segunda-feira, 17 de abril de 2017

O Bispo Alucinado



“ ... Convirá, no entanto, lembrar que este bispo foi uma das figuras mais controversas da Igreja Portuguesa, nos séculos XVIII e XIX. Para alguns, um santo (chegou a ser enviado a Roma um processo, visando a sua beatificação); para outros, um visionário, raiando a loucura e a depravação (veja-se o processo que o Santo Ofício lhe moveu).

Pelo elementos de que pude dispor e a opinião de historiadores e pessoas que conheceram bem os meios brigantinos da época, como é o caso do Abade de Baçal, não pude deixar de concluir pela perspectiva que lhe é a mais favorável -- a santidade. Se outras razões não houvesse, uma, pelo menos haverá: “in dúbio pro reo” …

Albano Estrela

Há textos que transbordam uma humanidade que transcende em muito as convicções que formamos das personagens que são retratadas. Muitas vezes sugerem uma taxonomia de caracteres que correspondem ao nosso imaginário e são, assim, algo previsíveis. Os textos de Albano Estrela, profícuo professor catedrático reformado, virtuoso das ciências da educação e, prolífico autor que eu tanto aprecio, não estão nessa categoria, pois acabam sempre por nos conduzir a caminhos  inesperados. A humanidade dos textos de Albano Estrela é encantadora, assim como o tom diáfano que ele utiliza para nos introduzir as suas personagens. Poder-se-á argumentar que os livros de Albano Estrela deveriam ser lidos na sua integridade, mas eu suponho que o meu querido amigo, por se rever, acima de tudo, como um contista, prefira que as sua estórias sejam lidas como se fossem ilhas que só o acaso temporal de sua concepção ligou ao arquipélago de um livro ou de uma colectânea. 

De facto, quando tenho a oportunidade de conversar com Albano Estrela, o que nos últimos tempos são momentos raros e, por isso, ainda mais preciosos, nunca me refiro a livros, pois prefiro focar-me nas suas estórias e, sobretudo, nas suas personagens. Na minha modestíssima opinião, as duas estórias de “O bispo alucinado” são exemplos disso mesmo, para além de serem características da habilidade descritiva e da imaginação de Albano Estrela. 

No primeiro conto, a vivida descrição vida cultural do Porto no anos 1950, as suas limitações, os seus locais, as suas “aves raras”  arrasta-nos para a análise cúmplice de um personagem singular que nos é apresentado com a riqueza e o realismo que só um mestre da escrita pode criar. Um personagem que se perde periodicamente na obsessão de leituras que ele julga serem redentoras e que nos parece ser, à primeira vista, apenas um caso da exacerbação de uma personalidade incompleta e imatura. Mas a descrição de Albano Estrela vai muito para além desta primeira impressão, pois há nela uma empatia natural para com as fraquezas de carácter, para com as ilusões, e para com o êxtase místico que arrasta a sua personagem para o abismo das suas obsessões e que o conduz à sua solidão final destituída de remissão. É esta capacidade extraordinária do autor Albano Estrela que tanto impressiona. Uma capacidade infinita de entender e admitir as alucinações, as dúvidas, as falhas e os desvios, como manifestações naturais e inerentes da própria humanidade.  

Na segunda estória, a que empresta o título ao livro, a agonia da última noite de um bispo que procura deixar sob a forma escrita o testemunho da virtuosidade do seu amor a deus, e assim “perder-se no amor divino, arder no seu fogo …”. Uma agonia que nos sugere ser a consequência lógica do turbilhão de emoções que engolfa o crente cioso de compreender o descaminho e as contradições de um deus tão pouco zeloso da sua obra. Mas a descrição de Albano Estrela é muito mais rica e sugere, como na vida real, que por trás de cada gesto ou acto, há um sem número de interpretações possíveis, cuja síntese nenhum leitor, ouvinte ou observador, pode defender sem trair a sua honestidade intelectual. E não é esta, segundo os crentes, a infinitude de caminhos do divino? Ou o equivalente agnóstico ou ateu, do princípio do benefício da dúvida que todos, sem exceção, devem merecer? Em suma, esta é a virtude maior da inteligência superior de Albano Estrela, a sua capacidade de exemplificar nas suas estórias os múltiplos caminhos da vida real, sem menosprezar qualquer das vias, ainda que esta não seja a que mais se aproxime da sua visão do mundo e das suas convicções. 

Assim, "O Bispo Alucinado" é mais uma surpreendente contribuição de Albano Estrela, um texto rico e humano que propicia uma prazeirosa leitura.     

Há uma nota final que este comentador, não pode deixar de escrever. Nomeadamente, que me é insuportável a ideia que este seja o último livro de Albano Estrela. É-me absolutamente impensável supor que Albano Estrela pense que nos pode privar da sua inteligência e da sua sensibilidade. Fica aqui o apelo: Albano Estrela, a sua obra está muito longe de estar concluída!


Orfeu B.


sábado, 25 de março de 2017

Seis Breves Apontamentos de Cosmologia Contemporânea

A Cosmologia é uma das mais pujantes áreas da investigação da Física contemporânea. Mobiliza vastos recursos teóricos e experimentais: estes materializam-se em missões espaciais, programas observacionais que visam compilar catálogos astronómicos com uma extensão jamais vista, e recursos de computação e simulação que estão no limite das capacidades hodiernas em termos de complexidade, armazenamento e manipulação de dados. Esta riqueza de implicações só é possível graças à maturidade teórica que a Cosmologia atingiu nas últimas décadas. Nesta breve introdução à Cosmologia Contemporânea, os aspetos observacionais e teóricos mais salientes da ciência do Universo são descritos e teorizados. Tendo como ponto de partida a Teoria da Relatividade Geral, o livro discute a história térmica do Universo, a necessidade de um período primordial de expansão acelerada, a inflação, as propriedades mais marcantes da radiação cósmica de fundo, a problemática da matéria e da energia escura, e a hipótese de construção de descrições cosmológicas alternativas com base em teorias da gravitação que não as baseadas na Relatividade Geral. Os temas abordados fazem deste livro uma obra particularmente útil para um curso introdutório de Cosmologia.

Orfeu Bertolami e Jorge Páramos



domingo, 12 de fevereiro de 2017

As Criadas


… 

Claire - Fala, por favor. Fala da bondade de Madame.

Solange - Da bondade de Madame! É fácil ser boa, sorridente e meiga. A meiguice de Madame. Quando se é linda e rica! mas ser criada e boa! Nos contentamos enquanto arrumamos a casa e lavamos a loiça. Brandimos um espanador como se fosse um leque. Fazemos gestos elegantes com o avental.

Jean Genet


Numa fria noite de Janeiro, três actrizes, Luísa Cruz, Beatriz Batarda e Sara Carinhas, personificam, com total entrega, As Criadas de Jean Genet (1910-1986) no Teatro Aveirense.

A encenação de Marco Martins, conjuga com inteligência as múltiplas possibilidades de um texto rico e alusivo com o vigor interpretativo das actrizes, muito particularmente a das criadas, Claire e Solange (Sara Carinhas e Beatriz Batarda). 

A encenação acontece com o público disposto ao redor do palco que,  qual um ringue de boxe, contém e amplifica a energia da personificação. A parte interior das paredes do palco é espelhada de modo a propiciar ao público uma visão completa do trabalho interpretativo. Os elementos cénicos são, ao longo da encenação, desenhados pelas criadas com giz no palco de ardósia. A declaração cénica é evidente: todos os elementos da encenação são criados pelas actrizes. Sem as actrizes não há nada, não há teatro, só há um espaço inerte e esvaziado de objecto. O contexto do teatro é completamente definido pela acção das actrizes. Uma magnífica leitura da dramaturgia de Genet, um autor que através de peças essenciais como As Criadas (1947) e O Balcão (1957), demonstrou eloquentemente como as relações e, sobretudo, as identidades dos personagens são criações dos interlocutores. 

Baseada no caso real das irmãs Lapin que assassinaram a sua patroa e a filha, em Le Mans, França, na década de 1930, o texto As Criadas foi escrito aquando de um período de encarceramento por conta da pequena criminalidade que foi, por muitos anos, a actividade principal do autor. Na verdade, as primeiras obras de Genet, que incluem textos como a Nossa Dama das Flores (1943) e o Diário de um Ladrão (1949), subvertem completamente os padrões morais estabelecidos ao celebrar a humanidade através da singularidade das suas experiências de pequena criminalidade, homossexualidade e vagabundagem.  

O texto de As Criadas suscita muitas leituras e interpretações, mas parece-nos seguro afirmar que ao descrever quão desesperadamente as irmãs procuram escapar do seu quotidiano limitado e miserável, Genet procurou demonstrar o efeito devastador que a exploração tem na vida dos que vivem em função dos seus exploradores e como estes se apropriam inclusivamente do imaginário dos seus criados, condicionando-o pela imitação e pela incorporação dos valores burgueses. 

A vibrante encenação de Marco Martins e a brilhante interpretação das actrizes Beatriz Batarda, Sara Carinhas e Luísa Cruz, é, para além de uma muitíssimo bem sucedida e original revisita a um texto clássico da dramaturgia do século XX, uma demonstração do poder inesgotável do teatro enquanto vector criativo e veículo de reflexão.

Orfeu B.