Terça-feira, 14 de Julho de 2009

O fato cinzento



Há livros que nos acompanham muito para além da sua leitura. Ambientes que nos revisitam, personagens que revivem, frases que se reescrevem. Um livro que me tem visitado é "O fato cinzento" de Andrea Camilleri. E é o fantasma do personagem principal que me visita. Ele é um alto funcionário da banca que conhecemos no primeiro dia da sua reforma. É casado com Adele, muito mais jovem e muito bela. Acompanhamos um percurso de traição anunciada que é acompanhado por mudanças físicas no apartamento conjugal, com as aparências mantidas intactas. Envolve-nos uma intensa solidão, um vazio muito grande que se acentua com a reforma. Essa solidão é acompanhada de um grande cansaço físico que se vem a revelar fruto de uma doença incurável. Assistimos ao lento arrastar para a morte.
Muito mais tonalidades passam pelo livro. Por exemplo, o jogo de Adele com uma renovada aproximação física e respectivas mudanças no apartamento, mantendo talvez só as aparências (pelo menos para ela própria), o simbolismo do casto fato cinzento que só é usado em ocasiões de morte, etc, etc. Na capa do livro vem um excerto do Corriere della Sera: "Camilleri segue o batimento da alma feminina como ninguém". Mas é a alma vazia do marido preenchida pelo pouco que Adele lhe reserva que me revisita.

Sábado, 11 de Julho de 2009

A Queda


Através de um monólogo, Albert Camus conta-nos a história de um advogado de sucesso que inicia uma viagem aos meandros da sua consciência. A sua confissão a um outro homem é iniciado num bar num bairro de marinheiros e percorre em 4 ou 5 dias as ruas dessa cidade. Esta é um julgamento de todos, porque sentimos perfeitamente essa queda do confessor. O autor empurra-nos para um lugar pouco agradável, onde nós, juízes e inocentes, somos também culpados dessa acusação que fazemos aos outros. É portanto um livro pequeno mas muito pesado e que só devemos ler se estivermos num andar de baixo, acusados do pior. Se for o caso, então este livro é um tónico regenerador que não nos deixa indiferentes quando subirmos as escadas, porque ao subir, mesmo poucos degraus, podemos sempre cair, principalmente se subirmos com muita confiança, sem olharmos para os nossos próprios pés. Além de tudo, esta história fala-nos sobre a arte: "Sei o que está a pensar: é muito difícil destrinçar o verdadeiro do falso naquilo que conto. Confesso que tem razão. Eu próprio... Olhe uma pessoa das minhas relações dividia os seres em três categorias: os que preferem não ter nada a escondera serem obrigados a mentir, os que preferem mentir a não ter nada que esconder, e, finalmente, os que amam ao mesmo tempo a mentira e o segredo. Deixo à sua escolha o compartimento que mais me convém. Que importa, no fim de contas? As mentiras não conduzem finalmente à via da verdade? E as minhas histórias, verdadeiras ou falsas, não tenderão todas para o mesmo fim, não terão o mesmo sentido? Que importa, então, que sejam verdadeiras ou falsas, se, nos dois casos, são significativas do que fui e do que sou? Vê-se mais claro, por vezes, naquele que mente que no que fala verdade. A verdade cega, como a luz. A mentira, pelo o contrário, é um belo crepúsculo que põe cada objecto em realce." Ao ler lembra-me um pouco aquele poema de Fernando Pessoa "O poeta é um fingidor".

Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

UM GRANDE ESCRITOR PORTUGUÊS DO SÉC. XX - QUE NINGUÉM CONHECE





Sílvio Lima foi meu professor de cadeiras de Psicologia, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. Há cinquenta e quatro anos, exactamente. Dele, guardo várias imagens, por vezes, de sentido contraditório. Professor de verbo brilhante, o seu discurso tinha a finura da inteligência crítica e o peso do conhecimento erudito. Os assuntos abordados nas aulas eram actuais e, a maioria das vezes, apresentados de uma forma interessante e pessoal. Ora, todas estas características deveriam fazer dele um grande professor, por todos reconhecido. Mas, na verdade, assim não era. A inquietação que nele se adivinhava, as perspectivas ideológicas subjacentes às suas prelecções (e que ele não ocultava), o constante jogo de palavras, por vezes, a sobrepor-se à profundidade da análise, levavam alguns de nós, jovens de vinte anos, a tomar algumas precauções - pelo menos, um certo distanciamento...
De tudo isso eu me recordei, agora, ao ler uma dissertação de mestrado apresentada na Universidade de Coimbra. Dissertação curiosa, decorrente da "descoberta" de cerca de cem artigos sobre desporto, que Sílvio Lima publicou em "O Primeiro de Janeiro", entre 1935 e 1942, ou seja, no período em que esteve compulsivamente afastado da docência universitária, por razões políticas. Estes artigos e perto de vinte ensaios, que publicou sobre desporto, constituem uma obra ímpar na cultura portuguesa do segundo quartel do século XX. E mais rara ainda por vir de um professor da Universidade de Coimbra, nessa época tão fechada em si mesma, tão tradicional e refractária a tudo o que fosse inovação. Principalmente, quando essa inovação tinha uma nítida intenção de intervenção social. Creio, mesmo, que se trata do primeiro conjunto de estudos, que têm o desporto como tema, escritos por um professor universitário português.
A referida dissertação, apresentada por Pedro Falcão, levou-me à leitura (e à releitura) desses textos e a uma conclusão verdadeiramente surpreendente: Sílvio Lima é um dos grandes escritores portugueses do século XX. E totalmente desconhecido da nossa literatura. Se algum conhecimento ainda há, hoje em dia, das suas obras (nos meios universitários), tal se deve à edição das suas "Obras Completas", organizada por José Ferreira da Silva e publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian. O que é muito e, ao mesmo tempo, pouco, pois continua a faltar a abordagem da obra do autor, sob outros ângulos, como, por exemplo, o do seu lugar na história do ensaísmo português. Quer concordemos, quer não, com as suas posturas intelectuais, as suas teses, a pertinência das suas polémicas, não podemos deixar de concluir que Sílvio Lima é um dos maiores ensaístas portugueses do século XX – e um dos mais prolíferos. E não estou a esquecer nem o António Sérgio, nem o Fernando Pessoa, nem o Eduardo Lourenço.
E esta conclusão entristece-me: quantos escritores estarão esquecidos no limbo dos nossos arquivos, à espera que a sua fada madrinha os faça reviver da letargia em que nós, os viventes desatentos, os vamos sepultando? Se ao menos se perfilasse, no nosso horizonte, alguma preocupação pela elaboração de estudos temáticos sobre os principais géneros literários, entre nós cultivados... Se tal acontecesse, ainda haveria alguma esperança de que o nome de Sílvio Lima fosse enaltecido, como um dos grandes escritores dessa forma portuguesa de fazer ensaio - brilhantemente iniciada por Moniz Barreto, no final do século XIX. Mas quem é que, hoje, ainda sabe quem foi Moniz Barreto?

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Do sucesso e da mafia



Muitas vezes o sucesso de um escritor afasta-me da sua obra. Aconteceu, por exemplo, com o italiano Roberto Saviano. O sucesso de "Gomorra", o filme premiado no Festival de Cannes e a posterior vida em clandestinidade foram demais para mim.
Recentemente encontrei um pequeno livro (os primeiros escritos após Gomorra), "O contrário da morte". São dois pequenos contos. O primeiro, que dá título ao livro, começou a despertar o meu interesse. A história de jovens do sul de Itália, de aldeias esquecidas , que partem nas várias missões do exército italiano pelo mundo fora (muitas vezes para amealhar algum dinheiro, no caso para um casamento e uma hipoteca) é uma via para nos mostrar a Itália sulista profunda, plena de códigos, tradições e de um peso de chumbo que impregna a atmosfera. Há uma noiva - viúva antes do tempo que encarna essa atmosfera.
O outro conto, "O anel", arrebatou-me mesmo. O ambiente é o mesmo, e estamos perantes vários conhecidos que se juntam a um domingo na praça da terra. Todos, com excepção de um, labutam por pouca recompensa. O outro trafica droga para um chefe mafioso. O domingo decorre na modorra densa que impregna o livro até que somos confrontados com a inevitabilidade dos códigos mafiosos. A descrição que começa com a chegada de dois individuos aramados e drogados, a perseguição que se segue, e o desfecho com a inevitável lei do silêncio é muito cinematográfica mas excelente.
Acabei o dia a ver o filme.

Terça-feira, 7 de Julho de 2009


Domingo, 5 de Julho de 2009

O RISO AMARGO




Senti-me repartido ao acabar de ler este livro. Terrivelmente divertido. Comicamente incómodo. O autor fez-me rir mas rapidamente fez com que o riso se tornasse muito amargo.

Com um ritmo preciso e meticuloso, uma escrita eficaz, Adiga traça o retrato radical, absurdo e doloroso de uma Índia contraditória, miserável, tradicionalista, avançada tecnologicamente, progredindo às cavalitas do capitalismo ultra-liberal assente na corrupção a níveis quase impensáveis.

O protagonista é um escroque que sobe da miséria absoluta a pequeno empresário através da sabujice, do assassínio, da corrupção, e que se orgulha dos seus crimes e da sua miséria moral.

A estratégia é divertida e foi utilizada de forma superior por Hazek com o seu valente soldado Shweik. Mas aí, o que nos fazia identificar-nos com o soldado era a sua humanidade e o facto de dirigir todas as suas “maldades” contra o poder. Aqui, e ao contrário do que diz a propaganda (ou alguma crítica) não cheguei a experimentar qualquer simpatia pelo protagonista. É repelente desde o início. E o livro acaba por ser uma espécie de hino inverso à repelência.

Simultaneamente vi o filme “Quem quer ser bilionário” que dá uma ideia semelhante da Índia actual. Violência e miséria em todos os sentidos.

A diferença é que no filme há uma humanidade que ressalta de vários personagens (chamem-lhe demagogia, se quiserem, mas é humanidade) . Aqui não. Não há saída. E, o que mais me incomoda, fica uma suspeita de que o autor o escreveu numa estratégia em que se coloca a si própria num degrau acima da podridão do mundo. E assim, através da descrição obsessiva da miséria está a vender-se a si próprio como figura intocável. Boa para receber prémios… estarei a ser injusto?

Este é o primeiro livro de Aravind Adiga e a escrita é uma maratona. Vamos ver, daqui a 10 ou 15 “kilómetros”, onde é que ele andará.

Sexta-feira, 3 de Julho de 2009

UMA CORÇA EM FUGA




A Quetzal acaba de publicar uma obra póstuma de Cabrera Infante (1929-2005), “A Ninfa Inconstante”. Neste livro, Cabrera Infante, um dos mais notáveis escritores cubanos, a viver na Europa desde 1965/1966, recria, por um exercício de memória, a Havana da sua juventude, onde circulariam as personagens da sua história. A história de uma jovem, muito jovem, e de um jornalista e crítico cinematográfico, não tão jovem. Uma história que tanto pode ser considerada como um romance, uma novela ou um conto comprido – o que, em última instância, não tem importância de maior.
Um texto atravessado pela emoção, muito bem construído, pleno de referências, de remetências, para a coisa literária, cinematográfica ou musical, o que lhe confere uma forte densidade cultural e humana.
Um texto armadilhado pelos múltiplos sentidos que os léxicos (e as suas decomposições e recomposições) vão adquirindo, numa permanente reinvenção da linguagem, que o aproxima do James Joyce das últimas fases. O que equivale a dizer que estamos perante um texto passível de diferentes interpretações e, consequentemente, de difícil tradução. Dificuldade de que se saiu brilhantemente Salvato Telles de Menezes, que realizou um excelente trabalho, que dignifica a tradução que se faz em Portugal (por vezes, tão mal tratada).
Vejamos alguns exemplos:

“Esta Estelita – Estela, Estelita, a moça, a jovem corça permanentemente em fuga, por quem o jornalista se apaixona – Estalactite, Estalagmite: a sua cova súcubo, de entrada íncubo, antes arrepio, arrepiante, espelunca nunca. Imagina vagina. Porque ela é impúbere, púbere. Púbis. Ver virilhas e motivo do V: V de virgem mas também de virago, ver efígie no verão emotivo do V. Há em todas as mulheres um triângulo. Pode formá-lo com dois homens. Mas tem de ser adulta para ser adúltera.”

Ou, ainda:

“- Dizem que vai chover.
Sorri.
- Dizem que vou ver.
Aproximei-me das persianas.
- Persicum malum ou talvez bonum? Tudo depende de quem olha.
- E isso tem a ver com quê?
- Com nada, é claro.
- Sabes uma coisa, às vezes penso que não estás muito bom da cabeça.”

Ou:

…“nessa árvore nasciam sumaúmas, falsas orquídeas, que armazenavam água. Alma zenavam…
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Trocámos aquele olhar vermelho de que fala Guidemo Passant. Guido de Maupassant. Guillermo que passa…
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… entrei no cinema Rodi. Estúpido nome. O dono chamar-se-ia Romero Diaz? Ou Rodrigo Diaz? Dessas cavilações tirou-me o filme, que era “A Mulher Fatal.”

A intensidade amorosa do nosso herói jornalista (que conta a história na primeira pessoa) vai esmorecendo. Esmorecendo como nos diz o bolero:

“Estelita, como um bolero na moda, nunca se deixou levar às boas. O bolero continua: ‘É por isso que te amo tanto’. Mas eu não a amo: amei-a e não creio que fosse sequer isso”.

Os trocadilhos, as associações livres constituem o suporte de um ambiente em que o humor dá lugar à paródia e gera um clima de tensão, imprescindível ao desenrolar da trama – em crescendo progressivo.
Em suma, estamos perante um texto que nos dá a conhecer uma das obras mais inovadoras da actual literatura cubana e que, por via da tradução de Salvato Telles de Menezes, vem enriquecer a língua portuguesa.

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Leite Derramado



"Mas se com a idade a gente dá para repetir certas histórias, não é por demência senil, é porque certas histórias não param de acontecer em nós até ao fim da vida."
Chico Buarque convida-nos a entrar num quarto de um hospital onde um homem conta a uma mulher inexistente o seu passado, conta a degradação da sua vida, da sua família desde o tetra-avô ao tetra-neto. Por vezes a história repete-se, da forma como ele imagina alguns factos que desconhece, ou talvez não, talvez os queira acreditar assim. Os ouvintes, além de nós, são diversificados, desde dessa mulher, talvez uma enfermeira, até às pessoas que passam no corredor do hospital onde ele foi desterrado. Uma filha e um bisneto ajuda-o a queimar os poucos rendimentos e bens que lhe restam. O homem acaba numa favela a morar antes da queda que o faz ficar acamado numa casa de saúde (hospital).
Mas o melhor está na escrita de Chico Buarque que nos faz devorar este livro, cada palavra, cada frase. O facto de se colocar na cabeça de um homem idoso acamado que narra repetidamente as suas várias histórias de vida e um amor interrompido é um pretexto para a expressão da sua escrita da sua poética. Não é a primeira vez que Chico Buarque nos coloca perante uma personagem que teve um passado glorioso e um presente decadente, assim foi em "Budapeste", e no "Estorvo". Parece ser essa a sua generosidade literária, capaz de se meter na cabeça do homem que cai, dos outros, uma espécie de imagem de marca que de resto é coerente com as suas canções. Sente-se também alguma sátira, pelos rituais sociais, pela corrupção política. Depois há todo um conjunto de acontecimentos, intrigas, problemas que são bem cozinhados e com o tempero certo, que saboroso estava este livro.
Creio mesmo que este livro é mais uma das belas canções de Chico Buarque, a mais bela canção, a mais bela opera. Este romance fica para sempre na memória de quem o lê. Pelo menos eu,acho que só vou esquecer quando ficar senil, ou talvez não, ficará o romance também no meu corpo, porque por vezes senti um arrepio a lê-lo.

Domingo, 28 de Junho de 2009

MENINA OLÍMPIA E SUA CRIADA BELARMINA





Menina Olímpia e a sua criada Belarmina é um conto de José Régio, publicado nos anos quarenta e inserido em livro seu intitulado "Contos". É uma história portuense, que descreve as andanças da Menina Olímpia pelas ruas da cidade, seguida de perto pela criada Belarmina. Figuras características do Porto em finais dos anos trinta, inícios dos quarenta, que eu ainda conheci, na minha meninice. A Menina Olímpia vestia espalhafatosamente, roupagens de outras épocas, eivadas de rendas, de folhinhos, de tafetás, de peles que teriam pertencido a alguma raposa. Verão e Inverno, quase as mesmas indumentárias, usadíssimas, quase esfarrapadas, de cores que tinham sido berrantes. Uma demonstração pública do seu desequilibro mental e da sua decadência social - o "espantalho" dos garotos que a seguiam a distância. A criada, essa, quase mendiga.
E a propósito dessas figuras, Régio faz-nos percorrer ruas, largos e praças do burgo comercial (e residencial), faz-nos, inclusivamente, entrar numa "ilha" portuense - pessoas, hábitos e falas. Para mim, portuense que sou, o conto tem em encanto especial, pela revivescência de uma época, por esse encontro com um passado longínquo. Mas, para além desse encanto, também me causou um certo mal-estar: o texto é extremamente datado. Esse texto e os restantes que constituem o livrinho, em que se insere. Esteticamente, pertencem a outra época, mais perto de Camilo Castelo Branco (escritor maior da cidade do Porto), do que das literaturas do nosso tempo. E esta constatação fez-me reler parte da poesia de José Régio e alguns dos seus ensaios, como o "António Boto e o Amor". E surpreendi-me por não encontrar, neles, a mesma "patine" do tempo. Será porque o Régio é um contista menor, se comparamos os seus contos com a sua obra poética, ensaística ou dramatúrgica? Não creio que esta seja a explicação, mas, sim, uma outra: se todos os géneros literários evoluiram rapidamente nos últimos sessenta, setenta anos, aquele cuja evolução é mais acentuada é, sem dúvida, o da narrativa ficcional. E por uma razão que se me afigura clara: é o género que melhor expressa o nosso viver quotidiano, feito de comportamentos, de atitudes, de valores. É, pois, o género que nos dá a dimensão da nossa actualidade. Se assim é, não será a "velhice" do texto literário que está em causa, mas, sim, a nossa falta de capacidade para sairmos da "modernidade" em que nos situamos, ou seja, a nossa incapacidade de aderirmos a algo que já não é do nosso tempo. E isso é mais notório na narrativa ficcional, romanesca, do que no texto poético, pela proximidade da primeira com a "narração" que nós, constantemente, elaboramos (pelo menos, para nós próprios) da nossa vida quotidiana.

De um modo ou de outro, o melhor será, cada um de nós, concluir por si próprio da justeza das questões que formulo, lendo o livro de José Régio, que se encontra disponível em edição das Publicações Europa-América.

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Diário de Um Velho Louco



Junichiro Tanizaki fala-nos disso mesmo. Um velho em decadência física muito perto da morte que se apaixona pela sua nora. Por parte de toda a família existe sempre um julgamento moral das atitudes do velho ou da nora. Censurado mas com a autoridade de quem é velho, ele segue o seu desejo até onde pode. Fala-nos da ideia de belo ligado à crueldade, à maledicência. Por outro lado a descrição da degradação física do velho é qualquer coisa de triste mas belo. Junichiro Tanizaki não nos dá tréguas neste livro.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

O MUNDO FABULOSO DE CRISTINA FERNÁNDEZ CUBAS




As edições Tusquets, de Barcelona, publicaram recentemente uma obra de Cristina Fernández Cubas, “Todos los cuentos”. É uma obra notável, que agrupa cinco livros da autora, com um total de vinte contos. Cinco livros, um panorama do universo contístico de Cristina Fernández Cubas, em que a sociedade espanhola contemporânea é caracterizada sob múltiplos aspectos, nomeadamente através de figuras femininas que são o eixo central de quase todos os seus contos. Personagens femininas magistralmente enquadradas na estrutura da história, a sobreporem-se às masculinas, reduzidas a uma função contrapontística, a valorizarem o apuro emocional, sentimental, das mulheres. E, o que é curioso (e talvez sintomático), as figuras masculinas mais conseguidas têm um toque de feminilidade, que, embora as não efeminize, as aproximam do que é essencial ao universo feminino. E surge a eterna questão: só os escritores de um determinado sexo é que “sabem” escrever sobre personagens do seu sexo? A questão posta nestes termos parece ter uma resposta óbvia, mas, na verdade, não é assim, tantos são os casos em que esta suposição não se confirma.
Os contos de Cristina Fernández Cubas, construídos à volta de figuras femininas, têm, quase sempre, uma forte dimensão social, pois, através deles, temos acesso a múltiplos “cenários do quotidiano, perfeitamente reconhecíveis, nos quais” – diz a autora – “no momento mais imprevisto, aparece um elemento perturbador”. Elemento que confere uma intensidade narrática, em que o insólito, o oculto, o obsessional, passam a desempenhar um papel primordial no desenrolar da acção.
Se a maior parte dos contos tem como cenário o jogo de emoções, de sentires, de fazeres, de personagens integradas na sociedade espanhola, alguns há que se centram à volta de personagens femininas a viver, episodicamente, em meios, em países distintos. Quando assim acontece, a acutilância, a finura de caracterização psicológica dessas personagens ainda se torna mais evidente.
As limitações de um blogue não me permitem uma análise minuciosa dos 20 contos, que ocupam 500 páginas, por isso, limitar-me-ei a citar dois deles, “Ausencia” e “El moscardón”. No primeiro, relata-se a vida de uma freira, que, ainda menina, entrou num convento e dele não mais saiu. Descrição espantosa, a denotar um grande conhecimento da vida conventual e uma sensibilidade apuradíssima das relações que um universo concentracionário engendra. No outro, “El moscardón”, mergulhamos no ambiente sufocante da casa de uma velha senhora, que teima em viver sozinha e vai sofrendo um processo de deterioração psicológica, em perda crescente da função do real. Um conto que é um requiem por todos nós, os que caminhamos para um fim, que tem tanto de próximo como de evidente.
Releio o que acabo de escrever e surge-me uma dúvida: ficará o leitor com a ideia de que os contos de Cristina Fernández Cubas constituem outras tantas tragédias? Não, de modo algum: são textos plenos de vida, em que o humor e a simpatia por tudo o que ao humano respeita têm um lugar central. Contos vertidos numa linguagem de grande precisão e rigor, que nos fazem sentir mais lúcidos, mais dignos.
E, uma vez mais, faço um apelo aos nossos editores: publiquem, difundam, obras tão admiráveis quanto esta.

Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Por Quem os Sinos Dobram


Para que serve ler um livro? Para que serve ler um livro se podemos conhecer a sua história através do filme, por exemplo? Para que serve ler um livro se podemos situar o livro na nossa biblioteca interior e conseguirmos falar dele?
Não me interessa falar do livro que li, interessa-me antes ter o privilégio de passar pela experiência do o ler, porque o livro é mais do que a história contada. É uma experiência virtual. Para isso é necessário sentir o pulsar do livro, compreender a poética do livro, saborear as palavras, os momentos, como quem saboreia uma excelente refeição.
Foi o que me aconteceu com este livro de Ernest Hemingway. Tive a sensação de comer algumas palavra. Por vezes não sabia se estava a ler um poema, ou um romance. Acho que essa é a principal razão de ler: Quando estamos a ler um livro assim, estamos a ter uma vivência única, não só estética, não só literária, mas também amorosa. Amamos as personagens e ouvimos tudo o que nos dizem, o que pensam, como agem. Se não for assim, não vale a pena ler. É sentir o pulsar do livro, a sua respiração.
É fácil, compreensível e simples a história do livro, acessível, acho eu. Os dilemas são complexos. Muito complexos, fazem-nos pensar, fazem-nos pensar em muitas coisas. Depois existe esta capacidade narrativa e poética do autor que nos faz estremecer a todos os momentos e até chorar.
Sei que qualquer leitor experiente já leu este livro. Aos outros, como eu que são leitores amadores, recomendo vivamente a leitura. Recomendo viajar por este livro.

Sábado, 6 de Junho de 2009

QUANTOS LIVROS JÁ LEU?



Umberto eco e Pierre Bayard (autor de "Como falar dos livros que não li?") encontraram-se num debate público em Nova York. O Magazine Littéraire de Junho publica um resumo da conversa entre os dois. Uma delícia.

A certa altura, Umberto Eco conta que, tendo cerca de 50.000 livros, 30.000 dos quais no seu apartamento em Milão, que de vez enquanto recebe a visita de algum imbecil que lhe pergunta: "Quantos livros já leu? Todos os que aqui tem?". Para esta pergunta tem três respostas possíveis:

1. "Já li muitos mais, caro senhor, muitos mais."

2. "Nenhum. Porque é que julgo que eu os guardo?"

3. "Nenhum. Os que lá li enviei-os para a Biblioteca Municipal. Estes são para ler para a semana."

Pierre Bayard acrescenta uma quarta hipótese de resposta:

4. "Não os li mas vivo com eles."

A conversa integral está em :

http://fora.tv/2007/11/17/Bayard_and_Eco_How_to_Talk_About_Books_You_Havent_Read



(Umkberto Eco)





Quinta-feira, 4 de Junho de 2009

BANALIDADE, COINCIDÊNCIA E ALUCINAÇÃO NA ESCRITA DE BERNARDO CARVALHO



Bernardo Carvalho é um dos escritores brasileiros mais badalados (e premiados) dos últimos anos. O que dele tinha lido, no entanto, não me havia entusiasmado. Por isso, hesitei em comprar o seu livro de contos, "Aberração", editado pela Cotovia. Mas não me arrependi. É uma obra notável, pela diversidade das histórias, pela linguagem em que são escritas - linguagem despida de ornatos, directa, com uma fluência e leveza que só a dimensão coloquial da fala pode conferir ao texto. Histórias diversas, ligadas - subterraneamente - por duas características: a coincidência e a alucinação. Coincidência de encontros, de descobertas, que tornam claro o que era nebuloso - ou nem sequer existia. Histórias centradas em situações do quotidiano, que têm tanto de óbvio, como de alienatório. E com uma técnica de construção que não é vulgar na ficção literária, pois costuma ser específica da obra cinematográfica: a acção não se desenvolve linearmente, mas decorre de diferentes situações, em que evoluem personagens diferentes, aparentemente sem relação entre si, mas que vão convergindo para uma mesma acção, cujo significado só se torna evidente no desfecho final.Em suma, uma prosa limpa, desocultadora do que se esconde nos actos mais simples da nossa vida - da nossa vida sem história - e que só adquirem sentido ao serem recriados pela mão de um escritor que não teme a inovação.

Terça-feira, 2 de Junho de 2009

A ESCRITA OU A VIDA


Morei neste livro durante 20 dias. Li-o, reli-o. Andei para a trás e para a frente. Sublinhei. Parei. Reflecti. Escrevi à margem.

Levei anos a ganhar coragem para o ler. Sabia que tratava da terrível experiência de dois anos de Semprún no campo de concentração nazi de Buchenwald. Adiei várias vezes confrontar-me com o relato dessa dor absoluta.

Até que chegou o dia. E logo à primeira página fui agarrado pela escrita brilhante, pela narração por vezes insuportável das memórias de Buchenwald, pela brilhante capacidade do autor de inter-relacionar uma diversidade de tempos

O autor começa por se interrogar como poderá explicar em palavras o cheiro a carne humana que saía das chaminés dos crematórios e que pairava permanentemente sobre os internados em Buchewald.

Assim, o livro não é exactamente sobre a experiência de Buchenwald mas sim sobre a escrita e a dificuldade de encontrar palavras que possam descrever um tamanho mergulho no inferno. Que palavras podem explicar a vivência do mal absoluto.

Mas o livro vai ainda além disto. Fala-nos sobre a morte e a capacidade que a escrita tem para a afastar e exorcizar ou, pelo contrário, mantê-la agarrada à pele do escritor.

Fala-nos ainda do tempo. O tempo da juventude e o tempo da maturidade. E ainda do reencontro com a juventude. Foi-me particularmente fantástica a leitura do episódio em que Semprún regressa a Buchewald com os netos e fica como que paralisado pelo regresso ao espaço onde foi jovem e onde alguma esperança, algum futuro era possível

Semprún mistura narrativas simples, reflexões pessoais, angústias, memórias, encontros com o fascínio da poesia de Celan ou de René Char, com a figura e a escrita de primo Levi, ou ainda com os conceitos de Wittgenstein sobre o mal e a liberdade.

Acima de tudo, Semprún domina com particularmente brilhantismo o uso do tempo narrativo. Pára a narrativa num momento para andar para trás ou para a frente, intercepta tempos, memórias, recordações e cria um puzzle que permite também ser usado pelo próprio leitor como matriz do olhar sobre a sua própria vida.

Creio que a literatura atinge o seu grau mais fundo quando nos atinge no centro das nossas inquietações e nos obriga interrogarmo-nos e a revermo-nos nesse fantástico e terrível jogo de espelhos que são as palavras levadas para além de todas as circunstâncias.

Domingo, 31 de Maio de 2009

"HISTÓRIAS DE AMOR" de JOSÉ CARDOSO PIRES




Bela escrita. Seca, dura, curta, eficaz. Segundo livro de José Cardoso Pires poribido pela censura depois de cortes inomináveis. Já aqui está presente o que fará a raiz de uma das mais belas aventuras da literatura em língua portuguesa, que viria a ter os momentos maiores em livros como “O delfim” ou “Alexandra Alpha.”

É óbvia a influência de uma certa literatura americana, sobretudo dos melhores escritores de short stories. A visualidade a dever muito ao cinema, a contenção a dar espaço ao leitor para completar a cena e desenvencilhar-se das ambiguidades cuidadosamente deixadas a pairar.

Curioso como a escrita nos situa nos anos 50 e na forma de respirar e falar desse tempo. Particularmente nos diálogos, nos gestos, nos movimentos, talvez até no discorrer do tempo da acção. Lembro-me desta forma de falar dos homens, das mulheres dos amantes. Já não a minha. Mas a que eu via/ouvia aos mais velhos e depois no cinema português da época.

São estes recantos da escrita que fazem da literatura um instrumento notável para estudarmos os anos idos e as suas pequenas histórias que são as que realmente constroem a grande História.

Curioso ainda ver o que preocupava os homens da censura nesta edição que mostra os cortes impostos pelo lápis azul. São a prova de que este país era, mais do que um estado policial, um mundo de pobreza humana, mediocridade e pequenez moral e estética.

Por fim, é muito curioso e muito próprio de Cardoso Pires a asa que, de repente, baixa sobre a dureza da posa e lhe abre uma inesperada dimensão poética, conferindo a alguns dos seus contos uma grandeza única.

Histórias de Vida e A Vida das Histórias


Não sei se recordam um programa na RDP Antena 1 onde o Miguel Guilherme apresentava um conjunto de histórias escritas por ouvintes. Penso que o programa se chamava Histórias de Vida. As edições eterógemeas resolveram editar algumas das histórias de vida num livro que se chama "A Vida das Histórias" com ilustração de Gémeo Luís. As pequenas histórias são muito interessantes, atractivas e bem escritas (pelo menos amarram o leitor ao livro). Nas 28 histórias apenas uma que não li com entusiasmo. As outras deixaram-me sempre, alternadamente, com um sorriso nos lábios ou uma lágrima no olho. Acho que é isso que importa, os livros fazerem-nos viver. Sei que muitos dos leitores deste blogue, são profundos leitores, sei também que se podem aborrecer com os meus posts que são um pouco aligeirados. Mas a única coisa que me resta a minha honestidade e ela obriga-me dizer que fiquei encantado com este livro de escritores amadores. Ainda por cima é ilustrada pelo alguém que tanto admiro. Gémeo Luís amplia toda a afectividade que estes escritores revelam.

Sábado, 30 de Maio de 2009

ANTÓNIO BOTTO, O ESTETA PERFEITO


A senhora que trabalha em nossa casa resolve, de vez em quando, parar com os seus afazeres habituais e dedicar-se à “arrumação” dos meus livros. Segundo dois critérios, consoante as situações: se os livros estiverem postos ao alto na prateleira, passarão imediatamente a ficar “arrumados” pelas suas alturas; se os livros estiverem simplesmente empilhados, continuarão a ficar numa pilha, mas segundo as suas espessuras.
Por mais que lhe peça, que lhe ordene, pouco ou nada consigo: “Custa-me tanto ver as coisas todas desarrumadas…” Ultimamente, já nada digo, até porque aquelas “arrumações” trazem, por vezes, surpresas agradáveis: obras esquecidas, sepultadas no meio de tantas outras, acabam por voltar a ver a luz do dia, a exigir que eu as leia, que lhes dê uma nova existência.
Foi o que aconteceu esta semana: inesperadamente, encontrei, no cimo de um monte de livros, uma obra de Fernando Pessoa, Aviso por Causa da Moral (Hiena Editora), que contém um ensaio que ficou célebre na história da literatura portuguesa: “António Botto e o Ideal Estético em Portugal”. Como tinha outros textos para ler, deixei o Pessoa e o Botto para leitura posterior e desci para o andar de baixo. Mas, mal acabara de chegar ao piso inferior, deparei com outra estante com sinais evidentes de “arrumação” recente. A curiosidade fez-me parar, espreitar o que ali haveria de “novo”. À frente de todos, um livro de José Régio, António Botto e o Amor! Como a minha empregada não é versada na coisa literária e como não acredito no acaso, só me restava uma alternativa: sujeitar-me ao que os deuses estavam a exigir de mim. Voltei ao andar de cima, peguei no livro do Pessoa, juntei-lhe o livro do Régio e fui para a sala, a folheá-los, a tentar perceber por onde tinham andado naqueles anos todos. Mistério maior, o da obra do Régio: era uma edição de 1937, publicada pela Livraria Progredior, do Porto (casa há muito desaparecida). Na primeira folha, o meu nome e uma data: Setembro de 1949, o mês em que fiz 16 anos. E ressurgiu-me o passado e as circunstâncias que me levaram à aquisição do livro: naquelas férias, eu tinha lido As Canções de António Botto (edição da Livraria Bertrand) e tinha ficado maravilhado (como se pode ficar aos 16 anos!) com a sua poesia.
E, como não podemos fugir ao que os deuses nos determinam, tenho, desde esse momento, lido e relido As Canções, o ensaio de José Régio, As Páginas de Doutrina Estética de Fernando Pessoa (Editorial Inquérito). Lido, sim, e revivido as emoções que a poesia de António Botto sempre me havia suscitado.
As Canções de António Botto é uma obra ímpar na literatura portuguesa, na qual se agrupam (em versão definitiva) os diversos livros que o autor foi publicando nas primeiras décadas do século XX.
A obra inicia-se com um texto de Fernando Pessoa, de que transcrevo uma parte:

A noção de beleza masculina, é de todos os elementos do ideal estético, aquele que mais pode servir de arma contra a opressão do nosso ambiente; daí servir-se António Botto dela com uma constância e uma persistência que há não só que compreender, mas que louvar. António Botto é um esteta grego nascido num exílio longínquo. Ama a Pátria pérfida com a devoção violenta de quem não poderá voltar a ela.

Pessoa é o primeiro a chamar a atenção para a poesia de António Botto, ao publicar, em 1922, o artigo já referido. Por sua vez, José Régio, na obra citada (1937), organiza os textos que lhe havia dedicado, nos quais escreve:

António Botto é acima de tudo um voluptuoso e um intelectual. O seu intelectualismo é tanto mais real, tanto mais fundo, quanto se revela verdadeiramente individualizado; e quanto se desenvolveu, não, como em tantos outros, ao contacto dos livros, mas ao contacto da vida.

Se cito estes dois autores, Pessoa e Régio, e respectivas datas dos seus ensaios críticos, pretendo fundamentalmente duas coisas: mostrar a importância que António Botto teve na nossa poesia na primeira metade do século XX; chamar a atenção para a novidade radical da sua poesia, motivo de escândalo para a sociedade do seu tempo, como se pode comprovar com o panfleto que estudantes de Lisboa fizeram circular, em 1923, pedindo a proibição e a apreensão dos seus livros. Vejamos alguns exemplos dessa “imoralidade” que tanta mossa fez ao “provincianismo mental português”:

Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte
Docemente ao meu ouvido?
- És tu, senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.

Este é um dos textos do primeiro livro de As Canções (“Adolescente”), em que António Botto expressa, em toda a sua plenitude, o amor pelo “senhor dos meus olhos”. Vejamos outro poema do mesmo livro:

Anda, vem…, porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha, – rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
- Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!... Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos…
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos!

Esta paixão, este desejo de “Adolescente” vai-se alterando ao longo do tempo, como se poderá constatar pelo livro Dandysmo, de que transcrevemos um poema:

Na última carta
Chamavas-me decadente;
E eu achei graça,
Fez-me rir
A tua carta

Quiseste insultar-me,
E afinal,
Conseguiste ser gentil.

Os homens
- Ou os povos;
Saturados
De tudo compreenderem,
Decaem
Quando preferem
Ao gosto austero de criar,
O estéril
E fino deleite
De contemplar o que está feito.

Esta evolução acentua-se ao longo dos livros que compõem As Canções, para assumir uma forma muito própria – a perda, a saudade – no último livro, Toda a Vida, de que é exemplo este poema:

É tamanho o meu medo de perder-te
Que penso que te perco a cada passo.
- Se te perdesse, em verdade,
Iria perguntar
Ao mistério da saudade:
E agora, o que é que eu faço?!

Talvez me respondesse: Espera, qualquer dia
Há-de voltar se o seu amor não mente;
- Mas quando a gente gosta não confia
Nem se humilha a esperar e a ser ausente

E, no último poema desse livro, a despedida, a saudade (sempre a saudade), a morte e, no final, um toque de ironia, a admirável ironia que atravessa muita da sua poesia.

Tanta carta a falar do nosso amor,
Tanta coisa que morre e nem nos deixa
Sequer um vago som de simpatia?

O que eu chorei quando esta recebi,
Esta que diz: “Não volto a procurar-te”.
E atrás de ti segui por toda a parte,
Até que te encontrei; e ardentemente
Voltámos à loucura que findou.

Como é que a gente pode mudar tanto
Sem sentir pela hora que passou
- Por essa hora linda de prazer,
Uma saudade, um pormenor qualquer:
- Ficarmos alheiados ou suspensos, -
Uma tristeza, uma tremura, um ai
Que nasce e vai morrer lá onde a realidade
Começa e não acaba e nunca expira?...

Não leias êstes versos. Tudo isto,
Tudo isto, afinal, é só mentira

António Botto, considerado no seu tempo, como um “poeta maldito”, assume, hoje, um lugar cimeiro na história da poesia portuguesa: um dos seus maiores líricos e, no dizer de Fernando Pessoa, o seu único esteta.

Segunda-feira, 25 de Maio de 2009

"MANHÃ SUBMERSA", UMA RELEITURA




Muitos foram os escritores que, ao longo do século XX, foram considerados estrelas de primeira grandeza, destinadas a brilhar até ao fim dos tempos. Mas quantos, quais, ficarão na história da literatura portuguesa? Poucos, de certeza. E entre esses poucos não poderá deixar de estar o Vergílio Ferreira. Obras corno "Alegria Breve", "Aparição" ou "Manhã Submersa" dificilmente poderão ser afectadas pela erosão do tempo. E por várias razões: pela perfeição da escrita, pela força dos temas que lhes conferem estrutura, pela universalidade dos sentimentos, das emoções das personagens. E, talvez acima de tudo, pela dramaticidade das histórias que nos contam.
Estas considerações decorrem da releitura que acabo de fazer da "Manhã Submersa". Li a obra pela primeira vez há cerca de cinquenta anos. Reli-a há uns trinta, para, agora, voltar a lê-la. Sempre com prazer, sempre com espanto. Fundamentalmente pelo modo corno Vergílio Ferreira caracteriza situações, personagens, ambientes sociais - sentidos, sofridos no corpo e na alma de um menino pobre de uma aldeia beirã, que é enviado para o seminário, mercê do auxílio que lhe presta a senhora rica - viúva e beata - da aldeia, que quer fazer dele um ministro de Deus. A acção decorre nos três cenários distintos em que o jovem se move: o seminário; a pobreza da casa da sua família; a casa da família rica que o protege. Sempre com referências aos ambientes naturais em que se inserem. Mas, para além destes elementos de ordem objectiva, existe um outro, de natureza subjectiva, que estrutura e dá sentido à história: a vida interior do jovem seminarista - as suas emoções, os seus sentimentos, a teia de intimidades, de cumplicidades em que se vai envolvendo. Este é, em última instância, o verdadeiro cenário em que tudo acontece. E é essa dimensão que confere à obra um lugar muito especial na literatura portuguesa que tem a infância, a juventude, como tema. Não só na nossa literatura, como na literatura europeia do século XX. Ora, foi exactamente esse aspecto que foi ganhando relevo ao longo da releitura que acabo de fazer. Na verdade, eu, como professor que sou, sempre dera primazia à caracterização das pessoas e das situações da instituição educativa em que o jovem se inseria. Ou seja, sempre valorizara o aspecto objectivo em detrimento do subjectivo. E tinha boas razões para tal: a "Manhã Submersa" constitui um testemunho da maior importância para a História da Educação em Portugal. O ambiente, o dia-a-dia dos alunos naquele seminário do Portugal profundo dos anos vinte, é algo que nenhum professor (e nenhum cidadão) pode esquecer, pois representa uma parte importante da nossa história contemporânea: foi nessas instituições de ensino que se forjou a mentalidade de muitos dos que detiveram o poder na nossa sociedade. A violência, a arbitrariedade, os métodos de ensino e os que tinham como finalidade moldar o carácter dos jovens são magistralmente descritos por Vergílio Ferreira. Atente-se, por exemplo, na descrição das aulas de latim, assentes na competição (a mais feroz das competições) entre os dois "partidos" em que se dividiam os alunos. Verdadeiras guerras do saber (e do estar), fomentadas pela instituição escolar, nas quais se podem detectar todos os elementos constitutivos da escola e do ensino tradicional: predomínio do saber sobre o ser; valorização da memória em detrimento do raciocínio; hierarquização e disciplinarização nas relações professor-aluno, aluno-aluno; formalização do acto educativo; e, acima de tudo, competição. Competição terrível, em que os mais fortes têm todos os direitos, inclusivamente o de passar por cima do cadáver dos vencidos.
Enfim, algo de longínquo, sepultado nas cinzas da nossa história recente? Talvez sim, talvez não. Em última instância, compete a cada um de nós determinar onde se situa: no passado, onde se passa esta história, ou no tempo presente, em que se vive, sente e pensa de um modo “diferente”? Às vezes, talvez nos dois, em simultâneo...

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Beethoven era 1/16 Negro



"The past is valid only in relation to whether the present recognises it"

"Beethoven was One-Sixteenth Black"
Nadine Gordimer

Beethoven era 1/16 Negro é, segundo entendo, a mais recente colectânea de contos da escritora sul-africana, Nadine Gordimer, Prémio Nobel da Literatura de 1991. A qualidade excepcional dos contos dessa colectânea é bastante homogénea e tem como denominador comum a exploração narrativa do reflexo que os desenvovimentos históricos têm na história pessoal dos personagens e de seus antepassados. Esta interacção entre a história colectiva e a história individual é particularmente pungente num país que atravessa profundas transformações e que procura encontrar uma nova identitidade nacional num mundo onde esta marca distinta dos povos está a ser continuamente erodida pelos mecanismos da globalização e da uniformização cultural. Num país onde a atribuição de uma putativa ascendência negra para Beethoven é a fórmula encontrada pelo locutor branco da rádio para justificar a emissão das obras do compositor, em particular, os Quarteto de Cordas, no. 13, op. 130 e no. 16, opus 135. Reflexos de uma recém forjada ideologia baseada no antagonismo automático ao passado:

"Antes havia negros que queriam ser brancos.
Agora há brancos que querem ser negros.
É o mesmo segredo."


E no contexto desta complexa dinâmica, Nadine Gordimer, explora os grandes eixos existencias ao tratar de temas como os da raça, identidade, memória, amor e sexualidade, demonstrando, por vezes de forma extremamente subtil, que nunca estamos libertos do passado. E a realçar a profundidade da análise há uma escrita de grande elegância, na qual as palavras sucedem-se umas às outras com uma precisão matemática, e cujo resultado é uma mosaico particularmente rico de vivências e, acima de tudo, profundamente humano e comovente. Pois há de tudo nesta colectânea: as paradoxos intelectuais de um sonho que envolve Susan Sontag e outros artistas a conversar num restaurante chinês; um escritor, esteticamente próximo de Proust e Kafka, às voltas com um insecto (Gregor) real-imaginário no ecrã da sua máquina de escrever eléctrica; o complexo processo de adaptação por que passam os que vêm de Europa para a África do Sul contemporânea; a história das habilidades linguísticas de um papagaio que durante décadas reproduzia as disputas e conversas amorosas dos clientes em um restaurante; e por fim, três hipóteses para um epílogo envolvendo os sentidos da visão, da audição e do olfato.

Uma última reflexão. Pessoalmente, não posso evitar a associação de Nadine Gordimer com outro escritor sul-africano que eu muito aprecio e admiro, John Coetzee, Prémio Nobel de Literatura de 2003. Têm em comum a elegância, a precisão e a economia de seus estilos. Ambos exploram temas que invarialmente têm como foco as contradicções, a violência e as profundas transformações do seu país natal. Mas há, a meu ver, pelo menos uma diferença fundamental: Coetzee apresenta-nos uma visão da realidade marcadamente masculina, em perfeita complementaridade com a ultra subtil perspicácia feminina de Gordimer.


Orfeu B.


Sábado, 16 de Maio de 2009

JORGE DE SENA NO CENTRO DA POLÉMICA LITERÁRIA



De Jorge de Sena, uma das figuras mais emblemáticas das letras portuguesas, na segunda metade do século XX, acaba de ser publicado um livro, “Sobre Teoria e Prática Literária” (edição da Caixotim), que compila muitos dos seus textos sobre estas matérias. Textos geralmente de pequena dimensão, quase todos inéditos. Os temas abordados são múltiplos, guardando, quase todos, uma actualidade impressionante. A acutilância e a limpidez da linguagem, a frontalidade das posições assumidas e a originalidade de perspectivas são razões suplementares para lermos, e relermos, esta obra.
De entre os textos que a constituem, quero destacar os seguintes:

Acerca de diversas formas de escrita, em que são analisados diversos aspectos e problemas que se põem ao crítico literário.
Sobre traduções, breve notas, matéria em que Jorge de Sena é especialista. Notas breves, sim, mas a reflectirem as suas preocupações sobre as peculiaridades, o valor e o papel social das traduções. E, claro, as dificuldades com que se confronta o tradutor – por exemplo, será possível traduzir uma obra se não se conhece a cultura do país em que foi escrita?
Traduções de versos, onde se continuam a discutir problemas postos no texto anterior, concretizando-os, aplicando-os ao campo da Poesia. Quais os critérios a utilizar, qual o método científico a seguir? E conclui com uma questão pertinente: “(…) se o poeta que traduz é levado a ver a mais [“do que lá está”], quando o espírito crítico o não detém, o não-poeta vê sempre menos e não há ciência crítica que o salve.”
Modernismo e modernismo. Texto datado (1962), que interroga as diversas acepções do conceito. Além de ter um valor histórico importante (como eram colocadas a s questões estéticas naquela época, com o marxismo em pano de fundo), mostra como os verdadeiros problemas da arte atravessam os tempos.
Forma, conteúdo e tradução. Texto de 1974, em que se verifica uma evolução em relação a textos anteriores, dos anos cinquenta. Evolução no sentido de um aprofundamento de ideias já expressas: “(…) a tradução tem por fito recriar noutra língua uma dicção que se realizou numa outra. Se quisermos simplificar: o binómio forma-conteúdo que aparecer nessa obra é constituído por um binómio equivalente na língua para que se traduz (…) Assim, a tradução é uma arte que requer uma substancial dose de ciência, não apenas de artifícios poéticos, mas de linguística e de cultura histórico-literária. Grande tradução será aquela em que não se desintegrou aquela unidade estrutural que no texto havia. Tal como grande crítica é a que, ao analisar e comentar um texto literário, não esquece todos os aspectos em que ele se realiza.” Melhor e mais simples ninguém podia dizer!

Através dos textos que citei (textos referidos pela ordem cronológica da sua escrita), pretendo apenas chamar a atenção para a riqueza desta obra de Jorge de Sena, expressão do seu pensamento e intervenção na cultura da época. Obra plena de inteligência de um dos escritores mais lúcidos, cultos e criativos das últimas gerações.

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

CRÍTICO OU CURADOR?




Os critérios pelos quais a crítica analisa a obra literária têm mudado ao longo dos últimos anos. Segundo o escritor argentino Oliverio Coelho (em número recente da “Babélia”, suplemento cultural de “El País”), uma obra já não é valorizada por si própria. A qualidade literária, o estilo, a dinâmica interna do texto já não são as categorias principais para a sua apreciação – e consequente valorização. Procuram-se, sim, outros “marcadores” que garantam a sua modernidade. Modernidade que se poderá expressar tanto pela sua “linguagem mediática”, como pela utilização de textos híbridos. Se assim acontecer, a obra e o autor serão alcandorados a uma categoria altamente valorizada, a de “nova geração”.
Estamos, pois, perante um fenómeno de mediatização da obra literária, analisada segundo critérios que lhe são extrínsecos, ficando o crítico relegado para um papel de curador de obras literárias, em tudo semelhante ao do curador de obras de arte. E, como curador que é, tem como função “cuidar” da circulação pública da obra – e tudo o que é essencial ao texto ficará irremediavelmente oculto…

Sábado, 9 de Maio de 2009

A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol


O que fica a sul da Fronteira? Em criança, Hajime não sabia, apenas a ouvir esta música de Nat King Cole, em casa da sua amiga Shimamoto, tinha uma sensação de grande prazer que lhe ficou marcado na memória para o resto da vida. Mais tarde Haijime, narrador da sua história, experimenta essa sensação de deserto na sua vida, pela ausência de Shimamoto, percebe o que fica a sul da fronteira, um deserto, um vazio. Uma espécie de "histeria siberiana" que acontece com os camponeses na Sibéria que de repente deixam tudo e caminham rumo a uma terra que fica a Oeste do Sol até morrerem de fome ou de sede.  Ele também vai secar por completo atrás de uma aparição. Uns bons anos depois das tardes a ouvir Nat King Cole, Hajime está casado com a filha dum empreiteiro que o ajudou a abrir os seus dois bares de Jazz, é agora um empresário individualista, que esqueceu quase por completo os anos de estudante idealista. No entanto algo o vai sugar por completo a sua vida, a sua alma, a aparição de Shimamoto trás a vivência desse grande amor, dessa paixão perdida. Hajime vive uma temporada de paixão e que termina com o desaparecimento dela, o leitor fica sem saber se Shimamoto existiu apenas na cabeça de Hajime. Este acontecimento vai provocar em hajime essa morte, ele fica sem vontade, sem desejo de nada, um homem sem expressão, sem vida. 
Novamente em Murakami, encontramos o homem sozinho na imensa cidade, numa história de amor improvável ou impossível. Quase autobiográfico, este romance está cheio de beleza e sensualidade. Mas o que me faz gostar mais da escrita de Murakami é este caminhar para um precipício onde a realidade se mistura com o sonho. 
"Sentado à mesa da cozinha, segui com os olhos a nuvem que flutuava sobre o cemitério. A nuvem não se tinha mexido um milímetro. Estava parada, come se estivesse pregada no céu. "São horas de acordar as minhas filhas", pensei. Já nasceu o dia, elas têm que se levantar. Elas precisam deste novo dia de uma maneira bem mais intensa do que eu. Devo aproximar-me do quarto delas, puxar as cobertas para trás, pousar a minha mão sobre os seus corpinhos quentes e suaves, e anunciar-lhes que começou um novo dia. Tenho de o fazer, quanto antes. Foi isso que pensei, mas por qualquer razão, não consegui levantar-me da cadeira onde estava sentado, à mesa da cozinha. Finquei os cotovelos na mesa e escondi o rosto nas mãos. 
No interior daquela escuridão, pensei na chuva que caía sobre o mar. chovia em segredo no vasto oceano, sem que ninguém soubesse disso. A chuva fustigava em silêncio a superfície das águas e nem sequer os peixes se tinham dado conta.
Até que alguém se aproximou de mim e pousou suavemente a mão sobre o meu ombro, os meus pensamentos pertenceram ao mar."

Sábado, 2 de Maio de 2009

AS PEQUENAS GRANDES HISTÓRIAS


Se todas as formas e todos os géneros literários têm dificuldades e características específicas, nenhum sobreleva em dificuldade o que acontece com as pequenas histórias. Histórias em que cada palavra, cada ritmo de frase, é aquele e só aquele. Histórias que têm um pé na oralidade e outro na escrita. Histórias que, para atingirem o que o autor pretende, têm de funcionar plenamente numa primeira leitura. Embora este género tenha tido cultores desde sempre, atingiu, na segunda metade do século XX, inícios do XXI (em parte, por influência da Internet), uma expressão nunca antes alcançada. De todas, ou de quase todas as partes, chegam-nos continuamente notícias de novos autores, de novas formas, de novos conteúdos.
Assim, e por exemplo, a argentina Ana Maria Shua publicou, este ano, uma obra, “Cazadores de letras” (Páginas de Espuma, Madrid), na qual se apresenta um panorama completo dos seus “microrrelatos” ou minificções”, que, espero, venha a ser publicado em Portugal.
Tudo isto vem a propósito da obra de Manuel Rogério Gonçalves, “Um Senhor com Poderes Estranhos e Diversas Virtudes – 100 Textos de 100 Palavras” (Editorial 100), que, em 2008, fez a sua estreia neste género literário. Obra extremamente interessante, a reflectir a cultura e a vivência do autor. Escrita numa linguagem elaborada, plena de subtileza e de humor (por vezes, de ironia), abrangendo situações e temas diversos. Embora um dos preceitos clássicos deste género se cumpra, ou seja, a acutilância de cada uma das histórias torna-se evidente logo numa primeira leitura, os diversos sentidos que elas encerram só surgem em leituras posteriores.
A variedade dos temas tratados e os diversos estilos de escrita utilizados talvez permitissem uma organização dos textos por grandes temáticas. Mas se o autor não o fez, não cumpre a mim fazê-lo… No entanto, não resisto à tentação de dar alguns exemplos que ilustram o que estou a dizer.
Assim, o texto “O que fazer de uma história exemplar?” é um exemplo da ironia com que o autor aborda muitos assuntos. Texto que começa por uma história que vai dar origem a outra:

“Naquela manhã em que os paroquianos se juntaram na igreja para rogar ao Altíssimo que lhes mandasse chuva, foram invectivados do púlpito: - Gente de pouca fé! Vêm pedir chuva e não trazem guarda-chuva.”

Depois desse começo, o autor continua:

“Algumas das histórias, aqui compiladas, não as inventei eu de todo. Ainda assim, para além de as formatar ao tamanho que me propus, esforços não poupo para torná-las minhas. Vou falar de uma senhora, ali ao lado, no jardim do Marquês, que nunca desiste de me oferecer panos de louça. Lembrar-me-ei de dizer-lhe o sítio, que eu conheço, onde irá vender guarda-chuvas num dia de verão”

Ou a história de um “impenitente solteirão” (“Quem tarda se guarda”), que, “para cortar nas despesas”, parte sozinho para viagem de núpcias.

“O impenitente solteirão, com os anos pesando, irá perguntar à senhora que lhe presta cuidados se ela o aceita por legítimo esposo. Tudo será da maneira mais simples, sem flores, sem música ou brindes. Ela irá de branco ou da cor que quiser. Ele mandará limpar a seco o fato de domingo. Ela irá pagar a promessa que fez de não morrer solteira. Ele assistirá a uma missa por alma dos Pais. Tão felizes vão, ela dizer que sim e ele também o que ficará nos papeis. E, depois, para cortar nas despesas, ele partirá, sozinho, em viagem de núpcias”.

Outras histórias expressam as reflexões do autor sobre a criação artística. É o caso do texto “Terminado definitivamente definitivamente inacabado”, com uma referência à criação divina:

Há um momento em que termina (definitivamente) o gesto do criador, quando o pintor põe de lado o pincel, o escritor pousa a caneta. O objecto terminado (finalmente) de criar, e que se dizia, até então, por acabar, vai tornar-se, definitivamente (para sempre) inacabado. Porque a obra criada, separada do seu criador, fica disponível para nova vida num diálogo incessante com quem apareça disposto a visitá-la. Toda a obra de arte, enquanto vai vivendo esse diálogo, lembra e vincula o criador. Como teria passado isso pela mente de um deus, a vinculação desse deus aos objectos da sua Criação?”

Quase a terminar o livro, Manuel Rogério Gonçalves dá-nos um texto (“De um jogo infantil, a Vida”), em que o Sonho e a Poesia (que subjazem a todos os escritos) são assumidos de forma clara e precisa:

“Talvez por outras palavras recitado, de um jogo infantil – Minha Mãe, dá licença? – Sim, minha filha: dois passos à frente. – Minha Mãe, dá licença? – Dou, minha filha: um passo para trás – aprendi que a Vida não é o trajecto linear, noutro tempo sonhado. Dor suportável pela certeza de que nunca serão vãos os passos em frente – a certeza mesma de nada deter um fio de água desde que da nascente se soltou. Embora com um coração estremecido de criança que gostaria de ganhar sempre e tem pena, aqui vou maravilhado de a Vida, mais e mais, se tornar um caudal imparável”.

Esta foi a “leitura” da obra que acabo de “reler”. Outros leitores terão certamente outras leituras. Mas sejam elas quais forem, algumas das histórias que integram o livro de Manuel Rogério Gonçalves não poderão deixar de fazer parte de uma antologia de autores portugueses que cultivam este género literário. Que seja para breve essa antologia!

Quinta-feira, 30 de Abril de 2009

Manuel António Pina


Que maravilha a entrevista que deu à Publica de domingo passado. Entre as coisas que disse sublinhei algumas que me pareceram importantes. Apenas me delicio com estas palavras, são saborosas, pouco tenho que acrescentar ou a comentar, pois elas dizem tudo, pelo menos para mim.
"A palavra criar, pelo menos em termos fonéticos, tem muito que ver com a criança..." 
"As minhas amigas psicanalistas dizem que se eu não escrevesse poesia era um grande cliente delas." 
"Não gosto de psicanalistas. Desconfio. São polícias das almas. Não gosto nada que espreitem cá para dentro." 
"A poesia é uma busca da identidade, ou seja, de coincidência. Na busca dessa coincidência, é natural que cada um de nós construa uma narrativa, construa um passado." 
Quando era mais novo "imaginava este mundo como sendo a barriga, o interior de um ser a quem chamamos Deus. (...) na minha barriga viviam muitos pequenos seres que me designavam a mim, não sabendo quem eu era, por Deus." "De vez em quando, dava um soco na barriga, - ai, provoquei um terramoto nos universos inferiores todos. - imaginava os seres dentro da minha barriga atirados ao chão, a pedir piedade, piedade."
"Vou contar-lhe um segredo (...): Eu escrevia com uma régua, à mão. Se eram coisas que podiam ser vistas por outra pessoa, escrevia com régua, e com hipocrisia. Ainda hoje faço as dedicatórias dos livros assim: uso o bilhete de identidade [a fazer de régua] para ficar mais certinho, para não me mostrar em cuecas, para não mostrar a minha intimidade, a irregularidade."
"Eu não sou muito hipócrita, sou o suficiente para conseguir viver em sociedade."

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

HISTÓRIA SECRETA DE UMA NOVELA



Na Feira do Livro de Lisboa de 2005, encontrei um livrinho de Vargas Llosa, "História Secreta de uma Novela", editado pela Assírio e Alvim, em 1973. Nessa obra, o autor descreve o processo de construção da sua novela, "A Casa Verde". Processo que se desenrolou entre 1962 e 1965 e, durante o qual, experiências, imagens, sensações foram sofrendo transformações graduais, de cujos mecanismos nem o próprio autor teve consciência. Enfim, um processo de secretas alquimizações, um repto para a capacidade de análise, de auto-análise de Vargas Llosa. E, assim, pouco a pouco, foram sendo descortinados alguns dos elementos constitutivos, algumas possíveis combinações daquele "puzzle".
Este mergulho no passado - no seu passado - é algo de fascinante: histórias várias, acontecidas em momentos e lugares diferentes, indiciam os mecanismos de sobreposição, de reinterpretação e de fusão, a que foram submetidas, para darem lugar a uma narrativa totalmente autónoma. O que só é possível pela palavra escrita (o mistério da palavra escrita), que confere uma outra realidade às histórias vividas - a realidade da narrativa literária. Estamos, pois, perante o fenómeno da criação literária, no qual o tempo (o tempo das memórias ou as memórias do tempo?) tem um papel decisivo. O que se esquece e o que se retém? Como se opera a selecção de imagens, de sensações? Porque é que o que estava esquecido - aparentemente esquecido - surge, imprevistamente, à consciência? Qual o fio condutor que atravessa o nosso não-consciente e permite associações do que não tinha qualquer ligação entre si? Porque é que a escrita é mais do que o escritor? Se o escritor é o depósito de vivências, de lugares, de situações - e de personagens -, a sua escrita é um processo verdadeiramente autónomo (que não respeita a ordem, a lógica da experiência pessoal), pelo qual ele - o autor - se redescobre, mas no qual não se reconhece. Enfim, uma história secreta, onde o autor é apenas um meio de que os deuses se servem para comunicar com os mortais? Se outra "explicação" não houver, talvez esta nos possa servir, o que já não será mau, pois, ao nada explicar, guarda, em si mesma, toda a beleza, todo o mistério de que, em caso algum, a criação literária pode prescindir.

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

OS GIRASSÓIS CEGOS



Este é daqueles livros que abanam o leitor. Abanaram-me a mim, pelo menos. A ponto de em certos momentos passar pela tentação de desistir da leitura, não por aborrecimento como às vezes acontece, mas, ao contrário, pela extrema densidade e dureza da narrativa.

O livro reune 4 histórias do final da Guerra Civil de Espanha. 4 histórias de derrotas. 4 histórias que nos mostram que ninguém venceu a terrível guerra que partiu a Espanha em dois lados que se combateram sem quartel e que, ainda hoje, mantém de pé ódios e rancores, feridas inconsoladas, dores insuportáveis de lado a lado.

São 4 histórias sem quartel que evoluem numa terrível geografia do pavor. Histórias que, apouco e pouco, se vão entrecruzando e onde os personagens de uma aparecem noutra, mostrando que, se calhar, aquelas 4 histórias são apenas uma, a história de todas as derrotas de uma Espanha terrivelmente dilacerada.

A escrita é seca, o tempo é manipulado e corre para trás e para a frente, obrigando o leitor a uma atenção especial

Único livro publicado em vida por António Mendez, editor falecido há alguns anos, recebeu inúmeros prémios póstumos.

Têm aparecido na ficção espanhola as obras quase sempre dolorosas que fazem o balanço da Guerra Civil. Sabemos que estes balanços da memória não são fáceis quando ainda estão vivos alguns dos seus protagonistas.

Lembro alguns outros romances que li sobre a mesma temática:

"Os soldados de Salamina" de Javier Cercas

"O lápis do carpinteiro" de Manuel Rivas

"20 anos e um dia" de Jorge Semprún

De alguma maneira passa-se o mesmo com a nossa Guerra Colonial. Também, a pouco e pouco vão surgindo as memórias e as ficções que fazem um balanço doloroso e que só pode ser feito sobre um fio de lâmina particularmente aguçado.

Se em ambas as nações não se fez o ajuste de contas e de culpas, e se esse facto tanto pode ser considerado negativo, na medida em que os crimes ficam por nomear, como pode ser considerado positivo no sentido em que contorna o bordo das feridas e procura uma pacificação nos braços maternos da democracia.

O ajuste de contas, o grande mergulho na memória será feito, quiçá, com mais rigor na ficção do que na História.

Porque a ficção transporta uma verdade que está para além dos factos e que será porventura a verdade mais verdadeira.

É assutador apercebermo-nos do que foi a bárbara Cruzada cristã contra "los rojos". É assustador percebermos como os sonhos se desfizeram até fazer das pessoas fantasmas, sombras, restos de gente arrastando-se nas masmorras, nos esconderijos ou na morte da derrota.

"Os girassóis cegos" são arrebatadores e cada uma das suas 4 histórias deixa-nos à beira de um abismo de cortar a respiraçao, o abismo dos tempos que se seguiram ao final de uma guerra onde todos perderam, uns mais que outros e a própria Espanha perdeu acima de todos.

Roteiro lírico e sentimental da cidade do Rio de Janeiro e outros lugares por onde passou e se encantou o poeta



Roteiro lírico e sentimental da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde nasceu, vive em trânsito e morre de amor o poeta Vinicius de Moraes (este é o subtítulo completo) foi o projecto de um livro que atravessou praticamente toda a vida adulta do poeta e que ficou inacabado quando da sua morte. Uma preciosidade para os que amam a poesia sensual e soalheira de um poeta que se confunde com a cidade que é neste livro tão carinhosamente descrita, cantada, recordada e biograficamente percorrida.

Felizmente, para o nosso deleite, amigos e colaboradores do poeta que nalguma fase estiveram envolvidos com o projecto, foram bem sucedidos em editar o manuscrito, que embora incompleto, foi publicado no Brasil em 1992, seis anos após a morte do poeta. Curiosamente, o facto ter permanecido inacabado parece ter reforçado uma das ideias centrais do projecto, nomeadamente a de que a cidade e os seus habitantes estão em contínua transformação e são melhor apreendidos através de uma obra aberta que não se compromete com contemplações estereotipadas. Na verdade, o livro permite ao leitor a oportunidade de vislumbrar duplamente o que tinha em mente o poeta através de breves textos introdutórios que servem de mote aos temas a desenvolver. Na elegante edição brasileira da editora Companhia das Letras, estes textos ocupam a página à esquerda e apresentam o poema associado que ocupa a página seguinte. O livro é ilustrado com sugestivas fotografias antigas e estas não deixam de cumprir o papel de conduzir o leitor a um estado de doce nostalgia.

A ternura que conduz o poeta no esforço de caracterização in vitro da cidade e da sua gente, é mais que evidente quando descreve o mítico habitante do Rio de Janeiro, o carioca:

“O que é ser carioca? É ter nascido no Rio de Janeiro. Sim, é claro, e também não. Não porque ser carioca é antes de tudo um estado de espírito. Ser carioca é uma definição de personalidade. Charles Chaplin é carioca. A princesa Margaret é carioca, e já o Townsend não é, Marilyn Monroe é dos seres mais cariocas que há na face da terra. Como cariocas são Orson Wells, dois Pablos: Picasso e Neruda, Louis Armstrong, Ilia Eherenburg, o príncipe Ali Khan e Marlene Dietrich. Porque ser carioca, mais ainda que ser parisiense, é sentir-se perfeitamente integrado com a sua cidade e o seu meio; é portar roupas como carioca; é saber das coisas antes que elas sejam ditas; é detestar trabalhar (mas trabalhar); é adorar flanar e bater papo no meio de milhões de compromissos; é acreditar que tudo se arranja (e arranja mesmo); … E a maior felicidade é que ao carioca foi dado para amar, desamar, exaltar, trair e ser escravo um outro ser cuja graça é indefinível: a mulher carioca. …”

Naturalmente, um livro desta natureza não tem qualquer fim possível. Pensava o poeta encerrá-lo com um poema de título, Réquiem Carioca. Contudo, este não foi escrito e ficamos apenas com uma magnífica declaração de intenções:

“O poeta, como todo homem sensível, não suporta despedidas. Das mulheres, sempre terminou por fugir, dissolvendo-as numa delicada massa de lembranças impenetráveis e imagens esparsas. Sabe que o homem será ultrapassado pela cidade. O poeta, não. Ele será o celebrante de um ofício derradeiro, em que a cidade será tragada pelo tempo e a poesia sobreviverá. No fim dos tempos, a cidade será apenas isso: poesia. Restará um roteiro lírico, sentimental e caudaloso, um testamento de amor que poderá ser lido como uma anunciação. O ofício dos mortos terá devorado o homem e sua cidade. A palavra ficará como testemunha e profecia.”

Ao conjunto de textos relativos à cidade do Rio de Janeiro, juntaram-se uns tantos outros sobre “outros lugares que encantaram o poeta”. São de particular interesse os que descrevem a experiência do poeta em Inglaterra e as de viagens a Paris no mesmo período e posteriormente.

Explica-nos o poeta que o ano passado em Inglaterra (e que não se prolongou devido à guerra) decorreu de ele ser o primeiro brasileiro a quem foi atribuída uma bolsa do Conselho Britânico a ser usufruída em Oxford, isto no ano de 1938 (aqui a nostalgia do poeta carioca cruza com a do autor que agora vos escreve).

Como não podia deixar de ser, a cidade luz é efusivamente cantada pelo poeta.


Orfeu B.



Terça-feira, 21 de Abril de 2009

FILIPA LEAL



Tento estar atento a tudo o que se publica em poesia. E tenho para mim que a poesia dos jovens poetas portugueses publicada nos últimos 10/15 anos é muito frágil. Tem uma tremenda falta de urgência e de ruptura, por um lado, e, por outro, uma óbvia incapacidade de inserção na fortíssima tradição lírica portuguesa.

Na babugem das novidades, os opinantes de serviço constroem, de quando em vez, alguns ídolos de ocasião. Pés de barro. E muitos destes incensados jovens depressa desaparecem.

Em poesia tal como em pintura, é preciso acompanhar a caminhada do artista para perceber se um poema, um livro, um quadro, são passos seguros de uma maratona ou apenas breves relâmpagos que atravessam o espaço para logo se apagarem.

Há tempo que venho a seguir bastante interessado a poesia da Filipa Leal. Três livros até agora. Parece-me uma voz segura. Limpa. E própria. Capaz mostrar as raízes de que parte sem deixar de construir a sua própria forma de cantar.

Falo de cantar de propósito. Porque poesia é canto. Música da língua. Por vezes clara como água a correr. Outras vezes secreta e misteriosa. Mas música. E muita da jovem poesia portuguesa dos últimos anos é afónica. E pior, ainda, roda á volta de uma dimensão prosaica e muito pobre.

Conheci recentemente a Filipa Leal no lançamento deste seu último livro que nos traz um belo poema repartido numa série de pequenas paragens. É o seu texto mais antigo. Um texto para ler em voz alta. Parafraseando Fernando Pessoa, a princípio, este texto estranha-se e depois entranha-se. É um texto profundamente feminino, delicado e envolvente que nos leva em círculos lentos num voo solene e branco sobre a condição de ser mulher.

Filipa Leal é uma pessoa-poeta que voa e acredito que voará longe. E não vale a pena falar muito mais e fazer altas teorias acerca da sua poesia. A arte que precisa de muitas explicações é pasto bom para o negócio. E eu cá hei-de viver a gostar ou não gostar mas sempre intensamente. E hei-de morrer "sem jeito para o negócio", como dizia o Cesariny sobre o Mário Sá-Carneiro.

Domingo, 19 de Abril de 2009

HAIKU, HAIKAI




Haiku em Portugal, haikai no Brasil, para designar a mesma forma poética, que remonta ao século XII, no Japão, e que, a partir do século XIX, se estende por diversos países e influencia diferentes culturas literárias. Em Portugal, tem tido cultores de nomeada, como Venceslau de Morais e Camilo Pessanha, em finais do século XIX, inícios de XX, e, na actualidade, Eugénio de Andrade, Albano Martins, Casimiro de Brito, Herberto Helder.
Estes e outros dados vêm expressos na “Apresentação” que o poeta David Rodrigues faz do seu livro “Estações Sentidas – 111 Haiku”, publicado na editora Indícios de Oiro, em 2007. Ainda segundo o mesmo autor, “talvez a sedução do haiku seja o seu carácter conciso. Ainda que sem uma fórmula rígida, espera-se que o haiku tenha aproximadamente cinco sílabas no primeiro verso, sete no segundo e, de novo, cinco no terceiro”. Segundo o poeta brasileiro Paulo Franchetti, “haikai não é síntese, no sentido de dizer o máximo com o mínimo de palavras. É antes a arte de, com o máximo, dizer o suficiente”. Um mínimo que se expressa, como dissemos, numa composição de três versos, que, segundo a tradição japonesa, tem por tema a Natureza, os seus ciclos, as suas múltiplas expressões.
Com o decorrer dos anos, a temática do natural foi dando lugar a outras temáticas, alargando-se às mais variadas manifestações humanas e sociais.
Ora, estas considerações vêm a propósito de uma nova obra de David Rodrigues, publicada em finais de 2008, na editora Corpos: “Respirar – 101 haiku”. “A nossa vida – diz-nos David Rodrigues – passa-se entre uma inspiração e uma expiração. Desde a primeira vez que inspiramos o ar do mundo, repetimos durante toda a vida este movimento vital pelo menos dez vezes por minuto. O último acto da nossa vida é uma expiração, como que devolvendo ao mundo o ar que lhe inspirámos quando nascemos”. Assim, o livro divide-se, fundamentalmente, em dois grandes capítulos: “Inspirar” e “Expirar”. No primeiro, agrupam-se, segundo o autor, formas mais tradicionais, cujo sentido está, “grosso modo”, sintetizado na expressão “da Natureza para mim”. Citemos alguns exemplos:

“como mão de amigo
o Sol de Inverno
amorna os ombros”
ou:

“inspiro com a Terra
quando o vento atravessa
os carvalhos”

ou, ainda:

“no Carnaval
a amendoeira vestiu-se
de neve”

No segundo capítulo, “Expirar”, agrupam-se textos de forte centração no autor e cujo sentido se poderá condensar na frase: “de mim para a Natureza”. Eis alguns exemplos:

“como cascas de árvore
as memórias flutuam
nas ondas da música”

ou:

“quando o Sol
entra em casa pela manhã
saio à sua procura”

David Rodrigues acrescenta um último capítulo, que denominou de “Transpirar”, no qual integra poemas de carácter jocoso e erótico, como é o que a seguir se transcreve:

“não há palavras
que segurem os meus olhos –
caem para o teu peito”

Estamos, pois, perante um poeta de nítida inspiração lírica, que se expressa de uma forma original e que revela uma consciência literária que não é habitual entre os nossos poetas. A divisão do seu livro nos três capítulos que mencionei é prova provada do que afirmei e denuncia uma postura reflexiva e crítica sobre a sua própria escrita, o que não é, de modo algum, um dos seus méritos menores.

Quinta-feira, 16 de Abril de 2009

O TEMPO DA ESCUTA






Jorge Semprun, em entrevista publicada na revista "Le Magazine Littéraire", aborda um tema extremamente interessante, o do "décalage", tantas vezes existente, entre o tempo da escrita de uma obra literária e o da sua "escuta", por parte do público leitor. E dá um exemplo: é habitual afirmar-se que as obras sobre os campos de concentração da Alemanha nazista só começaram a aparecer bastante tarde, cerca de uma geração após o termo da Grande Guerra. Mas, em sua opinião, tal não é exacto, pois, alguns dos textos mais significativos (textos de Rousset, de Antelme, até de Primo Levi) apareceram pouco depois da extinção dessas instituições à morte consagradas. O que aconteceu foi outra coisa: não tiveram eco na opinião pública. O seu "tempo da escuta" ainda não tinha chegado. Foi preciso conhecerem-se os "goulags" soviéticos (e sobre eles se começasse a escrever), para que essas obras fossem devidamente recepcionadas - o que, evidentemente, levou ao aparecimento de uma extensa literatura sobre o tema.
Ora, o que aconteceu com a literatura sobre o Holocausto, também se tem dado com muitas outras obras, de géneros e assuntos diversíssimos, aquando da sua publicação. Quantas vezes tem sido preciso esperar a vinda de um outro tempo para que fossem minimamente valorizadas! E, acrescenta Semprun, este desfasamento entre o tempo da escrita e o tempo da sua recepção ainda se torna mais evidente quando se trata de obras que têm a memória como suporte. Recuperar o passado (o passado recente), por um exercício de memória de quem foi sua testemunha, é algo de complexo, que nem sempre se pode fazer de um modo directo ou imediato.
E, aqui, coloca-se uma outra questão (embora interligada com a primeira), a da literatura das memórias. Qual o seu papel, qual a sua razão de ser? Além das razões relativas à sociedade, na qual e para a qual o livro foi escrito, outras haverá, referentes ao autor, enquanto indivíduo engravidado pelo seu passado. E, acerca do efeito do texto memorialista no seu autor, Semprun acrescenta: "O seu efeito é duplo e contraditório. Por um lado, ajuda a apaziguar a memória, estruturando-a; por outro lado, reavive-a." E cita o seu caso: após a publicação da sua primeira obra sobre os campos da morte, "A Grande Viagem", os seus escritos sobre o tema não pararam mais. Não, o assunto não estava esgotado, como supôs inicialmente, pelo contrário, quanto mais dizia, mais tinha para dizer. Uma espécie de auto-estimulação da memória, que lhe permitiu, entre outras coisas, ter a certeza de que todo esse pesadelo, em que esteve mergulhado, não tinha sido um sonho mau, mas uma realidade, a mais terrível das realidades que o Homem pode viver - que não pode, que não deve ser esquecida.
Também todos nós, os que temos escrito histórias sobre o nosso passado, experimentamos o que Semprun tão bem caracterizou: por um lado, a dificuldade em dar início à escrita sobre esse passado (mormente se ele é doloroso); por outro, o extravasamento do caudal da memória, quando se abre uma pequena brecha no dique que o retinha. Mas, para além do que foi dito, algo se impõe aos autores que fazem da sua memória histórica a fonte da sua escrita: a necessidade de saberem aguardar o tempo propício à recepção da sua obra - o que nem sempre é fácil...

Domingo, 12 de Abril de 2009

"MEMÓRIAS DE BRANCA DIAS" de MIGUEL REAL



Acabo de ler pela 2ª vez estas “Memórias de Branca Dias”. E a emoção foi a mesma ou maior porque agora alimentada por uma conversa recente com o autor sobre a maneira como este livro surgiu.

Se à primeira leitura apenas me movia o prazer da leitura, desta vez tinha a intenção de escrever, isto é, estive a ler reflectindo simultaneamente sobre a forma de transmitir a minha emoção. E este caminho da leitura para a escrita é um caminho para dentro e para o fundo que procura consolidar uma forma de ler sem qualquer intenção de julgar ou fazer aquilo a que se chama crítica, mas dar mais espessura ao trabalho do coração.

Livro editado pela Temas & Debates e de momento infelizmente esgotado, as “Memórias de Branca Dias” são um brilhante exercício de linguagem e de recriação do ambiente do Brasil no séc XVI. Mais do que isso, é o desenho firme de uma personagem extraordinária, a Branca Dias rude, dura, forte, sensual, criada a partir de pouquíssimos elementos históricos.

Romance histórico, vai para além disso, justamente pelo exercício de construção dessa personagem fortíssima que não esquecerei por certo e onde estão presentes traços de várias mulheres que conheci.

Há por ali ressonâncias minhotas, a genica das mulheres do Minho cantadas pelo Zeca Afonso ou retratadas por Camilo Castelo Branco. Mas não só, digo eu. Há também a raiz judaica, a luta pela manutenção das antiquíssimas tradições, o confronto real, prometido ou receado, com a Inquisição. A relação justa e suficiente com os filhos, com o parir. Branca Dias põe-nos cá fora e dá-lhes meios para andar. E depois, siga a dança, que a vida é o que é e não o que nós gostávamos que fosse.

O tratamento através da ficção das raízes judaicas da história e da cultura portuguesa parece-me bem importante para tirar da sombra algo que ainda hoje para muitos se reveste de um carácter algo críptico.

Outro aspecto importante é o da relação com o outro, o índio e o negro que Miguel Real trata com o respeito pela alteridade mas sem o elogio politicamente correcto do bom selvagem. Nesse sentido, a descrição das cenas de canibalismo é seca e fala-nos de rituais comuns sem aquela adjectivação pomposa que alguns autores usam e abusam para espicaçar a emoção dos seus leitores.

Este livro é um daqueles casos em que há matéria para mais história. Ou seja, há matéria que permitiria desdobrar a narrativa em rodriguinhos e muitas historietas. No entanto, o autor exerce um exercício de contenção notável. Escreve o suficiente e o necessário. Através da escrita, abre-nos uma janela para um passado pouco conhecido e para aquela personagem fabulosa que é Branca Dias Mas o entretenimento não é o seu primeiro objectivo e, por isso, Miguel Real honra o seu ofício com uma discilina narrativa pouco comum na nossa mais recente literatura.

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

CRÓNICA DA VIAGEM D'EL-REI SALOMÃO




É sempre com alguma dificuldade que inicio a leitura de um novo livro de um dos nossos monstros sagrados, seja ele o José Saramago, seja o António Lobo Antunes. Dificuldade decorrente do medo de sofrer uma desilusão. Ou porque a obra não esteja ao nível das anteriores ou porque não acrescente nada ao que escrito já foi – em suma, que seja mais do mesmo. E foi o que me aconteceu com “A Viagem do Elefante” de José Saramago (edição da Caminho). Mas nenhum destes receios se confirmou. A última obra de Saramago é um pastiche delicioso das crónicas tradicionais portuguesas. Uma obra plena de ironia, por vezes sarcástica, em parte resultante da utilização contrastada de linguagem de hoje com uma linguagem (e uma narrativa) tradicional. Obra que também se poderia intitular “Crónica da Viagem d’El-Rei Salomão” ou, talvez, “Crónica da Viagem do Elefante Salomão e do seu Cornaca Subhro”, pois, na verdade, não estamos perante um romance, uma novela ou um conto, mas de uma crónica de viagem (por vezes, quase de uma anti-viagem), com um toque cervantino, em que as figuras do Sancho e do Quixote tanto se aproximam dos fazeres e dos sentires do cornaca Subhro, como se expressam nos comentários do autor. E é neste entrelaçamento de figuras e papéis que reside um dos seus encantos maiores.
De salientar, ainda, a linguagem, plena de subtilidades, servida por um conjunto de artifícios (utilização do lugar comum, obsessão pela precisão, pelo pormenor), o que confere ao texto uma parente banalidade do discurso, suporte da finíssima ironia (a roçar o sarcasmo) que atravessa a obra e lhe confere um carácter de crítica social e humana. Mas que também abre a porta a uma perspectiva de desconstrução da linguagem, como o autor nos chama a atenção nas páginas 175/6:

“Reconheça-se, já agora, que um certo tom irónico e displicente introduzido nestas páginas de cada vez que da áustria e seus naturais tivemos de falar, não só foi agressivo, como claramente injusto. Não que fosse essa a intenção nossa, mas, já sabemos que, nestas coisas da escrita, não é raro que uma palavra puxe por outra só pelo bem que soam juntas, assim muitas vezes se sacrificando o respeito à leviandade, à ética à estética, se cabem num discurso como este tão solenes conceitos, e ainda por cima sem proveito para ninguém. Por essas e por outras é que, quase sem darmos por isso, vamos arranjando tantos inimigos na vida.”

Esta desmontagem da linguagem, que também é uma tentativa de desconstrução da escrita, evidente no texto que se transcreve, está implícita em muitas outras passagens e constitui um repto à inteligência do leitor.
Por tudo isto e por algo mais, que compete a cada leitor ir descobrindo, sou de opinião que “A Viagem do Elefante” de José Saramago é uma obra que deve ser lida vagarosa, saboreadamente. Uma obra que, com o correr dos anos, irá ganhando um lugar de relevo na produção literária do autor.

Sexta-feira, 3 de Abril de 2009

MISÉRIA E GRANDEZA DO AMOR DE BENEDITA



Um gozo delicioso. Um grande forrobodó para o leitor. Óbvia influência de Jorge Amado, até pela zona geográfica em que ambos se enquadram, o Recôncavo baiano.

A linguagem é barroca, tropical, magnificamente excessiva, carregada de ironia e sarcasmo. Pode mesmo dizer-se que se trata de um pequeno tratado de cinismo pela forma safada e muito exposta como o autor, sem se despir de óbvia ternura, consegue desmascarar os sucessivos podres dos habitantes da Ilha de Itaparica, desde a puta mais reles (coisa que aliás não existe entre as Itaparicanas) até ao próprio padre, modelo de rara depravação e poucavergonhice.

A história é quase só uma anedota. O importante é a linguagem. Poderíamos continuar a visitar esta sequência quase interminável de personagens deliciosas sem ter outro desejo que não o de nos abandonar aos apartes, comentários e desvios que fazem da escrita do autor uma verdadeira pérola.

Quarta-feira, 1 de Abril de 2009

TRADUTORES E EDITORES

Um dos trabalhos literários para que não tenho qualquer competência é o da tradução. E tenho pena, pois sempre desejei verter para a minha língua o que escrito está numa outra. Por isso, admiro, e muito, aqueles que fazem da tradução uma profissão. Admiro os bons e, até os menos bons, pois sei que a todos eles se colocam as mesmas dificuldades. Ora, estou a recordar-me de um artigo, mais precisamente, de uma entrevista, em "El País", na qual Ester Turquets, proprietária e directora da editora RqR, nos fala do seu livro "Confesiones de una editora poco mentirosa", obra em que se analisam os problemas de uma pequena casa editorial. Entre eles, o que se passa com os tradutores: "Tradutores supostamente experimentados, tradutores de renome, não conhecem o idioma de que traduzem, nem aquele para que traduzem; ignoram palavras, palavras que não se dão ao trabalho de procurar no mais vulgar dos dicionários (...), põem na negativa frases que estavam na forma positiva, ou inversamente; saltam parágrafos inteiros... E, quanto pior é o tradutor, mais se obstina em corrigir o autor, em melhorar o texto original. Explica o que o autor não explica, altera uma pontuação que considera insólita, uma adjectivação audaciosa, para outras de cariz adocicado. E opta por traduções (que poderiam ser perfeitamente literais) eivadas de expressões castiças (...)" Mas como o pequeno editor não dispõe de meios para mandar fazer outra tradução, nem para pagar a um revisor, ou deixa sair a obra como está ou... leva-a para casa, para a ir corrigindo!
Se esta é a situação em Espanha, o que não acontecerá em Portugal, com todas as dificuldades editoriais que conhecemos. O que explica o absurdo de muitos textos traduzidos, que põem à prova a imaginação do leitor, obrigando-o a reinventar o sentido do que vai lendo... Uma forma sofisticada de levar o leitor a ser o autor do "seu" próprio texto? Se assim for, maior será ainda a minha admiração por esses "tradutores, traidores"…

Terça-feira, 31 de Março de 2009

Antígona no século XXI



Reler um texto clássico decorridos 35 anos dá-nos uma perspectiva, ainda que muito pessoal e limitada, do mistério da sua prevalência. Recordo-me também da alegada surpresa de Marx relativamente à capacidade que os textos de Sófocles, Shakespeare e outros têm de manter intacta a sua força dramática apesar de se terem dissipado os conflitos económicos e sociais em cujo contexto foram concebidos.

Para além do milagre da sua sobrevivência literária, Antígona de Sófocles é um texto misteriosamente contemporâneo. Para prová-lo sucedem-se edições, estudos e representações desta peça, provavelmente escrita em 442 a.C., e que nos relata como a pungente tragédia do parricida e incestuoso Édipo se estende à sua descendência.

A trama é bem conhecida:

Polinices e Etéocles, filhos varões de Édipo, morrem às portas de Tebas, um pela espada do outro. Polinices havia formado uma aliança com os guerreiros de Argos para derrubar a tirania do tio Creonte, irmão de Jocasta, mãe e esposa de Édipo. Em nome da defesa e coesão da polis, Creonte concede a Etéocles honras duma sepultura de estado, e ordena que Polinices permaneça insepulto, sem as devidas homenagens fúnebres.

Recai assim sobre a consciência das irmãs de Polinices, Antígona e Ismênia, o dilema de acatar a lei imposta por Creonte ou seguir a lei divina, não escrita, de que as mulheres da família (e não só, como se verá) honrem os seus mortos. Antígona escolhe seguir a lei divina e convida Ismênia a secundá-la no cumprimento dos rituais fúnebres. Ismênia, temendo a reacção de Creonte, tenta dissuadir a irmã e não toma parte na desobediência.

Sem temer as consequências, Antígona cobre o cadáver de Polinices com uma fina camada de poeira. A notícia de que o decreto de Creonte fora violado não tarda a espalhar-se e Antígona é descoberta. De modo a evitar um derramamento de sangue que poluiria a polis, Antígona é condenada a ser emparedada viva. Entrementes, o obstinado Creonte é advertido pelo vidente cego Tirésias que por atentar contra as leis divinas, a ira dos deuses recairá sobre a sua própria descendência. Ciente da decisão de Hêmon, filho de Creonte e noivo de Antígona, de morrer com a sua amada por não conseguir demover o pai e salvar Antígona, o velho Tirésias acaba por convencer Creonte da inevitável maldição dos deuses. Creonte decide então sepultar Polinices e dirige-se à gruta onde Antígona fora aprisionada para libertá-la. Mas ao chegar ali ouve um grito de dor e descobre Hêmon junto ao corpo de Antígona que se havia enforcado com o próprio cinto. Hêmon responsabiliza Creonte pela morte da amada e desfere-lhe um golpe de espada. Creonte esquiva-se do golpe, mas de seguida Hêmon crava a espada contra si mesmo. Creonte desolado toma o filho nos braços e leva-o para seu palácio. Mas, a notícia do triste desenlace é mais rápida, de modo que ao chegar, encontra Eurídice sua esposa, já sem vida, vítima também de um golpe de auto-mutilação. A rainha morre culpando o marido pela morte do filho. Ao rei amaldiçoado cabe a infelicidade de sobreviver à tragédia e viver sob o signo do desejo da própria morte.

Como nos faz saber a Professora Maria Helena da Rocha Pereira através das notas explicativas que acompanham o texto da edição da Fundação Calouste Gulbenkian, não há consenso entre os estudiosos relativamente ao verdadeiro tema da tragédia: Conflito entre o amor ideal da família, praticado por Antígona, e a lei do estado incarnada por Creonte, conforme Hegel?; Embate de vontades, de acto contra acto, ou de princípios civilizacionais distintos, segundo outros estudiosos?; Conflito entre a moralidade privada contra a do estado?; Defesa da fundamental liberdade e autonomia da vontade individual na sua relação com a polis?

Penso que estas interpretações são todas correctas, pelo menos segundo a hierarquia de valores de suas premissas. Contudo, esta hierarquia não é necessariamente a mesma da dos tempos de Sófocles, e suponho que nunca será possível sabermos ao certo qual o grau de proximidade entre valores éticos em períodos históricos distintos. Mas a universalidade da temática e a intemporalidade do conflito não nos deixa indiferentes. A leitura de Antígona comove-me hoje como me comoveu há 35 anos. Certamente, não pelas mesmas razões, o que me faz pensar que as diversas interpretações da tragédia sejam todas complementares.

Tal como muitos estudiosos, julgo que para além das figuras, uma parte essencial da trama é desempenhada pelo Coro. Vacilante e ambíguo na sua posição, o Coro apoia inicialmente o decreto de Creonte, mas muda de opinião depois da admoestação de Tirésias. Esta oscilação parece-me ser a chave, pois está implícita na muito explícita e bela “Ode ao Homem” que se inicia da seguinte forma:

“Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem.”

Uma inequívoca afirmação da superioridade do ser humano, e que prossegue com a enumeração de vários marcos de progresso, a agricultura, a domesticação dos animais etc, culminando com a ciência de viver em sociedade e com a do uso da palavra não corrompida, na sua forma mais pura: a da arte política. Mas parece-me haver nas entrelinhas desta homenagem à polis, uma mensagem. A ideia de que a polis transcende o poder político e que só é verdadeiramente superior ao incorporar a compaixão e a humanidade de forma integral. Só assim se compreende as razões pelas quais as leis da polis não podem estar acima das leis da compaixão e das leis não escritas. Só assim a polis é o maior dos prodígios.

Mas quanto ao drama das figuras, Sófocles parece não deixar dúvidas: recai sobre os que sobrevivem o maior sofrimento.

Orfeu B.


Domingo, 29 de Março de 2009

UM AUTOR NA ENCRUZILHADA DO CONTO E DO ROMANCE





As relações entre contos e romances, entre contistas e romancistas já têm sido por mim abordadas em várias ocasiões: contistas que nunca foram romancistas, embora o desejassem, romances que tiveram um conto na sua origem. Mas não é vulgar o que aconteceu com Paolo Giordano, jovem escritor italiano. Giordano escreveu um romance, “A Solidão dos Números Primos” (Bertrand Editora), a partir de dois contos. Dois contos com que se inicia a obra, dois contos autónomos, que o autor, posteriormente (pelo menos, assim o diz), desenvolveu, entrelaçando factos e personagens, a fim de dar conteúdo a uma trama romanesca. Não creio que o resultado tenha sido brilhante. Se aqueles dois contos são magníficos, o romance a que deram origem já o não é. Dois contos construídos a partir da solidão e da violência psicológica sofridas por duas crianças. Dois contos que não podemos desligar da grande literatura italiana do século XX (Italo Calvino e Dino Buzzati nela incluídos). Dois contos em que a criança, confinada à sua solidão, tem de tomar decisões cujas consequências põem em risco a sua vida ou a de outros. Consequências que são a razão de ser do romance de Giordano.
Eis, pois, um exemplo das relações difíceis entre o conto e o romance. E, claro, da sedução que o romance exerce sobre muitos contistas. Nem todos tiveram a lucidez ou a força de Jorge Luís Borges, que sempre se assumiu como contista e nada mais do que contista.
Pela reflexão que pode originar, pela excelência daqueles dois contos (“O Anjo da Neve” e “O Princípio de Arquimedes”), pela raridade de traduções de obras da moderna literatura italiana, estou em crer que a leitura de “Solidão dos Números Primos” é algo que se impõe a quem quer conhecer novos autores, outras literaturas.

Sábado, 21 de Março de 2009

"DAISY MILLER", na Patine do Tempo




A editora Veja publicou uma obra de Henry James, intitulada “Daisy Miller”. Nela, incluem-se quatro contos longos, o último dos quais, “Daisy Miller”, dá título à obra. Publicado pela primeira vez numa revista inglesa, em 1878, este conto guarda o mesmo encanto que maravilhou várias gerações dos seus leitores. O mesmo ou outro, ainda maior, que a poeira dourada do tempo põe em tudo o que é belo.
“Daisy Miller” é um texto “avant la lettre”, que os editores americanos da época não quiseram publicar, receosos do escândalo que poderia provocar. A liberdade, a ingenuidade, a simplicidade, a ousadia, a inocência de Daisy não se adequavam aos padrões da burguesia endinheirada da costa leste. Jovem de grande beleza, Daisy atravessa os círculos em que se movem os americanos residentes em Roma, sem se preocupar com as conveniências, as normas sociais que os regem. Enfim, uma americana na Roma conservadora de finais do século XIX, a passear a sua liberdade, a deslumbrar-se com os aspectos mais evidentes e superficiais de uma sociedade e de uma cultura, de que tudo desconhece, tão diferente (e até oposta) ela é da sociedade americana. Poder-se-á dizer que, com este texto, Henry James inaugura uma nova temática, que vai ter o seu apogeu na primeira metade do século XX: a do romance que dramatiza a vivência dos norte-americanos na Europa.
“Daisy Miller” é um texto de escrita contida, eivado de um erotismo difuso e, acima de tudo, um tratado de caracterização psicológica de personagens (personagens de outra época, mas tão profunda e subtilmente caracterizadas que são de todas as épocas). Caracterização dinâmica e evolutiva, feita em situações de interacção social, distinta da caracterização estática do romantismo, em que a personagem é definida (e existe) por si própria, independentemente da sua esfera relacional – o que confere a Henry James uma modernidade evidente.
Daisy, a figura central da obra, personifica a mulher que abre caminho para os tempos modernos, em libertação de tabus de séculos anteriores. Mulher-símbolo das mulheres das primeiras décadas do século XX, que têm como expoente maior Isadora Duncan, outra americana sequiosa de autenticidade e de liberdade, que galvanizou e escandalizou a Europa com a sua vida e a sua dança. Também por isso, podemos considerar James como um precursor do ser e do estar de um tempo que ainda não era o seu.

Quarta-feira, 18 de Março de 2009

ELOGIO DA AMABILIDADE



As histórias de Sepúlveda viajam pelas zonas da pobreza, da vida nos recantos mais carentes do mundo, da miséria mais negra, da luta contra ditaduras inomináveis, da tortura e da violência mais crua. Mas nunca se despe do sonho, do humor, do sentido de solidariedade e camaradagem. Acabo de ler cada livro seu e sinto-me em paz com a nossa tão precária condição humana.

Na escrita de Sepúlveda há sempre uma imensa amabilidade perante o Homem, os seus sonhos e as suas utopias. E o curioso é que tenho reconhecido essa mesma amabilidade como marca de vários escritores, poetas e prosadores, do Chile. A começar em Neruda e Gabriela Mistral (ambos Prémios Nobel) a continuar em Skarmeta (autor de "O carteiro de Pablo Neruda"), em Hernán Rivera Letellier (de quem a Quetzal publicou há anos dois deliciosos romances, "A rainha Isabel não cantava rancheras" e «Miragem de amor com banda de música") nalgus livros de Isabel Allende e nalguns outros escritores chilenos que tenho lido.

Desses só em Bolaño, tão cantado recentemente, não senti essa doçura talvez nostalgica que se espalha nos livros de tantos outros seus compatriotas.

Sobre Bolaño, escritor que me atrai e me incomoda (e de quem já li "Estrela distante" e "Nocturno chileno"), hei-de tentar escrever um dia destes mas só depois de ler "Os detectives Selvagens".

E volto a Sepúlveda e a estes seus contos para dizer que acabei de os ler com a mesma sensação de amabilidade na escrita redonda e no olhar sobre os homens e sobre o mundo.

Cruzam-se neste livro memórias reais, memórias ficcionadas e puras ficções. Pequenos textos que nos levam de Hamburgo à Patagónia com passagem pela Amazónia

Um sentimento caloroso perdura de página para página. Os exílios sucedem-se por geografias diversas num certo elogio da amizade viril e cúmplice em torno da mesa e do vinho.

Acima de tudo há uma palavra que sobressai destas histórias e que me toca, a palavra “camarada”. Soa bem. Soa a verdade. Soa a uma rede de gente que às vezes nem se conhece mas anda pelo mundo espalhando uma forma solidária e livre de viver.

Estas histórias nem sempre atingem o brilhantismo dos melhores livros do autor, nomemeadamente desse romance extraordinário que é "O velho que lia romances de amor". Aliás, num dos contos Sepúlveda desenterra as personagens desse romance. Não s eaproxima da força do romance original. “Um corpo não se repete na aurora…” diz mais ou menos assim o Lorca e talvez seja verdade.

Com uma ou outra fragilidade o livro sabe bem ler. E isso é a primeira grande qualidade que exigimos a um livro. É uma sopa quente, esta prosa de Sepúlveda. E, voltando ao início, o autor nunca deixa de ser amável mesmo quando trata dos lados mais negros da vida. E eu, como leitor, gosto de ser bem tratado porque "um homem precisa de ter sempre um pé na Primavera." como escrevia num poema o Fernando Assis Pacheco.

Domingo, 15 de Março de 2009

"O PRIORADO DO CIFRÃO" de JOÃO AGUIAR



Eu gosto de tudo o que os meus amigos escrevem. Excepto quando não gosto. Mas nesses casos só lho digo a eles.

O João Aguiar é um muito querido amigo com quem já partilhei várias aventuras da escrita desde a “Rua Sésamo” até àqueles 3 romances malucos que fizemos a 14 mãos com a Alice Vieira, o José Jorge Letria, a Luísa Beltrão, o Mário Zambujal e a Rosa Lobato Faria ("Os Novos Mistérios de Sintra", "O C´ódigo d' Avintes" e o "Eça Agora")

Sempre gostei da escrita e dos livros do João. Jornalista da velha guarda, ele sempre soube contar uma história como mandam as regras. Sem adornos, sem tremeliques, sem lágrimas fáceis ou emoções de pechisbeque. Sempre com ideias, consistência narrativa, literatura.

Sobretudo, sempre gostei da coragem do João em trazer a sua literatura para a praça da cidadania (de onde ela provavelmente não devia sair tão frequentemente).

O João não se despe das suas convicções, não vira as costas às grandes questões que nos preocupam a todos e atira-as descaradamente para o campo do romance. Bate-se pela língua portuguesa e pelo seu uso sem estrangeirismos. E não só pela língua, como pelos vinhos, pelos queijos, pela História, pela Pátria com letra grande.

Trabalhando particularmente bem os temas históricos, o João deu-nos alguns romances notáveis. “A voz dos deuses”, sobre a figura de Viriato, e que tem tido um tremendo e prolongado sucesso (vai perto da 30ª edição!), “A hora de Sertório” e “Uma deusa na bruma” que me entusiasmou imenso na abordagem excepcional que fez da luta entre a civilização castreja e a invasão do Império Romano.

Atacou em força o romance histórico numa altura em que não estava na moda. Foi um pioneiro dess corrente hoje fértil nos bons e maus exemplos que enchem hoje as nossas livrarias e de onde destaco dois belos escritores que são o Miguel real e o Sérgio Luís de Carvalho

A simplicidade de meios na escrita é a imagem de marca do João Aguiar. E simplicidade não quer dizer facilidade, como é óbvio.

O seu ultimo livro, o “Priorado”, vem embrulhado numa divertida trama policial e é uma feroz denúncia do neo-liberalismo e do consequente abandalhamento da sociedade portuguesa.

É de chorar o retrato certeiro dos tiques economistas dos nossos gestores e das suas estratégias oblíquas. Já para não falar nos americanos que vêm instalar toda a trama do Priorado (dos Priorados. Aqui é que é zurzir forte e feio. O João não os poupa, expondo tiques, trejeitos e vícios. Já para não falar dos interesses da Igreja que se cruzam e descruzam ao longo da trama. ´

O Priorado foi escrito antes desta crise que resultou do estoiro das estratégias neo-liberais em que estamos mergulhados e ainda não sabemos aonde nos vai levar. De alguma forma, anunciou-o. A brincar. E essa é uma das muitas funções da literatura, não é?