de humanidade renovados. É significativo que uma poeta israelita tenha esse dom. Há muito, foram as trombetas, os cimbalos, as harpas e os tambores que secundaram os Salmos e que cantaram ideais que carregados pelos ventos do deserto chegaram até nós.   

Orfeu B.
   

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Copo de Cólera


… estava longe de me interessar pelos traços corriqueiros de um caráter trivial, e nem eu ia, movendo-lhe o anzol, propiciar suas costumeiras peripécias de raciocínio, não que metessem medo as unhas que ela punha nas palavras, eu também, além das caras amenas (aqui e ali quem sabe marota), sabia dar ao verbo o reverso das carrancas e das garras, sabia, incisivo como ela, morder certeiro com os dentes das ideias, já que era com esses cacos que se compunham de hábito as nossas intrigas, sem contar que - empurrando pra raia do rigor - meus cascos sabiam inventar a sua lógica, mas toda essa agressão discursiva já beirava exaustivamente a monotonia, não era mais o caso de bocejar em cima de um sono mal-dormido, não era o caso enfadonho de esticar braços supérfluos, as coisas aqui dentro se fundiam velozmente com a febre, eu já não tinha sequer pedrisco na moela, quanto mais cascalho que era o indicado para digerir o papo dela, sem esquecer que a reflexão não passava da excreção totalmente enobrecida do drama da existência, … 
                                         
Raduan Nassar


Prémio Camões de 2016, autor sintético de uma prosa elegante e cortante, Raduan Nassar (1935) é autor de narrativas exactas e intensas, por vezes inspiradas na escrita seca e directa de Graciliano Ramos, de quem é um confesso admirador. Sendo autor de apenas três obras, Lavoura arcaica (1975), Copo de cólera, escrita em 1970, mas só publicada em 1979, e a coletânea de contos Menina a caminho, publicada em 1997, não deixa de ser surpreendente que uma prosa com um estilo tão marcado e original tenha surgido praticamente sem qualquer experimentação. 

Copo de cólera é uma novela erótica e feroz, veloz e arrebatadora na forma como se situa na instabilidade entre a dominação e a submissão, entre a paixão e o ódio, entre a ternura e a violência. Pela dialéctica visceral como disseca a complexa anatomia de um amor selvagem e arrebatador, Copo de cólera é uma obra verdadeiramente intrigante e única na língua portuguesa.  

Orfeu B.



domingo, 10 de julho de 2016

VAMOS COMPRAR UM POETA



Uma pequena delícia. Uma brincadeira muito séria.

Retrato de uma sociedade reduzida aos números e aos processos mentais de um economia incapaz de integrar o valor do sonho, da metáfora, da poesia.

Uma família compra um poeta como quem compra um cão e põe-no a viver debaixo da escada.

Este texto pertence à família de outros como , por exemplo, “Fahrenheit 451” de Ray Bradbury, ou, de certa forma, “As aventuras de João sem medo” de José Gomes Ferreira.

São textos que se constroem contra ditaduras políticas ou económicas, que excluem a cultura do seu dia a dia e que, resolvendo aparentemente todos os problemas dos homens, se tornam secas e poucas e, por isso mesmo, incapazes de estrangular o que há de profundamente humano dentro de nós e que, mais tarde ou mais cedo, acaba por vir à tona na literatura, na arte, na poesia, coisas “inúteis” que resistem e se tornam em atitudes que o(s) poder(es) consideram perigosamente subversivas.

A literatura em Afonso Cruz é uma festa. E, sendo capaz de tratar assuntos de grande espessura e profundidade, fá-lo sempre de forma clara, instilando no leitor capacidade desconstruir as certezas manhosas do mundo em que vivemos, mas fazendo disso uma promessa de felicidade.

Este “Vamos comprar um poeta” torna a leitura num divertimento muito muito sério. Devia ser texto obrigatório no ensino.

sábado, 9 de julho de 2016

Shakespeare, Albert Camus, Sándor Márai, Orfeu e a Ilha de Lesbos

Apresentação da Revista número 11 do Centro de Estudos Teatrais da Universidade do Porto “O estranho e o estrangeiro no Teatro”
7 de julho de 2016, Faculdade de Letras da Universidade do Porto
Shakespeare, Albert Camus, Sándor Márai, Orfeu e a Ilha de Lesbos
No dia 20 de junho a Professora Cristina Marinho esteve no Departamento de Física e Astronomia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e deixou-me: um volume intitulado “O estranho e o estrangeiro no Teatro”; uma belíssima rosa encarnada com subtis traços cor de rosa; e o pedido para apresentar o volume 11º da revista de Teatro do Mundo, publicado pelo Centro de Estudos Teatrais da Universidade do Porto (CETUP).
Ao folhear o volume, tornou-se mais que evidente que não havia qualquer hipótese de satisfazer minimamente o que me era pedido. Eu simplesmente não tenho os conhecimentos, a cultura e a perspicácia para fazer uma apresentação que seja minimamente credível e competente de uma revista tão rica e tão complexa. Inevitavelmente, recordei-me de um texto de Borges, no qual o participante de um concurso de poesia que tinha como tema a rosa, decidiu, por conta das convicções estilísticas, enviar ao júri o mais genuíno poema naturalista: um botão de rosa. Mas, para a apresentação da revista, já não era possível. A rosa já tinha aparecido no início da história.
Todos sabem que Shakespeare é a quinta essência do teatro e, assumindo que esta apresentação termina bem, ou noutra língua, a de Shakespeare, “All’s well that ends well”, o que me cabe é conduzir esta apresentação de modo a ser consentânea com o epílogo desta bem conhecida peça:
King: The King’s a beggar now the play is done. All is well ended, if this suit be won: That you express content: which we will pay: With strife to please you, day exceeding day: Ours be your patience then, and yours our parts; Your gentle hands lend us, and take our hearts.
E também com as linhas iniciais e finais do soneto número XXIII do bardo inglês:
As an unperfect actor on the stage.
Who with his fear is put besides his part.
... 
O! learn to read what silent love hath writ: 
To hear with eyes belongs to love's fine wit. 
Albert Camus é possivelmente o mais eminente escritor e pensador que encarnou a figura de um Sísifo da existência; Albert Camus é também o criador do personagem aparentemente  simplório que era estrangeiro da própria vida. Estrangeiro, estranho, alienígena, errante, refugiado. Albert Camus deu à existência a densidade do chão que todos nós pisamos e partiu prematuramente, deixando-nos encurralados no segundo acto de uma peça de Beckett que não tem seguimento, ainda que todos saibamos que a solução deveria nos ser revelada no terceiro acto.
Sándor Márai: Na sua obra prima “A mulher certa” o escritor húngaro apresenta-nos a história de uma relação marital desfeita do ponto de vista dos três personagens envolvidos (algo como a “Caixa Negra” de Amos Oz). Três pontos de vista pós-modernamente correctos, mas que constroem uma encenação teatral disjunta e contraditória, na qual os personagens se dirigem a si próprios, estranhos uns para os outros, estrangeiros na sua terra natal e noutras, estando ao mesmo tempo profundamente entranhados na trama da vida desfeita e refeita pela continua transformação do mundo e das vontades.
Orfeu: Orfeu é aqui o personagem à procura de um autor; é o estrangeiro, objectivo e subjectivo, desta apresentação. Nome mítico que imperfeitamente habita a condição de ser actor de si mesmo. Percebe alguma coisa de física e de manipulações matemáticas, mas tem grande dificuldade em formalizar e exprimir o essencial no que se refere ao lançamento do 11º número da revista de Teatro do CETUP.
A Ilha de Lesbos: quem viu a “Vida de Adéle”, ou como sugere o texto da Professora Cristina Marinho nesta revista e onde é sugerido o título alternativo “Le Bleu est une Couleur Chaude”, entende que mesmo as coisas mais genuínas como o amor entre duas mulheres pode dar origem a tempestades de areia nas mentes mais porosas. Orfeu, o estrangeiro, não sabe se há um amor lésbico, um amor gay, um amor hétero, pois só acredita na existência do amor ou do desamor, embora perceba que, em oposição, o ódio pode ter infinitas nuances.
Mas esta apresentação já vai longa e não dá um sinal inequívoco de que vai terminar bem.
Sim, Orfeu, o estrangeiro, pede desculpas pela generalidade dos comentários. Ele percebe a estratégia das apresentações, mas costuma perder-se nas tácticas das subtilezas retóricas. Enfim, não são só as palavras que exprimem o estranho e o estrangeiro no teatro, há muito mais no teatro naturalista da vida. E, neste, somos todos estrangeiros uns para os outros; desempenhamos com convicção o nosso papel, mas falhamos miseravelmente na representação do que os outros actores-encenadores esperam de nós. Transformamos a comédia em tragédia, a tragédia em comédia e, contrariamente ao que preconizava Shakespeare, almejamos ser reis, embora não passemos, quase que invariavelmente, de mendigos.

Orfeu B. 

domingo, 5 de junho de 2016

As Vozes de Marraquexe


" … Será a linguagem daquela gente, e que eu ainda não entendo, que se introduz, a pouco e pouco, em mim? Caos, imagens, sons, tudo a fundir-se num todo que as palavras não capturariam e não alterariam. “Todo” que vai para além das palavras, e que é mais profundo e mais ambíguo do que elas. 

Imagino um homem que, desaprendidas todas as línguas da terra, chegue ao ponto de não mais entender o que que quer que seja, onde quer que seja.

O que é que vive numa linguagem? O que é que ela encobre? O que é que ela capta? Durante aquelas semanas passadas em Marrocos, nunca tentei aprender árabe nem tão pouco os dialectos berberes. Não queria perder nada da força contida nessas estranhas lamentações. Queria ser apanhado em cheio por esses sons e não abrandá-los através de vagos conhecimentos, tão insuficientes como artificiais.

Não lera sobre essa terra. Os seus costumes me eram tão desconhecidos como as suas gentes. O pouco que se possa ter aprendido durante toda uma vida acerca de qualquer país e acerca do seu povo, some-se por inteiro, logo nas primeiras horas.    


Todos os cegos como que ofereciam o nome de Deus. Era, pois, através das esmolas que ganhávamos direito a Ele. Com Deus começam e com Deus terminam, repetindo o Seu Nome dez mil vezes por dia. Todos os seus lamentos contêm sempre esse Nome. A invocação à qual se agarram um dia, mantêm-se inalteravelmente. Espécie de arabescos acústicos mais convincentes do que qualquer coisa obtida através da visão. 

…  

Para homenagearem e dignificarem as suas próprias palavras, os contadores de histórias trajavam de forma singular, distinguindo-se sempre as suas vestes das dos simples ouvintes. Davam toda a preferência aos tecidos sumptuosos, e era vê-los entrar em cena, vestindo lindas sedas de tonalidades ora azuis ora castanhas. pareciam personagens saídas de contos de fadas.

Raramente olhavam os seus ouvintes. Viam apenas os seus heróis. E se por acaso um olhar seu caísse em alguém que não estivesse a viver a história, teria esse alguém como que se dissolver na massa anónima do auditório. Deixara de existir para o contador, tornava-se um estranho, um ausente, que já não pertencia ao reino das suas palavras.

De início custava-me aceitar o pouco ou nada que representava para eles. Era demasiado estranho para ser verdade. Por isso mesmo me mantinha ali, ao mesmo tempo sentindo-me transportado daquele lugar, tão inundado de sons, para outros sons ainda mais longínquos. E sempre despercebido, mesmo quando, no grande círculo, era tomado por uma sensação de presença. Mas para ele, eu era um estranho no seu círculo mágico, um estranho porque o não compreendia. 

Desejava intensamente poder compreender, e anseio pelo dia em que saiba apreciar, sem restrições, esses contadores errantes, tal como eles o merecem. Mas igualmente me regozijei por não os entender. Permaneciam para mim como um enclave, como uma vida longamente vivida, mas sempre intocada. 

A sua linguagem era-lhes tão importante como a minha o era para mim. As palavras tornavam-se o seu alimento e não se deixavam eles tentar por qualquer outro, mesmo que de qualidade  superior. Senti orgulho no poder que o contador exercia sobre os seus companheiros ouvintes. Eu considerei-os como meus irmãos mais velhos e sabedores. Era com um sentido de felicidade que dizia para comigo: 

“Também eu serei capaz de reunir pessoas à minha volta, a quem contarei coisas! Também hei-de ser ouvido!” Mas em vez de errar de terra em terra, desconhecendo sempre quem irei encontrar, que ouvidos desconhecidos se abrirem para mim, em vez de viver da pura confiança na histórias que viesse a contar, foi minha vontade dedicar-me à escrita!”   

Elias Canetti

«As Vozes de Marraquexe» é considerado por muitos críticos como um dos mais belos relatos de viagem da literatura europeia do século XX. O livro resulta de uma estada de três semanas em Marrocos com uma equipe de cineastas ingleses e que teve lugar em 1952. O autor que admite não se ter preparado para a viagem, estava decidido, no entanto, a sentir Marraquexe como a intensidade dos ventos do deserto. O seu propósito era mergulhar emocionalmente nos recônditos meandros de uma cultura tão estranha como fascinante. O seu método consistiu em deambular pela cidade e deixar-se guiar pelos cinco sentidos e pelo impacto com que os acontecimentos lhe marcavam a alma. O resultado é um magnífico mosaico que abarca os aromas do bazar, o mercado dos camelos, as lamentações encantatórias dos cegos pedintes, o curioso hábito de um cego pedinte mastigar longamente as moedas recebidas, as visitas à Mellah, o bairro judeu, e o conhecimento de uma de suas famílias, a fascinante atmosfera que circundava os contadores de histórias. 

Este livro, algo singular na robusta e densa obra de Elias Canetti (1905-1994), vem confirmar a maestria do autor de obras monumentais como “Auto da Fé” (1935), “As Massas e o Poder” (1960) entre muitos outras. Autor de língua alemã, Elias Canetti, judeu sefardita, nasceu na Bulgária e viveu em Inglaterra a maior parte de sua vida. Pela originalidade da sua obra, Elias Canetti foi galardoado com o Prémio Nobel da Literatura de 1981.

Orfeu B.



sábado, 14 de maio de 2016

Quantum


Encontrei muitos cientistas e a estadia alterou profundamente a minha forma de ver o mundo, pois eles estão trabalhando realmente sobre o que é a criação do mundo.

Gilles Jobin

Quantum, e uma coreografia concebida por Gilles Jobin e que foi encenada no Teatro Rivoli no Porto no dia 8 de Abril de 2016. É indubitavelmente uma criação inovadora e arrojada e resulta da estadia do coreógrafo suíço no Centro Europeu de Investigação Nuclear (CERN), o maior laboratório científico do mundo, localizado na fronteira franco-suíça junto à cidade de Genebra. 

Na verdade, o coreógrafo é um bem conhecido experimentador que há muito tem estado muito próximo da ciência como muito bem atestam alguns de seus trabalhos anteriores: A+B=X (1997), Le Voyage de Moebius (2001), Spider Galaxy (2011), entre outros. 

O coreógrafo descreve a experiência de ter estado no CERN como artista residente por alguns meses em 2012, como uma colisão de alta energia entre a sua experiência pessoal e profissional e a visão do mundo dos físicos. O coreógrafo teve a sorte de presenciar o extraordinariamente feliz e emocional momento do anúncio ao mundo da comprovação experimental da existência do bosão de Higgs, no histórico dia de 4 de Julho de 2012. A presença de físico britânico Peter Higgs e do colega belga François Englert (ambos dividiram o Prémio Nobel de Física em 2014) adicionaram uma dimensão humana aos desenvolvimentos teóricos, experimentais e tecnológicos que permitiram a descoberta do bosão de Higgs 48 anos depois da sua previsão teórica. 

Na verdade, para além do privilégio de termos sido arrastados pelas ondas de movimento dos membros da Companhia de Gilles Jobin, nós tivemos a honra de receber o coreógrafo no Departamento de Física e Astronomia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto no final da tarde do dia 6 de Abril para uma apresentação e uma longa e animada conversa sobre a criatividade artística, sobre a “polinização” cruzada de ideias entre arte e ciência, sobre o ensino e a aprendizagem, sobre ballet e claro, sobre a dança das partículas elementares no palco do Universo. 

Quantum é o resultado de uma experiência de convivência única de um artista com o mundo dos físicos de altas energias. Oxalá a experiência seja repetida por mais artistas em outros  contextos, ambientes, laboratórios e institutos de investigação. Reciprocamente, os cientistas ficam profundamente enriquecidos com a experiência e a sensibilidade dos artistas.  

Orfeu B.



domingo, 24 de abril de 2016

Os Papéis do Inglês


Ao acordar de manhã procuro averiguar daquela sensação, algumas vezes experimentada mas quase sempre só recordação longínqua já, de encontrar satisfação por estar vivo e haver um dia à frente para viver. A memória que tenho disso, ou a imagem que ela projecta, remete-me a Londres: disponibilidade, ausência de culpa, um envolvimento exterior simultaneamente propício e distante que me poupava a confrontos maiores, o tédio, ainda assim, de alguma forma alheio, a certeza de que a intensidade e a densidade dos estímulos e dos recursos garantiriam, de alguma forma, contornos suportáveis à presença no mundo. Aqui, talvez, depois de tantos exílios interiores e de tanta auto-flagelação, estarei mais perto de uma experiência equivalente. O acordar é fácil e acompanha a emergência da luz, os pássaros anunciam o dia com folgada antecedência, nada oprime a perspectiva da movimentação, as hipóteses de trabalho são boas, há um jipe lá fora, tenho todas as razões para acreditar que nenhuma hostilidade me cerca, pelo menos num raio de 130 kms. Quando olhar para fora depararei muito provavelmente com silhuetas distantes de mulheres que se deslocam alheias, estou no meio de um espaço que me tem servido de referência pela vida fora, em plena vigência de uma hipótese duramente conquistada à força de determinação e vontade. Por isso me coloco mansa e cautelosamente perante mim mesmo e o que me cerca, não tanto, em consciência, para aproveitar, quanto para me entregar e não estragar, impedir, viciar ou destruir.

"Os Papéis do Inglês"

                           
Um romance acerca de uma estória, que segundo ao autor, bastaria meia dúzia de minutos para contar, mas que nos remete para o cerne da arte narrativa, que passa pela história pessoal do autor, pelos aspectos problemáticos da ciência antropológica e etnográfica, pelos descaminhos históricos e  políticos pós-coloniais de Angola. Em "Os Papéis do Inglês", Ruy Duarte de Carvalho conta-nos a desventura de um personagem conradiano, Archibald Perkings, caçador e antropólogo inglês, que, em 1923, na região angolana do Kwando, matou o seu colega grego e acabou por se suicidar. Escrito numa linguagem única e extremamente original, o autor, constrói a sua versão da história através da sua própria deambulação pelo território angolano e por meio das dificuldades em recuperar os papéis do caçador inglês que possivelmente estariam entre os papéis do pai do autor que, por sua vez, estavam dispersos há dezenas de anos. 

Ruy Duarte de Carvalho (Santarém, 1941 – Swakopmund, 2010) foi um escritor, cineasta, antropólogo e professor angolano. Autor de referência da língua portuguesa, Ruy Duarte de Carvalho doutorou-se em Antropologia na École des Hautes Études de Sciences Sociales em Paris e lecionou na Universidade de Luanda e como professor convidado nas Universidades de Coimbra e de São Paulo. Para além da sua obra científica sobre as sociedades pastoris de Angola e da Namíbia, Ruy Duarte de Carvalho legou-nos um rico espólio cinematográfico e uma significativa obra literária, em verso e em prosa. 

Orfeu B.



sábado, 2 de abril de 2016

A singularidade de uma voz


Imre Kertész (1929 - 2016) nasceu em Budapeste, descendente de uma família judaica que foi totalmente dizimada nos campos de concentração nazistas. Em 1944, aos 15 anos, foi deportado para Auschwitz, Buchenwald e Zeitz, sendo libertado em 1945 pelas tropas norte-americanas. Ao retornar a Budapeste trabalhou, de 1948 a 1951, como jornalista até ter sido exonerado quando o jornal onde trabalhava se transformou em órgão do Partido Comunista Húngaro. Dedicou-se então à escrita e à tradução para o húngaro de obras de  Nietzsche, Hofmannsthal, Schnitzler, Roth, Freud, Wittgenstein, Canetti, entre outros. Escreveu também musicais e teatro de diversão. Trabalhou durante 10 anos no livro, Sem Destino, o seu primeiro romance. Pela profundidade e originalidade da sua obra literária recebeu inúmeros prémios entre os quais o Prémio Nobel da Literatura em 2002.       

"… 
Após um silêncio, o meu pai disse: pois bem, ficamos mais leves – a minha madrasta, com voz ainda embargada, perguntou-lhe se não teria sido melhor aceitar o recibo do senhor Suto. Mas o meu pai respondeu que tais recibos não tinham qualquer «valor pratico», além de ser perigoso esconde-los do que ao próprio cofre. E explicou-lhe: desta feita, «é preciso jogar tudo num única cartada», dado que, por agora não nos resta alternativa. 
Desde há duas semanas, também sou obrigado a trabalhar. Notificaram-me em papel oficial que eu estava «afecto a um emprego fixo» estava endereçado «Ao jovem aprendiz auxiliar Koves Giorgy», e vi logo que ali havia mão da União das Juventudes. 
O local de trabalho é em Csepel, numa sociedade cujo nome é «Refinarias de petróleo Shell». Desta forma, acabei por gozar de uma espécie de privilégio, pois é proibido sair da cidade com a estrela amarela.”
Quando um prisioneiro tenta regatear a entrega de um objecto de valor em troca de água e comida:

“…e ele mostrava-se disposto a fazê-lo, embora fosse, disse «contra os regulamentos». Só que não há acordo, porque a voz queria, primeiro, a água e o guarda queria, primeiro, as coisas, e ninguém queria ceder. Por fim o guarda sentiu-se melindrado: – Porcos judeus, que fazem negócio com as coisas mais sagradas!”
“Só em Zeitz percebi mesmo que o cativeiro tem a sua rotina, que o verdadeiro cativeiro não passa, no fundo, de um quotidiano cinzento.
“Não tardei muito a perceber que as opiniões favoráveis ouvidas ainda em Auschwitz acerca da instituição dos “Arbeitlager”, se baseavam, forçosamente, em informações exageradas.”

Sem Destino (1975)


“Auschwitz é o meu maior tesouro. A proximidade da morte é inesquecível. A vida nunca foi tão bela como nesse longo momento.”

O Fiasco (A Recusa) (1988)


“Não!”
"Tornou-se livre, porque já não tinha pátria. Já nem sequer tinha que decidir em que qualidade devia morrer. Como judeu, como cristão, como herói ou vítima, eventualmente, como absurdo metafísico, vítima do novo caos demiúrgico? Como estas noções nada significam para ele, decide, ao menos não sujar com a mentira o facto límpido da sua morte. Tudo lhe parece simples, porque conquistou o direito à lucidez: “Não procuremos sentidos onde não existem: o século, este pelotão de execução que cumpre o seu serviço, sem cessar prepara-se, pois, para dizimar de novo, e quis a sorte que me calhasse um número mau - ponto final”, são as sua últimas palavras, com as minhas palavras, claro.”   

Kaddish para uma Criança que não Vai Nascer (1990)


“ …
A língua – sim, ela é a única coisa que me mantém ligado a ele (Hungria). Como é estranho.  Essa língua estrangeira, minha língua materna. Minha língua materna, que me ajuda a entender os meus assassinos.
Às vezes, quase tenho que me arrancar do refúgio sossegado do meu anonimato, quando ouço falar ou vejo escrito o nome I. K., mas sei que nunca vou me identificar com ele.
"Eu sou um judeu diferente. Que tipo de judeu sou afinal? ... Sou diferente deles, sou diferente dos outros, sou diferente de mim.”

Um Outro - Crónica de Uma Metamorfose (1997)


“Vivemos na era das catástrofes, todo homem é portador da catástrofe, e para a sobrevivência se faz necessária uma arte peculiar da sobrevivência. O homem do tempo das catástrofes não tem destino, não tem qualidades, não tem caráter. O meio social terrível — o Estado, a ditadura, chame-o como quiser — o seduz com a força de atração dos redemoinhos vertiginosos até que ele desista da resistência e nele exploda o caos como um gêiser fervente — e a partir de então o caos se torna sua morada. Para ele, já não existe retorno a um ponto de equilíbrio do Eu, a uma certeza sólida e incontestável do Eu: portanto, perde-se no sentido mais verdadeiro da palavra. Esse ser sem o Eu é a catástrofe, o verdadeiro Mal.”

Aniquilação (2004)


Orfeu B.