domingo, 22 de julho de 2012

Partilhamos hoje as palavras e a experiência de um leitor muito especial que prontamente aceitou ser convidado dos 7leitores. 
O nosso imenso obrigado a Eugénio Lisboa.



O livro – a leitura – a crítica

 Falar do livro e da leitura – nada me poderia ser mais afim – O gosto pelos livros. O gosto pela leitura. O gosto de falar disso. Desde quando os possuo? A verdade – a  verdade – é que me não lembro daquela fase da minha vida em que ainda não lia. Deve ter existido – mas não me lembro. Para mim, estar vivo e ler foram, desde os alvores da consciência, sinónimos. Dizia Holbrook Jackson que “o objectivo da leitura não é mais livros mas sim mais vida” – com o que estou inteiramente de acordo. Há quem goste de estabelecer a oposição, ia a dizer, a luta entre os livros e a vida. Assim, haveria coisas que são vitais e outras que são livrescas. A vida, por um lado, os livros, por outro. Como se os livros e as ideias e emoções que eles nos oferecem não fossem também parte integrante – e essencial! – da nossa vida: “Eu faço parte de tudo o que li” , observou, com justiça, John Kieram. E eu acrescentaria que tudo o que li faz parte de mim. Aperceber-me da existência de um livro, vê-lo, namorá-lo longamente até um dia ter a capacidade de comprá-lo,  ou convencer meu pai a comprar-mo – fez parte do pecúlio essencial de experiências intelectuais e emocionais que me formaram na adolescência e considero inesquecíveis: a memória de tudo isso permanece e dá luz.
Na adolescência, li muito, li vorazmente, desordenadamente, gostosamente, sem planos preestabelecidos, à balda. De certo modo, é ainda esta a minha metodologia – ler sem método, ao sabor do que me vem à mão e parece que me apetece. É curiosamente, um bom método. Noto, por exemplo, que ao redigir um trabalho qualquer sobre um autor qualquer, apetece-me, nesse momento, ler tudo menos esse autor e aquilo que sobre ele se escreveu. E ponho-me, regularmente, nos intervalos que roubo ao trabalho obrigatório, a ler as coisas mais diversas e mais distantes da área em processo de investigação. Eis que, não raramente, verifico que essas obras trazem, inesperada e deslumbradamente, água ao meu moinho. Encontro nelas o que não procurara – e gloriosamente me serve. Os religiosos dizem que Deus escreve direito por linhas tortas. Achar sem procurar, receber sem para isso trabalhar – eis o produto de um amor descabelado aos livros – mesmo sem o espartilho de um método que nos constrange... Por isso compreendi tão bem e aplaudi do fundo do meu coração as palavras de um grande poeta galês, de língua inglesa, Dylan Thomas, quando observou: “ minha educação foi a liberdade que tive de ler em liberdade, o tempo todo, com os olhos a saltarem-me das órbitas.”
Nisto de ler, os apetites são os mais diversos: desde um D’Anunzio que confirmava a um André Gide, espantado, ter lido tudo, até uma Nancy Mitford que, provocante, gostava de dizer: “Em toda a minha vida, só li um livro e esse livro foi White Fang [de Jack London]. É um livro tão tremendamente bom que nunca mais me dei ao trabalho de ler outro.”
Os locais de leitura variam igualmente: o sofá, a cama, de pé, a andar, na praia (com muita areia à mistura), no combóio e até noutros sítios não mencionáveis directamente mas talvez indicáveis dando um exemplo – para o caso, o grande escritor americano, Henry Miller, que não se importava de confessar: “Todas as minhas leituras foram, por assim dizer, feitas na retrete”.
O leitor voraz lê para explorar, com intensidade, outros mundos – embrenha-se, com volúpia, no casulo fechado dos mundos ficcionais, rejeitando, com firmeza, a luz crua do mundo real que abandonou. A descoberta e exploração de novos mundos é também uma descoberta de nós próprios. “Quando lemos um clássico”, dizia Clifton Fadiman. “não vemos mais, no livro, do que víamos antes. Mas vemos mais em nós do que em nós estava antes”.
Quando o vício de ler – o “vício impune”, de que falava Baudelaire  - toma conta de nós, nenhum sacrifício, nenhuma infracção se interpõe entre nós e a aquisição do livro cobiçado: “Quando eu tenho um bocadinho de dinheiro”, confessava Erasmo, “compro livros; e se sobra algum dinheiro, compro então comida e roupas”. Quando eu era estudante universitário, quantas vezes utilizei o dinheiro que meu Pai me enviara de Lourenço Marques, para um fato, na aquisição de um ou outro volume caríssimo da preciosa Bibliothèque de la Pléiade. O fato ficava sempre para o ano seguinte – o livro é que não podia esperar.
A minha adolescência foi rica em leituras apesar de, até certa altura, me não sobrar o dinheiro para livros. Meu Pai lá iludia, de vez em quando, a vigilância aturada da minha Mãe e ia-me trazendo, às escondidas dela, o último livro acabado de chegar no último paquete vindo de Lisboa (eu vivia então em Lourenço Marques, onde nascera). Mas as minhas principais fontes de leitura, a partir dos 15 anos, foram duas: primeiro, as bibliotecas que os colegas de meu Pai deixavam à sua guarda, quando vinham à Europa, de licença graciosa (a qual chegava a durar 11 meses); a segunda, uma pequena biblioteca de perto de cem espécies, que um colega de meu Pai, chamado Abel Menano, irmão do célebre Menano dos fados de Coimbra, me ofereceu: ali encontrei obras preciosas que ainda hoje conservo, de autores que nunca mais me deixaram: Dostoiewsky, Tolstoi, Turguenev, Joseph Conrad, Balzac, Anatole France, D.H. Lawrence, Vitor Hugo, eu sei lá!
Mas havia ainda outra fonte, à qual devo a revelação de um dos meus grandes amores de sempre. Essa fonte era constituída pelos volumes que, em viagem entre Lisboa e Lourenço Marques, se estragavam por apanharem água salgada no porão dos navios que os transportavam. Mandados para o refugo, alguns eram dali recuperados por meu Pai, que mos trazia em triunfo, quais Lusíadas estragadíssimos mas salvos por um bravo Camões na foz do Me Kong. Foi assim que me chegou às mãos o mais belo romance que até hoje se escreveu – Le Rouge et le Noir, de Stendhal, e, por ele, me foi apresentada a mulher por quem nunca mais deixei de ficar em êxtase – a Senhora de Rênal, de Stendhal, que me recuso a considerar criatura de ficção e a quem visito, em livro ou em sonhos, quase todas as semanas. Eis como a literatura se pode tornar vida, mais vida até do que a própria vida, mais intensa, mais reveladora, mais capaz de nos tornar melhores, mais dedicados e mais fieis. A minha ligação à Senhora de Rênal e ao seu criador, Stendhal, começada nos meus 14 ou 15 anos e ainda em vigor – é algo que não admite dúvidas e de que muito me orgulho.
Foi assim, com livros furtados ao controle materno, com livros fruídos em bibliotecas de empréstimo e com volumes estraçalhados pelo oceano e roubados ao refugo, que o meu vício de ler se foi desenvolvendo e me foi abrindo mundos a haver: a maravilhosa  Assia, de Turguenev, descobriu-me mistérios de alma feminina e fez-me sonhar com paixões bizantinas nos incomensuráveis espaços de uma Rússia remota e atormentada; O Lírio Vermelho de Anatole France, ao mesmo tempo que me explicava melhor o ciúme, que também me afligira, abria-me a visão esplendorosa de uma Florença que logo ali jurei visitar;  Les Thibault, de Roger Martin du Gard, abriu-me Paris e deu-me o gosto secreto por uma Gisèle que o pateta do Jacques deixou fanar-se de amor não retribuído, enquanto se perdia nos labirintos psicológicos de uma Jenny tão complicada quanto interessante; Panait Istrati dava-me a Roménia dos cardos do Baragan, tão diferente de tudo quanto conhecia.
Nos intervalos de me banhar nas águas do Índico, com o meu cão Nero, lia Plutarco e Voltaire, mergulhava na Dinamarca de um dos melhores romances que até hoje li – Niels Lyne, de Jens Peter Jacobsen -  ou na Suécia de Sally Salminen, ou no Père Goriot de Balzac. Pelos meus 16 anos,  A Velha Casa, de Régio, abriu-me as portas da adolescência atormentada de Lélito, que me levou, dois anos mais tarde , já em Lisboa, a gastar um dinheiro , que minha Mãe me dera para comprar bilhetes de combóio para as Caldas da Raínha, na aquisição do segundo volume da descomunal Casa. Julgo que minha Mãe  não se reconciliou nunca com esta minha inesperada mas irresistível infracção.
Lia os livros com paixão, mergulhava neles como quem quer sair do quotidiano, mesmo de um quotidiano apetecido. Li um dia, já a viver em Lisboa, numa biografia do escritor francês André Gide, que este, em viagem de carro, pela Europa, com amigos, se pusera a ler, com absorção intensa, a Guerra e Paz, de Tolstoi. O interesse que o livro lhe provocava era tão profundo que, ao pararem o automóvel diante de algum museu, ou catedral ou palácio, Gide tinha que se conter – com dificuldade – para não dizer aos companheiros que fossem eles fazer a visita enquanto ele permanecia na companhia da Natacha e do Pierre do romance de Tolstoi.
Ali, no Índico, com o Nero à minha beira e com a leitura do melhor que o espírito e o coração dos homens produziram, ia-me preparando para a grande aventura de me arrancar àquele grande continente africano para vir conhecer o Portugal de Lélito, o Paris de Martin du Gard, a Londres de Dickens e a Florença de Anatole France.
Lia com intensidade e atenção minuciosa e, quando viável, com o espírito crítico que me era possível agenciar. Lia muito e procurava ler bem – e relia interminavelmente os livros que já então me tinham marcado. Ler ao acaso, sim, mas não ler sem reflexão: “Ler sem reflectir é o mesmo que comer sem digerir”, dizia Edmund Burke. É possível ler-se muito sem que a leitura nos fecunde. Por isso o grande (e recluso) escritor americano J.D. Sallinger, dizia com não pouca verdade: “Sou bastante iletrado, mas li imenso”. Pode ter-se lido imenso e ser-se razoavelmente analfabeto Num ensaio célebre, António Sérgio estabelecia, com a firmeza e clareza que lhe caracterizavam a prosa pessoalíssima, a diferença entre leitura abundante e leitura crítica; e concluía que se pode ter lido muito e não se ser culto, do mesmo modo que se pode ter lido relativamente pouco e ser-se culto. A natureza da leitura – ser ou não ser uma leitura crítica – é que faz ou deixa de fazer o homem culto. A leitura crítica é uma ginástica. “A leitura é para o espírito o que o exercício é para o corpo”, observava Sir Richard Steele. É – ou devia ser. Porque a leitura também pode ser uma forma de preguiça: lê-se para não pensar. Enquanto leio, não penso... Mas leitura crítica não quer dizer resistência a todo o custo às ideias que o livro propõe. Leitura crítica quer dizer leitura vigilante, feita com a inteligência crítica estimulada, pronta a aderir ou a rejeitar, conforme os casos. De contrário, cair-se-á naquilo que dizia o actor Michael Caine; “Leio livros como um danado, mas tenho o cuidado de não me deixar influenciar por nada do que leio”. O receio das influências é sempre uma confissão de pobreza. As naturezas ricas e possantes absorvem tudo e tudo transformam em produto seu. O grande poeta alemão Goethe dizia, com orgulho, que tudo o influenciava, mesmo escritores de quinta categoria: em todos encontrava sempre alguma coisa de interessante que ele próprio não tinha descoberto.
Quando se exerce uma actividade crítica, quando se ensina literatura nas escolas e universidades, a nossa actividade enriquece-nos com tudo aquilo de que nos lembramos e acorre automaticamente ao toque mágico do texto novo que confrontamos. Disse algures que tenho praticado a crítica e o ensaio “como um exercício criativo da memória. Ou antes um exercício criativo, a partir da memória. Não concebo bem a crítica sem uma memória altamente estimulada e pronta ao assalto”. O crítico George Poulet afirmou: “Criticar é lembrarmo-nos”. “Diante de um texto, a memória excita-se e há um certo número de campainhas que começam a retinir: umas mais próximas e nítidas, outras mais longínquas e difusas. Há que investigar absolutamente tudo – pelo menos, em certos casos, não posso deixar de o fazer: torna-se uma espécie de frenesi. De aí que um crítico desta conformação tenha que ser, de certo modo, um eterno desarrumador de bibliotecas.” Dito isto, há porém que apreciar, com cuidado, o uso que se faz destes exercícios da memória: não se recorda pelo amor de recordar, recorda-se como mecanismo estimulador de aproximações criativas. Não se ensina aos jovens as grandes obras da literatura – ensina-se-lhes, isso sim, o amor à leitura. Neste campo, contudo, os homens extremam-se de modo singular. Montesquieu, por um lado, dizia nunca ter conhecido nenhuma depressão que uma hora de leitura não curasse; por outro lado, o grande poeta inglês deste século, Philip Larkins, macambúzio profissional e amante de jázz, observava (perdoem-lhe a rudeza) que os livros não passam de um monte de trampa (era, curiosamente, bibliotecário da Universidade de Hull). Há-os, como se vê, de todos os formatos e cores.
O espirituoso americano Logan Pearsall Smith gostava de afirmar, com o seu toque de provocação: “As pessoas dizem que a vida é que é, mas eu cá prefiro ler.” Pearsall Smith fazia, mais uma vez, a destrinça entre livros e vida. Destrinça que comecei por recusar, no início desta minha conversa  despretensiosa. O que se vive nos livros e dos livros é muitas vezes – em ideias, em emoções – tão ou mais intenso do que o que se vive na chamada e tão mal definida vida. Dizia alguém que a vida é uma doença incurável. A vida que se contém nos grandes livros é imune à doença. Por isso irá durar enquanto durar a aventura humana.
Eugénio Lisboa
                                                 
Leitor convidado: Eugénio Lisboa nasceu em Lourenço Marques, a 25 de Maio de 1930. Licenciou-se em Engenharia Electrotécnica, no Instituto Superior Técnico. Exerceu a sua actividade como engenheiro a par da docência de cursos de Literatura Portuguesa em Universidades (Lourenço Marques, Pretória e Estocolmo). Foi conselheiro cultural na Embaixada de Portugal em Londres e presidiu à Comissão Nacional da UNESCO. É, também,  poeta, ensaísta, cronista e crítico literário com vasta colaboração em revistas e jornais moçambicanos e portugueses.